Kant e a holonomia

Assistindo a uns vídeos neste fim de semana, deparei-me com um elaborado por Mateus Salvadori, tratando da Filosofia do Direito (https://www.youtube.com/watch?v=xyu8EbF4t5s), bem didático, no qual ele informa a posição de Kant sobre o Direito, dizendo que na obra “Metafísica dos Costumes” o filósofo do criticismo aduz existirem as leis da natureza e as leis da liberdade, e que a ambas estamos submetidos, tendo a física, a química e a biologia como exemplos das primeiras, e as leis da razão ou morais, da segunda. As leis da razão incluem as leis éticas, ou moralidade, e jurídicas, ou legalidade, sendo que estas, leis éticas e jurídicas, fundamentam-se naquelas, leis da razão, ou morais. Assim, o Direito tem como fundamento último a Moral, estando vinculado ao Justo. A grande diferença entre leis éticas e jurídicas se dá entre os âmbitos de aplicação, o interno, leis éticas, e o externo, leis jurídicas. Assim, as leis éticas dizem respeito à autonomia, ao nível interno da pessoa, enquanto as jurídicas correspondem ao comportamento externo, o que está ligado à ideia de heteronomia.

No artigo “Heteronomia, autonomia e holonomia – A logocracia” (https://holonomia.com/2020/04/11/heteronomia-autonomia-e-holonomia/), abordei parcialmente essa questão, nos seguintes termos:

A autonomia em Kant, portanto, não é a mera vontade da pessoa, mas a vontade conforme a lei universal, associada a uma visão Cristã de mundo, da qual decorre sua ideia de dignidade humana. Desse modo, é possível entender a autonomia de Kant, porque fundada na racionalidade e na universalidade, conceitualmente, como correspondente à holonomia, quando a lei moral individual não é ligada a qualquer moralidade, com qualquer fundamento para as regras comportamentais, mas está vinculada à moralidade infinita, santa, à ideia de ética, entendida como ciência da moralidade, da razão moral universal, que supera os conceitos de todas as moralidades particulares.

Considerando as ideias expostas no vídeo, e corroborando a proposta filosófica e teológica que venho desenvolvendo, entendo que a distinção entre leis da natureza e leis da liberdade é arbitrária, decorrente das categorias a priori adotadas por Kant, e de sua visão teológica de mundo, que não corresponde à melhor forma de enfrentar os próprios fundamentos do pensamento kantiano, associados às ideias cristãs, as quais também não dão sustentáculo para a distinção do filósofo entre normas internas e externas, e entre moralidade e legalidade.

Partindo de um Monoteísmo radical, inicialmente, é difícil sustentar que leis da natureza e leis da liberdade não têm comunicação, pelo contrário, pressupõe-se uma estrita ligação entre elas, havendo, nas próprias escrituras, diversos momentos em que os pensamentos humanos, que estão muito próximos conceitualmente da ideia de leis de liberdade, possuem associações com a realidade física, como na passagem “Pedro caminhou sobre as águas e foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’” (Mt 14, 29-30).

Na doutrina de Jesus há uma inegável ligação de causa e efeito entre bom comportamento e consequências físicas:

Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e no mundo futuro, a vida eterna” (Mc 10, 29-30).

Na verdade, toda a Bíblia está repleta dessa conexão entre o comportamento humano e as ações do mundo natural, tanto resultando do pecado de Adão como pela atuação conforme os mandamentos, refletindo uma interconexão entre ação moral e efeitos naturais. As pragas do Egito são um exemplo claro de conexão entre leis de liberdade e leis da natureza. Também na era messiânica:

E acontecerá que aquele das famílias da terra que não subir a Jerusalém para prostrar-se diante do rei, Iahweh dos Exércitos, para ele não haverá chuva. E se a família do Egito não subir e não vier, haverá contra ela a praga com que Iahweh ferirá as nações que não subirem para celebrar a festa das Tendas” (Zc 17-18).

Em um certo sentido, a própria ressurreição de Jesus, um fato físico, químico e biológico, é resultado de suas ações morais, de seu comportamento exemplar, resultando na ação divina de ressuscitá-lo, de modo que seu corpo não sofreu sequer a corrupção material, voltando à vida renovado e glorioso.

Mesmo hoje, até que ponto é possível separar o comportamento (i)moral humano e o aquecimento global ou mesmo os efeitos da pandemia sobre nós?

A distinção feita por Kant, outrossim, decorre de uma visão deísta de mundo, que não é o entendimento do teísmo cristão, pelo qual Deus sustenta o universo com sua Palavra. Kant está, pois, de acordo com a mentalidade de seu tempo, que tentava superar com a razão humana uma compreensão teológica de mundo das gerações anteriores. Por melhor que tenha sido seu pensamento, trata-se de um conhecimento limitado, segundo a própria teoria do autor, que impede que alcancemos a sabedoria de Deus.

Ensinamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Glória. Mas, como está escrito, o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam. A nós, porém, Deus o revelou pelo Espírito. Pois o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus. Quem, pois, dentre os homens conhece o que é do homem, senão o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, o que está em Deus, ninguém o conhece senão o Espírito de Deus. Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, a fim de que conheçamos os dons da graça de Deus. Desses dons não falamos segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas segundo aquela que o Espírito ensina, exprimindo realidades espirituais em termos espirituais. O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado. Pois quem conheceu o pensamento do Senhor para poder instruí-lo? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo” (1Cor 2, 7-16).

E também o pensamento de Cristo, espiritual, não concebe a separação entre o plano interior e o exterior, na medida em que a realidade espiritual em que vive, e transmite a seus seguidores, é muito superior à corporal.

Wolfgang Smith está renovando o conhecimento dessa realidade espiritual, como desenvolve no livro “The Vertical Ascent: From Particles to the Tripartite Cosmos and Beyond”, e explica na entrevista que aborda sua última obra (https://philos-sophia.org/vlog-introducing-vertical-ascent/), dizendo que a totalidade precede a divisão do mundo em átomos espaço-temporais, e que a totalidade é irredutível às suas partes, narrando que enquanto a realidade corporal é limitada pelo tempo e pelo espaço, a dimensão anímica é restrita pelo tempo, mas não pelo espaço, enquanto o espírito não se limita ao tempo ou ao espaço.

Portanto, apenas do ponto de vista estritamente corporal se pode falar em plano interno e externo, pois para a realidade espiritual há uma unidade inafastável entre realidade interior e exterior, uma vez que o espírito que nos move também age sobre o mundo.

Sua consciência desse fato está expressa em diversas passagens, como: “Quem vos recebe, a mim me recebe, e quem me recebe, recebe ao que me enviou” (Mt 10, 40); “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” e “Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25, 40 e 45). Finalmente, uma das partes fundamentais da oração de Jesus antes de ser sacrificado: “Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 22-23).

A ideia de unidade cristã, portanto, não reconhece a separação entre moralidade e legalidade ou entre o interior e o exterior, porque todos estão na unidade, na totalidade divina, percebida espiritualmente por aqueles que são do Espírito.

Se no tempo de Paulo os homens psíquicos não tinham a menor possibilidade de compreender as dimensões espirituais, porque eram loucura para eles, atualmente, contudo, o mesmo não se pode dizer dos homens de hoje, porque a Física quântica tem procurado explicar as conexões entre o mundo espiritual e a realidade material, como o fazem Fritjof Capra, em “O tao da física — Um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental”, Amit Goswami, em “O Universo Autoconsciente” e “Deus não está morto”, e David Bohm e Wolfgang Smith nas obras de suas vidas, enfrentando a questão da totalidade que emerge da devida compreensão da realidade física e que está associada ao Espírito, conhecimento esse que indica a ainda maior aproximação do Reino de Deus.

Desse modo, a crítica e as categorias kantianas são, atualmente, claramente insuficientes para a compreensão do universo em que vivemos, e mesmo para a devida conceituação da dignidade humana e do conceito de dever, fazendo-se necessário superar as propostas jurídicas e filosóficas associadas às ideias e autonomia e heteronomia, que ficam suprassumidas no conceito de holonomia, que tenho procurado desenvolver, como um dos fundamentos teóricos do Reino dos Céus.

A Passagem

Passagem, Páscoa ou Pesach é a festa mais importante do Cristianismo, porque rememora a ressurreição do Messias, o início corporal da nova criação, esta que é um longo processo que se completará após o milênio, o período em que a humanidade inteira se dedicará ao Criador, produzindo o melhor a criatura e a criação podem oferecer, até que, enfim, céu e terra estejam reunificados.

O vídeo “Heaven and Earth” (https://www.youtube.com/watch?v=Zy2AQlK6C5k&t=181s), que conta com legenda em português, explica que a histórica bíblica se refere ao restabelecimento da unidade entre Criador e criatura pela cruz e ressurreição de Jesus, unidade que havia sido prejudicada pelo pecado de Adão, dando uma amostra do sentido da Passagem definitiva.

Ao contrário do que muitos pensam, a religião não é uma questão privada, não é um tema da individualidade, é uma forma de expressão cultural, que trabalha a vida humana em sociedade, com um sentido espiritual. Jesus não foi crucificado apenas porque expressava ideias diferentes, mas porque suas ideias tinham importantes impactos no modo de vida, nas relações públicas e no exercício do poder social.

Nesse sentido, tanto a primeira Passagem, que representa a libertação do povo judeu da escravidão do Egito, com inegáveis contornos comunitários, como a segunda e definitiva, por meio da qual a morte foi vencida, são questões públicas, temas coletivos, muito além da crença individual ou da esfera mais íntima da pessoa.

A religião é uma forma de pensar coletivamente, por meio de uma simbologia que vincula os membros da comunidade a um determinado sentido existencial, sendo que no mundo pós-iluminista a religiosidade tradicional foi substituída por teorias políticas e ideológicas pretendendo dar significado à vida humana. O artigo “Religiões jurídicas” (https://holonomia.com/2017/08/10/600/) já abordou o tema.

Ontem assisti a um vídeo com Douglas Murray (https://www.youtube.com/watch?v=lp4XhZytdD0), em que comenta seu livro “The Madness of Crowds: Gender, Race and Identity” (Há versão do livro em português: “A loucura das massas: Gênero, raça e identidade”), chegando a comentar sobre a religiosidade das questões que aborda, e no tempo 32m29s do vídeo é transcrita uma passagem do livro: “While the endless contradictions, fabrications and fantasies within identity politics are visible to all, identifying them is not just discouraged but literally policed. and so we are asked to agree to things which we cannot believe” (Embora as infinitas contradições, fabricações e fantasias da política de identidade sejam visíveis para todos, identificá-las não é apenas desencorajado, mas literalmente policiado. E assim somos solicitados a concordar com coisas que não podemos acreditar). Após é feita outra citação, referente à situação de um cidadão da União Soviética, comentando sobre o sistema comunista, em que o que era esperado dos cidadãos era a prática da mentira, insistindo em questões que sabiam que não eram verdadeiras.

Em tempos de fake news é cada vez mais difícil distinguir verdade e mentira, a informação de qualidade desvinculada de interesses subalternos é quase um artigo de luxo, e por isso é importante lembrar que a Verdade é um dos temas fundamentais do Cristianismo.

E na medida em que cada vez mais somos obrigados a conviver com mentiras, inclusive no mundo jurídico, que tem chancelado a prática da mentira como doutrina oficial do Estado, e das grandes corporações, como destacado por Douglas Murray, torna-se importante resgatar a ideia de Verdade que é defendida por Jesus em várias passagens do Novo Testamento:

Seja o vosso ‘sim’, sim, e o vosso ‘não’, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5, 37)

Ele (o diabo) foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44).

Assim, enquanto, de um lado, um espectro do pensamento atual força a mentira a todos, por meio das políticas identitárias, o que é claramente anticristão, não se pode negar que parcela significativa do outro lado da discussão também rejeita a essência do ensinamento do Messias, insistindo na presença física em templos construídos por mãos humanas, colocando em risco, desnecessariamente, a saúde das pessoas no período mais mortal da pandemia no país, além de contrariar a Verdade do Cristo.

Uma das passagens mais importantes de toda a Bíblia, teologicamente falando, é a que descreve a conversa de Jesus com a mulher samaritana, e já foi objeto do artigo “O terceiro Templo” (https://holonomia.com/2019/04/09/o-terceiro-templo/). Tal episódio trata tanto do comportamento amistoso perante o povo que teria praticado a idolatria, quanto porque conversava com uma mulher. Mas o mais importante é sobre a questão da adoração, do culto devido a Deus.

Crê, mulher, vem a hora em que nem sobre esta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora — e é agora — em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, pois tais são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4, 21-24).

A adoração, o culto, a Deus, portanto, independe de localidade e oportunidade, na medida em que o Cristão adora o Pai em sua vida, a todo momento, em Espírito e Verdade, não havendo locais especiais ou momentos especiais para que estejamos na presença do Pai, que é onipresente e onisciente. O Cristianismo é exatamente o processo de “criar pequenos espaços do Céu onde as pessoas podem estar na presença de Deus”, mesmo no mundo do pecado e da morte, até que os céus e a terra se encontrem definitivamente, quando não mais haverá pecado ou morte.

Portanto, por mais que a confraternização, o encontro dos irmãos, seja um momento muito especial, para a celebração da Passagem, especialmente neste tempo de pandemia, não é necessário aglomerar em construções humanas, bastando a adoração a Deus em Espírito e Verdade, o que pode ser feito na refeição familiar, “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18, 20). Jesus não mente, seu testemunho é verdadeiro, e, por isso, quando dois Cristãos, com o coração voltado para Deus, de uma forma sincera, se reúnem, em Espírito e Verdade, mesmo em sua casa, Jesus está ali, e também o próprio Deus, o Pai, torna-se presente.

O culto Cristão, portanto, muito mais do que a reunião pública corporal em determinada construção feita por mãos humanas, é santificação permanente, mesmo no mundo, é o testemunho contínuo da Verdade, o corpo habitado pelo Espírito (santo) de Deus.

Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. Eles não são do mundo como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é verdade. Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E, por eles, a mim mesmo me santifico, para que sejam santificados na verdade” (Jo 17, 15-19).

O culto cristão é, antes de tudo, a vida de santidade na Verdade. No momento de seu julgamento, Jesus reafirmou que seu compromisso é (com) a Verdade.

Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37).

Infelizmente, não vemos nossos líderes dando testemunho da Verdade, e chega a ser muito preocupante que os principais nomes da política nacional estejam mergulhados em tantas falsidades, tentam convencer que são vítimas de mentira jurídica ou que não disseram o que todas as pessoas minimamente informadas sabem que falaram.

Precisamos de novos governantes, verdadeiros Cristãos:

“Ora, se aquilo que eu disse anteriormente sobre a importância política do Templo tem alguma relevância neste contexto, significa que a redefinição do Templo feita por Jesus também era parte do que os evangelistas viam como o estabelecimento de um reino muito superior ao de Herodes ou ao de César. (…) Entretanto, para uma visão genuinamente judaica de teocracia, Deus precisa estar presente. E é isto que os evangelhos – especialmente João, mas também os demais – oferecem: a habitação de Deus em Jesus, o Messias e, por meio dele, sua habitação no Espírito. O próprio Jesus é o novo Templo, no coração da nova criação; contudo, chegará o dia em que toda a terra se encherá da glória de Deus, como as águas cobrem o mar (Isaías 11:9). Por isso, esse Templo, como o tabernáculo no deserto, é um templo móvel. No poder do Espírito, o povo de Jesus se propaga e passa a ser a habitação de Deus aonde vai, antecipando o cumprimento da promessa por meio de sua vida e obra comunais moldadas pela cruz.

(…) Infelizmente, diminuímos a cruz, imaginando-a apenas como um mecanismo por meio do qual podemos escapar da nossa perversidade egoísta ou como exemplo de alguma verdade benevolente. Contudo, trata-se de algo muito, muito maior. A cruz é o momento em que a história de Israel alcança seu ponto culminante; o momento em que, enfim, sentinelas nas muralhas de Jerusalém veem o seu Deus retornar em seu reino; o momento em que o povo de Deus é renovado para ser, finalmente, o sacerdócio real que tomará posse do mundo, não por amor ao poder, mas pelo poder do amor; o momento em que o reino de Deus vence os reinos desde mundo. É o momento em que uma grande porta antiga, trancada e lacrada desde a nossa primeira desobediência, escancara-se de repente, revelando não apenas o jardim, aberto mais uma vez para nosso deleite, mas a cidade vindoura, o jardim-cidade que Deus sempre planejou e que agora nos convida a adentrar e a edificar consigo. O poder das trevas, um obstáculo no caminho da visão do reino, foi derrotado, destronado, anulado. Suas legiões ainda farão muito barulho e causarão muita dor, mas a vitória definitiva agora está assegurada. Essa é a visão que os evangelistas nos oferecem ao unirem o reino e a cruz” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, pp. 251-252).

A Passagem para o Reino de Deus, outrossim, não pode ser feita por meio de falsidades e discursos mentirosos, como o fazem as legiões do poder das trevas, mas apenas pela Verdade, pela vida e obra comuna moldada pela cruz, o único modo possível de se viver na cidade de Deus, na autêntica civilização.

Política como Teologia – parte III

Aproveitando o domingo de ramos, que significa a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, é possível continuar o tema dos artigos anteriores, na medida em que tal passagem bíblica tem inegáveis conotações políticas, quando o povo aclamou Jesus, cantando: “Bendito o que vem em nome de Iahweh!” (Sl 118, 26); enquanto ele entrava na cidade montado em um jumento, significando que trazia mensagem de paz.

Desse momento de glória, Jesus passou, na semana que se seguiu, pela paixão e, então, pela ressurreição.

É sempre importante dizer que, sem a ressurreição, a Páscoa continuaria sendo uma festividade apenas judaica, eminentemente política, significando a libertação daquele povo específico da escravidão do império egípcio, o maior poder político e militar daquele tempo. Acerca da historicidade de tal fato, recomendo “Exodus Rediscovered: Documentary” (https://www.youtube.com/watch?v=bk4CLwL9BQs), que, a partir da arquelogia egípcia, defende a plena compatibilidade da referida narrativa bíblica com fatos históricos já conhecidos da ciência atual, referentes àquele da humanidade.

Urge que o Cristianismo volte a interpretar a Páscoa em seu contexto verdadeiro, dentro da narrativa bílica, não mais apenas a libertação política do povo escolhido, mas algo de proporções muito maiores, de natureza cósmica, o momento em que a própria morte foi vencida, juntamente com os poderes malignos que ainda exercem influência no mundo, e que estão na iminência de serem derrotados.

Toda a Bíblia narra a história da humanidade, do momento de sua criação, a queda, até a redenção promovida por Jesus, cuja ressurreição inicia a nova criação, que se consumará nos novos céus e terra, descritos tanto nas profecias veterotestamentárias, como Isaías e Jeremias, assim também no livro do Apocalipse. Esse contexto essencial da Escritura não pode ser esquecido, sob pena de desvio da interpretação dos textos sagrados, prejudicando o entendimento sobre o significado de nossa vida e dos nossos afazeres, menos e mais importantes.

Nesse ponto, como desenvolvido nos artigos anteriores, a questão Política é essencial no contexto judaico-cristão, haja vista que Jesus é o Messias Judeu, o Rei de Israel, aquele através do qual as nações adorarão ao Deus único, Iahweh. A história bíblica passa da queda de Adão, ao chamado de Abraão, para ser pai de muitas nações, os eventos envolvendo os seus filhos Ismael e Isaac, e depois Jacó, que passou a ser chamado Israel, gerando Judá, Moisés, Davi e Salomão, culminando em Jesus, que reconduziu a humanidade para Deus, reunindo a partir de si todas as nações, cumprindo as promessas feitas a Abraão.

Tal, contudo, é um longo processo que hoje conta com quase quatro mil anos, contados do tempo de Abraão. Portanto, existe um desenvolvimento ideológico e político em curso durante esse vasto período de tempo, tanto aquele que antecede a vinda do Messias como após sua manifestação, até a consumação de sua obra.

No último período, a ideia política se dissociou da teológica, provavelmente para o desenvolvimento pleno das capacidades humanas, segundo os propósitos de Deus para a criação.

“Lembremo-nos dos níveis nos quais o espírito europeu dos últimos quatro séculos se movimentou, e das diferentes esferas espirituais nas quais ele encontrou o centro da sua existência humana. São quatro grandes passos simples, seculares. Eles correspondem aos quatro séculos e vão do teológico ao metafísico, daí ao humanitário-moral e, finalmente, ao econômico. (…) Nos passados quatro séculos da história europeia, a vida espiritual teve quatro centro diferentes, e o pensamento da elite activa que formava a respectiva tropa avançada movia-se, nos diferentes séculos, em torno de diferentes pontos centrais” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 142-143).

Tal passagem se encontra num texto com o nome “A Era das Neutralizações e das Despolitizações”, descrevendo a mudança nas convicções e argumentos, de natureza espiritual, utilizados pelas elites, afirmando, depois do período teológico, o pensamento sistematicamente científico, metafísico ou natural, o que foi seguido por uma filosofia deísta no século XVIII, quando formados os “conceitos fundamentais da moral e da teoria do Estado”, até chegar mundo econômico e da industrialização do século XIX.

“Certamente, o progresso técnico torna-se, já no século XIX, tão espantoso, e as situações sociais e econômicas transformam-se, em consequência disso, tão rapidamente, que todos os problemas morais, políticos, sociais e econômicos são apanhados pela realidade deste desenvolvimento técnico. Debaixo da tremenda sugestão de sempre novas e surpreendentes invenções e realizações, surge uma religião do progresso técnico para a qual todos os outros problemas se resolvem por si mesmos precisamente através do progresso técnico. Para as grandes massas das terras industrializadas esta crença era evidente e óbvia. Elas saltaram por cima de todos os níveis intermediários que são característicos do pensamento das elites liderantes, e nelas emerge logo, a partir da crença nos milagres e no além, sem elo intermédio, uma religião do milagre técnico, das realizações humanas e da dominação da natureza. Uma religiosidade mágica para uma igualmente mágica tecnicidade. Assim, o século XX aparece, no seu começo, como a era não apenas da técnica, mas também de uma crença religiosa na técnica” (Idem, pp. 145-146).

Essa religiosidade da técnica, cada vez mais afastada de Deus, é a persistência do exercício dos poderes do mundo que Jesus derrotou, mas continuam hoje com grande influência planetária, preparando exatamente o campo da última batalha, naquela guerra que já vencida pelo Enviado de Deus.

Ideias têm consequências, pelo que as realizações de Jesus produzem efeitos de longo prazo, ainda que não seja fácil para a maioria compreender como, neste mundo desordenado, existe um governo justo em ação, sendo importante ressaltar, nesse ponto, que a própria noção de justiça e o entendimento de vivemos um tempo de injustiça mostram a força do trabalho de Cristo, isto é, que nenhum outro ser humano expressou ideia melhor sobre governo humano, sobre o exercício do poder e sobre a ideia de Justiça. A inafastabilidade da dignidade humana e dos direitos humanos é a prova cabal da vitória de Cristo sobre os poderes do mundo, restando apenas serem corretamente aplicados tais conceitos na governança das nações, segundo a doutrina messiânica.

“Jesus chega a Jerusalém e não vê mais o Templo como lugar onde o céu se relaciona com a terra, mas como lugar onde Mamom e a violência reinam sem limites, em cumplicidade com o governo de César” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 219).

Os poderes espirituais que exerciam influência sobre Caifás, Pilatos e César ainda estão em ação no mundo, o dinheiro e a violência ainda reinam, mas isso não diminui a vitória de Jesus sobre eles, na medida em que é necessário o cumprimento das profecias, é indispensável que o projeto de Deus se realize em sua totalidade, para que seja visível e concluída a ação de seu Messias, o que ocorrerá quando passarmos a segui-lo no plano político internacional, porque não há dúvida em qualquer argumento racional no sentido de que a dignidade humana e os direitos humanos são axiologicamente superiores ao dinheiro e à violência.

Tal desenvolvimento pode ser claramente extraído tanto das visões proféticas de Daniel como no livro do Apocalipse, que retoma e reorganiza as profecias veterotestamentárias, agora sob a perspectiva da entronização de Jesus como mandatário de Deus, nos céus e na Terra, depois de cumprida sua missão salvadora.

No capítulo 12 do livro da Revelação é descrita a mulher que dá à luz ao filho que governará as nações, simbolizando a vitória do Messias sobre a bestialidade que domina os poderes humanos.

Ela deu à luz um filho, um varão, que irá reger todas as nações com um cetro de ferro. Seu filho, porém, foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono, e a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar em que fosse alimentada por mil duzentos e sessenta dias. Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu” (Ap 12, 5-8).

A mulher é Israel, a nação eleita, e o filho varão é o Messias, Jesus, arrebatado para junto de Deus e seu trono, ficando a mulher, agora a comunidade Cristã, no deserto, ou seja, fora cidade, sem acesso ao governo político, esperando o desenvolvimento dos efeitos da guerra no céu já vendida pelos anjos de Deus. Na teoria política e teológica, e no céu, não mais há lugar para a venalização humana ou para a violência política, a guerra já foi vencida.

Enquanto isso, na terra, na realidade dos fatos temporais, as nações ainda são dominadas pela Besta, que, em nome do Dragão, exerce a influência dos poderes espirituais sobre a humanidade, por meio daquela crença religiosa na técnica, a religião do progresso técnico descrita por Carl Schmitt.

Ela opera grandes maravilhas: até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens. Graças às maravilhas que lhe foi concedido realizar em presença da Besta, ela seduz os habitantes da terra, incitando-os a fazerem uma imagem em honra da Besta que tinha sido ferida pela espada, mas voltou à vida. Foi-lhe dado até mesmo infundir espírito à imagem da Besta, de modo que a imagem pudesse falar e fazer com que morressem todos os que não adorassem a imagem da Besta. Faz também com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos recebam uma marca na mão direita ou na fronte, para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome. Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem: seu número é 666!” (Ap 13, 13-18).

Temos, pois tanto os milagres técnicos produzidos pela Besta, o fogo que faz descer do céu sobre a terra, à vista dos homens, as bombas atômicas explodindo sobre Hiroshima e Nagasaki, como o controle econômico sobre as nações e a população mundial, estabelecendo quem pode comprar ou vender.

A Política, pois, nada mais é do que a expressão moderna da Teologia.

Política como Teologia – parte II

Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne? Se fizeres isto, a tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente, a tua justiça irá à tua frente e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda” (Is 58, 6-8).

Para expressar a realidade da Política como Teologia, o texto acima, do livro de Isaías, é bem esclarecedor, principalmente neste tempo de quaresma, em que o jejum é uma prática comum dos cristãos, especialmente os católicos, porque o profeta, falando em nome de Deus, já muito antes de Cristo, coloca na atividade do jejum temas que são políticos e jurídicos: romper os grilhões da iniquidade, pôr em liberdade os oprimidos, despedaçar todo o jugo, repartir o teu pão com o faminto; em que a questão da justiça social, tema político, é tratado como coisa religiosa, integrante da relação mais próxima da humanidade com Deus.

Retoma-se, pois, ao entendimento da Teologia ou Filosofia como teoria e modo de vida da unidade do conhecimento racional, o que inclui tanto a coerência das ideias como destas com o agir social, e da dificuldade dos teóricos modernos em pensar a partir dessa perspectiva unitária.

Encerrada a leitura de “O Conceito do Político”, de Carl Schmitt, percebe-se que, como ele mesmo havia afirmado em “Teologia Política”, em que afirma que qualquer mudança profunda nessa esfera de conhecimento passa pela superação do dogma, seu trabalho ainda está inserido numa ideia de separação, não tendo logrado êxito em conceber a expressão do político como teológico fora do dualismo mental em que inserido, ainda que seu texto aponte para tal reunificação.

Depois de afirmar que a unidade política pressupõe a possibilidade real do inimigo e que não pode haver um “Estado” mundial, assevera que a “unidade política, segundo a sua essência, não poder ser universal, no sentido de uma unidade que abarque toda a humanidade e a Terra inteira” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 96-97), quando não haveria nem política nem Estado, apenas economia, moral, direito, arte, etc.. E continua:

“A humanidade, enquanto tal, não pode fazer qualquer guerra, pois ela não tem qualquer inimigo, pelo menos não neste planeta. O conceito de humanidade exclui o conceito de inimigo, pois também o inimigo não deixa de ser homem e nele não se encontra nenhuma diferenciação específica” (Idem, p. 98).

Contudo, reconhece que em nome da humanidade são feitas guerras, com uso desse conceito universal como um instrumento ideológico das expansões imperialistas, e que o confisco de tal palavra acarreta consequências, como “a terrível reivindicação de que ao inimigo é recusada a qualidade de homem” (Idem, p. 99).

Schmitt remete o conceito humanitário para doutrinas do direito natural e afirma que tal é uma construção ideal universal, que abrange todos os homens da Terra, em que o agrupamento amigo-inimigo se torna impossível. Ao concluir o capítulo sobre esse tópico, ele afirma que um “Estado mundial” não será político, pois abarcará a Terra inteira, em unidade econômica.

“Se ela (a humanidade) quisesse formar, para além disso, também ainda uma unidade cultural, mundividencial ou alguma outra ‘mais elevada’, mas simultaneamente, ainda assim, uma unidade incondicionalmente apolítica, ela seria uma corporação consumidora e produtiva que procura, entre as polaridades de ética e economia, um ponto de indiferença. Ela não conheceria nem Estado nem Reich nem Império, nem República nem Monarquia, nem Aristocracia nem Democracia, nem protecção nem obediência, mas teria perdido de todo qualquer caráter político.

Mas a questão que se coloca é a de a que homens cabeira o poder temível que está ligado a uma centralização econômica e técnica que abranja a Terra inteira. Esta questão de modo nenhum pode ser contornada ao esperar-se que tudo passe a ‘ir por si mesmo’, que as coisas ‘se administrassem a si mesmas’, e que um governo de homens sobre homens se tornasse supérfluo porque os homens seriam, então, absolutamente ‘livres’; pois pergunta-se precisamente para que é que se tornam livres. A isso pode responder-se com suposições optimistas e pessimistas que, em última análise, remontam todas a uma profissão de fé antropológica” (Idem, pp. 104-105).

Volta-se, assim, ao conceito de humano, à sua concepção ontológica, pois a profissão de fé antropológica não pode deixar de ser também uma profissão de fé teológica, sobre a natureza humana, e nesse ponto a limitação dogmática da Teologia de Schmitt o impede de compreender que as respostas às suas perguntas já foram dadas por Cristo e seus seguidores.

Não é que a Política não mais existirá, mas que voltará a não mais haver distinção entre ela e Teologia, porque de Teocracia se tratará, uma nunca antes praticada, que se aproveitará de todo aparato científico e tecnológico produzido pela humanidade, para que sejam utilizados os poderes humanos a serviço do Logos, do Deus criador de todas as coisas, de modo que os homens que exercerão esse poder serão os servos e santos do Altíssimo, os reis e sacerdotes de Cristo, por meio da técnica, do método, o Caminho, que é o próprio Cristo. Continuarão a existir Estados e nações, bem como o caráter político, mas vinculado a uma concepção simultaneamente teológica e antropológica, além de ética e econômica.

Entra aí a leitura evangélica de Thomas Wright, restaurando para o Cristianismo o entendimento judaico sobre o futuro da humanidade e sua governança, na medida em que Jesus Cristo, como o Rei dos Judeus, necessariamente se insere no cumprimento das profecias do antigo Israel, segundo as quais, um dia, “as nações seriam convocadas a jurar lealdade a alguém maior do que Davi, isto é, ao Filho de Davi” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 152). Após o Iluminismo, que separou Igreja e Estado, a história genuína pode ressurgir, de modo que a atual geração tem condições de fazer a correta leitura judaica e política dos evangelhos, nos quais Jesus é declarado o Messias. “É chegado o tempo de reler os evangelhos como ‘teologia política’ – não porque não dizem respeito a Deus, à espiritualidade, ao novo nascimento, à santidade etc., mas, precisamente, porque dizem respeito a isso tudo” (Idem, p. 155).

Na base desse entendimento está, de fato, uma profissão de fé antropológica, encontrada nos textos bíblicos, que restou prejudicada em Schmitt em razão de sua Teologia, estritamente vinculada ao dogma, e pela mentalidade dos últimos séculos.

Para além de uma discussão rasteira entre evolucionismo e criacionismo, a narrativa bíblica descreve a criação do homem à imagem e semelhança de Deus, o desvio que impediu que a humanidade atingisse sua plena potencialidade, a partir do pecado ou erro de Adão, e a consumação dessa plenitude existencial em Jesus de Nazaré, o qual reconduziu a criatura para o seu correto desenvolvimento, que culminará na nova criação, nos novos céus e nova Terra.

“A própria nova criação começou, os apóstolos diziam, e será completada. Jesus está governando sobre essa nova criação, tornando-a uma realidade por meio do testemunho da igreja. ‘O governante deste mundo’ foi derrotado; os poderes deste mundo foram postos por último na procissão triunfal de Jesus como um exército derrotado, maltrapilho. E é assim que Deus está se tornando rei na terra como no céu. Essa é a verdade que os evangelhos estão ávidos por nos contar, verdade que, nos últimos duzentos anos, as culturas europeia e americana têm tentado abafar desesperadamente” (Idem, p. 178).

Para o Cristão, Jesus ressuscitou, isso é um pressuposto definidor do Cristianismo.

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram. Com efeito, visto que a morte veio por um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Pois, assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida. Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. A seguir haverá o fim, quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo Principado, toda Autoridade, todo Poder. Pois é preciso que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído será a Morte, pois ele tudo colocou debaixo dos pés dele” (1Cor 15, 12-27).

Esta passagem destaca tanto a antropologia, como a política e mesmo a física, porque deixa claro que a ressurreição foi um evento físico, corporal, real.

É curioso como hoje se fala em criogenia, conservação de corpos e memórias, para resgatar uma vida, em energia atômica, em avanços tecnológicos vários, alguns esperando até uma nova vida em novo corpo, tudo feito por mãos humanas, mas se esquece que a condição existencial do Cristianismo é o evento da maior magnitude já ocorrido, a ressurreição, sem a qual não haveria motivo para os apóstolos enfrentarem as autoridades judaicas e romanas, e a morte, depois a crucificação de Jesus. É ilógico que eles passassem por isso se não tivessem a certeza da superação da morte por Jesus, pela ressurreição, que significa o princípio material da nova criação, da qual todos participaremos.

Para além disso, há uma clara ideia antropológica ligada à pessoa de Jesus, a plena realização da imagem e semelhança de Deus na humanidade, nele Jesus, sendo evidente o teor político do Evangelho, tanto no que diz respeito à missão do Cristo, como o Rei dos Judeus, o que tem uma conotação inequivocamente política, como pela necessidade de que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés.

Então Jesus tem inimigos, de modo que a proposta de Carl Schmitt não é de todo equivocada, porque os inimigos de Jesus são exatamente aqueles principados, autoridades e potestades que exercem o governo da humanidade, uma realidade espiritual que encarna em pessoas concretas, dominando as nações, pelo que os inimigos não são propriamente as nações ou seus membros, mas aquelas realidades espirituais com suas ideias e ações que se manifestam nas nações, em seus governos de todos os níveis, opondo-se à governança de Deus na Terra, opondo-se ao verdadeiro serviço público e à realização da justiça (que é sempre social).

Fundamental, portanto, a análise teológica da questão política, e que seja levado solenemente a sério o trabalho de Tom Wright, lembrando que no “judaísmo, o Deus criador desejava que o mundo fosse ordenado e governado por aqueles que criou segundo a suam imagem” (Idem, p. 188), imagem esta que restou consolidada na pessoa de Jesus, o santo do Altíssimo por excelência.

Quanto aos quatro grandes animais, quatro reis surgirão da terra. Mas os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para todo o sempre” (Dn 7, 17-18).

“Já está claro. Como de costume em ‘literatura apocalíptica’, os elementos da visão são simbólicos e precisam ser decodificados. Os monstros representam impérios humanos, mas ‘um semelhante ao filho do homem’ representa Israel, ou pelo menos os justos em Israel. Há muito eles sofrem sob o governo dos monstros, porém serão resgatados – não apenas resgatados, mas colocados em posição de soberania sobre o mundo” (Idem, pp. 205-206).

A referência a Schmitt é novamente clara, quanto à questão da humanidade, do filho do homem, e dos monstros, que se opõem aos justos de Israel, dos inimigos que não são homens, pelo que estão presentes, indissoluvelmente, conceitos antropológicos, teológicos e políticos na narrativa bíblica.

Vi, então, tronos, e aos que neles se sentaram foi dado poder de julgar. Vi, também, as vidas daqueles que foram decapitados por causa do Testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e dos que não tinham adorado a Besta, nem sua imagem, e nem recebido a marca sobre a fronte ou na mão, eles voltaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos” (Ap 20, 4).

Portanto, respondendo às indagações de Carl Scmitt sobre “a que homens cabeira o poder temível que está ligado a uma centralização econômica e técnica que abranja a Terra inteira”, são os alter cristos, os outros Cristos, os santos do Altíssimo, que, de fato, realizam a verdadeira imagem e semelhança de Deus, são os verdadeiros humanos, no seu melhor conceito, não se submetem à Besta, e quanto à questão “para que é que se tornam livres”, a reposta é exatamente para serem servos do Altíssimo.

Pois aquele que era escravo quando chamado no Senhor, é um liberto do Senhor. Da mesma forma, aquele que era livre quando foi chamado, é um escravo de Cristo” (1Cor 7, 22), para romper os grilhões da iniquidade, soltar as ataduras do jugo, pôr em liberdade os oprimidos, despedaçar todo o jugo e repartir o pão com o faminto, manifestando, assim, a justiça e a Glória de Deus.

Política como Teologia

Enquanto a formação jurídica desenvolve alguns conceitos políticos e normativos, a religiosa trata de temas teológicos e espirituais, sempre, no tempo contemporâneo, separando as referidas esferas de entendimento do mundo e de ação sobre este, o que é o resultado de uma interferência tida como maléfica, do período anterior, quanto aos âmbitos terreno e espiritual.

Todavia, do ponto de vista filosófico, considerada a Filosofia como teoria e modo de vida da unidade do conhecimento racional, o que inclui tanto a coerência das ideias como destas com o agir social, referida separação afronta a unidade da inteligência, padecendo de uma irracionalidade fundamental, cuja compreensão somente pôde ser melhor alcançada com o aparato epistemológico oriundo da física moderna e da psicologia profunda, que apontam para uma unidade entre observador e observado, entre ideia e ação.

Na medida em que a unidade teórica da razão foi rompida em termos estruturais, em que conceitos científicos, religiosos, jurídicos, políticos, teológicos etc. estão em esferas distintas da abordagem intelectual, a Filosofia acabou se transformando em outra coisa, em uma nova disciplina, menor, insuficiente para os fins a que se destina.

Da perspectiva aristotélica, que expressa o modo de pensar geral do mundo antigo, a Filosofia é indistinta da Teologia, porque considera em conjunto as coisas e tudo o que existe desde os primeiros princípios, desde de sua origem mais remota e primordial intelectualmente concebível, que tem o lugar de deus no respectivo sistema de pensamento, e pode ser tanto o caos ou acaso, não-deus, como o próprio Deus criador (ou deuses, da perspectiva politeísta), sejam quais forem suas respectivas qualidades ou atributos.

Na busca da superação de tal dualidade, considerei forçosa uma ressignificação do que seja o Cristianismo, em sua essência, tanto filosófica como científica e religiosa, o que torna necessária a pesquisa impossível de toda a produção intelectual humana ocidental que trata dos temas referidos, tanto na análise da filosofia política como teológica, e nunca abandonando as descobertas técnicas da chamada pesquisa acadêmica.

A conclusão atual de meu trabalho investigativo leva a uma refutação da Teologia Política de Agostinho, em sua ideia de separação das cidades de Deus e dos homens e de sua escatologia, ainda que tal pensamento tenha sido plenamente justificável pela sua posição histórica intermediária, entre a revelação da encarnação e sua compreensão científica.

A expressão “Teologia Política”, por sua vez, remete às ideias do século XX, a Carl Schmitt, à sua ligação com o nacional-socialismo alemão, à reação das nações a este movimento religioso, o que culminou na restauração política do povo judeu, no Estado de Israel, fato que cumpre importantíssimas profecias messiânicas contidas em Isaías 52 e Ezequiel 37, e na declaração universal dos direitos humanos.

A questão dos direitos humanos é, hoje, exatamente o tema em que convergem as abordagens tanto da Política como da Teologia, sendo certo que a atual concepção da primeira tenta, de todo modo, afastar a última do debate, fundando-se exatamente naquela divisão estrutural das esferas do conhecimento antes mencionada.

Nesse ponto, iniciada a leitura de “O Conceito do Político”, já é possível antever, salvo uma correção interpretativa decorrente da análise do restante da obra, o que considero uma falha categorial do pensamento de Schmitt, ao estabelecer como a diferenciação essencialmente política aquela tida entre amigo e inimigo.

“O inimigo político não precisa ser moralmente mau, não precisa ser esteticamente feio; não tem de surgir como concorrente econômico e até talvez possa parecer vantajoso fazer negócios com ele. Ele é, precisamente, o outro, o estrangeiro, e é suficiente, para a sua essência, que ele seja existencialmente, num sentido particularmente intensivo, algo outro e estrangeiro, de tal modo que, em caso extremo, sejam possíveis conflitos com ele que não possam ser decididos nem por uma normatização geral, que possa ser encontrada previamente, nem pela sentença de um terceiro ‘não participante’ e, portanto, ‘apartidário’” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 51-52).

O ambiente político é, antes de tudo, a área em que o humano se mostra em seus extremos, de modo que a diferenciação política essencial, ao contrário do que o referido autor sustenta, ocorre entre as categorias humano e bestial, faces manifestadas no conflito político máximo, a guerra, de modo que, então, secundariamente, as distinções amigo e inimigo poderiam surgir, mas já com uma normatização capaz de solucionar os conflitos, os direitos humanos. A disputa principal não é entre o amigo e o inimigo, mas entre Cristo e a besta, entre uma concepção plena de humanidade, que inclui sua natureza espiritual, e aquela que nega a existência do Espírito e altera as concepções do corpo, categorias em que temas políticos e teológicos estão indissoluvelmente interligados, referentes à própria existência humana e seu significado último, do que são exemplos a discussão sobre os direitos humanos, o aborto e mesmo a gestão humana sobre o planeta. As categorias amigo e inimigo, portanto, são de um pensamento de certo modo pré-cristão, anterior à formatação dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais e ao estabelecimento, por Cristo, do Reino da fraternidade, exercendo a soberania de Deus sobre toda a Terra, de modo que o inimigo é, de fato, o opositor da humanidade e sua melhor expressão.

A controvérsia sobre o sentido da dignidade humana é, atualmente, o locus da disputa teórica da Política, a qual resta sequestrada por sua separação absoluta da Teologia, e que mesmo assim usa uma narrativa, em última análise, teológica, naquela acepção aristotélica, para fundamentar suas decisões, porque remete o plano humano para o estritamente corporal e material, já adotando, assim, uma posição filosófico-teológica segundo a qual é possível e necessária tal separação, dado que questões espirituais não podem e não devem ser admitidas no debate político. A dignidade humana fica restrita, nessa análise, ao corpo da pessoa e à vontade do indivíduo, à sua visão quase solipsista de mundo, em que não existe uma natureza das coisas, a não ser aquela dada pelo próprio indivíduo, o qual assume o controle da criação, dispensando qualquer ideia sobre o Criador.

De outro lado, mesmo a Teologia concorda com tal afastamento, como resultado de uma concepção do Cristianismo assentada no mundo ocidental cristão, que, contraditoriamente, nega as próprias bases teóricas e teológicas da mensagem do Cristo.

O significado do que é o ser humano, do que é a dignidade humana, depende de uma visão filosófica desse ente, dessa realidade existencial, de sua história, de sua origem última, e das respectivas concepções sobre o bom, o belo, o útil, o justo etc., sem as quais aquela expressão, dignidade humana, resta vazia e sem conteúdo, e pode ser relativizada ou manipulada. Não há como afastar a Política, portanto, dos fundamentos da própria existência humana, do que se entende por racionalidade humana, e sua aplicação às relações sociais.

Nessa linha, vinda de direção contrária, indispensável a revisão da Teologia, sendo altamente adequada a visão de Thomas Wright, exposta em seu “Como Deus se tornou Rei”. Tal obra é exatamente no sentido de reunificar o que, do ponto de vista de Cristo e seus seguidores, nunca foi e nunca será apartado, Teologia e Política.

Wright destaca quatro visões acadêmicas mais comuns sobre o trabalho de “pregar o evangelho” e Jesus: “um revolucionário, esperando derrotar os romanos por meio de violência militar e estabelecer um novo Estado judaico; um visionário apocalíptico, esperando o fim do mundo; um mestre gentio de razoabilidade dócil, cuja ênfase estava na paternidade de Deus e na fraternidade do ‘ser humano’; ou talvez uma combinação de todas essas opções” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 45).

O autor destaca que dos três primeiros resulta um Jesus iludido, porque não matou os romanos, o “fim do mundo” não veio e a maioria de seus discípulos são tudo, menos amáveis e razoáveis.

Trazendo tais pontos para a Política, todavia, temos inequívoco que os romanos caíram, que o novo Estado judeu foi estabelecido e a obrigação de sermos fraternos e razoáveis é decorrente de uma leitura mais ou menos óbvia da declaração universal dos direitos humanos: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. Tenho que todos esses efeitos resultam diretamente, ainda que com alguma postergação temporal, do trabalho messiânico de Jesus, cujo alcance é muito maior do que a filosofia dos últimos séculos costuma aceitar.

Outrossim, voltando a Wright, o objetivo de seu livro é mostrar que a história narrada pelos Evangelhos serve para explicar como os acontecimentos envolvendo “a vida, a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus” dizem respeito ao reino vindouro de Deus, estabelecendo o autor que, se “nosso desejo é nos apegar à grande tradição, devemos estar preparados para levar os evangelhos mais a sério” (Idem, p. 51).

Quanto à tradição, aproveitando o gancho para fazer um parêntese, e dando ênfase à questão da coerência filosófica, é possível dizer que podemos compreender maravilhosamente bem uma teoria hermenêutica moderníssima como a de Gadamer, mas na medida em que a própria tradição, que está no centro do trabalho filosófico de Gadamer, carrega consigo falhas interpretativas de elevada magnitude, acabamos entendendo muito pouco sobre a realidade intelectual, nossa interpretação mais elaborada do mundo resta fadada a repetir equívocos de toda ordem.

Assim, Wright enfatiza o desafio escondido por trás da Ciência moderna, a Teocracia, sendo necessário superar os erros e desencontros do mundo pós-iluminista, fruto da filosofia epicurista, cuja visão existencial era oposta à Cristã, para chegarmos, enfim, à correta compreensão do que seja um mundo ordenado por Deus e da própria mensagem do Cristo para o plano político das nações.

A “principal filosofia do Iluminismo”, salienta Wright, “nada mais era do que uma versão da filosofia antiga de Epicuro, cujo ensinamento era que os deuses, se existiam, estavam a uma longa distância do mundo dos humanos e não se preocupavam com eles. Como resultado, o mundo que conhecemos cresce, muda e se desenvolve sob seu próprio engenho, como se por meio de uma força inerente. Aplique isto ao estudo científico das origens e o resultado é a evolução darwinista mais uma vez, não uma ideia nova, mas a conclusão lógica que surge na ausência de controle e intervenção divinos. Em vez de ‘descobrir os pensamentos de Deus’, a ciência estava agora estudando o mundo como se Deus não existisse. Aplique-o à ciência política e o resultado é a democracia, a sociedade se orienta de acordo com os próprios desejos e caprichos, medos e modas. Em lugar do ‘direito divino’ dos governantes, a política agora ordenava o mundo – pelo menos na França e nos Estados Unidos – com base na separação estrita entre igreja e Estado.

Apenas quando essas conexões e paralelos são trazidos à luz fica claro o motivo pelo qual, do século XVIII em diante, a grande massa de pesquisas dos evangelhos fez certas perguntas e propôs certas respostas. A escolha entre o revolucionário judaico fracassado de Reimarus e o visionário apocalíptico fracassado de Schweitzer é, de acordo com os próprios evangelhos, uma escolha entre alternativas falsas. Nem Reimarus nem Schweitzer estavam preparados para considerar a possibilidade, proposta de maneira categórica pelos evangelhos, de que, em Jesus, o Deus de Israel – ou seja, o Deus criador – realmente tenha confundido epicureus e todos os demais grupos ao se tornar rei na terra como no céu. Teocracia – mas de um tipo radicalmente diferente de qualquer coisa que alguém já há muito imaginara – era o nome do jogo. Mas o mundo pós-Iluminismo, mesmo o mundo devoto, piedoso, evangélico ou católico pós-iluminista, não estava pronto para aceitá-lo. Se a questão da teocracia fosse levantada, remeteria prontamente ao clero corrupto e preguiçoso que tentava intimidar uma população fraca, ou a Jorge III, enviando bispos para as colônias a fim de manter o controle sobre elas. A teocracia não era desejada nem pelo reformador cético, nem pelo ‘ortodoxo’ piedoso, ambos contentes, como os rabinos depois da revolta de Bar-Kochba, em abandonar a visão do reino de Deus na terra e se retirar para um mundo de piedade privada, um mundo de ‘religião’” (Idem, pp. 53-55).

Não há como ter uma correta compreensão do Cristianismo sem entender que Jesus é o Messias judeu, o Rei de Israel, e que quando ele estabeleceu sua Ekklesia, palavra grega que designa Igreja, fê-lo em um contexto que é indissociavelmente político e teológico, de modo que toda e qualquer leitura que se faça da realidade social deve considerar a Política como Teologia e a Teologia com Política, e somente a partir desse pressuposto será possível resolver de forma duradoura os problemas da sociedade contemporânea.

Teologia física e corpo espiritual

O modo como concebo o mundo é distinto daquele estabelecido, seja no ambiente científico ou mesmo no teológico, na medida em que o conhecimento ordinário separa tais formas de pensar, como esferas distintas de saber. Há um ramo da Teologia, nomeado Teologia natural, cujo objeto que é um dos que mais se aproxima de minha forma de compreensão das coisas, ao ver o mundo natural como a Criação de Deus, desdobrando desse pressuposto a análise dos fenômenos ocorridos no universo.

Os grandes líderes da revolução científica, Galileu, Newton, Descartes, adotavam um posicionamento teológico embasando suas pesquisas, na medida em que eles buscavam no mundo as leis que Deus neste colocou, de modo que seus trabalhos eram, em certo sentido, Teologia aplicada à Física, e daí Teologia física.

Esse é o resultado do antigo modo de pensar monoteísta:

Os céus declaram a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos” (Sl 19, 1).

Mas tal forma de entendimento já não é mais comum nos dias de hoje, em que os temas dos conhecimento são compartimentalizados em áreas estanques e incomunicáveis, contrariando a unidade do saber racional, segundo a qual, como é da essência da Filosofia, todos os conceitos e ideias estão relacionados e são decorrentes de um primeiro princípio que suporta toda aquela racionalidade. Da perspectiva judaico-cristã-muçulmana, como também o era para Platão e Aristóteles, a seu modo de compreender o mundo, o Primeiro Princípio é Deus, por meio do Qual surgiu o mundo, com sua ordem. Para os materialistas, de seu lado, se os deuses existem, eles não têm contato com nosso universo, porque este é regido pelo acaso, pela sorte.

Mesmo no ambiente científico de hoje, tais hipóteses continuam em disputa, nos pressupostos ocultos da atividade de pesquisa, porque o multiverso é a forma moderna de materialismo, dizendo que a ordem de nosso mundo é casual, pois apenas por acaso o nosso universo é ordenado deste modo, que permite a vida como a conhecemos, e existem bilhões de outros mundos com leis diferentes em que não há possibilidade de vida. A pergunta que permanece em aberto, caso, de fato, exista multiverso, é sobre a origem desses incontáveis outros mundos, cuja resposta somente foi dada satisfatoriamente por Aristóteles e seu Primeiro Motor. Esse modo de pensar associado ao multiverso também pode ser enquadrado como uma Teologia física, mas uma Teologia negativa, no sentido de postular a inexistência de Deus, portanto ateísta, aplicada à Física.

Outrossim, nenhum ramo do saber escapa à análise teológica, caso a investigação e as perguntas sejam dirigidas aos primeiros princípios que amparam as respectivas concepções de mundo e de ser humano, o que os materialistas nunca fazem, porque não querem basear sua atividade científica, em última instância, na sorte, no acaso e na ausência de ordem.

Quanto à humanidade, sua posição especial na Criação, no mundo natural, levanta uma série de questionamentos não respondidos pela Biologia, notadamente aquela em que apenas análises materiais e corporais são consideradas, como ocorre com o neodarwinismo, a vertente da Teologia negativa aplicada à Biologia. Basicamente, essa forma de pensar entende que os corpos são formados de baixo para cima, com os agregados moleculares, cujo início não é explicado, ajuntando-se por tentativa e erro até a formação dos organismos mais complexos, culminando no ser humano, tudo sem direção, movido pelo mero acaso. O problema consiste no fato de que a matemática não suporta tal possibilidade, como exposto no artigo “Homo humanorum” (https://holonomia.com/2018/10/31/homo-humanorum/), no sentido de que uma Inteligência superior guiou o processo evolutivo para que este chegasse ao homem em tão curto espaço de tempo, cerca de quatro bilhões de anos, pelo que a formação orgânica de baixo para cima é orientada por uma Inteligência que age de cima para baixo.

Da perspectiva judaico-cristã-muçulmana, Deus está no controle do mundo, e nós somos sua criação especial, porque feitos à sua imagem e semelhança. Não entrarei aqui na possível distinção entre os conceitos imagem e semelhança, pois o essencial é que nessa ideia está compreendida a noção de que Ele nos dá nosso espírito, e É a fonte de nossa vida.

Devemos ser considerados, portanto, mesmo em nossos corpos, uma expressão espiritual, e, porque também somos livres, podemos ou não manifestar o Espírito de Deus. A união da alma com o corpo é, desse modo, tanto metafísica como também propriamente física, ao contrário do que sustentado por Leibniz:

“Pois, mesmo que eu não considere que a alma muda as leis do corpo nem que o corpo muda as leis da alma, e que eu tenha introduzido a harmonia preestabelecida para evitar tal desarranjo, não deixo de admitir uma verdadeira união entre a alma e o corpo, que os torna cúmplices. Essa união conduz ao metafísico, enquanto uma união de influência conduziria ao físico. Mas quando nós falamos da união do Verbo de Deus com a natureza humana, nós devemos nos contentar com um conhecimento por analogia, tal qual a comparação da união da alma com o corpo é capaz de nos dar; e devemos, além disso, nos contentar em dizer que a encarnação é a união mais estreita que pode existir entre o criador e a criatura, sem que seja necessário ir mais além” (Ensaios de teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. Gottfried Wilhelm Leibniz. Tradução William de Siqueira Piauí e Juliana Cecci Silva. 2 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2017, pp. 110-111).

Assim como Descartes, Leibniz entende haver uma separação entre corpo e alma, ainda que ajustados pela harmonia preestabelecida, e esta é uma questão tanto científica quanto teológica, que a neurociência moderna tenta desvendar, e que também está na raiz das indagações religiosas, a natureza da alma, sua relação com o corpo, o que também era objeto da especulação na filosofia platônica, para a qual o filósofo liberta a alma do comércio com o corpo, na medida em que o corpo é um entrave para a aquisição do conhecimento, como exposto no Fédon.

Todavia, essa não é a ideia bíblica de criação, porque a narrativa da Escritura é no sentido de que Deus criou o mundo para habitar com os homens, somente tendo havido o afastamento em razão do pecado, da falha de Adão, corrigida por Jesus. A projeção bíblica, descrita tanto em Jeremias quanto no Apocalipse, é Deus habitando conosco, de modo que haverá uma união da alma, ou melhor, do Espírito, com o corpo, no plano físico.

Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Eu porei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhecei a Iahweh!’ Porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores, — oráculo de Iahweh — porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31, 33-34).

A nova aliança foi iniciada pela encarnação do Verbo, do Logos, a partir de Jesus Cristo, que renovou o Espírito na humanidade, permitindo que se manifestasse em nós a realidade do próprio Deus, de modo que passássemos a ter um corpo espiritual, cuja manifestação será plena apensa na nova criação. A ideia de separação entre corpo e alma é, outrossim, contrária à mensagem Cristã, na medida em que em nossos corpos manifestamos as realidades espirituais, e quanto mais santificamos nossos corpos mais santo será o Espírito que habitará em nós.

Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus? … e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos? Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).

Há uma relação existencial entre corpo e espírito, porque o último dá vida ao primeiro, e quando Leibniz fala que a encarnação é a união mais estreita que pode existir entre o criador e a criatura, talvez ele não tenha compreendido que a encarnação começa com Jesus e continua com os seus seguidores fiéis, cujos corpos também servem de ação ao Espírito de Deus, pelo que também são encarnação de Deus, tanto no isolamento da oração quanto na participação social, e daí a Teologia também se aplica à Sociologia, ao Direito e, especialmente, à Política, porque o Espírito é onipresente, dando sentido a todas as manifestações humanas.

O resultado esperado dessa ação do corpo espiritual é a renovação do corpo humano, e da própria humanidade, culminando na nova criação, do que a ressurreição de Jesus é uma manifestação antecipada, as primícias da nova realidade, resultado de sua vitória sobre a política mundana. Pode-se dizer que a ressurreição de Jesus concretiza no nosso plano físico espaço-temporal quadridimensional a realidade da quinta (ou sexta ou sétima) dimensão, a dimensão da História realizada, de um éon consumado, do verdadeiro sentido do tempo.

Desse modo, não devemos pensar em ir para o céu, como é comum hoje em dia, mas em viver, no corpo, a plenitude do Espírito e, ao final, ressuscitar, e voltar a ter um corpo, um que expressará nossa verdadeira natureza, que é espiritual.

O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos; semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo psíquico, há também um corpo espiritual” (1Cor 15, 42-44).

Dessarte, há uma estreita conexão entre Teologia física com nossa realidade humana, da perspectiva Cristã, porque os céus declaram a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos, mas chegará o momento em que a realidade será alterada, não por um multiverso, ou por um big crunch, um big rip ou um big freeze ou um big slurp, mas pela epifania cósmica do próprio Deus.

O Espírito semeia no Corpo para colher, no próprio corpo, frutos espirituais. Não seria a energia escura o sopro de Deus insuflando a semente das novas coisas que estão sendo formadas, em continuidade ao Princípio da criação, para um novo big fiat?

Nisto ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: ‘Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus’

A cidade não precisa do sol ou da lua para a iluminarem, pois a glória de Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21, 3; 23).

Teocracia cruciforme

Ontem acordei com um telefonema de um número desconhecido, quando alguém me perguntou se eu tinha trinta segundos, tendo respondido que não, porque não conhecia a pessoa, pela qual tinha sido acordado naquele momento, mas ela, então, disse para eu olhar o Salmo 62, ou 72, estava acordando e não entendi direito, versículo 55, alguma coisa assim, também não entendi, pelo que agradeci a mensagem e desliguei o telefone. Quando fui conferir, verifiquei que nenhum dos dois Salmos tem o versículo 55, narrando o Salmo 62 sobre a perseguição do justo pelo ímpio, e o 72 tratando das medidas adotadas pelo Rei justo.

Na parte da tarde, ao participar de tarefa de curso com o tema “Violência doméstica e familiar contra a mulher”, na unidade que fala sobre a filosofia e a sociologia da Lei Maria da Penha, repliquei a uma postagem que exaltava os “movimentos feministas” que teriam sido importantes para a edição da referida lei, afirmando que esta norma significou a reação a uma situação de longa data de opressão à mulher, que era tida como inferior ao homem, com direitos restritos, e apenas nesse contexto, que em si já é equivocado, seria aceitável falar em “movimentos feministas”.

Aduzi que o feminismo como tal é fruto de uma má filosofia, e obviamente também o machismo, igualmente inaceitável, porque jamais seria possível falar em “movimentos machistas” como algo positivo, o que vale para os “ismos” em geral, na medida em que tal sufixo designa a universalização de um conceito, que serve de ponto para explicar os demais.

Ressaltei que a questão filosófica remete para a filosofia de mundo na qual a lei está inserida, salientando o grande problema deste ponto, porque a filosofia pressupõe uma visão coerente e racional das coisas e dos fenômenos, desde os primeiros princípios, orientando o comportamento das pessoas segundo essa visão, e o que não temos hoje é coerência filosófica.

Em termos filosóficos, concebo duas opções fundamentais que remetem a Demócrito e Epicuro, de um lado, e Platão e Aristóteles, de outro. Os primeiros, os materialistas, viam a ordem como acidental, enquanto os últimos pressupunham a existência de uma ordem, como ideia ou primeiro motor (Deus), o que veio a ser apropriado pelo Cristianismo, primeiro por Agostinho e depois por Tomás de Aquino, ainda que o resultado não tenha sido propriamente a melhor filosofia Cristã.

Da filosofia surge a ideia de pertencimento, ao mundo material e/ou espiritual, e da noção errada de pertencimento decorre a violência, que associo à ideia de um mundo sem ordem, e, assim, ao materialismo.

No mundo machista a mulher pertencia ao homem, como no mundo romano o filho pertencia ao pai, e algo muito próximo ainda ocorre em muitas regiões da África e da Ásia que não tiveram a influência judaico-cristã que permite a ideia de igualdade espiritual entre homem e mulher, ainda que o próprio Ocidente tenha se distanciado desse pensamento, o que muito decorreu da crescente influência filosófica do materialismo e do paganismo.

Se o patriarcado é considerado um problema, porque a mulher é reificada, o feminismo é o mesmo problema com polo invertido, em que ocorre, por exemplo, a reificação do embrião humano, tratado como objeto, para tentar legitimar o aborto.

Esclareci que o “ismo” que defendo, o Cristianismo, atende a todos que se preocupam com o que considero os mais elevados valores jurídicos, expostos em nossa Constituição, que tem a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, e que é fundada na dignidade humana, no fato de homens e mulheres serem imagem e semelhança de Deus, porque o Cristianismo significa Deus se tornar Rei, isto é, Direito, Justiça e Sabedoria governando a comunidade política, em que todos somos filhos do Altíssimo.

A expressão Deus se tornar rei decorre de livro que adquiri recentemente, que resgata uma concepção fundamental do Cristianismo, a questão política do Reino de Deus, porque a violência (doméstica) não é algo recente, sendo que a ideia de uma sociedade justa e de paz é objeto de meditação (profetizada) há milênios pela tradição judaica, pelo que é necessário compreender a verdadeira mensagem do Evangelho, no seu contexto filosófico, político e jurídico, que está na origem dos direitos humanos, o que se deu não por acaso, mas por ação de Cristo e seus seguidores.

Assim, indiquei o autor N. T. Wright, cuja visão considero muito coerente e adequada, destacando o livro “Como Deus se tornou Rei”, que ainda não li, e sugeri que fossem assistidas as “Gifford Lectures” do referido teólogo, às quais já assisti, e que são muito esclarecedoras para a real compreensão filosófica do Cristianismo (https://www.youtube.com/watch?v=zdUM0ZB5zT0). Tais palestras já tinham sido mencionadas no artigo “Teologia Cristã em Paulo” (https://holonomia.com/2019/07/04/teologia-crista-em-paulo/)

Após a postagem no curso, aproveitando o dia de folga, decidir assistir novamente às “Gifford Lectures” de N. T. Wright, que dão uma visão geral da filosofia moderna, a qual representa um resgate do pensamento epicurista, sendo, portanto, a nova roupagem de uma visão de mundo antiga, em que há a separação entre o plano terreno e o divino, valendo dizer que essa visão dualista, que também ocorre com a ideia platônica, não é adequada ao entendimento judaico de Cristo e seus seguidores.

Tom Wright destaca a mentalidade judaica do segundo Templo, segundo a qual no Santo dos Santos havia a interseção entre Terra e Céu, pela presença de Deus naquele local, e que tal ideia é indispensável para o correto entendimento do Cristianismo, porque Jesus substituiu e se tornou o Templo de Deus na Terra, tendo sua morte e ressurreição significado a transmissão dessa qualidade teológica para a Humanidade.

Tom Wright faz também uma leitura da mentalidade apocalíptica e escatológica do Cristianismo a partir dessa hermenêutica, enfatizando a vida e a ressurreição de Jesus como a inauguração do profetizado Reino de Deus na Terra, o início de um tempo que já começou, a nova criação, mas ainda não se consumou, na famosa expressão teológica “já e ainda não”, que perpassa as cartas do Apóstolo Paulo. Essa é a mensagem do Evangelho, o Reino se aproximou, está chegando, mas não atingiu ainda na sua forma plena, que depende de alguns eventos (políticos). A semente foi lançada, mas é preciso o trabalho e sacrifício dos cristãos, pelo exemplo da cruz, para sua plena realização, que, evidentemente, é dependente da Graça de Deus.

Ainda que seja de Graça, portanto, a vinda do Reino de Deus também é resultado de nossas ações e obras, precisamos trabalhar a semente, fazendo com que cresça e dê frutos, como exposto nas parábolas do Messias.

Isso está de acordo com o que Tom Wright fala durante uma das palestras: “The God of creation is to be known as the God who will work in his world through obedient humanity, and this is where again as in Psalm 72 the promise of new creation and the vocation of the King come together” (Lecture 8, 13m49s a 14m09s – O Deus da criação deve ser conhecido como o Deus que operará em seu mundo por meio da humanidade obediente, e é aqui que, novamente, como no Salmo 72, a promessa de uma nova criação e a vocação do Rei se encontram).

Portanto, do telefonema anônimo citando um Salmo, cheguei ao Salmo 72, e à expressão Teocracia cruciforme, citada por Tom Wright em sua palestra, que é a forma de governo do Cristianismo, pela qual os reis e sacerdotes de Cristo exercem o poder político, a exemplo da mensagem do referido Salmo: a promessa de uma nova criação e a vocação do Rei se encontram.

Já há muito tempo venho pensando que a Democracia não é a forma de governo do Cristão, e que o autêntico Cristianismo, porque inserido na Teologia monoteísta, adota a Teocracia como a correta opção política, na medida em que Deus é, de fato, o Único e Verdadeiro Soberano, Senhor da Terra, e a expressão dada por Wright, Teocracia cruciforme, é suficiente para afastar qualquer conexão com os maus exemplos de Teocracia que tivemos até hoje, porque a Teocracia cruciforme é alcançada pelo método da encarnação do Logos, em que os governantes aplicam o Direito e a Justiça, segundo a melhor racionalidade humana, guiada pela melhor interpretação teológica, segundo o exemplo do filho de Deus, que, de tão obediente tão israelita, tão muçulmano, mesmo justo e inocente, aceitou o martírio, a crucificação, para o Bem, a Salvação da humanidade, muito ao contrário do que ocorre com certos políticos, que todos sabemos culpados, porque as provas dos crimes são públicas e abundantes, e ainda assim não se arrependem e continuam com seus discursos mentirosos, não aceitando suas responsabilidades.

Não é a Democracia, mas a Teocracia cruciforme, pois, o governo que queremos, esta que é a origem dos mais elevados valores jurídicos, expostos em nossa Constituição, que tem a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, e que é fundada na dignidade humana, no fato de homens e mulheres serem imagem e semelhança de Deus, porque o Cristianismo significa Deus se tornar Rei, isto é, Direito, Justiça e Sabedoria governando a comunidade política, em que todos somos filhos do Altíssimo. A Teocracia cruciforme é o método de realização do Reino de Deus:

Ó Deus, concede ao rei teu julgamento e a tua justiça ao filho do rei; que ele governe teu povo com justiça, e teus pobres conforme o direito. Montanhas e colinas, trazei a paz ao povo. Com justiça ele julgue os pobres do povo, salve os filhos do indigente e esmague seus opressores. Que ele dure sob o sol e a lua, por geração de gerações; que ele desça como chuva sobre a erva roçada, como chuvisco que irriga a terra. Que em seus dias floresça a justiça e muita paz até ao fim das luas; que ele domine de mar a mar, desde o rio até aos confins da terra. Diante dele a Fera se curvará e seus inimigos lamberão o pó; os reis de Társis e das ilhas vão trazer-lhe ofertas. Os reis de Sabá e Sebá vão pagar-lhe tributo; todos os reis se prostrarão diante dele, as nações todas o servirão. Pois ele liberta o indigente que clama e o pobre que não tem protetor; tem compaixão do fraco e do indigente, e salva a vida dos indigentes. Ele os redime da astúcia e da violência, o sangue deles é valioso aos seus olhos. (Que ele viva e lhe seja dado o ouro de Sabá!) Que orem por ele continuamente! Que o bendigam todo o dia! Haja abundância de trigo pelo campo e tremule sobre o topo das montanhas, como o Líbano com suas flores e frutos, como a erva da terra. Que seu nome permaneça para sempre, e sua fama dure sob o sol! Nele sejam abençoadas as raças todas da terra, e todas as nações o proclamem feliz! Bendito seja Iahweh, o Deus de Israel, porque só ele realiza maravilhas! Para sempre seja bendito o seu nome glorioso! Que toda a terra se encha com sua glória! Amém! Amém! Fim das orações de Davi, filho de Jessé.”

Conhecimento profético

O conhecimento profético, ou revelado, está no centro da mensagem monoteísta, significando a recepção de uma determinada realidade pelo indivíduo escolhido, ao qual é apresentado um nível simbólico do mundo que muitas não é compreendido pelo próprio receptor daquela comunicação, como aconteceu com o profeta Daniel (Dn 12, 8-9) e com o autor do Apocalipse (Ap 17, 6-7).

Essa forma especial de conhecimento ocorria no tempo antigo com mais intensidade, mas ainda é um fenômeno que continua a existir, havendo dois exemplos muito importantes do início do século XX, ligados à atividade científica, com semelhanças com a verdade revelada, Nikola Tesla, que dizia ter contato com seres de outro mundo, e Srinivasa Ramanujan, o qual afirmava receber mensagens de uma deusa, e conseguia compreender instantaneamente complexas relações matemáticas, sem necessidade de demonstração.

A vida de Ramanujan é objeto de um filme muito bom “O homem que viu o infinito”, disponível na Netflix, sendo que recentemente assisti a um vídeo no YouTube sobre ele, em um canal sobre Matemática (Toda a matemática – https://www.youtube.com/watch?v=RMB8s27Rjeo), explicando que ele fazia contas de elevadíssima complexidade praticamente de cabeça, entendendo tais resultados como óbvios, sendo citado que uma dessas contas óbvias precisou ser explicada em uma dissertação de mestrado de cinquenta páginas.

Alguns indivíduos têm, portanto, uma capacidade extraordinária, podendo-se dizer sobrenatural, de percepção de determinadas realidades, que às vezes somente serão entendidas pelas demais pessoas dezenas, centenas ou milhares de anos depois, sendo fundamental a atenção a tal forma de conhecimento, que é revelado por Deus para muito além da racionalidade do tempo em que a mensagem é transmitida, principalmente porque toda a narrativa bíblica é baseada nesse tipo de acontecimento e na expectativa sobre o cumprimento de profecias dessa forma reveladas, do Gênesis ao Apocalipse.

Não é por acaso que o Apóstolo Paulo, na primeira carta que escreveu, o primeiro texto do Cristianismo, segundo os estudiosos, destacou a importância de tal estudo.

Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias. Discerni tudo e ficai com o que é bom” (1Ts 5, 19).

Falando em profecias, estou acompanhando uma série de um excelente canal do YouTube, “Davar – opinião e religião”, em que está sendo abordado o texto do profeta Isaías (https://www.youtube.com/watch?v=-0CWsh4Lirg), em um total esperado de treze vídeos de aproximadamente trinta minutos. O autor do canal é um estudioso das escrituras e tem uma ótima compreensão dos contextos históricos e simbólicos dos textos sagrados.

O correto entendimento das profecias é essencial para a interpretação adequada da História, e do próprio Cristianismo, pela inafastável conexão, por exemplo, entre as visões dos profetas do chamado Antigo Testamento e o livro do Apocalipse, que retoma temas já existentes na Escritura judaica, especialmente Isaías, Ezequiel e Daniel.

Um dos grandes problemas do Cristianismo, é importante ressaltar, está na desconexão entre o entendimento do Novo Testamento e o que significavam as profecias e os símbolos religiosos segundo Jesus e seus seguidores, todos judeus. Ainda que tenha havido uma renovação hermenêutica das Escrituras a partir de Jesus e de sua Mensagem, não houve o total rompimento com cosmovisão judaica.

A própria ideia do Reino de Deus, da concretização do projeto político de Deus para a humanidade acabou sendo mal compreendida, especialmente quando se entendeu e se entende que tal Reino não é deste mundo, contrariando o entendimento expresso, e talvez óbvio, dos textos proféticos.

Por mais que tal Verdade seja ignorada, está cada vez mais próxima sua revelação, quando as pessoas, como os profetas, serão arrebatadas pelo Espírito da profecia, e poderão, enfim, oferecer os louvores devidos ao Altíssimo, inclusive, e especialmente, no ambiente político internacional, porque Deus, de fato, é o único e verdadeiro Soberano, o Senhor das nações e dos exércitos.

E dirás naquele dia: Louvo-te, ó Iahweh, porque, embora tivesses estado encolerizado contra mim, a tua ira cessou e agora me deste o teu consolo. Ei-lo, o Deus da minha salvação: sinto-me inteiramente confiante, de nada tenho medo, porque Iahweh é a minha força e o meu canto. Ele é a minha salvação. Com alegria tirareis água das fontes da salvação. E direis naquele dia: Louvai a Iahweh, invocai o seu nome; proclamai entre os povos os seus feitos, fazei saber que o seu nome é excelso. Salmodiai a Iahweh, porque ele fez coisas sublimes; seja isto sabido no mundo inteiro. Erguei alegres gritos, exultai, ó habitantes de Sião, porque grande no meio de ti é o Santo de Israel” (Is 12).

A obra de salvação

Continuando o tema da Teodiceia, merece grande destaque a obra de salvação executada por Deus na criação, especialmente pelo trabalho desempenhado por Jesus, O Messias, e seu significado.

Sobre esse assunto, hoje assisti ao vídeo de um rabino explicando a importância do Messias para o povo de Israel, “A Crash Course on Everything Moshiach” (https://www.youtube.com/watch?v=-DNcKdgDejg&t=321s), falando sobre o Messias e a Era Messiânica, ou Tempo de Redenção, que está nos fundamentos do Judaísmo, um dos seus treze princípios de fé, que, em fato, está no centro dessa fé. Narra que o judeu não apenas deve acreditar na vinda do Messias, mas antecipá-la. Afirma que a salvação pressupõe algo errado com o mundo, para que este precise ser salvo, e que o povo judeu ainda está em situação de exílio, há dois mil anos, a despeito de já terem reconquistado a terra prometida, porque o exílio é um estado de mente ou espírito que pode afetar até mesmo os judeus que vivem em Israel, isto é, quando Deus não é percebido, e quando nossa vida não é regida pelos preceitos da Torá. A Era Messiânica significa liberdade em relação a ideologias estrangeiras, para que possamos servir a Deus de um modo aberto e puro. O rabino informa que a grande mudança será de consciência, de percepção sobre a realidade, pois veremos a obra do Autor da criação em tudo, que tudo é especial, e enxergaremos como isso se encaixa nos planos divinos. Depois “explica” porque Jesus, “o fundador do Cristianismo” não seria o Messias. Então, dá exemplos de alguns sinais da sua vinda: desprezo pela tradição, desrespeito pelos pais, idosos e autoridade, insolência, o conhecimento se tornará pútrido e a verdade abandonada, os não crentes atacarão a religião para sustentar seus falsos argumentos, o governo se tornará sem Deus, ímpio, e o aprendizado nas academias será palco de imoralidades. De outro lado, enfatiza que as profundidades da ciência confirmarão os ensinamentos mais profundos do Judaísmo.

Há muita proximidade, como não poderia deixar de ser, entre a narrativa acima e aquela inerente ao Cristianismo, haja vista o contexto judaico de Jesus, de seus apóstolos e, especialmente, de Paulo, valendo ressaltar que a mudança de consciência e de percepção da realidade já era pregada por João Batista, também judeu, antecessor do Cristo, bem como a necessidade de perceber a realidade divina e de se viver segundo os preceitos da Torá, contudo, na interpretação renovada por Batista e elevada ao ápice pelo Messias, Jesus de Nazaré.

Ainda que o referido rabino afirme que os judeus nunca reconhecerão Jesus como O Messias, tal fato decorre de estarem com o coração endurecido, não conseguindo entender que não há mais que se falar em templo construído por mãos humanas para adoração ao verdadeiro Deus, sendo descabido o retorno ao sacrifício de animais que era praticado pelos antigos sacerdotes judaicos. Ele não consegue perceber que a própria existência do Estado de Israel já é a realização de uma das principais profecias cumpridas pela atividade messiânica de Jesus, dada a inquestionável causalidade moral e física entre os ensinamentos de Cristo e o resgate do povo judeu após o holocausto.

A obra de salvação iniciada por Jesus tem por escopo a realização da Lei Natural, expressa na Torá, mas em sua racionalidade máxima, decorrente da vivência pelo Messias, da encarnação do Logos, que é a própria razão, e que possui, como expresso acima, uma causalidade moral e física, que se propaga pela criação.

Assim, acerta o rabino em sua fala no sentido de que as profundidades da Ciência confirmarão os ensinamentos mais profundos do Judaísmo, e que isso já acontece, na medida em que a Ciência moderna é resultado do pensamento Cristão, que aprimorou a Filosofia de Aristóteles, e não é sem motivo que Tomás de Aquino, o principal conciliador do Cristianismo com o aristotelismo combinava fé e razão.

Também Leibniz tem essa preocupação, quanto ao acordo da fé com a razão, podendo ser afirmado que a própria obra divina de salvação está ligada a essa união, porque tanto não podemos viver sem fé, porque a epistemologia demonstra os claros limites da instrumentalidade científica, do que são exemplos o princípio da incerteza e o teorema da incompletude de Gödel, sendo a crença na existência de uma ordem universal, de um cosmos, o próprio fundamento lógico ou antecedente da atividade científica, como não podemos viver como animais irracionais, desprezando nossa inteligência, pois é nosso dever moral usar com o máximo empenho e dedicação, do melhor modo possível, as faculdades mentais que recebemos do Criador. Nesse aspecto, os judeus são um exemplo marcante, pelo valor que concedem às atividades intelectuais, do que os prêmios Nobel obtidos são prova clara.

Leibniz lembra que os primeiros autores cristãos “se adaptavam aos pensamentos dos platônicos que mais lhes inspiravam confiança e que mais estavam em voga no momento” (Ensaios de teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. Gottfried Wilhelm Leibniz. Tradução William de Siqueira Piauí e Juliana Cecci Silva. 2 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2017, p. 76).

Não se pode esquecer que tanto nos Atos dos Apóstolos como nas próprias cartas de São Paulo e, finalmente, no quarto Evangelho, especialmente pelos termos Arqué e Logos, já estão presentes alguns elementos e conceitos de filosofia grega, que se incorporaram aos textos sagrados Cristãos.

Continua Leibniz dizendo que Santo Agostinho e outros autores Cristãos “contribuíram para reduzir a teologia à forma de ciência”, dando sequência com os escolásticos, que fizeram “um composto de teologia e filosofia, no qual a maior parte das questões vinha da preocupação que se tinha em conciliar a fé com a razão. Mas isso não aconteceu com todo o sucesso que era de esperar, pois a teologia tinha sido muito corrompida pelo infortúnio dos tempos, pela ignorância e pela teimosia; e porque a filosofia, além dos seus próprios defeitos, que eram muito grandes, encontrava-se sobrecarregada pelos da teologia, que, por sua vez, se ressentia da associação com uma filosofia muito obscura e muito imperfeita” (Idem, p. 77).

Outrossim, o trabalho científico bem desempenhado está associado a uma Filosofia Primeira, ou Teologia, como dizia Aristóteles, sendo que a própria Teodiceia enfrenta temas eminentemente teológicos: a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal.

Como salientado pelo autor em comento, há uma interferência recíproca entre Teologia e Filosofia, afirmando que a primeira foi muito corrompida e que a segunda, além de seus grandes defeitos, ainda levava consigo os daquela, já ressentida da associação com uma filosofia muito obscura e muito imperfeita.

Para um pensador do Monoteísmo, assim, a principal disciplina científica é a Teologia, e como reconhecido pelo rabino, a subdisciplina mais importante é a Cristologia, que está tanto no fundamento do judaísmo, na forma de messianismo, como, obviamente, no próprio Cristianismo.

Leibniz constata que não é por acaso que a “questão do uso da filosofia na teologia foi muito agitada entre os cristãos, e foi difícil reconhecer os limites desse uso, quando se entrou em (seu) detalhe. Os mistérios da Trindade, da Encarnação e da Santa Ceia foram os que mais ocasionaram controvérsias” (Idem, p. 86).

Portanto, não é coincidência que tais assuntos são objeto de grandes controvérsias teológicas, dada a necessidade de que temas especificamente religiosos sejam também tratados científica ou filosoficamente, acarretando aquela mescla de Teologia e Filosofia que são inerentes aos grandes pensadores da História, começando por Platão e Aristóteles e continuando com São Paulo, o autor do quarto Evangelho, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

O próprio Jesus desempenhou um trabalho de mudança de visão teológica, de tal magnitude que ainda não é compreendido adequadamente, seja por judeus ou cristãos, especialmente no que diz respeito a Trindade, Encarnação e Santa Ceia.

A despeito dessas controvérsias, para alcançamos o conhecimento da obra da salvação, algumas ideias de Leibniz são muito valiosas, especialmente sobre os atributos de Deus e sua atuação na criação:

Sabe-se que ele cuida de todo o universo, no qual todas as partes são ligadas; e disso devemos inferir que teve uma infinidade de cuidados, cujo resultado lhe fez considerar que não era oportuno impedir certos males.

35. Até devemos dizer que é preciso necessariamente que tenha existido grandes, ou melhor, invencíveis razões, que levaram a divina sabedoria à permissão do mal, por isso mesmo nos espanta que essa permissão tenha acontecido; pois nada pode vir de Deus que não seja perfeitamente conforme à bondade, à justiça e à santidade” (Idem, pp. 98-99).

Corretíssima, e de acordo com a mais avançada Ciência, a Física moderna, que todas as partes do universo estão ligadas, pelo que a afirmação muito comum nos dias de hoje, “meu corpo, minhas regras”, para defender o aborto, por exemplo, soa uma clara negativa dos fundamentos da Ciência, sem falar no absurdo moral que representa.

Indispensável que a discussão religiosa volte ao plano científico, como o fizeram os primeiros autores Cristãos demonstrando que era o paganismo que se mostrava contrário à razão.

É que a razão, bem longe de ser contrária ao cristianismo, serve de fundamento para essa religião, e fará com que seja aceita por aqueles que possam examiná-la. Mas como poucas pessoas são capazes disso, o dom celeste de uma fé nua e crua que leva ao bem basta para a maioria. ‘Se fosse possível’, diz ele (Orígenes), ‘que todos os homens que neglicenciam os compromissos da vida se aplicassem no estudo e na meditação, não seria preciso outra via para lhes fazer receber a religião cristã’” (Idem, p. 108).

A obra de salvação é, pois, também, e principalmente, um trabalho da Razão, do Logos, urgindo a grande mudança de consciência, de percepção sobre a realidade, sobre a natureza do Cristianismo, que se funda na própria Razão, no Logos, e que depende da atuação de cada um e todo Cristão, mostrando a obra do Autor da criação em si e em tudo, que tudo é especial, resgatando o conhecimento são e a busca da Verdade, impedindo que os não crentes ataquem indevidamente a religião usando de falsos argumentos e, finalmente, fazendo com que o governo humano volte a se submeter a Deus, no correto entendimento de Cristo, tornando-se justo e impedindo que o aprendizado nas academias seja palco de imoralidades, pois, no fim das contas, as profundidades da Ciência confirmam os ensinamentos mais profundos do Judaísmo, e do Cristianismo, na medida em que Jesus de Nazaré é o Messias de Israel, o centro de sua Fé.

A Teodiceia de Leibniz

Tanto o artigo anterior como outros dois já publicados, “A indispensabilidade metafísica e A Monadologia” (https://holonomia.com/2020/08/16/a-indispensabilidade-metafisica-e-a-monadologia/) e “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/), são inspirados na obra de Gottfried Wilhelm Leibniz, cujo modo de pensar, tanto por sua lógica como pela coerência com a cosmovisão Cristã, muito me agrada, pois parte de um determinado entendimento de Deus, que compartilho com o autor, e daí desenvolve toda uma série de argumentos.

Já no texto anterior eu pretendia abordar algumas passagens da Teodiceia de Leibniz, mas a escrita acabou evoluindo em outra direção, de modo que foi interrompido o raciocínio sem passar para a obra indicada, de modo a não alongar demais o assunto.

A parte inicial do livro traz uma exposição dos tradutores sobre a diferença entre a Teologia Natural de Leibniz e Newton, ressaltando a busca pela causa primeira, Deus, na pesquisa dos referidos autores, bem como na distinção em suas concepções de espaço e tempo. Como salientado no artigo “A unidade entre corpo e alma”, Leibniz antecipou a relatividade do espaço e do tempo, contrariando o entendimento de Newton. Como consta na introdução:

“O fato de a Relatividade Geral de Einstein recusar o espaço e o tempo absolutos, somado ao advento, já no século anterior, das geometrias não euclidianas acaba por exigir uma nova leitura dos autores que entendiam o espaço e o tempo de forma diferente da de Newton ou mesmo da de Kant – revisão que pode muito bem ser iniciada pela leitura minuciosa da Teodiceia” (Ensaios de teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. Gottfried Wilhelm Leibniz. Tradução William de Siqueira Piauí e Juliana Cecci Silva. 2 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2017, p. 39).

Mas essa revisão, no contexto dos referidos autores, deve ocorrer mantendo o entendimento pela existência daquela causa primeira, ou Deus, Que é expressa nos trabalhos de Newton e Kant, e condicionam suas visões de mundo, não só no aspecto teológico, como também nos âmbitos filosófico e propriamente científico.

E não há como enfrentar a realidade adequadamente, mesmo em termos epistemológicos, deixando Deus de fora, sendo urgente superar a visão do século XX, que tinha as questões ligadas ao mundo divino como nulidades científicas ou irracionais, para voltar a conceber Deus como o centro e a origem da própria Razão, restaurando a cosmovisão Cristã em sua essência, segundo a qual no Princípio é o Logos, e esse Princípio e esse Logos é Deus.

É mesmo admirável como Leibniz sabe abordar a natureza das coisas, ainda que sua teoria não seja perfeita, pois tem uma noção corretíssima do universo, e dos atributos de Deus, como exposto no Prefácio:

As perfeições de Deus são aquelas da nossa alma, mas ele as possui sem limites; ele é um oceano do qual só recebemos gotas: em nós, existe algum poder, algum conhecimento, alguma bondade; mas em Deus eles existem plenamente. A ordem, as proporções, a harmonia nos encantam, a pintura e a música são exemplos disso; Deus é todo ordem, sempre mantém a justeza das proporções, e faz a harmonia universal: toda beleza é uma efusão dos seus raios” (Idem, p. 47).

Levando essas ideias a sério, isto é, Deus como fundamento da razão, da ordem, da bondade e da harmonia, Leibniz desenvolve com eloquência seus argumentos, entendendo muitos dos problemas enfrentados pela cristandade.

Cristãos pensavam que poderiam ser devotos sem amar seu próximo e piedosos sem amar a Deus; ou mesmo acreditou-se poder amar seu próximo sem servi-lo e poder amar a Deus sem conhecê-lo. Muitos séculos passaram sem que o público se apercebesse desta falha; e há ainda muitos vestígios do reino das trevas. Vemos algumas vezes pessoas que falam muito sobre a piedade, sobre a devoção e sobre a religião que estão, de fato, ocupadas em ensiná-las; mas não as achamos nem um pouco instruídas quanto às perfeições divinas. Elas concebem mal a bondade e a justiça do soberano do universo; elas imaginam um Deus que não merece ser imitado nem amado” (Idem, pp. 48-49).

Existem ainda outras falhas no entendimento Cristão que perduram por outros séculos desde que Leibniz escreveu tais sábias palavras, de todo modo, como sustenta o autor, é, sim, indispensável o conhecimento de Deus, das perfeições divinas, da bondade e da justiça do soberano do universo para que Ele possa ser adequadamente adorado e louvado, e tal Ciência é tanto benéfica para nós mesmos, pela Paz (de Cristo) que proporciona, quanto para aqueles com quem nos relacionamos, na medida em que podemos dar um verdadeiro testemunho de nossa fé, e pelos bons efeitos dessa fé na vida alheia. Nesse ponto, já diziam os apóstolos:

Por isso não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor” (Ef 5, 17);

antes, santificai a Cristo, o Senhor, em vossos corações, estando sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pede” (1Pe 3, 15).

Não é possível entender a vontade do Senhor ou dar as razões da fé e da esperança cristãs sem conhecimento, sem proximidade com os conceitos ligados a Deus e às virtudes e qualidades que Ele espera sejam desenvolvidas nos homens, especialmente sobre o projeto de Deus para a humanidade, que tem como destaque absoluto a Vida e Paixão de Jesus de Nazaré, o significado do Cristianismo, a encarnação do Logos, a vivência da maior racionalidade concebível, o Reino de Deus inaugurado por Cristo.

Sobre a ação da Providência no mundo, Leibniz diferencia o fatum stoïcum (destino estoico), que dava tranquilidade quanto aos eventos, para evitar preocupações inúteis, o fatum mahumetanum (destino maometano), pelo qual os turcos não evitavam perigos, e o fatum christianum (destino cristão), contentamento quanto à bondade de Deus, Que não negligencia nem os cabelos da nossa cabeça, referentes a distintos entendimentos sobre a necessidade dos acontecimentos, quanto ao futuro inevitável, aliado à presciência divina sobre todas as coisas do universo, do que decorre que devemos confiar em Deus inteiramente.

É como se disséssemos aos homens: façam o seu dever e fiquem contentes com o que vai acontecer, não somente porque vocês não poderiam resistir à providência divina ou à natureza das coisas (o que pode bastar para estar tranquilo, mas não para estar contente), mas também porque vocês têm obrigação para com um bom mestre. E é isso que podemos denominar fatum christianum)” (Idem, p. 51).

A pessoa de nosso tempo terá muita dificuldade para aceitar ou compreender o texto de Leibniz, inserido em contexto de presença espiritual e moralidade absoluta, com ênfase nos deveres, nas obrigações, quando o tempo presente é de destaque amplo e unilateral para os direitos, com enfoque eminentemente para o mundo material, que, apesar de importante, é, em realidade, um médium para a realização do Espírito.

Nessa mesma linha, a ideia de uma determinada realidade a ser alcançada, o Reino da graça, praticamente deixou de existir, passando a dominar o (des)entendimento sobre o Reino da natureza, que seria regida pelas forças do acaso. Perdeu-se completamente a noção do que Leibniz define como a “filosofia dos cristãos, que identifica melhor que a dos antigos a dependência das coisas (com relação) ao primeiro autor e seu concurso para com todas as ações das criaturas” (Idem, p. 54).

Uma das ideias principais de Leibniz é de que Deus escolhe sempre o melhor, e por isso vivemos no melhor dos mundos possíveis, caso contrário Ele não teria escolhido o melhor, o que seria negar sua suprema Bondade e infinita Sabedoria, O Qual, “fazendo tudo no mesmo instante, inicialmente com ordem, tinha estabelecido aí toda ordem e artifício futuro. Não existe caos no interior das coisas, e o organismo está, em toda parte, em uma matéria cuja disposição vem de Deus” (Idem, p. 62).

A existência de mal no mundo não contraria tudo o que foi dito, porque “Deus, tendo escolhido o mais perfeito de todos os mundos possíveis, fora levado por sua sabedoria a permitir o mal que estava ligado a ele, mas o que não impedia que, tudo calculado e acertado, este mundo fosse o melhor que pudesse ser escolhido” (Idem, p. 65).

A questão do mal está indissoluvelmente ligada com a da liberdade humana, com a natureza da alma, temas que serão novamente desenvolvidos no próximo artigo, mas a matéria alma merece uma citação final:

“Talvez ainda seja bom observar, antes de terminar este prefácio, que ao negar a influência da alma sobre o corpo ou do corpo sobre a alma, isto é, uma influência que faça com que um perturbe as leis do outro, de modo algum nego a união de um com o outro que nele é uma parte constitutiva, mas essa união é algo de metafísica que não muda nada nos fenômenos” (Idem, p. 67).

Como já ressaltei em artigo anterior, discordo desse entendimento do autor, pelo dualismo inerente à sua harmonia preestabelecida, segundo a qual a correspondência da alma com o corpo decorreu de uma sincronização estabelecida por Deus no princípio da criação, pela qual os fenômenos da alma ocorrem simultaneamente com os do corpo, como dois relógios coordenados.

Assim escrevi no artigo “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/):

“Leibniz afirmava que as almas possuem internamente a representação de todo universo, cada uma de seu ponto de vista, possuindo perfeita harmonia com as coisas que estão fora das almas, regidas pelas leis do mecanismo corporal. ‘E como a natureza da Alma é representar o universo de um modo muito exato (embora com maior ou menor nitidez), a sucessão de representações que a Alma produz para si mesma irá naturalmente corresponder à sucessão de mudanças no próprio universo’ (Idem, p. 67). Desse modo, há também um dualismo no entendimento do autor, por não haver interferência nos mecanismos das leis do corpo com a atividade da alma, porque tudo que ocorre nesta é originado de sua constituição original, como representação de todo universo, expressando cada coisa externa no seu devido tempo, pela harmonia conferida por Deus a todas as coisas.”

Esse é um assunto teológico de primeira grandeza, que será continuado na próxima semana…