Domínio do inconsciente

No artigo anterior, “Direito e ordem mental”, foi destacado que os indivíduos dos dias atuais ainda são dominados pelo inconsciente, apesar das conquistas tecnológicas alcançadas, sendo ressaltado que o desenvolvimento da personalidade se dá em direção à consciência, como ocorre no mito do herói, que se liberta da inconsciência.

A inconsciência está tanto nas pessoas como nos grupos, repercutindo no mundo das ideias e dos conceitos, comprometendo a racionalidade do ambiente intelectual humano, inserindo equívocos nas teorias científicas, não percebidos num primeiro momento, o que afeta sobremaneira o ambiente social, e jurídico. Por isso não vivemos em uma sociedade de paz, mas no mundo do consumo irracional, da concorrência, muitas vezes desleal, em que o crime é uma constante.

Para que seja possível a superação desse ambiente de permanente tensão, inclusive no plano internacional, é necessário despender muita energia física e psíquica da forma e na direção corretas, de modo a permitir que alcancemos um estado de maior consciência, de conhecimento da realidade mais profunda, como afirma Erich Neumann: “o estado inconsciente é o estado básico e natural; o estado consciente, o produto de um esforço que consome libido” (Erich Neumann. História da Origem da Consciência. 5 ed. Trad. Margit Martincic. São Paulo: Cultrix, 2014, p. 205).

Uma vez que nossa libido é desperdiçada, consciente e inconscientemente, na realização de desejos egoístas e em razão de instintos que não dominamos, e que, de fato, nos dominam, o estado de consciência mais elevada não é atingido.

Como ressaltado no último artigo, o esforço para se chegar ao conhecimento mais profundo da realidade, à inteligência, inclui a superação da ordem de mundo materialista de Freud, em que o conceito de libido, ou energia psíquica, foi indevidamente limitado a uma conotação sexual. No Código Penal Brasileiro, por exemplo, nos arts. 130, 148, 213, 215, 217-A, dentre outros, o termo “ato libidinoso” recebe o sentido exclusivamente sexual, o que é derivado das teorias de Freud sobre o mundo, com uma visão incompleta sobre o ser humano, sexualmente limitada, visão essa que é, portanto, inconsciente.

Assim, as palavras citadas por Erich Neumann acima, indicando que o estado de consciência depende de “um esforço que consome libido”, podem ser deturpadas em decorrência da leitura falha que Freud fez da humanidade, entendendo os fenômenos de uma perspectiva limitada, e indevida. Por mais que tenha tentado desvendar o inconsciente, a teoria freudiana é inconsciente da realidade humana mais profunda.

Como junguiano, Erich Neumann entende libido como energia psíquica. Segundo Jung, “é melhor compreender o processo psíquico simplesmente como um processo de vida. Desta forma estendemos o conceito restrito de uma energia psíquica para o conceito mais amplo de uma energia de vida, a qual engloba a chamada energia psíquica como componente específico”; afirmando que sugeriu “designar por libido a hipótese da energia de vida, levando em conta a sua utilização psicológica (…) para diferenciá-la de um conceito universal de energia” (Carl Gustav Jung. A energia psíquica. Trad. Maria Luiza Appy. 14 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p. 27).

Jung destaca a importância dos símbolos religiosos para a formação psíquica humana, porque tais símbolos foram produzidos pelo inconsciente para permitir a utilização da energia psíquica no desenvolvimento da consciência. De certa forma, em contraste com o entendimento de Jung, o pensamento de Freud pode ser considerado uma teoria infantil, uma teoria imatura, que não apreende a totalidade humana:

Na experiência direta, o espírito primitivo só nos é dado sob a forma da psique infantil, ainda possível de ser lembrada. As particularidades da mesma são consideradas por Freud, com certa razão, como sexualidade infantil; pois é desta disposição embrionária que mais tarde surgirá o ser sexuado maduro. Freud, porém, faz derivar da disposição embrionária infantil uma série de particularidades mentais, de forma a parecer que a mente também provém de um estágio sexual preliminar, e portanto não passa de um subproduto da sexualidade. Mas para Freud passa desapercebido que a disposição embrionária infantil polivalente não é apenas um estágio preliminar perverso singular de uma sexualidade normal e madura, mas que justamente ela parece ser perversa porque não é apenas um estágio preliminar da sexualidade madura, mas também o é da singularidade mental do indivíduo. Da disposição embrionária infantil surgirá posteriormente o ser humano inteiro, razão pela qual a disposição embrionária não é pura sexualidade, da mesma maneira que a psique do ser humano adulto não o é” (Idem, pp. 64-65).

A teoria de Freud é entendida, assim, como limitada, parcialmente correta, mas incapaz de ser universalizada, hipótese em que “só poderá ser uma explicação fictícia”, quando aplicada, por exemplo, à interpretação da obra de arte ou a uma experiência religiosa.

Jung destaca que “a formação da religião ou do símbolo tem para o espírito primitivo um interesse tão grande quanto a satisfação do instinto”, de modo que “o caminho da continuidade do desenvolvimento é assim dado logicamente” (Idem, p. 72). O desenvolvimento da consciência ocorre, portanto, por meio de símbolos religiosos, que “possibilitaram ao ser humano construir uma posição contraposta à natureza instintiva primitiva, uma atitude cultural diante da mera instintividade. Foi esta desde sempre a função de todas as religiões” (Idem, p. 73).

Esse processo de conscientização é iniciado por um indivíduo, um ser singular com consciência de sua singularidade, dando início ao progresso cultural, que é uma ampliação da consciência.

No mundo ocidental, esse ser singular, que moldou nossa cultura, inquestionavelmente, é Jesus Cristo, que tomou conhecimento de sua unidade com Deus, cumprindo as profecias ou ideias religiosas necessárias para o progresso da humanidade. Vale dizer que o Cristianismo ainda não aconteceu na sociedade humana, apenas tivemos vislumbres dessa realidade, ofuscada pelos dogmas que impediram o conhecimento da Verdade Cristã em sua plenitude religiosa, política e científica.

Nesse sentido, segundo a simbologia da religião Cristã primitiva, antes do pleno desenvolvimento da cultura iniciada por Jesus Cristo, antes que a civilização por ele inaugurada aflore na era messiânica, era necessário que o símbolo oposto se desenvolvesse, pela manifestação do anticristo e pela ação do falso profeta.

O profeta significa aquele que serve de meio para a revelação de Deus, a Verdade, sendo que na simbologia atual a verdade está associada à Ciência, que reclama para si a autoridade plena sobre o conhecimento racional. Cristo significa “Ungido” pelo Espírito, que age por ação do Espírito, o que é o oposto do que faz a ciência reducionista dos dias atuais. Desta feita, o falso profeta que permite a manifestação do anticristo é a ciência materialista que prevalece no mundo contemporâneo, fazendo com que a humanidade permaneça sob o domínio do inconsciente, porque impede a consciência sobre a totalidade da experiência da realidade e o conhecimento sobre o ser humano inteiro.

Pois hão de surgir falsos Cristos e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios de modo a enganar, se possível, até mesmo os eleitos” (Mt 24, 24).

Hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, os quais apresentarão sinais e prodígios para enganar, se possível, os eleitos” (Mc 13, 22).

Vivemos sob o domínio de falsos Messias e falsos profetas, falsos cientistas, como Freud, que realizam prodígios e sinais enganosos, do que é exemplo a tecnologia que encanta as pessoas desviando-as da Vida, mas que não encontraram a Verdade e desviaram a humanidade do seus verdadeiros conhecimento e desenvolvimento.

A Verdade está, sim, na Ciência, desde que vinculada a Cristo, ao Logos encarnado, porque Cristianismo é Ciência, e a Vida segundo a Razão, a Lógica, sendo Jesus Cristo o maior cientista de todos os tempos, o Homem pleno.

Erich Neumann, ao tratar do desenvolvimento da personalidade, fala da fase adolescente, passível de ser aplicada à coletividade de nosso tempo, aduzindo que a “perversão sexual não passa de expressão mórbida da dominância dessa fase arquetípica”, vinculada à “bissexualidade original da Grande Mãe urobórica” (Obra citada, p. 223). E continua:

Do mesmo nível desses adolescentes narcisistas e passivos são os homens identificados com a Grande Mãe, que realizam essa identificação, quer como castrados, que sacrificam o falo, ou, como ‘travestis’, usando roupas femininas.

Na psicologia, esses níveis intermediários desempenham importante papel nas neuroses, nas quais surgem, de preferência, como estado de fusão do ego masculino com a Anima e, na mulher, com o Animus, o que representa uma fixação que impede a completa diferenciação da personalidade.

Também nas neuroses, como nas perversões e na homossexualidade – todas pertencentes ao mesmo nível –, o desenvolvimento do ego e da consciência é incompleto e o domínio do inconsciente continua, isto é, em nenhum desses casos foi atingido o estágio da luta heroica” (Idem, p. 223).

Em seguida Neumann arremata dizendo que tal situação psicológica do indivíduo deve “ser considerada um desenvolvimento defeituoso”.

Vivemos, assim, coletivamente, sob o domínio do inconsciente, porque as pessoas com desenvolvimento defeituoso e incompleto são oficialmente consideradas normais, o que significa que a norma perdeu o sentido, a consciência coletiva se desviou do caminho de seu desenvolvimento, fixando-se em símbolos de perversão, de uma fase imatura da vida, do que a questão sexual é apenas um aspecto. Se Jung estiver correto, esse fato levará o inconsciente coletivo a compensar essa situação, sem o controle da consciência, com os riscos decorrentes, potencialmente catastróficos. Daí a importância de manter a consciência alerta, vigilante.

Olhai, vigiai, pois não sabeis quando será o momento. Será como um homem que partiu de viagem; deixou sua casa, deu autoridade a seus servos, distribuiu a cada um sua responsabilidade e ao porteiro ordenou que vigiasse. Vigia, portanto, porque não sabeis quando o Senhor da casa voltará: à tarde, à meia-noite, ao canto do galo, ou de manhã, para que, vindo de repente não vos encontre dormindo” (Mr 13, 33-36).

Direito e ordem mental

Direito é ordem mental, organização das ideias que atuam sobre o mundo, movimentando pensamentos, dentro de nós e na comunidade a que pertencemos, pensamentos os quais, por sua vez, agem sobre as pessoas que cumprem (ou descumprem) as ordens ou mandamentos normativos ao atuarem no mundo social segundo o (ou contrariamente ao) sistema jurídico.

A expressão ordem mental remete ao âmbito científico, existindo na Ciência dois ramos fundamentais, sem os quais o conhecimento perde sustentação racional, porque se referem aos aspectos mais essenciais da natureza, ramos que dizem respeito às raízes da realidade, exterior e interior. A Física, que trata das bases materiais do mundo, e a Psicologia, que condiciona a apreensão inteligível de todos os fenômenos, tanto os exteriores aos corpos dos indivíduos como na parte mais interna ou subjetiva, são disciplinas que moldam as categorias pelas quais compreendemos o universo.

A ordem mental do mundo, portanto o Direito, é diretamente dependente tanto da Física como da Psicologia, ainda que a temporalidade dessa influência possa ser postergada. Nesse sentido, o sucesso das ideias heliocêntricas de Copérnico e Galileu, reforçadas pela mecânica de Newton, todos cientistas que atuaram no ramo da Física, teve impacto no poder jurídico religioso, estimulando um modo formal e racional de pensamento, no tempo conhecido como Iluminismo, que levou às revoluções dos séculos XVIII e XIX e que ainda exerce influência no Direito.

Contudo, tratando de Física e de Psicologia, o século XX foi um tempo de profundas transformações nas bases da ordem de mundo, porque a relatividade e a orgânica quântica, de um lado, abalaram os fundamentos da física newtoniana; e o aprofundamento do conhecimento da psicologia do inconsciente, de outro lado, demonstrou que a vida humana é regida por forças até então ocultas que escapavam ao controle de uma racionalidade superficial.

Na Física o assombro sobre a realidade permanece, situação cristalizada na frase do ganhador do Nobel, Richard Feynman, ao afirmar “que ninguém entende física quântica”. Na Psicologia, por sua vez, as propostas materialistas e antirreligiosas de Freud exercem profunda influência no mundo intelectual ocidental, e no Direito, numa sociedade que, paradoxalmente, intitula-se majoritariamente como Cristã, por mais que as ideias freudianas tenham se mostrado inúteis para a resolução dos problemas existenciais humanos, uma vez que se a psicanálise não fosse um completo fracasso os problemas psíquicos da humanidade já teriam sido por ela resolvidos.

Assim, já passou o tempo necessário para que a visão ontológica de Jung, que se opôs a Freud, sobre a psique, defendendo Jung uma religiosidade natural do ser humano e a preponderância dos arquétipos do inconsciente coletivo no mundo psíquico, diante do fracasso da proposta freudiana, já passou o tempo necessário para que as ideias junguianas sejam devidamente valorizadas e postas em prática, e no Direito.

Erich Neumann, discípulo de Jung, escreveu a obra “História da Origem da Consciência”, cujo Prefácio é do próprio Jung, no qual este destacou as vantagens do trabalho da segunda geração dos estudiosos da psicologia analítica, ou junguiana, afirmando que Neumann “foi bem-sucedido na construção de uma história ímpar da evolução da consciência (…). Chega, assim, a conclusões e percepções que estão entre as mais importantes já alcançadas nesse domínio”, e arrematando:

Nenhum sistema pode prescindir de uma hipótese geral que dependa, por seu turno, do temperamento e de pressupostos subjetivos do autor e, simultaneamente, de dados objetivos. Em psicologia, esse fator é a da maior importância, pois a ‘equação pessoal’ dá colorido à maneira de ver. A verdade final, se existe tal coisa, exige o concerto de muitas vozes” (Prefácio de Jung. Erich Neumann. História da Origem da Consciência. 5 ed. Trad. Margit Martincic. São Paulo: Cultrix, 2014, pp. 11-12).

A “equação pessoal” é a ordem mental incorporada pela pessoa, é o olho ou filtro pelo qual os fenômenos entram para a consciência, interferindo na forma pela qual a realidade é apreendida e compreendida.

A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado; mas se o teu olho estiver doente, todo o teu corpo ficará escuro. Pois se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas!” (Mt 6, 22-23).

A cosmovisão, ou ordem mental mais ampla, a hipótese geral, destarte, condiciona o modo como nos portamos perante o mundo, de modo que nosso comportamento é tanto mais luminoso quanto mais luz possuirmos em nossa “equação pessoal”, em nosso olho.

É indispensável, outrossim, a revisão da simbologia psíquica que ampara o conhecimento intelectual do mundo, e do Direito, para rejeição dos equívocos da “equação pessoal” freudiana com a incorporação de uma psicologia compatível com a visão de mundo ocidental, estabelecida na tradição judaico-cristã, a partir das propostas de Jung, ainda que este também tenha cometido erros, porque, de todo modo, a compreensão junguiana da mitologia e do significado do herói é mais coerente com as ideias de uma civilização Cristã, como a nossa.

Como sustentado por Erich Neumann, o mito do herói deve ser compreendido no sentido da libertação do mundo inconsciente e sua simbologia, urgindo o devido esclarecimento sobre esses pontos, “tanto mais necessário por causa dos enganos da psicanálise, cuja interpretação errônea do chamado complexo de Édipo e da mitologia totêmica derivada deste causou a maior confusão” (Obra citada, p. 111).

Neumann reconheceu que Freud fez descobertas importantes sobre o fenômeno do totemismo e do desenvolvimento do mundo espiritual, “mas distorceu e entendeu erroneamente algumas (descobertas) ainda mais importantes” (Idem, p. 114).

Ainda sobre o complexo de Édipo, afirmou Neumann:

A teoria freudiana sobre o assassinato do pai, que Rank tentou aplicar, reúne como unidade sistemática as seguintes características: o romance familiar, sempre relacionado com o filho, culmina no desejo incestuoso deste em relação à mãe, ao qual o pai se opõe de maneira hostil; o herói é o rapaz que mata o pai e desposa a mãe. O mito do herói é uma plasmação da fantasia pela qual a imagem desse desejo se impõe de modo direto ou indireto. Essa teoria é ‘sustentada’ – mas, na realidade, ‘entulhada’ – pela hipótese de Freud, inconsequente e antropologicamente inviável, de um pai gorila. Um poderoso patriarca-macaco rouba as mulheres dos filhos e é abatido pelos irmãos unidos. A superação do pai é o aspecto heroico. Freud toma isso ao pé da letra e deriva daí o totemismo e o surgimento de características importantes da cultura e da religião. Aqui, como noutras partes, devido ao seu preconceito personalista, Freud interpretou fatores decisivos de maneira errônea” (Idem, p. 122).

Se Freud distorceu e entendeu erroneamente as descobertas mais importantes sobre o totemismo e o mundo espiritual, se ele interpretou fatores decisivos de maneira errônea, sendo sua hipótese inconsequente e antropologicamente inviável, a estrutura de sua psicologia está equivocada, exigindo seja descartada a ordem mental de mundo e a “equação pessoal” freudiana sobre a humanidade.

A Psicologia e sua simbologia exercem influência preponderante no mundo jurídico, porque determinam a ordem mental coletiva, que constrange o comportamento das pessoas, pelas razões que fundamentam as ações, conformes ou contrárias àquela ordem, amparando argumentos morais que se tornam científicos e, em consequência, jurídicos, formando a razão coletiva de ação, da qual decorre a censura moral e social sobre as atitudes individuais.

Portanto, mais importante do que as ideias individuais são as coletivas, relativas aos simbolismos da alma humana, em que dominam arquétipos e imagens primordiais, expressadas na mitologia e nas grandes religiões.

A realidade de qualquer cultura e civilização, inclusive a nossa, é composta pela realização dessas imagens da alma. Toda arte, religião, ciência e tecnologia, tudo o que já foi feito, falado ou concebido, tem a sua origem nesse centro criador. O poder autogerativo da alma é o segredo verdadeiro e definitivo do homem, que faz dele a imagem semelhante à Divindade Criadora e o distingue das outras criaturas vivas” (Idem, p. 160).

Essa a verdadeira ordem mental do mundo, em que as questões religiosas recebem a atenção que merecem, pois o comportamento religioso do homem é “a nascente de toda cultura” (Idem, p. 161), decorrendo da tradição judaico-cristã o entendimento segundo o qual a humanidade foi criada à imagem e semelhança de Deus, do Criador.

A ênfase deve ser dada, portanto, à psique inconsciente de grupo, porque “os indivíduos dos nossos dias, apesar de todas as suas realizações conscientes, ainda estão contidos na estrutura do seu grupo e no inconsciente que o domina” (Idem, p. 198), porque é do inconsciente coletivo, a camada mais profunda da psique, que flui a energia original da qual surge a consciência.

O comportamento dos indivíduos é pautado, assim, pelo grupo a que pertencem, porque o “relacionamento com o mundo exterior é, em larga medida, realizado, não diretamente pelo indivíduo, mas pela entidade imaginária ‘grupo’, cuja encarnação é o líder ou animal dirigente, e cuja consciência representa a de todas as partes do grupo”, sendo destacado quanto a essa passagem, no rodapé, que o “líder, o Estado, etc. representam a sua consciência e o arrastam às cegas para movimentos de massa, como as guerras” (Idem, p. 200).

Daí porque a ordem mental, o Direito, deve ser pautado por Cristo, na simbologia original do Messias, constante das Escrituras, entendido como líder político, bom pastor.

Em verdade, em verdade, vos digo: eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes; mas as ovelhas não os ouviram. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. O ladrão vem só para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá sua vida pelas suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo aproximar-se, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa, porque ele é mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem, como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo 10, 7-15).

Por tudo isso, nossa civilização somente alcançará a plenitude quando Cristo for reconhecido herói da humanidade, e quando a ordem mental do mundo, o Direito e a Política se sujeitarem às suas ideias, que são o Logos, a Consciência encarnada, porque o fundamento do Estado já é a dignidade humana, restando ser reconhecido que ele Cristo ainda é a consciência humana, o líder cujo exemplo heroico deve ser enaltecido, seguido e multiplicado.

Direito Comum da Humanidade

Encerrada a leitura do Volume I, Tomo I, de “História do Direito Comum da Humanidade: Ius Commune Humanitatis ou Lex Mundi?”, Dissertação de doutoramento em Ciências Histórico-Jurídicas apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa por Eduardo Vera-Cruz Pinto, Professor Catedrático da mencionada instituição, merecem destaque abordagens fundamentais da obra, que impressiona inicialmente já pela extensa bibliografia pesquisada e devidamente anotada, sendo mais de cento e trinta páginas, além do vasto número de obras indicadas nas notas de rodapé, não constantes da bibliografia.

Vera-Cruz censura a abordagem jurídica da atualidade, avaliação bem exposta na obra “O Futuro da Justiça”, na qual faz críticas aos sistemas de ensino, judicial e político, dizendo ser necessária uma radicalidade filosófico-jurídica, reconstruindo a realidade intelectual a partir da desconstrução da existente, por meio de uma grande ruptura daqueles sistemas para a realização plena da Justiça, destacando a necessidade de restaurar a auctoritas dos jurisprudentes, dentro de uma determinada leitura do Estado Constitucional, para que este seja um Estado de Direito. A autoridade é fundamental na comunidade humana, como já exposto no artigo “Autoridade” (https://holonomia.com/2018/10/16/autoridade/), urgindo seja resgatada em sua concepção correta e original.

O retorno às origens é indispensável, e como se pode extrair do artigo “Estado, Cristo e culto” (https://holonomia.com/2018/07/30/estado-cristo-e-culto/) a noção moderna de Estado surge após a chamada Paz de Westfália (1648), havendo uma tendência em grande parte das doutrinas jurídica e política no sentido de negar ou ignorar, por influência do positivismo, os milênios de evolução do conhecimento que antecederam a modernidade, pois os fundamentos antigos da vida social, política e jurídica eram religiosos e metafísicos, pelo que seria exigida uma fundamentação na ciência positiva para se alcançar o último estágio mental da humanidade.

De outro lado, como tenho sustentado, o último estágio mental da humanidade, com adoção da verdadeira Ciência, foi atingido por Jesus Cristo em sua metodologia unitária e monoteísta de mundo, científica, metafísica e religiosa, pela qual conheceu a Verdade, integrando plenamente em sua vida a conduta ajustada à ordem cósmica, com o Logos, a Razão que fundamenta a realidade em todos os seus níveis, entendimento que pode ser vislumbrado no plano teórico-científico a partir da física moderna, na leitura dada por David Bohm, e da psicologia coletiva, consciente e inconsciente, sistematizada pelos princípios estudados por Carl Jung.

Contudo, ainda prevalece no meio universitário uma ojeriza à visão científica de mundo que seja compatível com ideias espirituais e religiosas, e com os sistemas filosóficos respectivos, no que se inclui o idealismo, especialmente o de Hegel, o que também explica a rejeição a Jung e a Bohm, sendo majoritária a ideologia materialista fundada em autores como Marx e Freud, e em um neodarwinismo eminentemente dogmático, e materialisticamente religioso.

Grandes autores e teorias do passado, e mais recentes, são rejeitados de plano, pois se considera que o verdadeiro conhecimento científico deve ser iniciado pelas leituras de mundo de Marx e Freud, o último amparado no niilismo existencialista de Nietzsche, sendo mister a rejeição dessas ideologias, para redirecionar o conhecimento à Verdade e à Ciência da totalidade do mundo, com o sentido espiritual nele existente.

Nessa mesma linha, Vera-Cruz desenvolve a ideia de Ius Commune Humanitatis como “conceito jurídico com raízes no Ius Romanum, cuja tematização, no plano metodológico, tem sua sedes materiae na História do Direito Romano e, no plano antropológico, na visão cristã do Homem” (Eduardo Vera-Cruz Pinto. História do Direito Comum da Humanidade: Ius Commune Humanitatis ou Lex Mundi? Vol. I. Tomo I. Lisboa: Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2003, pp. 170-171).

Divergindo parcialmente de Vera-Cruz, entendo que também no plano metodológico se inclui a visão cristã do Homem, o que decorre da leitura teológica segundo a qual a trindade não é um conceito cristão, e considerando que o Reino de Deus é deste mundo e será realizado na História da Humanidade, ao contrário do entendimento dominante no Cristianismo pelo qual o Reino não é deste mundo.

Ainda assim, porque Vera-Cruz concede a devida relevância histórica e teórica às ideias de Cristo, há compatibilidade filosófica e pragmática entre a minha e a sua abordagem do Direito, especialmente quando ele afirma:

Como conjunto de normas jurídicas materiais concretas, como um Direito de direitos, o Ius Commune Humanitatis preenche, mais que uma ideia de Direito como ideal de Justiça, uma instância de regulação objectiva ao serviço da dignidade humana, não de mera técnica de concertação de interesses e pacificação de conflitos ou descrição lógico-conceitual da realidade humana, mas meio de responsabilizar, fazendo recuar o inhumanum-iniustum” (Idem, pp. 171-172).

Trata-se de restaurar a cosmovisão de mundo que contém verdades morais absolutas, transcendendo o relativismo moral materialista em direção à natureza religiosa, transpessoal e mítica do humano, com seu fundo psíquico comum, unidade psíquica a ser trazida da inconsciência instintiva para a consciência da dignidade humana, esta decorrente do Monoteísmo e da visão espiritual de Cristo, maior herói e líder da Humanidade, o Messias judeu.

Enquanto a moderna historiografia, com o seu viés personalista, se inclina a representar os eventos coletivos da vida das nações e da humanidade como dependentes dos impulsos personalistas de monarcas e líderes, o mito reflete a realidade transpessoal através dos eventos singulares da vida do herói” (Erich Neumann. História da Origem da Consciência. 5 ed. Trad. Margit Martincic. São Paulo: Cultrix, 2014, p. 152).

É preciso, destarte, reinterpretar Cristo, deixando de vê-lo como membro de uma trindade para entendê-lo não como Deus e sim como o mais Humano dos humanos, e assim plena imagem e semelhança de Deus, significando o mito, enquanto realidade psíquica arquetípica, do herói que realiza em si a Humanidade completa, no tempo e fora do tempo, indicando o Caminho que deve ser seguido por todos os que pretendem se tornar plenamente humanos, portanto imagem e semelhança de Deus, encarnação do Logos, tanto no mundo psíquico interior como na realidade objetiva.

Política e juridicamente, Cristo ou Messias é o modelo de líder a ser imitado pelos governantes, realizando a Razão da Humanidade, o Logos, no plano público oficial, no Estado, na nação, na comunidade internacional, como serviço coletivo da dignidade humana, que independe de nacionalidade, segundo sua (da dignidade humana) concepção autêntica e cristã.

Daí porque o Cristianismo é a Ciência da transformação da realidade objetiva, adequando os comportamentos da vida material, nos níveis individual e coletivo, portanto normativo, à Ordem mais profunda do universo, ao Cosmos, ao Logos, a Teoria de Tudo que é não só Física como também Biológica, Psíquica e Jurídica.

Por isso está com razão Vera-Cruz ao dizer ser necessária a responsabilização de cada um, pelo Direito, para que todos sejam responsáveis pela dignidade humana, sejam heróis em suas batalhas individuais para alcançar a Humanidade, apontando para

uma responsabilidade mais intensa, não só jurídico-política mas também moral (ligação dever-moral, obrigação cívica e responsabilidade civil) (…), é preciso investir na consciência da ‘ilicitude’ como base da responsabilidade. (…)

A construção de um Ius Commune Humanitatis só pode partir de uma perspectiva não materialista da vida e do Homem, que dê primazia ao espiritual” (Obra citada, p. 173).

O Direito Comum da Humanidade exige, destarte, ontologicamente, um conceito de humanidade, um conceito de consciência, que seja compatível com o primeiro, e um sistema jurídico no qual a perspectiva da vida e do Homem seja fundada no Espírito, pelo que o Direito Comum da Humanidade é a transposição do Cristianismo de mera religião espiritual, de salvação individual, para o seu devido lugar como Ciência, também no aspecto religioso da vida humana, incluindo as realidades política e jurídica da vida social, porque o Cristo é o Messias, e este é essencialmente um conceito político-jurídico dentro da visão Monoteísta (e Espiritual) da realidade, que inclui a natureza e o governo das nações.

É preciso passar do não-sistema materialista de mundo para o único sistema de conhecimento possível, fundado na unidade de um Espírito e um Corpo, governado por Cristo, em nome Daquele que é Santo e Perfeito, Clemente e Misericordioso, o Autor do Direito e da Justiça.

Adorai a Iahweh no seu santo esplendor, terra inteira, tremei em sua frente! Dizei entre as nações: ‘Iahweh é Rei! O mundo está firme, jamais tremerá. Ele governa os povos com retidão’. Que o céu se alegre! Que a terra exulte! Estronde o mar, e o que ele contém! Que o campo festeje, e o que nele existe! As árvores da selva gritem de alegria, diante de Iahweh, pois ele vem, pois ele vem para julgar a terra: ele vai julgar o mundo com justiça, e as nações com sua verdade” (Sl 96, 9-13).

Natal e ano novo: começo e recomeço

O período de fim de ano representa uma mistura de sentimentos, positivos e negativos, pelo conflito inerente à natureza do Natal, sua origem enquanto comemoração pagã, de um lado, e seu significado dentro do Cristianismo, de outro.

Para entender um pouco sobre a origem do Natal e os problemas de sua incorporação ao Cristianismo, indico o vídeo “O Cristão pode comemorar o Natal?” (https://www.youtube.com/watch?v=xkMh9eqGo3c) do canal Dois Dedos de Teologia; sendo, ainda, interessante a leitura do livro “Cristãos, Judeus e Pagãos”, de Roque Frangiotti, no qual o tema do Natal também é abordado dentro do contexto do surgimento do Cristianismo.

O ponto positivo do Natal é trazer à memória pública o evento mais importante da História, depois do início da própria História, porque é o recomeço que nos liga ao começo de tudo, remetendo à origem da Humanidade e ao significado de nossa presença nesse planeta.

Natal é Teologia, é um tema ligado ao Criador e sua relação com a Humanidade, referindo-se ao conceito mais profundo de Humanidade. Não é Papai Noel, não é a melhor época para o comércio, ainda que o seja, não é a distribuição de presentes, ainda que o seja.

Natal é a Graça de Deus, o Presente de Deus para nós, nossa nova oportunidade, a despeito de não a merecermos, porque a primeira foi perdida com Adão, no começo que se desviou, no humano que caiu no erro, na tentação, assumindo uma postura egoísta, tentando exercer uma autonomia impossível, de sair do âmbito da Ordem Cósmica, a autonomia de ser superior à Natureza, de desobedecer a Deus, contrariando a Razão que Ele nos deu, o Logos.

Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Pois até a Lei havia pecado no mundo; o pecado, porém, não é levado em conta quando não existe lei. Todavia, a morte imperou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram de modo semelhante à transgressão de Adão, que é figura daquele que devia vir… Entretanto, não acontece com o dom o mesmo que com a falta. Se pela falta de um só todos morreram, com quanto maior profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se derramaram sobre todos” (Rm 5, 12-15).

O Natal, contudo, só é Natal em conexão com a Cruz, pois é esta que dá àquele momento do nascimento carnal, em unidade simbólica, com efeitos retroativos e atemporais, toda a glória do renascimento humano, na ressurreição, ainda que Jesus já em sua vida tenha manifestado essa mesma glória, cumprindo a vontade do Pai.

Tivesse Jesus caído em tentação, no deserto ou no monte das Oliveiras, ou no Getsêmani, não haveria Cruz ou Natal. E da ideia da tentação surge um grave problema teológico, porque Deus não pode ser tentado: “Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: ‘É Deus que me está tentando’, pois Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta’” (Ti 1, 13).

Se Jesus foi tentado, como narrado pelas Escrituras, então, ele não é Deus, Que não pode ser tentado, pelo que o Natal não representa o nascimento de Deus, e sim da Humanidade, que em Adão era mera figura, que foi realizada, tornada real, enfim, em Cristo. Se Jesus não pudesse errar de fato, caindo em tentação, seu mérito não seria o mesmo, pelo que a possibilidade de erro era real e concreta; contudo, Deus não está sujeito sequer à possibilidade de errar, ao contrário de Jesus, o que reforça que conceitualmente a trindade é teologicamente equivocada. Por isso o Natal significa o nascimento do Humano, em sua perfeição original, ideal, que enfim foi concretizada, na Cruz.

Existe, pois, simultaneamente, uma continuidade, que é o recomeço, e uma ruptura, o começo de novo, da Humanidade, pelo Natal, é o nascimento do alto, do Espírito: “Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito” (Jo 3, 5-6).

O Natal é o novo nascimento, depois que o vivo nasce da Vida, o mesmo vivo nasce na Vida, quando o Espírito vence a carne, quando a tentação é superada pela obediência a Deus, quando o indivíduo humano encarna em si a Humanidade de todos, respeitando a Ordem, encarnando o Logos.

Nesse período de renovação, quando um ciclo natural se completa, no solstício, e nasce um ano novo, que, de fato, é a continuidade do velho, mas com nova cara, devemos entender que o Natal é permanente, o Natal de Cristo ocorre todos os dias, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia, o tempo todo, no ciclo sem fim, que é a Vida eterna, quando aceitamos a Cruz, que, contraditoriamente, nos coloca diante do Amor de Deus, que é Infinito, porque o Natal só tem valor uma vez que a tentação foi superada, a Cruz foi aceita, permitindo que a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, fossem derramados sobre todos, tornando-nos Humanidade, tendo a Ressurreição manifestado o verdadeiro nascimento de Cristo, nascimento perpétuo, na anunciação, no natalício em si, quando vencida a tentação e na ressurreição, símbolo definitivo do Natal, o fruto da Vida.

De modo análogo também vós, meus irmãos, pelo corpo de Cristo fostes mortos para a Lei, para pertencerdes a outro, àquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de produzirmos frutos para Deus. Quando estávamos na carne, as paixões pecaminosas que através da Lei operavam em nossos membros produziram frutos de morte” (Rm 7, 4-5).

O verdadeiro Natal é a Ressurreição, é a aceitação do Espírito que supera a morte, “pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados” (1Cor 15, 16-17). Natal não é nascimento do perecível, e sim do imperecível; é a fé segundo a qual a Vida está no corpo e além do corpo mortal, do que passou pelo primeiro nascimento e pelo renascimento, é a fé na Vida que nasce do Espírito, diariamente, quando nos expomos à morte, pela Vida.

E nós mesmos, por que a todo momento nos expomos ao perigo? Diariamente estou exposto à morte, tão certo, irmãos, quanto vós sois a minha glória em Jesus Cristo nosso Senhor. De que me teria adiantado lutar contra os animais em Éfeso, se eu tivesse apenas interesses humanos? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (1Cor 15, 30-31).

E aqui reside um dos problemas das festas de fim de ano, quando comemos e bebemos além da conta, sem moderação, sem medida. Podemos, sim, celebrar a vida, a Graça de Deus em nós, em comunhão com os que amamos, o que pode ser feito também nos feriados de fim de ano, quando as famílias se reúnem para celebrar o Natal e o Ano Novo, mas sem que nos esqueçamos de vigiar, orar e dar o Bom exemplo, que deve ser a conduta permanente do Cristão, para não cairmos em pecado, vivendo apenas o mundo, em detrimento do Espírito, e para não sermos surpreendidos por um julgamento iminente, humano ou divino.

Cuidado para que vossos corações não fiquem pesados pela devassidão, pela embriaguez, pelas preocupações da vida, e não se abata repentinamente sobre vós aquele Dia, como um laço; pois ele sobrevirá a todos os habitantes da face de toda a terra. Ficai acordados, portanto, orando em todo momento, para terdes a força de escapar de tudo o que deve acontecer e de ficar de pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 34-36).

Que o fim de ano, o natal, o Natal, seja, enfim, um recomeço, o começo da Humanidade, para que estejamos acordados, sóbrios, ainda que alegres, em Paz, por meio de um compromisso, uma aliança com o melhor de nós, da Humanidade, dos filhos de Deus, desde já, agora, e para sempre, Amém!

Direito e entropia

Entropia é um conceito físico ligado ao de ordem de um dado sistema, e também ao limite de energia que pode ser convertido em trabalho. A segunda lei da termodinâmica estabelece que a entropia de um sistema isolado sempre aumenta, indicando o limite de energia disponível para realizar trabalho, conceito que engloba noções de força e deslocamento.

No entanto, é bom esclarecer que não existem sistemas isolados no mundo real, e o próprio Universo está sujeito a flutuações do vácuo quântico, havendo sérias dúvidas se o Universo como um todo é um sistema físico isolado, tornando a segunda lei da termodinâmica um tanto quanto artificial, parcialmente válida, mas com sérias limitações em níveis mais complexos do mundo e do conhecimento.

Ligada à entropia está a entalpia, que significa a máxima energia de um sistema termodinâmico passível de alteração por meio de reações químicas, indicando a energia atrelada ao sistema e à sua vizinhança.

Fazendo uma construção intelectual, é possível conectar os termos entropia com desordem e entalpia com ordem, de modo que criemos ideias como a de uma função entrópica, significando a capacidade de aumento da desordem, conforme a segunda lei da termodinâmica, e a de função entálpica, cujo sentido é a capacidade de aproveitamento útil da energia de um sistema. Temos assim dois polos conceituais, um indicando incremento da desordem e outro associado à construção da ordem.

Daí se conclui que simbolicamente o Direito tem uma associação ideológica com os conceitos físicos de entropia e entalpia, e das citadas funções entrópicas e entálpicas, porque também trata com noções de ordem e desordem.

Podemos falar, igualmente, em agentes entálpicos e agentes entrópicos, os primeiros aumentando a ordem do sistema jurídico e social e os últimos promovendo a desordem pública. Na Natureza, e na Vida, os dois agentes atuam, havendo uma Ordem mais ampla que transcende ordens e desordens locais, sendo cabível associar aquela Ordem ao conceito de Vida, a qual se mantém, apesar da morte, ou desordem, ocorrida em organismos individuais.

Existem, portanto, agentes de vida e de morte que atuam nos indivíduos, tidos como sistemas, que integram sistemas mais amplos; também sendo possível inferir que há agentes de Vida e de Morte, trabalhando contrariamente ou a favor do sentido da Ordem, da Vida, o sentido que parte da matéria “inanimada” em direção à consciência, a consciência da Ordem, da Lei, o que permitirá, ou não, o exercício de função entálpica ou entrópica pelo indivíduo, em relação a si mesmo e ao meio a que pertence.

A ideia de ordem está presente na Natureza, na ordem atômica, na ordem molecular orgânica, incluindo organismos dentro de organismos, como ocorre com nós humanos, que temos em nosso interior uma quantidade maior de bactérias do que de células propriamente humanas, e nossas vidas dependem desses micro-organismos, de sua ordem dentro de nós.

Há, pois, ordem interna e externa, que se refere àquela existente dentro de um corpo, vivo ou não, e nos seus arredores. Pode-se dizer que há uma ordem planetária, que inclui, dentre outras, questões políticas, econômicas e ambientais; ordem cósmica, associada à cosmologia. David Bohm, por sua vez, desenvolveu os conceitos de ordem implicada e ordem manifesta, ideia esboçada no artigo “A Ordem Implicada” (https://holonomia.com/2017/05/22/a-ordem-implicada/). No Direito está a ordem jurídica, ordem do relacionamento do indivíduo humano com sua espécie, e que por isso se vincula à citada Ordem da Vida.

O conceito de Ordem da Vida remete à Filosofia Primeira ou Teologia, remete a Deus, enquanto Logos, ou Ordem do Princípio que se mantém, sendo transcendente à aparente entropia, à morte aparente. É a Ordem que permanece.

Daí porque o Direito tem origem na Religião, na Teologia, que trata da Ordem eterna, possuindo, assim, função entálpica, de manutenção ou construção da Ordem, de desenvolvimento da Ordem da Vida, pressupondo que haja uma Ordem. De outro lado, mesmo para aqueles que entendem não existir Ordem, a função entálpica do Direito igualmente se faz presente e seria, no mínimo, para reduzir a desordem.

A função entálpica do Direito tem duplo aspecto, ainda que sua natureza seja essencialmente unitária, possuindo uma perspectiva corpuscular, material ou imanente e outra, a ela associada, ondulatória, espiritual e simbólica ou transcendente, fazendo incidir localmente – ao estabelecer os corretos comportamentos a serem adotados pelos indivíduos e ao prever e impor indenizações, prisões, penas, restituições, obrigações de fazer ou não fazer – a ordem maior, não local (mas também local) ou transcendente, que é o Logos ou Sabedoria coletiva, materializada na Constituição, na Lei, como concretude temporal da razão uniplurissubjetiva, da vontade geral ou universal.

O homem, destarte, tem a opção de ser agente entálpico ou entrópico, possui liberdade para exercer uma função entálpica ou entrópica, promover a vida ou causar morte, construir ou destruir, e adotar ambos os posicionamentos.

É importante reconhecer que a morte integra o processo vital, de modo que a Ordem da Vida inclui a morte de indivíduos, e da destruição faz surgir uma nova realidade.

Em verdade, em verdade, vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto. Quem ama sua vida a perde e quem odeia a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna” (Jo 12, 24-25).

Pode-se dizer que até a chegada da humanidade no Universo a liberdade na Ordem da Vida era restrita, e com no homem essa a liberdade se tornou plena, para matar, destruir a maior parte da vida na Terra, ou salvar, dando-se, perder sua vida neste mundo, em favor daquela Ordem. Nesse sentido, um Cristo ou Messias é um agente entálpico, que atua em favor da Vida. Jesus Cristo, outrossim, exerceu perfeitamente a função entálpica, promovendo plenamente a Ordem, o Cosmos, em sua vida, e assim realizou a própria Vida.

Deus, ou Logos, atua no Universo desde o Princípio, e está presente no homem, na medida em que este é templo de Seu Espírito, podendo encarnar a Ordem, sendo Vida, como Jesus Cristo. Em Deus, no Logos, há equilíbrio entre ordem e desordem, funcionando esta como um instrumento da Ordem, tendo a espécie humana a habilidade para seguir o Logos, que determinou e determina a evolução dos seres vivos até nós e além, ou para Dele se afastar, negando o Caminho evolutivo, podendo os homens adotarem uma rota de involução, bestializando-se, comportando-se como animais desprovidos da sensibilidade do Espírito, contrariando o Logos. Por essa razão é função do Direito regular o comportamento humano para promoção da Vida, em seu sentido evolutivo rumo à consciência da Ordem.

Para o desenvolvimento da Ordem é preciso trabalho, que a energia seja exercida, individual e coletivamente, em uma atividade que promova a Vida. Deus faz sua parte, mas cabe também a nós fazermos a nossa, sendo agentes entálpicos, agentes da evolução da humanidade, da espécie, seguindo o exemplo, o Método, Cristo. Nesse sentido, é preciso sacrifício, trabalho pelo futuro da espécie, com solidariedade, em favor dos outros, para e pela eternidade, sendo mister haver trabalho de contenção dos instintos animais e egoístas, para resistir com energia à inércia instintiva animal.

É necessário, para o sucesso dessa empreitada, conhecimento da Ordem, que se dá do nível individual para o coletivo, porque é primeiramente alcançado por um membro do grupo que, então, o difunde, propaga esse conhecimento, até que alcance o nível do grupo, da nação e, finalmente, o plano planetário, da humanidade.

O trabalho entálpico é exercido por líderes, bons líderes, bons pastores, por cristos, pelos reis e sacerdotes de Jesus Cristo, aqueles com conhecimento da Ordem que transcende a aparente entropia corporal, que encarnam a Vida.

Esse processo pode ser exemplificado pelos trabalhos de Abraão, que orientou sua família em direção ao Deus Vivo, ao Logos; depois o fazendo Moisés, não mais em relação a uma família, pois a parentela de Abraão já havia se desenvolvido, e sim quanto a uma nação; até que se manifestou Jesus, o Cristo, o Messias e Rei dos reis de todas as nações, conduzindo esse processo, em curso, para o nível planetário, para a humanidade. Assim, Abraão teve uma função entálpica, assim como a nação de Israel, culminando com Jesus Cristo, agente de uma Ordem que ainda não se manifestou, cujo desenvolvimento depende de destruições conceituais, filosóficas e teológicas, pontuais, que impedem o florescimento daquela Ordem, para que a Vida emerja na coletividade das nações.

O trabalho de desenvolvimento e propagação da Ordem na humanidade está em andamento, em vários níveis ao mesmo tempo, dentro de nós, em nossas famílias, nas nações e no âmbito da humanidade, na Filosofia, na Teologia e no Direito internacional. Esse trabalho depende de cada e um todos nós, depende de que sejamos agentes entálpicos, promovendo a Ordem em nós e no nosso entorno, na nossa vizinhança, perante nossos próximos, de modo que a Vida seja o fundamento do nosso comportamento, e de nossa família, da assembleia, da igreja, da nação, das Nações, enfim, que a própria Humanidade, como espécie, exerça plenamente a função entálpica que lhe cabe, sendo, finalmente, habitação do Deus vivo, anunciando que “Iahweh é reto: nosso Rochedo, nele não há injustiça” (Sl 92, 16).

Fundamentos da Educação

Fundamentos da Educação” é nome de um livro escrito por Gilberto Vieira Cotrim e Mário Parisi, obra que chegou a mim por empréstimo do advogado José Roque da Silva, e o presente artigo é escrito para contribuir com a matéria e para destacar algumas passagens da aludida obra, que trata do mais relevante tema da humanidade, uma vez que da educação depende a forma pela qual entendemos e interagimos com o mundo.

A nossa origem física, enquanto não disseminada a manipulação genética, pode ser determinada, mas o que herdaremos intelectualmente em grande medida depende de nós, de uma postura ativa em relação ao conhecimento, indicando as pesquisas científicas mais modernas que a plasticidade fenotípica, o modo como reagimos ao ambiente, ambiente o qual também é por nós construído, reação e construção variantes conforme a educação, a plasticidade fenotípica pode condicionar o acionamento ou não de determinados genes.

Em termos comportamentais mais amplos, somente por meio da educação é possível alcançar a liberdade, porque é através dela que limitamos as ações instintivas e nos permitimos agir segundo uma razão superior, que transcende a prisão da vontade corporal, e sua razão limitada, e um determinismo genético. Apenas com a contenção dos instintos animais egoístas, e bestiais, pode-se falar em exercício de liberdade, pois a atuação limitada àqueles comportamentos autômatos equipara-se a uma espécie de escravidão.

A pior escravidão é a que nos prende a más ideias, a pensamentos irracionais, ou de racionalidade limitada, como a meramente corporal, do prazer sensual, considerando que as más ideias podem comprometer nossa evolução rumo à consciência humana superior, impedindo o pleno desenvolvimento da humanidade, impedindo que construamos um ambiente material-intelectual mais saudável e equilibrado. A função do ensino e do aprendizado está intimamente ligada a uma ideia de mundo, a um sentido sobre as coisas, a uma filosofia de vida, presente esparsamente em todos níveis do processo educativo, de forma expressa ou não, devendo ser ressaltado que nos dias de hoje predomina a ausência de consciência de uma filosofia radical e integral no comportamento humano, incluído o plano educacional, o que se dá em grande parte por decorrência da insustentável manutenção da visão cartesiana e dualista da realidade no mundo educacional.

Contudo, certa variação ideológica pode ser útil, divergência já havida entre os gregos quanto à finalidade da educação, que não era unitária, porque em Atenas seu “objetivo estava voltado para o aprimoramento da razão, o cultivo das artes, ciência e filosofia”, enquanto para os cidadãos de Esparta “o alvo a ser atingido era o bom preparo físico para o exercício da vida militar” (Gilberto Vieira Cotrim e Mário Parisi. Fundamentos da educação: história e filosofia da educação. 11 ed. São Paulo: Saraiva, 1986, p. 19).

Em Roma, segundo os autores, a educação se dirigia à integração do indivíduo na sociedade, dando ênfase às virtudes do cidadão. Já na chamada Idade Média, quando foram criadas as Universidades, predominou o ensino religioso. Após, passou-se a valorizar o homem, atentando-se para as coisas da Terra, em detrimento das do Céu.

O desenvolvimento das ciências começa a substituir a estrutura teológica que sustentava a Idade Média. Esta preocupação científica ainda se faz presente nos tempos modernos, mas também já está sendo superada por concepções mais abrangentes” (Idem, p. 20).

Analisando esse processo em perspectiva, conclui-se que a filosofia religiosa medieval, que permitiu e criou a instituição Universidade, sem a qual a tecnologia atual não existiria, foi antecedente necessário para a revolução científica.

O foco da educação, assim, é dependente da Filosofia adotada, que, por sua vez, é associada a uma Filosofia Primeira, ou Teologia, como sustentou Aristóteles em sua Metafísica.

Do ponto de vista Cristão, com sua Filosofia e Teologia, o homem é criatura de Deus, sendo a educação, e a própria vida, pautada por dois mandamentos: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22, 34-40).

Tendo esse ponto como pressuposto, é possível compreender uma linha comum na transição do período chamado medieval para o moderno, a busca do entendimento da ordem do mundo, ditada por Deus, o que era um dos aspectos da Filosofia que permitiu o desenvolvimento da revolução científica. Por trás, e acima, das propostas científicas de Descartes, Galileu e Newton havia um universo no qual Deus exercia uma função relevante, seja a partir de uma cosmovisão teísta, seja deísta.

Em um polo oposto, no século XX, na atividade científica, informalmente, foi proibida qualquer menção a Deus, por mais implícita que fosse, sob pena de exclusão da comunidade acadêmica, dominada por uma filosofia de mundo materialista, com reflexos diretos e indiretos na educação. As questões morais, as virtudes pessoais do cientista, no mundo materialista, passaram a ser tidas como irrelevantes na ciência.

Contudo, desde o neolítico, o ensino já era praticado “através da imitação”, sendo usada inicialmente para “transmitir conhecimentos sobre o uso e a fabricação de armas marciais como o arco e a lança” (Idem, p. 39), educação essa com certa limitação, pois a mera repetição de movimentos externos não permite a compreensão integral do objeto de estudo, carecendo toda prática de uma teoria, como racionalização simbólica daquela prática. Ainda assim, a educação prática, com sua teoria, mesmo que implícita, também desenvolveu tecnologias, usadas para manipulação do mundo exterior, para melhoria das condições de vida.

Posteriormente, abrangendo conhecimentos relativos a causas sutis dos fenômenos, surgiu uma educação simbólica mais abstrata, ligada ao culto religioso, na tentativa de dominar o desconhecido, o que pode ser entendido como uma forma de tecnologia do plano imaterial, da realidade sutil, do universo psíquico, que, segundo a mente primitiva, de algum modo estava interligado com o físico.

A educação Cristã continua se pautando por essa conexão entre Espírito e Corpo, indicando que o corpo encarna espírito, que as ações corporais são manifestações de uma realidade invisível, espiritual. Ao dizer “quem me vê vê aquele que me enviou” (Jo 12, 45) e “quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9), Jesus falou que pela realidade visível é possível compreender a realidade invisível, ensinando que seu exemplo é o método pedagógico correto para ministrar essa sabedoria, daí a emblemática fala “eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes” (Jo 14, 6-7).

Portanto, Jesus mostrou a importância fundamental do exemplo na educação, por seu próprio exemplo ou modelo de vida e comportamento social. “Aquele que não toma a sua cruz e me segue não é digno de mim” (Mt 10, 38). “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).

Educação significa, igualmente, aumento de conhecimento, a inclusão de novos dados em uma forma mais ampla de compreensão do mundo, ou seja, unem-se coisas conhecidas a novas coisas, aprimorando o entendimento sobre os fenômenos.

Tudo aquilo que acrescenta alguma novidade a um determinado repertório, denominamos informação e a parte que não acrescenta novidade, chamamos de redundância. Toda mensagem, para ser eficiente, deve possuir informação e um certo grau de redundância. Mensagens excessivamente carregadas de informação tendem a ser totalmente rejeitadas pelo receptor” (Idem, p. 139).

Mas algumas questões redundantes podem ser deturpadas ao longo do tempo, como se vê na ideia recente que defende (“educa”) o aborto como um “direito da mulher”, novidade esta associada à visão materialista de mundo, em que os valores são invertidos, tendo mais importância a vontade egoísta da mulher que abusou da atividade sexual do que a vida humana em gestação.

Daí a necessidade de “elaboração de uma escala de valores, contendo uma hierarquia nas áreas mais importantes de estudo” (Idem, p. 251), como sustentado pelo filósofo inglês Herbert Spencer, ditando a seguinte ordem de importância do conhecimento: 1- autopreservação direta, para a manutenção da vida, incluídas questões de saúde e higiene; 2- autopreservação indireta, pelos conhecimentos que auxiliam a satisfação das necessidades básicas; 3- criação dos filhos, porque fundamental para formar o caráter dos cidadãos; 4- vida social, pela necessidade de se ter consciência de direitos e deveres na comunidade; 5- horas de lazer, pois os conhecimentos relativos às artes completam o encanto da vida.

Uma escala de valores é, destarte, fundamental para que a orientação da pessoa perante o mundo seja adequada, e essa escala de valores é dependente das escolhas filosóficas das pessoas e das sociedades. O problema do mundo atual está em priorizar os bens materiais e o lazer, e essa inversão, segundo a escala de Spencer, aumentou os riscos para a preservação da vida humana, individual e coletivamente.

O objetivo da educação, assim, é conservar a vida, melhorando-a. O valor a ser alcançado pela educação é o aumento da qualidade de vida de cada um e todos nós.

Para John Dewey, o sentido da vida é a sua própria continuidade, e essa continuidade só pode ser conseguida pela renovação constante. A sociedade se perpetua por um processo de transmissão, onde os mais jovens recebem dos mais velhos os hábitos de pensar, sentir e agir e, também, pela renovação da experiência, que tem por fim recriar toda a herança recebida. No mais amplo sentido, educação é o meio de continuidade e renovação da vida social e é o próprio processo da vida em comum, porque amplia e enriquece a experiência” (Idem, p. 285).

Dewey destaca a importância da meta no processo educacional, como uma antecipação do resultado do processo, sendo transcrito, no livro multicitado, um trecho de sua autoria no qual diz que “agir com uma meta é a mesma coisa que agir inteligentemente” (Idem, p. 286).

Portanto, o objetivo do processo educacional é fazer de cada pessoa um Cristo, a encarnação do Logos, uma pessoa que age com Inteligência, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, O Profeta do Monoteísmo, de modo que todos manifestemos o Espírito Santo, a Razão Santa, manifestemos o próprio Deus. Essa é a meta proposta por Cristo para nós:

Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 20-21).

O Cristianismo pressupõe a existência de ordem no mundo, que há cosmos, e que esse cosmos foi criado por Uma Inteligência Superior, segundo a qual é mantido o funcionamento de tudo o que existe, A Qual podemos manifestar em nossa vida. Portanto, para o Cristianismo no cosmos existe uma gestalt, palavra que significa “configuração, forma geral, modelo organizado.

Para os psicólogos da teoria da gestalt, a aprendizagem ocorre mediante a percepção, pelo indivíduo, de um todo global” (Idem, p. 310).

Assim, os fatos que percebemos não são isolados, mas estão interligados com outros fatos, tendo as qualidades de uma coisa relação com as das demais coisas. Para essa escola, “a percepção passa a ser o resultado da interação entre indivíduo receptor e ambiente emissor” (Idem, p. 311), conceito que se adéqua perfeitamente ao da medição quântica.

Reforça-se, assim, enormemente, a importância da educação, e do mundo interior, da filosofia que orienta a ação da pessoa perante o mundo, porque “o ser humano, para a gestalt, não é o produto do meio, mas sim o produto da sua interação com o meio (…), os teóricos da gestalt afirmam que aprendizagem é o desenvolvimento de insights, palavra inglesa que significa discernimento, compreensão, penetração no entendimento de um assunto” (Ibidem).

O insight é a iluminação de um problema, ocorre quando “o indivíduo compreende as relações existentes entre todos os fatores de uma situação, estabelecendo entre eles um vínculo solucionador” (Idem, pp. 311-312).

Mas o insight é um processo individual, somente podendo ser alcançado pela pessoa, internamente, espiritualmente, num processo verdadeiramente místico, religioso, porque a verdadeira educação é esse processo de reunificação do sentido da vida, para a vivência segundo o sentido da unidade da vida, sobre quem somos, de onde viemos, e para onde vamos, que é dado com perfeição pelo Cristianismo, significando a educação para o encontro com o Deus Altíssimo, que é o Logos, ou Sabedoria do Cosmos, presente inclusive em nós.

De um só ele fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, fixando os tempos anteriormente determinados e os limites do seu habitat. Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’” (At 17, 26-28).

Racionalidade

Racionalidade é a qualidade do que é racional ou lógico, é uma questão essencial no universo científico, no mundo das ciências em geral, porque o conceito de irracionalidade é associado ao de coisas anticientíficas. Atualmente, é predominante a ideia segundo a qual nossa vida é regida pelos conhecimentos científicos e pela razão.

Mas se pararmos para pensar mais detidamente chegaremos à conclusão de que nossa vida é pautada pela irracionalidade em um nível absurdamente elevado, ainda que sejamos inconscientes desse fato.

Comecemos pelos valores mais elevados, a vida humana, por exemplo. Segundo a Constituição Federal, a República Federativa do Brasil tem como fundamentos, dentre outros, a cidadania e a dignidade da pessoa humana, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida etc.

Entretanto, em 2017, mais de sessenta mil pessoas morreram assassinadas e outras quarenta mil pessoas faleceram em decorrência de acidentes de trânsito, no Brasil. Isso é mais do que as mortes ocorridas na guerra da Síria no mesmo período. Tal número é próximo daqueles de anos anteriores, e ainda assim a sociedade não se mobilizou para enfrentar seriamente esse problema monumental que devasta dezenas de milhares de famílias anualmente. Se somarmos o número de roubos, agressões físicas e morais, estupros etc, a situação se agrava consideravelmente.

Não bastasse isso, a maioria das mortes não é devidamente esclarecida, e os culpados não são responsabilizados, sendo mínima a porcentagem dos autores de homicídios condenados por seus crimes, especialmente em cidades de maior porte. Assim, contraditoriamente, nas maiores cidades, os locais teoricamente mais civilizados, mata-se mais impunemente do que em outras localidades.

Uma das notícias do dia de hoje foi a do ministro do STF, conhecido pelas decisões em favor da soltura de réus já condenados, inclusive após decisões de tribunais, que, depois de receber a crítica de um advogado em voo doméstico dizendo que “o STF é uma vergonha”, imediatamente ameaçou o cidadão de prisão….

Nesse mesmo sentido, da incoerência entre a teoria e a prática, a humanidade consome mais energia do que o planeta pode sustentar equilibradamente, produzindo, consequentemente, uma enorme quantidade de resíduos, ou lixo, que vêm se acumulando na terra, na água, no ar e até mesmo na órbita do planeta, com efeitos danosos à saúde e à vida de milhões de pessoas.

Para dar conta de nosso consumo nos padrões atuais, a Terra deveria ser 70% (setenta por cento) maior (https://super.abril.com.br/ciencia/para-dar-conta-do-nosso-consumo-a-terra-teria-de-ser-70-maior/), situação para a qual o consumo brasileiro também contribui. Todavia, o planeta não é 70% (setenta por cento) maior…

Nossa conduta, enquanto humanidade, portanto, é flagrantemente irresponsável, e irracional, porque estamos destruindo nossa própria casa, e permitindo a morte de nosso irmãos, porque para os cristãos todos os seres humanos são nossos irmãos, na medida em que Deus é Pai de nós todos.

Outrossim, por maiores que foram os avanços científicos dos últimos séculos, os efeitos nefastos dessa atividade seguiram os respectivos benefícios, de modo que nossa racionalidade não conseguiu filtrar os danos, para que vivamos no paraíso possível, o qual pode nos ser proporcionado pela nossa tecnologia, mostrando que a racionalidade média adotada pela população mundial, incluída a do Brasil, não é tão racional assim.

Não é à toa que estamos entrando no que é chamada de “A era da burrice” (https://holonomia.com/2018/11/07/a-era-da-burrice/), de modo que os sintomas da irracionalidade do mundo estão por todo lado.

A causa dessa situação é a irracionalidade, ou pecado, que se repete nas vidas individuais e coletiva, como exposto no artigo “Pecado, erro, racionalidade e Verdade” (https://holonomia.com/2017/11/14/pecado-erro-racionalidade-e-verdade/).

E aqui deve ser destacado que o problema fundamental da humanidade é a falta de humanidade dos humanos, é a falta de fraternidade, é a falta de Jesus Cristo, enquanto encarnação do Verbo, encarnação do Logos, encarnação da razão na nossa carne, é a falta de ações realmente racionais.

Nesse ponto, há que se reconhecer que o Cristianismo é a Ciência da Humanidade, do ser humano que encarna a Razão, ou Logos, do indivíduo que é líder, que é Rei, é Bom Pastor, é Messias, com efeitos positivos sobre as demais pessoas, porque o Cristianismo é a Religião que une o Homem a Deus, ou Logos, unindo, do mesmo modo, os homens entre si, e fazendo do homem um Ser de Razão, um Ser do Logos, em uma razão que transcende o materialismo rasteiro de nossos dias, que supera os limites da própria relatividade einsteiniana, alcançando uma realidade, e uma racionalidade, que nossa ciência humana majoritária ainda não alcançou, e daí decorre sua irracionalidade.

David Bohm entendeu essa realidade, como pode ser visto no vídeo (em inglês) https://www.youtube.com/watch?v=mDKB7GcHNac, sustentando a necessidade de que sejamos conscientes da totalidade de que fazemos parte.

Para que sejamos realmente racionais, destarte, devemos compreender que fazemos parte de um todo maior. Ainda que Bohm entenda não haver um pecado original, ele afirma que o desejo de competir é um erro, pelo que sua ideia científica se adéqua ao Cristianismo, que exige solidariedade, amor ao próximo, para nos aproximarmos de Deus, da perfeição, do todo maior.

É possível, portanto, que atinjamos a racionalidade no mundo humano, científico, social e religioso, que vivamos um paraíso na Terra, mas para isso é indispensável que nossas vidas sejam expressão das melhores ideias, verdadeiramente racionais e iluminadas, que nossas ações representem, individual e coletivamente, a encarnação de boas ideias, de boas razões.

O Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo homem; ele vinha ao mundo. Ele estava no mundo e o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam. Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que creem em seu nome, ele, que não foi gerado nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou em nós; e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como Filho unigênito, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 9-14).

Sobre a autoridade secular

O título deste artigo é inspirado no texto respectivo de Lutero “Sobre a autoridade secular: até que ponto se estende a Obediência a ela?”, que está reunido em um livro que também contém o escrito de Calvino “Sobre o governo civil”.

Ainda que o tema dos textos, em decorrência da palavra “sobre”, usada na tradução para o português, seja “a respeito da” autoridade civil ou secular, curiosamente, nossa língua permite um outro significado para o nome do artigo, filosoficamente mais profundo, ao indicar algo ou alguém que esteja “acima da” autoridade secular, que “domine a” autoridade secular.

Inicialmente, e para esclarecimento histórico, o leitor é remetido ao artigo “Autoridade” (https://holonomia.com/2018/10/16/autoridade/), que distingue os conceitos de autoridade, enquanto saber socialmente reconhecido baseado na experiência, e império, ligado à ideia de soberania e de poder máximo da comunidade, ambos derivados de palavras latinas associadas ao direito romano.

No glossário do texto referido no primeiro parágrafo é informado que Lutero não faz essa “distinção entre ‘autoridade’ e ‘poder’” (que é a mesma distinção indicada no artigo citado “Autoridade”), e que quando “Lutero fala de Oberkeit, pensa em termos de indivíduos – e, na maioria das vezes, de um príncipe (Fürst) ou de um senhor (Herr) – dotados de poder” (Sobre a autoridade secular / de Martinho Lutero. Sobre o governo civil / de João Calvino. Trad. Hélio de Marco Leite de Barros e Carlos Eduardo Silveira Matos. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. XLIX).

Tirante o poder público bestial que tem seu fundamento na força física, todo governo se ampara em algum princípio racional, a partir do qual é justificado o próprio governo. No tempo do absolutismo, e nas monarquias antigas em geral, por exemplo, havia a narrativa segundo a qual era divina a origem do poder do rei, pelo que se permite dizer que Deus se colocava sobre a autoridade secular. Atualmente, segundo a fórmula democrática, pela qual todo poder emana do povo, este, o povo, portanto, se situa sobre o governo civil. Em ambos os casos, destarte, há um princípio racional pairando acima do governo humano.

Deve ser ressaltada, por oportuna, a crítica ao conceito assente de democracia, levantado no texto “A democracia contemporânea como falácia informal” (https://holonomia.com/2016/10/02/a-democracia-contemporanea-como-falacia-informal/), concluindo que “a verdadeira democracia é não apenas formal, mas também material, é uma teocracia, em que prevalece o governo de Deus, do Logos, quando os governantes, escolhidos pelo mérito social (o que deve ser feito pelo voto popular, segundo a Constituição) e não por marketing ou abuso de poder, são verdadeiramente ministros (servos) da coletividade, agindo para construir uma sociedade livre, justa e solidária, como manda a nossa Lei Maior, para realizar o Reino de Deus”.

Por isso, em um só lance linguístico, é possível entender que a autoridade secular não se basta a si mesma enquanto poder público, sendo dependente de uma autoridade superior ou de um princípio racional que lhe dê sustentação pública, e que logicamente está sobre ela (autoridade secular).

Aqui já vale ressaltar o profundo conhecimento político demonstrado por Jesus Cristo diante de Pilatos, reconhecendo que toda autoridade humana decorre de outra que lhe é superior: “Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto; por isso, quem a ti me entregou tem maior pecado” (Jo 19, 11).

Tanto Lutero como Calvino fundamentam seus escritos nas passagens bíblicas atribuídas aos apóstolos Paulo e Pedro, exigindo que os Cristãos sejam obedientes aos poderes humanos: “Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13, 1); e “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como enviados seus para a punição dos malfeitores e para o louvor dos que fazem o bem, pois esta é a vontade de Deus que, fazendo o bem, tapeis a boca à ignorância dos insensatos” (1Pe 2, 13-15).

Lutero afirma que sua tarefa inicial é encontrar fundamento para “a lei secular e a Espada, de modo que remova qualquer possível dúvida quanto a ambas estarem no mundo como resultado da vontade e da providência divinas” (Obra citada, p. 8), dizendo que “a Espada e a lei seculares devem ser empregadas de acordo com a vontade de Deus: para punir os malfeitores e proteger os justos” (Idem, p. 10).

Vale salientar que Lutero segue a teoria de Agostinho das duas cidades, proposta que não tem amparo bíblico e que mais se aproxima de uma ideia gnóstica maniqueísta, porque aquele declara que “Deus instituiu os dois governos, o (governo) espiritual, que molda os verdadeiros cristãos e as pessoas justas por meio do Espírito Santo sob Cristo, e o governo secular (weltlich), que reprime os maus e os não-cristãos e os obriga a conservarem-se exteriormente em paz e a permanecerem quietos, gostem ou não disso” (Idem, p. 15).

Calvino adota a mesma linha, não aceitando que a era messiânica ocorra neste mundo, como ainda é esperado pelos judeus:

Mas qualquer um que saiba como distinguir entre a alma e o corpo, entre esta vida transitória atual e a vida eterna que está por vir, não terá dificuldade em compreender que o reino espiritual de Cristo e o governo civil são coisas muitíssimo distantes uma da outra. É uma insensatez judaica esperar o reino de Cristo entre as coisas que constituem este mundo e encarcerá-lo entre elas” (Idem, p. 73).

Entretanto, ao contrário do que sustentam os corifeus protestantes, no que seguem, como visto, Agostinho de Hipona, cuja filosofia sustenta a teologia católica romana, as ideias de que “Deus instituiu dois governos” e que “o reino espiritual de Cristo e o governo civil são coisas muitíssimo distantes uma da outra” são deturpações da Teologia monoteísta, e uma fuga conceitual do que seja o próprio Cristianismo, ainda que, certamente, o Reino de Cristo não esteja encarcerado nas coisas que constituem este mundo, o que não quer dizer que não se realize também nas coisas deste mundo.

Jesus é o filho do rei Davi, e O Cristo, O Messias ou O Ungido (termos sinônimos derivados das línguas grega, hebraica e latina) de Deus, porque a Davi, um ungido, ou um cristo, ou um messias do Altíssimo, foi prometida uma descendência que herdaria seu reino (de Davi), fazendo-o Reino de Deus e estendendo-o sobre toda a Terra, devendo ser destacado que Davi reconhecia que Saul, enquanto rei de Israel, era também ungido, messias ou cristo do Senhor. O próprio Calvino cita passagens nesse sentido, dizendo que “pelo próprio ato de elevar alguém à exaltada categoria de rei, o Senhor nos revela que é sua vontade que aquela pessoa governe” (Idem, p. 123), citando passagens do antigo testamento. “Que Iahweh me livre de proceder assim com o meu senhor, de levantar a mão contra ele, porque é o ungido de Iahweh” (2Sm 24, 7). “Quem levantaria a sua mão contra o ungido de Iahweh e ficaria impune?” (2Sm 26, 9).

A grande questão que separa os cristos, ungidos ou messias de Deus entre si está na consciência ou não de o serem, o fato de saberem ou não a Autoridade Real que está sobre eles, a diferença consiste no fato de que apenas alguns sujeitos da História, enquanto líderes em posição de poder, têm consciência de que agem em nome de Deus, porque muitos são inconscientes dessa realidade, a maioria absoluta.

Vale aqui, parcialmente, o que declarou Lutero:

o mundo e as multidões são não-cristãos e permanecerão assim, quer sejam compostos de cristãos batizados e nominais, quer não o sejam. Os cristãos, como se costuma dizer, são poucos e encontrados a largos intervalos, e o mundo não admitirá um governo cristão presidindo um território ou uma grande multidão, e muito menos a totalidade do mundo” (Idem, pp. 16-17 – negrito meu).

Quanto à primeira parte da citação (negritada), Lutero está mais correto, porque é difícil encontrar cristãos, de fato, “existem poucos cristãos sobre a face da terra” (Idem, p. 31). Já no segundo ponto, ele nega a essência do Evangelho, que é exatamente o governo mundial dos cristãos, dos autênticos muçulmanos, ou servos do Clemente, o Misericordioso, conforme a interpretação unitária do Livro, em consonância com o ensinamento dos Mensageiros de Deus.

Ó adeptos do Livro, não vos excedais em vossa religião, e não digais de Deus senão a verdade. O Messias, Jesus, o filho de Maria, nada mais era do que o Mensageiro de Deus e Sua palavra e um sopro de Seu espírito que Ele fez descer sobre Maria. Acreditai, pois, em Deus e em Seus Mensageiros e não digais: ‘Trindade’. Abstende-vos disso. É melhor para vós. Deus é um Deus único. Glorificado seja! Teria um filho? Como! A Ele pertence tudo o que está nos céus e tudo o que está na terra. Basta-vos Deus por defensor. O Messias nunca se envergonhará de ser um servo de Deus” (Sura 4, 171-172).

No Judaísmo, do mesmo modo, Deus é o proprietário da Terra, exercendo autoridade sobre as nações, havendo a presunção da autoridade de Deus em relação aos governantes, incluídos os líderes inimigos que puniram o povo de Israel em decorrência da sua desobediência, porque Deus ditou a Lei da nação, a Torá, para ser obedecida pelo povo, não havendo outra Lei ou Governo fora de Deus, decorrendo da Providência o próprio fato de se estar no poder humano, pelo que este deve ser exercido não em nome dos homens mas em nome de Deus, já implicando esse fato no reconhecimento da autoridade, enquanto ungida, messias ou crista por Deus, como afirmado por Calvino, Paulo, Pedro e o próprio Jesus. Existe uma enorme responsabilidade pessoal, de outro lado, para os detentores do poder, como o disseram o tio Ben, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, e Jesus Cristo:

Aquele servo que conheceu a vontade de seu senhor, mas não se preparou e não agiu conforme sua vontade, será açoitado muitas vezes. Todavia, aquele que não a conheceu e tiver feito coisas dignas de chicotadas, será açoitado poucas vezes. Àquele a quem muito se deu, muito será pedido, e a quem muito se houver confiado, mais será reclamado” (Lc 12, 47-48).

O princípio Cristão é o princípio da responsabilidade eterna pelos próprios atos, e daí a necessidade de busca da perfeição e da santidade já aqui, porque “todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão ‘Cretino!’ estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar ‘Louco’ terá de responder na geena de fogo” (Mt 5, 22).

Tudo o que fazemos aqui repercute na eternidade, nada se perde, havendo influências quânticas, por ora imperceptíveis, entre campos infinitos, porque a matéria corporal limitada e a energia infinita são uma só coisa em um nível superior de consciência e conhecimento, existindo uma ligação direta entre nossos comportamentos neste mundo e o Reino de Deus, aqui e na eternidade, que está dentro de nós, pelo que também o governo civil é diretamente conectado ao mundo espiritual, podendo estar, portanto, provisoriamente submetido aos principados e potestades que servem ao Diabo, ao egoísmo, à mentira, à enganação, mas se sujeitam na eternidade a Cristo, à Verdade, ao Logos de Deus, e ao próprio Deus, o que também ocorrerá no plano material, em breve.

Assim, Deus ou o Logos é sobre a autoridade secular, ainda que seja permitido que, por um tempo, esta se submeta aos principados e potestades bestiais, e o bom governante, o bom pastor, o governo cristão, e humano, é aquele que reconhece a Autoridade sobre ele, entendendo que Cristo é acima de tudo e que Deus é acima de todos, cabendo ao povo cristão, destarte, escolher os governantes segundo esse princípio, para que não uma vontade humana parcial esteja, e sim para que Deus seja, sempre, sobre a autoridade secular.

Religião e civilização

Religião, cultura e civilização são termos conexos, que se referem a aspectos essenciais da vida social, ainda que o primeiro seja visto por muitos com restrição, associando-o a uma forma antiga de pensamento irracional.

Historicamente, a religião está na origem da nossa civilização, tanto na formação do direito romano, como pode ser constatado no clássico livro “A Cidade Antiga”, do historiador Numa-Denys Fustel de Coulanges, obra que pode ser baixada gratuitamente pela internet, quanto pela influência do pensamento judaico-cristão, tendo sido o pensamento religioso fundamental para a revolução científica da modernidade, como destacado no artigo “Revolução e evolução” (https://holonomia.com/2017/08/03/revolucao-e-evolucao/), revolução que permanece em curso, porque o significado das coisas, após a física do século XX, ainda não foi compreendido, urgindo sejam reformuladas as hipóteses filosóficas a partir dos conhecimentos adquiridos desde o quantum de ação.

Outrossim, o entendimento da realidade passa pela compreensão da física quântica e da relatividade, e penso que nesse aspecto David Bohm, um dos maiores cientistas-filósofos dos últimos tempos, é uma referência que deve ser destacada, apesar de ter sido ignorado pela comunidade científica tradicional. Um documentário está sendo produzido para homenagear Bohm (http://thebohmdocumentary.org/), podendo ser visto na amostra disponibilizada no citado sítio eletrônico que Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica, diante da proposta científica de Bohm, e do fato de não poder desmenti-la, decidiu por um boicote às ideias de David Bohm, dizendo que este deveria ser ignorado. No trecho liberado, Lee Nichol afirma que talvez sejam necessários quinhentos anos para que a humanidade possa apreciar o trabalho de Bohm.

Considero as ideias de Bohm fundamentais para a compreensão do mundo, e mesmo do Cristianismo, cujas escrituras são citadas por ele em algumas oportunidades, permitindo a unificação de conceitos religiosos e científicos, para formação de uma verdadeira e integral civilização humana, e isso talvez seja um dos motivos de sua rejeição pela comunidade científica, mesmo sendo ele considerado por Einstein seu filho espiritual, como afirmado no documentário.

Existe um canal no YouTube, “David Bohm Society”, com vários áudios de palestras e diálogos com Bohm, que valem ser ouvidos, para os que têm boa compreensão auditiva da língua inglesa. No áudio “David Bohm: On Meaning, Culture, Conditioning, and Insight” (https://www.youtube.com/watch?v=v_IU_z7PQh4 – o áudio foi editado cortando as perguntas e deixando apenas as falas de Bohm, o que dificulta o entendimento), o tema da cultura é enfrentado, identificando-o com a ideia de significado das coisas. Ele afirma que cultura é significado compartilhado, com sentidos pressupostos, condicionados, sustentando que esse condicionamento pode prejudicar a correta percepção da realidade.

É possível dizer que a religião, da mesma forma, está ligada a significados compartilhados e pressupostos, o que é também a base da civilização, enquanto vida em comunidade fundada em uma organização simbólica de mundo, com valores hierarquicamente pressupostos, os quais os membros do grupo humano esperam sejam respeitados, sob pena de violação da civilidade, e de incursão em barbaridade.

Civilização decorre do termo latino “civis”, ligado a cidade e cidadão. No tempo romano, os locais ocupados e controlados por Roma eram considerados uma extensão daquela cidade, porque onde havia controle territorial por Roma era considerado integrante dessa “cidade”, e daí a existência de uma civilização romana. A civilização é a significação cósmica, como ordem geral do mundo, que uma comunidade pública compartilha, que pode ser ampliada nos planos espacial e humano, dominando um amplo espectro da vida humana social.

A ideia de civilização está relacionada à de significados mais amplos, de uma cultura total, plena, que abrange todos os aspectos da vida, ao contrário de culturas parciais, restritas a algum ou alguns aspectos da vida. Uma cultura considerada correta, no sentido de uma forma correta de trabalhar simbólica e praticamente os fenômenos da vida, e da natureza, pode ampliar sua âmbito de influência para alcançar um caráter civilizatório, quando os valores e significados de mundo daquela cultura são amplamente compartilhados em várias comunidades humanas ligadas por vínculos linguísticos, econômicos, religiosos, jurídicos etc.

Uma civilização é, portanto, uma cultura, como um complexo de conhecimentos e atitudes perante o mundo, que passa a ser aceita como correta, verdadeira, cujo movimento, enquanto atividade exercida ao longo do tempo, desenvolve a humanidade de todos, enquanto aquilo que contraria os valores civilizacionais é considerado bárbaro, associado à barbárie, à selvageria, à crueldade.

Quando duas culturas amplas, ou duas civilizações, se encontram, pode haver conflito, decorrente das diferentes formas de significar e valorar os fenômenos da vida. A guerra cultural é, assim, uma guerra espiritual, sobre a interpretação do mundo, o sentido da humanidade, sobre o significado total das coisas, ou a ausência de significado.

A civilização humana, ou Humanidade, surge, portanto, de várias guerras culturais, e será considerada, ao final, como autêntica civilização aquela que melhor expressar, em termos teóricos e práticos, os melhores conceitos e resultados sobre a melhoria efetiva da vida humana em sociedade. Em geral são necessários muitos anos, talvez séculos, para que o julgamento de uma civilização, ou de alguns aspectos de suas práticas sociais, possa ser feito adequadamente, quanto aos efeitos benéficos ou prejudiciais para manutenção da vida humana no planeta.

A civilização humana é o resultado das interferências recíprocas entre as culturas antigas, da Pérsia, Babilônia e Egito, por exemplo, sucedidas pelos domínios de Grécia e Roma, depois por uma ideia de Cristianismo, e na fase atual é fortemente associada ao materialismo cientificista, ainda que no plano religioso permaneça uma concepção de Cristianismo, que é parcial, decorrente das cisões agostinianas e cartesianas, insuficiente para o desenvolvimento da humanidade. Ainda que nominalmente a religião predominante da população ocidental seja alguma forma de Cristianismo; na prática, de fato, domina uma religião fundada no materialismo mecanicista.

Nesse sentido, é indispensável que o mundo Cristão reflita sobre a proposta civilizacional de Agostinho de Hipona, e sobre o significado mais profundo da Religião do Messias, pois quanto mais avançam os conhecimentos científicos, e quanto maior o tempo que nos separa do tempo de Agostinho, mais clara fica a insuficiência filosófica e teológica de se estabelecer uma dupla cidadania sobre as pessoas, uma cidade das almas e outra dos corpos, porque o Cristianismo é uma religião política e espiritual, e não apenas uma questão de salvação individual das almas.

De Salomão. Ó Deus, concede ao rei teu julgamento e a tua justiça ao filho do rei; que ele governe teu povo com justiça, e teus pobres conforme o direito. Montanhas e colinas, trazei a paz ao povo. Com justiça ele julgue os pobres do povo, salve os filhos do indigente e esmague seus opressores” (Sl 72, 1-4).

E sobre o jejum, uma atividade tipicamente religiosa, espiritual, assim Iahweh falou, por meio do profeta:

Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne? Se fizeres isto, a tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente, a tua justiça irá à tua frente e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda. Então clamarás e Iahweh responderá, clamarás por socorro e ele dirá: ‘Eis-me aqui!’ Isto, se afastares do meio de ti o jugo, o gesto ameaçador e a linguagem iníqua; se tu te privares para o faminto, e se tu saciares o oprimido, a tua luz brilhará nas trevas, a escuridão será para ti como a claridade do meio-dia” (Is 58, 6-10).

Por mais que a caridade religiosa tenha sido socialmente útil, pela criação de universidades, hospitais, pela alimentação dos pobres, em virtude da ação de igrejas Cristãs e seus membros, o Cristianismo somente será pleno quando for, em sua correta prática, pautada pela Mensagem, pelo Evangelho, pela repetição do exemplo de Jesus, a religião do Governo, na medida em que o Cristianismo é a Religião, ou Ciência, da Política autêntica, a Filosofia dos Reis, porque Jesus Cristo, o Messias, é “a testemunha, o fiel, o primogênito dos mortos e o regente dos reis da terra” (Ap 1, 5).

O livro do Apocalipse narra, destarte, o percurso histórico do Evangelho até que sua essência política seja compreendida, e finalmente aplicada, quando o egoísmo não será mais praticado politicamente, entre as nações, como consta no capítulo 20, porque a razão, ou o espírito, que separa a humanidade, Satanás, ou Diabo, será acorrentado por mil anos, tempo em que os Governantes mirarão e replicarão o exemplo de Cristo, época que será de preparação coletiva para a verdadeira civilização, a cidade cósmica, em que o próprio Espírito de Deus estará entre nós, na derradeira capital da Humanidade, a nova Jerusalém:

Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21, 3-4).

Agora

Agora, palavra simples que me ajudou a entender o Cristianismo, a religião mais seguida no planeta Terra, em suas várias vertentes, associada a uma forma de civilização, a judaico-cristã que perpassa o entendimento sobre o chamado mundo ocidental, relativa, especialmente, aos povos europeus e americanos.

A boa doutrina hermenêutica do Direito ensina que a lei não contém palavras inúteis, entendimento que pode ser estendido para a interpretação de textos em geral.

Presume-se que a lei não contenha palavras supérfluas; devem tôdas ser entendidas como escritas adrede para influir no sentido da frase respectiva” (Carlos Maximiliano. Hermenêutica e Aplicação do Direito. Sexta edição. Livraria Freitas Bastos S/A: Rio de Janeiro e São Paulo, 1957, p. 144).

Além de uma análise filológica, do sentido de suas palavras, o texto bíblico deve também ser interpretado segundo a cosmovisão dos autores de seus escritos e das personagens das histórias, e, nesse ponto, o Evangelho se refere a uma época em que havia poder na mensagem falada, e uma palavra, por seu significado ontológico, podia acarretar uma condenação à morte.

E o Sumo Sacerdote lhe disse: ‘Eu te conjuro pelo Deus Vivo que nos declares se tu és o Cristo, o Filho de Deus’. Jesus respondeu: ‘Tu o disseste. Aliás, eu vos digo que, de ora em diante, vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu’. O Sumo Sacerdote então rasgou suas vestes, dizendo: ‘Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Vede: vós ouvistes neste instante a blasfêmia. Que pensais?’ Eles responderam: ‘É réu de morte’” (Mt 26, 63-66).

Jesus foi condenado à morte porque disse ser o Cristo, o Messias, o Filho de Deus, que também o qualificava como o filho de Davi e o Rei dos Judeus.

Assim, o fato de constar “agora” em uma frase dita por Jesus indica que tal termo tinha uma função gramatical e semântica em seu discurso, influindo no sentido da frase respectiva, sendo importante dizer que em Jesus “não há pecado” (1Jo 3, 5), pois ele é a Verdade (Jo 14, 6), e a verdade não mente, nem nas pequenas coisas.

Eis os significados de “agora”: “(Do lat. hac hora, ‘nesta hora’.) Adv. 1. Neste instante, neste momento, nesta hora (…) 2. Presentemente, atualmente (…) 3. Nesse ou naquele instante, nesse ou naquele momento, nessa ou naquela hora; então (…) 4. Nesse ou naquele tempo; então” (Aurélio Buarque de Olanda Ferreira. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 4. ed. Curitiba: Ed. Positivo, 2009, p. 70).

O texto em que o termo “agora” define o sentido do Cristianismo é o seguinte:

Então Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e lhe disse: Tu és o rei dos judeus? Jesus lhe respondeu: ‘Falas assim por ti mesmo ou outros te disseram isso de mim?’ Respondeu Pilatos: Sou, por acaso, judeu? Teu povo e os chefes dos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste?’ Jesus respondeu: ‘Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, meus súditos teriam combatido para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas meu reino não é daqui’. Pilatos lhe disse: ‘Então, tu és rei?’ Respondeu Jesus: ‘Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz’” (Jo 18, 33-37).

Esse é o texto emblemático segundo o qual Jesus afirmou “meu reino não é deste mundo”, e fundada nessa manifestação formou-se uma interpretação teológica entendendo que o Reino de Deus é transcendente, está no além, porque não era, não é, e nunca será, deste mundo. Com base nessa interpretação, e amparando-se no que consta no Apocalipse (20,6 – os sacerdotes de Deus e de Cristo reinarão durante mil anos), a escatologia católica afirma que estamos no reino dos sacerdotes de Cristo, representados pelo líder da Igreja Católica, apenas aguardando o fim do mundo, quando haverá o julgamento final.

Existe uma versão protestante segundo a qual o reino de mil anos será no outro mundo, após o arrebatamento dos escolhidos, que serão elevados aos céus para esse reinado. De um modo geral, predomina a ideia de que “o Reino não é deste mundo”.

Agora entra o ponto fundamental, o “agora” que não está no texto acima transcrito (Jo 18, 33-37), extraído da Bíblia de Jerusalém, uma das mais reconhecidas e indicadas, pela boa tradução das Escrituras, palavra cuja ausência em nada altera a Teologia católica e boa parte das Teologias protestantes, sendo assim dispensável.

Verificando outras versões do mesmo texto, entretanto, é possível identificar uma pequena modificação na passagem, com o termo “agora”, capaz de alterar profundamente a Teologia Cristã, pela importância simbólica da expressão “meu reino não é deste mundo”.

Na obra de Frederico Lourenço, é a seguinte a tradução do versículo 36, do capítulo 18, do Evangelho de João (Novo Testamento: os quatro Evangelhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p 400): “Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Agora: o meu reino não é daqui’” (Negrito meu).

Uma questão importante, levantada por Frederico Lourenço na apresentação de sua tradução, vale ser destacada, quanto à sua pontuação:

À semelhança de Platão e Aristóteles, os evangelistas escreveram numa época em que, na escrita do grego, não havia letras minúsculas, nem pontuação, nem separação de palavras. Para termos um pouco a noção de como era o aspecto gráfico dos seus textos, basta-nos visualizar assim o início do Evangelho de João:

NOPRINCÍPIOERAOVERBOEOVERBOESTAVACOMDEUSEDEUSERAOVERBO” (Idem, p. 41).

Feito esse esclarecimento, vale dizer que na versão inglesa da Bíblia King James também há o “agora” (now).

Jesus answered, My kingdom is not of this world: if my kingdom were of this world, then would my servants fight, that I should not be delivered to the Jews: but now is my kingdom not from hence”.

O mesmo termo está na versão Almeida:

Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui”.

Haroldo Dutra Dias, na tradução para o português “O novo testamento, incluindo os quatro evangelhos e o livro Ato dos Apóstolos”, com notas linguísticas e de tradução histórico-cultural”, da Federação Espírita Brasileira, 2013, p. 458, faz constar: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servidores teriam combatido para que (eu) não fosse entregue aos judeus. Agora, porém, o meu reino não é daqui”.

Como se pode ver, o sentido teológico da fala de Jesus é um, sem o “agora”, ou outro, com o “agora”, porque sem essa palavra é possível dizer, pelo contexto, que, categoricamente, Jesus afirmou que o seu Reino não é deste mundo, nunca, em tempo algum.

De outro lado, com o “agora”, a interpretação da fala de Jesus claramente exprime que seu reino não era daquele instante, daquele momento, daquele tempo, daquela hora, ou daquele período histórico. E se o Reino nunca fosse deste mundo, o “agora” deveria estar mesmo oculto, mas a presença desse advérbio de tempo na frase indica, gramática e logicamente, que em algum outro momento o Reino será deste mundo.

O agora, contextualizado, faz com que outras passagens bíblicas tenham mais sentido:

Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: ‘A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está dentro de vós’” (Lc 17, 20-21).

O próprio Jesus ressuscitado respondeu aos seus discípulos se seria “agora” a restauração do reino de Israel:

Estando, pois, reunidos, eles assim o interrogaram: ‘Senhor, é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel?’ E ele respondeu-lhes: ‘Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade. Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra’” (At 1, 6-8).

O Reino está dentro de nós, portanto; apenas sua expressão política ainda não se manifestou. O Reino, estando dentro de nós, ou em nós, outrossim, é não apenas transcendente, como também imanente; está aqui, imanentemente, nos planos individual e coletivo, e neste ponto ainda se manifestará politicamente na ordem internacional, na medida em que entre as nações a transcendência predomina, inclusive teoricamente, sobre a imanência. O Reino é como um grão de mostarda em desenvolvimento, cuja árvore em alguns aspectos já cresceu e deu bons frutos; outros ramos, contudo, ainda não desabrocharam.

É importante frisar que Jesus e seus discípulos eram judeus, e os judeus não separavam temas morais, religiosos ou políticos, dada a unidade de sentido que pautava a comunidade judaica. A questão política, do Reino, era uma das manifestações de Deus entre os homens, e não faria sentido para um judeu remeter o Reino exclusivamente para outro mundo, para o além.

“‘Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede, e eu te darei as nações como herança, os confins da terra como propriedade. Tu as quebrarás com um cetro de ferro, como um vaso de oleiro as despedaçará’. E agora, reis, sede prudentes; deixai-vos corrigir, juízes da terra. Servi a Iahweh com temor, beijai seus pés com tremor, para que não se irrite e pereçais no caminho, pois sua ira se acende depressa. Felizes aqueles que nele se abrigam!” (Sl 2, 7-12).

Pois a Iahweh pertence a realeza: ele governa as nações. Sim, só diante dele todos os poderosos da terra se prostrarão, perante ele se curvarão todos os que descem ao pó; e por quem não vive mais, sua descendência o servirá e anunciará o Senhor à geração que virá, contando a sua justiça ao povo que vai nascer: ele a realizou!” (Sl 22, 29-32).

Pois Iahweh Altíssimo é terrível, é o grande rei sobre a terra inteira. Ele põe as nações sob o nosso poder, põe-nos os povos debaixo dos pés” (Sl 47, 3-4).

Por essas, e outras, passagens entende-se que o Reino de Deus, referente à era messiânica, é um evento, um acontecimento, que se realiza entre as nações, curvando os poderosos da Terra ao Altíssimo, alterando a política mundial.

Vale dizer que Jesus somente não é reconhecido pelos judeus como o Messias porque ele não destronou Roma e não passou o governo das nações, que naquele tempo pertencia a Roma, para o povo judeu, o que era o resultado esperado da vinda do Messias.

Hoje é mais fácil entender a narrativa messiânica, pois era preciso estabelecer um novo padrão de comportamento, de serviço e sacrifício, de amor ao próximo, a semente do Reino, que já está dentro de nós, para que essa semente florescesse, inclusive em termos teóricos, como temos hoje. Não havia conhecimento suficiente das coisas, no tempo romano, para que o Evangelho fosse compreendido e plenamente aplicado. Agora, porém, já vivemos em outro mundo, em comparação ao tempo romano, e da atividade do Messias já surtem efeitos políticos e proféticos, tendo sido restabelecida a soberania de Israel, como exposto em passagens dos artigos “Direitos naturais e direitos humanos” (https://holonomia.com/2018/08/19/direitos-naturais-e-direitos-humanos/) e “Estado, Cristo e culto” (https://holonomia.com/2018/07/30/estado-cristo-e-culto/).

Finalmente, vale dizer que foi com base na ideia de que “o reino não é deste mundo” que se estabeleceu a doutrina de Agostinho de Hipona, que prevalece na Teologia Cristã, considerado um dos doutores da Igreja, narrando a existência de duas cidades, a dos homens e a de Deus, dois mundos, o mesmo podendo ser dito da teoria de Descartes, das duas substâncias, que provavelmente tem relação com a ideia de dois mundos, dos corpos e dos espíritos, por decorrer o cartesianismo da Teologia sustentada por Agostinho. Portanto, tendo em vista a preeminência da Teologia sobre as questões filosóficas secundárias, pode-se dizer que a falta do “agora”, ou da correta interpretação teológica sobre o Reino, foi determinante para a separação filosófica entre Estado e Igreja, por Agostinho, e entre res cogitans e res extensa, ou corpo e alma/espírito, por Descartes; isso quando Cristo é Rei e Sacerdote, Estado e Igreja, qualidade que nos transmitiu (Ap 1, 6; 5, 10; 20, 6).

Assim, se há apenas um mundo, do qual Iahweh Altíssimo é Rei, sobre este mundo Ele Reinará, por meio de seus servidores ou ministros, cumprindo Suas profecias, dentre elas a de Jeremias, quando o Reino, que está dentro de nós, será conhecido por todos, pública, jurídica e politicamente:

Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Eu porei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhecei a Iahweh!’ Porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores, — oráculo de Iahweh — porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31, 33-34).