Hierarquia das Ciências

A questão sobre a existência de uma hierarquia das ciências é abordada no livro “Física e Realidade – Reflexões metafísicas sobre a ciência natural”, de Carlos Augusto Casanova, professor da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Chile, em que o autor perquire a existência de uma ciência primeira, valendo-se dos ensinamentos de Aristóteles e sua Metafísica.

Concordo com o autor quando ele sustenta, baseando-se em Aristóteles, que a Metafísica é condicionante para o exercício da atividade científica, funcionando como um pressuposto que torna possível o próprio desenvolvimento das ciências particulares. De outro lado, mesmo que a leitura do texto ainda esteja em andamento, é possível antever que a Metafísica com a qual trabalha o autor diverge em seu conteúdo teológico daquela que venho desenvolvendo, pelo que é possível falar em uma Teologia antecedente que leva ao desenvolvimento de uma Metafísica que, por sua vez, é pressuposta na pesquisa científica.

Casanova inicia seu primeiro capítulo afirmando que para Aristóteles e Platão “epistéme é uma atividade teórica, contemplativa, em que uma afirmação é sustentada por fundar-se em princípios ou causas” (Carlos A. Casanova. Física e Realidade: reflexões metafísicas sobre a ciência natural. Trad. Raphael D. M. De Paola. Campinas, SP: VIDE Editoral, 2013, p. 17). O que significa um conhecimento decorrente de premissas que estejam relacionadas com a causa real daquilo que está na conclusão de um juízo, saber esse que pode estar ordenado em uma disciplina. “Mas nunca devemos perder de vista que, diferentemente de Karl Popper, Thomas Kuhn ou Alasdair MacIntyre, Platão e Aristóteles não entendiam ‘ciência’ num sentido primordialmente sistemático”, porque mesmo enquadrando seus conhecimentos numa visão unitária do mundo, em tarefa aberta ao real e, pois, assistemática, “a abertura às últimas causas – ao ser não unívoco, e ao divino, do qual não podemos alcançar nem intelecções nem demonstrações propriamente ditas – excluía qualquer espelhismo de sistema fechado” (Idem, p. 18).

Reconheço que não tenho conhecimento suficiente das obras de Platão e Aristóteles para contrariar a afirmação anterior, mas, pelo que sei, concluo que também para eles a Ciência era primordialmente sistemática, a despeito de tal sistema, de fato, não ser fechado, não ter limites demasiadamente rígidos.

Entendo, de outro lado, que Casanova, como a maioria absoluta dos cristãos que trabalham seriamente com conceitos filosóficos, não percebe que a visão unitária do mundo dos gregos, sistemática ou não, começou a ser perdida quando uma determinada posição teológica do Cristianismo se firmou na junção do pensamento greco-romano com o judaico-cristão, inicialmente pelo trinitarismo de Niceia; depois ganhando contornos teológicos e filosóficos com Agostinho, na sua proposta de duas cidades, em sua interpretação amilenarista do Apocalipse, com reflexos sobre o sentido e a posição da humanidade na História e na mentalidade geral de uma comunidade científica em que a Teologia era a Primeira Ciência; culminando no dualismo cartesiano, fruto indireto do trinitarismo e da proposta das duas cidades, que é uma forma de gnosticismo platônico contrária à visão de mundo monoteísta.

Nesse sentido, com a trindade, Jesus foi transferido para uma realidade celestial e transcendental, a despeito de sua dupla natureza (sobre o que remeto o leitor ao artigo “A dupla natureza de Jesus Cristo” – https://holonomia.com/2017/08/16/a-dupla-natureza-de-jesus-cristo/), rompendo com a unidade da humanidade e, de certa forma, desencarnando o Verbo. Com as duas cidades e os dois mundos, a vida humana passou a ser regida teoricamente por dois governos, comprometendo a estabilidade política e social, do que os embates político-religiosos que se sucederam são consequência direta. O dualismo cartesiano abriu caminho ao materialismo que, em sua posição final neodarwinista, excluiu a alma e o espírito da realidade.

De fato, por este seu intento de fundar uma ‘matemática universal’, Descartes lutou denodadamente para eliminar da natureza toda forma, qualidade ou fim, convertendo-a em pura res extensa. Por isso, podemos considerá-lo o pai do mecanicismo ou do racionalismo” (Carlos A. Casanova. Obra citada, p. 33).

Casanova, todavia, acertadamente, rejeita a ideia segundo a qual a matemática seria a primeira das ciências, aludindo à Metafísica de Aristóteles para aduzir que a matemática supõe axiomas primeiros, que não são por ela estudados, declarando que a física é subordinada à matemática que, por sua vez, é subordinada à metafísica, porque é esta última que tem como objeto o princípio de não-contradição, pressuposto tanto pela física como pela matemática, das quais não é alvo de estudo.

Ora, uma disciplina que supõe o axioma fundamental, que não o considera, não pode ser tida como a primeira de todas. Mas é óbvio que a disciplina que em sua etapa ‘demonstrativa’ (não somente ‘inventiva’) considera o princípio de não-contradição é a metafísica. Somente ela, portanto, possui o título para reclamar a primazia entre as ciências” (Idem, p. 53 – negrito meu).

Assim, como afirmado acima, uma Teologia mais ampla é pressuposto da Filosofia Primeira, ou Metafísica, enquanto Teologia articulada, que condiciona as ciências particulares. A Teologia, pois, está no topo da hierarquia das ciências, seja enquanto Metafísica sistemática, ou como Primeira Verdade, vinculada ao primeiro postulado, adotado como valor fundante de uma posição perante o mundo da vida e sua relação com a realidade, ou como religião existencial. A Teologia Monoteísta, destarte, prevendo uma ordem de mundo, é indispensável para o desenvolvimento científico.

Casanova sustenta que os cientistas pressupõem que haja uma inteligibilidade no mundo, como conhecimento pré-científico:

Assegurado este âmbito pré e supra-científico com nossa chamada ao pressuposto da inteligibilidade do mundo expressada no princípio da não-contradição, podemos acrescentar que ao menos uma parte dos conhecimentos que precedem às convenções científicas básicas pertencem a esta mesma região metafísica da alma humana. Existe todo um mundo de experiências que constitui o todo contextual, sem o que não poderíamos construir os discursos científicos particulares e analíticos. Parece-me que a máxima aristotélica antes transcrita trata de orientar-nos nesta direção: ‘Toda doutrina e toda disciplina procedem de um conhecimento prévio’” (Idem, p. 84).

Vale citar que parte desse âmbito pré e supra-científico que pressupõe a inteligibilidade do mundo decorre, no ocidente, da tradição judaico-cristã, segundo a qual há uma Sabedoria, uma Razão, o Logos, subjacente a tudo o que existe, acessível à mente humana, em maior ou menor nível. Essa visão é um valor que orientou a vida ocidental por séculos, permitiu o desenvolvimento das ciências naturais e, no plano jurídico, está na origem histórica e racional dos direitos humanos e da dignidade humana, fato constatado por qualquer pessoa com mínima honestidade intelectual.

Nesse sentido, de que a ciência decorre de uma posição teológica perante o mundo, uma Teologia Cristã trinitarista dominou, e domina, o pensamento ocidental por séculos, perdendo parte de seu poder descritivo sobre a natureza com o pensamento cartesiano e com a revolução científica que foi proporcionada por aquela Teologia, quando uma ideia mecanicista passou a preponderar nas ciências naturais, regendo o estudo da res extensa, das coisas do mundo sensível, de um lado, até que também no plano social, associado à res cogitans, de outro lado, ascenderam os pensamentos sociológicos positivista e marxista, do que são exemplos o Círculo de Viena e a Escola de Frankfurt, assumindo posições equivalentes à que tinha a Teologia durante a chamada idade média.

Diante do esgaçamento dessas propostas, dessas teologias cambetas, é válido o resgate da Metafísica aristotélica, pretendido por Casanova. Entretanto, considero essencial que essa restauração inclua a ressurreição da Teologia Cristã primitiva, antes da imposição dogmática que afastou o pensamento cristão do mundo judaico, para restabelecer como ponto primordial a unidade Monoteísta, em que o Espírito, Deus, está no mundo e em nós, e se manifesta na História humana, que culminará no Reino, ou Era Messiânica, até que venha a evolução material do cosmos.

Por isso, o Cristianismo e a ideia do Reino de Deus devem ser reconcebidos, com o abandono do platonismo que levou ao dogma da trindade e à projeção do Reino para o além, para o mundo das ideias platônicas.

Nada mais distante do realismo de Aristóteles que pensar que a mente seja um espelho do mundo. A crítica mais dura do Estagirita à teoria das ideias de seu mestre residia em que as ‘Ideias’ eram uma projeção de nossas noções mentais sobre o mundo” (Carlos A. Casanova. Obra citada, pp. 128-129).

Daí a leitura Cristã sem a trindade, na refundação da união dos logos grego, conforme a Metafísica aristotélica, com o Logos semítico, porque nós vivemos em ideias, vivemos no Espírito, somos Espírito, ou Ideia, encarnamos o Logos, encerrando no tempo o que está fora do tempo, dando forma à matéria, segundo a Forma Primordial do mundo. O pleno desenvolvimento científico depende da Metafísica, e a perfeição desta é condicionada pela Teologia, pela Ciência Primeira, pela ontologia básica da realidade divina da qual participamos.

Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’. Ora, se nós somos de raça divina, não podemos pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, a uma escultura da arte e engenho humanos” (At 17, 27-29).

Por elas nos foram dadas as preciosas e grandíssimas promessas, a fim de que assim vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de vos libertardes da corrupção que prevalece no mundo como resultado da concupiscência” (2Pe 1, 4).

2 comentários sobre “Hierarquia das Ciências

  1. […] Essa unidade decorre do princípio filosófico fundamental, sem o qual veda-se a prática da própria filosofia, e da atividade científica, que é o princípio da não-contradição, válido para toda e qualquer forma de ciência, exigindo algum modo pelo qual os eventuais paradoxos sejam superados, através da postulação de uma unidade superior em que são dissolvidas as possíveis contradições. O princípio da não-contradição significa que a Filosofia é a disciplina científica fundamental, antecedendo as chamadas ciências da natureza, que inclui a Física, e até mesmo a Matemática, como exposto no artigo “Hierarquia das Ciências” (https://holonomia.com/2019/02/06/hierarquia-das-ciencias/). […]

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