A Teodiceia de Leibniz

Tanto o artigo anterior como outros dois já publicados, “A indispensabilidade metafísica e A Monadologia” (https://holonomia.com/2020/08/16/a-indispensabilidade-metafisica-e-a-monadologia/) e “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/), são inspirados na obra de Gottfried Wilhelm Leibniz, cujo modo de pensar, tanto por sua lógica como pela coerência com a cosmovisão Cristã, muito me agrada, pois parte de um determinado entendimento de Deus, que compartilho com o autor, e daí desenvolve toda uma série de argumentos.

Já no texto anterior eu pretendia abordar algumas passagens da Teodiceia de Leibniz, mas a escrita acabou evoluindo em outra direção, de modo que foi interrompido o raciocínio sem passar para a obra indicada, de modo a não alongar demais o assunto.

A parte inicial do livro traz uma exposição dos tradutores sobre a diferença entre a Teologia Natural de Leibniz e Newton, ressaltando a busca pela causa primeira, Deus, na pesquisa dos referidos autores, bem como na distinção em suas concepções de espaço e tempo. Como salientado no artigo “A unidade entre corpo e alma”, Leibniz antecipou a relatividade do espaço e do tempo, contrariando o entendimento de Newton. Como consta na introdução:

“O fato de a Relatividade Geral de Einstein recusar o espaço e o tempo absolutos, somado ao advento, já no século anterior, das geometrias não euclidianas acaba por exigir uma nova leitura dos autores que entendiam o espaço e o tempo de forma diferente da de Newton ou mesmo da de Kant – revisão que pode muito bem ser iniciada pela leitura minuciosa da Teodiceia” (Ensaios de teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. Gottfried Wilhelm Leibniz. Tradução William de Siqueira Piauí e Juliana Cecci Silva. 2 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2017, p. 39).

Mas essa revisão, no contexto dos referidos autores, deve ocorrer mantendo o entendimento pela existência daquela causa primeira, ou Deus, Que é expressa nos trabalhos de Newton e Kant, e condicionam suas visões de mundo, não só no aspecto teológico, como também nos âmbitos filosófico e propriamente científico.

E não há como enfrentar a realidade adequadamente, mesmo em termos epistemológicos, deixando Deus de fora, sendo urgente superar a visão do século XX, que tinha as questões ligadas ao mundo divino como nulidades científicas ou irracionais, para voltar a conceber Deus como o centro e a origem da própria Razão, restaurando a cosmovisão Cristã em sua essência, segundo a qual no Princípio é o Logos, e esse Princípio e esse Logos é Deus.

É mesmo admirável como Leibniz sabe abordar a natureza das coisas, ainda que sua teoria não seja perfeita, pois tem uma noção corretíssima do universo, e dos atributos de Deus, como exposto no Prefácio:

As perfeições de Deus são aquelas da nossa alma, mas ele as possui sem limites; ele é um oceano do qual só recebemos gotas: em nós, existe algum poder, algum conhecimento, alguma bondade; mas em Deus eles existem plenamente. A ordem, as proporções, a harmonia nos encantam, a pintura e a música são exemplos disso; Deus é todo ordem, sempre mantém a justeza das proporções, e faz a harmonia universal: toda beleza é uma efusão dos seus raios” (Idem, p. 47).

Levando essas ideias a sério, isto é, Deus como fundamento da razão, da ordem, da bondade e da harmonia, Leibniz desenvolve com eloquência seus argumentos, entendendo muitos dos problemas enfrentados pela cristandade.

Cristãos pensavam que poderiam ser devotos sem amar seu próximo e piedosos sem amar a Deus; ou mesmo acreditou-se poder amar seu próximo sem servi-lo e poder amar a Deus sem conhecê-lo. Muitos séculos passaram sem que o público se apercebesse desta falha; e há ainda muitos vestígios do reino das trevas. Vemos algumas vezes pessoas que falam muito sobre a piedade, sobre a devoção e sobre a religião que estão, de fato, ocupadas em ensiná-las; mas não as achamos nem um pouco instruídas quanto às perfeições divinas. Elas concebem mal a bondade e a justiça do soberano do universo; elas imaginam um Deus que não merece ser imitado nem amado” (Idem, pp. 48-49).

Existem ainda outras falhas no entendimento Cristão que perduram por outros séculos desde que Leibniz escreveu tais sábias palavras, de todo modo, como sustenta o autor, é, sim, indispensável o conhecimento de Deus, das perfeições divinas, da bondade e da justiça do soberano do universo para que Ele possa ser adequadamente adorado e louvado, e tal Ciência é tanto benéfica para nós mesmos, pela Paz (de Cristo) que proporciona, quanto para aqueles com quem nos relacionamos, na medida em que podemos dar um verdadeiro testemunho de nossa fé, e pelos bons efeitos dessa fé na vida alheia. Nesse ponto, já diziam os apóstolos:

Por isso não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor” (Ef 5, 17);

antes, santificai a Cristo, o Senhor, em vossos corações, estando sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pede” (1Pe 3, 15).

Não é possível entender a vontade do Senhor ou dar as razões da fé e da esperança cristãs sem conhecimento, sem proximidade com os conceitos ligados a Deus e às virtudes e qualidades que Ele espera sejam desenvolvidas nos homens, especialmente sobre o projeto de Deus para a humanidade, que tem como destaque absoluto a Vida e Paixão de Jesus de Nazaré, o significado do Cristianismo, a encarnação do Logos, a vivência da maior racionalidade concebível, o Reino de Deus inaugurado por Cristo.

Sobre a ação da Providência no mundo, Leibniz diferencia o fatum stoïcum (destino estoico), que dava tranquilidade quanto aos eventos, para evitar preocupações inúteis, o fatum mahumetanum (destino maometano), pelo qual os turcos não evitavam perigos, e o fatum christianum (destino cristão), contentamento quanto à bondade de Deus, Que não negligencia nem os cabelos da nossa cabeça, referentes a distintos entendimentos sobre a necessidade dos acontecimentos, quanto ao futuro inevitável, aliado à presciência divina sobre todas as coisas do universo, do que decorre que devemos confiar em Deus inteiramente.

É como se disséssemos aos homens: façam o seu dever e fiquem contentes com o que vai acontecer, não somente porque vocês não poderiam resistir à providência divina ou à natureza das coisas (o que pode bastar para estar tranquilo, mas não para estar contente), mas também porque vocês têm obrigação para com um bom mestre. E é isso que podemos denominar fatum christianum)” (Idem, p. 51).

A pessoa de nosso tempo terá muita dificuldade para aceitar ou compreender o texto de Leibniz, inserido em contexto de presença espiritual e moralidade absoluta, com ênfase nos deveres, nas obrigações, quando o tempo presente é de destaque amplo e unilateral para os direitos, com enfoque eminentemente para o mundo material, que, apesar de importante, é, em realidade, um médium para a realização do Espírito.

Nessa mesma linha, a ideia de uma determinada realidade a ser alcançada, o Reino da graça, praticamente deixou de existir, passando a dominar o (des)entendimento sobre o Reino da natureza, que seria regida pelas forças do acaso. Perdeu-se completamente a noção do que Leibniz define como a “filosofia dos cristãos, que identifica melhor que a dos antigos a dependência das coisas (com relação) ao primeiro autor e seu concurso para com todas as ações das criaturas” (Idem, p. 54).

Uma das ideias principais de Leibniz é de que Deus escolhe sempre o melhor, e por isso vivemos no melhor dos mundos possíveis, caso contrário Ele não teria escolhido o melhor, o que seria negar sua suprema Bondade e infinita Sabedoria, O Qual, “fazendo tudo no mesmo instante, inicialmente com ordem, tinha estabelecido aí toda ordem e artifício futuro. Não existe caos no interior das coisas, e o organismo está, em toda parte, em uma matéria cuja disposição vem de Deus” (Idem, p. 62).

A existência de mal no mundo não contraria tudo o que foi dito, porque “Deus, tendo escolhido o mais perfeito de todos os mundos possíveis, fora levado por sua sabedoria a permitir o mal que estava ligado a ele, mas o que não impedia que, tudo calculado e acertado, este mundo fosse o melhor que pudesse ser escolhido” (Idem, p. 65).

A questão do mal está indissoluvelmente ligada com a da liberdade humana, com a natureza da alma, temas que serão novamente desenvolvidos no próximo artigo, mas a matéria alma merece uma citação final:

“Talvez ainda seja bom observar, antes de terminar este prefácio, que ao negar a influência da alma sobre o corpo ou do corpo sobre a alma, isto é, uma influência que faça com que um perturbe as leis do outro, de modo algum nego a união de um com o outro que nele é uma parte constitutiva, mas essa união é algo de metafísica que não muda nada nos fenômenos” (Idem, p. 67).

Como já ressaltei em artigo anterior, discordo desse entendimento do autor, pelo dualismo inerente à sua harmonia preestabelecida, segundo a qual a correspondência da alma com o corpo decorreu de uma sincronização estabelecida por Deus no princípio da criação, pela qual os fenômenos da alma ocorrem simultaneamente com os do corpo, como dois relógios coordenados.

Assim escrevi no artigo “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/):

“Leibniz afirmava que as almas possuem internamente a representação de todo universo, cada uma de seu ponto de vista, possuindo perfeita harmonia com as coisas que estão fora das almas, regidas pelas leis do mecanismo corporal. ‘E como a natureza da Alma é representar o universo de um modo muito exato (embora com maior ou menor nitidez), a sucessão de representações que a Alma produz para si mesma irá naturalmente corresponder à sucessão de mudanças no próprio universo’ (Idem, p. 67). Desse modo, há também um dualismo no entendimento do autor, por não haver interferência nos mecanismos das leis do corpo com a atividade da alma, porque tudo que ocorre nesta é originado de sua constituição original, como representação de todo universo, expressando cada coisa externa no seu devido tempo, pela harmonia conferida por Deus a todas as coisas.”

Esse é um assunto teológico de primeira grandeza, que será continuado na próxima semana…

Teodiceia

Teodiceia é palavra que trata de um assunto definitivo, fundamental, essencial, presente diuturnamente em nossas vidas, mas que lamentavelmente é pouco lembrado na vida cotidiana, fato este um sintoma do tempo sombrio em que vivemos, como reflexo do lampejo iluminista que sequestrou a alma da humanidade, na medida em que aquela fagulha de luz se apagou, porque se afastou de sua fonte, a Filosofia de Cristo, sobrevindo o período que talvez seja de mais intensas trevas da História, em que a tecnologia foi e tem sido usada para a destruição em grande escala, da vida humana e do planeta.

Tal vocábulo decorre da junção dos termos gregos Théos, ou Deus, e Díke, ou Justiça, referindo-se, pois, à ideia de Justiça Divina, conceito totalmente estranho à mente contemporânea, resultado do iluminismo que, ao longo do século XVIII, foi afastando a Ciência da Teologia, passando pela concepção marxista de que “a religião é o ópio do povo” e culminando na declaração de Nietzsche de que “Deus está morto”, no final do século XIX, proposta que restou desenvolvida ao longo do século XX, no qual temas religiosos ou a associação da racionalidade científica com a realidade espiritual foram implícita ou expressamente rechaçados, quando, não por acaso, a besta humana se mostrou com toda sua força, por meio do nazifascismo e do comunismo.

O pensamento secular e laico não consegue compreender a verdadeira dimensão da Justiça Divina, seu significado, principalmente quando o plano espiritual é tratado como uma fantasia, uma invenção humana destinada a ofuscar o medo da morte, de modo que falar em Teodiceia é entendido por aquele modo de pensar como uma nulidade científica, um anátema, sendo todas as pessoas e propostas a ela relativas condenadas de plano, a priori, como irracionais.

Na medida em que Deus foi excluído do chamado pensamento racional, o que levou consigo concepções filosóficas ligadas ao Absoluto, aberto ficou o caminho para o avanço do relativismo moral, que hoje domina a teoria política e o pensamento jurídico ocidental, a despeito de a condenação dos horrores nazistas ter se lastreado nos valores superiores da moralidade judaico-cristã, porque da perspectiva do relativismo moral e do materialismo não havia e não há fundamento bastante para condenar as propostas nazistas. Sem a utilização de uma ideia absoluta, de um valor supremo, que esteja acima da concepção supremacista racista, o conflito continuará no plano das ideias, e somente a força física restará como modo de superação dos impasses sociais.

Do ponto de vista evolutivo, apenas no estágio de desenvolvimento superior e posterior é possível entender adequadamente as deficiências do anterior, isso tendo como pressuposta a ideia de que a evolução é um fato. Como a ciência secular não oferece alternativa a esta, a menos que se pense que a vida chegou ao seu limite evolutivo, resta pensar quais são os critérios de seleção natural do próximo nível de existência biológica.

Para combater a supremacia branca, por exemplo, que pode ser considerada uma hipótese lógica da evolução material, e por isso seduziu a população germânica sob a liderança de Hitler, e continua convencendo alguns atualmente, apenas uma supremacia superior, com uma lógica mais elaborada, tem o condão argumentativo de suplantar a segregação humana, e tal é a lógica Cristã, com a ideia de encarnação do Logos, como Espírito Absoluto, de supremacia de Cristo, do Espírito que move a carne para o Bem. Em qualquer escala de valores que se possa conceber, nada há de mais elevado que o próprio Deus, que o mundo da divindade, que se coloca acima de possíveis hierarquias humanas.

Assim, é por meio de algo absoluto, ou sagrado, que a realidade é devidamente discernida, porque quando tudo é neutro e homogêneo, sem diferenciação, não há critério de escolha, não há ciência, não há lógica.

Vale dizer que a ideia de algo Absoluto, que serve de parâmetro para relativizar tudo mais que existe, é indispensável para o desenvolvimento do pensamento racional, pois sem que existam axiomas, postulados aceitos como certos, inquestionáveis, não há como fundar uma argumentação lógica. O princípio da não contradição é condição sine qua non para atividade filosófica, matemática e científica.

As noções de igualdade, semelhança e diferença são básicas na argumentação lógica, e também para as concepções de Justiça, que trabalha com os conceitos de certo e errado, bem e mal, classificando as diferenças entre comportamentos e fatos para, então, qualificá-los como justos e injustos. O justo é diferente do injusto, sob pena de violação do princípio da não contradição.

Assim voltamos à ideia de Teodiceia, porque diante da inequívoca existência de injustiça nas sociedades humanas, algumas excepcionalmente intensas, o argumento pela inexistência de Justiça Divina ganha força, principalmente entre os ignorantes.

Por isso é importante destacar dois níveis de Teodiceia, um a cargo da humanidade e outro de responsabilidade do próprio Deus.

Ao contrário do pensamento comum, a Justiça humana é, sim, uma delegação da atribuição divina de promover os valores superiores da criação, de modo que a Teodiceia deve ser realizada também por nós, para a promoção do Bem, promovendo o arrependimento dos malfeitores e a honra dos benfeitores. Na realidade, da perspectiva da divindade, quando nós exercermos bem essa função sacerdotal e celestial, especialmente no plano internacional, quando houver consciência verdadeiramente espiritual na tarefa de governar e julgar as questões terrenas, será dispensável a interferência de Deus para correção dos assuntos humanos, porque já estaremos atuando com Deus.

Por essa razão são as passagens bíblicas atribuídas aos apóstolos Paulo e Pedro, exigindo que os Cristãos sejam obedientes aos poderes humanos: “Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13, 1); e “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como enviados seus para a punição dos malfeitores e para o louvor dos que fazem o bem, pois esta é a vontade de Deus que, fazendo o bem, tapeis a boca à ignorância dos insensatos” (1Pe 2, 13-15).

Contudo, tanto por desconhecimento quanto por opção irracional, as leis divinas, o que também ocorre com as humanas, são rotineiramente desrespeitadas, provocando um aumento gradativo da desordem, o que culmina em revoltas e revoluções, na intervenção das autoridades ou do próprio Deus.

A História humana é repleta de eventos dessa natureza, estando narradas nas sagradas escrituras aquelas situações extraordinárias em que as forças celestiais agiram sobre o curso dos acontecimentos, do que podem ser citados o Dilúvio, o Êxodo e a Ressurreição de Jesus.

Em termos de Justiça Divina, este último fato é de importância maiúscula, que delimita exatamente o sentido da evolução, marcando antecipadamente as qualidades humanas do estágio de desenvolvimento superior e posterior da espécie, no exemplo de Jesus de Nazaré, e indicando a continuidade existencial dos indivíduos, pois na medida em que se entende que nossa realidade pessoal não se encerra com a morte, e que haverá uma prestação de contas pelas ações desta vida, tanto as benéficas quanto as maléficas, o conceito de Teodiceia fica melhor contextualizado.

Além disso, a Ressurreição é prova do acerto de determinada moralidade, da concepção de bem e mal adotada pelo judaísmo de Jesus Cristo, e visão política, o trabalho honrado e irrepreensível do líder, do Rei e Sacerdote, exatamente o exemplo de bom desempenho das atividades de governança humana, nos planos nacional e internacional, que dispensa a interferência de Deus para correção dos assuntos humanos, porque já conduzidos segundo a própria Lei Natural.

Como temos visto que, para os dois lados do espectro político, a humanidade está muito longe desse modelo, seja por falhas grotescas na legislação, quando premia a ilegalidade sexual, igualando indevidamente a diferença, com os benefícios do sagrado matrimônio, ou quando declara a normalidade do assassínio de vidas humanas, adotando uma lógica inferior, como a da supremacia branca, de um lado, ou pelo péssimo comportamento de lideranças de destaque, estimulando a desobediência civil com base ególatra, ou o desrespeito pela vida alheia e pelos menos favorecidos, de outro lado, isso é sinal de que a Teodiceia exercida pelo próprio Deus talvez esteja próxima de ocorrer…

A insuficiência da lei

O Brasil é um país em que se demonstra com facilidade da insuficiência da lei, havendo leis que “pegam” e “não pegam”, no sentido de serem respeitadas por seus destinatários, ou não.

A lei remete para uma autoridade que a edita, como norma geral de comportamento a ser respeitada por todos, presumindo-se que em sua elaboração sejam adotados critérios de racionalidade e justiça, o que, contudo, lamentavelmente, nem sempre ocorre na legislação humana. Muitas vezes, de outro lado, a norma estabelece padrões de comportamento que estão além da capacidade ordinária do cidadão para respeitá-la, carecendo de campanhas maciças de informação, para que o objetivo previsto pela norma seja compreendido e, então, realizado. Este último é o caso da Lei de Cristo, que também é a Torá, a Lei do amor, a qual, apesar de sua antiguidade e de o Evangelho ser pregado em todo planeta, ainda não atingiu a adequada compreensão de seus destinatários, porque sua Inteligência é de um nível difícil de ser alcançado, e mais difícil ainda de ser praticado.

Portanto, pode ocorrer de a norma não ser propriamente inteligente, porque mal elaborada, o que pode ocorrer com a lei humana, e será, mais cedo ou mais tarde, superada, ou ser superinteligente, situação da Lei Divina, exigindo intensa campanha de educação popular, e também da elite intelectual, para conscientização da necessidade de sua observância, para o Bem (que é sempre coletivo).

Desse modo, para além da questão formal, está presente na utilidade e eficácia da legislação um aspecto cultural, de desenvolvimento de uma mentalidade associada às razões pelas quais as normas existem, via de regra, o bem individual e comunitário.

Nesse aspecto, o brasileiro pode ser considerado um povo com momentos constantes de falta de educação, em que os valores civilizatórios, a consciência de respeito às leis e a boa formação cultural estão ausentes ou são solenemente ignorados, isso tudo a despeito da influência, em nosso país, do Cristianismo, que representa o melhor: da civilização, da consciência humana, do conceito de Lei e do desenvolvimento cultural.

Um exemplo recente que pode ser dado é o comportamento durante as eleições, nas quais, em que pesem as constantes campanhas de informação sobre a importância do voto, e da necessidade de escolha dos candidatos pela qualidade de suas propostas, os eleitores continuam a se envolver em episódios de compra de votos, em que há a correlata participação dos políticos, ou quando, no dia do pleito, insistem em movimentos coletivos ilegais de manifestação da preferência eleitoral, com aglomeração usando camisas das mesmas cores, as quais identificam grupos partidários, e o que é pior, em pleno período de pandemia. O último caso diz respeito a uma paixão mal direcionada por maus exemplos e má liderança, como também ocorre em eventos futebolísticos/esportivos, e mesmo em situações de religiosidade.

Outra situação tem sido constatada recentemente, quando são flexibilizadas as medidas de isolamento para contenção da disseminação do vírus, permitindo-se determinadas atividades, com alguns procedimentos de prevenção, como distância mínima entre as pessoas e uso de máscaras, mas tais protocolos são simplesmente desprezados. As regras existem, as pessoas delas têm conhecimento, mas optam, quase sempre por motivos ególatras, ou pela mais bruta insensatez, por não respeitar os mandamentos.

Esse problema não é novo, foi enfrentado pelo Messias, que destacou a hipocrisia das pessoas, e diz respeito a um assunto fundamental do Cristianismo, e que vale também para o Judaísmo e para Islamismo, porque são culturas religiosas inseridas em contexto de vida regulada por normas jurídicas. Por mais que o mundo cristão tenha se afastado dessa premissa, e isso é uma das principais falhas da visão cristã prevalente, o tema da Lei é central para a realização do Reino de Deus, que representa o tempo em que as leis são respeitadas, porque considerados seus objetivos espirituais e os valores e virtudes que representam.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Importava praticar estas coisas, mas sem omitir aquelas. Condutores cegos, que coais o mosquito e tragais o camelo!” (Mt 23, 23-24).

Importa praticar estas coisas, os preceitos menos importantes, sem esquecer o que é essencial: a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Apesar de o apóstolo Paulo, principal teólogo do Cristianismo, ter afirmado, naquela que pode ser considerada a obra de conclusão de sua doutrina, seu trabalho mais elaborado, talvez o último texto que escreveu e que chegou até nós, como uma síntese de seu pensamento, a Epístola aos Romanos, que “ninguém será justificado pelas obras da Lei, pois da Lei vem só o conhecimento do pecado” (Rm 3, 20), e que “sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei” (Rm 3, 28), ele expressamente se contrapõe a uma possível conclusão equivocada de suas palavras: “Então eliminamos a Lei através da fé? De modo algum! Pelo contrário, a consolidamos” (Rm 3, 31).

A Lei, outrossim, deve ser consolidada pela fé, não tendo sido revogada, mas cumprida e ressignificada pelo Cristo, porque “a Lei é santa, e santo, justo e bom é o preceito” (Rm 7, 12), pelo que deve ser considerada a “Lei a expressão da ciência e da verdade” (Rm 2, 20).

Mas é necessário ter entendimento do seu sentido, que é espiritual, dizendo respeito ao contexto de sua interpretação, à realidade última de que se origina e para qual se destina, o próprio Deus, O qual “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4).

Sabemos que a Lei é espiritual” (Rm 7, 14), pelo que o seu cumprimento não pode ser meramente formal, automático, ignorante, porque por essas obras ninguém é justificado, sendo necessário encarnar seu Espírito para que a justiça e a misericórdia nela presentes sejam manifestadas, para o Bem (que é sempre individual e coletivo).

A razão superior deve prevalecer sobre as vontades mais baixas que dominam o corpo, mascaradas sob falsos bens, no que se incluem as ideias sobre aborto, união gay, segregação arbitrária de estrangeiros etc. Para cumprir a Lei, destarte, é necessário vencer o instinto animal, o egoísmo que age em nós, inclusive ao racionalizar em favor de bestialidades.

Eu me comprazo na lei de Deus segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe em meus membros” (Rm 7, 22-23).

Todos queremos nos libertar das amarras das máscaras, e nos aproximar das pessoas queridas, com beijos e abraços, mas adotar estes comportamentos na situação atual equivale a levar a essas mesmas pessoas, e para aqueles que com eles convivem, um risco que pode ser fatal.

Ainda que sejamos fortes e saudáveis, podemos estar contaminados e levar o vírus a alguém que não suportará o desenvolvimento da doença. Isso é um fato. Quantos estiveram doentes e assintomáticos? Quantos não souberam dessa situação e, sem perceber e sem querer, provocaram, mesmo que indiretamente, a morte de alguém? Nesse ponto, diante da cobertura midiática da pandemia, ainda que por vezes sem o devido compromisso com a Verdade, poucos poderão dizer que não sabiam que era necessária a prevenção diante dos riscos representados pela pandemia, os demais terão agido com culpa, que certamente será reconhecida, e lamentada, ou punida, no derradeiro julgamento.

Pois todos nós compareceremos ao tribunal de Deus. Com efeito, está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim e toda língua dará glória a Deus. Assim, cada um de nós prestará contas a Deus de si próprio” (Rm 14, 10-12).

O critério de julgamento, há muito, já é conhecido, na Lei e para além dela, o amor ao próximo. Quem aglomera irresponsável e desnecessariamente não tem amor ao próximo. Quem não usa máscara, principalmente por opção política, não tem amor ao próximo, ao colocar, equivocadamente, projetos humanos egóicos acima do valor das pessoas, representando a hipocrisia que o Messias já revelava em seu tempo, que vale tanto para autoridades quanto para a população em geral. Uma autossuficiência soberba faz com que alguns entendam que não estão obrigados a prevenção, deixando de pensar que sua prevenção poderá impedir que o vírus, que é invisível e cuja ação ainda tem muitos aspectos para nós desconhecidos, chegue até alguém cujo organismo não terá condições de a ele resistir.

Não se trata, enfim, simplesmente da lei, mas de amor, da Lei.

A lei humana pode ser insuficiente, mas o Cristão se pauta por critérios superiores, por uma caridade para com todos, busca a realização do Espírito, indispensável para a plenitude da Lei.

Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei. De fato, os preceitos: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e todos os outros se resumem nesta sentença: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13, 8-10).

Deus ressuscitou

Evidentemente, Deus não morreu, pois Ele é imortal, é eterno, é imutável, é o Deus vivo, de modo que não se pode falar propriamente de Sua ressurreição. Contudo a expressão tem validade em termos científicos e filosóficos, porque alguns “pensadores” adoram e adotam a ideia de Nietzsche, que afirmou a morte de Deus, referindo-se à sua Ideia ou Conceito, e este Conceito científico, sim, ressuscitou.

O tema do presente artigo tem relação com aquele intitulado “Deus não está morto” (https://holonomia.com/2018/04/06/deus-nao-esta-morto/), no qual foi ressaltado que a morte de Deus seria um entendimento da filosofia existencialista do fim do século XIX, como resultado de um processo histórico que teve no chamado iluminismo um ponto de destaque. Rompendo com a mentalidade religiosa anterior, o pensamento iluminista focou na racionalidade, abrindo caminho para o secularismo e o materialismo no ambiente científico, culminando na expressão de Nietzsche, declarando a morte de Deus.

Usando o simbolismo Cristão para fazer uma analogia com essa ideia de morte, é possível dizer que a fala de Nietzsche está situada na Sexta-feira da Paixão, dia que se refere ao século XIX. A declaração da morte de Deus pode ser comparada à de Jesus, que o foi apenas em um certo sentido, pois assim como Deus não morreu, por impossibilidade lógica, e considerando que Ele continuou atuando ao longo do século XX, preparando a derrocada de seus inimigos, nos âmbitos científico e filosófico, também Jesus não deixou de existir, tendo apenas havido a suspensão da sua atividade corporal, período em que seu Espírito continuou vivo, atuando em outro nível existencial, num estado que ainda não compreendemos cientificamente.

Jesus disse: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11, 25). Há uma interpretação da primeira epístola de Pedro no sentido de que o Messias esteve em atividade espiritual durante sua morte corporal: “Morto na carne, foi vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão” (1Pe 3, 18-19).

Como a ressurreição permanece sendo tratada como um absurdo científico, não temos, ainda, conhecimento adequado sobre o significado racional desse fato existencial, dessa realidade inafastável.

Ainda assim, a psicologia junguiana conseguiu compreender, mesmo que parcialmente, porque mergulhou seriamente na simbologia religiosa, a realidade mais profunda do tempo em que vivemos:

“O secularismo racionalista e o materialismo científico governam o mundo moderno, e tudo isso é simbolizado pela imagem do domínio de Cristo sendo substituído pelo domínio do Anticristo. (…)

Quando a imagem-de-Deus passou à psique humana, ela também induziu a humanidade a uma vasta soberba, uma valorização excessiva do ego humano em tal escala, que o mundo ora se acha à beira da catástrofe. Todos esses fenômenos, como Jung salientou, são manifestações do Anticristo” (Edward F. Edinger. A Psique na Antiguidade: livro dois: Gnosticismo e Primórdios da Cristandade. Org. Deborah A. Wesley. Tradução Alípio Correia de Franca Neto e Sandra Mara Franca. São Paulo: Cultrix, 2000, pp. 203-204)

Assim, ao longo do século XX, em que dominou o frio materialismo na mentalidade acadêmica, como no Sábado em que se pensou que Jesus estava morto, os empreendimentos humanos tentaram avançar no conhecimento da realidade, para provar as teses seculares e antirreligiosas, fracassando retumbantemente em todas as vertentes, tendo o Anticristo, enfim, sido vencido.

O materialismo, como proposta filosófica, esvaneceu-se com a Física moderna, notadamente pela realidade quântica, que provou que a matéria é tudo menos sólida e local, como sustentava o atomismo, este que também teve sua estrutura mental destruída pela ordenação cósmica primordial, de modo que o mundo do caos somente pode ser concebido pela teoria do multiverso, a qual, de outro lado, não explica a sua origem (do multiverso), e deve ser considerada, pelos conceitos seculares de Ciência, mais uma especulação religiosa do que propriamente uma proposta científica.

Nas questões biológicas, ficou demonstrado que a evolução não pode ter sido cega e sem direção, pois não houve tempo suficiente para que a vida chegasse ao nível de complexidade do cérebro humano pelo método da tentativa e erro, método ligado à fria e crua seleção natural da perspectiva secular, havendo fortes indícios de que, em alguns momentos da evolução, teria ocorrido um direcionamento bem específico no caminho seguido pelo desenvolvimento da Vida.

Neste ponto, um dos principais autores atuais que questionam a validade filosófica da proposta materialista ligada ao neodarwinismo é Stephen C. Meyer, que parece compartilhar a ideia do título do artigo, que será exposta no seu livro “Return of the God Hypothesis: Three Scientific Discoveries That Reveal the Mind Behind the Universe”, sendo as seguintes as referidas três descobertas científicas, segundo as informações já disponíveis sobre o livro: 1) que a Cosmologia mostra que o universo material teve um início; 2) que as evidências da Física apontam para uma “sintonia fina”, desde o início do universo, permitindo a possibilidade de vida; 3) que descobertas da Biologia indicam que, desde que o universo surgiu, grandes quantidades de informações genéticas presentes no DNA devem ter surgido para tornar a vida possível.

Para os que acompanham a História sagrada, segundo a alegoria acima, o século XXI representa o Domingo da ressurreição, não de Deus como o próprio Ser, que, logicamente, nunca poderia deixar de Sê-lo, pois sempre É, pelo que não faria sentido ressuscitar, mas da apreensão cognitiva do homem sobre Ele. Assim como alguns viram Jesus ressuscitado antes dos outros humanos, e, na verdade, muito poucos daquela geração puderam presenciar tal realidade, também hoje é possível ver que Deus ressuscitou como hipótese científica, como explicação racional do mundo, na verdade, a única coerente e sensata, e daí o título do livro acima aludido, “Retorno da Hipótese Deus”, Deus como fundamento da Ciência.

“Nietzsche anunciou que para nós Deus está morto; porém, se esse fato é entendido psicologicamente, podemos perceber que o mito cristão já havia previsto esse acontecimento. Assim como Cristo morreu e ressuscitou no mito, também o corpo de Cristo, a massa da humanidade ocidental que viveu em refreamento nesse mito, pode esperar repetir o padrão: ou seja, ter a experiência de uma morte espiritual seguida de uma ressurreição. O que isso quer dizer? Agora, é possível entender que a imagem-de-Deus por que vivemos, cuja perda nos condenou à morte espiritual do sem sentido, será resgatada num novo nível de consciência.

O tema fundamental do mito cristão é a encarnação da imagem-de-Deus, e Jung resgatou esse tema por meio de sua compreensão de que o processo de individuação corresponde à contínua encarnação da imagem-de-Deus. (…)

Esse conceito de encarnação contínua fornece um vínculo de ligação entre a mitologia da era cristã e a da nova era que está prestes a nascer” (Edward F. Edinger. Obra citada, pp. 213-214).

Jung, todavia, no ponto, não compreendeu bem a realidade espiritual, porque não se trata da imagem-de-Deus, mas, de fato, do próprio Deus, que encarnou na Humanidade a partir de Jesus Cristo. A “nova era que está prestes a nascer” é nada menos do que a era messiânica, o Reinado de Cristo sobre Humanidade, valendo-se de todos os conhecimentos humanos, da Ciência, que, na sua melhor formulação, já se rendeu a Deus e ao Seu Enviado, ainda que pouquíssimos, como eu, tenham presenciado essa ressurreição, que pode ser alcançada intelectualmente, porque é a única Hipótese ou Teoria científica atualmente coerente e racional, a qual prevalecerá durante o Milênio, como preparação para a encarnação definitiva, quando o próprio Deus estará conosco.

Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus” (Ap 21, 3).

A encarnação, portanto, é mais do que uma imagem-de-Deus, é o próprio Deus Se manifestando por meio de Seus filhos, até que ocorra a segunda ressurreição, na nova Criação, e Ele habite em nós.

Antes, porém, é necessário que a primeira se conclua, que seja declarada a vitória de Cristo no primeiro combate escatológico, para que o Reino seja iniciado, quando, enfim, será reconhecido publicamente, por todas as nações, que Deus ressuscitou.

Cristianismo como Filosofia

Filosofia é Ciência que conecta intelectualmente os fenômenos materiais e espirituais, as questões do corpo e as da alma, e daí serem fundamentais tanto os temas físicos como os psíquicos para uma forma adequada de se pensar filosoficamente.

Os últimos séculos mostraram um crescente desprestígio das questões espirituais na abordagem filosófica, culminando no século XX, no qual passou a existir o pensamento chamado filosófico que desconsidera as questões espirituais, tidas como indignas de abordagem científica, porque entendidas como epifenômenos da atividade material cerebral.

Contribuiu muito para o abandono parcial do pensamento da alma como uma realidade superior o trabalho desenvolvido por Freud, superestimado pela intelectualidade que o sucedeu, urgindo a correção da mentalidade científica para superar a unilateralidade e o materialismo que dominaram o entendimento científico do século XX e início do século XXI.

Assim, continuando a linha do artigo anterior, vale citar o texto de Jung escrito como obituário de Sigmund Freud, no qual este é reconhecido como uma das grandes inteligências do final do século XIX e início do século XX, narrando Jung que o modo de pensar do falecido abarcou quase todos os níveis do debate intelectual, porque “tocou em tudo onde a alma humana tinha primazia”, da psicopatologia à filosofia da religião, passando por filosofia, estética, etnologia e, obviamente, a psicologia.

“Por conseguinte, tudo o que de um modo válido, ou aparentemente válido, for descoberto sobre a essência da alma, atrai para o seu território, automática e infalivelmente, o conjunto todo das ciências do espírito” (Carl Gustav Jung. Sigmund Freud. In O espírito na arte e na ciência. Trad. Maria de Moraes Barros. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 36).

Importante ressaltar, como constou no artigo anterior, que o pensamento de Freud é, como julgado por Jung (com o que concordo, apesar não ter lido uma linha de Freud, apenas várias obras de Jung e de outros autores que remetem ao pensamento freudiano), unilateral, materialista e fruto de uma visão ressentida das ideias gerais do século XIX. Portanto, mesmo sem ter conhecimento direto da obra de Freud, a partir de uma leitura razoável de Jung, que foi considerado seu principal seguidor até o rompimento entre eles em razão da questão da simbologia religiosa, pela publicação do livro de Jung “Símbolos de transformação”, subscrevo a crítica autorizada de Jung sobre seu antigo mestre.

“FREUD era um ‘neurologista’ (na mais estrita acepção da palavra) e jamais deixou de sê-lo. Ele não era psiquiatra, nem psicólogo, nem filósofo. No campo da filosofia faltavam-lhe até os elementos básicos da formação filosófica. Confessou-me certa vez que jamais se interessou por ler NIETZSCHE. Este fato é importante para a compreensão das estranhas opiniões freudianas que aparentemente se apresentam com uma total falta de pressupostos filosóficos” (Ibidem).

Freud teria dirigido sua intuição para o mundo de questões morais, filosóficas e religiosas, que certamente estavam sujeitas a crítica, salientando Jung que “A interpretação dos sonhos” seria sua obra mais importante, porque teve a coragem de trazer novamente para uma discussão séria um tema impopular como o sonho. “O que mais nos incentivou como jovens psiquiatras daquele tempo não foi a técnica nem a teoria que nos pareciam altamente discutíveis, mas o fato de alguém ter ousado ocupar-se profundamente com o sonho em geral” (Idem, p. 39).

Jung afirma que em “Totem und Tabu” e “Die Zukunft einer Illusion”, Freud tentou, sem sucesso, aplicar sua teoria das neuroses às instituições primitivas e enfrentar a visão religiosa tradicional. Quanto à última obra citada: “Nota-se com pesar o insuficiente preparo filosófico e científico-religioso, independentemente da circunstância de faltar ao autor qualquer compreensão da essência do fenômeno religioso” (Idem, p. 40).

Depois de dizer que Freud tinha uma visão limitada à doença, à neurose, e que ele representava um ceticismo em relação ao século XIX, sustenta que seu antigo mestre, continuando o que já começara com Nietzsche, fora um destruidor, colocando em questão nossos mais elevados valores, mas enfatizando que a psicologia freudiana não ofereceu substituto para as substâncias destruídas.

“A psicologia freudiana se movimenta dentro dos estreitos limites dos pressupostos científicos materialistas do final do século XIX e nunca prestou contas sobre suas premissas filosóficas o que, naturalmente, está ligado à formação filosófica insuficiente do próprio mestre” (Idem, p. 42).

Temos aqui a deixa para resgatarmos o início do texto, quanto à essência da Filosofia, na qual as questões materiais e espirituais são conceituadas em um sistema inteligível e coerente de valores, e quanto à importância do conhecimento físico do mundo e das bases filosóficas do conhecimento.

Nesse ponto, a Física moderna colocou em xeque o pressuposto fundamental do materialismo, qual seja, a existência dos átomos como substância material e sólida da qual todas as coisas físicas seriam feitas. Os corpos não são feitos de átomos, mas de campos fluidos de energia com suas interações fantasmagóricas à distância, para usar palavras do próprio Einstein.

E para além da questão corporal, um ponto fundamental que também refuta o princípio filosófico materialista está no fato de que o cosmos é ordenado desde o princípio, somente fazendo sentido a proposta atomista e materialista fundamental, segundo a qual a inteligência é posterior à matéria, e não anterior, como sustentava o idealismo platônico, quando a desordem é remetida para um mundo anterior ao nosso universo, isto é, o postulado filosófico materialista somente continua tendo validade quando criados infinitos universos, cuja existência não pode ser cientificamente comprovada, um dos quais é o nosso, ordenado e com possibilidade de desenvolvimento da vida, mas como obra de mero acaso. E mesmo nessa hipótese, alguma explicação deveria ser dada à fábrica de universos, sobre a origem fundamental de tudo, demonstração teórica essa que passa longe, muito longe, da teoria materialista.

O fato é que a proposta de Freud, em que pese a influência que teve ao longo do século XX, especialmente sobre a intelectualidade, no sentido de fomentar a rejeição de qualquer realidade científica e de valor real das questões religiosas, é fruto de uma total falta de pressupostos filosóficos, resultado da formação filosófica insuficiente do próprio mestre.

De outro lado, o grande conhecimento de Jung também acabou mostrando-se, em última análise, prejudicial, na medida em que se afastou, no curso de seu trabalho, de algo essencial, sendo que, em um documentário a que assisti, cujo nome agora me escapa, Edward F. Edinger, um dos seus principais seguidores, relata que Jung lhe enviou uma carta no final de sua vida dizendo que ele Jung falhou em sua principal missão, demonstrar a importância da alma humana.

A alma, no caso, deve ser lida como aquilo que está além da mera corporalidade, que está conectada à própria realidade espiritual, que transcende o tempo e o espaço, que supera, em qualquer sentido, a crua e fria existência corporal, porque a própria vida, sã ou doente, do corpo. Literalmente, um corpo sem alma é um corpo morto, sem vida, como também o é aquela limitada ao corpo. A alma é fundamental para o conjunto todo das ciências do espírito.

Por isso, a alma é o objeto do Cristianismo, como Ciência do Espírito, do conhecimento da realidade espiritual e sua conexão com o plano corporal, a Vida. A alma é o medium que relaciona o Espírito, o próprio Deus, ao Corpo, a realidade material.

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Os versículos transcritos demonstram a mais elevada coerência filosófica do Cristianismo, com uma atualidade científica impressionante, precisão jamais alcançada por outra forma de pensar, referindo-se às unidades corporal, ao contínuo espaço-tempo, e espiritual, à necessária unidade da inteligência, e a um só Deus, que é o Logos, essa mesma Inteligência que é sobre todos, por meio de todos e em todos, porque nada escapa ao controle da divindade e sua Inteligência. O Cristianismo, como a Filosofia, é um chamado à Unidade da Inteligência.

O Cristianismo, pois, é uma forma de pensar inteligentemente, é a própria Filosofia, em sua melhor versão, e diz respeito à atividade da alma humana, por isso, atrai para o seu território, automática e infalivelmente, o conjunto todo das ciências do espírito.

Outrossim, enquanto o Cristianismo, como Filosofia, não voltar ao centro do debate científico, tanto da Psicologia quanto das demais atividades culturais, incluído o Direito, continuaremos sujeitos às influências de ideias neuróticas, fruto de total falta de pressupostos filosóficos, resultado da formação filosófica insuficiente de seus formuladores, e aos nefastos efeitos sociais delas decorrentes.

Freud inconsciente

Hoje comecei a ler um livro de Jung, que adquiri em 1998, “O espírito na arte e na ciência”, com ensaios variados sobre o tema, valendo dizer que o motivo da leitura de obra que há décadas aguardava na estante foi ter finalizado o texto de correspondências entre David Bohm, físico, e Charles Bierdeman, artista, editado por Paavo Pylkkänen, com o título “Bohm-Bierdeman correspondence, Creativity and Science, David Bohm and Charles Bierdman”. David Bohm talvez seja um dos principais filósofos do século XX, porque sua obra vai muito além da Física, passando pelos domínios da Psicologia, da Filosofia, perseguindo a verdadeira Ciência em sua forma mais ampla e completa.

“Physics tells us that our bodies and brains are part of the universe, the totality. Similarly, in our immediate experiencing as individuals, we see only one totality, in which there is experiencing of ‘me’ and ‘the universe’. So we must say ‘The universe and I are one’” (Bohm-Bierdman correspondence. David Bohm and Charles Bierdman. Volume One: Creativity and Science. Edited by Paavo Pylkkänen. London and New York: Routledge, 2014, p. 217) (A Física nos diz que nossos corpos e cérebros são parte do universo, a totalidade. De modo semelhante, em nossa experiência imediata como indivíduos, vemos apenas uma totalidade, na qual há experiência do ‘eu’ e do ‘universo’. Portanto, devemos dizer ‘O universo e eu somos um’”).

Tal passagem remete à ideia básica do Cristianismo, manifestada por Jesus no Evangelho de João: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30), que tem uma profunda significação científica, ignorada pela academia e pelo pensamento racional. A questão da unidade já foi debatida nos artigos “Monoteísmo: A Santíssima Unidade” (https://holonomia.com/2016/12/10/monoteismo-a-santissima-unidade/) e “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/). A proposta científica de Bohm somente não é mais completa por lhe faltar a compreensão da importância do Cristianismo, como doutrina ou teoria da Realidade, vácuo este que o físico, e outro grande filósofo, Wolfgang Smith, tentou preencher, e penso que somente não teve mais sucesso porque limitado o seu pensamento, de outro lado, por dogmas que acabaram ofuscando a autêntica doutrina de Cristo.

Bohm afirma que há uma contradição no nosso pensamento quando nos separamos do resto do mundo, a qual é aceita por nós implicitamente nos nossos hábitos diários da vida, contradição essa que torna inválidas nossas razões. Sustenta que devemos ter pensamento claro, o que exige não haja contradição em ponto algum da mente, e que não podemos manter uma concepção de seres divididos em tópicos separados como física ou arte, porque isso origina uma confusão quando nos relacionamos com o universo ou as outras pessoas.

Para Bohm, segundo a Física, o universo é uma totalidade indivisível, de modo que devemos assim conceber o cosmos, incluindo nessa totalidade as nossas ações pensamentos, sentimentos, memórias, desejos etc.

Penso que, coerentemente, nessa totalidade estão incluídas as ideias religiosas, e aí se insere a importância do trabalho de Jung, em contraposição ao pensamento de Freud, porque, enquanto aquele destaca a relevância da realidade religiosa e de sua simbologia, este relegou a questão religiosa para o plano da mentira e da fantasia.

Jung afirma que o pensamento de Freud pode ser inserido numa reação à mentalidade vitoriana que tentava restaurar algo das ideias medievais.

“A época vitoriana é a época da repressão, uma obstinada tentativa de conservar artificialmente vivos, através do moralismo, os ideais anêmicos que estavam de acordo com a compostura burguesa. Estes ‘ideais’ eram as últimas ramificações das representações religiosas comuns da Idade Média que haviam sido pouco antes profundamente abalados pelo iluminismo francês e pela Revolução que se seguiu” (Carl Gustav Jung. Sigmund Freud, um fenômeno histórico-cultural. In O espírito na arte e na ciência. Trad. Maria de Moraes Barros. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 29).

Tratou-se de uma tentativa de evitar que o pensamento cristão medieval se esvanecesse, diante de uma crescente influência do iluminismo, na forma do materialismo e do racionalismo científicos do século XIX, de modo que Freud “traça uma imagem da religião que corresponde exatamente ao preconceito da época materialista” (Ibidem).

Portanto, o trabalho de Freud significa uma reação, uma interpretação negativa do passado.

“Se enfocarmos FREUD desse ângulo do passado, isto é, como expoente dos ressentimentos do novo século que se inicia em relação ao século XIX, com suas ilusões, hipocrisias, semi-ignorâncias, sentimentos falsos e exagerados, moral superficial, religiosidade artificial e insossa e seu lamentável gosto, vêmo-lo então, na minha opinião, de modo bem mais certo do que se o cunhássemos como arauto de novos caminhos e verdades” (Idem, p. 30).

Contudo, ainda que crítica seja útil para levar à reflexão, renovar a discussão, Jung salienta que a teoria de Freud sobre a “fixação incestuosa” e as dúvidas por ela levantada “não podem ser levadas sadiamente às últimas consequências” (Idem, p. 31), sendo que a teoria da sexualidade deve ser entendida se soubermos contra que condições históricas ela se levanta.

Daí porque Jung questiona seriamente os méritos científicos de Freud, que devem ser considerados mais segundo sua situação histórica peculiar do que de uma perspectiva mais universal.

“Cientificamente a teoria da sexualidade do lactente tem pouco valor, pois também para a taturana é indiferente se disserem dela que devora a sua folha com prazer comum ou com prazer sexual. O mérito historicamente universal de FREUD não reside nessas falhas escolásticas de interpretação no terreno especificamente científico, mas sim no fato que justifica e fundamenta seu renome de, qual profeta do Antigo Testamento, derrubar falsos ídolos e trazer à luz, impiedosamente, a podridão da alma contemporânea” (Idem, p. 31). Seu mérito está na resposta que representa à doença do século XIX, com suas falsidades coletivas.

Assim, Freud não tem uma proposta para o futuro, pois toda sua orientação é para o passado, “e isso também de maneira unilateral”, porque apenas se preocupa de onde as coisas vêm, desprezando para onde vão. Portanto, se a atividade de Freud teve uma função destrutiva, no sentido de mostrar as falsidades do pensamento de uma época, ele pecou por carência de exatidão científica.

“Para falar a verdade, ao examinar os seus trabalhos com atenção, tem-se a impressão de que sua capacidade científica e correspondente finalidade, que FREUD sempre coloca em primeiro plano, foi usada furtivamente por sua missão cultural, inconsciente para ele, e isto às custas do verdadeiro desenvolvimento de sua teoria” (Idem, p. 33).

O pensamento de Freud representa o lado materialista da atividade científica, portanto, unilateral, do que decorre sua imprecisão e insuficiente utilidade para o debate racional propositivo. Ele foi um instrumento inconsciente de uma realidade mais profunda por ele ignorada.

“A ciência deseja, conforme se presume, um julgamento não tendencioso, imparcial e abrangente. No entanto, a teoria de FREUD é, na melhor das hipóteses, uma meia verdade, necessitando, por isso mesmo, para atuar e existir, da rigidez de um dogma e do fanatismo de um inquisidor” (Idem, p. 33).

Nessa mesma linha, Jung atribui igualmente a Adler a insuficiência racional, por suas reduções à tendência do poder.

“Aliás, a teoria de ADLER também é uma unilateralidade; mas junto com a freudiana forma uma imagem bem mais clara e abrangente do ressentimento contra o espírito do século XIX. Toda revolta moderna contra os ideais dos antepassados também se reflete em ADLER” (Idem, p. 34).

Destacando essas posições, Jung sustenta que uma proposta de Ciência, no caso, uma teoria psicológica, não pode se fundar apenas nas deformações do século XIX, concluindo que “FREUD não avançou naquela camada mais profunda do humano em geral. Não o devia nem podia, sem tornar-se infiel à sua missão histórico-cultural” (Idem, p. 35).

Soa até mesmo irônico o fato de que aquele que é conhecido como o homem que revelou o inconsciente ao mundo tenha passado inconsciente de sua própria atividade principal, tendo servido como um fantoche de forças ocultas que o dominaram sem que ele mesmo percebesse, forças essas que continuam agindo, ainda com mais força, na sociedade atual, e nos meios científico e político, que permanecem seguindo a unilateralidade materialista, especialmente no âmbito jurídico, dominados, pode-se dizer, possuídos, por complexos psíquicos de racionalidade muitíssimo limitada, pela ignorância.

Inconsciência incolor

Na véspera do “dia da consciência negra”, um cidadão brasileiro foi morto por seguranças de uma rede multinacional de supermercados, e tal foi a deixa para a mídia começar a falar de racismo, colorindo os fatos em uma perspectiva distorcida da realidade, focando apenas no fato de a última vítima ser um homem negro. Em razão disso, o “dia da consciência negra” teve como manchetes de todos os jornais a morte brutal do cidadão, associando o fato à cor de sua pele.

O presente artigo teria como nome “inconsciência negra”, pela manipulação ocorrida com o trágico evento, mas a expressão “inconsciência incolor” acaba sendo mais adequada, por ser mais ampla.

Os fatos se deram por inconsciência de todos os envolvidos, valendo dizer que a vítima final e fatal foi, antes, agressora em dois momentos, em relação à funcionária que se sentiu intimidada e chamou a segurança do estabelecimento, equipe que, em um primeiro momento, em tese, pelas informações iniciais, agiu corretamente ao pedir ao consumidor inconveniente que se retirasse do local, não se sabendo ainda o teor da conversa havida no caminho da saída da loja, momento em que a vítima final foi mais uma vez a agressora, que socou o segurança, desencadeando a reação descontrolada e imoderada que levou ao lamentável e injustificável óbito daquele que, é imprescindível seja reconhecido, havia sido, anteriormente, duas vezes agressor.

Por isso, falar de racismo na situação é ignorar a realidade dos eventos, dando destaque a um aspecto que, muitíssimo provavelmente, foi irrelevante para o desenrolar dos acontecimentos.

Importante destacar que é negra a primeira vítima do ocorrido, a funcionária que se afastou porque intimidada pelo comportamento da vítima fatal, também uma pessoa negra, com histórico pessoal e policial de violência e ameaça, de modo que a atribuição de racismo ao conjunto da situação soa absurda.

Discutir o tema racial é, do ponto de vista da doutrina Cristã, uma não questão, porque a cor da pele não é relevante para o julgamento das pessoas e sua salvação, e se tal assunto é debatido como racismo em uma sociedade que se declara Cristã de forma absolutamente majoritária, há algo muito errado com o debate, de um lado, e/ou com a concepção dominante de Cristianismo, de outro.

Vale salientar que no mundo judaico de Jesus, do oriente médio, próximo da África, a questão racial não era minimamente significativa, sendo a Etiópia uma região com grande número de judeus desde antes de Cristo.

O primeiro e maior teólogo Cristão, o apóstolo Paulo já dizia:

Pois fomos todos batizados num só Espírito para ser um só corpo, judeus e gregos, escravos e livres, e todos bebemos de um só Espírito” (1 Cor 12, 13).

Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3, 28).

Portanto, levar a discussão para a cor da pele, ou qualquer outro ponto que não diga respeito à realidade espiritual, à inteligência, significa, na verdade, manipular os fatos com finalidade político-ideológica, afastando a discussão do único plano em que o problema pode ser definitivamente solucionado, o espiritual.

Isso porque a divisão em cores das pessoas é irrelevante, o que importa é a distinção espiritual, o espírito refletido em ações, boas ou más. Focar na cor da pele, por mais que esse ponto tenha recebido alguma relevância histórica, é retomar a discussão de uma perspectiva já equivocada, levando o tema para as questões visíveis e aparentes, quando os reais problemas são invisíveis e ocultos.

Nada disso teria ocorrido, em primeiro lugar, se a funcionária tivesse sido respeitada.

Em segundo lugar, se o cidadão tivesse consciência ele teria reconhecido o incômodo que causou, desculpando-se, e humildemente esperaria sua mulher do lado de fora, e não agredido o funcionário que representava a autoridade local, não sendo possível, por ora, saber se houve alguma ofensa verbal que tenha levado a vítima fatal a atacar fisicamente o segurança da loja, e mesmo que ofensa tivesse havido o soco seria reação desproporcional. Em todo caso, tal agressão, por si só, caso evitada por autocontenção do cidadão, também teria impedido a sequência dos acontecimentos.

Finalmente, e somente após as referidas duas agressões, houve o comportamento bestial dos seguranças, que agiram sem a mínima técnica, que se mostrava necessária para conter as agressões iniciadas por aquele que, ao final, veio a falecer, agindo referidos ficais de modo a demonstrar seu total despreparo técnico e psicológico para enfrentar situações desse jaez.

Portanto, o caso é de inconsciência negra contra a mulher negra e primeira vítima, seguida de inconsciência negra contra o funcionário branco e segunda vítima e, então, inconsciência branca contra o, até então, agressor negro, que se tornou, final e lastimavelmente, a terceira vítima, negra e fatal.

Foi o suficiente para os manipuladores dos fatos fazerem o recorte da parte que lhes interessava e destacar o momento mais grotesco e brutal da situação, que não foi o único, e descontextualizar o evento em sua irracionalidade que começou com uma postura aparentemente desrespeitosa da derradeira vítima e terminou com sua lamentável morte.

Por isso, discutir o ocorrido como racismo é manifestar a inconsciência incolor que domina a sociedade, porque o que realmente importa é o mau espírito que moveu cada um dos agressores, uma vez ser evidente que a cor da pele não fez a menor diferença na sequência dos acontecimentos, dado que a única pessoa que foi exclusivamente vítima em toda a situação foi a mulher negra agredida psicologicamente pelo homem negro que veio a morrer no final da referida sequência de erros, pelo que titular tudo como racismo é uma grande falácia, desviando o problema de seu foco, a questão espiritual e de falta de educação generalizada da população brasileira, cada vez menos instruída em termos qualitativos, e mais dirigida ao materialismo, egoísmo e consumismo.

A vida voltada exclusivamente para o consumo e os prazeres da carne tem obnubilado a consciência, fazendo prevalecer uma inconsciência incolor que tem causado males nefastos à população, no que se inclui a manipulação de uma tragédia com fins ideológicos, ligados à carne, com a falsa roupagem espiritual/intelectual/social, e também politicamente, de um modo geral, para os dois espectros da política, com prejuízo para a coerência com as declaradas crenças Cristãs.

Portanto, irmãos, somos devedores não à carne para vivermos segundo a carne. Pois se viverdes segundo a carne, morrereis, mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis” (Rm 8, 12-13).

Portanto, deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz. Como de dia, andemos decentemente; não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes. Mas vesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne” (Rm 13, 13-14).

A vida Cristã é o assunto científico da maior importância, é o principal tema do conhecimento humano, da civilização, da mais avançada Ciência Física e Social, e enquanto os Cristãos e as autoridades Cristãs não assumirem suas responsabilidades espirituais, não apenas nas missas e cultos, mas, principalmente, na vida cotidiana, na atividade profissional e acadêmica, absurdos como esse continuarão a ocorrer, enquanto a população persistirá sendo manipulada pela mídia, mantendo o povo em sua ignorância e inconsciência incolor.

Tivesse prevalecido o ensinamento do apóstolo, que indiretamente é o do próprio Cristo, mais uma vida e tantas outras vidas teriam sido poupadas.

Que a Verdade seja restabelecida, para que João Alberto possa descansar em Paz!

Jesus x Jesus e anticristo x anticristo

Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada. Com efeito, vim contrapor o homem ao seu pai, a filha à sua mãe e a nora à sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” (Mt 10, 34-36).

Quando lemos tal passagem da Escritura, é possível interpretar que seu significado está no fato de que o nome de Jesus causa divisões, e daí a ocorrência do fenômeno Jesus x Jesus, sendo que do lado oposto presume-se esteja o anticristo, o inimigo de Jesus, portanto anticristo x anticristo.

O Mestre também afirmou: “Todo reino dividido contra si mesmo acaba em ruína e nenhuma cidade ou casa dividida contra si mesma poderá subsistir” (Mt 12, 25); e: “Quem não está a meu favor, está contra mim, e quem não ajunta comigo, dispersa. Por isso vos digo: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém disser uma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado, mas se disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro” (Mt 12, 30-32).

Referidas passagens dizem muito sobre o atual momento político, porque as ideias e a mensagem do Evangelho estão em ambos os lados do conflito, conservador e progressista, ainda que de forma parcial, e igualmente estão nos dois espectros políticos aqueles que com ele Cristo não ajuntam, mas dispersam.

A eleição dos EUA mostra uma clara oposição política entre a população rural e a urbana, campo e cidade, interior e litoral, algo semelhante ao que ocorre no Brasil entre norte e sul, quanto à existência de divisão, porque suas causas não são propriamente as mesmas, dadas as peculiaridades de cada um dos citados países.

A política norte-americana do século XXI é importante, porque diz respeito ao conflito ideológico mundial e à história dos governos das nações, na medida em que os EUA representam hoje uma espécie de império em declínio, em contraposição à Rússia e à China, em que pese haver inegáveis diferenças ideológicas e internas entre estas últimas nações.

A Europa, por sua vez, simboliza uma antiga potência, decadente, que não mais entende sua posição no plano ideológico mundial, especialmente no que diz respeito à verdade do Cristianismo. Se parte da divisão norte-americana diz respeito à contraposição de Jesus x Jesus, a Europa, em sua avançada secularidade, perde cada vez mais contato com suas origens cristãs, apesar da ameaça do terror decorrente do radicalismo islâmico. É filha de Roma e Jerusalém, e mãe da América, todas, a seu tempo e modo, suas próprias versões da Babilônia.

A Europa simbolicamente é também a mulher de Apocalipse 17, sendo possível ver no mapa-múndi virado a imagem da mulher com a taça na mão:

A mulher estava vestida com púrpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas; e tinha na mão um cálice de ouro cheio de abominações; são as impurezas da sua prostituição. Sobre a sua fronte estava escrito um nome, um mistério: ‘Babilônia, a Grande, a mãe das prostitutas e das abominações da terra’. Vi então que a mulher estava embriagada com o sangue dos, santos e com o sangue das testemunhas de Jesus” (Ap 17, 4-6).

Essa mulher significa tanto o comércio quanto à promiscuidade da vida da cidade, da vertente do progressismo político que nega a religião, não reconhecendo a atuação dos santos, ou mesmo a existência de santidade, esse conceito espiritual que moveu as testemunhas de Jesus, inclusive na seara pública, no ambiente político, contra as ações dos poderosos.

No artigo O “Apocalipse e a Verdade” (https://holonomia.com/2020/03/28/o-apocalipse-e-a-verdade/) é mostrado o desenvolvimento dessa história dos impérios mundiais do tempo babilônico até a virada para a era messiânica.

Essa mulher, em certo sentido, é vencedora das eleições dos EUA, pois representa as cidades, a riqueza, o comércio. Também é perdedora, quanto ao armamentismo, à segregação das pessoas humanas. O anticristo, portanto, é onipresente na política mundial.

De um lado, temos Bento XVI dizendo que “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, defendida por uma ala política, é obra do anticristo (https://veja.abril.com.br/mundo/bento-xvi-diz-que-casamento-de-pessoas-do-mesmo-sexo-e-obra-do-anticristo/), de lado, Leonardo Boff afirma que Bolsonaro tem características do anticristo (https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/07/28/bolsonaro-anticristo.htm).

O atual contexto, não apenas quanto à eleição americana, como também em relação às últimas décadas, no diz respeito a esses movimentos políticos mundiais, é realmente histórico, e talvez signifique, como indicam as características de nossa era, uma situação de transição, literalmente, de proporções bíblicas, pois as Escrituras possuem uma descrição da realidade histórica, cujo viés científico urge seja resgatado.

A Bíblia é composta basicamente de narrativas históricas e psicológicas, textos normativos e sapienciais e profecias, estas tidas como manifestações de uma Verdade (hoje científica) (superior/absoluta).

O Cristianismo significou uma atualização da leitura profética, especialmente a partir dos textos do apóstolo Paulo, compreendendo o sentido da História Sagrada, porque o referido autor sagrado realizou uma mediação entre a verdade das Escrituras e a realidade do tempo em que vivia.

Uma determinada compreensão dessa leitura foi o sustentáculo da civilização ocidental, cujo tecido social vem sendo esgaçado a cada dia pela divisão antes citada, que não desaparecerá, porque ambos os lados continuarão se posicionando do lado de Jesus, vendo seus opositores como anticristos.

Existe um mal-entendido fundamental sobre o Evangelho que domina o pensamento ocidental, quanto à natureza do Reino de Deus, quanto ao fato de o Reino de Jesus ser (ou não) deste mundo (Jo 18, 36).

Apenas quando essa Verdade for compreendida, quanto à natureza também política e humana do Reino de Deus, e quando for identificada a natureza profética, que hoje corresponde à atividade científica, da mensagem de Jesus, será possível estabelecer os contendores reais no conflito espiritual que ronda a humanidade há milênios, e assim os lados em disputa serão bem delimitados, os apoiadores de Jesus contra os que estão contra ele, e representam os anticristos, e, então, será apenas questão de declarar o vencedor, acabar com a divisão do Reino, deixando de pecar contra o Espírito, e iniciar a era messiânica.

Todos estão errados, para que, então, Deus exerça misericórdia com todos.

Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia” (Rm 11, 32).

A crise ideológica chegou ao papado

Não se pode ignorar a fala de Francisco, que indiretamente negou os fundamentos não só do Cristianismo, do que certamente ele não tinha ciência, porque tais fundamentos são hoje obscuros para a maioria absoluta da população mundial, pelos atuais entendimentos teológicos majoritários, como também viola preceitos estabelecidos pela própria Igreja Católica Apostólica Romana.

O papa do fim do mundo talvez seja mesmo o papa do fim do mundo.

Francisco está amando um ídolo, uma imagem, a criatura, e negando o criador, em sua fala pretensamente amorosa. “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5, 29), pelo que não se pode violar as normas da razão, da natureza, e da inteligência, para obedecer a sentimentos de falsa piedade humana.

No vídeo “Papa Francisco e a união civil homossexual” (https://www.youtube.com/watch?v=7DK6Apebw3k), a questão controversa é bem enfrentada, mostrando como a fala de Francisco não só ocorreu, porque não contestado tal fato pelos canais oficiais do Vaticano até o momento, como contraria a doutrina oficial da Igreja. Expõe, ainda, a ideia de que o homossexual pode pertencer a uma família, que não deve expulsá-lo da convivência tão somente por causa de sua opção sexual, desde que mantenha comportamento adequado, o que é parte do tratamento cristão e humano às pessoas, mas que isso não implica em reconhecer a identidade entre a família formada por homem e mulher e o agregado de homossexuais.

Ao defender uma lei de convivência civil, ou união civil, entre homossexuais, Francisco contraria texto oficial da doutrina oficial da Igreja:

“A Igreja ensina que o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimónio, significaria, não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade actual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do património comum da humanidade. A Igreja não pode abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade”. (http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homosexual-unions_po.html)

Tom Wright também se manifesta sobre o tema (https://www.youtube.com/watch?v=xKxvOMOmHeI&t=29s), dizendo que a ideia de casamento, por milhares de anos, e em várias culturas, sempre significou a união entre macho e fêmea, entre homem e mulher, e que a ideia de mudar o significado da palavra casamento (que valeria para a união civil) para incluir pares homossexuais faz parte de uma agenda que implica alterar o significado de outros conceitos sociais fundamentais. Essa agenda é a doutrina materialista, atribuída ao falso profeta, que pretende se passar por mensageiro da verdade, quando o que prega é o embuste e a mentira, com o embuste de ser argumento científico.

Outro vídeo que recomendo é o de Yago Martins, no seu canal Dois Dedos de Teologia (https://www.youtube.com/watch?v=Kb7Ru6vge_4&t=620s), abordando a questão homossexual nas escrituras, com o respeito que a questão merece ser enfrentada, sem demonizar os gays, comparando seus pecados a outros praticados por pessoas heterossexuais.

O que se pode dizer é que Francisco está sob a influência do canto da sereia, tendo perdido contato com a realidade teológica que deveria defender, porque sua aceitação da reiterada conduta anômala, ou mesmo de sua normalização, significa não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade atual, mas também ofusca valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade, abdicando de defender tais valores, alcançados para o bem dos homens e de toda a sociedade.

Uma coisa é o respeito devido às pessoas homossexuais, outra, muito distinta, é aprovar os comportamentos praticados segundo essa orientação inferior, conferindo-lhes dignidade jurídica de normalidade, amparo legal ou proteção social. Uma analogia pode ser feita com a psicopatia, o que vale para outras deficiências mentais ou fisiológicas, porque o psicopata não tem direitos como psicopata, ele tem direitos por ser pessoa humana, não se podendo falar em direitos associados àquela qualidade negativa, na medida em os direitos são ligados às pessoas, por sua dignidade ao menos potencial, ou, quando muito, às qualidades positivas decorrentes de determinada função social relevante, vinculados à sua utilidade em uma sociedade meritocrática, fundada em determinados valores, de origem espiritual, em que determinados bens são juridicamente protegidos.

Uma questão básica da evolução da vida, que culmina na humanidade, é a diferenciação sexual, pois os seres vivos nas camadas mais inferiores da escala evolutiva não têm essa distinção, de modo que negar a diferença entre as qualidades e funções biológicas é rejeitar a realidade das coisas e adotar procedimento anticientífico. O pensamento igualitário não pode ser levado ao extremo da irracionalidade, porque a ideologia não tem o poder de alterar a realidade das coisas, e ainda que a mentira consiga atuar por algum tempo, a força da Natureza e da Verdade, no fim das contas, sempre irá se impor.

Tomando-se o exemplo da corrente elétrica, os polos positivo e negativo são distintos, sendo que o funcionamento das máquinas é baseado nessa oposição, que não pode ser ignorada, sob pena de mal funcionamento ou acidentes. Contudo, na vida humana pretende-se negar a distinção entre X e Y, XX e XY, o que, deve-se repetir, é contrário à metodologia científica. Caso um gráfico seja montado alterando-se indistintamente os eixos X e Y, não se poderá saber qual informação está sendo passada, de modo que a devida especificação das características, qualidades e funções é crucial para a correta atividade científica, pelo que equiparar situações tão distintas quanto as uniões heterossexuais e as homossexuais é adotar comportamento indigno de acolhimento como discurso científico, tratando-se, na verdade, de ideologia da pior espécie, a qual, infelizmente, tem sido acolhida por Francisco.

Portanto, Francisco peca tanto contra a Teologia quanto contra a Ciência, contra a coerência racional, o pensamento estabelecido em racionalidade fundada na realidade das coisas e no pensamento inteligente, que remete a Jesus Cristo e aos profetas, aos verdadeiros homens da Ciência, em que pese a ideologia materialista que tomou conta da divulgação científica nas últimas décadas, alterando até mesmo as orientações da Organização Mundial de Saúde, que passou a entender que X e Y são a mesma coisa.

E caso se considere a legislação na sua devida dignidade, como aquilo que deve representar a própria ordem natural, direcionando corretamente o sentido da evolução humana segundo melhores ideias, também há que se rejeitar a proposta de união civil homossexual.

Isso não significa não conferir direito às pessoas, como a participação patrimonial em sociedades de fato, ou a convivência respeitosa em ambientes públicos, mas dentro de determinados limites bem estritos, com a discrição necessária para não causar escândalo aos pequeninos, porque igualar ou mesmo aproximar a família que funda e sempre fundou a sociedade a agregados decorrentes de vontades viciadas é ofuscar os valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade, e abdicar de defender tais valores, alcançados para o bem dos homens e de toda a sociedade.

A regulamentação dos comportamentos tem também uma função pedagógica, mostrar a experiência adquirida quanto a determinadas ações, para evitar males delas decorrentes, de modo que o exemplo de comportamento é de grande relevância, pela função educadora, para o bem e para o mal.

Caso alguém escandalize um destes pequeninos que creem em mim, melhor será que lhe pendurem ao pescoço uma pesada mó e seja precipitado nas profundezas do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! É necessário que haja escândalos, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem! Se a tua mão ou o teu pé te escandalizam, corta-os e atira-os para longe de ti. Melhor é que entres mutilado ou manco para a Vida do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres atirado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o e atira-o para longe de ti. Melhor é que entres com um olho só para a Vida do que, tendo dois olhos, seres atirado na geena de fogo” (Mt 18, 6-9).

Antes dessa passagem o Mestre tinha acabado de falar: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3).

O Evangelho tem a função de anunciar o Reino dos Céus, em suas dimensões tanto espiritual como política, de modo que o correto comportamento social é fundamental para seu desenvolvimento, e é exatamente contra esse modelo de ação que Francisco se coloca ao apoiar a malsinada união civil.

As crianças são puras, e também muitos crentes, de modo que é realmente um escândalo a fala de Francisco, pela importância de sua posição social, o que leva para o centro do papado o erro e a doutrina enganosa de homens que têm corrompido a sociedade e seu ideário de vida santa, revertendo a doutrina cristã em direção à carne, e à carne viciada, impedindo que as pessoas se tornem como as crianças, criando obstáculos para a entrada no Reino dos Céus.

Esquece Francisco o caminho em direção à santidade que dever orientar a caminhada humana, segundo a doutrina que deveria expressar.

Os filhos deste século casam-se e dão-se em casamento; mas os que forem julgados dignos de ter parte no outro século e na ressurreição dos mortos, nem eles se casam, nem elas se dão em casamento; pois nem mesmo podem morrer: são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição” (Lc 20, 34-36).

O apóstolo Paulo chega a falar que a castidade é melhor e mais santa do que a vida conjugal, mas não impõe o celibato, destacando a direção do melhor comportamento humano.

Quisera que todos os homens fossem como sou; mas cada um recebe de Deus o seu dom particular; um, deste modo; outro, daquele modo. Contudo, digo às pessoas solteiras e às viúvas que é bom ficarem como eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se, pois é melhor casar-se do que ficar abrasado” (1 Cor 7, 7-9).

Os tempos são realmente sombrios, porque quem deveria ser luz está divulgando a doutrina das trevas:

Assim, se a luz que existe em você é escuridão, como será grande a escuridão” (Mt 6, 23).

A grande família

Os conceitos de família e história são interligados, pois cada pessoa tem origem em uma determinada família, com uma história particular, o que vale mesmo para os órfãos, cuja peculiaridade é exatamente a criação fora do ambiente familiar tradicional, fato que marca sua história pessoal.

Cada um de nós participa não só de uma família pessoal, que vai sendo alargada quanto mais se volta no tempo, até que chegamos à conclusão de que integramos a grande família humana.

Em alguns casos, contudo, as famílias sanguíneas, de certa forma, interagem com a história da própria humanidade, por estarem envolvidas em processos coletivos de grande amplitude, o que vale também para grupos sociais, formados pela congregação de diversos laços familiares e comunitários. Podemos vincular nossa história pessoal, ainda, ao desenvolvimento nacional, ou ao de uma determinada ideia.

Da perspectiva mais geral, em termos de história secular, descendemos dos primeiros grupos humanos que provavelmente se desenvolveram no continente africano, e que depois se espalharam pelo globo.

Do ponto de vista religioso, a narrativa bíblica nos coloca todos como descendentes de Adão, e depois de Noé e, então, de Abraão, notadamente do ponto de vista cultural, dada a importância que referida figura tem para o judaísmo, para o islamismo e para o cristianismo. Esse é um modo de vinculação do indivíduo com uma comunidade mais ampla, que hoje é planetária.

Vale dizer que a ideia de fraternidade humana é dependente do ideário cristão, segundo o qual somos todos filhos de Deus, pelo que formamos a família humana.

Falando em família humana, neste fim de semana passei a gostar ainda mais daquela que considero a melhor música de todos os tempos, a Nona Sinfonia de Beethoven, pois descobri o significado da letra cantada pelo coro, da Ode à Alegria, poema de Friedrich Schiller, que trata exatamente desse assunto.

Atribuo meu pertencimento à humanidade à vida e obra de meu irmão mais velho, que é também o mais novo, Jesus, pois representa tanto a experiência de todas as gerações passadas, como a inocência da mais pura criança, em quem o velho e o novo se unem para a continuidade da tradição familiar. Ele reafirma os velhos valores, que permitem a existência e o desenvolvimento da comunidade:

Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que Iahweh, teu Deus, te dá. Não matarás. Não cometerás adultério. Não roubarás. Não apresentarás um falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a sua mulher, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo” (Ex 20, 12-17).

Se tais mandamentos foram os que permitiram o desenvolvimento da família de Israel, seu resumo em dois, por Jesus, sem deslembrar aqueles, foi a base para o desenvolvimento da civilização ocidental:

Amarás o Senhor teu Deus em todo o teu coração em toda a tua alma e em todo o teu entendimento. Este é o grande, o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos está suspensa toda a Lei e os Profetas” (Mt 22, 37-40).

Foi dentro desse ideário que minha família sanguínea foi criada, de forte tradição católica, e com alguma participação em eventos da história nacional. Depois de assistir a um vídeo sobre a história de Juiz de Fora, fui procurar na internet o nome de meu bisavô, Theodorico de Assis, para ver sua associação com a primeira usina hidrelétrica da América Latina, quando encontrei um texto que enfrentava a questão: https://revistas.ufpi.br/index.php/rbhm/article/download/3802/2200. Interessante notar no texto como havia uma preocupação social com os operários, fato que se comprova porque a eles foi dada a oportunidade de comprar os imóveis em que residiam, que pertenciam à Fazenda Floresta.

É certo que o pertencimento a tal família formou meu ideário de mundo, com importância na afirmação psíquica individual, especialmente pelo sentimento de pertencimento espiritual familiar. O mais importante, contudo, associado a esse sentimento familiar, porque significativo da concretização daqueles mandamentos arquetípicos da humanidade, encarnados em Jesus Cristo, foram os momentos de experiência humana mais profunda, ligados aos valores cristãos.

Foi e é por meio de uma formação familiar e cristã, com todos os defeitos e qualidades inerentes a toda família, que continuo a me desenvolver como indivíduo, sentindo-me honrado de pertencer tanto ao grupo sanguíneo que integro, do lado paterno como materno, como à própria humanidade, na sua melhor versão, naquela que preza pela alegria dos filhos de Deus, que sabem participar da grande família humana.

Abracem-se milhões!

Enviem este beijo para todo o mundo!

Irmãos, além do céu estrelado

Mora um Pai Amado.

Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?

Mundo, você percebe seu Criador?

Procure-o mais acima do Céu estrelado!

Sobre as estrelas onde Ele mora!