Em busca da ordem

“Hegel, como muitos de seus contemporâneos e sucessores até Nietzsche, Jung e Heidegger, havia sido vítima de sua educação sob as pressões de um ambiente ortodoxo. Ele havia sido exposto, com uma intensa experiência de resistência, à deformação do complexo consciência-realidade-linguagem, à deformação da realidade-Isso na realidade-coisa, da luminosidade na intencionalidade, dos símbolos em conceitos definicionais. O Além, o símbolo criado por Platão para expressar sua experiência da realidade divina como formativamente presente nos movimentos participativos da metaxy, tornou-se um objeto situado espacialmente, um Jenseits deste mundo; e a simbolização platônica do Nous divino como o Ser além dos seres finitos foi transformada no conceito de uma coisa existente além das coisas existentes. Na linguagem de Hegel, os símbolos experienciais Além e Ser tornaram-se entidades com um artigo definido, das Jenseits, das Sein. Por fim, a deformação linguística tornou possível para o símbolo Ser aparecer como o predicado nas proposições nas quais o Deus da ortodoxia cristã tornou-se o sujeito, como em Gott ist das Sein. Os símbolos noéticos e pneumáticos, helênicos e judeu-cristãos foram transformados em conceitos intencionalistas a ser manipulados por pensadores proposicionais. A conquista irreversível de Hegel é ter compreendido inteiramente a deformação dominante dos símbolos, e seu grandioso fracasso foi ter tentado chegar a uma solução fundindo a realidade-Isso e a realidade-coisa no novo simbolismo do Sein, um sujeito que desdobra sua substância ‘dialeticamente’ no processo histórico até chegar a seu eschaton, seu Fim, na conceituação plenamente articulada de sua autoconsciência, abrangendo assim a própria realidade abrangente” (Eric Voegelin. Ordem e História. Vol. V. Tradução Luciana Pudenzi. São Paulo: Edições Loyola, 2010, p. 87).

Nossa abordagem da realidade está deformada há muito tempo e Eric Voegelin destaca a conquista irreversível de Hegel por é ter compreendido inteiramente a deformação dominante dos símbolos.

Vogelin sustenta que são poucos aqueles que procuram realmente conhecer a realidade, porque a maioria dos investigadores do mundo acaba se entregando à construção do que chama de “Segundas Realidades”, que são aquelas decorrentes do apego aos conceitos formados para entender a realidade, ou realidade-Isso, transformada em realidade-coisa, quando o mundo trabalhado intelectual é apenas o mundo da linguagem formada, consolidada, que acaba se descolando da realidade-Isso, adquirindo autonomia em relação a esta, fazendo com o que a consciência do inquiridor se transforme em inconsciência.

Vivemos, assim, num estado de inconsciência pública, porque a linguagem e os símbolos vivenciados coletivamente estão distantes da realidade-Isso, o que é tratado como deformação do complexo consciência-realidade-linguagem.

Contudo, a tentativa chamada de fracasso, ao contrário do que sustenta Voegelin, está na direção correta, segundo o que penso ser a interpretação adequada das Escrituras, reunir a realidade-Isso e a realidade-coisa.

“Entretanto, quaisquer que sejam as ramificações da experiência que possamos acrescentar, o dominante no símbolo ‘Geist’ segue sendo uma escatologia paraclética, a visão de um descenso do Espírito que alcançará aquilo que as cristandades de Pedro e de Paulo não alcançaram – isto é, a Parusia definitivamente salvacional do Além neste mundo. Entregar-se a essa fantasia, e propor, no curso de sua realização ativista, a abolição da filosofia requeria um considerável grau de inconsciência a respeito do tratamento desse problema por parte dos pensadores helênicos, helenistas e medievais” (Idem, pp. 86-87).

O que Voegelin trata como fantasia, porque aliado a uma determinada visão escatológica, divergente daquela fantasiosa apontada por Hegel, e ainda que esta também não seja imune a críticas, talvez seja exatamente a escatologia bíblica, cujo significado foi perdido em razão da deformação dominante dos símbolos cristãos que se seguiu à escatologia consolidada por Agostinho de Hipona, no sentido de que não haverá o Reino milenar de Cristo.

A deformação do complexo consciência-realidade-linguagem é muito provável esteja presente tanto na escatologia defendida por Voegelin como no tratamento da questão escatológica pelos pensadores helênicos, helenistas e medievais.

Como venho sustentando, a proposta bíblica é exatamente de superação da separação existente entre Deus e o mundo, em certo sentido, entre a realidade-Isso e a realidade-coisa. O Reino de Deus deve ocorrer neste mundo, como sustento no texto “Agora” (https://holonomia.com/2018/11/11/agora/):

“É importante frisar que Jesus e seus discípulos eram judeus, e os judeus não separavam temas morais, religiosos ou políticos, dada a unidade de sentido que pautava a comunidade judaica. A questão política, do Reino, era uma das manifestações de Deus entre os homens, e não faria sentido para um judeu remeter o Reino exclusivamente para outro mundo, para o além.”

Na medida em que, a partir de Agostinho, prevaleceu uma mentalidade platônica no entendimento cristão de mundo, é mais ou menos óbvio que uma escatologia paraclética, que não estava presente nas propostas dos pensadores helênicos e helenistas também não tenha aparecido entre aqueles medievais.

Não devemos nos esquecer que a oração ensinada por Jesus inclui o pedido de um descenso do Espírito, “venha o teu Reino, seja feita a tua Vontade na terra, como no céu” (Mt 6, 10); “venha o teu Reino” (Lc 11, 2).

Outrossim, procurar processo histórico o seu eschaton, seu Fim, está em conformidade com a leitura até mesmo mais direta das escrituras, pois no fim dos tempos está prevista exatamente descida da Jerusalém celeste: “Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade santa, uma Jerusalém nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para seu marido” (Ap 21, 2).

Obviamente, é possível compreender tal narrativa como expressão de uma mitoespeculação por meio de linguagem compacta, mas o próprio Voegelin vê o “capítulo 1 do Gênesis como uma ‘mitoespeculação pneumaticamente diferenciada’, caso queiramos entender o uso diferenciado ao qual a linguagem do mito foi submetida no Gênesis, criando mediante esse uso uma nova linguagem para novas concepções”, para depois afirmar que entende o “Gênesis como um dos grandes documentos no processo histórico da passagem das linguagens compactas para as linguagens diferenciadas” (Idem, pp. 43 e 45).

Portanto, se próprio livro do Gênesis, com uma linguagem de séculos de antecedência em relação ao Apocalipse, já era uma forma de linguagem diferenciada, é perfeitamente cabível conceber também o texto da Revelação, posterior e fruto do desenvolvimento daquela linguagem, como expressão de uma nova concepção, um complexo consciência-realidade-linguagem, que não estava presente na mentalidade dos pensadores helênicos e helenistas ou, porque se vincularam, nesse ponto, à mentalidade destes, também dos medievais.

É bem possível que o descenso do Espírito alcançado pelas cristandades de Pedro e de Paulo não tenha sido, ainda, o que os profetas haviam previsto, e que a escatologia paraclética possa, enfim, se consumar, quando a humanidade estará corretamente orientada no seu trabalho em busca da ordem, quando a autoconsciência humana, coletivamente, dentro da História, chegará ao seu Fim, isto é, sua união com Cristo e, finalmente, com o próprio Deus.

Derramarei o meu espírito sobre a tua raça e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44,3).

“‘Depois disto, derramarei o meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Mesmo sobre os escravos e sobre as escravas, naqueles dias, derramarei o meu espírito. Colocarei sinais nos céus e na terra, sangue, fogo e colunas de fumaça’. O sol se transformará em trevas, a lua em sangue, antes que chegue o dia de Iahweh, grande e terrível! Então, todo aquele que invocar o nome de Iahweh, será salvo. Porque no monte Sião haverá salvação, como Iahweh falou, e em Jerusalém sobreviventes que Iahweh chama” (Jl 3, 1-5).

A Lógica do julgamento (final)

No último mês, li a obra baseada na tese de doutorado de Fabrício Simão da Cunha Araújo, com o título “A lógica da fundamentação das decisões judiciais: a dinâmica entre argumentação jurídica e a valoração probatória”, defendida perante a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas. O livro faz uma excelente exposição sobre a base filosófica e lógica por trás da argumentação e fundamentação jurídica da decisão judicial.

O texto traz uma anamnese da história do pensamento lógico, inciando por algumas anotações sobre conceito de Logos presente tanto no ideário grego como no Evangelho de João, passando pela lógica clássica de Aristóteles, baseada nos seus princípios da identidade, não contradição e terceiro excluído, e chegando na Física quântica, que possui interpretações segundo as quais a lógica aristotélica teria sido parcialmente refutada.

O capítulo seguinte trata da nova visão do processo, com destaque para as ideias de Elio Fazzalari, concebendo-o como procedimento em contraditório, e para a teoria neoinstitucioalista, que superou o entendimento de que o processo seria concebido como instrumento da jurisdição para vê-lo como “instrumento que habilita a consecução da democracia no bojo do exercício de toda e qualquer função estatal” (Fabrício Simão da Cunha Araújo. A lógica da fundamentação das decisões judiciais: a dinâmica entre argumentação jurídica e a valoração probatória. Belo Horizonte: Fórum, 2021, p. 96). Como o processo estabelece a lei das partes, estas devem influir em sua elaboração, por meio do contraditório.

Depois, o tema fundamental da linguagem é explanado, mostrando como o processo também serve para estabelecer os sentidos do texto para o caso, dizendo ser “necessário explorar o significado de determinada expressão normativa, conceito ou princípio jurídico conforme seus referenciais se manifestam na realidade e não de forma abstrata, universal e imutável (Idem, p. 116).

Finalmente, é destacada a utilização da lógica utens na valoração da prova, fazendo retornar ao processo a experiência comum, da vida cotidiana, de modo que o julgamento tenha sua conclusão sindicável pelos indivíduos participantes da atividade jurisdicional. As máximas da experiência, assim, podem ser utilizadas para “atribuir maior ou menor valor probatório às provas trazidas ou produzidas no processo” (Idem, p. 156), destacando a importância da demonstração da inteligibilidade do argumento:

“Além de explicitar quais são as provas constantes nos autos que o conduziram a presumir que os fatos ocorreram de uma ou outra forma, caso ambas as partes tenham produzido provas voltadas a infirmar a prova do ex adverso, é imprescindível que o julgador não se restrinja a declinar as provas (sempre obrigatoriamente indicando sua localização) que preponderaram para seu convencimento, mas também explicite as razões pelas quais se deve valorar as provas em conflito como o faz, ou seja, as razões lógicas (utens) por que se deve atribuir maior carga de persuasão a algumas provas e menor a outras” (Idem, p. 173).

Enfim, o texto é elaborado segundo a melhor técnica processual, salientando que a busca da verdade é o ideal regulador da investigação científica, amparando-se nos ensinamentos de Tarski e Karl Popper. Segundo o último:

“Nós também vemos a ciência como busca da verdade e, pelo menos desde Tarski, já não temos medo de dizê-lo. Aliás, só tendo como referência essa meta, a descoberta da verdade, podemos dizer que, mesmo sendo falíveis, esperamos aprender com nossos erros. Só a ideia de verdade nos permite falar com sensatez em erros e em crítica racional, e só ela possibilita o debate racional – ou seja, o debate crítico à procura de erros, com o sério propósito de eliminar tantos deles quanto seja possível a fim de chegar mais perto da verdade. Por isso, a própria ideia de erro – e falibilidade – implica a ideia de uma verdade objetiva como um padrão que talvez não possamos atingir. (Nesse sentido a ideia de verdade é reguladora)” (Apud Fabrício Simão da Cunha Araújo. In A lógica da fundamentação das decisões judiciais: a dinâmica entre argumentação jurídica e a valoração probatória. Belo Horizonte: Fórum, 2021, p. 184).

Referida citação demonstra, o que nunca é destacado quando citada a ideia de falseabilidade de Popper, que quando algo é falseado outro algo é afirmado, e esse outro algo é a ideia de verdade, que nos permite falar com sensatez em erros e em crítica racional, e só ela possibilita o debate racional. Tal ideia de verdade funciona como o axioma ou pressuposto fundamental da própria atividade científica, incompatível com os relativismos vários, inclusive o moral. Sem uma verdade que permaneça nem a própria atividade de falsear as teorias científicas seria possível.

Nesse ponto, e superando parcialmente a proposta do livro, talvez seja possível ainda ver o processo como instrumento da juris dicção, como meio para expressão da Verdade, ou a verdade que mais dela se aproxima, que continua pressuposta, sem que isso infirme a teoria neoinstitucional e o apreço pela fundamentação democrática da decisão decorrente do procedimento em contraditório, que faz o controle entre aquela Verdade e a verdade provada, ou presumida, do processo. Sem que seja pressuposta uma Verdade última e final, a ideia de falhas e erros perde o seu significado, transformando o debate racional e a própria racionalidade em mera convenção, que pode ser arbitrariamente modificada segundo a vontade da ocasião.

Daí porque é fundamental também que a vontade do julgador esteja de acordo com a Verdade, que seja voltada à sua busca, como enfatizado no final do texto de Fabrício, ainda que isso tenha se tornado uma questão de menor importância nos dias atuais, a ética pessoal do julgador, que é associada a uma concepção filosófica tanto de Ética como de Verdade. A má Filosofia dos últimos tempos prejudica essas concepções e dificulta que tenhamos os melhores exemplos de julgadores, pois, por mais bem formados que sejam, sua honestidade ético-cultural é prejudicada por aquela má Filosofia, como ocorre com os julgadores cristãos que defendem juridicamente teses que contrariam o Cristianismo, este que também tem natureza jurídica, e, em decorrência, a correção de suas decisões, tendo como parâmetro a postulada Verdade, hoje praticamente desconsiderada no plano político-jurídico.

A questão da mentalidade do julgador e sua importância para o julgamento está relacionada à posição do observador na medição quântica. Assistindo ao vídeo “Taher Gozel interview with Basil Hiley on the holistic quantum model he produced with David Bohm” (https://www.youtube.com/watch?v=USnxT45B_1Y&t=2430s), lembrei-me da questão fundamental da Física quântica, que contraria o entendimento científico moderno, o qual pretendia a objetividade pela retirada de todas as questões subjetivas, do observador, do experimento científico.

A atividade científica mais fundamental não pode ser feita de forma independente do observador, o que, aplicado ao julgamento, significa que a decisão judicial não pode ocorrer sem a participação do juiz, que, com sua simples interferência no processo, por si só, já altera a realidade a ser analisada, na totalidade que inclui observador e observado. O juiz não é um agente passivo que apenas descreve e qualifica os fatos que lhe são narrados pelas partes, ele muda qualitativamente a realidade do processo e, consequentemente, os próprios fatos em julgamento, segundo sua posição, sua teoria, suas percepções etc.

“O cientista que está fazendo a experimentação, seu envolvimento, suas intenções e tudo mais, muda a experimentação”. A depender do cientista, e julgador, portanto, a decisão pode ser uma ou outra, porque a própria realidade experimentada será uma ou outra. Como, no caso da medição judicial, o aparato observador é a própria pessoa do julgador, outrossim, não há como afastar essa interferência, essa participação nos próprios fatos observados. Uma vez que a teoria encampada pela doutrina jurídica, que forma os julgadores, em si, está eivada de equívocos fundamentais, tal situação explica, em parte, julgamentos tão dissonantes sobre fatos semelhantes.

O critério final de julgamento, destarte, é pessoal, refere-se à pessoa juiz, sua honestidade ético-cultural, integridade e senso arraigado de correção e justiça, vinculados à teoria jurídica por ele encampada.

Ainda que seja altamente preocupante a situação atual da humanidade, porque não existe honestidade ético-cultural, em sentido amplo, na própria teoria jurídica pós-moderna, o curso da História está em desenvolvimento, e o julgamento final será feito por meio da pessoa com maior honestidade ético-cultural, integridade e senso arraigado de correção e justiça que já passou pelo planeta, Jesus de Nazaré, o qual incorporou a própria ideia de Verdade, tornando-a existencial, estando presente na estrutura de nossa ética e nossa cultura, por mais que seus inimigos tentem ofuscar esse fato. É pressuposto da atividade científica que, mais cedo ou mais tarde, a verdade se mostre, o que conduzirá à necessária inclusão da mensagem evangélica nessa empreitada, porque a ideia de Logos como a conhecemos, o que inclui a de Verdade, é não pode ser dissociada da pessoa de Jesus, sua vida, sua obra e sua doutrina, e como ele mudou o mundo.

Esse, portanto, é o critério do julgamento final, que leva em consideração como alteramos a realidade, se o fazemos honestamente, em busca da Verdade, ou se a manipulamos para fins particulares, em seu detrimento, praticando, enfim, a corrupção existencial através do erro/pecado/ilícito e da injustiça.

Se não existe Verdade, não há julgamento falho, não há injustiça, apenas opiniões e convenções distintas sobre o que quer que esta. A própria ideia de erro – e falibilidade – implica a ideia de uma verdade objetiva como um padrão que talvez não possamos atingir, mas, ainda que não possamos alcançá-la, por ora, se nem ao menos a estivermos buscando, nossa empreitada científica, e jurídica, terá sido em vão, e inútil.

Sem a ideia de verdade, não há ciência, e a racionalidade já está condenada. Aí está a inteligência suprema do Mestre. Antes de Jesus a Verdade não era conhecida. Agora, que nele não crê, não crê na Verdade, e, por isso, já está condenado, porque prefere suas próprias verdades àquela que é a condição da inteligibilidade de tudo o que existe. Assim, no julgamento final, quando consideradas todas as coisas, a totalidade da qual participamos, na Verdade, tudo acaba por ser revelado, e nada, senão a verdade, permanece de pé.

O aparato observador Jesus Cristo, com seu corpo, suas ideias, sua vida, seu modo de participar na totalidade do mundo, e modificando-o, o qual integramos em sua unidade indivisível, é o próprio critério de Verdade, ele é a medida da Justiça, é o instrumento pelo qual Deus, o Logos, habilitou a consecução da autêntica democracia no bojo do exercício de toda e qualquer função estatal, na qual, na Ekklesia, na realização do Reino, significou a própria expressão normativa, o conceito ou o princípio jurídico conforme sua realidade concreta no Reino de Deus.

Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; quem não crê, já está julgado, porque não creu no Nome do Filho único de Deus. Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3, 17-21)

O fenômeno mais importante do mundo

O nome do artigo é o mesmo de um vídeo que me chamou a atenção na última semana (https://www.youtube.com/watch?v=U3Ua-GtfSVA&t=601s), em que Olavo de Carvalho trata de um tema relativo ao livro que lançou com o título “A Consciência de Imortalidade”.

De fato, se a alma é imortal, tem início mas não tem fim, sua duração é maior que a história da Humanidade, isso da perspectiva material, e tal fenômeno possui elevadíssima importância, porque muda a escala como vemos as coisas. Poderíamos considerar a mesma História compreendendo a criação da alma humana antes do tempo, pelo Criador, de modo que a história da Humanidade teria outra conotação, segundo uma interpretação bíblica, mas aí já estaríamos tratando da Teologia propriamente dita, e da natureza humana, em que já assumida a existência de Deus e nossa existência espiritual.

Seguindo o tema do vídeo, a ideia de que a alma é imortal, associada à experiência que algumas pessoas tiveram desse fenômeno, realmente, é um assunto da maior gravidade, porque nos obriga a considerar nossa existência não apenas a partir de nosso corpo com prazo de validade. A escala interpretativa, inclusive de valores, do ponto de vista espiritual, é de outra grandeza.

Já tive a oportunidade de ler um livro sobre o assunto, “Mapa do Céu”, de Eben Alexander III, que teve uma experiência de quase morte, da qual voltou mudado como pessoa. Curioso que comprei tal livro em um caixa de supermercado, o que é raro acontecer, mas a leitura foi muito agradável, e levou à aquisição de uma obra técnica cuja leitura ainda não iniciei, “Irreducible Mind: Toward a Psychology for the 21st Century”, de Edward F. Kelly, com uma ideia bastante promissora.

A questão da mente, da alma, do espírito, é um dos problemas fundamentais da Ciência moderna, que remete à proposta filosófica de Descartes, ao imaginar o mundo formado por duas substâncias, a res extensa, material, com características quantitativas, que pode ser pesada, medida e contata, e a res cogitans, imaterial, à qual estão associadas as qualidades.

No vídeo indicado no primeiro parágrafo, Olavo aborda a importante questão da divergência entre idealistas e realistas, com uma posição bastante correta, segundo a qual nossa simples presença nos dá informações sobre o mundo, que vão além daquilo que nossos sentidos nos informam e que não podem ser apreendidas pelos pensamentos, o que refuta aquelas correntes filosóficas, na medida em que não somos puros observadores, pois estamos inseridos no mundo e com ele interagindo. “Essa noção de presença, ela é muito mais importante do que tudo o que os filósofos idealistas e realistas disseram ao longo do tempo”.

Tal abordagem é materialista, segundo Olavo, porque vai muito além da percepção sensível. “Os sentidos entram nisso? Claro que entram, mas entram secundariamente. Eles dependem da presença, e não a presença deles”.

O que não está no vídeo, que é parte de uma aula, e não sei se foi abordado nesta exposição mais ampla, consiste no fato de que possuímos uma presença tanto corporal como espiritual. Uma das passagens bíblicas que considero da maior relevância filosófica está em Efésios, como citado no artigo “Cristianismo como Filosofia” (https://holonomia.com/2020/12/06/cristianismo-como-filosofia/):

“Por isso, a alma é o objeto do Cristianismo, como Ciência do Espírito, do conhecimento da realidade espiritual e sua conexão com o plano corporal, a Vida. A alma é o medium que relaciona o Espírito, o próprio Deus, ao Corpo, a realidade material.

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos’ (Ef 4, 4-6).

Os versículos transcritos demonstram a mais elevada coerência filosófica do Cristianismo, com uma atualidade científica impressionante, precisão jamais alcançada por outra forma de pensar, referindo-se às unidades corporal, ao contínuo espaço-tempo, e espiritual, à necessária unidade da inteligência, e a um só Deus, que é o Logos, essa mesma Inteligência que é sobre todos, por meio de todos e em todos, porque nada escapa ao controle da divindade e sua Inteligência. O Cristianismo, como a Filosofia, é um chamado à Unidade da Inteligência.’

A definição de Filosofia de Olavo de Carvalho, assim, porque tem seu fundamento no Cristianismo, é bastante acertada: “Filosofia é a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa”. Outrossim, ainda que o referido autor não seja perfeito, tenha algumas manifestações grosseiras e outras equivocadas, sua pesquisa filosófica tem algo muito sério a ser considerado.

Temos uma presença tanto corporal como espiritual, no um só Corpo e no um só Espírito. Apesar do fato de que quanto mais o tempo se afastou da época de Descartes menos seriamente foi considerada a realidade do um só Espírito e da alma, preteridos pela análise material do mundo, que hoje chega a considerar cientificamente que a mente é um epifenômeno do corpo, isto é, das conexões químicas do cérebro, fica cada vez mais difícil compreender o mundo de um ponto de vista materialista, principalmente porque nem mesmo a matéria, a densidade corporal, foi suficientemente entendida pela Física, que precisou criar os conceitos de energia e escura e matéria escura, que representam cerca de 95% (noventa e cinco por cento) de tudo o que existe, para que os cálculos fizessem algum sentido.

Portanto, além de uma presença corporal, por meio da qual interagimos permanentemente com o mundo à nossa volta, alterando-o fisicamente, por meio de ondas eletromagnéticas e gravitacionais, que se propagam em todas as direções, pelo que um aparelho com suficiente precisão poderia nos observar do outro lado do cosmos, temos também uma presença espiritual, através da qual nos relacionamos mentalmente com os demais seres espirituais, que não estão sujeitos ao espaço-tempo, ou seja, mesmo no corpo participamos do Espírito, presente simultaneamente em todos os tempos e todos os lugares, e é apenas por essa participação que pudemos desenvolver nossa Ciência, com destaque para a não localidade quântica, esta incompatível como o pensamento materialista, tanto é que refutada inicialmente por Einstein, que compreendeu que uma “ação fantasmagórica à distância” contrariava a ralidade material por ele concebida.

Nesse ponto, diferentemente de criaturas puramente espirituais, como os anjos, que não possuem corpos, com os quais podem, todavia, trocar influência, da mesma forma que objetos inanimados têm o condão de nos despertar significação espiritual, somos criaturas que possuímos corpos, que ocupam lugar no tempo e no espaço, e por meio dos quais manifestamos nossa existência espiritual. Diversamente do entendimento científico que hoje prevalece, pelo qual somos corpos, e talvez possamos ter alma e espírito, somos, na realidade, seres espirituais que possuímos uma alma encarnada em um corpo. Assim, somos espírito e temos corpo. O corpo não é a última instância da realidade, mas aquela na qual a realidade espiritual se manifesta em suas diversas qualidades, das mais grosseiras às mais sublimes, nos prazeres mais carnais, muitas vezes repulsivos, aos mais elevados, muitas vezes incompreendidos: “Estêvão, porém, repleto do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus, e Jesus, de pé, à direita de Deus” (At 7, 55).

Com a morte do corpo, o espírito não deixa de existir, apenas a alma perde temporariamente sua conexão corporal, repousando no Espírito, aguardando o novo chamado à vida, que ocorrerá na ressurreição. Esse descanso pode levar milhares de anos, na perspectiva corporal, mas, do ponto de vista espiritual, porque o Espírito não está sujeito ao tempo, é apenas um instante, o que explica a fala de Jesus ao condenado na cruz: “Hoje estarás comigo no paraíso!” (Lc 23, 43).

Daí a importância da constante oração e vigilância, para que não sejamos pegos de surpresa no momento de nossa interrupção existencial, para que não estejamos no erro no momento da passagem deste corpo para o próximo, dada a continuidade da alma, no Espírito, deste corpo para aquele transformado da ressurreição.

Eis que vos dou a conhecer um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final; sim, a trombeta tocará, e os mortos ressurgirão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Com efeito, é necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e que este ser mortal revista a imortalidade. Quando, pois, este ser corruptível tiver revestido a incorruptibilidade e este ser mortal tiver revestido e imortalidade, então cumprir-se-á a palavra da Escritura: A morte foi absorvida na vitória. Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a Lei. Graças se rendam a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo! Assim, irmãos bem-amados, sede firmes, inabaláveis, fazei incessantes progressos na obra do Senhor, cientes de que a vossa fadiga não é vã no Senhor” (1Cor 15, 51-56).

A realidade espiritual e a ressurreição está na base mais fundamental do Cristianismo, e temos uma testemunha histórica do tempo de Jesus, exatamente o apóstolo Paulo, para corroborar essa ideia, pois ele bem sabia que se não houvesse espírito, ou ressurreição, não haveria motivo minimamente racional para a vida cristã com suas privações materiais.

Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1Cor 15, 16-20).

Outrossim, o fenômeno mais importante do mundo, associado à imortalidade, é a própria ressurreição de Cristo, evento que mudou a História, marca tanto nosso calendário como nossa concepção de mundo, por menos que seja a atenção que nosso tempo dá a essa Verdade, e por essa razão, sim, devemos fazer incessantes progressos na obra do Senhor, cientes de que a vossa fadiga não é vã no Senhor!

Realismo moral

“Assim, o realismo (científico), em regra geral, assume dois pressupostos, quais sejam: (1) a visão de que conceitos abstratos possuem uma existência real (mesmo que não corpórea) e podem ser, em parte, conferidos empiricamente; e (2) o mundo possui uma realidade que é independente dos nossos estados mentais. Já o realismo moral assume três pressupostos centrais que são derivados dessas duas primeiras ideias gerais:

(1) Fatos morais existem, mas possuem uma dimensão existencial diferenciada dos demais fatos naturais;

(2) Os fatos morais são independentes de qualquer crença ou estado mental que possamos assumir em relação a eles; e

(3) É possível que venhamos a nos equivocar sobre o que é certo e o que é errado em relação aos fatos morais” (O cognitivismo e não cognitivismo moral e sua influência na formação do pensamento jurídico. Tese de doutorado em Filosofia apresentada por Arthur Maria Ferreira Neto à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2013, p. 142).

A partir da citação acima é permite-se compreender como o pensamento filosófico é desenvolvido de forma axiomática: são estabelecidas premissas, postulados ou pressupostos, assumidos como verdadeiros, porque não passíveis de demonstração empírica, apenas confirmação lógica, a qual acaba por se tornar circular ou tautológica, pela necessidade de comprovação das premissas no curso do discurso argumentativo.

Nas premissas estão exatamente os fundamentos da realidade, o modo pelo qual o mundo é compreendido por aquela escola de pensamento. Na medida em que é possível derivar conclusões racionais das premissas, com maior ou menor adequação à experiência de vida, o referido modo de pensar é aceito e compartilhado, abarcando mais e mais fenômenos da realidade, quando a circularidade é superada, em parte, pelos crescentes níveis fenomênicos alcançados pela teoria. Diferentes tradições filosóficas escolhem pressupostos distintos, muitas vezes inconciliáveis, e daí surge uma grande dificuldade de comunicação entre as respectivas escolas de pensamento.

Nos primórdios da Filosofia, temas afetos à Teologia estavam imbricados nas questões básicas relativas ao conhecimento, tais como a existência da alma, da realidade ideal ou espiritual além do mundo físico, como se pode verificar na citação acima, ao mencionar a possível existência não corpórea de conceitos abstratos.

Contudo, uma vez que haja uma falha nas premissas, a racionalidade de todo o sistema resta comprometida, e é isso que penso ocorrer no discurso filosófico, as premissas são parcialmente equivocadas, porque conceitos teológicos foram mal interpretados inicialmente, e disso decorreu a parcial inconsistência da postura filosófica que concebo correta, o realismo.

Realmente, conceitos abstratos possuem uma existência real (mesmo que não corpórea) e podem ser conferidos empiricamente, mas o mundo possui uma realidade que não é independente dos nossos estados mentais.

Os conceitos abstratos são construções mentais desenvolvidas para a compreensão intelectual do mundo criado, possuindo uma existência real vinculada ao discurso em que usados, tanto em termos de pertencimento linguístico como em termos de honestidade intelectual.

Nesse sentido, a existência dos conceitos abstratos é dependente do contexto em que formulados e utilizados, o que inclui a intenção do sujeito, da finalidade na qual referidos conceitos são usados, que pode ser adequada ou não à sua referência existencial, quando serão instrumentalizados como forma de comunicação, tornar o mais comum possível a informação, ou manipulação, caso em que o sentido verdadeiro é ocultado por uma intenção subjacente do sujeito que se vale daquele conceito.

Não bastasse isso, nossa postura emocional perante o mundo afeta nossa forma de apreensão da realidade, de modo que não é propriamente adequado dizer que a realidade do mundo é independente de nossos estados mentais. Isso fica evidente em situações nas quais a pessoa é tomada de sentimentos intensos, que a tornam incapaz de perceber determinadas características ou sutilezas presentes naquele contexto a ser apreendido racionalmente, ocasiões em que a objetividade do mundo resta ofuscada por aspectos subjetivos da interpretação individual.

No realismo platônico, a realidade última é associada à ideia de Bem, ou Deus. Da perspectiva do Monoteísmo, por sua vez, Deus, o Altíssimo, também Bom, é essa realidade, mas na medida em que existimos, não podemos dizer que seja, em nosso modo de compreendê-la, propriamente independente de nós, “pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28), de modo que há uma realidade última, Deus, cujo conhecimento é dependente de nosso relacionamento com Ele, tanto do ponto de vista físico como também moral.

Outrossim, no que diz respeito ao realismo moral, os fatos morais, sim, existem, mas sua dimensão existencial não é diferenciada dos demais fatos naturais, estes apenas não são suficientemente bem conhecidos; os fatos morais não são independentes de qualquer crença ou estado mental que possamos assumir em relação a eles; é, sim, possível que venhamos a nos equivocar sobre o que é certo e o que é errado em relação aos fatos morais, o que decorre de nosso estado mental inadequado, de nossa falta de amor, de pouco pertencimento à realidade última.

A Escritura é repleta de exemplos em que o conhecimento está associado à emoção sublime, que é o amor, podendo-se dizer que a própria Ciência é por ele condicionada, seja em relação à natureza como à moralidade.

Por essa razão, eu te digo, seus numerosos pecados lhe estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor” (Lc 7, 47). A passagem relata um fariseu que pensava que Jesus não “saberia” quem era a mulher que o tocava, mas o conhecimento de Jesus vai muito além das aparências, é referente à própria essência, e no plano das essências tudo está significativamente interligado.

Mas eu vos conheço: não tendes em vós o amor de Deus” (Jo 5, 42). Mais uma passagem associando conhecimento e amor de Deus, que significa uma relação íntima com o Criador e, portanto, com as criaturas, e que permite sua apreensão intelectual, por uma correta noção de pertencimento à realidade.

Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13, 35). O Evangelho de João é aquele no qual Jesus é, de forma textual, a encarnação do Logos, da própria razão, e essa encarnação é existencial, não apenas verbal ou por palavras, é a própria vivência do amor de Deus entre os homens, que pode ser reconhecida externamente na relação entre os membros da comunidade, a partir do exemplo de Jesus. Assim, através dos fatos naturais, que também são expressos em comportamentos, os fatos morais podem ser apreendidos.

Assim como o Pai me amou também eu vos amei. Permanecei em meu amor. Se observais meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como eu guardei os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Eu vos digo isso para que a minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 9-12). “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei” (Rm 13, 8). Nessas passagens é inequívoca a associação entre obediência aos mandamentos e permanência no amor, significando a impossibilidade de separar a normatividade da afetividade.

Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci e estes reconheceram que tu me enviaste. Eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles” (Jo 17, 25-26). Os fatos morais, portanto, são dependentes de nossa crença e de nossos afetos, somente podendo ser conhecidos adequadamente no relacionamento íntimo com o único e verdadeiro Deus, o Pai justo. Na relação viva, os conceitos não são abstratos, possuem uma existência real vinculada ao discurso intelectual e existencial, tanto em termos de pertencimento linguístico como em termos de honestidade intelectual, servem para “dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37).

Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é Amor” (1Jo 4, 7-8).

Esta última transcrição é aquela em que de forma mais evidente e inafastável amor e conhecimento estão indissociados, pelo que resta evidente que o conhecimento, tanto físico como moral, é condicionado pelo amor, de modo que o realismo científico e moral, mesmo referindo-se a uma realidade objetiva, não significa que o mundo seja independente do sujeito ou de seus estados mentais.

Ontologicamente talvez seja possível falar de uma realidade independente, na qual inseridos todos os sujeitos reais e possíveis, que diz respeito ao Deus criador em si, mas epistemologicamente, porque estamos inseridos no mundo, nosso conhecimento é obrigatoriamente interacional, por meio de relações mentais e físicas com os objetos, colocando as qualidades subjetivas como relevantes e indispensáveis para a cognição do mundo.

Desse modo, necessário que as crenças e qualidades subjetivas voltem a ser consideradas como pressupostos e condicionantes da atividade científica, tanto nas ciências naturais, em que a medição quântica já é definida pela opção mental do observador, e pela atividade dela decorrente, como nas morais, nas quais, do mesmo modo, a postura do observador é determinante para a correta verificação do que é certo ou errado em relação aos fatos morais, que serão definidos, em último aspecto, pela adequação da crença e do amor manifestados pelo indivíduo, sempre tendo como referencial definitivo aquele que mais conheceu a Deus e permaneceu no Seu amor, Jesus de Nazaré, o Messias judeu.

É importante lembrar, finalmente, que nosso conhecimento do mundo físico e moral é apenas parcial, porque, como salientado no início do texto, as questões teológicas não são separáveis das filosóficas, de modo que a atualidade que conhecemos não é a expressão plena da realidade última, pois esta abarca não apenas este momento de nossa existência corporal, como também aquele mundo espiritual ainda em formação, no qual os derradeiros efeitos de nossas ações, físicas e morais, serão plenamente conhecidos, isto é, na ressurreição, sem a qual, da perspectiva monoteísta, resta fulminada qualquer ideia de realismo moral.

Israel, Palestina e Jesus

Com quase duzentas mortes até o momento, e mais de sessenta crianças entre as vítimas, é inequívoco que há uma guerra em curso, entre Israel e o Hamas. Na realidade, há um estado de guerra permanente em torno do Estado de Israel desde sua refundação, em 1948, que remete, de fato, à dissolução da unidade política dos hebreus após a morte do rei Salomão, há milênios.

Para se chegar às origens do conflito, muito além da questão territorial, pois, é preciso ir aos fundamentos teológicos do Monoteísmo, porque a divergência está na prioridade da descendência de Abraão, em seus dois filhos, Ismael e Isaac, representados, atualmente, por árabes e judeus, e, também, por cristãos.

O Anjo de Iahweh lhe disse: ‘Estás grávida e darás à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Ismael, pois Iahweh ouviu tua aflição. Ele será um potro de homem, sua mão contra todos, a mão de todos contra ele; ele se estabelecerá diante de todos os seus irmãos.’” (Gn 16, 11-12).

A maioria do povo árabe é constituída de muçulmanos, os quais reclamam a descendência de Ismael, e seu estabelecimento diante dos irmãos. Ismael é o filho mais velho de Abraão, e daí porque é natural, em certo sentido, que se considerem, os muçulmanos, com preferência sobre judeus.

Quanto a mim, eis a minha aliança contigo: serás pai de uma multidão de nações. E não mais te chamarás Abrão, mas teu nome será Abraão, pois eu te faço pai de uma multidão de nações. Eu te tornarei extremamente fecundo, de ti farei nações, e reis sairão de ti. Estabelecerei minha aliança entre mim e ti, e tua raça depois de ti, de geração em geração, uma aliança perpétua, para ser o teu Deus e o de tua raça depois de ti. A ti, e à tua raça depois de ti, darei a terra em que habitas, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o vosso Deus.” (Gn 17, 4-8).

Os judeus, que são uma especificação dos israelitas, por sua vez, com base na passagem acima, reclamam a possessão perpétua da terra de Canaã, o que inclui a atual Palestina.

Não há a mínima hipótese de se resolver definitivamente o problema de Israel com seus vizinhos árabes e muçulmanos sem passar pelo tratamento da questão acima referida.

Qualquer proposta que desconsidere as ramificações teológicas envolvidas será provisória e incompleta, e deixará espaço aberto para novos conflitos e discussões. O povo judeu aguardou por dois mil e quinhentos anos, aproximadamente, para retomar a autoridade política sobre a terra de Canaã, pelo que não será a ONU ou qualquer pensamento surgido no século XX que afastará a fundamentação multimilenar de sua vinculação ao referido território.

A alegação da preeminência de Ismael sobre Isaac, pela primogenitura do primeiro sobre o segundo, de sua vez, ignora outros relatos bíblicos em que houve a subversão desse princípio, quando o filho mais novo recebeu a bênção que seria devida ao mais velho, sendo exemplo claro o encontrado na narrativa sobre Esaú e Jacó, o último chamado Israel, pai de Judá, que deu origem ao povo Judeu.

Tal situação foi abordada claramente na nova Revelação:

Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da serva e outro da livre. Mas o da serva nasceu segundo a carne; o da livre, em virtude da promessa. Isto foi dito em alegoria. Elas, com efeito, são as duas alianças; uma, a do monte Sinai, gerando para a escravidão: é Agar (porque o Sinai está na Arábia), e ela corresponde à Jerusalém de agora, que de fato é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém do alto é livre e esta é a nossa mãe, segundo está escrito: Alegra-te, estéril, que não davas à luz! Põe-te a gritar de alegria, tu que não conheceste as dores do parto, porque mais numerosos são os filhos da abandonada do que os daquela que tem marido. Ora, vós, irmãos, como Isaac, sois filhos da promessa. Mas como então o nascido segundo a carne perseguia o nascido segundo o espírito, assim também agora” (Gl 4, 22-29).

A interpretação óbvia e atual da passagem acima coloca tanto árabes como judeus na situação de escravos, a Jerusalém de agora é escrava com seus filhos que disputam suas terras, que inclui judeus, muçulmanos e palestinos, incluídos alguns denominados cristãos.

A Jerusalém do alto, por sua vez, já é governada por Jesus, o Messias, o filho da promessa, o filho da Humanidade, por meio de quem todas as nações da terra são abençoadas. O povo judeu é uma nação, e espera o Messias para que a promessa alcance muitas nações, o qual, todavia, já veio, Jesus de Nazaré, após o qual surgiram os muçulmanos, e, então, uma multidão de nações reclama Abraão como patriarca, o que, infelizmente, muitos cristãos ignoram.

Juro por mim mesmo, palavra de Iahweh: porque me fizeste isso, porque não me recusaste teu filho, teu único, eu te cumularei de bênçãos, eu te darei uma posteridade tão numerosa quanto as estrelas do céu e quanto a areia que está na praia do mar, e tua posteridade conquistará a porta de seus inimigos. Por tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra, porque tu me obedeceste” (Gn 22, 16-18).

O Messias, pelo qual todas as nações da terra são abençoadas, contudo, não é aceito pelo povo judeu e não foi compreendido pelos muçulmanos, à medida que desprezam as primeiras revelações do Livro.

O Alcorão exige que seja interpretado conforme a Torá e o Evangelho:

Se estiveres em dúvida sobre o que te revelamos, consulta os que têm o Livro desde antes de ti. Teu Senhor te revelou a verdade. Não seja um dos que duvidam” (Sura 10, 94); “E, em religião, quem é melhor do que aquele que se submete a Deus, faz o bem e segue a crença, monoteísta, de Abraão? Deus elegeu Abraão por amigo” (Sura 4, 125).

Acreditareis, acaso, numa parte do Livro e renegareis a outra? Se o fizerdes, vosso castigo será a vergonha neste mundo e o suplício no dia da Ressurreição. Deus está atento ao que fazeis” (Sura 2: 85).

Cada religião se apega excessivamente a seu Mensageiro, os judeus a Moisés, os cristãos à imagem que fizeram de Jesus, que foi igualado ao próprio Criador, e os muçulmanos a Maomé, um homem imperfeito, ao contrário de Jesus.

Muhamad não é senão um Mensageiro. Outros mensageiros vieram antes dele” (Sura 3: 144).

E Nós lhe enviamos Nosso espírito sob a forma de um homem perfeito” (Sura 19:17). Este homem perfeito é o filho de Maria, Jesus. “E aquela que protegeu sua virgindade, e Nós sopramos nela de Nosso espírito e dela e de seu filho Jesus fizemos um sinal para os mundos” (Sura 21: 91).

Evidente que há uma superioridade de Jesus, o homem perfeito que recebeu o Espírito de Deus, sobre Maomé, o que vale igualmente para a questão profética. É interpretação simples e direta das Escrituras.

Contudo, “Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia” (Rm 11, 32), judeus e gregos, na época de Paulo, e cristãos e muçulmanos, hoje. São todos desobedientes, acreditando em parte do Livro e renegado a outra.

Ó vós que credes, não interrogueis acerca de coisas que, se vos fossem reveladas, vos magoariam. Mas se perguntardes por elas quando o Alcorão estiver sendo revelado, ser-vos-ão expostas. E Deus vos perdoará. Deus é compassivo e clemente” (Sura 5: 101).

O que magoaria os crentes muçulmanos é o fato de que o islamismo é uma revelação para servos, a aliança da atual Jerusalém, que é escrava com seus filhos, incluídos os judeus, estes porque renegaram o Messias, e os cristãos, em certo sentido, pelo mesmo motivo, ignorando o que significa Jesus ser o Messias, o Rei de todas as nações, neste mundo, mesmo que também seja o sacerdote da ordem de Melquisedeque, atemporal, e, assim, superior a Abraão. Jesus é descendente de Abraão na carne, mas o antecede no espírito, o mais novo recebeu a bênção, tornando-se mais velho, superior, com efeitos retroativos.

Vede, pois, a grandeza deste homem, a quem Abraão, o patriarca, entregou o dízimo da melhor parte dos despojos. Ora, os filhos de Levi, chamados ao sacerdócio, devem, segundo a Lei, estabelecer o dízimo para o povo, isto é, para os seus irmãos, conquanto são descendentes de Abraão. Aquele, porém, embora não figure em suas genealogias, submeteu Abraão ao dízimo, e abençoou o portador das promessas! Ora, é fora de dúvida que o inferior é abençoado pelo superior.” (Hb 7, 4-7).

Não por acaso Jesus afirmou: “antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8, 58); porque representa a aliança perpétua de Deus com Abraão, que remete à linhagem da mulher, que esmagou a cabeça da serpente, superando o pecado de Adão (Gn 3, 15), pelo que está acima tanto de Abraão como de Moisés, e de Maomé.

Em Jesus, a humanidade adquire a perfeição, sendo um sinal não apenas para o povo judeu ou árabe, e sim para os mundos.

A solução para conflito árabe-israelense, outrossim, entre Israel e Palestina, passa pela Teologia, pela concepção perfeita do Monoteísmo, por Jesus de Nazaré, o Messias, Rei de todas as nações, o Profeta, e sacerdote da ordem de Melquisedeque.

Cisne Negro e Criacionismo

“Boa parte do debate entre criacionistas e teóricos evolucionários (do qual não participo) reside no seguinte: criacionistas acreditam que o mundo é fruto de algum tipo de desígnio, enquanto teóricos evolucionários veem o mundo como resultado de mudanças aleatórias causadas por um processo sem propósito. Mas é difícil olhar para um computador ou para um carro e considerá-los resultado de processos sem propósito. Mas é isso que são” (Nassim Nicholas Taleb. A lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável. Tradução Marcelo Schild. 23 ed. Rio de Janeiro: BestBusiness, 2020, pp. 221-222).

A passagem acima é uma nota do livro, que trata do Cisne Negro, “um evento com três características elementares: é imprevisível, ocasiona resultados impactantes e, após sua ocorrência, inventamos um meio de torná-lo menos aleatório e mais explicável”, como consta orelha da referida obra.

O autor possui alguns argumentos interessantes, mas a nota citada mostra que seu pensamento é, no mínimo, carente de consistência filosófica, pois um computador e um carro podem ter se desenvolvido tendo por base acontecimentos aparentemente desconexos, mas dizer que são “resultado de processos sem propósito”, pois consistem em instrumentos desenhados para determinadas finalidades, é, no mínimo, uma meia verdade, e, como toda meia verdade, é, de fato, uma mentira.

Todo evento é fruto de uma base material que o torna possível, e a base material de tudo está nas origens do mundo, cujas qualidades e características especiais permitiram toda a sequência posterior dos acontecimentos. Desde que a vida surgiu, pelo menos, é possível dizer que há um propósito na existência, sobreviver, e em certo sentido tudo o que existe é resultado de um ou vários propósitos.

Para os teóricos evolucionários, no nível cosmológico, nosso mundo só faz sentido se outros bilhões existirem, e mesmo a origem da vida não é minimamente explicada, pois a evolução pressupõe o universo criado e o primeiro ser vivo, a partir do qual pudesse ocorrer. Para sustentar sua hipótese, o que é um propósito, incontáveis universos foram criados. E mesmo que tenha havido processos evolucionários dos sistemas vivos em nosso planeta, tal ideia não é incompatível com a criação da vida por Deus ou por saltos evolutivos por Ele promovidos, na medida em que, contrariando Darwin, a Física quântica mostra que, em sua base mais fundamental, a natureza, sim, dá saltos.

O próprio ser humano é a grande prova desse salto enorme, pois nossa presença na Terra é recente, e proporcionamos um salto qualitativo sem precedentes na história evolutiva. Tal salto é um ato de criação proporcionado por Deus.

Em algum momento da história, Deus soprou seu Espírito na criação, dando uma cabeça à sua criatura, e assim nasceram Adão e a Humanidade. De repente, o homem dá conta de sua existência, e ao lado da simples instintividade começa ele a perceber o “sobrenatural”, além dos seus meros instintos, e esse “sobrenatural” está tanto nele quanto no mundo: nele, porque é capaz de pensar algo além do evidente, do imediato, começa a entender a ordem, a causalidade, e com ela interage, a qual está presente em tudo; e no mundo, porque agora é possível perceber um outro tipo de ordem nos acontecimentos, não tão imediata como aquela percebida pelos sentidos.

Como ensina a Bíblia, em um primeiro momento, Adão ainda convive com Deus no paraíso, mas, então, decide criar sua própria ordem de mundo, algo ainda especificamente desconhecido ocorreu, e Adão pecou, conheceu o bem e o mal, quando passaram a existir duas realidades, a “sobrenatural” e a “natural”, com ordens mediatas e imediatas, uma em que existe temporalidade e causalidade de longo alcance e a outra mais ligada ao aqui e agora. Os ritos religiosos, num primeiro momento, e a atividade filosófica e científica, depois, passaram a tentar conectar tais ordens, relacionado-as com as vidas mentais e cotidianas.

A racionalidade humana é fundada nessa conjugação de ordens, mesmo hoje, o que muda é o conceito do “sobrenatural”, que para o pensamento materialista e ateísta é o puro caos, uma desordem primordial que esporadicamente se manifesta ao acaso, produzindo tanto universos como, em nosso, vida.

O Cristão, o Judeu e o Muçulmano, por sua vez, vinculam o “sobrenatural” a Deus, ao Criador, de modo que o desenvolvimento do mundo, da vida e da história humana não ocorrem ao acaso, mas por uma Providência. Deus é o “altamente improvável” que conduz a História e suas grandes viradas.

Especificamente da perspectiva cristã, Jesus de Nazaré é o novo Adão, pois reencontra o “sobrenatural” em si e no mundo, mas com uma consciência única e inigualável, como o Cristo, ou Messias de Israel, cuja função é exatamente restabelecer a unidade entre as realidades a “sobrenatural” e a “natural”, que haviam sido separadas pelo pecado, erro ou irracionalidade de Adão, de modo que Jesus personifica a Santidade, a Verdade e o Logos divino na humanidade. Os efeitos de sua atividade ainda estão em curso, após quase dois mil anos de sua morte e ressurreição, sendo um dos principais fatores intelectuais por trás dos principais acontecimentos da História.

Na realidade, Jesus personifica a própria Humanidade, porque o homem é um ser coletivo, não um indivíduo, é um ente social, e político, e jurídico, sem deixar de ser natural, de modo que não bastam bons comportamentos individuais e independentes, a humanidade apenas se desenvolve coletivamente e de modo interdependente, em comunidade.

Mas a comunidade, ou comum unidade, depende exatamente de uma unidade, de algo que a une, uma base comum. Essa base é nossa humanidade. Mas o que nos torna humanos? Ou, o que é a dignidade humana? Sua origem pode ser a sorte, a convenção ou o Espírito, ou pode mesmo não existir tal realidade, a depender da perspectiva adotada pela pessoa.

Como criaturas criadoras, temos a possibilidade de inventar realidades, até determinado limite, que não sabemos bem qual é. Na verdade, sabemos sim, essas realidades são o espelho daquilo que expressamos por pensamentos, palavras e ações, sendo que aquelas baseadas em última instância em caos criam desordem, e quando o seu fundamento é a ordem o resultado tende à organização do mundo.

O que é, então, o Criacionismo?

É o entendimento de que mundo é, sim, fruto de um desígnio, pois tudo o que existe é resultado de uma vontade, da humanidade que somos hoje aos computadores e carros. Por mais que haja nos fenômenos alguma aleatoriedade, ou imprevisibilidade, em termos epistêmicos, e não ontológicos, os resultados somente são alcançados por esforço, vontade, empenho em uma determinada direção, na construção de um sentido. A grande questão é se há algum significado nesse sentido, e quão durável ele pode ser.

Do ponto de vista de Cristo, esse sentido é a unidade com o Criador, a humanidade vivendo bem governada por líderes semelhantes a ele, seus reis e sacerdotes, que trabalham harmonizando as ordens mediata e imediata do mundo, a temporalidade e a causalidade de longo alcance e a ligada ao aqui e ao agora, em que os ritos religiosos são também filosóficos e científicos, porque seu rito o é, a Ceia, a partilha do pão, a meditação, o ensinamento e prática, e que mudou a História, o se permitir ser absolutamente injustiçado para manifestar a absoluta Justiça, no seu processo de morte e ressurreição.

A ressurreição é o maior Cisne Negro da História da Humanidade, e porque ela é assim, ainda é tratada com muita incredulidade, e de tão altamente improvável é tida por alguns como inexistente. Esse Cisne Negro, contudo, representa não a absoluta aleatoriedade do mundo, mas a Inteligência Suprema por trás de todas as coisas, e indica o Caminho, o sentido da História. E porque acredito tanto na ressurreição de Cristo como nessa Inteligência Suprema, também acredito no Cisne Negro que está por ser revelar, o evento altamente improvável da unificação do Monoteísmo, como efeito daquele anterior, a ressurreição, o que, em verdade, é até mesmo uma necessidade do Logos, uma exigência lógica.

Diversamente do que ocorre com os demais Cisnes Negros, frutos da ignorância humana, este é resultado do mais elevado conhecimento, e por isso é não só previsível mas previsto, está profetizado, e há uma Ciência por trás dele, a Ciência de Deus, ou Teologia, ou Filosofia Primeira.

A tal Ciência se aplica o que vale para as demais, havendo grande identificação entre teoria e teorizador, entre ciência e cientista, de modo que é possível associar algumas pessoas a um determinado conhecimento, Platão e Filosofia, Agostinho e Teologia, Copérnico e Astronomia, Darwin e Biologia, Jung e Psicologia, Einstein e Física, ainda que as respectivas ideias possam ter sido equivocadas, em maior ou menor grau. Pode-se perceber, nessa lista, um processo de especialização do saber humano, que foi perdendo cada vez mais sua unidade e, assim, sua qualidade verdadeiramente científica.

A unificação do Monoteísmo passa, assim, pela unidade da Ciência e pela correta associação ao seu melhor teorizador, que não é Moisés ou Maomé, ou nenhum dos citados no parágrafo anterior, e sim Jesus de Nazaré.

Assim, devemos, pensadores, filósofos e cientistas, seguir o Caminho, e adotar o método de Paulo de Tarso, unindo em Cristo todas as coisas, visíveis e invisíveis, participando da criação dessa Ciência, que é a Ciência da criação, na qual o Cisne Negro é apenas um dos modos pelo qual o Criador exerce seu trabalho.

Os limites da racionalidade e a Fé

O nível atual dos estudos científicos permite apontar três grandes fronteiras da racionalidade humana.

A primeira é o princípio da incerteza de Heisenberg, que impõe limites ao nosso conhecimento sobre a causalidade no mundo material, informando que, notadamente no nível quântico, há um ponto a partir do qual a precisão científica não pode avançar, pois ou se determina a velocidade ou a posição de uma partícula subatômica. Há, contudo, um tema filosófico da maior importância sobre esta questão, se tal princípio diz respeito a uma limitação epistemológica de nosso conhecimento, derivado da insuficiência atual de nosso aparato experimental, ou se elucida uma condição do próprio mundo natural, que seria ontologicamente determinado por probabilidades, pelo acaso.

A segunda restrição está no teorema da incompletude de Gödel, o qual demonstrou que a matemática é ou incompleta ou inconsistente, ou seja, que o sistema de axiomas suficientemente complexo não permitirá a prova plena de seus teoremas. São necessários sempre sistemas matemáticos superiores ou mais complexos para comprovarem os inferiores, mantendo a incompletude, mas em outro nível.

O terceiro extremo de nossa racionalidade pode ser encontrado na lei dos grandes números de Bernoulli:

“Assim, o teorema de Bernoulli assevera que os segmentos mais curtos de sequências casualoides mostram, muitas vezes, grandes flutuações, enquanto que os segmentos longos sempre se comportam de modo que sugere constância ou convergência; diz o teorema, em suma, que encontramos desordem e aleatoriedade no pequeno, ordem e constância no grande. É a esse comportamento que se refere a expressão ‘lei dos grandes números’” (Karl Raimund Popper. A lógica da pesquisa científica. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 2013, p. 161).

Tal normativa diz respeito às probabilidades, segundo o que, em números muito grandes e aleatórios, casualoides, surgirá uma constância específica, que pode ser estatisticamente mensurada, mas sem que seja possível determinar a causa ou a precisão exata de sua incidência, que será regida pela probabilidade. Assim, mesmo a Matemática, a mãe do entendimento científico moderno, mostrou-se uma disciplina com refreamentos epistemológicos de alta profundidade..

Da perspectiva atual, portanto, a definição sobre a origem última do mundo e de sua ordem não pode ser determinada racional ou empiricamente. Em síntese, isso significa que a experiência não pode provar ou afastar a existência de Deus.

As opções filosóficas principais para sair dessa situação fronteiriça são basicamente três: o abandono de uma tentativa de se alcançar esse conhecimento final, por uma postura agnóstica; a crença em um caos universal, ligada ao pensamento ateísta; e a Fé na ordem essencial do mundo, referente ao pensamento religioso.

Da perspectiva intelectual, vale dizer, é esperada uma coerência mínima, ou máxima, de cada uma dessas posturas, vinculando os acontecimentos do mundo aos princípios de cada uma dessas visões, incluindo tanto os eventos naturais como as normas jurídicas, da Física e da Biologia ao Direito e à Política.

Por mais que as ideias religiosas tenham dominado o mundo, desde sempre, o que, bem ou mal, permitiu que chegássemos até aqui, nos últimos cem ou duzentos anos a influência ateísta ganhou uma força gradativamente maior na sociedade ocidental, passando, nas últimas décadas, a dominar a política e o pensamento jurídico, valendo-se do argumento da laicidade do Estado, do que é exemplo mais claro a paradoxal apropriação do conceito de dignidade humana, construído com grande sacrifício humano, em termos literais e simbólicos, e fundado numa concepção espiritual de mundo, o que foi sequestrado pela doutrina ateísta, com a utilização desse conceito para a defesa de condutas totalmente contrárias àquele modo de entender as coisas, o qual permitiu o florescimento da dignidade humana.

O que nossa sociedade tem feito, na prática, portanto, é cada vez mais abandonar a ideia de uma ordem natural do mundo, fruto de criação divina, e adotar a postura filosófica materialista, no sentido de que o universo é mesmo regido pelo acaso, o que vale para a humanidade e sua natureza, deixando de lado a concepção segundo a qual nossa racionalidade é dependente de uma que lhe é superior, ligada à realidade espiritual.

A opção por uma racionalidade aleatória, que rege o ponto de vista ateísta e materialista do mundo, ou por uma fundante de toda a realidade, associada ao pensamento religioso e espiritualista, como já salientado, é, em última instância, um ato de fé.

Se Deus não existe, nossa existência é determinada apenas por nossas escolhas e pela mais pura sorte, não havendo no universo uma inteligência superior à humana, pois a hipótese alienígena mostra-se cada vez mais distante à medida em que avançam nossos conhecimentos físicos e cosmológicos, que apontam para a unicidade da vida em nosso planeta.

De minha parte, entre a sorte e a Providência, ainda fico com a última, porque, mesmo com o incrível avanço científico e tecnológico dos últimos tempos, continuo considerando a melhor hipótese filosófica e existencial para interpretar os dados e as pesquisas acadêmicas mais fundamentais, continuo a acreditar, a ter Fé, numa Razão superior, no Logos.

Jó tomou a palavra e disse: Sei muito bem que é assim: mas como poderia o homem justificar-se diante de Deus? Se Deus se dignar pleitear com ele, entre mil razões não haverá uma para rebatê-lo. Quem entre os mais sábios e mais fortes poderá resistir-lhe impunemente?” (Jó 9, 1-4).

Filosofia e História

Talvez não seja possível entender a História sem considerar a Filosofia, isto é, a forma como as pessoas pensavam a racionalidade do mundo em determinado período, e como isso teve influência no desenrolar dos acontecimentos.

Um dos momentos fundamentais da História, e do presente, é chamado de Helenismo, associado à difusão da cultura grega em razão das conquistas realizadas por Alexandre Magno, o qual foi orientado por Aristóteles, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Este fato, por si só, já é suficiente para a conexão antes relatada, o que exigiria uma atenção maior entre as ideias de Aristóteles, estritamente, e o sucesso político e militar de Alexandre.

O período seguinte foi dominado por Roma, com sua noção jurídica, e também filosófica, já impregnada da cultura grega, que depois acabou se fundindo com o Cristianismo, este servindo de base para o pensamento filosófico dos últimos vinte séculos, movendo a própria História em torno de si.

Nesse sentido, terminei a leitura de “História do Cristianismo”, de Bruce L. Shelley, no texto revisado por R. L. Hatchett, obra que serve para confirmar a ideia que tento desenvolver, de natureza teológica e científica, em torno do ideário Cristão.

“Apreciar nossas histórias pode, mais uma vez, levar-nos a valorizar o fato de que pertencemo ao povo de Deus acima de tudo.

Isso é um círculo. Ler a história da Igreja do jeito certo ajuda-nos a ler a Bíblia do jeito certo; ler a Bíblia do jeito certo ajuda-nos a ler a história da Igreja do jeito certo. Nossa leitura pode ter um novo apreço se discernimos o significado teológico da Igreja como povo de Deus reunido dentre as nações” (Bruce L. Shelley. História do cristianismo: uma obra completa e atual sobre a trajetória da igreja cristã deste as origens até o século XXI. Tradução Giuliana Niedhardt. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018, p. 530).

Contudo, o próprio texto indica um grande problema: “um dos aspectos mais notáveis do cristianismo hoje é quão poucos dentre os cristãos professos já estudaram a história de sua religião com seriedade. (…) Em nossos dias, porém, quando a comunicação em massa traz o mundo para perto de nós, é difícil justificar a ignorância dos cristãos” (Idem, p. 531).

Além disso, considero ser necessário complicar ainda mais a questão, para pensar não apenas a história do Cristianismo, mas a história filosófica e teológica do pensamento cristão associada aos eventos históricos, como o neoplatonismo e sua influência sobre Agostinho, com efeitos sobre a relação Império e Igreja, e o aristotelismo sobre Tomás de Aquino, resultando na atividade universitária dos séculos seguintes.

Mais ainda, é preciso comparar especificamente o significado teológico do Cristianismo como motivador das referidas divergências filosóficas, isto é, como um teísmo dualista de Agostinho diverge do teísmo tomista, e até que ponto o conceito trinitário tem origem antes na cultura grega do que na Bíblia e no Monoteísmo e como suas significações específicas contribuíram para a compreensão do mundo, ou a dificultaram. Também ligar o conceito de Logos com o tempo subsequente marcado por uma valorização da razão, que levou o mundo ao deísmo da modernidade, marcando os grandes filósofos do Ocidente, até que as noções sobre o mundo divino tivessem sido completamente absorvidas em conceitos filosóficos, e depois rejeitadas quase por completo pela maior parte da academia.

Ainda que Descartes, Newton, Kant e Hegel, dentre outros, tenham inequívocos pressupostos teóricos cristãos como condicionantes de suas formas específicas de pensar, sem os quais seus sistemas filosóficos perderiam sua sustentação racional, na medida em que os conceitos filosóficos foram sendo desacoplados daquelas bases teóricas, foi possível manipular argumentos dos respectivos pensadores, muitas vezes subvertendo completamente suas respectivas estruturas racionais, até para negar, também indiretamente, concepções que tais teóricos tinham como necessárias em seus modos de entender o mundo.

Mesmo que eu nunca tenha lido Marx, por exemplo, para além de pequenas partes do Manifesto Comunista, julgo que seja completamente inadequado associar as ideias de Hegel ao pensamento marxista, colocando-os como teóricos aproximados ou semelhantes, porque Hegel tinha uma narrativa história baseada no cristianismo e nos valores da religião, o que foi apropriado sem critério e subvertido pelo ideário materialista do teórico do comunismo.

Aliás, acerca a ligação entre Filosofia e História, é provável que estejamos num hiato entre o sistema de Hegel, que representa a racionalização do ideário Cristão, portanto, o que de melhor já foi produzido pela mente humana, sem prejuízo para a Revelação, e sua atualização (da proposta hegeliana), em uma sistematização superior do Cristianismo como Filosofia.

A substância do pensamento filosófico, segundo tenho compreendido, avançou até Hegel, e desde então houve alguns avanços pontuais e acidentais no estudo da Filosofia, que somente poderá continuar seu desenvolvimento e aprimoramento racional a partir da correção tanto dos pontos nos quais Hegel se equivocou como, e principalmente, no aprimoramento de nosso conhecimento do que seja o Cristianismo, que é a base existencial e racional sobre a qual o trabalho de Hegel foi elaborado.

Outrossim, como Cristão, penso que o Cristianismo, na sua correta e adequada acepção, é o melhor insuperável da racionalidade e da experiência humanas, o que inclui tanto uma sabedoria, uma Filosofia/Teologia, que lhe é intrínseca, como uma consequente realidade vivencial.

Cristianismo é o modo de viver e pensar que tem como centro a experiência do Espírito a partir de uma pessoa, Jesus de Nazaré, o judeu cuja vida, obra, incluída sua ressurreição por Deus, e ideias mudaram de forma inigualável o curso da História.

“Todavia, os cristãos podem ter esperança, pois a fé sempre supera as circunstâncias terrenas. Sua confiança está em uma pessoa, e nenhuma outra pessoa na história influenciou mais indivíduos em tantas condições ao longo do tempo do que Jesus Cristo. Os tons e nuances de sua imagem parecem mudar conforme as necessidades dos homens: o Messias judeu do remanescente cristão, a Sabedoria dos apologistas gregos, o Rei cósmico da Igreja Imperial, o Logos celestial dos concílios ortodoxos, o Governante mundial das cortes papais, o Modelo monástico da pobreza apostólica e o Salvador pessoal dos avivalistas evangélicos.

Ele é verdadeiramente um homem de todos os tempos. Em uma época em que muitos o consideram irrelevante ou uma relíquia de um passado rapidamente descartado, a história da Igreja fornece um testemunho silencioso de que Jesus Cristo não sairá de cena. Seu título pode mudar, mas sua verdade resiste a todas as gerações” (Obra citada, pp. 534-535).

Outrossim, compreender teológica e filosoficamente o messianismo judeu, e como Jesus consumou, em si, o conceito de Messias, de forma surpreendente para o que era, e ainda é, o judaísmo dominante, e sua relação com as ideias políticas dos últimos vinte séculos, é o ponto de partida para o correto entendimento da História e também da Filosofia.

Indispensável, finalmente, nesse sentido, discernimos o significado teológico da Igreja não apenas como povo de Deus reunido dentre as nações, mas como comunidade que tem na dignidade humana o centro da atividade social, privada e pública, política e jurídica, o que transforma a Ekklesia na atual assembleia política, o Estado, cujo modo de tratar seus cidadãos é baseado no melhor que a racionalidade humana, e divina, foi e será capaz de produzir, Jesus Cristo, ápice da realização da Sabedoria na História, fundador e fundamento da Ekklesia, e do próprio Estado.

Kant e a holonomia

Assistindo a uns vídeos neste fim de semana, deparei-me com um elaborado por Mateus Salvadori, tratando da Filosofia do Direito (https://www.youtube.com/watch?v=xyu8EbF4t5s), bem didático, no qual ele informa a posição de Kant sobre o Direito, dizendo que na obra “Metafísica dos Costumes” o filósofo do criticismo aduz existirem as leis da natureza e as leis da liberdade, e que a ambas estamos submetidos, tendo a física, a química e a biologia como exemplos das primeiras, e as leis da razão ou morais, da segunda. As leis da razão incluem as leis éticas, ou moralidade, e jurídicas, ou legalidade, sendo que estas, leis éticas e jurídicas, fundamentam-se naquelas, leis da razão, ou morais. Assim, o Direito tem como fundamento último a Moral, estando vinculado ao Justo. A grande diferença entre leis éticas e jurídicas se dá entre os âmbitos de aplicação, o interno, leis éticas, e o externo, leis jurídicas. Assim, as leis éticas dizem respeito à autonomia, ao nível interno da pessoa, enquanto as jurídicas correspondem ao comportamento externo, o que está ligado à ideia de heteronomia.

No artigo “Heteronomia, autonomia e holonomia – A logocracia” (https://holonomia.com/2020/04/11/heteronomia-autonomia-e-holonomia/), abordei parcialmente essa questão, nos seguintes termos:

A autonomia em Kant, portanto, não é a mera vontade da pessoa, mas a vontade conforme a lei universal, associada a uma visão Cristã de mundo, da qual decorre sua ideia de dignidade humana. Desse modo, é possível entender a autonomia de Kant, porque fundada na racionalidade e na universalidade, conceitualmente, como correspondente à holonomia, quando a lei moral individual não é ligada a qualquer moralidade, com qualquer fundamento para as regras comportamentais, mas está vinculada à moralidade infinita, santa, à ideia de ética, entendida como ciência da moralidade, da razão moral universal, que supera os conceitos de todas as moralidades particulares.

Considerando as ideias expostas no vídeo, e corroborando a proposta filosófica e teológica que venho desenvolvendo, entendo que a distinção entre leis da natureza e leis da liberdade é arbitrária, decorrente das categorias a priori adotadas por Kant, e de sua visão teológica de mundo, que não corresponde à melhor forma de enfrentar os próprios fundamentos do pensamento kantiano, associados às ideias cristãs, as quais também não dão sustentáculo para a distinção do filósofo entre normas internas e externas, e entre moralidade e legalidade.

Partindo de um Monoteísmo radical, inicialmente, é difícil sustentar que leis da natureza e leis da liberdade não têm comunicação, pelo contrário, pressupõe-se uma estrita ligação entre elas, havendo, nas próprias escrituras, diversos momentos em que os pensamentos humanos, que estão muito próximos conceitualmente da ideia de leis de liberdade, possuem associações com a realidade física, como na passagem “Pedro caminhou sobre as águas e foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’” (Mt 14, 29-30).

Na doutrina de Jesus há uma inegável ligação de causa e efeito entre bom comportamento e consequências físicas:

Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e no mundo futuro, a vida eterna” (Mc 10, 29-30).

Na verdade, toda a Bíblia está repleta dessa conexão entre o comportamento humano e as ações do mundo natural, tanto resultando do pecado de Adão como pela atuação conforme os mandamentos, refletindo uma interconexão entre ação moral e efeitos naturais. As pragas do Egito são um exemplo claro de conexão entre leis de liberdade e leis da natureza. Também na era messiânica:

E acontecerá que aquele das famílias da terra que não subir a Jerusalém para prostrar-se diante do rei, Iahweh dos Exércitos, para ele não haverá chuva. E se a família do Egito não subir e não vier, haverá contra ela a praga com que Iahweh ferirá as nações que não subirem para celebrar a festa das Tendas” (Zc 17-18).

Em um certo sentido, a própria ressurreição de Jesus, um fato físico, químico e biológico, é resultado de suas ações morais, de seu comportamento exemplar, resultando na ação divina de ressuscitá-lo, de modo que seu corpo não sofreu sequer a corrupção material, voltando à vida renovado e glorioso.

Mesmo hoje, até que ponto é possível separar o comportamento (i)moral humano e o aquecimento global ou mesmo os efeitos da pandemia sobre nós?

A distinção feita por Kant, outrossim, decorre de uma visão deísta de mundo, que não é o entendimento do teísmo cristão, pelo qual Deus sustenta o universo com sua Palavra. Kant está, pois, de acordo com a mentalidade de seu tempo, que tentava superar com a razão humana uma compreensão teológica de mundo das gerações anteriores. Por melhor que tenha sido seu pensamento, trata-se de um conhecimento limitado, segundo a própria teoria do autor, que impede que alcancemos a sabedoria de Deus.

Ensinamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Glória. Mas, como está escrito, o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam. A nós, porém, Deus o revelou pelo Espírito. Pois o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus. Quem, pois, dentre os homens conhece o que é do homem, senão o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, o que está em Deus, ninguém o conhece senão o Espírito de Deus. Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, a fim de que conheçamos os dons da graça de Deus. Desses dons não falamos segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas segundo aquela que o Espírito ensina, exprimindo realidades espirituais em termos espirituais. O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado. Pois quem conheceu o pensamento do Senhor para poder instruí-lo? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo” (1Cor 2, 7-16).

E também o pensamento de Cristo, espiritual, não concebe a separação entre o plano interior e o exterior, na medida em que a realidade espiritual em que vive, e transmite a seus seguidores, é muito superior à corporal.

Wolfgang Smith está renovando o conhecimento dessa realidade espiritual, como desenvolve no livro “The Vertical Ascent: From Particles to the Tripartite Cosmos and Beyond”, e explica na entrevista que aborda sua última obra (https://philos-sophia.org/vlog-introducing-vertical-ascent/), dizendo que a totalidade precede a divisão do mundo em átomos espaço-temporais, e que a totalidade é irredutível às suas partes, narrando que enquanto a realidade corporal é limitada pelo tempo e pelo espaço, a dimensão anímica é restrita pelo tempo, mas não pelo espaço, enquanto o espírito não se limita ao tempo ou ao espaço.

Portanto, apenas do ponto de vista estritamente corporal se pode falar em plano interno e externo, pois para a realidade espiritual há uma unidade inafastável entre realidade interior e exterior, uma vez que o espírito que nos move também age sobre o mundo.

Sua consciência desse fato está expressa em diversas passagens, como: “Quem vos recebe, a mim me recebe, e quem me recebe, recebe ao que me enviou” (Mt 10, 40); “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” e “Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25, 40 e 45). Finalmente, uma das partes fundamentais da oração de Jesus antes de ser sacrificado: “Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 22-23).

A ideia de unidade cristã, portanto, não reconhece a separação entre moralidade e legalidade ou entre o interior e o exterior, porque todos estão na unidade, na totalidade divina, percebida espiritualmente por aqueles que são do Espírito.

Se no tempo de Paulo os homens psíquicos não tinham a menor possibilidade de compreender as dimensões espirituais, porque eram loucura para eles, atualmente, contudo, o mesmo não se pode dizer dos homens de hoje, porque a Física quântica tem procurado explicar as conexões entre o mundo espiritual e a realidade material, como o fazem Fritjof Capra, em “O tao da física — Um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental”, Amit Goswami, em “O Universo Autoconsciente” e “Deus não está morto”, e David Bohm e Wolfgang Smith nas obras de suas vidas, enfrentando a questão da totalidade que emerge da devida compreensão da realidade física e que está associada ao Espírito, conhecimento esse que indica a ainda maior aproximação do Reino de Deus.

Desse modo, a crítica e as categorias kantianas são, atualmente, claramente insuficientes para a compreensão do universo em que vivemos, e mesmo para a devida conceituação da dignidade humana e do conceito de dever, fazendo-se necessário superar as propostas jurídicas e filosóficas associadas às ideias e autonomia e heteronomia, que ficam suprassumidas no conceito de holonomia, que tenho procurado desenvolver, como um dos fundamentos teóricos do Reino dos Céus.

A Passagem

Passagem, Páscoa ou Pesach é a festa mais importante do Cristianismo, porque rememora a ressurreição do Messias, o início corporal da nova criação, esta que é um longo processo que se completará após o milênio, o período em que a humanidade inteira se dedicará ao Criador, produzindo o melhor a criatura e a criação podem oferecer, até que, enfim, céu e terra estejam reunificados.

O vídeo “Heaven and Earth” (https://www.youtube.com/watch?v=Zy2AQlK6C5k&t=181s), que conta com legenda em português, explica que a histórica bíblica se refere ao restabelecimento da unidade entre Criador e criatura pela cruz e ressurreição de Jesus, unidade que havia sido prejudicada pelo pecado de Adão, dando uma amostra do sentido da Passagem definitiva.

Ao contrário do que muitos pensam, a religião não é uma questão privada, não é um tema da individualidade, é uma forma de expressão cultural, que trabalha a vida humana em sociedade, com um sentido espiritual. Jesus não foi crucificado apenas porque expressava ideias diferentes, mas porque suas ideias tinham importantes impactos no modo de vida, nas relações públicas e no exercício do poder social.

Nesse sentido, tanto a primeira Passagem, que representa a libertação do povo judeu da escravidão do Egito, com inegáveis contornos comunitários, como a segunda e definitiva, por meio da qual a morte foi vencida, são questões públicas, temas coletivos, muito além da crença individual ou da esfera mais íntima da pessoa.

A religião é uma forma de pensar coletivamente, por meio de uma simbologia que vincula os membros da comunidade a um determinado sentido existencial, sendo que no mundo pós-iluminista a religiosidade tradicional foi substituída por teorias políticas e ideológicas pretendendo dar significado à vida humana. O artigo “Religiões jurídicas” (https://holonomia.com/2017/08/10/600/) já abordou o tema.

Ontem assisti a um vídeo com Douglas Murray (https://www.youtube.com/watch?v=lp4XhZytdD0), em que comenta seu livro “The Madness of Crowds: Gender, Race and Identity” (Há versão do livro em português: “A loucura das massas: Gênero, raça e identidade”), chegando a comentar sobre a religiosidade das questões que aborda, e no tempo 32m29s do vídeo é transcrita uma passagem do livro: “While the endless contradictions, fabrications and fantasies within identity politics are visible to all, identifying them is not just discouraged but literally policed. and so we are asked to agree to things which we cannot believe” (Embora as infinitas contradições, fabricações e fantasias da política de identidade sejam visíveis para todos, identificá-las não é apenas desencorajado, mas literalmente policiado. E assim somos solicitados a concordar com coisas que não podemos acreditar). Após é feita outra citação, referente à situação de um cidadão da União Soviética, comentando sobre o sistema comunista, em que o que era esperado dos cidadãos era a prática da mentira, insistindo em questões que sabiam que não eram verdadeiras.

Em tempos de fake news é cada vez mais difícil distinguir verdade e mentira, a informação de qualidade desvinculada de interesses subalternos é quase um artigo de luxo, e por isso é importante lembrar que a Verdade é um dos temas fundamentais do Cristianismo.

E na medida em que cada vez mais somos obrigados a conviver com mentiras, inclusive no mundo jurídico, que tem chancelado a prática da mentira como doutrina oficial do Estado, e das grandes corporações, como destacado por Douglas Murray, torna-se importante resgatar a ideia de Verdade que é defendida por Jesus em várias passagens do Novo Testamento:

Seja o vosso ‘sim’, sim, e o vosso ‘não’, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5, 37)

Ele (o diabo) foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44).

Assim, enquanto, de um lado, um espectro do pensamento atual força a mentira a todos, por meio das políticas identitárias, o que é claramente anticristão, não se pode negar que parcela significativa do outro lado da discussão também rejeita a essência do ensinamento do Messias, insistindo na presença física em templos construídos por mãos humanas, colocando em risco, desnecessariamente, a saúde das pessoas no período mais mortal da pandemia no país, além de contrariar a Verdade do Cristo.

Uma das passagens mais importantes de toda a Bíblia, teologicamente falando, é a que descreve a conversa de Jesus com a mulher samaritana, e já foi objeto do artigo “O terceiro Templo” (https://holonomia.com/2019/04/09/o-terceiro-templo/). Tal episódio trata tanto do comportamento amistoso perante o povo que teria praticado a idolatria, quanto porque conversava com uma mulher. Mas o mais importante é sobre a questão da adoração, do culto devido a Deus.

Crê, mulher, vem a hora em que nem sobre esta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora — e é agora — em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, pois tais são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4, 21-24).

A adoração, o culto, a Deus, portanto, independe de localidade e oportunidade, na medida em que o Cristão adora o Pai em sua vida, a todo momento, em Espírito e Verdade, não havendo locais especiais ou momentos especiais para que estejamos na presença do Pai, que é onipresente e onisciente. O Cristianismo é exatamente o processo de “criar pequenos espaços do Céu onde as pessoas podem estar na presença de Deus”, mesmo no mundo do pecado e da morte, até que os céus e a terra se encontrem definitivamente, quando não mais haverá pecado ou morte.

Portanto, por mais que a confraternização, o encontro dos irmãos, seja um momento muito especial, para a celebração da Passagem, especialmente neste tempo de pandemia, não é necessário aglomerar em construções humanas, bastando a adoração a Deus em Espírito e Verdade, o que pode ser feito na refeição familiar, “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18, 20). Jesus não mente, seu testemunho é verdadeiro, e, por isso, quando dois Cristãos, com o coração voltado para Deus, de uma forma sincera, se reúnem, em Espírito e Verdade, mesmo em sua casa, Jesus está ali, e também o próprio Deus, o Pai, torna-se presente.

O culto Cristão, portanto, muito mais do que a reunião pública corporal em determinada construção feita por mãos humanas, é santificação permanente, mesmo no mundo, é o testemunho contínuo da Verdade, o corpo habitado pelo Espírito (santo) de Deus.

Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. Eles não são do mundo como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é verdade. Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E, por eles, a mim mesmo me santifico, para que sejam santificados na verdade” (Jo 17, 15-19).

O culto cristão é, antes de tudo, a vida de santidade na Verdade. No momento de seu julgamento, Jesus reafirmou que seu compromisso é (com) a Verdade.

Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37).

Infelizmente, não vemos nossos líderes dando testemunho da Verdade, e chega a ser muito preocupante que os principais nomes da política nacional estejam mergulhados em tantas falsidades, tentam convencer que são vítimas de mentira jurídica ou que não disseram o que todas as pessoas minimamente informadas sabem que falaram.

Precisamos de novos governantes, verdadeiros Cristãos:

“Ora, se aquilo que eu disse anteriormente sobre a importância política do Templo tem alguma relevância neste contexto, significa que a redefinição do Templo feita por Jesus também era parte do que os evangelistas viam como o estabelecimento de um reino muito superior ao de Herodes ou ao de César. (…) Entretanto, para uma visão genuinamente judaica de teocracia, Deus precisa estar presente. E é isto que os evangelhos – especialmente João, mas também os demais – oferecem: a habitação de Deus em Jesus, o Messias e, por meio dele, sua habitação no Espírito. O próprio Jesus é o novo Templo, no coração da nova criação; contudo, chegará o dia em que toda a terra se encherá da glória de Deus, como as águas cobrem o mar (Isaías 11:9). Por isso, esse Templo, como o tabernáculo no deserto, é um templo móvel. No poder do Espírito, o povo de Jesus se propaga e passa a ser a habitação de Deus aonde vai, antecipando o cumprimento da promessa por meio de sua vida e obra comunais moldadas pela cruz.

(…) Infelizmente, diminuímos a cruz, imaginando-a apenas como um mecanismo por meio do qual podemos escapar da nossa perversidade egoísta ou como exemplo de alguma verdade benevolente. Contudo, trata-se de algo muito, muito maior. A cruz é o momento em que a história de Israel alcança seu ponto culminante; o momento em que, enfim, sentinelas nas muralhas de Jerusalém veem o seu Deus retornar em seu reino; o momento em que o povo de Deus é renovado para ser, finalmente, o sacerdócio real que tomará posse do mundo, não por amor ao poder, mas pelo poder do amor; o momento em que o reino de Deus vence os reinos desde mundo. É o momento em que uma grande porta antiga, trancada e lacrada desde a nossa primeira desobediência, escancara-se de repente, revelando não apenas o jardim, aberto mais uma vez para nosso deleite, mas a cidade vindoura, o jardim-cidade que Deus sempre planejou e que agora nos convida a adentrar e a edificar consigo. O poder das trevas, um obstáculo no caminho da visão do reino, foi derrotado, destronado, anulado. Suas legiões ainda farão muito barulho e causarão muita dor, mas a vitória definitiva agora está assegurada. Essa é a visão que os evangelistas nos oferecem ao unirem o reino e a cruz” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, pp. 251-252).

A Passagem para o Reino de Deus, outrossim, não pode ser feita por meio de falsidades e discursos mentirosos, como o fazem as legiões do poder das trevas, mas apenas pela Verdade, pela vida e obra comuna moldada pela cruz, o único modo possível de se viver na cidade de Deus, na autêntica civilização.