O Juiz Sacerdote

O juiz é o sacerdote moderno, faz a mediação entre Deus e os homens.

Na realidade, com Jesus Cristo, todo cristão assumiu a função sacerdotal, sendo o Espírito Santo, encarnado nele, o verdadeiro intermediador, ou mediador, entre a humanidade e o Criador. Contudo, na hipótese de conflito humano, há necessidade de outro homem para solucionar, pelo Logos, a controvérsia racional surgida.

O sacerdote é aquele que oferece sacrifício, o que dá ou oferece o sagrado. E sagrado é o que é dedicado a Deus, separado para Deus.

Adão foi o primeiro sacerdote humano, conforme narrado no Gênesis: “Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2, 15).

Jhon Walton, em palestra proferida no Instituto Faraday, a qual assisti no Curso Ciência e Fé Cristã, promovido pela Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (http://www.cristaosnaciencia.org.br/), afirma que o jardim, na tradição religiosa, é o local de acesso ao sagrado, e por isso havia um jardim nas proximidades dos templos antigos, narrando ele que Adão recebeu, como sacerdote, a função de servir e guardar tal espaço, o jardim de Éden.

Nos tempos atuais, a ciência assumiu o lugar de Deus como origem da verdade, e o problema dessa ciência é o fato de ela ser parcial e incongruente, decorrente de seu materialismo reducionista. É importante, todavia, destacar, que a nova física destruiu as bases do materialismo, mas os reflexos dessa hecatombe ainda não chegaram às ciências humanas, e nem mesmo são bem entendidos pelos físicos.

Nas assim chamadas ciências jurídicas, a Lei ainda possui relação com a ideia do sagrado, e a Constituição representa concretamente essa Lei, como espaço especial das relações humanas. Considerando que o art. 102 da Constituição Federal, por exemplo, dispõe que compete ao Supremo Tribunal Federal guardar a Constituição, o que é missão profissional do Poder Judiciário, e obrigação cidadã de toda a população, podemos dizer que vivemos em uma nação de reis sacerdotes, em que todos têm a obrigação de servir e guardar a Constituição, sendo os magistrados sacerdotes especiais, pois são os guardiões profissionais da Constituição. Portanto, como o juiz tem a função especial de servir e guardar a Constituição, ele é o novo sacerdote.

Enquanto o sacerdote fazia a mediação do conhecimento de Deus e do acesso à presença de Deus, que também tem em Si a imagem da Justiça, pois Deus é a Justiça (ttps://holonomia.com/2017/04/22/deus-e-o-direito-jesus-cristo-e-o-controle-de-constitucionalidade/), o mesmo acontece hoje, em que o magistrado faz a mediação do conhecimento oficial da Lei e do acesso à sua presença pública, à solene da manifestação da Justiça, por meio da declaração estatal do Direito.

O juiz, além de sacerdote, é o cientista do Direito, por excelência.

Podemos até mesmo fazer uma comparação com o cientista das ciências físicas, que faz um corte da realidade medindo o espaço-tempo, com explicações e previsões. E esse corte exige uma tesoura, um modelo de mundo, ligado a uma cosmovisão de mundo, que pode ser materialista ou espiritualista, que escolhe o primeiro princípio como material ou como espiritual.

Diz a Bíblia que o mundo jaz no poder do maligno, o que significa que o mundo é regido pelo princípio carnal, ou seja, as pessoas vivem suas vidas conforme valores materiais.

A ciência materialista, que predomina, ainda está ligada à relatividade e seus limites, inerentes à velocidade da luz, questão já exposta no artigo “Jesus e o jogo da Vida Eterna: verdade e consequência” (https://holonomia.com/2016/09/05/jesus-e-o-jogo-da-vida-eterna-verdade-e-consequencia/), em que foi exposta a limitação dos conceitos relativísticos, por mais que façam sucesso, como também ocorria com a gravitação newtoniana, igualmente superada.

Nessa linha de raciocínio, ao contrário do que sustenta da relatividade de Einstein, segundo a qual os eventos simultâneos não existem, pois essa ideia de simultaneidade dependeria do referencial, o próprio experimento EPR foi comprovado e demonstrou a simultaneidade existente no entrelaçamento ou emaranhamento quântico, atestou que eventos simultâneos são um fato.

A Ciência completa, a Ciência da unidade, portanto, está além do materialismo, sendo mister admitir uma realidade absoluta que transcende o espaço-tempo, como mostra a física quântica, que chamo de orgânica quântica.

Essa intercorrência explicativa, além de demonstrar que a interpretação ortodoxa das ciências está equivocada, o que também vale para a doutrina jurídica, tem a função de resgatar a unidade do conhecimento científico, inclusive unindo Direito e Física, porque toda abstração ou análise da realidade, seja no Direito ou na Física, deve estar aberta à unidade do conhecimento, e deve buscar essa unidade, que é interna, além das aparências, é imanente e transcendente, como Deus.

Para se medir o espaço-tempo é preciso um corte, que apenas sendo espiritual pode manter a unidade científica, e esse corte é feito de dentro para fora do espaço-tempo, ou seja, o momento do corte ocorre simultaneamente em todo o espaço-tempo, porque interligado internamente pelo potencial quântico, definindo o próprio espaço-tempo. Isso significa que é o Sujeito, Uniplurissubjetivo, com sua Consciência não local, que determina a realidade.

Portanto, o corte é o primeiro princípio de estudo da realidade, que pode ser material, parcial e relativo; ou espiritual, total e absoluto.

Enquanto a medição externa, ligada a um sujeito parcial e local, e material, se propaga à velocidade da luz na ordem manifesta, a medição interna, do Sujeito com Consciência não local, é instantânea em todo o espaço-tempo, pelo entrelaçamento quântico, na ordem implicada.

Assim, o corte espaço-temporal, ainda que aparentemente externo, determina a simultaneidade daquela referência com todo espaço-tempo, marcando a luz de todos os pontos, na medida em que a luz é instantânea para si, pela unidade quântica interna de tudo, segundo a “Ordem Implicada”, conforme exposto no último artigo.

O sacerdote e cientista, com a função de guardar a unidade do conhecimento, mede esta simultaneidade, sendo medida a parte conforme sua relação com o todo, indicando a Ordem Implicada além das aparências, unindo a manifestação fenomênica a partir da unidade interna do Ser.

No campo jurídico, o Direito é Espiritual, porque está ligado à ideia de Justiça, já incorporada na Lei, na Constituição, ainda que a atuação humana continue material, apegada à letra da lei, à sua forma, em detrimento de seu conteúdo, de seu Espírito.

Como toda atividade científica, o Direito usa a matéria, que no seu caso são as leis vigentes, mas a matéria com sua forma limitada não exaure o Direito, que tem sua completude além da mera forma, além as aparências. Direito é forma com conteúdo, e esse conteúdo é moral, está ligado aos conceitos de Ética e de Justiça, e não de legalidade nominal. O Direito usa a Lei, com sua manifestação exterior, para alcançar a Justiça.

O juiz, assim, deve dar substância à Lei, encontrando a Justiça da norma, para cumprir sua função sacerdotal, dando essência à aparência, para que o Estado Seja, para que aquele momento jurídico oficial concretize a unidade do Ser jurídico, do Direito, da Justiça.

O juiz mede o caso concreto, a marca jurídica de uma situação, considerando a totalidade do sistema jurídico, incluindo leis, a Constituição e, especialmente, os valores fundamentais da Vida que originaram a Constituição, fazendo o caso julgado simultâneo à Constituição, ou seja, o ato constituinte da ordem jurídica é o mesmo do caso, o que é feito pela mediação judicial, aplicando a Justiça constitucional à situação em julgamento.

Nesse ponto, o constituinte originário transferiu seu Poder ao Judiciário, para que este mantenha a originalidade da Constituição, mantenha a Vontade Geral, até mesmo contra o entendimento do constituinte derivado, contra as vontades das maiorias, ou minorias, que podem ser manifestadas por chefes de executivo e pelo legislativo.

Infelizmente, contudo, do mesmo modo como tínhamos nos tempos antigos, ainda hoje há sacerdotes de Baal atuando no meio jurídico, os falsos profetas, que cultuam a matéria, o legalismo nominalista, em detrimento da Justiça, muitas vezes inconscientemente, até mesmo no Supremo Tribunal Federal…

O juiz é, assim, o observador, que coloca-se como imóvel diante do movimento das partes, imóvel que está em todos os lugares, no presente que é eterno, e por isso a sentença eterniza todos os momentos jurídicos em um só, na mesma Tradição, que muitas vezes, na maioria das vezes, na atualidade, está deturpada.

A Tradição é aquela passada por Cristo, o Logos, que é o mediador humano. O magistrado da mesma forma, faz a mediação do Direito, por meio da razão, da fundamentação, que usa Palavra, o Verbo.

O juiz é o observador da realidade jurídica, aquele que guarda especialmente a realidade jurídica, interpretando-a, dando-lhe sentido, com vida e obra, seguindo o método científico de Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade e a Vida; ou seja, lavando suas vestes no sangue do Cordeiro, purificando-se e santificando-se, tendo apresentação pessoal imaculada, o que, na expressão atual, significa manter conduta irrepreensível na vida pública e privada.

João, às sete Igrejas que estão na Ásia: a vós graça e paz da parte d”Aquele-que-é, Aquele-que-era e Aquele-que-vem’, da parte dos sete Espíritos que estão diante do seu trono, e da parte de Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primogênito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra. Àquele que nos ama, e que nos lavou de nossos pecados com seu sangue, e fez de nós uma Realeza de Sacerdotes para Deus, seu Pai, a ele pertencem a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém. Eis que ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão, até mesmo os que o transpassaram, e todas as tribos da terra baterão no peito por causa dele. Sim! Amém! Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, ‘Aquele-que-é, Aquele-que-era e Aquele-que-vem’, o Todo-poderoso” (Ap 1, 4-8).

Felizes os que lavam suas vestes para terem poder sobre a árvore da Vida e para entrarem na Cidade pelas portas. Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam ou praticam a mentira” (Ap 22, 14-15).

Venha o Teu Reino!

A Ordem Implicada

Como já afirmado no artigo “Ciência: a luta do cosmos contra o caos” (https://holonomia.com/2016/08/13/ciencia-a-luta-do-cosmos-contra-o-caos/), ciência é conhecimento racional integral, o que inclui uma teoria de ordem, harmonia, organização. Pressupõe, assim, uma metafísica, teoria que explica todos os fenômenos.

Desse modo, não há ciência sem ordem, sem organização dos dados e dos fenômenos, sem uma relação ou ligação entre coisas e/ou ideias, pelo que a ciência depende de um ato de fé, pois pressupõe que existam conexões e semelhanças entre situações do mundo, ainda que não aparentes, não experimentadas pelos (cinco?) sentidos.

A fé, a crença numa ordem superior, que transcende os fenômenos, e racional, além do que se pode perceber pelos sentidos, é componente básica da ciência mais moderna e avançada, que mesmo não compreendendo eventos invisíveis, que de alguma forma são imaginados, inclui esses eventos na teoria científica.

Sobre a questão da ordem, Richard Feynman afirma que uma “das regras do mundo é que as coisas sempre transitam de uma condição ordenada a uma condição desordenada”, o que penso talvez não esteja totalmente correto (a transição é provavelmente de uma ordem que passa de simples a complexa), mas ele diz que uma das conclusões disso está na possibilidade de que “a partir do presente é possível dizer algo sobre o passado” (In Sobre as leis da física. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2012, p. 120). O estudo do passado está ligado às ciências históricas, enquanto a física normalmente procura saber o que ainda vai acontecer. Isto significa que, entendendo a ordem dos eventos, é possível a análise pretérita ou futura, do que já aconteceu ou do que vai ocorrer.

Em seguida, Feynman afirma que o mundo possui diversos níveis e hierarquias de ideias, e que todas “as ciências – não só as ciências, mas todos os esforços intelectuais – são tentativas de encontrar conexões entre hierarquias, de conectar beleza com história, história com psicologia do homem, psicologia do homem com funcionamento do cérebro, cérebro com impulsos nervosos, impulsos nervosos com química e assim por diante, para cima e para baixo, nos dois sentidos. Ainda não podemos ligar um extremo a outro, só começamos a perceber que existe essa hierarquia relativa”, e que estamos compreendendo “cada vez mais esse tremendo universo de hierarquias interconectadas” (G. nosso. Idem, pp. 131/132).

No caso do Direito temos a ordem jurídica, o conjunto das normas que regulam a vida das pessoas, segundo uma hierarquia de valores, que está, de algum modo, ligada às demais hierarquias ou ordens da natureza, como afirmado por Feynman.

Ao longo da história, a ciência e sua filosofia, como ideia de Ser, ditam os valores sociais, as hierarquias sociais, que determinam o Direito vigente, segundo uma ideologia de mundo, uma forma de ligar os acontecimentos.

A ciência procura a ordem do universo, a unidade do conhecimento, pelo que pressupõe que exista uma ordem, um cosmos, e não o caos. Se não existisse ordem os fenômenos seriam todos aleatórios, e não faria sentido fazer ciência para suas previsões. Deus é exatamente a Ordem do Universo, o princípio e o fim de tudo, a Unidade do Conhecimento, o Logos, o Espírito, Razão ou Energia total, onipresente, onisciente e onipotente. Conhecimento científico, desse modo, é conhecimento de Deus.

Podemos dizer que a autêntica ciência é o amor à sabedoria e à verdade plena, à Ordem mais ampla, à hierarquia mais alta, ao conhecimento cósmico. Direito é amor à Ordem social harmônica, à Justiça, a Deus, que une todas as hierarquias em Si, formando a Unidade da humanidade com a natureza, em uma única Ordem, com significado, com sentido. E a necessidade de reconexão do homem com a natureza fica cada vez mais clara pelos atuais eventos ambientais, mostrando os efeitos das ações humanas sobre o mundo, e do mundo sobre as pessoas.

Nesse sentido, segundo David Bohm, “temos de considerar o Universo como uma totalidade indivisível e inseparável. A divisão em partículas, ou em partículas e campos, não passa de uma aproximação e uma abstração grosseira. Portanto, chegamos a uma ordem que é radicalmente diferente daquela de Galileu e de Newton – ordem da totalidade indivisível” (G. nosso. In Totalidade e a ordem implicada. Tradução Teodoro Lorente. São Paulo: Madras, 2008, p. 135). Essa totalidade indivisível inclui o observador, o ser pensante, pois este e o mundo observado, fisicamente, “são aspectos imersos e interpenetrados de uma realidade completa, que é indivisível e incomensurável” (G. nosso. Idem, p. 25).

Essa realidade é infinita. A ciência, portanto, deve estar aberta, em seus conceitos, à infinitude, ainda que procure trabalhar, o tanto quanto possível, dentro da maior determinação. Mas a certeza e a infalibilidade, como destaca o princípio da incerteza, transcendem a matéria, somente sendo alcançadas em Deus, que é o conjunto, o Espírito da Totalidade, a Lei que rege o mundo como fluxo universal. Isso porque, para Bohm, existe “um fluxo universal que não pode ser definido explicitamente, mas que pode ser conhecido apenas implicitamente, como indicado pelas formas e contornos definíveis explicitamente, alguns estáveis e outros instáveis, que podem ser abstrações do fluxo universal” (Idem, p. 27).

David Bohm defende que existe, segundo a física quântica, uma interligação em todo o universo, pois o movimento da luz em cada região se expande interferindo em cada região do espaço, e se “expande por todo o Universo e sobre todo o passado, com implicações para todo o futuro”, gerando uma noção da nova visão da realidade, em que “a ordem total está contida, de algum modo implícito, em cada região do espaço e do tempo”. Implícito, no caso, decorre do verbo “implicar”, significando “dobrar para dentro”, de modo que “cada região contém a estrutura total ‘envolvida’ dentro dela” (G. nosso. Idem, p. 157). Explicando esse fenômeno, o autor cita uma onda de rádio que contém uma informação implicada, a qual é explicada por um receptor, desdobrando a informação, por exemplo, em som e música.

A visão de Bohm destaca que a física tem dado ênfase à ordem explicada, dobrada para fora e apreendida pelos sentidos, em que as coisas estão separadas umas das outras, mas que após as descobertas da orgânica quântica a “relevância primária deve ser dada à ordem implicada”, tendo a ordem explicada uma significância secundária (G. nosso. Idem, p. 158).

As analogias com o cristianismo e o Direito são evidentes, pois a relevância primária deve ser dada à Justiça, ao Espírito da Lei, à União Espiritual das pessoas, à ordem implicada, em detrimento da letra da lei, da ordem explicada das coisas aparentes.

Para generalizar, de modo a enfatizar a totalidade indivisível, devemos dizer que o que ‘carrega’ a ordem implicada é o holomovimento, que é uma totalidade indivisível e inseparável. (…) Logo, em sua totalidade, o holomovimento não é limitado de qualquer maneira especificável. Não é exigido que se conforme a qualquer ordem em particular ou que esteja ligado por qualquer medida em particular. Portanto, o holomovimento é indefinível e incomensurável” (BOHM, 2008, p. 159).

Sendo assim, pela indefinição e incomensurabilidade do holomovimento, cada teoria deve abstrair o que é relevante, ou seja, o que é elevado, destacado do todo, posto em relevo, estudando a parte escolhida, sem esquecer que ela integra uma realidade maior, que é a verdadeira, sendo esta indivisível.

Nesse holomovimento, o que vale é a Lei do Todo, a Holonomia, do que decorre que qualquer autonomia é relativa limitada por Aquela (Idem, p. 165). Desse modo, apenas o Todo, Deus, é absoluto. A conclusão de sua teoria quântica é surpreendente:

Isso evidentemente significa uma totalidade completa no nosso pensamento. Ou, como foi dito antes, ‘tudo implica tudo’, mesmo a ponto de que ‘nós mesmos’ estamos implicados juntos com ‘tudo aquilo que vemos e pensamos’. Logo, estamos presentes em todos os lugares e em todos os tempos, apesar de fazer isso apenas implicadamente (ou seja, implicitamente)” (G. nosso. Idem, p. 175).

Desse modo, cada um de nós está ligado a tudo mais que existe, ainda que tenhamos a ilusão egoísta de separação. O ego é o centro da consciência individual, a unidade pessoal que nos distingue do resto do universo. Tudo é exterior ao ego, nossa unidade psíquica, que se relaciona com o mundo pelo Si-mesmo, a totalidade psíquica indicada por Jung, como centro virtual do inconsciente coletivo, que inclui todos os egos, na unidade quântica. Desse modo, se o conceito, a ideia do Uno, a ideia de mundo não for total, incluindo todos os egos, a pessoa não é integral.

Como a ação integral é exceção, a visão egoísta do mundo exige a formulação de normas jurídicas, para que cada pessoa respeite as demais, de modo que os comportamentos sejam compatíveis com uma única ordem racional, ditada pelo Direito, por Deus, como Consciência coletiva, ou Logos, que se manifestou em Jesus Cristo. Jesus Cristo tinha Consciência de sua implicação com tudo mais que existe, e por isso podia dizer: “Eu e o Pai somos Um”.

Os conceitos individuais e particulares dividem a unidade quântica total em unidades menores com sentido parcial, relacionadas ao ego, com conceitos próprios, que devem ser organizados em conjunto para o correto entendimento do mundo, da realidade completa, do sentido total. Assim, tudo é exterior ao ego, mas interior ao Si-mesmo, à Consciência, à Unidade, a Deus, a Uniplurissubjetividade que inclui todas as subjetividades.

Por isso, o Decálogo, como uma das primeiras expressões normativas da Consciência, contendo os dez mandamentos, é prova da inteligência divina, estabelecendo as normas de uma vida social, ainda válidas, em que cada pessoa está ligada a outra, e depende de uma ordem superior, pois a vida também é condicionada pelo respeito à razão do outro. E levando esse entendimento à plenitude, Jesus Cristo ensinou que devemos amar a Deus e ao próximo, pois amando a Deus entendemos que nós e o próximo fazemos parte da mesma realidade indivisível e incomensurável, da mesma Consciência.

Sendo tudo movimento, a Consciência é a percepção da situação da própria pessoa e das demais pessoas dentro desse movimento, analisando o sentido do comportamento individual em relação ao holomovimento, à ordem total, ao Espírito. Consciência se liga ao conceito de moral, à pertinência dos comportamentos a uma ordem racional, dos efeitos das ações sobre a vida dos outros, a uma ordem de valores e sentido.

Se cada humano é uma conexão com a ordem total, o espírito humano é como um neurônio no cérebro de Deus, e quando sua ação ocorre por caridade, ligando-se ao outro pelo amor fraterno, essa ação atua como uma sinapse divina, formando comunicação espiritual. Nessa união espiritual, o homem flui junto com a onda piloto do universo, o Logos, ou Espírito Santo, une-se ao holomovimento de modo ordenado e harmônico, faz Justiça. Por isso a função do Estado é constituir uma sociedade livre, justa e solidária, realizar o Reino de Deus, que não terá fim.

Nós criamos limites para nos esquecermos do incomensurável”. Essa fala de Lucy, personagem do filme homônimo, demonstra uma realidade de nossas vidas que está também na ficção científica, ainda que não percebamos isso, ou seja, que vivemos em uma singularidade cósmica, no Big Bang.

Na singularidade “inicial”, antes mesmo de se formarem as primeiras partículas de matéria, toda a energia estava concentrada em um único ponto. Essa unidade estava em estado de entrelaçamento ou emaranhamento quântico, unidade que persiste e mantém todo o Universo unido em potência consciente, em uma conexão implícita com tudo, como diz Bohm. A ciência busca o conhecimento dessa Unidade, em consciência.

Assim, ciência é a ação teórica e prática para a alcançar a Unidade cósmica perdida, além das aparências, o que também se aplica à Religião, que explica que a Queda é a causa da perda dessa Unidade, e ao Direito, como Religião científica.

A consciência impele o homem, para além de seu egocentrismo, à unidade maior, à unidade com Deus, à finalidade espiritual de sua existência, para a felicidade eterna, para Ser, o que implica no reconhecimento do holomovimento e da ordem respectiva, com sua observância, para que a vida tenha sentido e plenitude. Consciência é a moralidade subjetiva, que também é objetiva e física, em consonância com a unidade do Ser e sua Holonomia.

O problema fundamental do mundo, portanto, é de consciência, de educação na acepção básica da palavra. Estamos sendo mal educados, vivendo inconscientemente.

Nesse ponto, o principal problema político do Estado, que por natureza é racional, é a ignorância, pois esta leva a massa a ser manipulada política e religiosamente. O primeiro problema estatal é, pois, religioso. O foco da ação pública é/deve ser, portanto, a educação reflexiva, integral. Segundo o Dicionário Aurélio (FERREIRA, 2009, p. 714) educação é: “2. Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social (…) 6. Aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas” (G. nosso).

A verdadeira educação é a instrução com exemplo, como nos mostrou Jesus Cristo, o único com a plenitude de todas as faculdades humanas, como perfeita imagem e semelhança de Deus, agindo para a integração humana além das aparências e separações, renunciando ao ego para a união com Deus. Quando seguimos o exemplo de Cristo,  “Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo em todos” (Cl 3, 11).

A primeira liberdade a ser buscada, destarte, é a do pensamento, a liberdade do Espírito, para viver pela Razão, pelo Logos, e não pelo instinto animal, do prazer que escraviza. A primeira liberdade é a liberdade de superar a separação do ego, permitindo a união do homem Deus, e com os outros homens.

O Direito é a forma científica, pela razão coletiva, pelo Consciente coletivo, incluindo a administração pública e a educação pública, de promover essa Unidade, da Consciência dos homens entre si e destes com Deus, com a ordem da physis, sendo este o símbolo maior da cruz de Cristo, morto indevidamente pelo direito romano e pela lei mosaica, as formas mais avançadas de Direito, humano e divino, até então conhecidas.

A cruz indica a realidade da ordem implicada, além das aparências, mostrando que quando o homem se une a Deus, a Ordem Total contida em tudo, a Ordem Implicada, a morte também se revela apenas aparente…

Estado laico: a igreja e a religião do mal

A natureza e a função do Estado são estudadas pelo Direito e pela Política, e existe o entendimento de que a ideia de Estado moderno começa com Maquiavel e sua obra “O Príncipe”.

Contudo, dentro de uma linha mais ampla de entendimento histórico, unindo também a Religião na investigação do Estado, é possível remontar a formação do Estado na tradição ocidental à Antiga Aliança, ou seja, à formação da nação de Israel e sua concepção normativa prevista na Torá, a Lei.

O Estado indica o Direito da sociedade, seu deus, que pode ser Espiritual ou material, pode ser a Justiça, Deus, ou o dinheiro. Como já disse Hans Kelsen, elaborando a ideia de identidade entre Estado e ordenamento jurídico, todo Estado está ligado a uma concepção normativa, seja a vontade do soberano, de um grupo ou de todos, ainda que teoricamente.

Na maioria das vezes, contudo, o Direito expresso não é o Direito vivido pelas pessoas, a existência de uma Lei com aparência de justa não leva a uma sociedade justa.

Essa é a situação do Antigo Regime, ligado à Antiga Aliança, em que existe a ideia de Justiça na Lei, mas essa ideia não é vivida pelas pessoas na prática.

E o próprio Moisés, quando da formação da nação de Israel, já havia informado que haveria outro profeta, ligado a outra aliança, e outro tipo de vida social, o Reino de Deus inaugurado por Jesus Cristo: “Eles falaram bem. Vou suscitar para eles um profeta como tu, do meio dos seus irmãos. Colocarei as minhas palavras em sua boca e ele lhes comunicará tudo o que eu lhes ordenar. Caso haja alguém que não ouça as minhas palavras, que este profeta pronunciar em meu nome, eu próprio irei acertar contas com ele” (Dt 18, 17-19).

O Antigo Regime é associado ao governo existente até a Revolução Francesa, em que havia a monarquia como o governo das nações, com base em uma ideia de origem divina dos reis, que era amparada pela Igreja. Em França, a nobreza e o clero se uniam em detrimento do povo nas deliberações dos Estados Gerais.

Essa ideia do Antigo Regime já era, por si própria, equivocada, pela simples separação entre Igreja e Estado, entre clero e nobreza, decorrente da formação de uma igreja separada do comando do império romano, a apostasia. A Igreja, enquanto ekklesia, assembleia de homens, é o próprio Estado, chamando para fora a Lei que une as pessoas.

O império romano, destaque-se, nunca foi cristão, mas um império que tolerava o cristianismo e uma igreja aparentemente independente. O Estado cristão é o Estado Justo, que ocorrerá na era messiânica, no Reino de Deus, governado por reis sacerdotes.

O império romano seria cristão se a vida do Estado e das pessoas fosse pautada pelo exemplo de Jesus Cristo, como regra, começando pelo próprio imperador, o que nunca ocorreu.

Jesus Cristo, quando estava em carne entre nós, disse “o reino de Deus está no meio de vós”, porque ele vivia o Reino de Deus, fazia a Vontade do Pai, sendo expressão visível do Reino dos Céus, do Espírito da Lei.

Nesse sentido, o Estado é o Direito vivido pela sociedade, pelo que o Reino de Deus continua presente, quando vivido pelas pessoas. Para estar no Reino de Deus, basta vivê-lo, o que hoje corresponde a ter Vontade de Constituição, cumprir a Lei, como pede Konrad Hesse, ou fazer a Vontade do Pai, como já falava Jesus Cristo.

Com a Revolução Francesa, o Antigo Regime caiu formalmente, mas continuou a funcionar materialmente, apenas sendo alterado o comando da nação, que passou à burguesia e, depois, nos regimes totalitários, ao partido.

Mas o lema da Revolução Francesa, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, nunca foi cumprido, pelo que o Antigo Regime, de fato, continua de pé.

O Príncipe” (deste mundo – o Maligno), de Maquiavel, o egoísmo, continua a reinar na política, controlando as decisões dos estados, as igrejas e suas religiões do mal, de amor ao dinheiro e à matéria.

A Liberdade foi o argumento capitalista para explorar as pessoas com base no mercado, em que há clara vantagem daqueles grupos detentores de bens e, consequentemente, de poder, com desigualdade de qualidade de vida. O nome Liberdade é usado para a formação de escravos do sistema de consumo.

A Igualdade, de outro lado, foi o argumento comunista, em que o partido assumiu o controle do Estado, sem que houvesse uma efetiva igualdade entre as pessoas, dados os privilégios dos membros do partido. A Igualdade foi usada para criar castas entre membros do partido.

A Fraternidade, enfim, que é o objetivo da Nova Aliança e do Novo Regime, nunca foi posta em prática, não foi, ainda, realizada, tornada real.

O Cristianismo é a Nova Aliança, em que Deus é Pai e somos irmãos, o mundo é regido pela Fraternidade.

Eis que dias virão — oráculo de Iahweh — em que selarei com a casa de Israel (e com a casa de Judá) uma aliança nova. Não como a aliança que selei com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los sair da terra do Egito — minha aliança que eles mesmos romperam, embora eu fosse o seu Senhor, oráculo de Iahweh! Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Eu porei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhecei a Iahweh!’ Porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores, — oráculo de Iahweh — porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31, 31-34).

A nova aliança foi semeada por Jesus Cristo e será plena no Reino de Deus, em que o Logos, Deus, a Lei será conhecida por todos, o que já ocorre potencialmente, porque os direitos humanos têm origem no cristianismo. Quando os governantes forem reis sacerdotes, bons pastores, seguindo o Rei dos Reis, o Bom Pastor, Jesus Cristo, o Caminho, adotando o seu método científico, o modelo de governo da Nova Aliança, tratando o povo como filhos e não coisas e números, buscando a ovelha perdida, e não enviando seus súditos para uma guerra material com fins econômicos, dando a vida pelos irmãos, servindo de escudo humano, como na morte de cruz, ao invés de mandar para a morte, estaremos no Reino de Deus.

Mas antes, o Antigo Regime, hoje representado pela ideia de Estado laico, Estado leigo, ou ignorante, deve ser abandonado. Mas laico também significa “do povo”. A ideia de Estado laico, assim, deve ser revista, mesmo porque não há essa expressão na nossa Constituição, que em seu preâmbulo faz expressa referência a Deus, pelo que o Estado deve ser visto como Estado do povo de Deus, o único que é Bom.

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL”.

Como tenho dito, a dignidade da pessoa humana é fundamento da República com origem histórica em Jesus Cristo, o fundador da Nova Aliança, que estabeleceu os preceitos jurídicos definitivos para a formação de uma sociedade livre, justa e solidária.

Nesse sentido, a cruz é tanto um símbolo religioso como histórico, sendo da mais alta relevância para a República de 1988.

Como todo Estado, o Estado brasileiro é religioso, buscando uma sociedade fraterna, almeja ligar as pessoas em vínculos de solidariedade, em que o foco não é econômico e não aspira a uma falsa igualdade, mas usa a boa e coerente ciência para regular a vida social, pois o homem não é igual à mulher, dois homens ou duas mulheres não têm a mesma capacidade biológica de gerar filhos como um casal (um homem e uma mulher), quem nasceu com determinado órgão sexual e o mutilou não é igual àquele com órgão genital original e com identidade cromossômica, pelo que é necessário entender que igualdade é tratar desigualmente os desiguais, como já dizia Rui Barbosa.

O Estado brasileiro é cientificamente cristão, porque é baseado na solução pacífica dos conflitos e na Vida, em que a administração é eficiente e inteligente, iluminada, é/deve ser baseado na Boa Razão, no Espírito Santo.

Portanto, vivamos a Constituição, sejamos bons cientistas, para assim mostrarmos que o Reino de Deus está em nosso meio…

Eu Sou a Fonte do Direito

Eu Sou é uma expressão com um significado originário especial.

Moisés disse a Deus: ‘Quando eu for aos filhos de Israel e disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’; e me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que direi?’ Disse Deus a Moisés: ‘Eu sou aquele que é.’ Disse mais: ‘Assim dirás aos filhos de Israel: ‘EU SOU me enviou até vós.’ ‘Disse Deus ainda a Moisés: ‘Assim dirás aos filhos de Israel: ‘Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó me enviou até vós. Este é o meu nome para sempre, e esta será a minha lembrança de geração em geração”” (Ex 3, 13-15).

O Ser é o objeto da filosofia, que busca o conhecimento das coisas. O Ser é, é perene, é eterno, é pleno, é integral é íntegro.

A língua portuguesa tem uma grande vantagem em relação às demais línguas ocidentais, pois possui dois verbos, “ser” e “estar”, que indicam situações com significações filosóficas e ontológicas próprias, enquanto outras línguas usam o mesmo verbo para ambos os significados, como o “to be” inglês, o “sein” alemão, o “essere” italiano, o “être” francês.

Ao dizer Eu Sou, enquanto verbo intransitivo, isso indica que tenho uma qualidade relativa a Deus, que É, sempre. Para dizer corretamente Eu Sou é preciso uma consciência de eternidade, ligada ao que sempre fui e sempre serei, à minha essência permanente, enquanto unidade psíquica individual, caso contrário o correto seria dizer eu estou. Apenas o homem tem a capacidade, a possibilidade, de dizer Eu Sou, porque somente o homem tem em si a imagem de Deus, o Espírito de Deus, que É. Esse fato nos foi relembrado por Jesus Cristo, que nos regenerou como humanidade.

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, em sua grande misericórdia, nos gerou de novo, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, imaculada e imarcescível, reservada nos céus para vós, os que, mediante a fé, fostes guardados pelo poder de Deus para a salvação prestes a revelar-se no tempo do fim” (1Pe 1, 3-5).

A ressurreição é fundamental porque comprovou o Ser de Jesus Cristo, além de seu estar corporal. Essa consciência ele transmitiu à humanidade por sua morte e ressurreição, transcendendo o mero estar no corpo, estar vivo, mostrando seu Ser, de que Ele já tinha consciência anteriormente, notadamente quando afirmou “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, e por expressar isso foi morto pelos judeus, que não aceitaram a identificação do homem com Deus.

O Sumo Sacerdote o interrogou de novo: ‘És tu o Messias, o Filho o Deus Bendito?’ Jesus respondeu: EU SOU. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu‘, O Sumo Sacerdote, então, rasgando as suas túnicas disse: ‘Que necessidade temos ainda de testemunhas? Ouvistes a blasfêmia. Que vos parece?’ E todos julgaram-no réu de morte” (Mc 14, 61-64).

Disseram-lhe, então, os judeus: ‘Não tens ainda cinquenta anos e viste Abraão!’ Jesus lhes disse: ‘Em verdade, em verdade, vos digo: antes que Abraão existisse, EU SOU’. Então apanharam pedras para atirar nele; Jesus, porém, ocultou-se e saiu do Templo” (Jo 8, 57-59).

Portanto, muito antes da filosofia grega, desde Moisés, o povo hebreu já se preocupava com a questão do Espírito, do Ser, da natureza das coisas além das aparências transitórias.

A Queda significa a identificação do homem com seu corpo, com o seu estar, com sua provisoriedade temporal, o Resgate, a Salvação levada a termo por Jesus Cristo, foi a restauração do homem como Espírito, e, como tal, eterno. Jesus tornou a transcendência do Ser imanente em Seu estar, mostrando como o ente pode ser adequar ao Ser, e essa é a Redenção, permitir que o homem seja filho de Deus, Seja.

O estar é uma situação provisória do Ser, sendo o Ser a causa do estar, a causa do ente. O apego ao estar é não Ser. Deus, o Eterno, criou todas as coisas, que estão em determinado estado do movimento, estado que pode estar conectado ou não à essência, ao Ser. O que está, não estava, e decorre da alteração de um estar anterior, que não mais está, tudo isso dentro do Ser, que sempre é.

Desde os filósofos pré-socráticos a questão do Ser e do Devir foram enfrentadas, especialmente por Parmênides, dizendo que tudo que é real é eterno e tem uma unidade, e por Heráclito, salientando que tudo flui e está em permanente mudança, havendo uma unidade além dos opostos.

A filosofia atual é majoritariamente caída, como em Heidegger e Gadamer, para os quais o homem ou Dasein é o corpo, ou a ideia, que aqui está, o ente preocupado com sua morte e suas razões particulares. Essa filosofia se liga ao verbo “estar”, o que indica um ente provisório, de um tempo limitado, enquanto a filosofia autêntica se refere ao Ser, o que sempre é, mesmo mudando.

Essas filosofias se limitam à discussão da consciência do ente, de um estado, não alcançando a consciência cristã, que Jesus Cristo atingiu e nos transmitiu, a consciência de unidade com Deus, a Consciência de Ser, de eternidade, pelo que podia dizer “Eu e o Pai somos um”. A prova disso consiste no simples fato de que ainda hoje bilhões de pessoas reconhecem Seu ensinamento como atual, Sua doutrina moral, jurídica e política são, porque eternas. Já Heidegger e Gadamer provavelmente serão uma nota de rodapé na história da filosofia.

A consciência do estar é reduzida ao corpo, ao ente finito, reduzindo a própria capacidade da consciência, que é una sendo múltipla. A Consciência de Ser é uniplurissubjetiva, isto é, única, com múltiplas perspectivas. Deus é a unidade da Consciência, é o Sujeito, a Consciência de Ser.

Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17, 3).

Vida eterna é conhecer o Ser, o Eterno, e conhecer não de modo meramente intelectual, na medida em que o verbo referido, na linguagem hebraica, significa a intimidade máxima entre o conhecedor e o conhecido; por exemplo, quando a Bíblia diz que um homem conheceu uma mulher isso indica a relação sexual entre eles, daí a expressão conhecer biblicamente.

Portanto, conhecer a Deus é viver a unidade com Deus, sendo sua expressão entre os homens, seguindo o exemplo, o método, o Caminho, Jesus Cristo. No mundo caído da irracionalidade, do egoísmo, após a Queda, é necessária razão, Logos, para a Vida plena.

Desse modo, a preocupação do homem não é com a morte do corpo, com a morte do estar, pois o estar, como provisório, está destinado à morte. A preocupação do homem é com a morte do Ser, ou seja, se identificar com aquilo que desaparecerá, pelo que a busca do homem é pela sanidade, estar em harmonia com o Ser, que É.

No caso do Direito, o que se busca é o seu Ser, a causa do estar, o que é além das normas, além dos textos, que são variados, se busca a racionalidade/moralidade convencional que se funda na racionalidade/moralidade natural da consciência una, do Ser.

A fonte do Direito até o iluminismo era a divindade, pela origem divina dos reis. A fonte do Direito era Deus, o Sujeito, e continua sendo.

Com o iluminismo, a fonte do Direito passou para a razão humana posta na lei, mas essa concepção é limitada a uma razão material e parcial colocada em lei escrita, quando a fonte do Direito é razão humana enquanto Logos, enquanto imagem de Deus, enquanto razão total, que pode se eternizar, que tem validade universal. A essência da Declaração dos Direitos Humanos é deturpada pela razão material e parcial, pela vontade da maioria.

O contrato social, como Rousseau nos diz, se baseia na Vontade Geral, que é o Logos ou Sujeito universal, e não na vontade de todos ou da maioria. O art. 6.º da Declaração dos direitos do homem e do cidadão de 1789 afirma que a lei é a expressão da vontade geral. E segundo Roussseau, a vontade geral é sempre reta e sempre tende para a utilidade pública, não entrando na vontade geral as vontades particulares que se destroem reciprocamente. Sendo sempre reta e boa, a Vontade Geral é o Ser da Lei.

A vontade de todos ou da maioria significa uma razão humana parcial, contrária à natureza humana coletiva, pelo que a vontade de todos ou da maioria pode ser a da Besta, como ocorreu durante o nazismo, o comunismo, e como tem ocorrido com esse capitalismo selvagem, em que a vontade do Estado se limita aos interesses econômicos de determinados grupos de poder. Assim, o Estado laico que temos hoje, baseado na vontade de todos ou da maioria, ou da minoria, em vontades privadas e particulares, é a Besta do Apocalipse, que tem levado à sexta extinção em massa da vida na Terra, pois a vontade da Besta é provisória, contrária à Vida, ao Ser.

Como salientado, a fonte do Direito é o Logos, a Palavra, e Direito é palavra, é sua essência, não palavra sem conteúdo, mas A Palavra, que dá sentido ao Ser, O Verbo ou Logos. O sentido do Direito decorre do uso da palavra, colocada no texto da lei, nos atos jurídicos e na decisão judicial. Interpretar a Lei é obter seu Sentido, seu Espírito, a Vontade Geral, o Espírito Santo, o Logos.

A Lei é expressão do Sujeito, pelo que na sua interpretação o Sujeito identifica o Direito, a Lei, na norma, no texto normativo, significado e entendimento esses que estão no próprio Sujeito, que É a essência do Direito, com sua Consciência uniplurissubjetiva, como Eu Sou.

A decisão judicial é palavra especial, pois é aquela que confere o sentido do Direito para os casos julgados pela máxima autoridade pública, aquela com competência para dizer o significado da Lei, com grandes reflexos na vida das pessoas. Não é sem motivo que a religião monoteísta tem uma conotação jurídica, em que a interpretação da Lei tem fundo religioso. A comunidade gira em torno da Lei, sendo o sinédrio um tribunal ao mesmo tempo político, jurídico e religioso, para não falar na charia, ou sharia.

Também no Ocidente a comunidade gira em torno da Lei, mas o sentido da Lei foi capturado por ideologias materialistas, em favor de um comunismo material e de um capitalismo de mercado, em que a vida se perdeu, o espírito ficou alienado de sua origem, da Vontade Geral. Assim, a função do juiz, como guardião da Constituição, da Vontade Geral, é dar vida, dar sentido à Lei.

Deus se levanta no conselho divino, em meio aos deuses ele julga: ‘Até quando julgareis injustamente, sustentando a causa dos ímpios? Protegei o fraco e o órfão, fazei justiça ao pobre e ao necessitado, libertai o fraco e o indigente, livrai-os da mão dos ímpios! Eles não sabem, não entendem, vagueiam em trevas: todos os fundamentos da terra se abalam. Eu declarei: Vós sois deuses, todos vós sois filhos do Altíssimo; contudo, morrereis como um homem qualquer, caireis como qualquer dos príncipes‘. Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois as nações todas pertencem a ti!” (Salmo 82).

Como o Salmo ressalta, as autoridades são deuses, especialmente os magistrados, mas deuses que também são julgados, pois toda autoridade vem do Deus Altíssimo, que julga os demais deuses. Jesus Cristo citou expressamente esse Salmo, dando-lhe especial valor. E o cristianismo completou sua interpretação, indicando que os jurisdicionados, aqueles julgados, do mesmo modo, são deuses, como ocorreu com o próprio Jesus, que reconheceu a autoridade de seu julgador.

Jesus respondeu: ‘Você não teria nenhuma autoridade sobre mim, se ela não lhe fosse dada por Deus. Por isso, aquele que me entregou a você, tem pecado maior’” (Jo 19, 11).

Outrossim, a autoridade dos juízes é dada por Deus, pelo Logos, para o serviço divino de fazer Justiça, especialmente ao pobre e ao necessitado, e por isso os juízes são chamados deuses pelo salmista, na medida em que a autoridade pública é uma autoridade que vem de Deus, do Espírito, para o bem, a realização do Reino de Deus, em que todos os seres humanos são deuses e devem ser preservados, ainda que provisoriamente possa estar demoníaca, para servir à Besta, para a qual os homens são coisas, e podem ser usados.

Por isso, acatando a Vontade Geral, decido pela Vida, pelo Ser, pela Eternidade, para mim, Eu Sou a fonte do Direito, não como ego, como pessoa, mas como Humanidade com consciência de integrar o Sujeito, submisso à Lei, à Constituição, à Vontade Geral, submisso a Deus, ao Logos, como cristão, portador de razão, como filho do Homem, como manifestação do Ser, da Consciência Una, como imitador de Jesus Cristo, porque, apesar de minhas falhas e imperfeições, de por vezes fazer, como são Paulo, o mal que não quero (Rm 7, 19), vivo para Ser Um com Deus, com o Logos, para servir à Sua Vontade Geral, cujo sentido está na interpretação autêntica da Constituição, em que pese a deturpação provocada pela vontade da maioria, à esquerda materialista ou à direita amante do dinheiro, até mesmo no Supremo Tribunal Federal, olimpo moderno, cujos deuses também morrerão e cairão como qualquer dos príncipes…

A velocidade do tempo

O tempo é um dos maiores mistérios do conhecimento humano.

Giacomo Marramao tem uma obra que recomendo, Kairós: Apologia del tiempo oportuno, sendo que tive acesso a uma tradução para o espanhol de Helena Aguilà, da Editora Gedisa, de Barcelona, depois de ver sua menção em um artigo jurídico. No prólogo à edição castelhana, o autor fala da origem do termo tempo, com significação tanto cronológica como meteorológica, palavra de origem incerta que pode ser oriunda de “teino”, indicando estender ou estirar, ou de “temno”, com significado de cortar. Além disso, menciona seus três planos de exposição, primeiro falando sobre o sentimento de tempo ou seu sentido interno, em segundo lugar, sobre a síndrome temporal moderna da pressa, e, finalmente, sobre os aspectos práticos e normativos da questão, para então concluir sobre a ideia de kairós, como tempo oportuno, o tempo propício, o único que permite o encontro entre projeto e realidade existencial, a união do tempo público com o tempo privado, o tempo da vida e o tempo do mundo.

O tempo, assim, é objeto de estudo tanto da filosofia quanto da ciência, pois se liga a conceitos de movimento, duração, instante e eternidade.

A física newtoniana se baseava em um tempo absoluto e um espaço absoluto, enquanto a relatividade de Einstein se afasta dessas ideias, defendendo a relatividade do tempo.

A filosofia e a ciência que vieram desde a antiguidade até Newton dividiam o mundo em duas esferas, uma terrestre e outra celestial, pelo que havia um tipo de matéria das coisas da terra, como nós, os animais, as plantas etc, e outro de matéria das coisas do céu, como o sol, a lua, as estrelas e os deuses. Newton, ressalte-se, dedicou a maior parte de seu tempo estudando, não física, mas, alquimia e teologia, inclusive fazendo previsões sobre o tempo de cumprimento das profecias bíblicas, calculando que o Estado de Israel seria reconstruído no final do século XIX e que a segunda vinda de Jesus Cristo seria por volta do ano 2060; além disso, no âmbito da física, ele desenvolveu sua teoria gravitacional dizendo que a matéria celeste era da mesma substância da matéria terrestre, unificando, de certa forma, a realidade humana e a celestial.

Com a relatividade, a unificação incluiu também o conceito de tempo, pois para Einstein vivemos em uma realidade quadridimensional, com três dimensões espaciais unidas a uma dimensão temporal, ou seja, vivemos em um espaço-tempo de quatro dimensões. Para Einstein existe um valor absoluto, a velocidade da luz, o limite de velocidade que não pode ser ultrapassado pela matéria, sendo o tempo uma questão subjetiva, como se vê pelo paradoxo dos gêmeos, segundo o qual se um gêmeo viajar por um tempo na velocidade da luz e outro ficar na Terra, aquele que viajou estará mais jovem do que o que ficou, quando de seu encontro no retorno da viagem.

Segundo a relatividade, para aquele que está na velocidade da luz não há sensação de tempo passando, pelo que se o gêmeo viajar na velocidade da luz a um local cinco anos-luz de distância e voltar imediatamente, para ele não terá passado qualquer tempo, enquanto para o que ficou na terra terão decorridos dez anos. Essa é a matemática básica decorrente da relatividade.

O problema consiste no fato de que a relatividade não é o fim da ciência, então resta algo a ser entendido sobre o tempo, especialmente diante dos fenômenos quânticos, notadamente a não localidade que rege a realidade.

A própria análise dos fenômenos relativísticos demonstra que existe algo com capacidade de processamento de informação além da velocidade da luz, sendo que esse algo é tocado pela mente humana, a consciência.

Basta pensar na ideia de que se para o fóton, ou para quem viaja na velocidade da luz, tudo é instantâneo, ou seja, não há tempo de deslocamento, essa ideia não condiz com a realidade, pois efetivamente houve tempo do movimento de um ponto até o outro, um tempo objetivo, para nós calculado pela velocidade da luz. Ainda que a luz não perceba que durou o tempo entre a saída da estrela, há milhares de anos, e sua chegada a nossos sensores, essa não percepção de tempo é ilusória, na medida em que somente seria real se ela estivesse ao mesmo tempo na estrela e em nossos sensores, ou seja, se não houvesse espaço entre um ponto e outro, o que exige uma nova interpretação da relatividade ou da realidade.

Não há dúvida de que a relatividade é incompleta, como era a ideia gravitacional newtoniana, ainda que seu sucesso ainda esteja em curso, como o caso das ondas gravitacionais recentemente verificadas, pois se fosse a palavra final em termos físicos Einstein não teria passado as últimas décadas de sua vida tentando compatibilizá-la com a física quântica, no que não logrou êxito.

Penso que a relatividade deva ser substituída por uma teoria no âmbito quântico que reúna as dimensões espaço-tempo na mente, em que provavelmente se restaurem ideias de tempo absoluto e espaço absoluto, em que exista uma forma ou ideia real de universo, além da mera matemática abstrata. Essa questão é relevante no estudo da cosmologia, pois não se sabe a forma do universo, se é um plano, uma esfera ou como uma sela de cavalo, tendo a forma do universo conexão com a questão do tempo.

Como salientado, Newton juntou matéria terrestre e matéria celeste no mesmo espaço, e Einstein reuniu espaço com tempo, criando o espaço-tempo.

Tanto espaço como tempo são informações, pois contamos espaço e tempo, pelo que informação é espaço, e informação é tempo. Informação vem do latim, informare, que tem o sentido de dar forma ou modelar, e forma significa figura ou imagem, ou ideia. Assim, tempo é ideia, tempo é símbolo, tempo é significado.

Portanto, a correta compreensão do espaço-tempo está ligada à correta concepção de uma ideia, de uma mente, podendo sua percepção ser subjetiva, como na relatividade, ou objetiva, com uma racionalidade global, como na religião, o que não foi alcançado pela ciência, mas provavelmente está ligado à proposta de David Bohm de existência de um holomovimento, uma totalidade indivisível e incomensurável e uma ordem implicada. Entendo que a realidade do tempo se liga a uma unidade psíquica além dos números, além da abstração.

Assim, chegamos à questão da velocidade do tempo, à percepção atual de que o tempo passa cada vez mais rápido, o que concluo decorrer do fato de que nunca se perdeu tanto tempo na história da humanidade, nunca se dedicou tanta atenção a coisas fúteis, como ocorre no mundo de consumo em que vivemos. Quantitativamente, somos mais de sete bilhões de pessoas produzindo e consumindo informações, o que nunca havia ocorrido. E uma alteração quantitativa leva à mudança qualitativa, como nos elementos químicos, feitos das mesmas partículas, com quantidades maiores que levam a qualidades diversas. A mudança quantitativa leva ao salto quântico, à nova qualidade.

Tempo é informação, que deve ser processada, pelo que o tempo de processamento de informação é tempo gasto, como ocorre com o computador.

Quanto mais tempo gastamos em coisas desimportantes, menos tempo temos para aquelas que realmente valem a pena. Se nossa atenção é voltada a informações inúteis, e se tempo é informação, não estamos vivendo corretamente o tempo, estamos perdendo tempo, o tempo flui subjetivamente com mais rapidez. A pouca qualidade do tempo vivido com muitas coisas sem valor espiritual leva à percepção coletiva de tempo passando rapidamente.

O fato de o tempo ser simbólico nos permite entender a questão do processamento da informação, pois podemos contar de um até dez, em que temos dez cortes de tempo, ou simplesmente contar o número dez, que é uma unidade com significado relativo a dez outras unidades, sendo a dezena uma qualidade de outra quantidade. Como a humanidade está contando coisas cada vez menores, mais objetos, está perdendo a noção da unidade maior, da vida, da significação. Uma pessoa vale mais que um milhão de carros. Além disso, podemos entender o conceito de um milhão de anos, ou dez mil anos, sem precisar viver individualmente esse tempo. Em termos espirituais, é possível até mesmo a vivência de um tempo maior do que o da vida humana, como no caso do autor do Apocalipse, que teve uma experiência simbólica de milhares de anos, ou seja, uma elevada experiência espiritual significou o entendimento, talvez a vivência, de muito tempo quantitativo e qualitativo.

E a sensação da passagem rápida de tempo é coletiva porque a própria consciência é coletiva, a razão é coletiva, como destaca Amit Goswami.

Quando observo, tudo que vejo é o todo do mundo da manifestação, mas isso não é solipsismo, porque não há um eu individual que observa em oposição a outro eu. Erwin Schrödinger teve razão quando disse: ‘A consciência é um singular para o qual não existe plural’” (GOSWAMI, Amit; REED, Richard E.; GOSWAMI, Maggie. O universo autoconsciente: como a consciência cria o mundo material. Trad. Ruy Jungmann. São Paulo: Aleph, 2007, p. 111).

Para entender a orgânica quântica é preciso o uso de uma consciência não local, uma consciência global e coletiva.

Uma consciência que pode produzir instantaneamente o colapso a distância da função de onda de um fóton terá de ser em si não local, ou transcendente. Em vez de considerar a não-localidade como uma propriedade mediada por sinais superluminosos, portanto, o idealista postula que a não-localidade é um aspecto essencial da função de onda do sistema correlacionado – e, portanto, uma característica da consciência” (Idem, pp. 148/149).

A percepção de falta de tempo é coletiva, todos percebemos o tempo avançando rapidamente, porque a consciência é coletiva, e daí a sensação compartilhada de que o tempo passa rápido, porque estamos perdendo nossos valores. É lógico que isso vale para as pessoas que estão ligadas à mesma ideia de mundo, do atual mundo globalizado, que vivem essa consciência humanitária, ligada à história da unificação dos grupos humanos em uma comunidade global e a essa respectiva consciência.

Desse modo, provavelmente para aqueles que vivem isolados, como os silvícolas, as pessoas que vivem no campo ou sem conexão com as informações dos movimentos humanitários coletivos, e para os que vivem o tempo da vida, a sensação da passagem de tempo não seja a mesma.

Outrossim, nós somos aqueles com capacidade de perceber os sinais dos tempos, unindo o tempo da vida individual ao tempo da vida coletiva, o tempo da humanidade.

Os fariseus e os saduceus vieram até ele e pediram-lhe, para pô-lo à prova, que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. Mas Jesus lhes respondeu: ‘Ao entardecer dizeis: Vai fazer bom tempo, porque o céu está avermelhado; e de manhã: Hoje teremos tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. O aspecto do céu, sabeis interpretar, mas os sinais dos tempos, não podeis! Uma geração má e adúltera exige um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal de Jonas. E, deixando-os, foi-se embora” (Mt 16, 1-4).

Aprendei da figueira esta parábola: quando o seu ramo se torna tenro e as suas folhas começam a brotar, sabeis que o verão está próximo. Da mesma forma também vós, quando virdes todas essas coisas, sabei que ele está próximo, às portas. Em verdade vos digo que esta geração não passará sem que tudo isso aconteça. Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão. Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai” (Mt 24, 32-36).

Jesus Cristo é a própria Consciência, a unidade da humanidade além dos tempos individuais, tendo nos mostrado os sinais dos tempos, tendo nos dado as informações para que possamos entender o tempo, o tempo oportuno, o tempo de Deus, o tempo kairós, pelo que devemos aproveitar o tempo, antes que o tempo acabe e não mais seja possível estendê-lo ou cortá-lo, antes que chegue a eternidade…