A crise ideológica chegou ao papado

Não se pode ignorar a fala de Francisco, que indiretamente negou os fundamentos não só do Cristianismo, do que certamente ele não tinha ciência, porque tais fundamentos são hoje obscuros para a maioria absoluta da população mundial, pelos atuais entendimentos teológicos majoritários, como também viola preceitos estabelecidos pela própria Igreja Católica Apostólica Romana.

O papa do fim do mundo talvez seja mesmo o papa do fim do mundo.

Francisco está amando um ídolo, uma imagem, a criatura, e negando o criador, em sua fala pretensamente amorosa. “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5, 29), pelo que não se pode violar as normas da razão, da natureza, e da inteligência, para obedecer a sentimentos de falsa piedade humana.

No vídeo “Papa Francisco e a união civil homossexual” (https://www.youtube.com/watch?v=7DK6Apebw3k), a questão controversa é bem enfrentada, mostrando como a fala de Francisco não só ocorreu, porque não contestado tal fato pelos canais oficiais do Vaticano até o momento, como contraria a doutrina oficial da Igreja. Expõe, ainda, a ideia de que o homossexual pode pertencer a uma família, que não deve expulsá-lo da convivência tão somente por causa de sua opção sexual, desde que mantenha comportamento adequado, o que é parte do tratamento cristão e humano às pessoas, mas que isso não implica em reconhecer a identidade entre a família formada por homem e mulher e o agregado de homossexuais.

Ao defender uma lei de convivência civil, ou união civil, entre homossexuais, Francisco contraria texto oficial da doutrina oficial da Igreja:

“A Igreja ensina que o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimónio, significaria, não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade actual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do património comum da humanidade. A Igreja não pode abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade”. (http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homosexual-unions_po.html)

Tom Wright também se manifesta sobre o tema (https://www.youtube.com/watch?v=xKxvOMOmHeI&t=29s), dizendo que a ideia de casamento, por milhares de anos, e em várias culturas, sempre significou a união entre macho e fêmea, entre homem e mulher, e que a ideia de mudar o significado da palavra casamento (que valeria para a união civil) para incluir pares homossexuais faz parte de uma agenda que implica alterar o significado de outros conceitos sociais fundamentais. Essa agenda é a doutrina materialista, atribuída ao falso profeta, que pretende se passar por mensageiro da verdade, quando o que prega é o embuste e a mentira, com o embuste de ser argumento científico.

Outro vídeo que recomendo é o de Yago Martins, no seu canal Dois Dedos de Teologia (https://www.youtube.com/watch?v=Kb7Ru6vge_4&t=620s), abordando a questão homossexual nas escrituras, com o respeito que a questão merece ser enfrentada, sem demonizar os gays, comparando seus pecados a outros praticados por pessoas heterossexuais.

O que se pode dizer é que Francisco está sob a influência do canto da sereia, tendo perdido contato com a realidade teológica que deveria defender, porque sua aceitação da reiterada conduta anômala, ou mesmo de sua normalização, significa não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade atual, mas também ofusca valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade, abdicando de defender tais valores, alcançados para o bem dos homens e de toda a sociedade.

Uma coisa é o respeito devido às pessoas homossexuais, outra, muito distinta, é aprovar os comportamentos praticados segundo essa orientação inferior, conferindo-lhes dignidade jurídica de normalidade, amparo legal ou proteção social. Uma analogia pode ser feita com a psicopatia, o que vale para outras deficiências mentais ou fisiológicas, porque o psicopata não tem direitos como psicopata, ele tem direitos por ser pessoa humana, não se podendo falar em direitos associados àquela qualidade negativa, na medida em os direitos são vinculados às pessoas, por sua dignidade ao menos potencial, ou, quando muito, às qualidades positivas decorrentes de determinada função social relevante, vinculados à sua utilidade em uma sociedade meritocrática, fundada em determinados valores, de origem espiritual, em que determinados bens são juridicamente protegidos.

Uma questão básica da evolução da vida, que culmina na humanidade, é a diferenciação sexual, porque os seres vivos nas camadas mais inferiores da escala evolutiva não têm essa distinção, de modo que negar a diferença entre as qualidades e funções biológicas é rejeitar a realidade das coisas e adotar procedimento anticientífico. O pensamento igualitário não pode ser levado ao extremo da irracionalidade, porque a ideologia não tem o poder de alterar a realidade das coisas, porque ainda que a mentira consiga atuar por algum tempo, a força da Natureza e da Verdade, no fim das contas, sempre irá se impor.

Tomando-se o exemplo da corrente elétrica, os polos positivo e negativo são distintos, sendo que o funcionamento das máquinas é baseado nessa oposição, que não pode ser ignorada, sob pena de mal funcionamento ou acidentes. Contudo, na vida humana pretende-se negar a distinção entre XX e XY, o que, deve-se repetir, é contrário à metodologia científica. Caso um gráfico seja montado alterando-se indistintamente os eixos X e Y, não se poderá saber qual informação está sendo passada, de modo que a devida especificação das características, qualidades e funções é crucial para a correta atividade científica, pelo que equiparar situações tão distintas quanto as uniões heterossexuais e as homossexuais é adotar comportamento indigno de acolhimento como discurso científico, tratando-se, na verdade, de ideologia da pior espécie, a qual, infelizmente, tem sido acolhida por Francisco.

Portanto, Francisco peca tanto contra a Teologia quanto contra a Ciência, contra a coerência racional, o pensamento estabelecido em racionalidade fundada na realidade das coisas e no pensamento inteligente, que remete a Jesus Cristo e aos profetas, aos verdadeiros homens da Ciência, em que pese a ideologia materialista que tomou conta da divulgação científica nas últimas décadas, alterando até mesmo as orientações da Organização Mundial de Saúde, que passou a entender que X e Y são a mesma coisa.

E caso se considere a legislação na sua devida dignidade, como aquilo que deve representar a própria ordem natural, direcionando corretamente o sentido da evolução humana segundo melhores ideias, também há que se rejeitar a proposta de união civil homossexual.

Isso não significa não conferir direito às pessoas, como a participação patrimonial em sociedades de fato, ou a convivência respeitosa em ambientes públicos, mas dentro de determinados limites bem estritos, com a discrição necessária para não causar escândalo aos pequeninos, porque igualar ou mesmo aproximar a família que funda e sempre fundou a sociedade a agregados decorrentes de vontades viciadas é ofuscar os valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade, e abdicar de defender tais valores, alcançados para o bem dos homens e de toda a sociedade.

A regulamentação dos comportamentos tem também uma função pedagógica, mostrar a experiência adquirida quanto a determinadas ações, para evitar males delas decorrentes, de modo que o exemplo de comportamento é de grande relevância, pela função educadora, para o bem e para o mal.

Caso alguém escandalize um destes pequeninos que creem em mim, melhor será que lhe pendurem ao pescoço uma pesada mó e seja precipitado nas profundezas do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! É necessário que haja escândalos, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem! Se a tua mão ou o teu pé te escandalizam, corta-os e atira-os para longe de ti. Melhor é que entres mutilado ou manco para a Vida do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres atirado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o e atira-o para longe de ti. Melhor é que entres com um olho só para a Vida do que, tendo dois olhos, seres atirado na geena de fogo” (Mt 18, 6-9).

Antes dessa passagem o Mestre tinha acabado de falar: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3).

O Evangelho tem a função de anunciar o Reino dos Céus, em suas dimensões tanto espiritual como política, de modo que o correto comportamento social é fundamental para seu desenvolvimento, e é exatamente contra esse modelo de ação que Francisco se coloca ao apoiar a malsinada união civil.

As crianças são puras, e também muitos crentes, de modo que é realmente um escândalo a fala de Francisco, pela importância de sua posição social, o que leva para o centro do papado o erro e a doutrina enganosa de homens que têm corrompido a sociedade e seu ideário de vida santa, revertendo a doutrina cristã em direção à carne, e à carne viciada, impedindo que as pessoas se tornem como as crianças, criando obstáculos para a entrada no Reino dos Céus.

Esquece Francisco o caminho em direção à santidade que dever orientar a caminhada humana, segundo a doutrina que deveria expressar.

Os filhos deste século casam-se e dão-se em casamento; mas os que forem julgados dignos de ter parte no outro século e na ressurreição dos mortos, nem eles se casam, nem elas se dão em casamento; pois nem mesmo podem morrer: são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição” (Lc 20, 34-36).

O apóstolo Paulo chega a falar que a castidade é melhor e mais santa do que a vida conjugal, mas não impõe o celibato, destacando a direção do melhor comportamento humano.

Quisera que todos os homens fossem como sou; mas cada um recebe de Deus o seu dom particular; um, deste modo; outro, daquele modo. Contudo, digo às pessoas solteiras e às viúvas que é bom ficarem como eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se, pois é melhor casar-se do que ficar abrasado” (1 Cor 7, 7-9).

Os tempos são realmente sombrios, porque quem deveria ser luz está divulgando a doutrina das trevas:

Assim, se a luz que existe em você é escuridão, como será grande a escuridão” (Mt 6, 23).

A grande família

Os conceitos de família e história são interligados, pois cada pessoa tem origem em uma determinada família, com uma história particular, o que vale mesmo para os órfãos, cuja peculiaridade é exatamente a criação fora do ambiente familiar tradicional, fato que marca sua história pessoal.

Cada um de nós participa não só de uma família pessoal, que vai sendo alargada quanto mais se volta no tempo, até que chegamos à conclusão de que integramos a grande família humana.

Em alguns casos, contudo, as famílias sanguíneas, de certa forma, interagem com a história da própria humanidade, por estarem envolvidas em processos coletivos de grande amplitude, o que vale também para grupos sociais, formados pela congregação de diversos laços familiares e comunitários. Podemos vincular nossa história pessoal, ainda, ao desenvolvimento nacional, ou ao de uma determinada ideia.

Da perspectiva mais geral, em termos de história secular, descendemos dos primeiros grupos humanos que provavelmente se desenvolveram no continente africano, e que depois se espalharam pelo globo.

Do ponto de vista religioso, a narrativa bíblica nos coloca todos como descendentes de Adão, e depois de Noé e, então, de Abraão, notadamente do ponto de vista cultural, dada a importância que referida figura tem para o judaísmo, para o islamismo e para o cristianismo. Esse é um modo de vinculação do indivíduo com uma comunidade mais ampla, que hoje é planetária.

Vale dizer que a ideia de fraternidade humana é dependente do ideário cristão, segundo o qual somos todos filhos de Deus, pelo que formamos a família humana.

Falando em família humana, neste fim de semana passei a gostar ainda mais daquela que considero a melhor música de todos os tempos, a Nona Sinfonia de Beethoven, pois descobri o significado da letra cantada pelo coro, da Ode à Alegria, poema de Friedrich Schiller, que trata exatamente desse assunto.

Atribuo meu pertencimento à humanidade à vida e obra de meu irmão mais velho, que é também o mais novo, Jesus, pois representa tanto a experiência de todas as gerações passadas, como a inocência da mais pura criança, em quem o velho e o novo se unem para a continuidade da tradição familiar. Ele reafirma os velhos valores, que permitem a existência e o desenvolvimento da comunidade:

Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que Iahweh, teu Deus, te dá. Não matarás. Não cometerás adultério. Não roubarás. Não apresentarás um falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a sua mulher, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo” (Ex 20, 12-17).

Se tais mandamentos foram os que permitiram o desenvolvimento da família de Israel, seu resumo em dois, por Jesus, sem deslembrar aqueles, foi a base para o desenvolvimento da civilização ocidental:

Amarás o Senhor teu Deus em todo o teu coração em toda a tua alma e em todo o teu entendimento. Este é o grande, o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos está suspensa toda a Lei e os Profetas” (Mt 22, 37-40).

Foi dentro desse ideário que minha família sanguínea foi criada, de forte tradição católica, e com alguma participação em eventos da história nacional. Depois de assistir a um vídeo sobre a história de Juiz de Fora, fui procurar na internet o nome de meu bisavô, Theodorico de Assis, para ver sua associação com a primeira usina hidrelétrica da América Latina, quando encontrei um texto que enfrentava a questão: https://revistas.ufpi.br/index.php/rbhm/article/download/3802/2200. Interessante notar no texto como havia uma preocupação social com os operários, fato que se comprova porque a eles foi dada a oportunidade de comprar os imóveis em que residiam, que pertenciam à Fazenda Floresta.

É certo que o pertencimento a tal família formou meu ideário de mundo, com importância na afirmação psíquica individual, especialmente pelo sentimento de pertencimento espiritual familiar. O mais importante, contudo, associado a esse sentimento familiar, porque significativo da concretização daqueles mandamentos arquetípicos da humanidade, encarnados em Jesus Cristo, foram os momentos de experiência humana mais profunda, ligados aos valores cristãos.

Foi e é por meio de uma formação familiar e cristã, com todos os defeitos e qualidades inerentes a toda família, que continuo a me desenvolver como indivíduo, sentindo-me honrado de pertencer tanto ao grupo sanguíneo que integro, do lado paterno como materno, como à própria humanidade, na sua melhor versão, naquela que preza pela alegria dos filhos de Deus, que sabem participar da grande família humana.

Abracem-se milhões!

Enviem este beijo para todo o mundo!

Irmãos, além do céu estrelado

Mora um Pai Amado.

Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?

Mundo, você percebe seu Criador?

Procure-o mais acima do Céu estrelado!

Sobre as estrelas onde Ele mora!

O conflito entre absolutos

Para introdução do assunto, vale comentar a ocorrência de recentes decisões envolvendo a soltura e a prisão de um cidadão considerado um dos chefes do PCC em São Paulo, liberado porque a ordem determinando a prisão preventiva não foi renovada em noventa dias, contrariando interpretação literal do art. 316, parágrafo único, do Código de Processo Penal, com posterior decisão, algumas horas depois, em sentido contrário, entendendo que a soltura causaria risco à ordem pública, mandando prender novamente o indivíduo. Os dois entendimentos representam visões opostas da realidade, ambos sustentando-se na legalidade, sendo evidente que não podem estar corretos ao mesmo tempo.

São, de fato, tempos estranhos, de conflito entre absolutos, entre as ideias e a realidade, ou entre ideias e/ou realidades. São concepções de mundo distintas, conceitos divergentes de ordem, sobre o Direito, o Estado, a vida humana em geral.

A cisão ideológica da atualidade é manifesta, e como os lados se amparam em fundamentos distintos, em absolutos opostos, da forma como o conflito se apresenta, não há solução amigável. Nesse tipo de situação, vislumbra-se uma única solução, a guerra, o embate aberto, intelectual e/ou corporal, em que um dos lados é sagrado vencedor e o outro perdedor. Quando há dois absolutos em conflito, o escopo natural, ou o resultado prognosticado, é a dominação de um sobre o outro, com ou sem concessões ao lado vencido.

Não é possível haver dois absolutos, apenas um, por definição, a noção de dois absolutos é contraditória, porque não podem ser conciliados.

Esse é um tema, como todos, em última análise, precipuamente teológico, ou há um Deus todo poderoso, absoluto, ou não há, sendo impossível um meio termo. Parte considerável da sociedade sofre influência dessa ideia, dando valor ao seu conceito de absoluto, enquanto outro lado, não compreendendo bem como conciliar a humanidade com aquela ideia absoluta, acaba cedendo a algum relativismo, o qual assume a posição de outro absoluto.

Temos, assim, nos tempos atuais, o conflito entre os absolutos de Deus e do homem, tornado o próprio fim último da existência, enquanto corporalidade. Na realidade, de outro lado, e para ser mais preciso, o conflito se dá entre as ideias humanas, porque o absoluto em si, Deus, está além dessa controvérsia, por sua própria natureza.

Por trás disso há uma concepção filosófica de humanidade, que pode ser remetida a uma interpretação do pensamento de Kant, ao dizer que apenas o homem é um fim em si mesmo, ideia cujo fundamento está no princípio de que “a natureza racional existe como fim em si” (Immanuel Kant. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. Tradução de Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 59).

Kant está falando da natureza racional como algo absoluto:

“Mas supondo que haja alguma coisa cuja existência em si mesma tenha um valor absoluto e que, como fim em si mesma, possa ser o fundamento de determinadas leis, nessa coisa, e somente nela, é que estará o fundamento de um possível imperativo categórico, quer dizer, de uma lei prática.

Agora eu afirmo: o homem – e, de uma maneira geral, todo o ser racional – existe com fim em si mesmo, e não apenas como meio para o uso arbitrário desta ou daquela vontade” (Idem, p. 58).

O problema da leitura dada a Kant está no fato de extrair uma interpretação que absolutiza o indivíduo, quando o que é absoluto é sua natureza racional, ligada à espécie humana, a qual, por sua vez, decorre da própria racionalidade em si, do próprio Logos, de Deus, pelo que, em Kant, em última análise, porque toda sua filosofia tem por escopo reservar um espaço intelectual para a existência de Deus, somente Deus é absoluto.

Assim, a se extrair uma interpretação coerente com a visão de mundo do próprio Kant, só há dignidade humana associada à ideia de Deus, o único absoluto, origem de tudo o que é um fim em si mesmo, a dignidade humana decorre do fato da participação no Espírito de Deus.

Contudo, temos hoje o homem como um absoluto independente de Deus, sem Espírito, o homem como fim em si mesmo em seus egoísmos, seus abortos, suas abominações, suas irracionalidades contrárias à natureza racional, como meio para o uso arbitrário desta ou daquela vontade.

Em certo sentido essa teoria que absolutiza o homem tem origem no Éden, na ideia de emancipar o homem de uma racionalidade que lhe seja superior, fazendo do homem o próprio deus, o que também tem sido aplicado a algumas de suas ideias.

O que vemos, portanto, numa dimensão espiritual, é a mesma batalhada original do gênero humano, é a humanidade lutando contra si e contra Deus, enfrentando a natureza racional, na tentativa de superá-la, é o homem fazendo-se absoluto, em detrimento de qualquer outro.

Mas não há dois absolutos, pelo que um dos dois deve sucumbir diante do outro, o que seja verdadeiro.

Do ponto de vista kantiano, segundo o qual a natureza racional existe como fim em si, o próprio homem é um instrumento, um meio, para o desenvolvimento da natureza racional, de modo que ao se submeter a Deus, como único e verdadeiro absoluto, a humanidade passa a participar de Sua natureza racional, e do autêntico absoluto.

Na perspectiva Cristã, nem o próprio Jesus Cristo se via como um fim em si mesmo, como algo absoluto em si, uma vez que ele não estava preocupado em satisfazer sua vontade pessoal: “não seja feito como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26, 39). E não estamos falando aqui de qualquer coisa, mas no cumprimento da profecia de Isaías, segundo a qual o Messias sofreria as maiores indignidades, como “homem do sofrimento e experimentado na dor; como indivíduo de quem a gente esconde o rosto, ele era desprezado e nem tomamos conhecimento dele” (Is 53, 3).

Jesus, outrossim, não considerou-se um fim e si mesmo, fez-se indigno para que pudéssemos ter a dignidade de sermos chamados filhos de Deus, ele foi um meio, um instrumento, para um bem maior. O Cristo é submisso a Deus, o único Deus, é muçulmano, obediente à Lei.

Na doutrina de Paulo, há uma grande controvérsia sobre a Lei, o que, de certo modo, continua até os dias de hoje, na forma de constitucionalismo, valendo ressaltar suas palavras, no sentido de que a letra mata e o espírito vivifica.

Nós também acreditamos em Jesus Cristo, a fim de nos tornarmos justos pela fé em Cristo e não pela observância da Lei, pois com a observância da Lei ninguém se tornará justo” (Gl 2, 16).

A Lei, portanto, também não é absoluta em sua literalidade, apenas seu Espírito o é. A Lei não é um fim em si mesmo, pois como afirma Carlos Maximiliano, deve o Direito ser interpretado inteligentemente, de não de modo que a ordem legal envolva um absurdo, pelo que a Lei serve a uma inteligência.

Sabemos que a Lei é espiritual” (Rm 7, 14), e, assim, enquanto o Espírito não for resgatado em Sua inteligência como absoluto, inclusive em suas manifestações carnais, às vezes aparentemente contrárias à lei, os conflitos permanecerão, porque, sem o sacrifício individual, de cada um e todos, pela observância da Lei ninguém se tornará justo, sem o Espírito não há como diferenciar a inteligência do absurdo.

A presença do ausente

“Vislumbra entretanto no médium do espírito o ausente como presente plenamente: pois o espírito não separará o ente do ater-se ao ente, nem o ente expandido, nem o ente aglomerado, na totalidade completamente segundo um cosmos ordenado” (Parmênides. Anaximandro, Parmênides, Heráclito. Os pensadores originários. Introdução de Emmanuel Carneiro Leão. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017, p. 57).

Ter o ausente como presente é uma aparente contradição do pensamento, mas tal perplexidade somente surge quando se separa o presente de todo o resto da existência, na medida em que o pensar da unidade cósmica enquanto una exige a presença do todo em cada parte, de modo que traz para o presente todos os ausentes.

Cada parte é a parte de um todo, pelo que a parte sem as outras, aquelas ausentes, é só um algo destituído de sentido, e somente com a plena presença do ausente a parte pode ser corretamente situada como expressão de um todo e, então, adequadamente como parte.

Além disso, é no espírito que o ausente se faz plenamente presente, porque não se pode falar de um todo apenas do ponto de vista material, haja vista que a matéria não transcende a si mesma, sendo necessário o espírito para tal empreitada, porque enquanto a matéria, por definição, é limitada espacialmente, o espírito não possui limites espaciais ou temporais, e é exatamente por estar em todos os lugares e todos os tempos que permite a compreensão da unidade para além de todas as partes.

Uma das passagens mais importantes das Escrituras, que repito em várias ocasiões, e considero pouco entendida, é aquela que afirma haver um só Corpo e um só Espírito.

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Tal passagem é bem parmenidiana, sustentando a unidade tanto do Espírito como do Corpo. Mas penso haver uma diferença entre essas unidades, porque a do Espírito é uma unidade, em certo sentido, imóvel, porque o Espírito não muda, pode se tornar mais acurado, nítido e detalhado em suas peculiaridades, mas permanece o mesmo, enquanto o Corpo é objeto de mudança, pode ser outro, pela alteração de suas partes componentes, sendo o mesmo em razão do Espírito. Na ressurreição receberemos novos corpos, mas seremos os mesmos, a mesma identidade espiritual, sendo diferentes.

Mesmo agora, nosso corpo é o mesmo, mas com outras células, outra matéria, que se renova pela alimentação e excreção, enquanto nosso espírito é o mesmo com mais experiências, memórias, mantendo a unidade do corpo, porque a morte implica o fim do processo de renovação corporal.

Sobre essa ideia de mudança e permanência, vale trazer à citação uma passagem muito famosa de Heráclito, que é repetida como a expressão de seu entendimento de mundo: “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio” (Heráclito, Op. cit., p. 95).

Mas há outra citação do mesmo autor que talvez explique melhor sua multicitada fala, devendo-se ressaltar que não temos muitos textos dos chamados pré-socráticos, o que nos resta são basicamente fragmentos encontrados nas citações de autores posteriores, o que dificulta o exato entendimento daqueles pensadores primitivos, e daí a outra citação traz luz sobre a primeira:

“No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos.”

“Auscultando não a mim, mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um” (Idem, p. 83).

Outrossim, para além de dizer que tudo muda, que não entramos duas vezes no mesmo rio, é mais correto sustentar que para Heráclito “tudo é um”, e assim pode haver um mesmo rio, cujas águas são outras, e uma mesma pessoa, que já não é exatamente aquela anterior.

Ao perceber essa unidade para além das aparências, ele afirma que “A harmonia invisível é mais forte do que a visível” (Idem, p. 85).

Desse modo, novamente, o ausente, que é invisível, se faz presente, permitindo compreender uma presença mais forte que aquela meramente visível, a qual somente é percebida plenamente pelo espírito, pela força do pensamento, da razão, porque “Pensar reúne tudo” (Idem, p. 101).

Daí a indispensabilidade da atividade intelectual, que é espiritual, é juntar o que está separado, unir o que está distante.

Na Ciência, não conheço outro autor recente que tenha procurado melhor essa unidade do que David Bohm, o qual, em sua ideia de ordem implicada, traz de volta o conceito de uma harmonia invisível que é mais forte do que a visível.

Como constou no artigo “A Ordem Implicada” (https://holonomia.com/2017/05/22/a-ordem-implicada/):

“David Bohm defende que existe uma interligação em todo o universo, pois o movimento da luz em cada região se expande interferindo em cada região do espaço, e se ‘expande por todo o Universo e sobre todo o passado, com implicações para todo o futuro’, gerando uma noção da nova visão da realidade, em que ‘a ordem total está contida, de algum modo implícito, em cada região do espaço e do tempo’ (G. nosso). Implícito, no caso, decorre do verbo ‘implicar’, significando ‘dobrar para dentro’, de modo que ‘cada região contém a estrutura total ‘envolvida’ dentro dela’ (G. nosso. Idem, p. 157). Explicando esse fenômeno, o autor cita uma onda de rádio que contém uma informação implicada, a qual é explicada por um receptor, desdobrando a informação, por exemplo, em som e música.”

Volto a David Bohm porque a leitura atual é sua troca de correspondências com Charles Biederman, que me rememorou a ideia da presença do ausente mencionada por Parmênides. Ao falar da realidade infinita, ele afirma que:

“In reality, everything is basically infinite and only secondary, finite.

(…)

The above idea of the infinite shows already the breakdown of the notion that the world can be divided into separately existing parts. For already, even in this very simple view, an essential aspect of what each part is is that it reflects the other parts” (Bohm-Bierdman correspondece. David Bohm and Charles Bierdman. Volume One: Creativity and Science. Edited by Paavo Pylkkänen. London and New York: Routledge, 2014, p. 10)

“Na realidade, tudo é basicamente infinito, e, apenas de modo secundário, finito. (…)

A ideia acima sobre o infinito já mostra o colapso da noção de que o mundo pode ser dividido em partes existentes separadamente. Pois já mesmo nessa visão muito simples, um aspecto essencial do que cada parte é é que ela reflete as outras partes.”

O fato de cada parte refletir as outras partes é outra forma renovada de afirmar o que já dizia Parmênides, porque assim o ausente se torna presente naquela parte, que, em si, é relacionada com tudo mais que existe.

No Cristianismo, o Espírito está em todos, porque a questão da unidade é fundamental, e não podemos nos esquecer da presença em todos, especialmente nos pequeninos, que precisam de nossa ajuda.

Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos forasteiro e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te ver?’ Ao que lhes responderá o rei: ‘Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’” (Mt 25, 37-40).

Jesus Cristo nos mostrou a presença do ausente, porque Aquele que pensaram dele estar ausente, na verdade, ali se fazia presente, de modo que Sua presença é inevitável, mesmo que imaginemos o contrário. E citando novamente Heráclito:

Auscultando não a mim, mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um.

Raízes judaicas do direito

Com grata satisfação, descobri que ainda existe pesquisa científica no âmbito jurídico na direção correta, representada pelo livro “Raízes judaicas do direito: princípios jurídicos da lei mosaica”, do professor Marcus Abraham, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, obra que é o resultado de sua tese de pós-doutorado realizada na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

O trabalho do autor resgata o ideário que nos legou o melhor da tradição ocidental, fazendo uma digressão histórica da teoria jurídica até suas verdadeiras raízes, porque é comum se ensinar nas faculdades de Direito que o mundo da racionalidade começou com o iluminismo, com destaque para as revoluções americana e francesa, sendo a referência positiva mais antiga a Magna Carta de 1215 (que foi produzida dentro de uma cosmovisão judaico-cristão de mundo), ou o direito romano, quando mencionado, sendo comum dizer que tudo que se passou anteriormente ao “renascimento” é fruto de misticismo e deve ser desprezado por seu obscurantismo, junto com qualquer coisa que diga respeito às questões religiosas.

Uma volta às origens do pensamento humano é mesmo necessária, o que também se constata em obra sobre os pensadores originários, Anaximandro, Parmênides e Heráclito, valendo transcrever uma passagem da introdução deste outro trabalho, feita por Emmanuel Carneiro Leão:

“Neste sentido, a presente investigação não quer ser uma obra de historiografia filosófica. Pretende levar a sério que os primeiros pensadores gregos são pensadores e não filósofos. O destino histórico de seu pensamento não provém da objetividade dos conhecimentos, mas do vigor do pensamento. Por isso o caminho a seguir é o caminho de um diálogo a partir da própria coisa do pensamento. Procurar-se-á atingir o centro do diálogo para da perspectiva central entender e interpretar os fragmentos. Pois de que outra maneira poder-se-ia apreender-lhes o pensamento senão pensando?

No horizonte deste questionamento o pensamento dos primeiros pensadores gregos revela uma profundidade atual em que as questões arroladas e as preocupações moventes acenam para o mistério vigente de sua verdade, de outro modo imperceptível. Em consequência, se encolhe a distância cronológica de mais de dois mil e quinhentos anos, que deles nos separa. A estranheza destes pensadores deixa de nos ser externamente estranha para afirmar-se como nossa própria estranheza. É então que nos sentimos conosco quando estamos com eles. Pensar o pensamento dos primeiros pensadores já não equivale a pesquisar nos fragmentos legados as ideias que passaram pelo cérebro de gregos dos séculos VI e V a.C. Será experienciar a decadência planetária de pensamento em que hoje nos debatemos. Trata-se de uma decadência tão decadente que grande é o risco de perdermos até as condições de identificar a decadência e apreciá-la como decadência.” (Anaximandro, Parmênides, Heráclito. Os pensadores originários. Introdução de Emmanuel Carneiro Leão. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017, pp. 11-12 – negrito meu).

Assim, é fugindo dessa decadência planetária de pensamento na qual nos encontramos que se insere o trabalho de Marcus Abraham, tentando elevar o pensamento jurídico ao plano de onde não deveria ter saído, ao nível da grandeza histórica, da construção multimilenar com início na Torá que desembocou na dignidade humana, ideia que hoje é sequestrada por aquela decadência do pensamento, que é tão decadente que não se consegue entender o quão absurdo é o conceito de dignidade, transmudado em indignidade, que hoje prevalece no discurso jurídico, para tentar fundamentar os pensamentos mais egoístas, individualistas e estapafúrdios possíveis, o que, contudo, muito poucos conseguem identificar como decadência.

O autor consegue apontar a raiz do problema:

“Verdadeiramente, a dignidade humana, numa visão puramente antropocêntrica (recorde-se que, como vimos na Introdução, próprio Kant ainda reservava um lugar em seu sistema filosófico para a noção de D’us), é uma invenção filosófica do século XIX, ou seja, muito recente. É somente neste século que se opera a definitiva cisão radical entre a dignidade do ente humano e sua referência à dignidade de um ente divino. Não à toa, Nietzsche pôde fechar este século com a afamada declaração da morte de D’us, preparada que foi pelo advento do materialismo, representado por figuras como Feuerbach e Marx.

(…)

O paradoxal é que a autonomia da dignidade humana em face da metafísica tenha coincidido com recuos tremendos desta dignidade. É o que se dá com o pensamento ocidental a admitir o conceito de raças superiores e inferiores (que pode remontar a Nietzsche com seu übermensch – super-homem)” (Marcus Abraham. Raízes judaicas do direito: princípios jurídicos da lei mosaica. Rio de Janeiro: Forense, 2020, pp. 150-151).

O materialismo “científico” nos legou as piores atrocidades do século XX, dezenas de milhões de mortos, muito pelo fato de a visão puramente antropocêntrica, desvinculada da metafísica e da realidade divina, ser incapaz de produzir o melhor da humanidade, uma vez que a falta de uma referência objetiva e transcendente de valor, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, leva à relativização da vida humana.

“Isso porque a vida em uma comunidade organizada sempre exigiu um conjunto de preceitos morais valorativos necessários para sustentar a harmonia da convivência social, cuja apreensão decorre tanto de um esforço da razão humana como de uma obediência oriunda da fé em uma divindade. Ambas as fontes, com muita frequência, atuam simbioticamente na formação cultural, ética e moral do indivíduo e dos povos” (Idem, p. 191).

Outrossim, é indispensável recolocar a discussão teológica no plano que merece, porque a racionalidade humana imanente, por si só, já se provou limitada e insuficiente para resolver os grandes problemas do mundo, não mais podendo ser usada isoladamente para a resolução das questões sociais fundamentais.

Ainda que essa não seja a proposta direta do autor, não há como negar que o resgate da coerência filosófica, da grandeza e da integridade do pensamento humano exige que os temas espirituais e transcendentais voltem à narrativa jurídica, porque tais questões estão no centro do debate físico, seja pela teoria das cordas ou do multiverso, pelo que se as discussões metafísicas fazem parte da discussão da ciência considerada mais objetiva, a Física, urge que também retornem à realidade do Direito, do qual não deveriam ter se afastado, porque o fundamento último da dignidade humana, como bem ressalta o autor, está no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, e decorre do fato de o homem e a mulher terem sido criados à imagem e semelhança de Deus. Sem essa referência, a dignidade perde seu valor.

Essa é a raiz de todo direito ocidental. Fica o livro indicado, para uma exploração detalhada da grandiosidade e atualidade de vários preceitos bíblicos, que se desenvolveram nos mais modernos princípios jurídicos, ainda vigentes.

A questão teleológica

A pergunta sobre a existência de teleologia no mundo está relacionada ao sentido das coisas, se há um fim a ser alcançado e qual seria ele.

Da perspectiva dos que entendem haver uma realidade espiritual, a ideia lógica é de que o mundo material está de algum modo ligado a um plano ontologicamente superior, pelo que a finalidade da atividade humana é se adequar a essa vida mais profunda, e também mais plena.

Mesmo do ponto de vista material, não há como negar a teleologia dos fenômenos, seja a gravidade atraindo os corpos, as plantas se dirigindo para a luz e a água, os animais para alimentação ou defendendo suas crias dos predadores.

No atual plano da civilização humana, o sistema jurídico-constitucional estabelece objetivos a serem alcançados pela comunidade politicamente organizada, dispondo o Preâmbulo da Carta de 1988 que nosso Estado democrático é destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, enquanto o seu art. 3.º estabelece que constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Portanto, nós brasileiros, como nação, temos teleologia, temos fins a serem alcançados, segundo as normas vigentes.

Mas para além dessa normatividade posta, há uma teleologia natural? Há um sentido próprio no desenvolvimento dos eventos cósmicos?

Para o entendimento monoteísta de mundo, a resposta a essa indagação é certamente afirmativa, havendo algumas divergências sobre exatamente como será o futuro, sobre muitas circunstâncias envolvendo os destinos individuais e da própria humanidade, mas há um entendimento mais ou menos próximo sobre uma espécie de comunhão espiritual futura, após a ressurreição e o julgamento final, existindo até mesmo algumas ideias também distintas sobre o período que antecederá tal desfecho escatológico.

O pensamento sobre uma teleologia intrínseca à realidade está na base do artigo “O tunelamento quântico (teletransporte) do apóstolo Filipe” (https://holonomia.com/2016/12/27/o-tunelamento-quantico-teletransporte-do-apostolo-filipe/), pois uma vez que existe teleologia, uma direção para a qual o universo se dirige, uma espécie de gravidade que puxa a História para frente, é natural que os comportamentos voltados para esse futuro tenham um fator de favorecimento, da mesma forma como se exige menos energia para descer um morro do que para subi-lo. Ainda que possa haver obstáculos impedindo o fluxo do movimento no sentido devido, como uma barreira contra a descida, com o acúmulo da energia necessária a descida ocorrerá, muitas vezes de forma violenta, com mais intensidade.

Em termos cosmológicos, o valor encontrado para a massa do bóson de Higgs foi aproximadamente de 126 GeV (giga-elétron-volt), que significa que estamos em uma fase metaestável do universo, no sentido de que nosso universo é como um gelo em processo de derretimento, está em mudança de fase.

“No entanto, a massa do bóson de Higgs tem papel análogo ao da temperatura no caso da água. Para um certo valor dessa massa, o Modelo Padrão passa a ter outra fase dominante, na qual o universo seria totalmente diferente do observado, sem possibilidade de desenvolver vida. A nossa fase seria instável, podendo desaparecer como um pedaço de gelo derretendo. Cálculos indicam que nossa fase seria instável para massas do bóson de Higgs menores que aproximadamente 129 GeV. Portanto, as medidas recentes da massa do bóson de Higgs indicam que nossa fase é instável e o universo pode colapsar para a fase dominante” (Rogério Rosenfeld. O cerne da matéria: A aventura científica que levou à descoberta do bóson de Higgs. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 170).

Se a Ciência não tem informações sobre qual seria essa fase dominante para a qual nos dirigimos, o Monoteísmo há muito tempo afirma que vivemos em um tempo de transição, de desequilíbrio, associado à teoria da Queda que afeta a natureza, mas que há um porto seguro a ser alcançado, que é a fase dominante da realidade, quando a humanidade se comportará segundo os mandamentos, corrigindo as atividades viciadas que se enraizaram em nossas ações, com destaque para a questão política, porque os governos serão justos, tanto em termos humanos como divinos.

Vale dizer que a energia escura, segundo as especulações dos físicos, é o que empurra o cosmos em sua expansão, pelo que o universo caminha para uma direção, ainda que não tenhamos como medi-la ou compreendê-la minimamente. Portanto, o próprio movimento cósmico mais amplo não é explicado pela nossa atual Ciência.

O fato de vivermos uma fase de transição cósmica, em direção a outro estado de coisas no universo, é esclarecedor quanto à realidade dos chamados milagres bíblicos, porque é da natureza de uma situação instável haver comportamentos e eventos extraordinários, do que é exemplo a sublimação da água, mantendo a analogia com os estados da matéria. Assim, a fase de transição faz com que maior energia se concentre em determinados pontos do universo, dada a irregularidade do período de crise, permitindo que eventos da realidade futura se manifestem antecipadamente, contrariando o comportamento ordinário daquela fase instável.

Por isso, em algumas situações, a energia é canalizada para esse estado futuro, numa espécie de salto quântico de grandes proporções, afetando uma localidade específica da realidade física macroscópica, em pontos da tecitura do espaço-tempo propícios para aquela manifestação. Assim como a água de uma represa passa por onde a resistência é menor, também o Espírito se manifesta em quem não resiste a Ele, a quem para Ele se volta, e no seu entorno, de modo que em algumas oportunidades essa manifestação alcança a realidade física visível.

Na narrativa bíblica, a História também tem uma direção, o que vale para a sociedade humana, sendo que Jesus realizou em sua vida toda essa plenitude de sentido, e sua ressurreição é exatamente a antecipação da fase dominante do Universo, o Reino de Deus, porque ele, pela quantidade de energia despendida em favor da existência, trabalhando para a evolução da humanidade, e por permitir seu próprio sacrifício, que foi a técnica divina de correção e redirecionamento da História, inseriu na psique humana, no Corpo e no Espírito, a semente da realidade emergente, do mundo que ainda se manifestará. Tal foi uma situação única, na qual, como no tunelamento quântico, certa quantidade de energia do futuro estado do universo foi emprestada ao passado, levando à sua ressurreição corporal.

Se há uma direção no movimento das coisas, quando se conhece tal tendência, a compreensão dos fenômenos é muito facilitada. Nesse ponto, é fácil entender que toda atividade humana é teleológica, deita-se para descanso, come-se para nutrição, sem falar nas diversas atividades sociais efetivadas para satisfazer interesses vários, para o bem e para o mal, porque se sabe o movimento das coisas, sendo possível manipular os eventos do mundo para alcançarmos certos objetivos.

Nós, com nossa limitação, conseguimos agir causalmente para consecução de nossos objetivos, o que pode ser entendido como uma obrigação instrumental para o sucesso de nossos projetos. Outrossim, para se obter determinados fins, certos meios devem ser utilizados, alguns princípios de Logos devem ser respeitados, regras que se impõe cumprir, pelo que, na atividade humana, no mundo da vida, conceitos causais e obrigacionais não se separam, havendo uma vinculação entre o ser e dever ser, como constou no artigo anterior. Os fins dependem das causas, havendo meios próprios para melhor alcançá-los, existindo deveres a serem cumpridos, obrigações a serem satisfeitas, uma moralidade a ser observada.

Voltando, pois, ao sistema jurídico, estabelecidos os objetivos a serem auferidos, os fins a serem atingidos, daí decorrem os deveres, os comportamentos necessários, em termos causais e morais, para que determinado estado de coisas seja promovido.

Outrossim, se restaurada a hermenêutica jurídica à sua origem espiritual, o estado de coisas perseguido pelas normas humanas pode ser identificado com aquele antecipado pela narrativa bíblica, a realização de uma sociedade livre, justa e solidária. Essa é nossa teleologia.

Eis que dias virão — oráculo de Iahweh — em que cumprirei a promessa que fiz à casa de Israel e à casa de Judá. Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para Davi um germe de justiça que exercerá o direito e a justiça na terra. Naqueles dias Judá será salvo e Jerusalém habitará em segurança. E este é o nome com que a chamarão: ‘Iahweh, nossa Justiça’” (Jr 33, 14-15).

O meio de chegar a esse fim passa pelo Método científico, pelo Caminho da Unidade do Logos, para que todos sejamos um com o Pai, reconhecendo Jesus como Seu enviado, com uma missão divina, para um fim espiritual, que é também nosso, de modo que a vida do Cristão é finalística, é teleológica:

E, POR eles, a mim mesmo me santifico, PARA QUE sejam santificados na verdade. Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: A FIM DE QUE todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, QUE eles estejam em nós, PARA QUE que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que me deste PARA QUE sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, PARA QUE sejam perfeitos na unidade e PARA QUE o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 19-23).

Falseando a lei de Hume: derivando um ought de um is

Para enfrentar a lei de Hume, ou guilhotina de Hume, que afirma não ser possível derivar um “ought” (deve) de um “is” (está/é), é necessário estabelecer duas premissas básicas, uma de ordem linguística e outra de natureza filosófica, pontos indispensáveis para que se possa falsear adequada e coerentemente tal entendimento do referido pensador.

A lei de Hume sustenta haver dois mundos separados, o dos fatos e o dos valores, que não podem ser unificados sem perda de coerência, pelo que seria impossível passar de um plano fático para um valorativo, por tratarem de esferas distintas de cognição.

Inicialmente, um ponto que merece destaque é o fato de Hume estar inserido em um ambiente cultural que os antigos chamariam de bárbaro, isto é, em que a comunicação popular não ocorre por meio do latim ou do grego. Os povos antigos eram denominados bárbaros pelos romanos principalmente em razão de não usarem as citadas línguas clássicas, sendo o adjetivo comportamental meramente derivado dessa circunstância. Esse ponto já pode servir para um primeiro esclarecimento, relativo à significação do verbo ser, que, nas línguas inglesa, alemã e francesa, usadas pelos principais filósofos, com seus correspondentes “to be”, “sein” e “être”, também significa o nosso “estar”. Ainda que, atualmente, pelos critérios romanos, a maioria dos povos sejam considerados bárbaros, inclusive nós, o uso indistinto dos referidos significados, “ser” e “estar”, em um mesmo verbo compromete sua significação mais profunda, porque pode expressar situações passíveis de enorme oposição semântica, prejudicando a precisão simbólica da comunicação, que é indispensável para uma boa empreitada filosófica.

Como já exposto no artigo “O ser e o estar: o problema ontológico do nada” (https://holonomia.com/2019/05/01/o-ser-e-o-estar-o-problema-ontologico-do-nada/):

“Assim, a Filosofia é o estudo do ser, daquilo que é, em comparação com aquilo que está, porque provisório e apenas aparente. Na língua portuguesa, conceitualmente, é relativamente fácil entender a diferença ontológica entre o ser, o que é, e o estar, o que está, porque nos significados dos substantivos formados dos respectivos verbos, por derivação imprópria, já estão presentes as qualidades de eternidade do ser e de provisoriedade do estar. O ser, ontologicamente, foi, é e será; enquanto o estar, por definição, apenas está, podendo ou não ter estado antes, ou continuar a estar depois.”

Portanto, quando Hume fala não ser possível derivar um “ought” de um “is”, necessariamente ele está se referido ao “is” como “está”; porque quando se usa o “is” como “é”, tal afirmação, conceitualmente, já indica o conhecimento de algo permanente, e o que é permanente, por natureza e definição, continuará a ser e, portanto, “deve ser”, inicialmente como causalidade.

Além da questão semântica da linguagem, mas a ela associada, há também um importante pressuposto filosófico que se deve considerar na situação em análise, porque há duas possibilidades básicas de concepção intelectual do universo: uma entendendo que há cosmos, uma ordem subjacente de mundo; e outra no sentido de que vivemos sujeitos às absolutas forças do acaso.

Se há ordem subjacente, como sustentado pela primeira opção, o mundo já é organizado e todo estado de coisas se vincula a essa ordem. O curso histórico é o desenvolvimento dessa ordem, de modo que as posições relativas das pessoas expressam movimentos de manutenção, desenvolvimento ou violação da ordem, o que vale inclusive para as ações humanas. Nesse ponto, o Direito tem como uma de suas funções examinar essa ordem, definir e qualificar os comportamentos humanos em relação a ela.

Outrossim, a partir de uma descrição do mundo, concebido filosoficamente como ordenado, é apreendida sua normatividade, seu dever ser, vinculada àquela ordem, valorando os comportamentos como jurídicos e antijurídicos, se conforme ou contrários ao movimento cósmico. Daí se poder falar em dever ser enquanto moralidade, como responsabilidade vinculada à referida ordem.

As chamadas ciências naturais são baseadas nesse pressuposto, procuram descobrir as leis da física, da química, da biologia, as quais regem o comportamento das coisas e animais, o que permite compreender as relações de causalidade e interação entre elas, de modo que a medição de uma determinada situação, tendo como base a observância daquelas leis, indica o que deve ser, isto é, o estado futuro do mundo, em termos de causalidade. A falta de correspondência entre o resultado esperado e a prévia observação terá como causa dois fatores: a má compreensão da lei e/ou a existência de dados insuficientes sobre o estado de coisas em análise.

Como salientado no início, Hume vivia em modo de bifurcação mental, com dois planos de existência separados, o dos fatos e o dos valores. Tal se deu porque ele estava inserido em uma filosofia cartesiana, uma vez que Descartes separou o mundo em duas substâncias, a pensante, sujeita à investigação subjetiva, e a extensa, de ordem objetiva, sendo esta, ponto importante, sustentada por Deus. O plano subjetivo era o das qualidades, dos valores, e o objetivo o das quantidades, o dos fatos. Interessante destacar que também Newton, em sua concepção de realidade, sustentava que o mundo material era dependente de e ordenado e por Deus.

Vale dizer que a tese da bifurcação cartesiana vai de encontro à da empreitada científica de maior sucesso da história da humanidade, a física quântica, segundo a qual a postura do observador, o sujeito, diante do observado, o objeto, condiciona o resultado do experimento, indicando que a ideia de dois mundos separados, subjetivo e objetivo, valores e fatos, é mais uma aparência do que propriamente uma realidade. E termos quânticos talvez se possa falar que cada um de nós é o próprio cosmos de uma perspectiva individual e, portanto, por ele responsável, com deveres para sua manifestação como tal.

Outrossim, mesmo o mundo objetivo, partindo-se da ideia primordial de que há cosmos, já é, em si, dotado de valor, o valor da ordem; e não só isso, também é cabível dizer sobre a existência de uma bondade natural, porque o Deus referido por Descartes e Newton, corifeus da revolução científica, o Deus considerado sustentáculo do universo material é o Criador de todas as coisas, referido na Bíblia:

E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom” (Gn 1, 31).

O cosmos é não apenas bom, mas muito bom. Sendo o mundo ordenado e muito bom, e diante da posição humana no universo, capaz de interagir com as coisas do mundo, para criar e destruir, há responsabilidade humana com esse ser do mundo, há obrigação, isto é, um dever ser.

A realidade objetiva em si, pois, segundo essa concepção filosófica, já está imbuída de acepções valorativas, e mesmo morais, o que também valia para o platonismo, com sua ideia de Bem, fonte de todas as coisas, e para o aristotelismo, com seu motor imóvel como causa de todo movimento que existe no mundo, que é organizado. A observação dos fatos, destarte, não é neutra, mas se dá segundo a própria ideia de ordenação do mundo, pela existência de um cosmos, de um lado, ou de um caos primordial, de outro.

Partindo, assim, do pressuposto de que há ordem nas coisas, e na medida em que as ações humanas são inseridas nessa ordem, e porque o Direito tem como uma de suas funções qualificar os comportamentos como ordenados ou desordenados, isto é, jurídicos ou antijurídicos, do estado de coisas resultado de uma ação humana é derivada uma consequência normativa, sua qualificação jurídica, bem como os efeitos a serem dela extraídos em relação à ordem do mundo, com a finalidade de restaurá-la, para correção dos efeitos do comportamento ilícito, um dever. É possível falar de um Espírito de ordem, e de um dever com esse Espírito, para que o mundo permaneça como tal, como mundo, com integridade, evitando que se torne um monte de fragmentos desconectados em um caleidoscópio sem nexo.

Portanto, uma vez tido o cosmos como um dado, um axioma, tem-se a sua descrição como um estado de coisas ordenado intrinsecamente, com a qualificação dos comportamentos segundo referida ordem, e considerando que o Direito vinculado à referida ideia não é neutro, mas se destina à manutenção, desenvolvimento e restauração dessa ordem, daí decorre o que deve ser, ligado à liberdade e à responsabilidade humana, referente à norma segundo a qual é devido o comportamento para recomposição daquela ordem, que é a sanção ou o efeito jurídico decorrente da ação ilícita, com seus componentes materiais e normativos, evitando que o cosmos de transforme em caos.

Nesse sentido, adotada a premissa de que há ordem no mundo, como postulado filosófico não sujeito a comprovação empírica, e tomados em consideração os comportamentos segundo essa ordem, a qual representa o “ser” do mundo, portanto, daí decorre o que “deve ser”, a necessidade lógica e moral de declarar a (i)licitude, com a exigência de se impor comportamentos individuais e coletivos para recuperar a ordem, superando a desordem decorrente do ilícito, conforme sua gravidade.

A depender da extensão dos danos causados pela ação, a reação jurídica deverá ser mais ou menos intensa, porque quanto maior a violação normativa, maior a ilicitude, significando que mais estragos são causados ao mundo, criando desordem, exigindo-se mais força, mais energia, para restauração da harmonia social e natural. De outro lado, menores danos podem ser absorvidos sem grandes prejuízos à coletividade, desde que cessadas sua causa e a possibilidade de progressão ou reiteração.

A partir do que é o mundo, se ordenado, daí se segue o que deve ser.

Portanto, essa hipótese é vinculada à primeira opção básica segundo a qual há ordem subjacente. Nesse caso, o “is” não pode ser compreendido como simples estado de coisas, uma situação provisória, ou como momento de um ser, mas como a própria concepção segundo a qual o mundo é ordenado, esse é o “is” do qual decorre o “ought”, o que deve ser, para que seja respeitada a premissa lógica da ordenação, da existência de cosmos.

Adaptado esse postulado, enfim, ao Direito cabe a investigação desse ser, e consequentemente de seu dever ser, o que vale para as disposições normativas, a legislação, administrativas, a prática social, e judiciais, a jurisdição. É atribuição da Ciência do Direito, nessa linha, investigar a ordem do mundo natural, prescrever os comportamentos segundo ela e estabelecer as medidas necessárias à sua restauração, para o equilíbrio das coisas, definindo, destarte, o ser e seu dever ser.

Mesmo em um materialismo comportamental, numa leitura behaviorista radical da humanidade, que tornaria a responsabilidade individual uma quimera, com inegáveis complicações para a fundamentação do Direito, talvez se pudesse falar em um dever ser naturalístico derivado do ser, fruto de uma relação causal entre estímulo e reação, porque em um mundo sem espírito seria realmente complexa a inserção de categorias deontológicas, de deveres propriamente morais.

De outro lado, caso não seja adotada a opção filosófica pela existência de ordem subjacente, o que é incompatível com o próprio projeto científico, e sua pretensão de encontrar as leis da natureza, somente aí a proposição de Hume, filosoficamente, faria sentido, porque cada estado de coisas momentâneo seria efeito aleatório de causas cegas agindo sobre o mundo, o que valeria também para ações humanas, de modo que, em termos naturais, de fato, não se poderia extrair um “ought” de um “is”.

Nessa situação, o “is” significaria “estar”, do qual, de fato, não se extrairia um dever, ou mesmo causalidade, pois existiriam apenas estados de coisas, não haveria um “ser”, um permanente “is”. Em um mundo desprovido de ordem, sem Deus, sem a ideia de Bem ou de um primeiro motor a conectar todas as coisas inteligentemente, outrossim, no qual a empreitada científica seria fadada ao fracasso, por princípio, porque sequer se desenvolveria, até mesmo por ausência de motivação hábil para tanto, conclusão a que se chega pela própria experiência histórica humana dos últimos séculos, Hume, enfim, poderia ter razão.

Aeterni Patris

A Encíclica Aeterni Patris, do Papa Leão XIII, foi citada no último artigo, tendo Alasdair Macintyre contraposto sua racionalidade e sua moralidade às da “Enciclopédia Britânica”, em sua Nona Edição, e ao pensamento de Nietzsche em “Genealogia da Moral”.

Agora vale enfatizar e enaltecer a exortação proferida por Leão XIII na referida obra, porque sua linha de pensamento continua atual, adequada à mentalidade cristã de nosso tempo, sua proposta deve ser seguida para a restauração de alguma unidade dentro do Cristianismo.

Alasdair Macintyre entende que a autêntica Tradição remete ao ideal de São Tomás de Aquino, defendido por Leão XIII, o que está corretíssimo, ao conceber uma integração necessária entre Fé e Razão, nunca uma oposição. Nessa vertente, o trabalho de São Tomás de Aquino representa o permanente esforço de unificação da Razão em torno da mesma Fé, sendo inestimável sua contribuição porque conciliou o pensamento cristão fundado na filosofia de Agostinho, de um lado, que, por sua vez, remetia a Platão, com as ideias aristotélicas, de outro lado, o que era considerado inviável pelos pensadores de seu tempo, que viam uma insuperável incomensurabilidade entre os respectivos esquemas de pensar o mundo.

Minha proposta segue esse ideal tomista, na tentativa de unificar um fundamentalismo cristão, de um lado, com as mais modernas descobertas científicas e filosóficas, de outro.

A tradução da Encíclica pode ser encontrada no seguinte sítio http://filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/Aeterni_Patris.pdf, de que foram extraídas as transcrições que seguem.

A Igreja, pelo texto, “sempre teve em vista e foi seu principal desejo, ensinar a religião e lutar perpetuamente contra os erros”, o que também é aplicado ao conhecimento científico, que depura seus erros ao longo do tempo, devendo ser destacado que o atual momento é de grande importância histórica, porque a física moderna mostrou que a realidade material é tão, ou mais, aparente, e enganosa, que o geocentrismo, o que reduz a escala de erro do pensamento científico cristão do início da modernidade.

“Porém, como, segundo o aviso do Apóstolo, ‘pela filosofia e vã falácia’ são muitas vezes enganadas as mentes dos fiéis cristãos e é corrompida a sinceridade da fé nos homens, os supremos pastores da Igreja sempre julgaram ser também próprio de sua missão, promover, com todas as forças, as ciências que merecem tal nome e a um só tempo zelar, com singular vigilância, para que as ciências humanas fossem ensinadas por toda parte, segundo a regra da fé católica, e, em especial, a filosofia, da qual, sem dúvida, depende em grande parte o reto ensinamento das demais ciências.”

Não pode haver margem para questionamento, assim, quanto ao incentivo à busca científica e filosófica, sendo exigida apenas a coerência de uma fé universal e cristã, isto é, que não seja meramente particular, pontual, e que se submeta a uma ideia de racionalidade, de Logos, que orienta o Cristianismo.

“Se alguém fixar a consideração na agrura de nossos dias, e abraçar com o pensamento a condição das coisas que, pública e privadamente se executam, descobrirá que, sem dúvida, a causa fecunda dos males, tanto daqueles que hoje nos oprimem, como dos que tememos, consiste em que os perversos princípios sobre as coisas divinas e humanas, emanados a tempo das escolas dos filósofos, foram-se introduzindo em todas as ordens da sociedade e recebidos pelo comum sufrágio de muitos. Pois, sendo natural ao homem que no obrar tenha a razão por guia, se em algo falta a inteligência, facilmente cai também no mesmo a vontade; e assim acontece que a perversidade das opiniões, cujo assento está na inteligência, influencie nas ações humanas e as perverta. Pelo contrário, se está são o entendimento do homem, e se apoia em princípios sólidos e verdadeiros, produzirá muitos benefícios de utilidade pública e privada.”

Destaca, assim, a importância da filosofia, dos primeiros princípios, os quais escolhidos equivocadamente comprometem todo o sistema de pensamento, o que vale para a ciência de hoje, na medida em que o primeiro princípio platônico era a ideia de Bem, o aristotélico o Primeiro Motor e o cristão o Logos, indicando que a ordem do mundo é resultado dessa realidade anterior, ao contrário dos materialistas que sustentam o acaso e a fatalidade como a força que rege o universo. Outrossim, na cosmologia, considerando que a ordem de nosso universo é de uma magnitude inimaginável, desde o princípio, a cosmologia materialista foi obrigada a criar outras dimensões e universos para tentar se manter no debate científico, e na biologia ainda insiste na evolução cega e aleatória, mesmo sendo tendo sido esta proposta refutada matematicamente. Daí porque a filosofia não pode ser incoerente.

“Ademais, sendo próprio e singular dos teólogos escolásticos o haver unido, com o mais estreito laço, a ciência humana e divina entre si, a teologia na qual sobressaíram não teria obtido tantas honras e louvores da parte dos homens, se houvessem empregado uma filosofia manca e imperfeita ou superficial”.

Assim, os adversários hostis ao Cristianismo continuam em ação, sustentando “a pluralidade de deuses (hoje, universos), que a matéria do mundo careceu de princípio e de causa, e que o curso das coisas conservava-se mediante uma força cega e uma necessidade fatal e não dirigida pelo conselho da Divina Providência”.

Tais pensadores são dotados de uma fé na desordem, porque não há como comprovar seus argumentos, e ainda assim usam sua razão na tentativa de demonstrar a veracidade de sua visão. Entre uma fé na desordem e outra na ordem, eu fico com a segunda, e também tenho todo o direito, como os cosmólogos e biólogos, de usar a razão para comprovar minha fé, ainda que seja para afastar a acusação de irracionalidade, e para tanto não violo, como eles, a navalha de Ockham ou a probabilidade matemática. Portanto, a boa razão é aliada da melhor fé.

“Não é em vão que Deus imprimiu na mente humana a luz da razão. E o acréscimo da luz da fé, mui longe de apagar ou diminuir a força da inteligência, aperfeiçoa-a, e, aumentando as suas forças, torna-a hábil para maiores empresas”.

A filosofia, destarte, deve ser feita de modo integrado, unindo as partes e os conhecimentos respectivos a um todo maior, em uma só racionalidade e coerência, o que parece ter sido o trabalho de São Tomás de Aquino, que espero ler um dia.

“Não há parte da filosofia que, de forma aguda e sólida, não haja tratado: tratou das leis do raciocínio, de Deus e das substâncias incorpóreas, do homem e de outras coisas sensíveis, dos atos humanos e de seus princípios, de tal modo que nada falta nele: nem a abundância das questões, nem a oportuna disposição das partes, nem a firmeza dos princípios ou a robustez dos argumentos, nem a claridade e propriedade da linguagem, nem certa facilidade de explicar coisas obscuras.”

Somente têm verdadeiramente essa capacidade aqueles que se colocam como filhos de Deus, do Aeterni Patris, ao Qual devemos sempre suplicar Sua graça, por Sua divina bondade, por Cristo Jesus, por meio de quem obtivemos essa divina filiação.

“Também nisto sigamos o exemplo do Doutor Angélico que nunca se pôs a ler e escrever sem antes haver-se feito propício a Deus com seus rogos e que confessou, candidamente, que tudo o que sabia não havia adquirido tanto com seu estudo e trabalho, senão que o havia recebido divinamente.

Por isso mesmo, roguemos todos juntamente a Deus, com humilde e concorde súplica, para que derrame sobre todos os filhos da Igreja o espírito de ciência e de entendimento, e abra-lhes os sentidos para entender a sabedoria”. AMÉM!

Filosofia x enciclopédia

Não existe uma contraposição necessária entre filosofia e enciclopédia, mas há contradição real entre essas ideias na atualidade, porque o entendimento da primeira acabou se confundindo indevidamente com o da segunda, resultando num amontoado amorfo de conhecimento, com prejuízo para a coerência intelectual que é inerente àquela.

Filosofia é a palavra que une dois conceitos, amor e sabedoria, significando amor à sabedoria, sendo certo que esse amor pode ser manifestado em elaboração e leitura de uma enciclopédia, palavra que tem origem em dois termos gregos enkyklos (geral, circular) e paideia (educação). Portanto, há uma ligação entre filosofia e enciclopédia, porque a sabedoria está associada a uma forma de educação geral, sobre todo o conhecimento, ou o máximo e mais importante conhecimento disponível, mas não se pode perder a unidade intrínseca àquela autêntica sabedoria.

Este texto é inspirado no livro “Three Rival Versions of Moral Enquiry: Encyclopaedia, Genealogy, and Tradition”, de Alasdair Macintyre, que comecei a ler na última semana; e ainda que a leitura esteja no terceiro capítulo, já é possível antecipar uma ampla concordância com a tese do autor, o qual demonstra os problemas enfrentados tanto pelo entendimento representado pela “Enciclopédia Britânica” como pelo decorrente das ideias de Nietzsche em “Genealogia da Moral”, desenvolvidas no trabalho de Foucault, o qual, segundo Macintyre, acabou se baseando em padrões atemporais e impessoais de verdade, referência e racionalidade que se mostram inconsistentes com o projeto genealógico baseado em Nietzsche.

O livro de Macintyre é a exposição de suas Gifford Lectures, proferidas em 1987, sendo que essas lectures (palestras) resultaram da vontade testamentária de Adam Gifford, que desejava a promoção do conhecimento humano, demandando que todos os palestrantes tratassem seus temas estritamente como ciência natural.

Vale dizer que conheci as Gifford Lectures ao mesmo tempo em que tive ciência do trabalho de Tom Wright, cujos ensinamentos foram fundamentais para consolidar meu entendimento do Cristianismo, porque ele ressalta a importância da ideia política do Reino na mensagem de Cristo. As palestras de Tom Wright estão disponíveis no YouTube e no sítio “The Gifford Lectures” (https://www.giffordlectures.org/lectures/discerning-dawn-history-eschatology-and-new-creation).

No primeiro capítulo de seu livro, Macintyre destaca o projeto de Adam Gifford, que considerava a Teologia Natural uma Ciência ainda em formação, e daí o realce para esse tema em suas palestras, e enfatizava a necessidade de adequadas metodologia e atenção aos primeiros princípios: “If first principles have not been truly carried out… then be sure that sooner ou later we must begin again, for nature will find out our failure…” (Apud Alasdair Macintyre. Three Rival Versions of Moral Enquiry: Encyclopaedia, Genealogy, and Tradition. University of Notre Dame: Notre Dame, 1990, p. 22). Se os primeiros princípios não foram verdadeiramente realizados… esteja certo, então, de que mais cedo ou mais tarde devemos começar de novo, porque a natureza descobrirá nossos erros… 

Macintyre salienta que havia um pensamento comum no tempo de Adam Gifford, no fim do século XIX, no sentido de que era reconhecida por todas as pessoas educadas a existência de uma única concepção substantiva de racionalidade, o que não mais ocorre em nosso tempo, porque participamos de uma cultura em que há um debate entre alternativas e conflitantes concepções de racionalidade, com inafastáveis reflexos nas ideias morais. Pelo que se deduz da introdução do livro, as três versões de rivais de moralidade que ele enfrenta são representadas pela Nona Edição da Enciclopédia Britânica, por Genealogia da Moral e pela Encíclica Aeterni Patris, do Papa Leão XIII.

A razão de rejeitar a proposta de Genealogia da Moral foi sumariamente exposta acima. O autor salienta, em outra vertente, que pelo entendimento da Enciclopédia a Filosofia era a Ciência do todo, que reunia em si, como uma síntese, os conhecimentos parciais das ciências, que eram compartimentados, enquanto para Adam Gifford era a Teologia Natural a maior de todas as possíveis ciências, e a única Ciência (Idem, p. 23).

Tendo a concordar com Gifford, porque também concebo a Teologia Natural como a mãe das ciências, a autêntica Ciência, da qual dependem todas as demais, sem prejuízo de conceber, em termos aristotélicos, tal Teologia Natural como equivalente à Filosofia Primeira, ou Metafísica, ligada ao estudo dos primeiros princípios, o que talvez seja abordado ao longo do livro, porque a Encíclica Aeterni Patris, do Papa Leão XIII, tem referenciais tomistas, vinculados às ideias de Aristóteles. Em termos cristãos, vale dizer, não há como afastar essa identidade, porque o seu primeiro princípio é o Logos, conceito que abarca tanto a Filosofia grega como a Teologia judaica, entendendo-o como a Sabedoria ou Inteligência primeira segundo a qual todas as coisas foram criadas, em que tudo está ligado, para além de qualquer compartimentação: No princípio era o Logos, Deus era o Logos, através do qual todas as coisas vieram à existência.

Mas a concepção unitária de racionalidade e de mente racional que predominava no século XIX não mais existe, incluída aquela subentendida constante da Enciclopédia Britânica em sua Nona Edição, porque a Décima Quinta Edição, que circulava no tempo das palestras proferidas por Macintyre, já expressava uma dissolução da posição enciclopedista.

Heterogeneous and divergent contributions, which recognize the diversity and fragmentation of standpoints in central areas, are deeply at odds with the overall scheme, insofar as that scheme presupposes any real unity to the work, rather then merely providing some organization for a massive work of reference (…). The encyclopaedic mode of enquiry has become one more fideism and a fideism which increasingly flies in the face of contemporary realities” (Idem, p. 56). Contribuições heterogêneas e divergentes, que reconhecem a diversidade e fragmentação de pontos de vista em áreas centrais, estão profundamente em desacordo com o esquema geral, na medida em que referido esquema pressupõe uma unidade real para o trabalho, ao invés de apenas fornecer alguma organização para uma grande obra de referência (…). O modo enciclopédico de investigação tornou-se mais um fideísmo e um fideísmo que cada vez mais se opõe às realidades contemporâneas.

O que prejudica, portanto, a unidade intelectual da enciclopédia é a ausência de uma verdadeira linha filosófica que lhe dê consistência racional, que talvez já estivesse presente nem mesmo quando da Nona Edição. Por maior que seja o conhecimento enciclopédico, sem uma vinculação filosófica, espiritual, tal não será verdadeiramente conhecimento, mas um amontoado de informações que não se consegue processar em unidade intelectual.

Portanto, ainda que os últimos séculos tenham representado um enorme acúmulo de informações e conhecimentos parciais, a humanidade continua mergulhada em ignorância quanto às realidades mais fundamentais, porque a Filosofia, ou Teologia, permanece excluída do debate sobre as questões essenciais. Considerando que o conhecimento enciclopédico peca pela desunidade racional, descambando para uma espécie de fé, disso decorre que o retorno a Deus, à Sua Sabedoria, que proporciona a Unidade Inteligente de todas as coisas, é inevitável, porque é melhor a fé na ideia de um Deus que formou nossa civilização, funda os direitos humanos, do que um fideísmo vazio, sem verdadeiro conteúdo.

Não lhes bastou somente errar acerca do conhecimento de Deus, pois vivendo na grande guerra da ignorância, a tais males proclamam paz!” (Sb 14, 22).

Com esse retorno, o verdadeiro conhecimento encherá a terra.

Ninguém fará o mal nem destruição nenhuma em todo o meu santo monte, porque a terra ficará cheia do conhecimento de Iahweh, como as águas enchem o mar.” (Is 11, 9)

Para tanto, é necessário que a honra devida seja dada ao Criador, que Ele seja reconhecido como Deus, Princípio de todas as coisas, exigindo-se a negação do princípio caótico como formador do mundo e da inteligência, porque para este a racionalidade é meramente acidental, o que vale para a razão da enciclopédia, assim como é indispensável dar valor aos seus mensageiros, com destaque para Cristo, que de modo inigualável expressa Sua Palavra, Seu Logos, urge, assim, seja a enciclopédia submetida ao Logos, que é a única razão, a racionalidade unitária capaz de dar inteligibilidade a todos os ramos do conhecimento, e a consequência de tal proceder é nada menos que a verdadeira paz.

Iahweh é exaltado, pois está entronizado nas alturas; ele assegura abundantemente a Sião o direito e a justiça. Nisto estará a segurança dos teus dias: a sabedoria e o conhecimento serão a riqueza capaz de salvar-te, o temor de Iahweh, eis o seu tesouro” (Is 33, 5-6).

A unidade entre corpo e alma

O presente artigo continua o anterior, fruto da leitura de trabalhos de Gottfried Wilhelm Leibniz, incluídos em “A Monadologia e outros textos”, agora mais especificamente os outros escritos constantes na citada obra, que vale a pena ser adquirida e lida, para os interessados em temas filosóficos, porque o custo-benefício é excelente.

No livro há um texto chamado “Sistema Novo da Natureza e da Comunicação das Substâncias”, e chega a ser impressionante o nível de acerto do autor em determinados pontos, segundo penso, como é igualmente inexplicável o motivo de tal abordagem não ser mais difundida. Na realidade, tal fato é plenamente compreensível, de outro lado, pela rejeição de uma visão espiritual de mundo, o que era o comprometimento intelectual do autor em questão, como se extrai de seus textos.

Inicialmente, é possível dizer, a partir do aludido escrito de Leibniz, um grande matemático e filósofo, que ele antecipou em nada menos que duzentos anos os conceitos fundamentais da teoria da relatividade de Einstein, exigindo seja reduzida proporcionalmente a importância dada a este último, sem, evidentemente, desmerecer seu trabalho, que inequivocamente contribuiu para o avanço científico.

Essas considerações, por mais metafísicas que possam parecer, são, contudo, maravilhosamente úteis na física por fundamentarem as leis do movimento, como minha Dinâmica será capaz de demonstrar. Podemos, pois, afirmar, que quando dois corpos colidem cada um é afetado apenas por sua própria elasticidade, causada pelo movimento que nele já existe. E no que diz respeito ao movimento absoluto, nada pode determiná-lo matematicamente, desde que tudo consiste de relações: o resultado sendo aquele em que há sempre uma equivalência perfeita de teorias, como na astronomia; de modo que, seja qual for o número de corpos que tomemos, deveremos arbitrariamente especificar ou o repouso ou algum grau de velocidade àquele que preferirmos, sem que nos seja possível ser refutados pelos fenômenos do movimento, se em uma linha reta, em uma circunferência ou em um composto. É ainda razoável, todavia, em conformidade com a noção de ação que estabelecemos aqui, atribuir movimentos autênticos aos corpos de acordo com o que se explicam os fenômenos do modo mais inteligível” (Gottfried Wilhelm Leibniz. A Monadologia e outros textos. Org. e trad. Fernando Luiz Barreto Gallas e Souza. São Paulo: Hedra, 2009, pp. 69-70).

Na passagem transcrita, Leibniz mostra uma divergência fundamental com Newton, quanto à questão do movimento absoluto, negado por aquele e defendido por este, tema no qual a atual leitura relativística indica o acerto do primeiro. Contudo, entendo que, uma vez considerada a expansão cósmica, que representaria um movimento constante em relação a todos os corpos existentes no universo, poder-se-ia falar em alguma espécie de movimento absoluto, que talvez não seja matematicamente formulável, como defendido por Leibniz, mas conceitualmente inteligível quando sincronizados os movimentos individuais relativos com o movimento da totalidade cósmica representado por aquela expansão, hoje atribuída ao que se chama de “energia escura”, a partir de uma singularidade inicial.

Mas para além da questão do movimento material, é digna de nota a abordagem de Leibniz quanto à sua interpretação metafísica ou teológica do universo, postulando, como um pensador monoteísta coerente, no texto “Sobre a origem fundamental das coisas”, que é necessário admitir Deus como “a razão fundamental e extramundana das coisas” (Idem, p. 72) para que se possa compreender como “uma espécie de Matemática Divina, ou Mecanismo Metafísico, é utilizada na criação das coisas e como a determinação de um máximo encontra lugar” (Idem, p. 74).

O teólogo em exame não consegue fugir de algum entendimento mecanicista de mundo, manifestado nas palavras usadas nos seus textos, o que era comum naquele tempo, constando no apêndice do citado livro, ao transcrever nota do Dicionário Histórico e Crítico de Pierre Bayle, em menção ao trabalho de Leibniz:

Ele (Leibniz) esclarece seu pensamento através do exemplo de dois relógios que estão perfeitamente sincronizados: isto é, ele supõe que, segundo as leis particulares que fazem agir a alma, ela deve sentir fome em um instante; e que, segundo as leis particulares que regem o movimento da matéria, o corpo que está unido àquela alma deve ser modificado quando a alma tem fome” (Idem, p. 104).

Tal passagem se refere ao entendimento de Leibniz sobre a relação entre corpo e alma, uma vez que ele rejeitava a ideia de causas ocasionais referidas por Descartes para explicar a ligação dos movimentos da alma com os do corpo. E a analogia com o relógio ainda existe, uma vez que um dos principais autores ateus da atualidade, Richard Dawkins, escreveu a obra “O Relojoeiro Cego” defendendo uma determinada ideia de seleção natural, cujo título faz referência ao pensamento deísta que via o mundo como uma máquina, como um relógio criado por Deus.

Tal tema é atualíssimo, porque referente ao entendimento sobre a consciência, a conexão entre mente e cérebro (corpo), sendo questão relativa à mais fundamental natureza humana, sobre a existência da alma e do Espírito. As respostas dadas a essas indagações partem de pressupostos metafísicos ou teológicos distintos, com suas várias possibilidades: o monismo materialista, entendendo que a alma é uma ilusão, um mero epifenômeno da bioquímica cerebral; algum tipo de dualismo, como o cartesiano, sustentando a existência de duas substâncias, ou o leibniziano, da sincronia entre alma e corpo; ou um monismo espiritual, do tipo oriental, dizendo que ilusória é a realidade material.

Leibniz afirmava que as almas possuem internamente a representação de todo universo, cada uma de seu ponto de vista, possuindo perfeita harmonia com as coisas que estão fora das almas, regidas pelas leis do mecanismo corporal. “E como a natureza da Alma é representar o universo de um modo muito exato (embora com maior ou menor nitidez), a sucessão de representações que a Alma produz para si mesma irá naturalmente corresponder à sucessão de mudanças no próprio universo” (Idem, p. 67). Desse modo, há também um dualismo no entendimento do autor, por não haver interferência nos mecanismos das leis do corpo com a atividade da alma, porque tudo que ocorre nesta é originado de sua constituição original, como representação de todo universo, expressando cada coisa externa no seu devido tempo, pela harmonia conferida por Deus a todas as coisas.

Por mais louvável e coerente que seja a tentativa de Leibniz, considero necessário superar o entendimento dualista, como também penso serem inaceitáveis os monismos materialista e espiritualista, porque acabam negando a importância do espírito ou da realidade corporal, ainda que, em favor das ideias orientais, deva ser dada prioridade ao plano espiritual, que é, em última análise, de fato, mais real que o corporal. Portanto, é crucial pensar uma forma de monismo integral, e para tanto pode-se ver como indispensável uma nova formulação teológica que abarque a questão, porque o tema da conexão entre e corpo e alma é fruto de uma prévia concepção teológica ou filosófica da realidade, tanto no que diz respeito ao materialismo ateísta como nas versões espiritualistas ocidentais e orientais, incluídos os dualismos de toda sorte.

Inicialmente, vale dizer que concordo com Leibniz quando diz que “Deus é a unidade primitiva” (Idem, p. 34), que “todo corpo se ressente de tudo que se faz no universo, de tal modo que Aquele que tudo vê poderia ler em cada um o que se faz em toda parte e até o que foi ou erá feito, observando no presente o que está afastado tanto nos tempos como nos lugares” (Idem, p. 37), que as almas racionais são “imagens da própria Divindade ou do próprio Autor da Natureza, capazes de conhecer o sistema do Universo e de imitar algo dele por intermédio de amostras arquitetônicas, sendo cada Espírito como uma pequena divindade em seu domínio” (Idem, p. 41), bem como que “as formas constitutivas das substâncias devem ter sido criadas com o mundo e devem sempre subsistir” (Idem, p. 60).

Leibniz entende espíritos como almas racionais, constando no glossário do livro citado que “espírito é uma alma virtualmente reflexiva, uma substância capaz de agir por si mesma. Cada espírito é uma expressão do universo, uma representação viva do universo como um todo” (Idem, p. 109).

Nesse ponto, entendo que há uma questão teológica a ser enfrentada, pois tenho um entendimento monoteísta no sentido de que é mais acertado dizer que há apenas um Espírito, Deus. Em termos escriturísticos “Deus é Espírito” (Jo, 18, 24), e podemos afirmar que “há um só Corpo e um só Espírito” (Ef 4, 4).

Portanto, dizendo que há um só Corpo, falamos que a realidade material é uma só, o que permite que cada corpo individual se ressinta de tudo que se faz no universo, o que é também entendido pela relatividade, na medida em que existem ondas gravitacionais demonstrando que há uma conexão material em tudo que existe, ou mesmo o campo de Higgs, que dá massa a todas as partículas, ou seja, um só Corpo.

Para se entender a existência de um só Espírito exige-se ainda mais esforço interpretativo, mais capacidade intelectiva, porque tal conceito somente é captado transcendentalmente, como unidade de todas as coisas. Para o materialista, ainda que use o Espírito para seus raciocínios e pensamentos, pois apenas por Ele temos essa capacidade, é muito difícil aceitar que somente uma unidade que está além dos corpos individuais, uma realidade imaterial, permite a comunicação entre as ideias particulares. Apenas por meio do Espírito foi possível elaborar a fórmula E=mc², pela inteligência daquele “=” (igual), na lógica que permite a tradução entre conceitos distintos em uma unidade intelectual superior. A inteligência é espiritual e, como tal, não local, está em toda parte, ainda que parcialmente, e daí porque a mesma inteligência, as mesmas leis cósmicas, estão em todo lugar, sendo buscadas pela Ciência, como Leis da Natureza. Há apenas uma Natureza, com suas interconexões profundas e sutis buscadas pela atividade científica, exercida por meio do Espírito, que é um e está presente na alma humana, e somente e em razão da participação nesse Espírito temos inteligência, além de liberdade para agir segundo ou contra Ele.

Finalmente, resta entender o significado da alma, que é algo situado simultaneamente no Corpo e no Espírito, é uma individualidade, uma Mônada, nas palavras de Leibniz, a unidade simples ou átomo real da natureza, ocupando uma posição material no Corpo, no tempo e no espaço, e uma posição inteligente no Espírito, não limitado espacial ou temporalmente. A alma está conectada materialmente a todo universo e espiritualmente ao próprio Deus, porque é em Seu Espírito.

Nossas almas, porque ligadas ao Espírito, que está em todos os lugares e em todos os tempos, e também fora do tempo e do espaço, como sustenta Leibniz, existem, no Espírito, desde antes do mundo.

Nele (em Cristo) Ele (Deus) nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1, 4).

Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo” (Mt 25, 34).

Assim, ao contrário das almas dos animais, que são de racionalidade mais restrita, com menos liberdade, temos possibilidade de tentar negar o Espírito, rejeitando sua ação, sua realidade transcendente, sua inteligência imaterial, para viver apenas no corpo, limitando-nos espacial e temporalmente, como animais, e perdendo, assim, parte significativa de nossa capacidade intelectual.

Se a alma não tem como, em vida, afastar-se do Corpo ao qual está unida, porque é a vida de um indivíduo, um membro vivo desse Corpo, é seu princípio de movimento, sua força ativa; ela pode perder conexão com o Espírito, passando a agir com inteligência, racionalidade, limitada, vivendo como se Ele não existisse, impedindo até mesmo o pleno desenvolvimento de seu cérebro, quanto às conexões neurais associadas à atividade espiritual.

Outrossim, havendo um Corpo, este é movido pelo Espírito, por Deus, que nos permite atuar na parte daquele Corpo em que nossos corpos estão situados, de modo que nossas almas tenham atuação sobre nossos corpos, em unidade intelectiva.

Mas, além disso, também podemos atuar sobre o Corpo, seja por meio do Espírito, em sua não localidade, com Sua força, que ainda desconhecemos, presente na energia abundante que a realidade quântica demonstrou existir, seja por meio instrumentos materiais elaborados como resultado da atividade espiritual, por ação das almas individuais interagindo umas com as outras e com o meio natural, o Corpo.

Encerro, finalmente, dizendo que a unidade entre corpo e alma, como salientado, é inegável, seja para considerar a alma ou o corpo como ilusão, ligada ao seu oposto que é a única autêntica realidade, seja de modo sutil, como no dualismo, que aceita suas duas existências, ou como sugerido acima, a alma como órgão do único Espírito no único Corpo, devendo cada um escolher a proposição que seja mais adequada às suas concepções mais fundamentais da realidade, isto é, mais coerente com sua Teologia.