A Teologia como definidora da relação entre mente e matéria

  1. A relação entre mente e corpo, ou mente e matéria, está na base e na ponta do desenvolvimento científico. Fundamental para a modernidade foi o trabalho racionalista de Descartes, propondo a separação entre as substâncias pensante e extensa, ideia cujo desenvolvimento permitiu que o conhecimento humano chegasse até a física moderna. Contudo, o dualismo cartesiano chegou ao seu limite, sendo necessário superar a proposta de duas substâncias distintas, porque a realidade física aponta para uma comunicação intrínseca, ou unidade, entre mente e matéria, o que talvez seja o tema mais atual da neurociência.

  2. A posição filosófica quanto à relação entre mente e matéria é condicionada, todavia, por uma delimitação teológica que antecede conceitualmente a questão. O ateísmo, como regra, sustenta o monismo materialista, no sentido de que a realidade é apenas material, sendo a mente um epifenômeno decorrente da atividade material ocorrida no cérebro, ou seja, a mente é o mero resultado de reações químicas.

  3. O dualismo cartesiano clássico é o entendimento que talvez seja melhor relacionado à cosmovisão deísta, que sustenta a ideia de um Deus criador, mas que não interfere na história do universo. Pelo deísmo, o mundo foi criado por uma inteligência superior, segundo leis racionais, e apenas essas leis passaram a governar o cosmos após a criação, sem que haja interferência divina nos acontecimentos da história, pelo que o deísmo, tradicionalmente, exclui a possibilidade de ocorrência de milagres. Aqui uma ressalva é cabível, pois somente é possível uma definição adequada de milagre com o pleno conhecimento do funcionamento da natureza, posição cognitiva da qual nossa ciência está muitíssimo afastada.

  4. Finalmente, para o teísta, o monismo materialista ou mesmo o dualismo cartesiano não podem ser a melhor hipótese para explicar a relação entre mente e corpo, porque o Cristianismo, por exemplo, o que vale também para o Judaísmo e o Islamismo, é baseado numa espécie de mistura entre as realidades espiritual e material, interferindo Deus, que é Espírito, constantemente, na História humana, do Gênesis ao Apocalipse, podendo ser citados como exemplos o Dilúvio, o Êxodo e a Ressurreição.

  5. Na discussão filosófica sobre o tema, remeto o leitor para o artigo “Nem dualismo, nem monismo: a totalidade indivisa de David Bohm”, escrito por Cínthia Roso Oliveira e Sofia Inês Albornoz Stein, que pode ser encontrado no sítio da Revista Kínesis (http://revistas.marilia.unesp.br/index.php/kinesis/article/view/6413), no qual é discutida a natureza da mente a partir da interpretação da física quântica formulada por David Bohm, como resumido na seguinte passagem:

    Bohm critica qualquer forma de reducionismo; diante disso ele parece se afastar tanto dos monismos idealistas quanto dos monismos materialistas. Para estes últimos, tudo o que existe é material ou se reduz a algo material, inclusive para os materialistas emergentistas as propriedades mentais de certa forma se reduzem às materiais, já que só existem por causa delas.”

  6. No referido texto é informado que Bohm critica o dualismo cartesiano, mas não se enquadra propriamente no que é chamado monismo neutro, segundo o qual a distinção mente-matéria seria formal, como uma distinção de propriedades de uma substância, “pois, apesar da semelhança entre as propostas de que a realidade última é neutra e tem propriedades mentais e materiais, para Bohm, tal realidade não se reduz a uma única substância cujas características já são completamente conhecidas”.

  7. O artigo também sustenta que a teoria de Bohm não se enquadra na proposta idealista, afirmando que: “Para o idealismo, de modo geral, o que existe e é conhecido são imaginações do sujeito, portanto tem um caráter subjetivo”. Uma vez que, pela hipótese de Bohm “as percepções não são estritamente subjetivas, mas podem ser compartilhadas”, ele não pode ser considerado um idealista.

  8. Contudo, o idealismo adotado pelo texto, extraído do Dicionário de filosofia de Abbagnano, possivelmente não é o mesmo adotado por Bohm, porque o idealismo da subjetividade é essencialmente associado à filosofia de Kant, e é sabido que Bohm foi influenciado pela leitura de Hegel, pelo que talvez possa ser considerado inserido em um idealismo objetivo ou metakantiano, caso não possa ser nominado de hegeliano. Não cabe aqui, entretanto, uma discussão sobre a interpretação da filosofia de Hegel dentro do idealismo ou sua influência sobre Bohm, valendo dizer que qualquer abordagem razoável do hegelianismo, por si só, é uma tese de doutorado em Filosofia, uma vez que não é possível entender Hegel sem conhecer Filosofia, e é muito provável que seja impossível um pensamento verdadeiramente filosófico e atual que ignore Hegel.

  9. De todo modo, Bohm rejeita tanto o materialismo quanto o dualismo, sendo certo que sua proposta, ainda que não seja associada às formas de idealismo tradicionais, mais se aproxima da essência idealista, ao considerar, como citado mais à frente, a existência de uma espécie de mente universal, apesar de ele não aceitar o que chama de reducionismo idealista, segundo o qual a matéria é reduzida um tipo de pensamento, por exemplo, na mente de Deus.

  10. No artigo “A new theory of the relationship of mind and matter” (http://www.tcm.phy.cam.ac.uk/~mdt26/local_papers/bohm_mind_matter_1990.pdf), Bohm desenvolve alguns de seus principais argumentos, para, numa tradução livre, “reunir os lados físico e mental da realidade”, sustentando uma nova forma de pensar, que é consistente com a física moderna, não separando a mente da matéria, o observador do observado, o sujeito do objeto.

  11. Bohm defende que, segundo o mundo quântico, nem mesmo a matéria inanimada pode ser adequadamente entendida em termos cartesianos, algo que apenas ocupa lugar no espaço, o que implica que também a mente possui sempre um aspecto físico, ainda que este seja muito sutil, havendo a possibilidade de uma relação real entre matéria e mente, as quais nunca tiveram a distinção absoluta sustentada por Descartes, ou pelos materialistas emergentistas.

  12. Segundo a ordem implicada, conceito desenvolvido por Bohm: “the whole universe is in some way enfolded in everything and that each thing is enfolded in the whole. From this it follows that in some way, and to some degree everything enfolds or implicates everything” (todo o universo está de algum modo envolvido em tudo e cada coisa está envolvida no todo. Daí resulta que, de algum modo, e até certo ponto, tudo envolve ou implica tudo). “It follows that each thing is internally related to the whole, and therefore, to everything else” (Segue-se que cada coisa está internamente relacionada ao todo e, portanto, a todo o resto).

  13. Bohm, nesse ponto, está na mesma linha da hermenêutica de Gadamer, um dos grandes filósofos do século XX, como pode ser observado no vídeo “Gadamer’s Hermeneutics” (https://www.youtube.com/watch?v=BJ9Lc0Tk9-Q), quando Gadamer afirma que é uma regra hermenêutica que o todo deve ser entendido do modo individual e o individual nos termos do todo, e que o movimento do entendimento é sempre do todo para a parte e de volta para o todo.

  14. Desenvolvendo a relação do todo com a parte, Bohm apresenta um novo conceito, de informação ativa, ligado ao de potencial quântico, sugerindo que o elétron pode ser muito mais complexo do que pensamos, em razão de nosso desconhecimento quanto à realidade física de dimensões inferiores a dez elevado a menos dezessete centímetros, que é o espaço mínimo até o qual nossos experimentos conseguiram atingir. Desse modo, “The notion of active information implies, as we have seen, the possibility of a certain kind of wholeness of the electron with distant features of its environment” (A noção de informação ativa implica, como vimos, a possibilidade de um certo tipo de completude do elétron com características distantes de seu ambiente).

  15. Além disso, o potencial quântico permite que duas ou mais partículas sejam afetadas uma pelas outras, mesmo a longas distâncias, fenômeno que hoje é bem conhecido como entrelaçamento quântico, que comprova a não localidade da realidade física. Portanto, prossegue Bohm, o comportamento básico da matéria envolve características como completude, não localidade e movimento organizado, ainda que no nível ordinário dos fenômenos tais características não sejam facilmente encontradas.

  16. Daí a comparação entre o comportamento material e mental, porque “the whole notion of active information suggests a rudimentary mind-like behaviour of matter, for an essential quality of mind is just the activity of form, rather than of substance. Thus, for example, when we read a printed page, we do not assimilate the substance of the paper, but only the forms of the letters, and it is these forms which give rise to an information content in the reader which is manifested actively in his or her subsequent activities” (toda a noção de informação ativa sugere um comportamento mental rudimentar da matéria, pois uma qualidade essencial da mente é apenas a atividade da forma, e não da substância. Assim, por exemplo, quando lemos uma página impressa, não assimilamos a substância do papel, mas apenas as formas das letras, e são essas formas que dão origem a um conteúdo de informação no leitor que se manifesta ativamente em suas atividades subsequentes).

  17. Bohm dá um exemplo do comportamento de uma pessoa diante de uma sombra que pode significar a presença de um assaltante, o que acarreta reações mentais, físicas, elétricas e químicas no corpo da pessoa, quando informações mentais se associam a processos físicos. E afirma:

    It seems clear from all this that at least in the context of the processes of thought, there is a kind of active information that is simultaneously physical and mental in nature. Active information can thus serve as a kind of link or ‘bridge’ between these two sides of reality as a whole. These two sides are inseparable, in the sense that information contained in thought, which we feel to be on the ‘mental’ side, is at the same time a related neurophysiological, chemical, and physical activity (which is clearly what is meant by the ‘material’ side of this thought)”. (Parece claro de tudo isso que, pelo menos no contexto dos processos de pensamento, existe uma espécie de informação ativa que é simultaneamente física e mental. A informação ativa pode, portanto, servir como um tipo de ligação ou ‘ponte’ entre esses dois lados da realidade como um todo. Esses dois lados são inseparáveis, no sentido de que a informação contida no pensamento, que sentimos estar do lado ‘mental’, é ao mesmo tempo uma atividade neurofisiológica, química e física relacionada – que é claramente o que se entende por lado ‘material’ deste pensamento).

  18. A conclusão de Bohm é no sentido de que a ordem implicada possui uma série de níveis inter-relacionados em que os mais sutis, como pensamentos, sentimentos e reações físicas, tanto desdobram como envolvem aquelas que são menos sutis, unindo, assim, mente e matéria em um único processo, que é essencialmente o mesmo, de modo que aquilo que experimentamos como mente, em seu movimento através de vários níveis de sutileza, irá, num processo natural, em última análise, movimentar o corpo ao alcançar o nível do potencial quântico e o das partículas atômicas.

  19. Existe, portanto, uma participação entre os vários níveis da realidade.

    For the human being, all of this implies a thoroughgoing wholeness, in which mental and physical sides participate very closely in each other. Likewise, intellect, emotion, and the whole state of the body are in a similar flux of fundamental participation. Thus, there is no real division between mind and matter, psyche and soma.” (Para o ser humano, tudo isso implica uma completude arrebatadora, na qual os lados mental e físico participam muito de perto um do outro. Da mesma forma, intelecto, emoção e todo o estado do corpo estão em um fluxo similar de participação fundamental. Assim, não há divisão real entre mente e matéria, psique e soma).

  20. E continua:

    Extending this view, we see that each human being similarly participates in an inseparable way in society and in the planet as a whole. What may be suggested further is that such participation goes on to a greater collective mind, and perhaps ultimately to some yet more comprehensive mind in principle capable of going indefinitely beyond even the human species as a whole” (Estendendo este ponto de vista, vemos que cada ser humano participa de forma semelhante em um inseparável na sociedade e no planeta como um todo. O que pode ser sugerido mais além é que essa participação se estende a uma mente coletiva maior, e talvez em última análise, para alguma mente ainda mais abrangente, em princípio, capaz de ir indefinidamente além da espécie humana como um todo).

  21. Outrossim, pelo desenvolvimento da proposta de Bohm, seguindo as ideias do parágrafo anterior, é possível caminhar da realidade física para a espiritual, e até mesmo chegar à Teologia. Não é por acaso, obviamente, que suas ideias não foram aceitas pelo mundo acadêmico de meados do século XX, dominado pelo materialismo.

  22. E assim voltamos ao dualismo cartesiano, em processo de superação em razão dos resultados científicos da física moderna, e ao entendimento teológico anterior àquele dualismo, e que o influenciou, associado à interpretação agostiniana do livro do Apocalipse e da escatologia Cristã, segundo a qual não haverá o milênio ou o Reino de Deus na história humana, como exposto no artigo “A cidade de Deus” (https://holonomia.com/2017/12/03/a-cidade-de-deus/), visão religiosa de separação entre Deus e os homens que possibilitou a distinção entre corpo e mente, ou corpo e alma.

  23. A união entre mente e matéria, portanto, está associada à realização do Reino de Deus, a uma Teologia e suas concepções fundamentais da realidade e da História humana, que já foram reveladas no Antigo Testamento, indicando que a espécie humana, coletivamente, participará do Espírito de Deus, da Mente Cósmica:

    Depois disto, derramarei o meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Mesmo sobre os escravos e sobre as escravas, naqueles dias, derramarei o meu espírito” (Jl 3, 1).

    Concluirei com eles uma aliança de paz, a qual será uma aliança eterna. Estabelecê-los-ei e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre. A minha Habitação estará no meio deles: eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Assim saberão as nações que eu sou Iahweh, aquele que santifica Israel, quando o meu santuário estiver no meio deles para sempre” (Ez 37, 26-28).

Um comentário sobre “A Teologia como definidora da relação entre mente e matéria

  1. Prezado Holonomia, um aparte

    Com todo o respeito à tradição religiosa monoteísta, esse conceito, tal como exposto com brilhantismo nesse seu artigo memorável, é muito mais antigo do que os Dez Mandamentos e muito observado por culturas e civilizações muito mais antigas e, penso eu, mais desenvolvidas. Assim como não foi por acaso que o mundo acadêmico não aceitou as ideias de Bohm na segunda metade do século XX, também não foi por acaso que o conhecimento denominado “esotérico”, “hermético”, “ocultista” e outros substantivos e adjetivos menos respeitosos não fez e não faz parte dos estudos acadêmicos e da educação básica formal. Existe e sempre existiu uma nítida conexão entre educação, religião e poder. Destarte, conforme alguns autores de livros esotéricos, há muito tempo, os estudiosos desses assuntos, sendo perseguidos pelos governantes (em sentido lato) deliberaram sobre como preservar e transmitir esses conhecimentos através das nações e das gerações. Diz a lenda que, inicialmente, pensaram que esse conhecimento deveria ser transmitido somente entre pessoas virtuosas, de confiança, que passassem adiante para outras pessoas virtuosas, de confiança. Logo alguém objetou que seriam necessárias muitas pessoas virtuosas, o que, mesmo no início dos tempos, quando o mundo não era tão populoso, nunca foi fácil encontrar. Deliberaram, então, transmitir o conhecimento através do vício e, assim, as pessoas virtuosas reconheceriam a verdade ali presente. E, assim, o conhecimento esotérico passou a ser transmitido através de cartas de baralho, jogos e outras atividades lúdicas. Prezado Holonomia, para concluir, faço uma citação de um grande Astrólogo do século XX, Dane Rudhyar, “…O coeficiente de inexatidão da Astrologia é equivalente ao coeficiente de livre-arbítrio do ser humano”. Esta frase, que considero lapidar, está no livro “O Carma do Agora”, de Martin Schulman, cuja leitura recomendo. Saudações, caríssimo.

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