Política como Teologia – parte III

Aproveitando o domingo de ramos, que significa a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, é possível continuar o tema dos artigos anteriores, na medida em que tal passagem bíblica tem inegáveis conotações políticas, quando o povo aclamou Jesus, cantando: “Bendito o que vem em nome de Iahweh!” (Sl 118, 26); enquanto ele entrava na cidade montado em um jumento, significando que trazia mensagem de paz.

Desse momento de glória, Jesus passou, na semana que se seguiu, pela paixão e, então, pela ressurreição.

É sempre importante dizer que, sem a ressurreição, a Páscoa continuaria sendo uma festividade apenas judaica, eminentemente política, significando a libertação daquele povo específico da escravidão do império egípcio, o maior poder político e militar daquele tempo. Acerca da historicidade de tal fato, recomendo “Exodus Rediscovered: Documentary” (https://www.youtube.com/watch?v=bk4CLwL9BQs), que, a partir da arquelogia egípcia, defende a plena compatibilidade da referida narrativa bíblica com fatos históricos já conhecidos da ciência atual, referentes àquele da humanidade.

Urge que o Cristianismo volte a interpretar a Páscoa em seu contexto verdadeiro, dentro da narrativa bílica, não mais apenas a libertação política do povo escolhido, mas algo de proporções muito maiores, de natureza cósmica, o momento em que a própria morte foi vencida, juntamente com os poderes malignos que ainda exercem influência no mundo, e que estão na iminência de serem derrotados.

Toda a Bíblia narra a história da humanidade, do momento de sua criação, a queda, até a redenção promovida por Jesus, cuja ressurreição inicia a nova criação, que se consumará nos novos céus e terra, descritos tanto nas profecias veterotestamentárias, como Isaías e Jeremias, assim também no livro do Apocalipse. Esse contexto essencial da Escritura não pode ser esquecido, sob pena de desvio da interpretação dos textos sagrados, prejudicando o entendimento sobre o significado de nossa vida e dos nossos afazeres, menos e mais importantes.

Nesse ponto, como desenvolvido nos artigos anteriores, a questão Política é essencial no contexto judaico-cristão, haja vista que Jesus é o Messias Judeu, o Rei de Israel, aquele através do qual as nações adorarão ao Deus único, Iahweh. A história bíblica passa da queda de Adão, ao chamado de Abraão, para ser pai de muitas nações, os eventos envolvendo os seus filhos Ismael e Isaac, e depois Jacó, que passou a ser chamado Israel, gerando Judá, Moisés, Davi e Salomão, culminando em Jesus, que reconduziu a humanidade para Deus, reunindo a partir de si todas as nações, cumprindo as promessas feitas a Abraão.

Tal, contudo, é um longo processo que hoje conta com quase quatro mil anos, contados do tempo de Abraão. Portanto, existe um desenvolvimento ideológico e político em curso durante esse vasto período de tempo, tanto aquele que antecede a vinda do Messias como após sua manifestação, até a consumação de sua obra.

No último período, a ideia política se dissociou da teológica, provavelmente para o desenvolvimento pleno das capacidades humanas, segundo os propósitos de Deus para a criação.

“Lembremo-nos dos níveis nos quais o espírito europeu dos últimos quatro séculos se movimentou, e das diferentes esferas espirituais nas quais ele encontrou o centro da sua existência humana. São quatro grandes passos simples, seculares. Eles correspondem aos quatro séculos e vão do teológico ao metafísico, daí ao humanitário-moral e, finalmente, ao econômico. (…) Nos passados quatro séculos da história europeia, a vida espiritual teve quatro centro diferentes, e o pensamento da elite activa que formava a respectiva tropa avançada movia-se, nos diferentes séculos, em torno de diferentes pontos centrais” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 142-143).

Tal passagem se encontra num texto com o nome “A Era das Neutralizações e das Despolitizações”, descrevendo a mudança nas convicções e argumentos, de natureza espiritual, utilizados pelas elites, afirmando, depois do período teológico, o pensamento sistematicamente científico, metafísico ou natural, o que foi seguido por uma filosofia deísta no século XVIII, quando formados os “conceitos fundamentais da moral e da teoria do Estado”, até chegar mundo econômico e da industrialização do século XIX.

“Certamente, o progresso técnico torna-se, já no século XIX, tão espantoso, e as situações sociais e econômicas transformam-se, em consequência disso, tão rapidamente, que todos os problemas morais, políticos, sociais e econômicos são apanhados pela realidade deste desenvolvimento técnico. Debaixo da tremenda sugestão de sempre novas e surpreendentes invenções e realizações, surge uma religião do progresso técnico para a qual todos os outros problemas se resolvem por si mesmos precisamente através do progresso técnico. Para as grandes massas das terras industrializadas esta crença era evidente e óbvia. Elas saltaram por cima de todos os níveis intermediários que são característicos do pensamento das elites liderantes, e nelas emerge logo, a partir da crença nos milagres e no além, sem elo intermédio, uma religião do milagre técnico, das realizações humanas e da dominação da natureza. Uma religiosidade mágica para uma igualmente mágica tecnicidade. Assim, o século XX aparece, no seu começo, como a era não apenas da técnica, mas também de uma crença religiosa na técnica” (Idem, pp. 145-146).

Essa religiosidade da técnica, cada vez mais afastada de Deus, é a persistência do exercício dos poderes do mundo que Jesus derrotou, mas continuam hoje com grande influência planetária, preparando exatamente o campo da última batalha, naquela guerra que já vencida pelo Enviado de Deus.

Ideias têm consequências, pelo que as realizações de Jesus produzem efeitos de longo prazo, ainda que não seja fácil para a maioria compreender como, neste mundo desordenado, existe um governo justo em ação, sendo importante ressaltar, nesse ponto, que a própria noção de justiça e o entendimento de vivemos um tempo de injustiça mostram a força do trabalho de Cristo, isto é, que nenhum outro ser humano expressou ideia melhor sobre governo humano, sobre o exercício do poder e sobre a ideia de Justiça. A inafastabilidade da dignidade humana e dos direitos humanos é a prova cabal da vitória de Cristo sobre os poderes do mundo, restando apenas serem corretamente aplicados tais conceitos na governança das nações, segundo a doutrina messiânica.

“Jesus chega a Jerusalém e não vê mais o Templo como lugar onde o céu se relaciona com a terra, mas como lugar onde Mamom e a violência reinam sem limites, em cumplicidade com o governo de César” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 219).

Os poderes espirituais que exerciam influência sobre Caifás, Pilatos e César ainda estão em ação no mundo, o dinheiro e a violência ainda reinam, mas isso não diminui a vitória de Jesus sobre eles, na medida em que é necessário o cumprimento das profecias, é indispensável que o projeto de Deus se realize em sua totalidade, para que seja visível e concluída a ação de seu Messias, o que ocorrerá quando passarmos a segui-lo no plano político internacional, porque não há dúvida em qualquer argumento racional no sentido de que a dignidade humana e os direitos humanos são axiologicamente superiores ao dinheiro e à violência.

Tal desenvolvimento pode ser claramente extraído tanto das visões proféticas de Daniel como no livro do Apocalipse, que retoma e reorganiza as profecias veterotestamentárias, agora sob a perspectiva da entronização de Jesus como mandatário de Deus, nos céus e na Terra, depois de cumprida sua missão salvadora.

No capítulo 12 do livro da Revelação é descrita a mulher que dá à luz ao filho que governará as nações, simbolizando a vitória do Messias sobre a bestialidade que domina os poderes humanos.

Ela deu à luz um filho, um varão, que irá reger todas as nações com um cetro de ferro. Seu filho, porém, foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono, e a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar em que fosse alimentada por mil duzentos e sessenta dias. Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu” (Ap 12, 5-8).

A mulher é Israel, a nação eleita, e o filho varão é o Messias, Jesus, arrebatado para junto de Deus e seu trono, ficando a mulher, agora a comunidade Cristã, no deserto, ou seja, fora cidade, sem acesso ao governo político, esperando o desenvolvimento dos efeitos da guerra no céu já vendida pelos anjos de Deus. Na teoria política e teológica, e no céu, não mais há lugar para a venalização humana ou para a violência política, a guerra já foi vencida.

Enquanto isso, na terra, na realidade dos fatos temporais, as nações ainda são dominadas pela Besta, que, em nome do Dragão, exerce a influência dos poderes espirituais sobre a humanidade, por meio daquela crença religiosa na técnica, a religião do progresso técnico descrita por Carl Schmitt.

Ela opera grandes maravilhas: até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens. Graças às maravilhas que lhe foi concedido realizar em presença da Besta, ela seduz os habitantes da terra, incitando-os a fazerem uma imagem em honra da Besta que tinha sido ferida pela espada, mas voltou à vida. Foi-lhe dado até mesmo infundir espírito à imagem da Besta, de modo que a imagem pudesse falar e fazer com que morressem todos os que não adorassem a imagem da Besta. Faz também com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos recebam uma marca na mão direita ou na fronte, para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome. Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem: seu número é 666!” (Ap 13, 13-18).

Temos, pois tanto os milagres técnicos produzidos pela Besta, o fogo que faz descer do céu sobre a terra, à vista dos homens, as bombas atômicas explodindo sobre Hiroshima e Nagasaki, como o controle econômico sobre as nações e a população mundial, estabelecendo quem pode comprar ou vender.

A Política, pois, nada mais é do que a expressão moderna da Teologia.

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