Categorias e fenômenos

A investigação científica, o conhecimento, em geral, depende de categorias, pelas quais os fenômenos são apreendidos intelectualmente, de modo que a compreensão dos eventos é condicionada pelas categorias por meio das quais os filtramos, medimos ou experimentamos.

Por isso, em certo sentido, nós observamos as categorias, isto é, as categorias são os fenômenos com que nosso intelecto trabalha. Nesse ponto, existem as categorias sensoriais, que podem ser correlacionadas aos sentidos, visão, paladar, olfato, tato e audição, com suas subdivisões em cores, formas, gostos, cheiros, superfícies, frequências, timbres etc, que decorrem das diferenças específicas dessas respectivas qualidades. Essas mesmas categorias são, simultaneamente, inteligentes, correspondentes às formas com que trabalhamos intelectualmente, diferenciando racionalmente tanto as sensações como as relações lógicas entre elas. Vale dizer que é possível, por meio das categorias racionais, entender como as categorias sensoriais podem ser enganosas, como podemos ser ludibriados por nossos sentidos.

Com razão, portanto, Aristóteles, ao usar os conceitos de matéria (hylé) e forma (morphe), porque mesmo nas questões sensoriais a forma está essencialmente presente, condicionando a correta compreensão do mundo, pelo que o paradigma hilomórfico, em que atuam os dois princípios interligados, matéria e forma, está presente na base da cognição.

Contudo, a mentalidade ocidental ainda sofre os efeitos das categorias cartesianas, que têm forte influência teológica, pela adoção de um dualismo platônico que foi incorporado em uma concepção do Cristianismo consolidada nos séculos IV e V, quanto ao significado da encarnação do Logos. Tal concepção entende que o Reino de Deus não é deste mundo e que houve a encarnação do Logos em Jesus, na medida em que este integra a trindade, a divindade triúna, havendo uma separação ontológica entre o mundo divino e o humano.

Na história posterior, um dos efeitos dessa posição teológica é o próprio dualismo cartesiano, de um lado, e a atual hiperfísica matemática, de outro, em que a realidade é transformada em estatísticas, probabilidades, incluindo outras dimensões e universos, que estão presentes apenas na mente dos respectivos cientistas, como ideia, como razão abstrata, sem necessária correspondência material.

Caso tal realidade seja efetivamente existente, ela se manifestará em algum momento na história científica, ou, encarnará no tempo e no espaço.

A encarnação, nesse ponto, é a categoria científica fundamental, a verificação da correspondência entre ideias e realidade, entre forma e matéria.

O conceito científico de encarnação está teologicamente narrada no quarto Evangelho, que descreve o Logos, o Verbo, como a mais elevada categoria existencial, associada a Deus, que é a categoria da unidade que estava no princípio e continua presente na criação, em todas as coisas, ainda que em certo sentido transcendente, pois além de todas as coisas, além dos corpos humanos, tendo esse Logos iniciado sua habitação na humanidade em Jesus, O Cristo, mas que já existia como conceito nos profetas do antigo testamento e mesmo na teoria platônica das ideias.

E o verbo fez-se carne e habitou entre (em) nós; e contemplamos a sua glória – glória enquanto [filho] unigênito do Pai, pleno de graça e de verdade” (Jo 1, 14).

Quanto à tradução do versículo transcrito, vale notar que: “no v. 14 de João, a expressão ‘entre nós’ é literalmente ‘em nós’ (em hêmîn)” (Novo Testamento: os quatro Evangelhos. Tradução e notas de Frederico Lourenço. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 324).

Portanto, sem descartar a divindade de Jesus, a ideia de encarnação do Logos pode levar a um novo entendimento de paradigma hilomórfico, dentro da concepção monoteísta de mundo, no sentido de que a encarnação do Logos ocorreu em nós, na humanidade, e não meramente entre nós, algo estranho que ocorreu no ambiente humano.

O texto bíblico está repleto de citações da presença de Deus na criação, um amplo hilomorfismo, valendo citar especialmente o Novo Testamento, pelos Atos e Epístolas atribuídas aos apóstolos Paulo e Pedro:

Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’. Ora, se nós somos de raça divina, não podemos pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, a uma escultura da arte e engenho humanos” (At 17, 27-29).

Outrossim, somos seres espirituais, e podemos nos mover segundo o Espírito, para sermos conscientemente da raça divina, da raça de Deus. Pela ciência nos movemos em campos quânticos e gravitacionais presentes em todo o cosmos, em que vivemos, nos movemos e existimos, cuja origem é transcendente, está além do espaço-tempo.

Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus? … e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos? Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).

Esta última passagem faz a clara união entre aspectos espirituais e corporais, mostrando a possibilidade de glorificar a Deus, uma ação do Espírito, no próprio corpo, para que este manifeste, como ocorreu com Jesus, a realidade divina, a unidade cósmica, presente dentro de nós.

Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, constitui-vos em um edifício espiritual, dedicai-vos a um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo” (1Pe 2, 5).

Pois que o seu divino poder nos deu todas as condições necessárias para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que nos chamou pela sua própria glória e virtude. Por elas nos foram dadas as preciosas e grandíssimas promessas, a fim de que assim vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de vos libertardes da corrupção que prevalece no mundo como resultado da concupiscência.” (Pe 1, 3-4).

O chamado para participação da natureza divina, outrossim, inclui o corpo, para o desenvolvimento da encarnação do Logos, iniciada em Jesus, entre nós, para nós e em nós, individual e coletivamente, também na sociedade, na política, para realização, encarnação, do Reino de Deus.

Portanto, não há espírito completamente destituído de corpo ou corpo totalmente sem ação espiritual, na medida em que todo corpo encarna algum princípio de movimento, algum espírito, e todo espírito, na medida em que concebido, exerce influência corporal, seja para sua efetiva realização, ou por meio de reação para impedir seu desenvolvimento, caso a respectiva ideia não seja sustentável, não seja coletivamente compartilhável.

Desta feita, é preciso superar as categorias cartesianas, transcendendo a individualidade dessas categorias, para termos acesso às coisas em si, que são as coisas no contexto da totalidade, da unidade, do Logos, ainda que parcialmente, para permitir que, no futuro, experimentemos essa totalidade face a face, como Reino de Deus, como Justiça (social), e como Ciência.

Fundamento da ciência moderna

O tema do fundamento da ciência moderna é da maior importância para a racionalidade do conhecimento, e os que não se deram conta dessa situação continuam presos à mentalidade científica do século XIX, quando as descobertas da física moderna ainda não tinham abalado completamente as bases intelectuais da civilização ocidental.

Volto, assim, a rememorar falas de grandes especialistas em suas áreas do conhecimento, apenas para reforçar a necessidade de se pensar a racionalidade, ou irracionalidade, das teorias científicas que suportam as nossas instituições, acadêmicas, políticas, jurídicas e religiosas.

Inicialmente, vale repetir o que já constou no artigo Cosmos e transcendência (https://holonomia.com/2019/07/12/cosmos-e-transcendencia/), referente à derrocada do dualismo cartesiano mente-corpo, o qual decorreu da ideia pela qual o universo extenso pode ser descrito em termos mecânicos, com leis que regulam o movimento da res extensa, ou matéria, no espaço.

Todo o resto fica relegado a res cogitans, ou substância pensante, que existe por si só como uma espécie de entidade espiritual. É digno de nota que a res cogitans surge a Descartes logo no início das suas meditações como a uniquíssima certeza imediata – o famoso cogito ergo sum –, ao passo que a existência do universo mecânico, âmbito externo à res cogitans, é alcançada só depois por meio de um argumento lógico construído sobre a ideia de Deus e Sua veracidade. É mesmo uma ironia assinalável que a premissa básica do materialismo moderno se tenha fundado sobre a teologia!” (Wolfgang Smith. Cosmos e transcendência: rompendo a barreira da crença cientificista p. 39).

Para mostrar o acerto da tese acima, alguém insuspeito pode ser citado, reconhecendo que a Ciência tem Deus como seu alicerce, inclusive confirmando uma ideia do artigo anterior, “O problema da dedução”, segundo a qual há necessidade de uma prévia indução em todo conhecimento científico, uma pressuposição inicial, ou fé, o que foi reconhecido por Nietzsche, no final de “Genealogia da moral”:

Não existe, a rigor, uma ciência ‘sem pressupostos’, o pensamento de uma tal ciência é impensável, paralógico: deve haver antes uma filosofia, uma ‘fé’, para que a ciência dela extraia uma direção, um sentido, um limite, um método, um direito à existência. (Quem entende o contrário, quem, por exemplo, se dispõe a colocar a filosofia ‘sobre base estritamente científica’, precisa antes colocar não só a filosofia, mas também a verdade de cabeça para baixo: a pior ofensa ao decoro que se poderia cometer com duas damas tão respeitáveis!) Sim, não há dúvida — e aqui deixo falar a minha Gaia ciência, cf. seu livro quinto, seção 344 — ‘o homem veraz, naquele ousado e derradeiro sentido que a fé na ciência pressupõe, afirma um outro mundo que não o da vida, da natureza e da história; e na medida em que afirma esse ‘outro mundo’, como? ele não deve assim negar o seu oposto, este mundo, nosso mundo?… É ainda uma fé metafísica, aquela sobre a qual repousa a nossa fé na ciência — e nós, homens do conhecimento de hoje, nós, ateus e antimetafísicos, também nós tiramos ainda nossa flama daquele fogo que uma fé milenar acendeu, aquela crença cristã, que era também de Platão, de que Deus é a verdade, de que a verdade é divina… Mas como, se precisamente isto se torna cada vez mais incrível, se nada mais se revela divino, exceto o erro, a cegueira, a mentira — se Deus mesmo se revela como nossa mais longa mentira?’ — Neste ponto é necessário parar e refletir longamente. A própria ciência requer doravante uma justificação (com isto não se quer dizer que exista uma tal justificação). Considere-se, quanto a isso, os mais antigos e os mais novos filósofos: em todos eles falta a consciência do quanto a vontade de verdade mesma requer primeiro uma justificação, nisto há uma lacuna em cada filosofia — por que isso? Porque o ideal ascético foi até agora senhor de toda filosofia, porque a verdade foi entronizada como Ser, como Deus, como instância suprema, porque a verdade não podia em absoluto ser um problema. Compreende-se este ‘podia’? — A partir do momento em que a fé no Deus do ideal ascético é negada, passa a existir um novo problema: o problema do valor da verdade. — A vontade de verdade requer uma crítica — com isso determinamos nossa tarefa —, o valor da verdade será experimentalmente posto em questão…” (Friedrich Nietzsche. Genealogia da moral. Terceira dissertação, capítulo 24, versão eletrônica).

O que Nietzsche não poderia prever é que a base materialista da Ciência, seja em relação ao átomo, seja em relação ao mecanicismo pós-cartesiano do século XIX, no qual a Física já não se pretendia metafísica, acabou por ruir, deixando a Física sem seus alicerces, que foram remetidos para uma esfera com algum nível de transcendência, para alguma forma de Metafísica, tornando impossível qualquer realização científica antimetafísica e ateia.

Isso nos leva, enfim, à conclusão aparentemente paradoxal de que a cosmovisão associada à mais exata das ciências está inçada de equívocos fundamentais. Segue fugindo ao entendimento convencional que a Weltanschauung pretensamente científica se baseia não em legítimas descobertas da ciência, mas em pressupostos filosóficos ocultos que se revelam em última análise autocontraditórios. Em nome da física, a civilização sucumbiu à fantasia” (Wolfgang Smith. Cosmos e transcendência: rompendo a barreira da crença cientificista, p. 57).

Como ressaltado no começo do artigo, o que Smith destaca é exatamente que “segue fugindo ao entendimento convencional que a Cosmovisão pretensamente científica se baseia não em legítimas descobertas da ciência, mas em pressupostos filosóficos ocultos que se revelam em última análise autocontraditórios”, sendo indispensável superar o pensamento cartesiano, para construção de uma nova Metafísica, que seja adequada à realidade. Daí o porquê da afirmação inicial: “os que não se deram conta dessa situação continuam presos à mentalidade científica do século XIX”, em que predominou a rejeição da Metafísica no âmbito científico.

Finalmente, pela autoridade intelectual do autor do texto, volto a transcrevê-lo:

Independentemente da decisão última, podemos mesmo afirmar agora que a resposta final (sobre a equação fundamental da matéria) estará mais próxima dos conceitos filosóficos expressos, por exemplo, no Timeu de Platão do que dos antigos materialistas. Tal fato não deve ser mal compreendido como um desejo de rejeitar de maneira muito leviana as ideias do moderno materialismo do século XIX, o qual, uma vez que pôde trabalhar com toda a ciência natural dos séculos XVII e XVIII, abarcou um conhecimento muito importante de que carecia a antiga filosofia natural. Não obstante, é inegável que as partículas elementares da física de hoje se ligam mais intimamente aos corpos platônicos do que aos átomos de Demócrito. (…) E, desde que a estrutura matemática é, em última análise, um conteúdo intelectual, poderemos afirmar, usando as palavras de Goethe no Fausto, ‘No princípio era a palavra’ – o logos. Conhecer este logos em todas as suas particularidades, e com total clareza em relação à estrutura fundamental da matéria, constitui a tarefa da física atômica de hoje e de seu aparelhamento infelizmente muitas vezes complicado” (Werner Heisenberg. In Problemas da Física Moderna, 3 ed., São Paulo: Perspectiva, 2011, pp. 26-27).

O Logos é um termo grego que foi traduzido como “palavra” por Goethe, o qual, entretanto, faz uma referência inequívoca ao quarto Evangelho, atribuído, tradicionalmente, a João: “No princípio era o logos (verbo, palavra, discurso, razão), e o logos estava com Deus, e Deus era o logos. Este no princípio estava com Deus. Todas as coisas existiram por ação dele e sem ele existiu nem uma só coisa que existiu” (Jo 1, 1-3). A rejeição da Metafísica e da Teologia são o possível motivo de Heisenberg não ter mencionado diretamente a Bíblia em seu escrito.

Em certo sentido, portanto, pelo entendimento de Heisenberg, pela parte final da passagem acima, conhecer o Logos, ou Deus, a inteligência que precede a matéria, e faz com que todas as coisas materiais existam, constitui a tarefa da física atômica de hoje, o que se aplica à Ciência, como um todo, mostrando que o argumento ateísta de Nietzsche está datado, superado, restando aos materialistas nada menos do que uma nova espécie de Metafísica, como uma nova religião na busca de seu deus, para tentar fundar o conhecimento científico.

O problema da dedução

O artigo teria originariamente o nome “O problema da indução”, quando me dei conta de que o verdadeiro problema não está na indução, mas na dedução, que já pressupõe a existência de uma lógica, uma unidade, que permita o desenvolvimento argumentativo. Há uma indução prévia, antecedente, em qualquer dedução, podendo-se inferir uma dependência necessária entre indução e dedução.

Essa questão é tão antiga quanto a filosofia, estando associada à ligação entre o uno e o múltiplo, que remete a Heráclito, ao sustentar que não é possível que uma pessoa entre duas vezes no mesmo rio. Portanto, do ponto de vista do eterno fluir, não existiria a possibilidade da indução, porque cada coisa ou evento seria único, impedindo a formulação de uma definição universal. Mas na indagação em si já existe a ideia pressuposta de que haveria a possibilidade de identificar, ou não, uma unidade subjetiva, da pessoa, e/ou objetiva, do rio.

Desse modo, a situação é muito mais complexa, porque o mero conhecer já implica uma totalidade ou unidade subjacente entre o conhecedor e o conhecido, ainda que não percebida pelo conhecedor, o que, pode-se dizer, é a regra.

O problema da indução é, desse modo, o problema filosófico primordial do retorno ao uno, ao todo, que é necessário e pressuposto em qualquer conhecimento com pretensão de racionalidade, com plena aplicação para a pesquisa científica. Esse é um tema tanto psicológico quanto físico, na medida em que partimos do uno, da unidade física e psíquica/espiritual, não percebida e inconsciente, respectivamente, para adquirir uma individualidade corporal e mental, por meio da qual experimentamos o mundo, com as coisas aparentemente separadas. O trabalho filosófico e científico, nesse sentido, é restabelecer a unidade, demonstrá-la, experimentá-la.

A dedução só é possível porque existe uma prévia indução, que está na manutenção ou continuidade das premissas, pois se as premissas não fossem unívocas, não fossem universais, se não houvesse nelas uma unidade definida, uma totalidade antecedente, a dedução não seria possível.

Essa unidade decorre do princípio filosófico fundamental, sem o qual veda-se a prática da própria filosofia, e da atividade científica, que é o princípio da não-contradição, válido para toda e qualquer forma de ciência, exigindo algum modo pelo qual os eventuais paradoxos sejam superados, através da postulação de uma unidade superior em que são dissolvidas as possíveis contradições. O princípio da não-contradição significa que a Filosofia é a disciplina científica fundamental, antecedendo as chamadas ciências da natureza, que inclui a Física, e até mesmo a Matemática, como exposto no artigo “Hierarquia das Ciências” (https://holonomia.com/2019/02/06/hierarquia-das-ciencias/).

Sem uma unidade universal não é possível o conhecimento, que é deduzido daquela universalidade, e por isso os pré-socráticos buscaram a unidade nos elementos da natureza, tendo os materialistas, a partir de Demócrito e Epicuro, sustentado a unidade baseada os átomos, enquanto Platão, por seu lado, defendia a unidade ideal, o mundo das ideias. Assim, o princípio da não-contradição decorria do postulado fundamental, dependendo da linha adotada: tudo é água; tudo é fogo; tudo é ar; tudo é terra; tudo é átomo; tudo é ideia. Em sendo tudo uma coisa só, afastada está a possibilidade de contradição.

Desta feita, a Filosofia tem como foco a unidade, baseia-se em uma indução pressuposta, que é exatamente aquela unidade que permite o desenvolvimento da lógica dedutiva. Toda dedução exige, pois, para sua possibilidade lógica, uma igualdade comparativa antecedente, isto é, uma indução posta ou pressuposta.

Todo conhecimento precisa de algo para servir como seu fundamento, sem o qual o próprio conhecimento não seria possível. É preciso existir um enunciado básico que possa ser desdobrado racionalmente, e essa possibilidade de desdobramento tem em si, como necessária, a manutenção de uma mesma racionalidade no desenvolvimento lógico dessa dobradiça, uma unidade intrínseca ou universalidade. Sem a pressuposição da universalidade, de algo que seja intercambiável com tudo mais, ou para o qual tudo possa convergir, servindo de parâmetro fundamental de comparação, permitindo a conversão ou tradução de conceitos, ideias, sensações etc., não haveria linguagem, comunicação ou ciência, não existiria dedução.

Se cada coisa, evento, sensação, ideia, se fenômenos em geral fossem total e absolutamente únicos o conhecimento seria impossível.

Por isso, toda ciência é baseada em uma dedução decorrente de uma prévia indução, uma indução permanentemente provisória, porque a indução definitiva depende da comunhão universal, da consciência individual coletiva da unidade física e psíquica/espiritual. A ciência se desenvolve pressupondo a unidade, pela indução permanentemente provisória, a partir da qual são buscadas as unidades individuais, de forma dedutiva, até que as individualidades básicas sejam determinadas, em termos materiais e conceituais, em todos os fenômenos possíveis, na multiplicidade absoluta, para, então, retornar, àquela indução, por meio da definição das leis universais, à unidade primordial, em que o uno e o múltiplo voltam a ser um só, confirmando a indução de partida e/ou reformulando-a, pela incorporação das informações obtidas, num processo cada vez mais complexo e sutil.

Pela dificuldade absurda de se alcançar a unidade primordial com seu significado inteligente, o que é uma questão Metafísica, a ciência passou a negar essa realidade e essa possibilidade, tachando-a de não-científica e passando a focar em apenas alguns de seus aspectos, aqueles formais que podem ser medidos de forma relativamente objetiva. O limite dessa empreitada é a relatividade, pela qual até a objetividade espaço-temporal passou a depender da posição do sujeito, de modo que a verdadeira objetividade incluiria uma unidade subjetiva, que não está presente na referida teoria, da qual o sujeito está excluído, tema este a ser deixado para outro texto.

O movimento científico se desenvolve, outrossim, em dois polos, o da igualdade e o da diferença, o primeiro estabelecendo a unidade indutiva que forma as bases para o aprofundamento do conhecimento das diferenças, até que seja necessário o restabelecimento da unidade, em uma nova perspectiva de totalidade, que é exatamente o momento pelo qual estamos passando, especialmente desde meados do século XX, ainda que isso faça parte permanente da atividade intelectual humana, como ocorreu com os pré-socráticos.

O lado psíquico/espiritual da indução se refere à sua permanência, que transcende ou está além da provisoriedade do fluir material, considerando que a unidade inteligente é constante e perpassa a variedade dos experimentos sensoriais provisórios. Sem a unidade espiritual antecedente não é possível a unidade subsequente, que ocorre a despeito da multiplicidade dos fenômenos únicos e individuais deduzidos daquela unidade, os quais se reúnem indutivamente para o restabelecimento daquela unidade por meio das leis universais, agora da perspectiva de uma multiplicidade, a qual é sempre crescente, em virtude da especialização do conhecimento, exigindo a permanente reformulação indutiva da unidade, cada vez mas ampla, e sempre retroagindo mais na escala temporal, com a intenção de alcançar a atemporalidade entre a unidade primordial e aquela atual e mais desenvolvida, o que é sustentado pela relatividade einsteniana apenas materialmente.

Em termos humanos, e para além da mera materialidade, esse é o significado mais profundo do Cristianismo, da expressão “eu e o Pai somos um”, o que nós devemos também buscar, conforme oração de Jesus em João 17, que pressupõe a correta teoria da unidade, incluída no Monoteísmo, e a prática ou ação individual segundo essa unidade, pelo que é chamado Espírito Santo.

Pode-se dizer, nesse ponto, que o pecado contra o Espírito Santo, que não será perdoado, é exatamente o pecado contra a unidade fundamental, pois sem essa unidade não há pertencimento, e a rejeição prévia a algum pertencimento impede a participação na comunhão, especialmente a comunhão com Deus, com o Logos, e, no caso da Ciência, com a lógica, com a razão, com a racionalidade. O pecado contra o Espírito Santo é o pecado contra a unidade, e se a pessoa não aceitar a unidade não poderá dela participar, e por isso o pecado contra o Espírito não é perdoado, porque a persistência nesse pecado impede, enquanto durar a situação de pecado, a comunhão com Deus.

No âmbito científico, do mesmo modo, somente é possível falar em Ciência caso seja aceita alguma forma de racionalidade, e quanto maiores a racionalidade, a integridade e a coerência do pensamento científico, maior sua unidade e aproximação com o Logos.

Na Filosofia da Ciência, a testabilidade ou verificabilicade de Popper exige algo que possa testar ou verificar, que é a unidade decorrente da indução permanentemente provisória, pois sem uma régua básica a verificação ou teste não poderia ocorrer. Todavia, Popper não trabalha com essa hipótese.

De fato, se existisse algo assim como um princípio puramente lógico da indução, não haveria problema de indução, pois, em tal caso, todas as inferências indutivas teriam de ser encaradas como transformações puramente lógicas ou tautológicas, exatamente como as inferências no campo da Lógica Dedutiva” (Karl Raimund Popper. A lógica da pesquisa científica. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 2013, p. 28).

Portanto, existe o princípio puramente lógico da indução, que é o princípio da não contradição, exigindo que as inferências indutivas, na atividade científica, sejam, em algum aspecto, sempre circulares, ou tautológicas, o que vale das equações matemáticas, que suportam os cálculos físicos, ainda que estes sejam completados por meio de constantes, exatamente para a manutenção da lógica pretendida, até o chamado círculo hermenêutico, que somente se completa como círculo efetivo na atividade mental Cristã, na unidade do Logos, conclusão à qual Heidegger não conseguiu chegar, e por isso não concluiu sua obra filosófica, por faltar Cristo em seu projeto filosófico, como unidade essencial, que transcende o corpo e a morte, como a categoria fundamental do conhecimento.

A atividade científica, outrossim, somente é possível pelo Caminho, ou Método, que é Cristo, que fez de si o instrumento lógico pelo qual o Logos pôde se realizar e encarnar na humanidade, tornando real a unidade cósmica da qual depende toda e qualquer dedução, enfim, que condiciona racionalmente a mínima empreitada científica.

A humanidade nas crises da adolescência e da meia idade

Já estava finalizando um artigo sobre o problema da indução, cuja ideia surgiu pelo início da leitura de “A lógica da pesquisa científica”, de Karl Popper, quando, ao passar por um trecho de “A secular age” (Uma era secular), de Charles Taylor, outra proposta de texto surgiu, pelo que o tema da filosofia da ciência ficará para outra oportunidade.

Volto, então, de certa forma, a um assunto já abordado no artigo “Ciência x tecnologia” (https://holonomia.com/2017/11/28/ciencia-x-tecnologia/), em que foi proposta a reformulação da divisão tradicional da História, feita em cinco Idades: Pré-história, Antiga, Média, Moderna e Contemporânea; dando-lhe nova significação:

a Idade Antiga deve ter como marco final o tempo do nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, eventos que, conforme exposto no artigo ‘Macroevolução e microevolução’, definem o surgimento da nova humanidade, do homem novo, ligado a Deus, ao Logos, à Plena Unidade Cósmica.

Como continuamos a viver os efeitos da Vida de Jesus, na medida em (que) sua mensagem não foi colocada em prática pela humanidade, no mundo social, no plano político mundial, pode-se considerar que estamos na Idade Média, porque ainda vivemos um período intermediário na história da civilização, entre a proclamação da Boa Nova por Jesus Cristo e sua realização coletiva na era messiânica, entre a revelação do conceito de humanidade e sua efetivação na vida humana.

A Idade Média, assim como as demais, pode ser dividida em períodos internos, em sub-idades, notadamente em dois mais relevantes, a primeira Idade Média, em que prevaleceu uma concepção espiritual de mundo, com predomínio do controle religioso das comunidades, e a segunda Idade Média, iniciada no tempo que é chamado de Revolução Científica, quando o controle material da vida passou a preponderar”.

Fazendo comparação com a vida de um indivíduo, a humanidade passou pela crise da adolescência ao começar um rompimento com a visão espiritual de mundo, sob o domínio de uma religiosidade parcialmente Cristã e parcialmente pagã, iniciando o caminho para a vida adulta, na busca da independência, como um adolescente, desvinculando-se dos valores recebidos pelas autoridades constituídas, pelos pais ou ancestrais, chegando, então, após a exploração do mundo sem as amarras ou limites adquiridos na infância, ao momento atual, da crise da meia idade, quando se abre à frente o futuro, com as opções a serem seguidas: continuar com a destruição dos valores originais; ou restaurá-los, reintegrando-os, sob uma nova e aprimorada perspectiva, aos conhecimentos adquiridos no curso da vida.

Os últimos cem anos também concentram essa passagem histórica, desde a quebra dos valores tradicionais pela rebeldia dos anos 60, agora posta em xeque, pela ascensão de um movimento conservador. Vale dizer que muitos dos que passaram pelo mergulho das ideias surgidas nos anos 60, pelo batismo materialista, especialmente para os seus líderes, com vivência radical nessa proposta de vida, não chegaram aos tempos atuais, por terem morrido de overdose ou AIDS, por exemplo. De igual modo não se sustentava a absoluta hierarquia meramente formal que existia na sociedade, em que os relacionamentos familiares pecavam pela falta de intimidade entre pais e filhos, o que também se aplicava ao âmbito social, sem uma plena meritocracia, sendo necessário encontrar um meio-termo entre a hierarquia e a igualdade, porque uma sociedade apenas formal não possui vida plena e aquela na qual não há a devida ordenação é insustentável.

Como bem exposto por Charles Taylor, cujo livro se propõe a responder como o Ocidente transitou de um momento, em 1500, quando era inadmissível não crer em Deus, para o tempo atual, do ano 2000, em que o ateísmo é uma opção social e intelectualmente aceita. Interessante é o caminho de uma simbologia mental tratada pelo autor, pelo qual passou parte da humanidade, com foco em suas elites, de um pensamento teísta para o ateísta, mediado pelo deísmo como mentalidade de passagem, intermediária, entre uma cosmovisão e outra. Os pensamentos se deslocaram, nesse sentido, de uma elite, inicialmente, de onde se originaram, para uma massa cada vez maior da população.

Isso vale especialmente para a geração dos últimos cem anos, que começou com a mesma crença dos pais, na religiosidade Cristã, passando por um momento intermediário de tolerância cada vez maior com o pensamento diferente, até os dias atuais em que temas como aborto e as questões dos GLS (LGBT) são a última modernidade social, a ideia de uma minoria que busca se impor, e vem ganhando força, com o objetivo cada vez menos oculto de destruir completamente os valores tradicionais da família e seu sentido de vida mais profundo, até o ponto de condenar e tentar criminalizar o pensamento tradicional e conservador.

As opções a serem seguidas, neste momento de crise da meia idade da humanidade, são, portanto, a restauração de uma mentalidade Cristã, com seu aprimoramento, o que inclui o tema da ordem pública, e seu conceito mais sutil, bem como os crimes que a violam, e a questão social; ou persistir em tentar romper definitivamente com essa visão tachada de irracional e obscurantista, às vezes talibã, em direção à radicalidade materialista e ateia.

A mudança, em um sentido ou outro, começa sempre, ainda que sob alguma influência social, no plano individual, cujo comportamento passa a ser replicado, por sua capacidade de convencimento, até assumir contornos de norma social. Nesse ponto, é importante destacar que o indivíduo tem a sua equação pessoal, de natureza psíquico-espiritual-científica, como medida pela qual pauta sua vida em todos os aspectos, de cada comportamento mais simples até os temas de maior relevância existencial. A equação pessoal é formada a partir dos conhecimentos e experiências da pessoa, por influência de ideias já existentes, e em formulação, e de alguns líderes, que são exemplos de comportamento e coerência, em um ou mais aspectos da vida, até o desenvolvimento da equação própria, como uma ideia geral de vida e do mundo, ainda que não plenamente formulada em termos teóricos ou sistemáticos.

O mundo ocidental recente foi marcado por várias equações pessoais, podendo serem citados como destaques as de Jung e Freud, especialmente pelos seus entendimentos acerca da religião, diante da relevância fundamental do fenômeno psicológico, o primeiro entendendo o fenômeno religioso como parte natural e necessária da atividade psíquica humana, enquanto o segundo a entedia como uma neurose universal e uma ilusão.

A crise da meia idade, segundo Jung, provoca na pessoa a necessidade de enfrentar o tema da religião e da morte, sobre o sentido da vida, ou sua ausência, para o desenvolvimento do processo de individuação, de maturação e evolução definitiva da personalidade, incluindo os componentes espirituais da realidade, e por isso entendo acertada a postura perante o mundo, sua medida individual conectando o mundo à sua pessoa, com as ideias respectivas, porque consentânea com a coerência da realidade histórica e científica conhecida.

Enquanto humanidade, certamente sairemos dessa crise.

Penso que a opção materialista, na linha de Freud e seus correligionários ateus, se fosse adotada, levaria à realização de uma distopia, já vivida parcialmente pelos mortos-vivos e zumbis que povoam o cenário cultural, em parte das classes artística, política e intelectual, e mesmo da população em geral.

Como Cristão, contudo, com tudo incluído, não tenho dúvida sobre qual será a ideia da realidade futura, porque, de fato, não há opção, considerando que somente existe uma racionalidade, verdade, uma ordem, uma natureza, um Logos. Segundo a frase atribuída a Francis Bacon: “Só se pode vencer a natureza obedecendo-lhe”.

Assim, apenas pela obediência, e seguindo os bons exemplos, é possível superar, com sucesso, as crises da adolescência e da meia idade, para encontrar o lugar adequado na ordem do mundo.

É importante salientar que os melhores exemplos de Cristãos não são os homens casados pela segunda ou terceira vez, com mulheres mais jovens, principalmente quando as (ex-)esposas ainda estão vivas, ou os que gostam de armas e não têm moderação no falar.

E citado o exemplo Cristão, melhor não há do que o de Jesus mesmo, o Cristo Senhor, que é o próprio caminho para transcender a crise do mundo, ao encarnar na vida a ordem universal, o Logos, que é o método científico. Fiquemos, pois, com seu consolo, nesse tempo de tribulação, que se prolonga desde que sua mensagem começou a mudar o mundo, cujos poderes insistem em continuar em atividade, até o tempo presente:

Mas eu não estou só, porque o Pai está comigo. Eu vos disse tais coisas para terdes paz em mim. No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16, 32-33).

República religiosa

A república é, por natureza, religiosa. Conceitualmente, a república pressupõe a existência de uma coisa pública, ligada ou pertencente à população respectiva, pelo que ocorre uma conexão espiritual entre os cidadãos, uma espécie de vínculo ideal ou imaterial que os une para formar a república.

Por mais que os ateus e os praticantes das demais religiões possam não aceitar e tentar contestar ou até mesmo mudar esse fato, empreitada em que vêm, apenas por enquanto, conseguindo um sucesso relativo e provisório, o Brasil é uma República de Cristo, é uma República Cristã, em termos históricos, científicos e jurídicos, e essa é uma Verdade contra a qual não se pode lutar, contra a qual a guerra não será vencida.

A comunidade brasileira é fundada no resultado do desenvolvimento milenar dos valores cristãos, fazendo dos brasileiros correligionários, pois os verdadeiros cidadãos da República Federativa do Brasil, sem a deturpação conceitual que vem sendo praticada nos últimos anos, são defensores de um mesmo pensamento, que tem como fonte de verdade a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, promulgada sob a proteção de Deus, para a construção de uma sociedade fraterna, isto é, tecnicamente, para que todos sejamos irmãos em Cristo, porque Deus é nosso Pai, verdade essa decorrente do Evangelho.

Portanto, somos irmãos em uma sociedade comunitária que é fundada sobre os valores cristãos, referentes ao exercício dos direitos sociais e individuais, à liberdade, à segurança, ao bem-estar, ao desenvolvimento, à igualdade e à justiça.

Assim como a espiritualidade cristã somente é exercida plenamente na comunidade, o mesmo vale para a cidadania, como uma situação jurídica que qualifica o membro da comunidade política como sujeito de direitos e deveres, e que, portanto, pressupõe tanto uma ideia de direitos e deveres, com o respectivo espírito ou significado, sua teoria ou doutrina, como sua realização, que ocorre na vida com o outro.

Segundo Alister McGrath, citado por Cacau Marques, professor da Teológica Batista de Campinas, na aula “Definindo a Espiritualidade Cristã Protestante”, disponibilizada no curso “Teologia Descomplicada”, produzido pelo sítio https://doisdedosdeteologia.com/ e canal do YouTube Dois Dedos de Teologia, coordenado por Yago Martins, Pastor da Igreja Batista, há três elementos principais no Cristianismo: 1) um conjunto de crenças, a despeito das diferenças entre os vários grupos cristãos; 02) um conjunto de valores, ligados à redenção, esta resultante da ação de Jesus Cristo; 3) um modo de vida, pelo qual os valores são aplicados na vida real das pessoas dessa religião.

Tais elementos se aplicam perfeitamente à República Federativa do Brasil, que possui um grupo de crenças, ditadas pelo artigo primeiro da Constituição, na forma de seus fundamentos, que nada mais são do que pressupostos imateriais, pontos não disputados, aceitos, numa espécie de fé, ou crença: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o pluralismo político.

A dignidade humana é a crença fundamental de nossa República, é algo que deve ser aceito como dado, e que não se pode questionar, sendo inserido no conceito de cláusula pétrea, previsto no art. 60, §4.º, da Constituição, que equivale ao dogma religioso fundamental da nossa religião republicana.

Os valores já foram citados, e constam essencialmente no preâmbulo da Carta, os quais condicionam a produção legislativa e a interpretação do Direito brasileiro como um todo. Estão ligados à redenção, à elevação da comunidade, que diz respeito à consecução dos objetivos republicanos, fazendo da República uma religião teleológica, que tem um fim a ser alcançado, associado a uma espécie de ideia de salvação de todos: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

O modo de vida, igualmente, se refere ao exercício da cidadania, da prática dos valores na vida em sociedade, tanto no aspecto público propriamente dito, como na vida privada dos cidadãos, uma vez que não se considera efetivamente cidadão aquele que subverte em sua vida privada ou familiar os valores públicos ditados pela Constituição.

A grande dúvida, então, que surge é sobre a existência de uma esfera realmente privada na vida republicana, haja vista que os valores constitucionais irradiam para todos os setores da vida comunitária. Este ponto merece ser desenvolvido em outra oportunidade, pela complexidade filosófica e científica da matéria.

Tomemos, de todo modo, por ora, a título de exemplo, a vida sexual e sua simbologia, que se refere a uma questão pública e, ao mesmo tempo, extremamente privada, da maior intimidade das pessoas, e é objeto da ação normativa do Estado.

Não é por acaso que o conflito Crivela x Bienal tomou conta da discussão pública no último final de semana, com destaque para a impressionante deturpação da decisão proferida pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro – TJRJ (http://www.tjrj.jus.br/web/guest/noticias/noticia/-/visualizar-conteudo/5111210/6669228), indevidamente classificada como “censura” pelos meios de comunicação.

Como constou na nota de esclarecimento do autor da decisão, encontrada no link acima: “Jamais fiz ‘censura’ alguma. Censura ocorreria se eu houvesse proibido a publicação ou circulação da obra em questão.”

Vale ressaltar que a decisão em questão, a do presidente do TJRJ, o que não se pode dizer daquelas proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, a decisão do presidente do TJRJ foi a que tratou do tema na forma técnica devida, dizendo que no pedido da prefeitura era informado que “se comercializava livremente, sem qualquer proteção, esclarecimento ou embalagem apropriada, publicação destinada ao público infanto-juvenil contendo material impróprio e inadequado ao manuseio por crianças e adolescentes, sem os cuidados previstos nos artigos 78 e 79 do ECA”, normas transcritas na fundamentação:

A leitura dos dispositivos é esclarecedora:

Art. 78. As revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes deverão ser comercializadas em embalagem lacrada, com a advertência de seu conteúdo.

Parágrafo único. As editoras cuidarão para que as capas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas sejam protegidas com embalagem opaca.

Art. 79. As revistas e publicações destinadas ao público infanto-juvenil não poderão conter ilustrações, fotografias, legendas, crônicas ou anúncios de bebidas alcoólicas, tabaco, armas e munições, e deverão respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família.”

E segue a motivação da decisão:

Vê-se que o legislador não proíbe, de forma absoluta, a circulação de material impróprio ou inadequado para crianças e adolescentes, mas tão somente exige comprometimento com o dever de advertência, para além de dificultar acesso ao seu interior, por meio do lacre da embalagem (art. 78). Posteriormente, ao tratar, especificamente, de publicações voltadas para o público protegido pelo Estatuto, que constitui coletividade vulnerável, repele qualquer conteúdo afrontoso a valores éticos, morais ou agressivos à pessoa ou à família.

É inegável que os relacionamentos homoafetivos vem recebendo amparo pela jurisprudência pátria, notadamente dos tribunais de cúpula, o que corroboraria o afastamento da vedação do art. 79, ao menos em parte.

Contudo, também se afigura algo evidente, neste juízo abreviado de cognição, que o conteúdo objeto da demanda mandamental, não sendo corriqueiro e não se encontrando no campo semântico e temático próprio da publicação (livro de quadrinhos de super-heróis que desperta notório interesse em enorme parcela das crianças e jovens, sem relação direta ou esperada com matérias atinentes à sexualidade), desperta a obrigação qualificada de advertência, nos moldes pretendidos pelo legislador.

Nesse sentido, a notificação realizada pela Administração Municipal visou, a priori, o interesse público, em especial a proteção da criança e do adolescente, no exercício do poder-dever de fiscalização e impedimento ao comércio de material inadequado, potencialmente indutor e possivelmente nocivo à criança e ao adolescente, sem a necessária advertência ao possível leitor ou à família diretamente responsável.

Não houve impedimento ou embaraço à liberdade de expressão, porquanto, em se tratando de obra de super-heróis, atrativa ao público infanto-juvenil, que aborda o tema da homossexualidade, é mister que os pais sejam devidamente alertados, com a finalidade de acessarem previamente informações a respeito do teor das publicações disponíveis no livre comércio, antes de decidirem se aquele texto se adéqua ou não à sua visão de como educar seus filhos.”

Pode-se notar, portanto, que não houve censura, apenas se exigiu o respeito aos “valores éticos e sociais da pessoa e da família”, em total conformidade com contexto no qual promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e editado o Estatuto da Criança e do Adolescente, para determinar que fosse feita devida advertência sobre a existência de “material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes” nas publicações.

Qualquer Cristão, ou qualquer brasileiro formado sobre os valores constitucionais, sem a sua deturpação causada por julgamentos proferidos pelo Supremo Tribunal Federal, que subverteram a ordem constitucional impondo à população uma religião materialista, pode entender como razoável que o tema da homossexualidade pode conter “conteúdo afrontoso a valores éticos, morais ou agressivos à pessoa ou à família”, pois para os valores que formaram a Constituição o “relacionamento homoafetivo” deve perfeitamente ser definido como “material inadequado, potencialmente indutor e possivelmente nocivo à criança e ao adolescente”.

Todavia, à República tem sido imposta a religiosidade materialista, como exposto, substituindo a religião pautada em valores espirituais por uma religião hedonista, em que os valores corporais e individuais têm recebido contornos quase absolutos.

A mesma linha adotada pelo Supremo permite prever, na progressão dessa religiosidade materialista, uma “evolução jurisprudencial” para modernização da moralidade pública ainda mais em direção ao hedonismo, por exemplo, com declaração de inconstitucionalidade, por violação à dignidade humana, numa completa e ainda mais odiosa subversão desse conceito, do limite etário para as práticas sexuais “consensuais”, “heterohomotranssexuais”, de modo que até os bebês poderão, com o consentimento dos pais, ou com os próprios pais, fazer o que quiserem em nível sexual ou libidinoso. Sobre o tema, remeto o leitor ao artigo “Humanidade x bestialidade: abuso sexual” (https://holonomia.com/2018/05/16/humanidade-x-bestialidade-abuso-sexual/)

Para um Cristão, tal hipótese é absurda, como o era, até bem pouco tempo, falar em “casamento homossexual”, mas como a religiosidade pretensamente oficial da República, hoje dominante, está subvertida, que, na realidade, significa um mero individualismo elevado à sacralidade, na religião hedonista da pretensa elite intelectual e jurídica, em que não há diferença ontológica ou qualitativa entre homossexualismo e pedofilia, por serem meras questões de gosto ou opção sexual, é possível esperar tudo desses falsos profetas que ocupam atualmente o sinédrio republicano.

Explosão moral e a chamada ira de Deus

No artigo anterior foi abordada a realidade física e energética da moralidade, tendo sido sustentada a existência de uma espécie de curvatura moral positiva no universo, porque “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1, 31). Em razão disso, o mundo físico é moralmente bom, havendo harmonia, beleza e bondade no universo criado, na criação, em tudo o que existe, de modo que o universo não é moralmente neutro, reage moralmente aos comportamentos morais, havendo uma ontologia ética.

Contudo, para o cético e para aquele que não seja otimista, pode vir à mente a indagação sobre o motivo de haver tanta maldade no mundo, sobre a aparente vantagem do injusto sobre o justo. Pode-se, ainda, perguntar a causa de, aparentemente, apenas palavras e pensamentos hedonistas terem maior repercussão social, ou a razão pela qual as boas vibrações emitidas se dissiparem pelo cosmos ou, quando isso não ocorre, seu retorno ser fraco ou fugaz, desaparecendo em seguida.

A resposta a essas perguntas exige a devida atenção para correta perspectiva filosófica e teológica decorrente do Cristianismo, que demanda seja o mundo observado segundo a lente da imortalidade, da eternidade, e não por um olhar meramente provisório ou mortal, como já abordado no artigo “O problema do mal” (https://holonomia.com/2017/06/14/o-problema-do-mal/). Esse ponto é essencial, entender que a Providência divina tem como objeto a continuidade existencial de todas as vidas, zelando não apenas por cada um de seus filhos, individualmente, como também de todos, coletivamente, pois Deus “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4).

Haverá, assim, uma prestação contas de todas as nossas ações, um julgamento, pois em caso contrário haveria crime perfeito, injustiças definitivas, o que afronta o pressuposto segundo o qual “tudo o que foi feito é muito bom”.

Eu vos digo que de toda palavra inútil, que os homens disserem, darão contas no Dia do Julgamento. Pois por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado” (Mt 12, 36-37).

Outrossim, diante da bondade natural do mundo, o que explica a situação atual de descontrole da nossa civilização é o fato de ainda prevalecer o pecado no mundo, notadamente no plano político, como explicado no artigo “Pecado original” (https://holonomia.com/2017/11/09/pecado-original/), na medida em que a ação governamental ainda não se rendeu ao Messias, apesar de o Direito assim o determinar, ainda não se submeteu ao governo inaugurado por Cristo. A transição começada com o reinado de Jesus sobre Israel, que não o aceitou como seu Messias, ainda está em curso, o processo para expurgar o mal que o egoísmo humano propagou no ambiente social está em vias de se acelerar. Seu ensinamento sobre como se deve governar as nações não é exercitado na gestão da coisa pública, da República, mas essa exigência vem tomando a consciência pública cada vez mais.

Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”(Mc 10, 42-45).

Assim, a injustiça se acumula, e o povo acaba a tolerando por algum tempo, até que irrompa uma revolta, uma revolução, que é uma explosão moral que libera a energia acumulada pelos injustiçados ao longo do tempo, em direção à realização do Reino, o que vale para a Revolução Gloriosa, a Revolução Francesa, a Independência Norte-Americana, a Primavera Árabe, e também explica, até certo ponto, à ascensão de ideias “de direita” no mundo ocidental.

O fato é que estamos na fase final de uma mudança de era, inaugurada por Cristo, que estabeleceu as medidas do Reino de Deus, mas até que Este seja efetivado seus inimigos continuarão a agir com força, enganando a humanidade, e atrapalhando os que querem exercer a bondade. Como consta na Escritura:

nos últimos dias sobrevirão momentos difíceis. Os homens serão egoístas, gananciosos, jactanciosos, soberbos, blasfemos, rebeldes com os pais, ingratos, iníquos, sem afeto, implacáveis, mentirosos, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres do que de Deus” (2Tm 3, 1-4).

O livro da Revelação explica o domínio político do mal sobre o planeta, dizendo que “a terra inteira seguiu a Besta e adorou o Dragão” (Ap 13, 3-4), e comprovando que a questão narrada é também, e principalmente, política, afirmando a Escritura que lhe foi “dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação” (Ap 13, 7). Desta feita, a Besta tem controle sobre “a terra e seus habitantes” (Ap 13, 12), exercendo ampla influência sobre a economia mundial, “para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca” (Ap 13, 17). “Vi então a Besta reunida com os reis da terra e seus exércitos para guerrear contra o Cavaleiro e seu exército” (Ap 19, 19). A ação maldosa irá até seu limite, quando se manifestará a ira de Deus, que significa a reação divina contra a maldade acumulada, que tem represado o desenvolvimento da bondade na humanidade, especialmente pelos maus exemplos dados pelos líderes político-religiosos.

Sucederá naquele dia, em que Gog vier contra a terra de Israel, — oráculo do Senhor Iahweh — que a minha cólera transbordará. Na minha ira, no meu ciúme, no ardor da minha indignação eu o digo. Com efeito, naquele dia haverá um grande tumulto na terra de Israel” (Ez 38, 18-19).

É de ser ressaltado um ponto importantíssimo, especulado pela tentativa da Física moderna de obter uma teoria unificada de todos os fenômenos, que reside no fato de haver uma interconexão entre todas as realidades, visíveis e invisíveis, que permite a conversão de partículas morais, ou morões, em energia física, que movimenta o mundo material, uma ideia que parece absurda à mente moderna secular, mas que está na raiz do Monoteísmo. Daí porque, em que pese a energia moral ser de baixíssima detecção física, o seu acúmulo pode acarretar uma descarga, uma explosão moral, o que explica o conceito de ira de Deus contido no Antigo Testamento, que a humanidade recente não percebeu no plano coletivo, mas que certamente muitas pessoas já presenciaram em eventos individuais inexplicáveis, quando há uma tensão moral decorrente de algum conflito entre pessoas, ou pela energia especial de algum indivíduo, que acarreta alteração física em equipamentos elétrico e eletrônicos.

Sobre a interferência humana sobre máquinas, questão também não explicada pela atual tecnologia científica:

Jahn e Dunne pensam que seus achados podem explicar a propensão que alguns indivíduos parecem ter de trazer má sorte à maquinaria e fazer o equipamento funcionar mal. Um desses indivíduos foi o físico Wolfgang Pauli, cujos talentos nesta área são tão lendários que os físicos apelidaram jocosamente de ‘efeito Pauli’. Diz-se que a simples presença de Pauli num laboratório faria um aparelho de vidro explodir, ou um sensível aparelho de medição quebrar ao meio” (Michel Talbot. O universo holográfico. Trad. Maria de Fátima S. M. Marques. São Paulo: Editora Best Seller, p. 158)

Se uma pessoa tem a capacidade de causar tais efeitos físicos, no plano coletivo, envolvendo preservação da própria humanidade, e seu destino, a situação será mais dramática:

Castigá-lo-ei com a peste e o sangue; farei chover uma chuva torrencial, saraiva, fogo e enxofre sobre ele e as suas tropas e os muitos povos que vierem com ele. Eu me engrandecerei, me santificarei e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações e elas saberão que eu sou Iahweh” (Ez 38, 22-23).

Existem vários fenômenos como esse, narrados da Bíblia, associados ao Dia do Senhor, que representa o momento da virada, quando não haverá alternativa à humanidade senão aceitar a Verdade do Evangelho, e seguir os mandamentos de Deus, conforme o exemplo, método ou Caminho, de Jesus, o Cristo Senhor, o Messias, o Mediador entre Deus e a humanidade.

Tal evento será definitivo para os crentes, devastador para os céticos, e somente os irremediavelmente céticos, e de coração duro, não aceitarão a realidade espiritual por trás desse fenômeno, que será taxado como uma grandíssima coincidência.

A partir de então, a despeito da posição dos poucos que continuarão em sua persistência ateia, a bondade do mundo não mais será contida, os bons florescerão, pelo Espírito, no que é chamado de era messiânica, no Reinado de Cristo, quando será visível que “tudo o que foi feito é muito bom”, e a própria natureza contribuirá para o florescimento da vida humana.

A justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade, o cinto dos seus rins. Então o lobo morará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito. O bezerro, o leãozinho e o gordo novilho andarão juntos e um menino pequeno os guiará. A vaca e o urso pastarão juntos, juntas se deitarão as suas crias. O leão se alimentará de forragem como o boi. A criança de peito poderá brincar junto à cova da áspide, a criança pequena porá a mão na cova da víbora. Ninguém fará o mal nem destruição nenhuma em todo o meu santo monte, porque a terra ficará cheia do conhecimento de Iahweh, como as águas enchem o mar” (Is 11, 5-9).

Radiação moral

Em “Justiça para Ouriços”, Ronald Dworkin aborda a questão sobre a veracidade de juízos morais, fazendo uma comparação com o mundo físico, ao sustentar que este “determina se as nossas opiniões são realmente verdadeiras ou falsas”, de modo que “as afirmações sobre o mundo físico tornam-se verdadeiras graças ao estado real do mundo físico – os seus continentes, quarks e disposições” (Ronald Dworkin. Justiça para ouriços. Tradução de Pedro Elói Duarte. Coimbra: Almedina, 2012, p. 40). De outro lado, afirma o autor que não se pode dizer que existem fatos morais: “A perspectiva comum insiste que os juízos morais não se tornam verdadeiros por causa dos acontecimentos históricos, das opiniões ou emoções das pessoas, ou de qualquer coisa no mundo físico ou mental” (Idem, pp. 40-41).

Dworkin, assim, adota uma posição cética em relação aos juízos morais, dizendo que não existem partículas morais, ou morões, chegando a definir o que sejam os céticos: “qualquer pessoa que negue que os juízos morais possam ser objetivamente verdadeiros – ou seja, verdadeiros não em virtude das atitudes ou crenças que alguém tenha, mas independentemente de qualquer uma dessas atitudes ou crenças” (Idem, p. 41).

Em certo sentido, pode-se dizer que Dworkin está correto ao dizer que não se pode falar em juízos morais verdadeiros independentemente de quaisquer atitudes ou crenças das pessoas perante o mundo, uma vez que a moralidade está inserida numa perspectiva inteligente do mundo, que pressupõe as atitudes e crenças das pessoas, envolve a existência de consciência, a racionalidade comportamental do indivíduo e a possibilidade de adoção de uma ou outra ação perante os fatos da vida. Fatos são fatos dentro de um contexto, que os significa, sendo, portanto, necessária inteligência para a constatação dos fatos.

Por isso, a rigor, não é muito adequado falar em moralidade no comportamento dos animais, destituídos de crenças, e cujos comportamentos são predominantemente dominados pela ação instintiva, de contexto limitadíssimo, sem que isso negue a possibilidade de algum aprendizado no mundo animal. Ainda assim, como o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, é dotado de poder criador que permite transmitir alguma inteligência aos animais, fazendo com que tenham comportamentos quase humanos, de um lado, quando sob a influência de um espírito santo; ou bestiais, de outro, quando a influência é de um espírito impuro, diabólico; tudo em decorrência de influência humana.

Contudo, em contrapartida, o entendimento de Dworkin sobre o que seja o mundo físico certamente não é uma unanimidade entre os próprios físicos, haja vista a divergência sobre a interpretação do mundo quântico, havendo a visão predominante de Copenhague, a proposta de Everett de que a observação cria a realidade e, assim, muitos mundos, ou multiverso, além da proposta realista de David Bohm, dentre outras.

A depender da posição filosófica, portanto, que implica a adoção de um postulado ou axioma fundamental segundo o qual o mundo físico é analisado, as afirmações sobre a realidade podem variar, pelo que falar em “estado real do mundo físico” é, de início, controverso, segundo a própria ciência física.

Por isso, é importante, em qualquer discussão científica ou filosófica, de plano, a determinação do ponto de partida, do postulado, ou axioma, da linha teórica que servirá de base para a argumentação subsequente, para que se permita o controle da coerência discursiva, que é o mínimo que se exige de uma proposta com pretensões científicas, como condição antecedente até mesmo para a possibilidade de experimentação empírica.

Desta feita, é mister deixar claro que adoto uma postura realista de mundo, entendendo haver uma realidade física subjacente, um contexto adequado e verdadeiro, uma objetividade na realidade que tem validade para todos os sujeitos, uma racionalidade que pode ser alcançada por qualquer um, independentemente da posição do observador, o que se aplica inclusive para as questões morais. Assim, sustento que existem fatos físicos, como também há fatos morais, podendo-se falar, consequentemente, em certo sentido, em partículas morais, ou morões, uma leitura que julgo coerente tanto com a física moderna quanto com os ensinamentos bíblicos, com o Cristianismo.

Vale dizer, nessa linha argumentativa, que nunca antes na história de nossa espécie o Cristianismo teve tanta sustentação científica, somente não chegando a essa conclusão aqueles que não querem enxergar a realidade. Tomemos como exemplo a seguinte passagem da Escritura:

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Para fins didáticos, diante da dificuldade da definição do que seja espírito, o que também vale para a ideia de energia, podemos equipar as respectivas noções, na conversão de conceitos religiosos e científicos, para entender simbolicamente que espírito é energia, e vice-versa, na medida em que o Espírito move o corpo e a energia tem relação com potencialidade do movimento.

Feita essa consideração, inicialmente, podemos citar a famosa equação de Einstein, E=mc², equiparando energia e matéria, pela conversibilidade entre elas, indicando, assim, desde já, a ideia de unidade entre corpo e espírito.

A unidade do corpo também pode ser encontrada no resultado da relatividade geral, relativa à curvatura do espaço-tempo, recentemente comprovada pela descoberta das ondas gravitacionais, demonstrando uma conexão material sutil entre todos os corpos, que entendemos como separados, pois integram o que pode ser chamado de um único tecido espaço-temporal. As ondas gravitacionais indicam que todo movimento corporal altera o material cósmico, mudando a tecitura do espaço-tempo, que é o corpo universal, mesmo que nossa tecnologia ainda não seja capaz de detectar senão as ondas de grandes movimentos gravitacionais, como as decorrentes da colisão das estrelas de nêutron que provavelmente criaram um buraco negro, quando anunciada a descoberta das referidas ondas pelo LIGO.

A detecção do bóson de Higgs, igualmente, aponta para a existência de um campo cósmico, o campo de Higgs, que interage com os demais campos quânticos provocando a resistência nestes campos, conformando a sensação material, a existência da própria matéria. Desta feita, a existência do mundo material em si é decorrente de um campo quântico, um campo de energia, que provoca a reação física que tem como resultado conferir massa, ou matéria, a todas as demais partículas.

Desse modo, segundo os dados mais atualizados das ciências físicas, tudo o que fazemos deixa uma marca no tecido cósmico, por mais que não possamos detectar esses rastos de nossos comportamentos, o que vale, igualmente, até para os pensamentos humanos, que provocam correntes elétricas no cérebro e, consequentemente, ondas eletromagnéticas que se propagam em todas as direções na velocidade da luz, além de causar ondas gravitacionais, as quais também modificam, ainda que sutilmente, atualmente de forma indetectável, o tecido cósmico. Os dados científicos indicam claramente que existe essa repercussão física de nossas ações, mínimas que sejam, isso sem falar na possibilidade concreta de também nossas atitudes causarem entrelaçamentos quânticos em cadeia, com efeitos ainda mais profundos na realidade física total, independentemente da distância espacial ou temporal entre a fonte da ação e o ponto onde seu efeito ocorrerá. Isso tudo sem falar na matéria escura e na energia escura, postuladas cientificamente sem que consigamos detectar experimentalmente sua existência.

É lógica e racionalmente possível, portanto, sustentar a existência de algo que seja caracterizado como partículas morais, entendidas como manifestação física da moralidade, que talvez estejam relacionadas a uma espécie de rede quântica entrelaçada, isto é, o entrelaçamento quântico de múltiplas partículas, ou um fluxo de entrelaçamento quântico, que permita definir a posição ou sentido desse fluxo em referência a determinados comportamentos, tendo em vista a relação do movimento de um corpo em comparação com os meios próximo e distante associados a esse corpo, pelo seu pertencimento consciente, porque a moralidade é dependente da consciência, tanto a campos físicos locais como não locais.

De todos esses dados e fatos obtidos a partir das descobertas da Física, destarte, é bastante razoável, e até mesmo provável, se adotada, por princípio, a existência de uma ordem cósmica, no plano físico, que existam partículas morais, ou morões, ou algo que possa ser qualificado como manifestação física da moralidade, passível de mensuração, mesmo que nossa tecnologia material não seja capaz de sua detecção.

Considerando a unidade existencial de todos os fenômenos, em termos físicos, o que é capaz de ser compreendido em termos espirituais, pela consciência, nossos comportamentos, incluídos os pensamentos, por menores que sejam, provocam uma espécie de atrito, ou interferência, que se propaga pelo cosmos, no mínimo como ondas gravitacionais e eletromagnéticas. Assim, se existe uma ordem que permitiu, ou melhor, determinou o desenvolvimento da Vida, essa ordem é sensível aos comportamentos que possam e efetivamente violam essa mesma ordem, aos comportamentos que resistem à evolução da Vida em si, e essa sensibilidade pode ser caracterizada como moralidade, como o juízo racional sobre a adequação e a bondade de uma ação segundo aquela ordem e o sentido do desenvolvimento da Vida.

Nessa linha de raciocínio, a moralidade está associada tanto à sensibilidade, isto é, a uma questão física de interação corporal, quanto à razão, à racionalidade, consciência ou entendimento da ordem cósmica, do contexto universal, e do sentido da evolução do movimento inteligente da matéria espaço-temporal, a Vida, desde o início dos tempos, que culmina na humanidade e segue, então, em direção ao Espírito, pela prospectiva evolutiva.

Segundo o texto bíblico: “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1, 31). Isso significa que o mundo físico é moralmente bom, que há uma harmonia, uma beleza e uma bondade no universo criado, na criação; permite concluir que há uma espécie de curvatura existencial positiva, inclusive em termos morais, em tudo o que existe, de modo que o universo reage moralmente aos comportamentos morais, sendo cabível, e lógico, falar em partículas morais, ou morões, que devem ser detectadas em algum momento de nossa evolução tecnológica. Essa medição já é possível atualmente, mas é dependente da subjetividade, da sensibilidade individual de pessoas especialmente conscientes, mas cujo compartilhamento objetivo ainda é dependente da mesma subjetividade, do convencimento pessoal, que ocorre, por exemplo, nos julgamentos inteligentes proferidos na atividade social, o que vale, inclusive, e especialmente, para o trabalho dos magistrados, mesmo que nem todos, talvez poucos, tenham consciência dessa realidade.

Daí porque devemos procurar a radiação moral, tanto a emanada e captada pelas pessoas como a que contagia o ambiente, o que pode ser feito, neste caso, em locais nos quais eventos importantes ocorreram, como em Jerusalém e seu entorno, pelos lugares onde Jesus passou, em que certamente foram deixadas marcas morais, radiação moral, de sua passagem pelo planeta. Talvez tenha sido isso que Jesus quis dizer quando falou: “Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19, 40).

Se há uma energia invisível, por exemplo, em Chernobyl, captada por aparelhos detectores de radiação, o mesmo pode ser válido para uma radiação moral, de qualidade distinta daquela que provoca danos à vida, e causa primariamente morte orgânica, podendo haver uma radiação moral tanto prejudicial como benéfica, que, no último caso, recupera o DNA, e auxilia a restauração do organismo vivo, o que é a explicação científica para os chamados milagres de Jesus. Se há uma radiação oculta que pode causar a morte instantânea ou diferida, deteriorando o organismo vivo e produzindo o desenvolvimento de câncer, como há uma força que causa danos psíquicos, é perfeitamente cabível entender existir também uma radiação física com sentido contrário, associada à energia criadora primordial, pela qual produzido o mundo criado, muito bom, que conserta a estrutura orgânica e restaura a Vida.

Ciência extraordinária

A ciência é extraordinária, não é algo comum, mas diferenciado; apesar de existir uma modalidade ordinária dessa atividade humana. Outrossim, podemos falar de dois tipos de ciência, a verdadeira Ciência, admirável, excepcional; e a habitual, ou vulgar.

A primeira é associada à inovação, à criatividade, à ação do Criador, referindo-se ao estudo do Logos, pelo qual tudo foi feito. Tem natureza filosófica, especulativa, artística. Essa Ciência é única, irreproduzível em laboratório, depende de situações e/ou pessoas únicas para seu desenvolvimento, tais como Jesus, Sócrates, Abraão, Moisés, Newton, Galileu, Einstein. O universo foi criado uma única vez, a vida teve início em condições e em um tempo especiais, sendo igualmente singulares os eventos fulcrais da história coletiva e individual, como o fim de um império, ou o nascimento e a morte de um ente querido.

Mesmo em sua unicidade, a ciência extraordinária investiga as relações primárias de causalidade, porque estuda o mundo das causas, a ontoteologia. Trata, ainda, do âmbito da epistemologia e estabelece as categorias fundamentais do conhecimento, os primeiros princípios, sendo a matéria objeto de estudo da Metafísica aristotélica, ou Teologia, ligando aqueles eventos únicos e os fatos da vida cotidiana a uma razão que lhes seja comum, em que pese a dificuldade e excentricidade dessa empreitada.

Já a versão ordinária abarca o mundo dos efeitos, das regularidades e dos limites das ações causais, proporcionando o desenvolvimento da tecnologia. Isso não significa que a versão mais elevada da ciência não aborde as questões permanentes, pelo contrário, uma vez que sua área de atuação é exatamente a eternidade, ou seja, aquilo que é uno e imutável, o permanente do fluir temporal e material, e é a partir dessa ideia que se extrai a regularidade comum da ciência ordinária.

A ciência extraordinária gera, portanto, a ordinária, a qual, por sua vez, está na origem da tecnologia. Quanto mais profunda a primeira, mais específica a segunda e mais eficiente a terceira.

A atividade cognitiva vulgar, por sua vez, divide-se nos ramos do conhecimento, proporcionando as especializações científicas. Suas inovações, via de regra, são restritas às áreas respectivas. Tais ramos trabalham no âmbito fenomenológico, com as categorias próprias das respectivas áreas do conhecimento, em que as relações significativas são limitadas.

Pode-se dizer que uma espécie volta seu olhar para o conhecimento futuro, para a razão latente ou nascente, enquanto a outra se dirige ao passado, que já foi descoberto e está manifesto, ao menos parcialmente, havendo, contudo, uma ligação íntima entre esses saberes, decorrente da unidade lógica que inevitavelmente abarca ambos, no presente, na eternidade que conecta permanentemente o antes e o depois.

Uma é a ciência da ideia geral, universal, em todos os seus momentos, que inclui a particular, em suas singularidades, enquanto a outra é a razão da contingência, passageira, da temporalidade em si.

A mais elevada especialidade da ciência particular, para ser realmente elevada, deve alcançar o nível extraordinário, e por isso o título de doutor é melhor definido como PhD, que significa “doutor em filosofia”, pois PhD é uma abreviação de “Philosophy Doctor”, decorre da expressão latina philosophiae doctor ou doctor philosophiae, que remete ao significado da palavra grega “filosofia’, amor ao conhecimento ou amor à sabedoria.

O conhecimento extraordinário transcende o plano meramente sensorial, está além do mundo passageiro, sendo associado à sabedora. É, outrossim, de natureza espiritual, na medida em que o espírito é a totalidade das relações, é a unidade que permanece, a despeito do constante devir. A ciência em questão, portanto, busca o entendimento da totalidade das relações entre os fenômenos, enquanto a ordinária já pressupõe algum nível de relação entre todos os fenômenos, o que é inerente à proposta científica, mas tem seu foco em algumas relações restritas.

As verdadeiras mudanças no entendimento ocorrem quando há modificação na concepção sobre a qualidade das relações totais, quanto à sua causalidade, e nas categorias mentais ou filosóficas adotadas para explicar racionalmente essas relações.

Nesse ponto, a filosofia grega foi o marco na adoção de uma determinada racionalidade para explicar todos os fenômenos do mundo. O Monoteísmo significou a submissão cósmica total a um único Princípio ou Inteligência, que, pelo Cristianismo, foi incorporado à racionalidade humana, ainda não alcançada em seu verdadeiro sentido.

Em outro plano, o trabalho de Newton se baseou na unidade entre a matéria celeste e a terrestre. A relatividade de einsteniana uniu matematicamente os conceitos de tempo e de espaço. Finalmente, a física quântica demonstrou uma integração entre o pensamento, e seus instrumentais, e a realidade observável.

A evolução científica, assim, culmina em uma cosmovisão que não foi compreendida sequer pela comunidade acadêmica, porque continua atrelada a uma visão ordinária de ciência, parcial, e majoritariamente materialista. Por isso estamos num interlúdio no avanço do conhecimento humano, que está se desenvolvendo apenas lateralmente, sem perceber seu sentido mais profundo, dependente da verdadeira Ciência, até que esta seja revelada, como de praxe, numa situação excepcional, que será um salto qualitativo, um salto quântico, no entendimento, em direção ao plano espiritual, que é o locus originário da ciência extraordinária. Como disse o apóstolo dos gentios:

O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado” (1Cor 2, 14-15).

Outrossim, o mundo só é inteligível espiritualmente, porque é pelo espírito que os eventos do mundo são conectados racionalmente.

Nesse ponto, é importante dizer que a coerência intradisciplinar é obrigatória nas ciências particulares, de modo que uma mesma racionalidade possa ser usada indistintamente nos fenômenos observados nesses campos de observação.

A Filosofia, a Ciência autêntica, de seu lado, que tem como objeto imediato a linguagem, com sua coerência disciplinar própria, sua lógica, mas cujo referencial significativo é o conteúdo das ciências particulares, com a sua harmonia simbólica intradisciplinar, porque a linguagem filosófica adota os conceitos mais avançados das áreas específicas do conhecimento, desenvolve, ainda, a coerência interdisciplinar desses conceitos, sua significação mais própria em relação à completude dos fenômenos existenciais.

A Ciência, portanto, tem um aspecto epistemológico associado, necessariamente, a uma abordagem ontológica e existencial das coisas do mundo, conectando todos os significados possíveis da linguagem, de forma lógica e coerente, e por isso é absurda a unidade e racionalidade do universo conhecido, e extraordinária, e de tamanha extravagância, que a ciência materialista se viu obrigada a criar uma infinitude de outros universos, o multiverso, numa irracionalidade que chega ser ridícula, por rejeitar um postulado filosófico básico, a Navalha de Occam, apenas para não reconhecer a lógica extraordinária da Ciência, apenas para negar o Logos, com a moralidade e a normatividade que lhe são inerentes. Ainda assim, o conhecimento autêntico é acessível para os que se lhe abrirem seus corações:

A Sabedoria apregoa pelas ruas, nas praças levanta a voz: grita nas encruzilhadas, e nas portas da cidade anuncia: ‘Até quando, ingênuos, amareis a ingenuidade, e vós zombadores, vos empenhareis na zombaria; e vós, insensatos, odiareis o conhecimento? Convertei-vos à minha exortação: eis que vos derramarei o meu espírito e vos comunicarei minhas palavras’” (Pr 1, 20-23).

O Espírito da Lei

O presente texto decorre do início da leitura de “Do espírito das leis”. Ler um clássico também serve para fugir daquele conceito de obra clássica, entendida como aquela que todos citam e que ninguém lê. Assim, começada a leitura, já é possível fazer alguns comentários, com possibilidade de desenvolvimento de novos artigos após sua conclusão.

Inicialmente, é importante destacar a cosmovisão de Montesquieu, que principia o livro falando nas leis como “as relações necessárias que derivam da natureza das coisas” (Charles de Secondat, Baron de Montesquieu. Do espírito das leis. Trad. Roberto Leal Ferreira. São Paulo. Martin Claret, 2010, p. 21), porque entende haver leis para todos os seres.

Os que disseram que uma cega fatalidade produziu todos os efeitos que vemos no mundo disseram um grande absurdo: pois que maior absurdo há do que uma fatalidade cega que tivesse produzido seres inteligentes?” (Idem, p. 21).

O autor está falando aqui dos materialistas, correspondentes aos modernos ateus, para os quais não há uma causa última nos fenômenos do mundo, pois entendem que a ordem universal é efeito do movimento caótico dos átomos, pelo que a obra em questão deve ser situada dentro de um pensamento deísta, que era a posição intelectual geral daqueles que viveram no século XVIII. Nesse sentido, ele defende a existência de uma lei da natureza, “que, ao imprimir em nós mesmos a ideia de um Criador, nos leva a Ele, é a primeira das leis naturais pela importância, e não na ordem de suas leis” (Idem, p. 23); descrevendo em seguida quatro leis naturais: a paz, decorrente da fraqueza humana; a busca de alimento, para satisfação das necessidades da vida; a aproximação e continuidade dos membros da espécie, como terceira lei; a quarta, o desejo de viver em sociedade.

Em decorrência da vida em sociedade, com a perda do sentimento de fraqueza, começa, segundo Montesquieu, o estado de guerra, fazendo-se necessário o estabelecimento das leis entre os homens, as leis positivas, surgindo daí o Direito das Gentes, para a relação dos povos entre si; o Direito Político, para regular a atividade dos governantes e dos governados em sociedade; e o Direito Civil, para as relações entre os cidadãos. Dentro do contexto humanista iluminista em que estava inserido o autor, ele afirma que “a lei, em geral, é a razão humana”, que governa todos os povos, sendo que “as leis políticas e civis de cada nação devem ser apenas os casos particulares a que se aplica tal razão humana” (Idem, p. 26).

Montesquieu sustenta que as leis devem ser adequadas aos povos, às condições físicas do país, ao gênero de vida dos povos, à religião dos habitantes, aos costumes, aos comportamentos.

Enfim, tais leis mantêm relações entre si; estão relacionadas à sua origem, ao objetivo do legislador, à ordem das coisas sobre as quais foram estabelecidas. É segundo todas essas perspectivas que devem ser consideradas.

É o que tento fazer neste livro. Examinarei todas essas relações: elas formam juntas o que chamamos o ESPÍRITO DAS LEIS” (Idem, p. 26).

O espírito da lei, portanto, está vinculado à totalidade dos valores de uma sociedade, à visão geral de mundo em que foi produzida. É digno de nota, de outro lado, que Montesquieu, de plano, já faz uma distinção entre as leis da natureza e as leis positivas, ainda que se pudesse antever, pela sua própria quarta lei natural, o desejo de viver em sociedade, uma definição da própria natureza da vida humana em sociedade, com as respectivas leis que lhe são inerentes, à razão humana em si.

Se o desejo de viver em paz e em sociedade são leis naturais, é perfeitamente compreensível que haja uma configuração das leis dos homens que expressem a natureza da coisa humana, da humanidade enquanto tal, e tal é o Direito das Gentes, Político e Civil Cristão. De fato, os direitos humanos e a dignidade humana nada mais são do que essa Lei, estando relacionados à ordem das coisas sobre a qual foram estabelecidos, e tal ordem é a ordem de mundo Cristã, que vê o homem como templo do Espírito de Deus, imagem e semelhança de Deus, e daí a citada dignidade, que vale para todo ser humano. A religião e os costumes cristãos, portanto, estão na origem do Espírito da Lei atual, do constitucionalismo do século XXI.

Interessante notar que, ao se referir à educação entre os antigos, em contraposição à de seu tempo, Montesquieu fala de educações diferentes e contrárias: dos pais, dos mestres e do mundo; destacando o contraste entre “os compromissos da religião e do mundo; algo que os antigos não conheciam” (Idem, p. 52).

No vocabulário cristão, apostasia é o termo que pode ser usado para explicar essa divisão que os antigos não conheciam, que ocorre quando há separação entre a vida religiosa e a vida política, e entre a lei moral a lei política e civil, o que certamente aconteceu historicamente dentro do contexto da aliança de Deus com os homens para demonstrar que a vida religiosa, na cientificidade do conhecimento de Deus, do Logos ou razão plena, deve ser vivida à perfeição, para não ser contaminada pela idolatria pagã, pela irracionalidade das superstições do mundo. Neste último caso ocorre a corrupção do povo, quando a violação da lei não gera vergonha, quando a desonra do flagelo, a punição por um crime, deixa de existir, situação que se daria segundo a natureza do homem republicano, movido pela virtude, esta entendida como amor das leis de um país, pois para ele a maior parte do castigo é a infâmia de recebê-lo, porque significa censura pública pela falta de virtude cívica da pessoa.

Pode-se perceber pelo que já foi exposto até aqui que a ideia que nos resta de Montesquieu, da divisão do poder público entre os órgãos legislativo, executivo e judiciário, para ser devidamente entendida, exige uma coerência filosófica e moral inexistente nos dias atuais, tendo a moralidade religiosa e a virtude cívica, de amor às leis, sucumbido à ideologia partidária e ao materialismo.

A própria ideia de razão humana foi sequestrada pelos defensores do “maior absurdo que há”, dos que defendem “que uma fatalidade cega produziu seres inteligentes”, que são as mesmas pessoas que deturpam a dignidade humana para sustentar a legitimidade do aborto, ou que dizem que a união de pessoas do mesmo sexo pode ser chamada de casamento.

Tal é a situação tanto da Europa, das Nações Unidas, e mesmo das Américas, em que a dignidade humana foi subvertida em defesa do egoísmo individual secundado, por um lado, pelo materialismo ateu, e, por outro, pelo tribalismo nacionalista, em que a solidariedade foi ofuscada pelo medo do outro e as teorias da Política e do Direito perderam sua consistência e sua coerência, impedindo que executivo, legislativo e judiciário entendam e realizem o Espírito da Lei.

Conexão simbólica

Existe uma rede de significados que conecta todos os fenômenos, o que é um fato apenas para os que entendem haver cosmos, ao invés de caos, como fundamento último da realidade. Um símbolo aponta para outro, e outro, todos inseridos e conectados racionalmente em uma narrativa de mundo, pressupondo-se que esta seja dotada de racionalidade. Isso vale desde os movimentos mais básicos da natureza, nos campos quânticos e suas influências recíprocas, que condicionam as respectivas interações, dando-lhes sentido dentro dos experimentos científicos em que são estudados; até as reações químicas que ocorrem no cérebro enquanto experimentamos as emoções mais sublimes, ou não, cujas expressões comunicativas, por mais perfeitas que possam ser, não são adequadas para transmitir as realidades que representam, na profundidade do seu significado existencial.

A conexão simbólica, se adequadamente realizada, de todo modo, permite relacionar os símbolos mais sutis, e aparentemente sem significado, a uma narrativa de mundo, ou cosmovisão, dependendo da sensibilidade daquele que experimenta os símbolos, o que também é condicionado pela bagagem simbólica do observador ou intérprete, incluídas a lógica e a coerência interna entre os significados dessa narrativa.

A cosmovisão, por sua vez, é o mundo implícito em que vivemos, em que os significados básicos são presumidos, aceitos, e por isso algos não ditos. Problemas ocorrem, contudo, quando narrativas de mundo com valores opostos se misturam, de modo que determinados fenômenos passam a ter sentido dúbios, até opostos, dependendo da situação ou perspectiva de análise, se dentro de um ou outro sistema de pensamento.

Essa contradição é o pano de fundo para os conflitos que nossa civilização tem presenciado, decorrentes da divergência entre as narrativas religiosa e materialista que se sobrepõem na vida diária das pessoas, causando confusões e oposições de interesses. Para uma cosmovisão, o homem é fruto do acaso, da evolução cega e sem propósito da vida, e esse entendimento condiciona a interpretação geral dos fenômenos da vida, o mesmo valendo para a visão oposta, de natureza religiosa, segundo a qual a presença do homem no cosmos não é acidental, mas fruto da Providência, A Qual determina o significado mais profundo de tudo o que existe, pois há sentido na vida e na história.

A conjugação simbólica dos fenômenos do mundo é distinta para cada uma dessas cosmovisões, o que pode ser considerado desde as hipóteses mas amplas da cosmologia até a interpretação da realidade quântica, quanto ao sentido ou interpretação a ser dada aos fenômenos quânticos, o que vale igualmente para os comportamentos cotidianos das pessoas, dos animais e da natureza.

Segundo entendo, a cosmovisão materialista já foi derrotada pela Ciência, e essa visão é sustentada por diversos pensadores, como Hegel, Jung, Bohm, Amit Goswami, Stephen Meyer, dentre outros. São várias as razões para essa conclusão. Pela inexistência de átomos, que era o fundamento original do materialismo, uma vez que tais partículas sólidas indivisíveis não existem, pois a realidade não é feita de coisas separadas espacialmente, mas de campos energéticos que se interpenetram. Pela temporalidade do universo, porque, ao contrário do que sustentava o pensamento grego, o mundo físico não é eterno, indicando as evidências científicas, tal como pensado pela cosmovisão judaico-cristã, que houve um início das coisas, uma criação do mundo. Pela sintonia fina das constantes da natureza, sendo sua única saída racional (do materialismo) a invenção despudorada do multiverso. Pela assustadora complexidade da vida, cujo funcionamento não pode ser explicado de forma reducionista, das partes para o todo, mas, ao contrário, somente é compreensível do todo para as partes. Pela impossibilidade matemática de ter havido uma evolução cega em sem direção das espécies, por tentativa e erro. Pela singularidade da vida, proporcionada por condições únicas de nosso planeta no universo, incluída sua posição na galáxia, sua formação num tempo cósmico propício, com presença de elementos químicos pesados e com a abundância de carbono, sem falar na existência da lua, dando estabilidade ao movimento planetário, dos planetas gigantes, como Júpiter e Saturno, que nos protegem de astros com capacidade destruidora da vida, como no evento que dizimou os dinossauros.

Por esses e tantos outros argumentos, o que resta ao materialismo é a gritaria e a invencionice, como salientado, tirando da cartola hipóteses ad hoc para fugir da realidade e da conclusão óbvia dos dados científicos, que apontam para uma maravilhosa ordem cósmica, que permitiu o desenvolvimento da vida humana e sua inteligência, situação perfeitamente compatível com o ideário religioso monoteísta, antecipando em mais de dois mil anos os resultados da ciência moderna. É de se considerar o materialismo, destarte, uma cosmovisão antiquada e derrotada, ainda que esse fato não tenha chegado ao conhecimento do grande público, ou mesmo de grande parte da elite intelectual, que insiste em viver segundo os preconceitos científicos datados do século dezenove.

A cosmovisão Cristã, de outro lado, em certa medida, está igualmente presa à ideia de dois mundos, do Reino do outro mundo, associada, como o materialismo, a preconceitos gregos, ao platonismo que se infiltrou na gênese da doutrina Cristã, o que acaba permitindo que sejam ignorados os significados mais profundos da realidade, relativos à unidade material e espiritual do único mundo governado por Deus, especialmente no que toca à importância de todas as pessoas, todos animais, toda a vida do planeta, à interconexão entre tudo o que existe, preconceitos e ideias que, direta ou indiretamente, acarretam seja ignorada a necessidade de uma ordem de mundo verdadeira e plenamente Cristã, especialmente nas políticas nacionais e internacional, nos maiores e menores detalhes, integrando uma relação maior de significado para questões de relevo e, do mesmo modo, para os temas aparentemente menos importantes da vida cotidiana, pela conexão simbólica de tudo o que existe.

Um simples papel no chão, por exemplo, não é algo irrelevante, mas um sinal de desrespeito a normas básicas de educação, e o pior não está no simples papel, mas nas toneladas de dejetos sólidos, líquidos e gasosos eliminados pela população em qualquer lugar, até mesmo nas nossas fontes de água, e, do mesmo modo, destinados indevidamente pelas autoridades públicas, que têm a incumbência profissional de promover tanto a educação das pessoas quanto de um serviço de saneamento básico eficiente. Isso para não falar no descarte diário de seres humanos, por mortes que poderiam ser evitadas por um esforço coletivo de média intensidade.

Os símbolos que vemos por todo lado indicam uma incongruência generalizada no comportamento humano, uma irracionalidade disseminada tanto na vida privada e individual das pessoas como na gestão pública, no serviço que é prestado ignorando os valores mais elevados da comunidade, quando os interesse coletivo é preterido por questões pessoais, egoístas, meramente fugazes. Essa é a manifestação visível da ação do anticristo no mundo.

Daí a necessidade de coerência máxima, de racionalidade Cristã extrema, na preservação da vida, no amor a Deus e ao próximo, nos menores detalhes da atividade cotidiana. É preciso reaprender a viver, significando corretamente as coisas da vida, conforme a adequada racionalidade que rege o mundo, o Logos.

Para isso, e considerando que o amor ao próximo inclui a educação, para aperfeiçoamento dos indivíduos para seu próprio bem e também em benefício da coletividade, é fundamental que os erros nos comportamentos humanos sejam devidamente detectados, apontados para que possam ser corrigidos, por meio de uma educação firme, com dignidade, segundo o mandamento Cristão, conforme ditos milenares do judaísmo:

Quem ama a correção ama o saber; que detesta a correção torna-se imbecil” (Pr 12, 1).

Os conselhos dos injustos são armadilhas mortais, mas a boca dos retos salva do perigo” (Pr 12, 5).

Assim, é necessário significar devidamente o que é correção, o que é conselho reto, distinguindo do que é desvio, do que é conselho que desagrega da verdadeira Ciência, pelo que não se pode tolerar o erro sem a devida advertência, sob pena de a corrupção não ser contida, espalhar-se e tomar cada vez mais espaço na mente e na atividade da comunidade.

O significado do que seja corrupção, enfim, está associado à narrativa de mundo, à cosmovisão, que define o que é erro, pecado, crime, ilícito ou idolatria. Se o materialismo é uma narrativa de mundo falsa, equivocada, baseada em pressupostos que se mostraram inconsistentes, todo cuidado é pouco ao se significar os fenômenos do mundo, para que não sejam influenciados pelos erros de ideias equivocadas, que não podem produzir bons resultados para a vida humana. Igualmente é necessário revisar o significado religioso do mundo, para que os valores Cristãos sejam aplicados em sua forma mais correta e mais ampla, que possam proporcionar a plenitude da vida Cristã para toda a comunidade, devendo ser considerado que o acerto da cosmovisão Cristã em relação à ordem do mundo aponta para a necessidade de observância, igualmente, da moralidade Cristã.

Outrossim, é preciso combater tanto a idolatria materialista quanto a religiosa, porque a idolatria é a prática e a defesa da cosmovisão ou narrativa de mundo que contraria o culto e a adoração do Deus único, impedindo que Sua vontade seja realizada, e por isso a sociedade atual está polarizada, porque existem narrativas de mundo com valores opostos, tanto do lado materialista, que tenta a realização individual das pessoas no mundo sensível, ignorando a realidade espiritual subjacente ao mundo, negando a moralidade Cristã; como deve-se enfrentar as falhas do outro lado ideológico, que despreza a necessidade de uma solidariedade humanitária com todos; exigindo-se, enfim, o pleno cumprimento dos mandamentos Cristãos, de amor ao próximo, incluído o inimigo, para seu arrependimento e salvação, o que inclui a correção deste, com dignidade, no tratamento amoroso de pai para filho, com o rigor que a pedagogia exige, pois: “Quem poupa a vara odeia seu filho, aquele que o ama aplica a disciplina” (Pr 13, 24).

Portanto, somente a adoção integral da correta conexão simbólica permitirá a superação da cisão da humanidade.

Ninguém pode ser escravo de dois senhores. Ou odiará um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir como escravos a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24).