Os limites da racionalidade e a Fé

O nível atual dos estudos científicos permite apontar três grandes fronteiras da racionalidade humana.

A primeira é o princípio da incerteza de Heisenberg, que impõe limites ao nosso conhecimento sobre a causalidade no mundo material, informando que, notadamente no nível quântico, há um ponto a partir do qual a precisão científica não pode avançar, pois ou se determina a velocidade ou a posição de uma partícula subatômica. Há, contudo, um tema filosófico da maior importância sobre esta questão, se tal princípio diz respeito a uma limitação epistemológica de nosso conhecimento, derivado da insuficiência atual de nosso aparato experimental, ou se elucida uma condição do próprio mundo natural, que seria ontologicamente determinado por probabilidades, pelo acaso.

A segunda restrição está no teorema da incompletude de Gödel, o qual demonstrou que a matemática é ou incompleta ou inconsistente, ou seja, que o sistema de axiomas suficientemente complexo não permitirá a prova plena de seus teoremas. São necessários sempre sistemas matemáticos superiores ou mais complexos para comprovarem os inferiores, mantendo a incompletude, mas em outro nível.

O terceiro extremo de nossa racionalidade pode ser encontrado na lei dos grandes números de Bernoulli:

“Assim, o teorema de Bernoulli assevera que os segmentos mais curtos de sequências casualoides mostram, muitas vezes, grandes flutuações, enquanto que os segmentos longos sempre se comportam de modo que sugere constância ou convergência; diz o teorema, em suma, que encontramos desordem e aleatoriedade no pequeno, ordem e constância no grande. É a esse comportamento que se refere a expressão ‘lei dos grandes números’” (Karl Raimund Popper. A lógica da pesquisa científica. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 2013, p. 161).

Tal normativa diz respeito às probabilidades, segundo o que, em números muito grandes e aleatórios, casualoides, surgirá uma constância específica, que pode ser estatisticamente mensurada, mas sem que seja possível determinar a causa ou a precisão exata de sua incidência, que será regida pela probabilidade. Assim, mesmo a Matemática, a mãe do entendimento científico moderno, mostrou-se uma disciplina com refreamentos epistemológicos de alta profundidade..

Da perspectiva atual, portanto, a definição sobre a origem última do mundo e de sua ordem não pode ser determinada racional ou empiricamente. Em síntese, isso significa que a experiência não pode provar ou afastar a existência de Deus.

As opções filosóficas principais para sair dessa situação fronteiriça são basicamente três: o abandono de uma tentativa de se alcançar esse conhecimento final, por uma postura agnóstica; a crença em um caos universal, ligada ao pensamento ateísta; e a Fé na ordem essencial do mundo, referente ao pensamento religioso.

Da perspectiva intelectual, vale dizer, é esperada uma coerência mínima, ou máxima, de cada uma dessas posturas, vinculando os acontecimentos do mundo aos princípios de cada uma dessas visões, incluindo tanto os eventos naturais como as normas jurídicas, da Física e da Biologia ao Direito e à Política.

Por mais que as ideias religiosas tenham dominado o mundo, desde sempre, o que, bem ou mal, permitiu que chegássemos até aqui, nos últimos cem ou duzentos anos a influência ateísta ganhou uma força gradativamente maior na sociedade ocidental, passando, nas últimas décadas, a dominar a política e o pensamento jurídico, valendo-se do argumento da laicidade do Estado, do que é exemplo mais claro a paradoxal apropriação do conceito de dignidade humana, construído com grande sacrifício humano, em termos literais e simbólicos, e fundado numa concepção espiritual de mundo, o que foi sequestrado pela doutrina ateísta, com a utilização desse conceito para a defesa de condutas totalmente contrárias àquele modo de entender as coisas, o qual permitiu o florescimento da dignidade humana.

O que nossa sociedade tem feito, na prática, portanto, é cada vez mais abandonar a ideia de uma ordem natural do mundo, fruto de criação divina, e adotar a postura filosófica materialista, no sentido de que o universo é mesmo regido pelo acaso, o que vale para a humanidade e sua natureza, deixando de lado a concepção segundo a qual nossa racionalidade é dependente de uma que lhe é superior, ligada à realidade espiritual.

A opção por uma racionalidade aleatória, que rege o ponto de vista ateísta e materialista do mundo, ou por uma fundante de toda a realidade, associada ao pensamento religioso e espiritualista, como já salientado, é, em última instância, um ato de fé.

Se Deus não existe, nossa existência é determinada apenas por nossas escolhas e pela mais pura sorte, não havendo no universo uma inteligência superior à humana, pois a hipótese alienígena mostra-se cada vez mais distante à medida em que avançam nossos conhecimentos físicos e cosmológicos, que apontam para a unicidade da vida em nosso planeta.

De minha parte, entre a sorte e a Providência, ainda fico com a última, porque, mesmo com o incrível avanço científico e tecnológico dos últimos tempos, continuo considerando a melhor hipótese filosófica e existencial para interpretar os dados e as pesquisas acadêmicas mais fundamentais, continuo a acreditar, a ter Fé, numa Razão superior, no Logos.

Jó tomou a palavra e disse: Sei muito bem que é assim: mas como poderia o homem justificar-se diante de Deus? Se Deus se dignar pleitear com ele, entre mil razões não haverá uma para rebatê-lo. Quem entre os mais sábios e mais fortes poderá resistir-lhe impunemente?” (Jó 9, 1-4).