A Passagem

Passagem, Páscoa ou Pesach é a festa mais importante do Cristianismo, porque rememora a ressurreição do Messias, o início corporal da nova criação, esta que é um longo processo que se completará após o milênio, o período em que a humanidade inteira se dedicará ao Criador, produzindo o melhor a criatura e a criação podem oferecer, até que, enfim, céu e terra estejam reunificados.

O vídeo “Heaven and Earth” (https://www.youtube.com/watch?v=Zy2AQlK6C5k&t=181s), que conta com legenda em português, explica que a histórica bíblica se refere ao restabelecimento da unidade entre Criador e criatura pela cruz e ressurreição de Jesus, unidade que havia sido prejudicada pelo pecado de Adão, dando uma amostra do sentido da Passagem definitiva.

Ao contrário do que muitos pensam, a religião não é uma questão privada, não é um tema da individualidade, é uma forma de expressão cultural, que trabalha a vida humana em sociedade, com um sentido espiritual. Jesus não foi crucificado apenas porque expressava ideias diferentes, mas porque suas ideias tinham importantes impactos no modo de vida, nas relações públicas e no exercício do poder social.

Nesse sentido, tanto a primeira Passagem, que representa a libertação do povo judeu da escravidão do Egito, com inegáveis contornos comunitários, como a segunda e definitiva, por meio da qual a morte foi vencida, são questões públicas, temas coletivos, muito além da crença individual ou da esfera mais íntima da pessoa.

A religião é uma forma de pensar coletivamente, por meio de uma simbologia que vincula os membros da comunidade a um determinado sentido existencial, sendo que no mundo pós-iluminista a religiosidade tradicional foi substituída por teorias políticas e ideológicas pretendendo dar significado à vida humana. O artigo “Religiões jurídicas” (https://holonomia.com/2017/08/10/600/) já abordou o tema.

Ontem assisti a um vídeo com Douglas Murray (https://www.youtube.com/watch?v=lp4XhZytdD0), em que comenta seu livro “The Madness of Crowds: Gender, Race and Identity” (Há versão do livro em português: “A loucura das massas: Gênero, raça e identidade”), chegando a comentar sobre a religiosidade das questões que aborda, e no tempo 32m29s do vídeo é transcrita uma passagem do livro: “While the endless contradictions, fabrications and fantasies within identity politics are visible to all, identifying them is not just discouraged but literally policed. and so we are asked to agree to things which we cannot believe” (Embora as infinitas contradições, fabricações e fantasias da política de identidade sejam visíveis para todos, identificá-las não é apenas desencorajado, mas literalmente policiado. E assim somos solicitados a concordar com coisas que não podemos acreditar). Após é feita outra citação, referente à situação de um cidadão da União Soviética, comentando sobre o sistema comunista, em que o que era esperado dos cidadãos era a prática da mentira, insistindo em questões que sabiam que não eram verdadeiras.

Em tempos de fake news é cada vez mais difícil distinguir verdade e mentira, a informação de qualidade desvinculada de interesses subalternos é quase um artigo de luxo, e por isso é importante lembrar que a Verdade é um dos temas fundamentais do Cristianismo.

E na medida em que cada vez mais somos obrigados a conviver com mentiras, inclusive no mundo jurídico, que tem chancelado a prática da mentira como doutrina oficial do Estado, e das grandes corporações, como destacado por Douglas Murray, torna-se importante resgatar a ideia de Verdade que é defendida por Jesus em várias passagens do Novo Testamento:

Seja o vosso ‘sim’, sim, e o vosso ‘não’, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5, 37)

Ele (o diabo) foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44).

Assim, enquanto, de um lado, um espectro do pensamento atual força a mentira a todos, por meio das políticas identitárias, o que é claramente anticristão, não se pode negar que parcela significativa do outro lado da discussão também rejeita a essência do ensinamento do Messias, insistindo na presença física em templos construídos por mãos humanas, colocando em risco, desnecessariamente, a saúde das pessoas no período mais mortal da pandemia no país, além de contrariar a Verdade do Cristo.

Uma das passagens mais importantes de toda a Bíblia, teologicamente falando, é a que descreve a conversa de Jesus com a mulher samaritana, e já foi objeto do artigo “O terceiro Templo” (https://holonomia.com/2019/04/09/o-terceiro-templo/). Tal episódio trata tanto do comportamento amistoso perante o povo que teria praticado a idolatria, quanto porque conversava com uma mulher. Mas o mais importante é sobre a questão da adoração, do culto devido a Deus.

Crê, mulher, vem a hora em que nem sobre esta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora — e é agora — em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, pois tais são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4, 21-24).

A adoração, o culto, a Deus, portanto, independe de localidade e oportunidade, na medida em que o Cristão adora o Pai em sua vida, a todo momento, em Espírito e Verdade, não havendo locais especiais ou momentos especiais para que estejamos na presença do Pai, que é onipresente e onisciente. O Cristianismo é exatamente o processo de “criar pequenos espaços do Céu onde as pessoas podem estar na presença de Deus”, mesmo no mundo do pecado e da morte, até que os céus e a terra se encontrem definitivamente, quando não mais haverá pecado ou morte.

Portanto, por mais que a confraternização, o encontro dos irmãos, seja um momento muito especial, para a celebração da Passagem, especialmente neste tempo de pandemia, não é necessário aglomerar em construções humanas, bastando a adoração a Deus em Espírito e Verdade, o que pode ser feito na refeição familiar, “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18, 20). Jesus não mente, seu testemunho é verdadeiro, e, por isso, quando dois Cristãos, com o coração voltado para Deus, de uma forma sincera, se reúnem, em Espírito e Verdade, mesmo em sua casa, Jesus está ali, e também o próprio Deus, o Pai, torna-se presente.

O culto Cristão, portanto, muito mais do que a reunião pública corporal em determinada construção feita por mãos humanas, é santificação permanente, mesmo no mundo, é o testemunho contínuo da Verdade, o corpo habitado pelo Espírito (santo) de Deus.

Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. Eles não são do mundo como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é verdade. Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E, por eles, a mim mesmo me santifico, para que sejam santificados na verdade” (Jo 17, 15-19).

O culto cristão é, antes de tudo, a vida de santidade na Verdade. No momento de seu julgamento, Jesus reafirmou que seu compromisso é (com) a Verdade.

Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37).

Infelizmente, não vemos nossos líderes dando testemunho da Verdade, e chega a ser muito preocupante que os principais nomes da política nacional estejam mergulhados em tantas falsidades, tentam convencer que são vítimas de mentira jurídica ou que não disseram o que todas as pessoas minimamente informadas sabem que falaram.

Precisamos de novos governantes, verdadeiros Cristãos:

“Ora, se aquilo que eu disse anteriormente sobre a importância política do Templo tem alguma relevância neste contexto, significa que a redefinição do Templo feita por Jesus também era parte do que os evangelistas viam como o estabelecimento de um reino muito superior ao de Herodes ou ao de César. (…) Entretanto, para uma visão genuinamente judaica de teocracia, Deus precisa estar presente. E é isto que os evangelhos – especialmente João, mas também os demais – oferecem: a habitação de Deus em Jesus, o Messias e, por meio dele, sua habitação no Espírito. O próprio Jesus é o novo Templo, no coração da nova criação; contudo, chegará o dia em que toda a terra se encherá da glória de Deus, como as águas cobrem o mar (Isaías 11:9). Por isso, esse Templo, como o tabernáculo no deserto, é um templo móvel. No poder do Espírito, o povo de Jesus se propaga e passa a ser a habitação de Deus aonde vai, antecipando o cumprimento da promessa por meio de sua vida e obra comunais moldadas pela cruz.

(…) Infelizmente, diminuímos a cruz, imaginando-a apenas como um mecanismo por meio do qual podemos escapar da nossa perversidade egoísta ou como exemplo de alguma verdade benevolente. Contudo, trata-se de algo muito, muito maior. A cruz é o momento em que a história de Israel alcança seu ponto culminante; o momento em que, enfim, sentinelas nas muralhas de Jerusalém veem o seu Deus retornar em seu reino; o momento em que o povo de Deus é renovado para ser, finalmente, o sacerdócio real que tomará posse do mundo, não por amor ao poder, mas pelo poder do amor; o momento em que o reino de Deus vence os reinos desde mundo. É o momento em que uma grande porta antiga, trancada e lacrada desde a nossa primeira desobediência, escancara-se de repente, revelando não apenas o jardim, aberto mais uma vez para nosso deleite, mas a cidade vindoura, o jardim-cidade que Deus sempre planejou e que agora nos convida a adentrar e a edificar consigo. O poder das trevas, um obstáculo no caminho da visão do reino, foi derrotado, destronado, anulado. Suas legiões ainda farão muito barulho e causarão muita dor, mas a vitória definitiva agora está assegurada. Essa é a visão que os evangelistas nos oferecem ao unirem o reino e a cruz” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, pp. 251-252).

A Passagem para o Reino de Deus, outrossim, não pode ser feita por meio de falsidades e discursos mentirosos, como o fazem as legiões do poder das trevas, mas apenas pela Verdade, pela vida e obra comuna moldada pela cruz, o único modo possível de se viver na cidade de Deus, na autêntica civilização.