Cosmos e transcendência

Cosmos e transcendência: rompendo a barreira da crença cientificista” é o mais recente livro de Wolfgang Smith traduzido para o português, lançado originalmente em 1984, em língua inglesa. Já foram editados, em português, do mesmo autor, “O enigma quântico: desvendando a chave oculta”, “Ciência e mito” e “A sabedoria da antiga cosmologia”, obras essas escritas depois de “Cosmos e transcendência”. Consta na orelha deste livro, ora em comento, que “suas pesquisas e artigos em aerodinâmica e campos de difusão forneceram a chave teórica para a solução de problemas de reentrada na atmosfera em viagens espaciais”, tendo Wolfgang Smith obtido Ph.D. em Matemática pela Columbia University, e também foi professor no MIT e na University of California. Trata-se, portanto, de alguém com grande conhecimento teórico e prático, e não de um simples criador de ideias fantasiosas.

Na apresentação, consta a seguinte mensagem de Harry Oldmeadow:

Como este livro não poderia deixar mais claro, a Revolução Científica do século XVII proclamou o triunfo de uma determinada cosmovisão científica (racionalista, materialista), com sua epistemologia (o empirismo) e seus procedimentos (o ‘método científico’). Ao contrário do que supõe o vulgo, a ciência moderna não é tão somente um modo desinteressado, desapegado e não-valorativo de investigar o mundo material: é um complexo de disciplinas e técnicas que se ancora todo ele em pressupostos e atitudes de base cultural, relativos à natureza da realidade e às maneiras mais apropriadas de explorar os fenômenos materiais, explicá-los e, talvez mais significativamente, controlá-los. Com efeito, seria impossível separar dos métodos da ciência moderna as suas teorias e as ideologias que fornecem a sua força motriz – e é a esse novelo emaranhado, ou, no dizer de Wolfgang Smith, aos pressupostos inverificáveis assumidos pelas proposições ‘verificáveis’ da ciência, que o autor aplica o termo cientificismo” (Cosmos e transcendência, p. 9).

No capítulo I é tratado o tema do universo físico, objeto de estudo da Física, relativo às coisas que podem ser descritas em termos matemáticos, do qual é excluído tudo o que não pode ser reduzido a extensão e número. A ideia de universo físico decorre de um pressuposto metafísico que divide a realidade em dois mundos, um extenso e um pensante, o que remonta a Galileu e Descartes, que foi assumido por Newton, e daí penetrou no pensamento científico ainda vigente. Newton adotou a metafísica bifurcacionista, e fortaleceu a “filosofia experimental”, que prevaleceu quase absoluta por duzentos anos, até ser questionada pela relatividade.

Pela física clássica, associada a Newton, o homem era um mero espectador local de um mecanismo eterno, em um espaço absoluto e um tempo absoluto. Contudo, a relatividade passou a exigir a adoção de referenciais, concluindo que não há o espaço e o tempo absolutos da física clássica, tendo a orgânica quântica, então, obrigado o cientista a “admitir que o conhecimento científico é irremediavelmente fenomênico – um conhecimento não de coisas em si mesmas, mas de coisas em relação ao observador” (Cosmos e transcendência, p. 28). Pode-se notar, claramente, por essa citação, que Wolfgang Smith adota uma postura kantiana perante a realidade, pelo que, em que pese o brilhantismo de sua obra, talvez sua posição filosófica, por mais que evolua para superar o materialismo, ainda não seja o que de melhor a razão humana desenvolveu.

Uma vez que a investigação científica, portanto, é o estudo de nossa relação com o cosmos, conclui o autor que o postulado da bifurcação provou-se carente de aval científico, passando a uma ideia opcional, ou seja, “um pressuposto metafísico, que se sustenta ou se derruba em bases estritamente filosóficas” (Idem, p. 33).

O dualismo cartesiano mente-corpo, ou postulado da bifurcação, decorreu da concepção segundo a qual apenas o universo extenso pode ser descrito em termos mecânicos, com leis que regulam o movimento da res extensa, ou matéria, no espaço.

Todo o resto fica relegado a res cogitans, ou substância pensante, que existe por si só como uma espécie de entidade espiritual. É digno de nota que a res cogitans surge a Descartes logo no início das suas meditações como a uniquíssima certeza imediata – o famoso cogito ergo sum –, ao passo que a existência do universo mecânico, âmbito externo à res cogitans, é alcançada só depois por meio de um argumento lógico construído sobre a ideia de Deus e Sua veracidade. É mesmo uma ironia assinalável que a premissa básica do materialismo moderno se tenha fundado sobre a teologia!” (Idem, p. 39)

Wolfgang Smith narra que, a despeito do sucesso do universo mecânico como “doutrina oficial da ciência”, houve quem questionasse seus fundamentos, como George Berkeley, ao sustentar, sobre as coisas não pensantes, que “não podem elas ter existência fora da mente ou da coisa pensante que as percebe”, e que “não há outra substância além do Espírito, ou aquilo que percebe” (Apud Wolfgang Smith, obra citada, p. 42).

Depois veio Kant com sua tentativa de superar o entendimento de Hume, valendo ressaltar que, do mesmo modo como Descartes, aquele:

estava preocupado em apoiar a ciência da mecânica sobre uma firme base teológica. Escutara atento a corrente controvérsia filosófica e entendera que o busílis da questão se encontrava num abismo intransponível entre o cientista e seus objetos. A solução kantiana para o problema resumia-se em puxar os objetos para o lado de cá daquele abismo” (Idem, pp. 42-43).

Wolfgang Smith destaca que Kant, de seu modo, resolve o problema da bifurcação de uma forma compatível com a situação atual da física, segundo a qual o objeto da ciência é nossa relação com o cosmos. Depois cita Edmund Husserl e Alfred North Whitehead, que “são as figuras de maior destaque na refutação filosófica contemporânea da premissa cartesiana”, dizendo, então, que foi dado o “veredicto no julgamento filosófico da cosmovisão ‘científica’: o pressuposto básico dela provou-se insustentável” (Idem, p. 50).

Ainda assim, apesar da “derrocada da física clássica”, a mentalidade dos cientistas continua atrelada à metafísica newtoniana, e a despeito de uma certa sofisticação sobre as noções básicas da ciência, adquirida em razão da física moderna, as questões fundamentais do conhecimento continuam sendo abordadas em um “clima de superficialidade – um pluralismo leviano – que evita e escamoteia o problema básico em vez de resolvê-lo” (Idem, p. 53), porque nossa cosmovisão científica continua a “repousar sobre as velhas fundações newtonianas”, sustentadas pela doutrina cartesiana, sendo que, “apesar de tudo o que se desenrolou no transcurso dos últimos três séculos e meio, essa contestadíssima hipótese ainda constitui o alicerce metafísico da ciência moderna, implicado, como já vimos, pelo próprio conceito de universo físico” (Idem, p. 54).

Este conceito de universo físico, contudo, “é alheio à física num plano técnico e, assim, pouco passa de um capricho pessoal, um tineta desprovida de aval científico” (Idem, pp. 54-55), sendo que a comunidade científica está alheia a esse problema fundamental da ciência.

Isso nos leva, enfim, à conclusão aparentemente paradoxal de que a cosmovisão associada à mais exata das ciências está inçada de equívocos fundamentais. Segue fugindo ao entendimento convencional que a Weltanschauung pretensamente científica se baseia não em legítimas descobertas da ciência, mas em pressupostos filosóficos ocultos que se revelam em última análise autocontraditórios. Em nome da física, a civilização sucumbiu à fantasia” (Idem, p. 57).

Em seguida, Wolgang Smith informa que o cientificismo significou a perda do sentido de transcendência, do entendimento cristão de que o cosmos é uma teofania, ou manifestação de Deus; demonstra que a evolução é apenas uma hipótese geral, ao invés de significar um fato científico incontroverso; e questiona o entendimento da psicologia do século XX, tanto em relação a Freud como Jung.

Ao final, o autor aborda a questão da cosmologia, assunto que será melhor desenvolvido no livro “A sabedoria da antiga cosmologia”, citado mais acima, narrando que a cosmologia é uma doutrina referente ao cosmos em sua inteireza, afirmando que:

as coisas da natureza apontam para além de si próprias; ainda que sejam corpóreas, falam de domínios incorpóreos – são símbolos. Existe mesmo uma correspondência analógica entre os vários planos: ‘como em cima, assim em baixo’, segundo reza o axioma hermético. Não nos esqueçamos que apesar da sua estrutura hierárquica o cosmos constitui uma unidade orgânica, muito afim à unidade orgânica de mente, alma e corpo que podemos vislumbrar em nós mesmos. Acaso o rosto não espelha emoções, os pensamentos ou até o próprio espírito do homem? Viemos a perder de vista que também o cosmos é um ‘animal’, como observavam os filósofos antigos” (Idem, pp. 196-197).

Assim, falando de “coisas que apontam para além de si próprias”, remeto, finalmente, o leitor ao meu artigo “Transcendência imanente” (https://holonomia.com/2017/09/14/transcendencia-imanente/), com uma proposta para resolver o problema da transcendência, que, na linha adotada por Descartes e Kant, é fundada na Teologia, que, de fato, é o fundamento de toda Ciência.

Teologia Cristã em Paulo

A Teologia é uma realidade onipresente na vida moderna, ainda que poucos o percebam, porque os temas teológicos fundamentais são dados como certos pela maioria absoluta das pessoas, estão arraigados nas visões de mundo e nas filosofias que lhes são subjacentes, em suas linhas gerais de pensamento. Na vida cotidiana estão implícitos conceitos desenvolvidos teológica e filosoficamente, que repercutiram, direta e indiretamente, nas variadas ciências, da Física ao Direito, porque a revolução científica, por exemplo, foi baseada em uma visão deísta de ordem do mundo e a dignidade humana é fruto do desenvolvimento filosófico do Cristianismo.

Na tradição ocidental, é possível dizer que, desde o tempo de Jesus, estamos em um processo de mutação teológica, de mudança na compreensão de Deus e de sua ação sobre o mundo, o que teve reflexo na atividade filosófica e científica de grandes pensadores, de Agostinho a Tomás de Aquino, de Descartes a Newton e Galileu.

Assim, é fundamental o retorno à análise dos fundamentos teológicos, filosóficos e científicos que embasam nossa visão de mundo, com destaque para Paulo, o primeiro e grande sistematizador das ideias relativas a Cristo.

Recomendo, pois, o vídeo “Why and How Paul Invented ‘Christian Theology’” (Por que e como Paulo inventou a ‘Teologia Cristã’ – https://www.youtube.com/watch?v=Y4CY73psVFQ), uma palestra proferida pelo teólogo N. T. Wright, no seu trabalho de trazer uma nova perspectiva sobre o significado da mensagem de Paulo, que tem o sentido de ensinar os membros da igreja a pensar de uma nova forma, entendendo como Jesus, o Messias de Israel, revelou, por sua vida, morte e ressurreição, a nova criação de Deus. O que segue é um resumo da referida palestra:

Na abordagem de Paulo, segundo Wright, é ensinado ao Cristão não se conformar com o tempo presente, mas viver na nova era já iniciada por Jesus, devendo o seguidor de Cristo aprender a pensar, e não apenas a se comportar, de acordo com a era inaugurada por Cristo. Assim, a nova comunidade tem uma nova mentalidade, vinculada a Jesus, como Messias, e à nova criação por ele aberta, o Reino de Deus, que possui um modo próprio de pensamento. Indo além das abordagens filosóficas da época, pelas suas disciplinas fundamentais, que eram a física, a ética e a lógica, Paulo direcionou tal conhecimento à cosmovisão do judaísmo, de um modo como ninguém havia feito anteriormente, redefinindo o povo de Deus em termos judaicos e não judaicos, e ensinando a pensar como o Messias.

Em seus escritos, Paulo estimula a comunidade a viver em unidade e em santidade, sendo exigido grande esforço para que a manutenção da unidade não prejudique a santidade, e para que a santidade não se dê pela fragmentação do corpo da comunidade a cada desacordo, o que prejudicaria a unidade. Para tanto é necessário ensinar as pessoas a pensar em termos messiânicos, de modo que a Teologia Cristã seja uma tarefa, uma vocação e uma atribuição de todo Cristão, porque somente assim é concebível que haja a unidade e a santidade da comunidade, como um processo de pensamento que se torne uma realidade.

Paulo está, assim, ensinando a transformação mental da nova era, do Reino de Deus inaugurado pelo Messias de Israel, Jesus. O objetivo de suas cartas, como das Escrituras, é ensinar a direção da viagem do povo de Deus para a era messiânica que já começou com a ressurreição, fazer com que as pessoas aprendam a pensar de modo diferente e a descobrir a rota a seguir, pelo que desafia seus ouvintes a pensar teologicamente, a fazer Teologia Cristã como uma tarefa compartilhada, para amadurecer na nova forma de pensar.

Portanto, pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que há no Amor, pela comunhão no Espírito, por toda ternura e compaixão, levai à plenitude a minha alegria, pondo-vos acordes no mesmo sentimento, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um só do que é seu, mas também do que é dos outros” (Fl 2, 1-4).

Essa atividade só é possível pela mente do Messias, com humildade e abandono de si ao amor. No Messias é oferecida a salvação, mas para isso é necessário seguir o seu exemplo, e o do próprio Paulo, pensando como o Messias, aprendendo a pensar com a mente do Messias, pelo que o desenvolvimento da Teologia Cristã é um trabalho de toda a igreja, de toda a comunidade e de seus integrantes.

O destaque dessa Teologia é a morte e a ressurreição de Jesus, o Messias, que não fazia o menor sentido para o pensamento da época, para judeus ou pagãos, e ainda assim, por mais que absurda tal ideia pudesse ser e pareça, é o marco inaugural do novo mundo, não apenas como um mundo diferente, mas como a transformação do velho mundo a partir de dentro, o que contrariava o senso comum antigo, era uma coisa sem sentido, assim como a ideia de uma comunidade unida em santidade. Nesse processo de mudança entre o mundo velho e o novo, os seguidores do Messias devem ser transformar, pela renovação de sua mentalidade, o que não acontece automaticamente, sendo, na verdade, uma atividade que está em curso desde a ressurreição de Jesus, de formação de uma nova humanidade a partir de uma nova forma de pensamento, uma comunidade de membros com a mente desperta e com plena responsabilidade, porque o Reino de Deus é feito de pessoas, e não de fantoches.

Há uma nova sabedoria desde Cristo, que deve ser buscada por seus seguidores, o que faz com que estes sejam todos teólogos, e não meros dogmáticos, pensando como o povo do Reino de Deus, que vive no mundo da Escritura, em que há um Deus a Quem todas as coisas pertencem, e na mente do Messias.

De Iahweh é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes” (Sl 24, 1)

No ponto, Paulo era um judeu, e recitava regularmente a Shemá, a profissão de fé do Monoteísmo, segundo a qual há somente um Deus.

não há outro Deus a não ser o Deus único. Se bem que existam aqueles que são chamados deuses, quer no céu, quer na terra — e há, de fato, muitos deuses e muitos senhores —, para nós, contudo, existe um só Deus, o Pai, de quem tudo procede e para quem nós somos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem tudo existe e por quem nós somos” (1Cor 8, 4-6).

A Teologia Cristã inventada por Paulo é uma atividade que significa aprender a pensar e a viver na narrativa das promessas feitas a Abraão e a Israel, que se realizaram em Jesus, quando Deus agiu de forma chocante, surpreendente, mudando o mundo, por sua ressurreição, o que foi o cumprimento daquelas antigas promessas.

A atividade teológica de Paulo incluiu o antigo mundo pagão, cuja filosofia abordava as questões de física, ética e lógica, sendo a física a origem do mundo, a ética sobre o comportamento adequado e a lógica a ciência do conhecimento correto. Havia, de outro lado, uma nova física no novo mundo, criado em Jesus, transformado do antigo, e não uma criação ex nihilo; uma nova ética, exigindo que as pessoas vivam com discernimento das coisas, com novos comportamentos; e um novo conhecimento, decorrentes da nova mente do Messias.

Assim, Paulo inventou a Teologia Cristã porque apenas quando a comunidade, ou igreja, está engajada nessa atividade há alguma esperança de realização das virtudes da unidade e da santidade. O trabalho de refletir sobre Deus, sobre o povo de Deus e o futuro de Deus é, assim, a novidade de Paulo, pois esse modo de pensar não ocorria no mundo judeu ou não judeu.

Paulo ensina a pensar uma narrativa escriturística reconfigurada pela mente do Messias, até que essa forma pensar e esse conhecimento encham toda a Terra e toda a criação; e que uma visão judaica da nova criação a partir do Messias é o fundamento para o engajamento criativo de um mundo mais amplo, o que é a disciplina da Teologia Cristã.

Em outras exposições muito pertinentes, “Gifford Lectures 2018” (https://www.youtube.com/watch?v=zdUM0ZB5zT0&list=PLv797D4CCFPAyZfVlS02nzhFD-l2GgHf4), que também ficam indicadas, N. T. Wright aborda o tema do Reino de Deus, esquecido pela Teologia Cristã.

Saindo das lições de Wright, é possível entender que a atual divisão da sociedade seja a consumação de profecias do próprio Jesus, até que, enfim, a comunidade possa se tornar unida e santa, no Reino de Deus.

“‘Pensais que vim para estabelecer a paz sobre a terra? Não, eu vos digo, mas a divisão. Pois doravante, numa casa com cinco pessoas, estarão divididas três contra duas e duas contra três; ficarão divididos: pai contra filho e filho contra pai, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra’.

Dizia ainda às multidões: ‘Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: ‘Vem chuva’, e assim acontece. E quando sopra o vento do sul, dizeis: ‘Vai fazer calor’, e isso sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e por que não discernis o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? Com efeito, enquanto te diriges com teu adversário em busca do magistrado, esforça-te por entrar em acordo com ele no caminho, para que ele não te arraste perante o juiz, o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Eu te digo, não sairás de lá antes de pagares o último centavo’” (Lc 12, 51-59).

No Brasil, enquanto um certo ex-presidente e seus seguidores não entenderem a mensagem mais profunda da passagem acima, e o significado de verdade e santidade, e isso também vale para seus opositores, nossa comunidade continuará dividida…

O cristianismo, se for falso, não tem valor; se for verdadeiro, tem valor infinito. A única coisa que lhe é impossível é ser ‘mais ou menos’ importante”. C. S. Lewis

Direito e fake news

Ao meditar sobre o tema a escrever, deparei-me com uma notícia do sítio Uol, tendo o título: “Ao dizer que gênero é igual a sexo biológico, ministério ignora a ciência” (https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/06/26/ao-dizer-que-genero-e-igual-a-sexo-biologico-ministerio-ignora-a-ciencia.htm).

Pois bem, a apresentação gráfica da página já indica a linha da reportagem, antecipando, sem a menor sombra de dúvida, a posição ideológica do texto e, consequentemente, sua conclusão, uma vez que a coluna tem o nome “Universa”, cujas letras são permeadas pelas cores do arco-íris…

O artigo começa dizendo que a Chancelaria do Brasil está orientado seus diplomatas a reforçar a visão do governo brasileiro no sentido de que gênero e sexo biológico são a mesma coisa. O segundo parágrafo do texto é o seguinte:

Do ponto de vista da Ciência, não há como afirmar que sexo biológico (aquele designado no nascimento) e gênero (como a pessoa se identifica) se refiram ao mesmo conceito. ‘Essa é uma afirmação ideológica, sem base científica’, diz Maria Cristina Cavaleiro, professora da Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp) e pesquisadora de estudos de gênero”.

Entretanto, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 4.ª edição, no verbete “gênero”, consta no item 7: “Antrop. A forma culturalmente elaborada que a diferença sexual toma em cada sociedade, e que se manifesta nos papéis e status atribuídos a cada sexo e constitutivos da identidade sexual dos indivíduos”.

Portanto, a definição de “gênero”, ainda que contenha influência cultural, é condicionada pelo que seja “sexo”, porque esse significado é mencionado três vezes no período citado, indicando uma evidente interdependência entre os conceitos de “gênero” e “sexo”. O mesmo dicionário, no verbete “sexo”, por sua vez, faz constar os seguintes sentidos: “1. Conformação particular que distingue o macho da fêmea, nos animais e nos vegetais, atribuindo-lhes um papel determinado na geração e conferindo-lhes certas características distintivas. 2. O conjunto das pessoas que possem o mesmo sexo. (…) 4. Bras. Os órgãos genitais externos”.

Além da questão linguística, que se aplica a praticamente todas as culturas, indistintamente, condicionando a definição de “gênero” à de “sexo”, a própria biologia, ressalvadas situações excepcionais de hermafroditismo e alguma outra anomalia genética, define o homem e a mulher pelos seus cromossomos específicos, o que está associado à geração e perpetuação da espécie.

Desta feita, se “gênero” está ligado a “sexo” e, no Brasil, este conceito se associa aos “órgãos genitais externos”, anda muito bem a Chancelaria da República Federativa do Brasil, respeitando a cultura nacional e a verdadeira Ciência, ao rejeitar um modismo de feições autoritárias e dizer que gênero e sexo biológico são a mesma coisa.

Numa leitura rasa da situação, portanto, a afirmação ideológica e sem base científica não é dizer que gênero é igual a sexo, mas negar esse fato evidente, e a negativa a essa evidência exige toda uma criação ideológica que transforma os significados milenares das palavras e o conteúdo dos fenômenos do mundo para que eles sejam adequados a uma ideologia igualitária de feições unilaterais e materialistas, associada ao comunismo em sua atual vertente cultural, essa, sim, sem base científica.

Para rebater o argumento comunista primitivo, vale citar uma noção extraída dos comentários ao I Ching, o Livro das Mutações, datado de aproximadamente 3000 a.C, obra que consta como primeira sugestão da lista da Revista Superinteressante de março de 2015, edição especial, a qual arrola os 30 (trinta) livros mais importantes da história, e que começa exatamente com o I Ching, o Livro das Mutações.

A ideia do citado livro, em si, é a ideia básica da ciência, inclusive da física moderna, ao procurar as constâncias por trás das mudanças do mundo, o Tao, o Caminho (Jesus é o Caminho), ou a realidade invisível e una que se mantém eterna por trás dos fenômenos transitórios.

Não é coincidência que o I Ching tenha origem na China, que Hegel comece sua filosofia da História na China, e que esta nação esteja superando a economia dos EUA como a maior a do planeta, que inventou a pólvora, usada para moldar o ocidente, com guerras, criou a impressão com tipos móveis no século XI, cerca de trezentos anos antes de Gutemberg, abandonou o comunismo econômico e nunca adotou sua versão cultural.

O que falta à China é se render ao Cristianismo, o que não tardará acontecer, no correto significado dessa Teologia, Ciência e Cosmovisão. Nesse ponto, a Ciência busca o eterno, e o I Ching traz a ideia de uma realidade permanente além das mudanças da natureza, que seja invariável, não provisória. Essa realidade, mesmo que seja una, é permeada de distinções, que devem ser respeitadas. Como consta no comentário à imagem do hexagrama “10. Lu / A conduta (Trilhar)”:

Assim também entre os homens há, necessariamente, diferenças de nível. É impossível chegar a uma igualdade universal. Porém, o que importa é que as diferenças de nível na sociedade humana não sejam arbitrárias e injustas, pois nesse caso a inveja e a luta de classes se seguiriam inevitavelmente. Se, ao contrário, às diferenças de nível externo corresponderem diferenças de capacidade interna, e o valor interno for o critério para a determinação da hierarquia externa, a tranquilidade reinará entre os homens e a sociedade encontrará ordem” (I Ching: o livro das mutações / tradução do chinês para o alemão, introdução e comentários Richard Wilhelm; prefácio C. G. Jung; introdução à edição brasileira Gustavo Alberto Corrêa Pinto; tradução para o português Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto. São Paulo: Pensamento, 2006, pp. 56-57).

Existe uma necessária ligação entre o mundo interno e o mundo externo, o que inclui, obviamente, os genes, os cromossomos, os órgãos externos, sendo a cisão dessa unidade ontológica uma criação artificiosa da ideologia, que tem inventado igualdades na sociedade humana que são arbitrárias e injustas, porque negam diferenças universais existentes na natureza.

Há uma hierarquia cósmica, e humana, em cujo ápice está Jesus, o Cristo, e enquanto seus verdadeiros valores não forem aceitos e usados como o padrão para a definição da verdade científica, seja pela imprensa ou pela sociedade política, as fake news, dentre as quais a indicada no começo deste artigo, serão um mal social com efeitos cada vez mais nocivos para a vida social.

Não é por acaso que na conversa entre Willian Waack e Luiz Felipe Pondé, no canal Democracia na Teia (https://www.youtube.com/watch?v=UvdcKDNxZcc), é destacado que a grande mídia é vista pela sociedade como divulgadora de fake news, porque o público entende que o jornalismo o está conduzindo para um determinado lado, que é o lado da mentira, perdendo a qualidade de fonte de informação confiável, o que se aplica ao referido sítio Uol.

O grande problema está no fato de que essas igualdades arbitrárias e injustas, essas mentiras, ou fake news, têm sido estabelecidas como “normas jurídicas” por meio de decisões judiciais, especialmente daquela que historicamente pode ser considerada a ínfima corte brasileira, e tal situação vem aumentando as tensões sociais, fomentando uma espécie de luta de classes, cujo resultado já é conhecido, a vitória da Verdade, dos santos de Deus…

A ideologia que nega a Ciência, assim, sequestrou não só o jornalismo, como também o mundo jurídico, e vem tentando, por enquanto, transformar o Direito em fake news

A Teologia como definidora da relação entre mente e matéria

  1. A relação entre mente e corpo, ou mente e matéria, está na base e na ponta do desenvolvimento científico. Fundamental para a modernidade foi o trabalho racionalista de Descartes, propondo a separação entre as substâncias pensante e extensa, ideia cujo desenvolvimento permitiu que o conhecimento humano chegasse até a física moderna. Contudo, o dualismo cartesiano chegou ao seu limite, sendo necessário superar a proposta de duas substâncias distintas, porque a realidade física aponta para uma comunicação intrínseca, ou unidade, entre mente e matéria, o que talvez seja o tema mais atual da neurociência.

  2. A posição filosófica quanto à relação entre mente e matéria é condicionada, todavia, por uma delimitação teológica que antecede conceitualmente a questão. O ateísmo, como regra, sustenta o monismo materialista, no sentido de que a realidade é apenas material, sendo a mente um epifenômeno decorrente da atividade material ocorrida no cérebro, ou seja, a mente é o mero resultado de reações químicas.

  3. O dualismo cartesiano clássico é o entendimento que talvez seja melhor relacionado à cosmovisão deísta, que sustenta a ideia de um Deus criador, mas que não interfere na história do universo. Pelo deísmo, o mundo foi criado por uma inteligência superior, segundo leis racionais, e apenas essas leis passaram a governar o cosmos após a criação, sem que haja interferência divina nos acontecimentos da história, pelo que o deísmo, tradicionalmente, exclui a possibilidade de ocorrência de milagres. Aqui uma ressalva é cabível, pois somente é possível uma definição adequada de milagre com o pleno conhecimento do funcionamento da natureza, posição cognitiva da qual nossa ciência está muitíssimo afastada.

  4. Finalmente, para o teísta, o monismo materialista ou mesmo o dualismo cartesiano não podem ser a melhor hipótese para explicar a relação entre mente e corpo, porque o Cristianismo, por exemplo, o que vale também para o Judaísmo e o Islamismo, é baseado numa espécie de mistura entre as realidades espiritual e material, interferindo Deus, que é Espírito, constantemente, na História humana, do Gênesis ao Apocalipse, podendo ser citados como exemplos o Dilúvio, o Êxodo e a Ressurreição.

  5. Na discussão filosófica sobre o tema, remeto o leitor para o artigo “Nem dualismo, nem monismo: a totalidade indivisa de David Bohm”, escrito por Cínthia Roso Oliveira e Sofia Inês Albornoz Stein, que pode ser encontrado no sítio da Revista Kínesis (http://revistas.marilia.unesp.br/index.php/kinesis/article/view/6413), no qual é discutida a natureza da mente a partir da interpretação da física quântica formulada por David Bohm, como resumido na seguinte passagem:

    Bohm critica qualquer forma de reducionismo; diante disso ele parece se afastar tanto dos monismos idealistas quanto dos monismos materialistas. Para estes últimos, tudo o que existe é material ou se reduz a algo material, inclusive para os materialistas emergentistas as propriedades mentais de certa forma se reduzem às materiais, já que só existem por causa delas.”

  6. No referido texto é informado que Bohm critica o dualismo cartesiano, mas não se enquadra propriamente no que é chamado monismo neutro, segundo o qual a distinção mente-matéria seria formal, como uma distinção de propriedades de uma substância, “pois, apesar da semelhança entre as propostas de que a realidade última é neutra e tem propriedades mentais e materiais, para Bohm, tal realidade não se reduz a uma única substância cujas características já são completamente conhecidas”.

  7. O artigo também sustenta que a teoria de Bohm não se enquadra na proposta idealista, afirmando que: “Para o idealismo, de modo geral, o que existe e é conhecido são imaginações do sujeito, portanto tem um caráter subjetivo”. Uma vez que, pela hipótese de Bohm “as percepções não são estritamente subjetivas, mas podem ser compartilhadas”, ele não pode ser considerado um idealista.

  8. Contudo, o idealismo adotado pelo texto, extraído do Dicionário de filosofia de Abbagnano, possivelmente não é o mesmo adotado por Bohm, porque o idealismo da subjetividade é essencialmente associado à filosofia de Kant, e é sabido que Bohm foi influenciado pela leitura de Hegel, pelo que talvez possa ser considerado inserido em um idealismo objetivo ou metakantiano, caso não possa ser nominado de hegeliano. Não cabe aqui, entretanto, uma discussão sobre a interpretação da filosofia de Hegel dentro do idealismo ou sua influência sobre Bohm, valendo dizer que qualquer abordagem razoável do hegelianismo, por si só, é uma tese de doutorado em Filosofia, uma vez que não é possível entender Hegel sem conhecer Filosofia, e é muito provável que seja impossível um pensamento verdadeiramente filosófico e atual que ignore Hegel.

  9. De todo modo, Bohm rejeita tanto o materialismo quanto o dualismo, sendo certo que sua proposta, ainda que não seja associada às formas de idealismo tradicionais, mais se aproxima da essência idealista, ao considerar, como citado mais à frente, a existência de uma espécie de mente universal, apesar de ele não aceitar o que chama de reducionismo idealista, segundo o qual a matéria é reduzida um tipo de pensamento, por exemplo, na mente de Deus.

  10. No artigo “A new theory of the relationship of mind and matter” (http://www.tcm.phy.cam.ac.uk/~mdt26/local_papers/bohm_mind_matter_1990.pdf), Bohm desenvolve alguns de seus principais argumentos, para, numa tradução livre, “reunir os lados físico e mental da realidade”, sustentando uma nova forma de pensar, que é consistente com a física moderna, não separando a mente da matéria, o observador do observado, o sujeito do objeto.

  11. Bohm defende que, segundo o mundo quântico, nem mesmo a matéria inanimada pode ser adequadamente entendida em termos cartesianos, algo que apenas ocupa lugar no espaço, o que implica que também a mente possui sempre um aspecto físico, ainda que este seja muito sutil, havendo a possibilidade de uma relação real entre matéria e mente, as quais nunca tiveram a distinção absoluta sustentada por Descartes, ou pelos materialistas emergentistas.

  12. Segundo a ordem implicada, conceito desenvolvido por Bohm: “the whole universe is in some way enfolded in everything and that each thing is enfolded in the whole. From this it follows that in some way, and to some degree everything enfolds or implicates everything” (todo o universo está de algum modo envolvido em tudo e cada coisa está envolvida no todo. Daí resulta que, de algum modo, e até certo ponto, tudo envolve ou implica tudo). “It follows that each thing is internally related to the whole, and therefore, to everything else” (Segue-se que cada coisa está internamente relacionada ao todo e, portanto, a todo o resto).

  13. Bohm, nesse ponto, está na mesma linha da hermenêutica de Gadamer, um dos grandes filósofos do século XX, como pode ser observado no vídeo “Gadamer’s Hermeneutics” (https://www.youtube.com/watch?v=BJ9Lc0Tk9-Q), quando Gadamer afirma que é uma regra hermenêutica que o todo deve ser entendido do modo individual e o individual nos termos do todo, e que o movimento do entendimento é sempre do todo para a parte e de volta para o todo.

  14. Desenvolvendo a relação do todo com a parte, Bohm apresenta um novo conceito, de informação ativa, ligado ao de potencial quântico, sugerindo que o elétron pode ser muito mais complexo do que pensamos, em razão de nosso desconhecimento quanto à realidade física de dimensões inferiores a dez elevado a menos dezessete centímetros, que é o espaço mínimo até o qual nossos experimentos conseguiram atingir. Desse modo, “The notion of active information implies, as we have seen, the possibility of a certain kind of wholeness of the electron with distant features of its environment” (A noção de informação ativa implica, como vimos, a possibilidade de um certo tipo de completude do elétron com características distantes de seu ambiente).

  15. Além disso, o potencial quântico permite que duas ou mais partículas sejam afetadas uma pelas outras, mesmo a longas distâncias, fenômeno que hoje é bem conhecido como entrelaçamento quântico, que comprova a não localidade da realidade física. Portanto, prossegue Bohm, o comportamento básico da matéria envolve características como completude, não localidade e movimento organizado, ainda que no nível ordinário dos fenômenos tais características não sejam facilmente encontradas.

  16. Daí a comparação entre o comportamento material e mental, porque “the whole notion of active information suggests a rudimentary mind-like behaviour of matter, for an essential quality of mind is just the activity of form, rather than of substance. Thus, for example, when we read a printed page, we do not assimilate the substance of the paper, but only the forms of the letters, and it is these forms which give rise to an information content in the reader which is manifested actively in his or her subsequent activities” (toda a noção de informação ativa sugere um comportamento mental rudimentar da matéria, pois uma qualidade essencial da mente é apenas a atividade da forma, e não da substância. Assim, por exemplo, quando lemos uma página impressa, não assimilamos a substância do papel, mas apenas as formas das letras, e são essas formas que dão origem a um conteúdo de informação no leitor que se manifesta ativamente em suas atividades subsequentes).

  17. Bohm dá um exemplo do comportamento de uma pessoa diante de uma sombra que pode significar a presença de um assaltante, o que acarreta reações mentais, físicas, elétricas e químicas no corpo da pessoa, quando informações mentais se associam a processos físicos. E afirma:

    It seems clear from all this that at least in the context of the processes of thought, there is a kind of active information that is simultaneously physical and mental in nature. Active information can thus serve as a kind of link or ‘bridge’ between these two sides of reality as a whole. These two sides are inseparable, in the sense that information contained in thought, which we feel to be on the ‘mental’ side, is at the same time a related neurophysiological, chemical, and physical activity (which is clearly what is meant by the ‘material’ side of this thought)”. (Parece claro de tudo isso que, pelo menos no contexto dos processos de pensamento, existe uma espécie de informação ativa que é simultaneamente física e mental. A informação ativa pode, portanto, servir como um tipo de ligação ou ‘ponte’ entre esses dois lados da realidade como um todo. Esses dois lados são inseparáveis, no sentido de que a informação contida no pensamento, que sentimos estar do lado ‘mental’, é ao mesmo tempo uma atividade neurofisiológica, química e física relacionada – que é claramente o que se entende por lado ‘material’ deste pensamento).

  18. A conclusão de Bohm é no sentido de que a ordem implicada possui uma série de níveis inter-relacionados em que os mais sutis, como pensamentos, sentimentos e reações físicas, tanto desdobram como envolvem aquelas que são menos sutis, unindo, assim, mente e matéria em um único processo, que é essencialmente o mesmo, de modo que aquilo que experimentamos como mente, em seu movimento através de vários níveis de sutileza, irá, num processo natural, em última análise, movimentar o corpo ao alcançar o nível do potencial quântico e o das partículas atômicas.

  19. Existe, portanto, uma participação entre os vários níveis da realidade.

    For the human being, all of this implies a thoroughgoing wholeness, in which mental and physical sides participate very closely in each other. Likewise, intellect, emotion, and the whole state of the body are in a similar flux of fundamental participation. Thus, there is no real division between mind and matter, psyche and soma.” (Para o ser humano, tudo isso implica uma completude arrebatadora, na qual os lados mental e físico participam muito de perto um do outro. Da mesma forma, intelecto, emoção e todo o estado do corpo estão em um fluxo similar de participação fundamental. Assim, não há divisão real entre mente e matéria, psique e soma).

  20. E continua:

    Extending this view, we see that each human being similarly participates in an inseparable way in society and in the planet as a whole. What may be suggested further is that such participation goes on to a greater collective mind, and perhaps ultimately to some yet more comprehensive mind in principle capable of going indefinitely beyond even the human species as a whole” (Estendendo este ponto de vista, vemos que cada ser humano participa de forma semelhante em um inseparável na sociedade e no planeta como um todo. O que pode ser sugerido mais além é que essa participação se estende a uma mente coletiva maior, e talvez em última análise, para alguma mente ainda mais abrangente, em princípio, capaz de ir indefinidamente além da espécie humana como um todo).

  21. Outrossim, pelo desenvolvimento da proposta de Bohm, seguindo as ideias do parágrafo anterior, é possível caminhar da realidade física para a espiritual, e até mesmo chegar à Teologia. Não é por acaso, obviamente, que suas ideias não foram aceitas pelo mundo acadêmico de meados do século XX, dominado pelo materialismo.

  22. E assim voltamos ao dualismo cartesiano, em processo de superação em razão dos resultados científicos da física moderna, e ao entendimento teológico anterior àquele dualismo, e que o influenciou, associado à interpretação agostiniana do livro do Apocalipse e da escatologia Cristã, segundo a qual não haverá o milênio ou o Reino de Deus na história humana, como exposto no artigo “A cidade de Deus” (https://holonomia.com/2017/12/03/a-cidade-de-deus/), visão religiosa de separação entre Deus e os homens que possibilitou a distinção entre corpo e mente, ou corpo e alma.

  23. A união entre mente e matéria, portanto, está associada à realização do Reino de Deus, a uma Teologia e suas concepções fundamentais da realidade e da História humana, que já foram reveladas no Antigo Testamento, indicando que a espécie humana, coletivamente, participará do Espírito de Deus, da Mente Cósmica:

    Depois disto, derramarei o meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Mesmo sobre os escravos e sobre as escravas, naqueles dias, derramarei o meu espírito” (Jl 3, 1).

    Concluirei com eles uma aliança de paz, a qual será uma aliança eterna. Estabelecê-los-ei e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre. A minha Habitação estará no meio deles: eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Assim saberão as nações que eu sou Iahweh, aquele que santifica Israel, quando o meu santuário estiver no meio deles para sempre” (Ez 37, 26-28).

Constitucionalismo

A questão da continuidade, descrita no último artigo, tem relevância filosófica ampla, aplicando-se também às chamadas ciências humanas, incluídos o Direito e a História, porque o materialismo tem uma ideia recorrente de secionar os eventos, atomisticamente, como se não houvesse uma interdependência geral entre todos os fenômenos, tanto físicos e materiais quanto humanos e espirituais, para assim romper com a unidade da cadeia existencial e simbólica do ser.

No artigo “Estado, Cristo e culto” (https://holonomia.com/2018/07/30/estado-cristo-e-culto/), por exemplo, foi ressaltado o corte temporal a partir do qual é adotado o conceito de Estado, o qual seria emergente da Paz de Westfália, em 1648, segundo Canotilho. Com essa posição, tudo o que é anterior a essa época é remetido ao mundo obscuro e irracional do tempo medieval, da antiguidade e da pré-história, ao invés de se considerar uma evolução dos conceitos, por seu aprimoramento racional, a partir das ideias nacionais anteriores, de origem religiosa.

O mesmo vale para o estudo do constitucionalismo, que normalmente é iniciado a partir das experiências inglesa, francesa ou estadunidense, todas do segundo milênio depois de Cristo. Contudo, a essência desse conceito já vinha sendo desenvolvida desde a antiguidade.

A história do constitucionalismo, segundo Karl Loewenstein, revela a busca do homem político das limitações ao poder absoluto exercido pelos detentores do poder, assim como o esforço de estabelecer uma justificação espiritual, moral e ética da autoridade, no lugar da submissão cega à facilidade da autoridade existente. Essas aspirações se concretizam na necessária aprovação, por parte dos destinatários do poder, dos controles sociais exercidos pelos dominadores e, consequentemente, na participação ativa dos dominados no processo político.

Os hebreus já divisavam a existência do constitucionalismo como movimento de organização do Estado, que criaram limites, pela chamada ‘lei do Senhor’ ao poder político. Cabia aos profetas, legitimados pela vontade popular, fiscalizar e punir os atos dos governantes que ultrapassavam os limites bíblicos” (Kildare Gonçalves Carvalho. Direito constitucional. 13 ed. Belo Horizone: Del Rey, 2007, p. 250 – negrito meu).

O constitucionalismo está associado, outrossim, à ideia de governo de leis, em contraposição à de governo de homens, bem como à questão da natureza, das funções e dos fins do Estado e do Direito, temas que se desdobram da Filosofia, ao justificar espiritual, moral e eticamente a autoridade, e alcançam a realidade da vida através da prática constitucional, consciente ou inconscientemente, no meio social, político e jurídico.

Voltando à questão histórica, nunca é demais relembrar que foi a Filosofia de matiz Cristã que desenvolveu os conceitos dos quais decorreram a ideia de dignidade humana e os direitos humanos, que estão na base do constitucionalismo moderno. É muito difícil, ou até mesmo impossível, imaginar a existência de direitos humanos sem o longo processo de desenvolvimento histórico e teórico, havido no seio do mundo Cristão, das ideias contidas no Evangelho de Jesus Cristo. O materialista, convenientemente, esquece esse “detalhe”, que é um ponto racionalmente fundamental, em sua abordagem histórico-jurídica, pensando que as instituições humanas começaram com o iluminismo e com as revoluções do século XVIII.

É indispensável, por isso, enfrentar o âmago do constitucionalismo, em sua essência, relativo não apenas às limitações ao uso da força pública pelos detentores do poder, mas especialmente à justificação espiritual, moral e ética da autoridade e ao tópico fundamental sobre a natureza, as funções e os fins do Estado e do Direito. Tais temas somente podem ser abordados dentro uma leitura filosófica da realidade, que transborda, necessariamente, para um princípio fundamental do pensamento, para uma Filosofia Primeira, ou Teologia, para usar uma expressão aristotélica.

Com isso, retorna-se ao conteúdo do artigo “Deus é o Direito: Jesus Cristo e o controle de constitucionalidade” (https://holonomia.com/2017/04/22/deus-e-o-direito-jesus-cristo-e-o-controle-de-constitucionalidade/), em que são revisados os conceitos religiosos fundamentais do Cristianismo em sua significação histórica e política, que estão na origem das noções modernas de Estado e Direito, conceitos dos quais estas noções são racional e ontologicamente dependentes.

O constitucionalismo significa o estudo da racionalidade dos valores fundamentais de uma sociedade, de uma nação, que por isso são racionalizados como norma fundamental, como legislação básica, mais importante, da comunidade política, sobre o modo e o fim do exercício do poder público organizado.

A norma fundamental racionalizada decorre, assim, de uma norma fundamental postulada pelo pensamento lógico, tida como princípio de organização da própria racionalidade social, tendente a transcender a temporalidade humana normal, e que significa a norma fundamental hipotética em que está ancorada a Constituição como norma fundamental concreta, como Carta Política ou Lei Maior de um Estado.

A norma fundamental hipotética é, destarte, a própria hipótese científica primeira, em sua racionalidade primária, que contém os princípios ou axiomas dos quais decorrem toda a teoria e toda atividade científica, em seus vários ramos. Todo pensamento e toda atividade mental ou racional têm origem em uma realidade inicial, seja o eu pensante, o átomo, uma ideia, o Logos, em que se funda a hipótese científica inicial, a partir da qual são desenvolvidas, logicamente, as demais hipóteses, argumentos e pensamentos.

No âmbito do Direito, propriamente dito, a norma fundamental pode ser expressa por meio de dois princípios essenciais ou estruturantes do pensamento jurídico, desdobrados da hipótese científica primeira, que inclui a racionalidade humana como pressuposto. O primeiro é o princípio da unidade intelectual, ou princípio da realidade normativa. O segundo é o princípio da preservação e desenvolvimento da Vida.

Tais princípios e seus significados determinam a Constituição material, a Constituição formal e sua interpretação, por exemplo, quanto à extensão da intelectualidade ou da vida, neste caso do rei ou do sacerdote, sua família, seus ajudantes, sua comunidade até, finalmente, toda a humanidade, último estágio, decorrente da constituição Cristã. Os princípios funcionam como os axiomas da Matemática, uma vez que as demais normas, regras e princípios jurídicos são desdobramentos daqueles vetores axiológicos primários, são o seu desenvolvimento por dedução lógica.

O primeiro princípio é o equivalente moderno do primeiro mandamento Cristão; o outro, do segundo mandamento Cristão. Eis a essência do constitucionalismo Cristão:

Amarás o Senhor teu Deus em todo o teu coração em toda a tua alma e em todo o teu entendimento. Este é o grande, o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos está suspensa toda a Lei e os Profetas” (Mt 22, 37-40).

O princípio da unidade intelectual, ou princípio da realidade normativa, significa a necessidade lógica de os sentimentos, os movimentos internos e externos e a racionalidade estarem coerentemente vinculados aos valores mais elevados de uma pessoa e de uma comunidade, expressando sua realidade na vida de cada um e na dinâmica da organização social. É o princípio de moralidade, como fundamento primeiro do comportamento segundo uma racionalidade integral, ou ética de vida. O princípio da preservação e desenvolvimento da Vida implica no reconhecimento da inviolabilidade da vida humana e sua dignidade, como resultado da evolução máxima de um universo com leis muito especiais que permitiram a aquisição da Consciência ou Espírito pela humanidade.

Na conjugação teórica desses princípios estão incluídos, assim, o conceito de vida, de humanidade, de direitos humanos etc., bem como a função e a natureza do Estado, Igreja ou Assembleia de homens com fins comuns, da sociedade em geral, os direitos e os deveres de cada um perante os demais, individual e coletivamente, ou seja, no último caso, como Estado, Igreja ou Sociedade.

O primeiro princípio ou mandamento, portanto, inclui a normatividade dos valores fundantes de uma comunidade, e sua efetiva aplicação na vida social, isto é, a existência de exercício efetivo da vontade de Constituição pelas pessoas, bem como a realização dessa vontade nos comportamentos públicos e privados (Konrad Hesse), manifestados como os fatores reais e racionais de poder em uma sociedade politicamente organizada (Ferdinand Lassale).

Desse modo, acima da Constituição posta estão os princípios estruturantes do pensamento, oriundos da Filosofia, com conteúdos ontológicos, morais, jurídicos e políticos, utilizados na interpretação não só da própria Constituição, como também das normas infraconstitucionais.

Destarte, não basta ao constitucionalismo colocar a Constituição no topo da ordem jurídica, é necessária sua integração à racionalidade pública mais ampla, e daí decorre a cada vez maior utilização da argumentação (Alexy e Dworkin) e da hermenêutica jurídica (Gadamer) tanto na teoria como na prática constitucional, o que se dá pela significação dos citados princípios essenciais por meio de conceitos filosóficos, que escapam ao campo estritamente jurídico, mas que são usados na prática jurídica de uma comunidade.

A crise da civilização ocidental pode ser expressa, outrossim, como uma confrontação entre os sentidos de conceitos que se colocam em um nível acima da mera normatividade constitucional, porque são conceitos definidores do conteúdo filosófico e do sentido mais amplo dos fenômenos do mundo, como vida (e aborto), dignidade, humanidade, soberania e justiça.

Uma das causas dessa crise está no fato de que o materialismo, nas últimas décadas, tem sequestrado alguns conceitos consagrados pela tradição jurídica, de matiz Cristã, como dignidade, casamento e vida, por exemplo, dando-lhes novos sentidos que rompem com um histórico milenar que lhes são inerentes, o que provoca reações, por vezes viscerais, nas pessoas, porque sob o argumento de defender algumas posições e membros da coletividade outros são subtraídos de sua posição existencial, criando novos sentidos para fenômenos seculares e milenares, sem a devida continuidade conceitual.

O resultado dessa crise pode levar, dentre outros, a dois destinos possíveis, a criação de um novo mundo com valores superficiais, que sempre poderão ser destronados pelo relativismo conceitual, reducionista ou atomista, da vez, num eterno jogo de linguagem, ou à restauração simbólica da ordem natural, pela manifestação do poder constituinte fundamental, ligado ao Monoteísmo Judaico-Cristão-Muçulmano, recuperando a continuidade de uma ordem histórica e de um conhecimento científico que parece esquecido, mas que, na realidade, está na essência atemporal do constitucionalismo.

A continuidade

No artigo “O problema filosófico do átomo” (https://holonomia.com/2019/05/22/o-problema-filosofico-do-atomo/) foi exposta a problemática do atomismo e de sua visão de mundo, que entende não haver uma ordem de mundo anterior à existência material decorrente da agregação de partículas atômicas.

Como foi destacado, para os atomistas:

A ordem (o cosmo) é efeito de encontro mecânico entre os átomos, não projetado e não produzido por uma inteligência. A própria inteligência segue-se ao e não precede o composto atômico” (Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia: Filosofia pagã antiga. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003, p. 46).

Contudo, a ciência moderna aponta para uma inteligência anterior ao composto atômico, que já valia antes da formação dos primeiros átomos e da própria matéria, quando o universo era formado por uma energia tendente ao infinito, segundo o modelo do Big Bang.

O cenário desenvolvido por Gamow começa com o Universo cheio de prótons, nêutrons e elétrons. Esse ‘componente material’ do Universo foi chamado de ylem por Alpher. Fora seu componente material, o Universo era banhado por fótons altamente energéticos, o ‘calor’ do Universo primordial. O Universo era tão quente nesse estágio inicial que nenhuma ligação entre seus constituintes era possível” (Marcelo Gleiser. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 366).

É de se notar que o ‘componente material’ está destacado na passagem acima porque a matéria tal como a conhecemos ainda não havia se formado naquela época primordial, na medida em que apenas “quando o Universo tinha em torno de 300 mil anos de idade, as condições tornaram-se propícias para que elétrons e prótons formassem átomos de hidrogênio” (Idem, p. 369).

A física indica, assim, que, ao contrário do que sustentavam os atomistas, precursores dos materialistas modernos, há, sim, uma ordem ou inteligência que precede o composto atômico. O mundo material é regido por uma ordem ou inteligência que transcende a existência da própria matéria conhecida, sendo as chamadas matéria escura e energia escura apenas um sintoma dessa situação.

Para sair dessa encruzilhada filosófica, os atomistas modernos, que são os materialistas, passaram a defender a hipótese não comprovável, que, portanto, é fruto da mais pura especulação, e que se transformou em um mito moderno, na acepção deletéria da palavra mito, de que existem tantos universo quantas forem possíveis as combinações das leis da natureza. Nessa linha de pensamento: “Os resultados descritos neste capítulo indicam que nosso universo é também um entre muitos, e que suas leis aparentes não são determinadas de modo único” (Stephen Hawking e Leonard Mlodinow. O grande projeto: novas respostas para as questões definitivas da vida. Tradução Mônica Gaglioti Fortunato Friaça. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 105).

O fato de as leis da natureza serem fixadas de modo único significa a compatibilidade racional entre a Ciência e o Monoteísmo, o que é evitado de todo modo possível pelo materialismo, pelo que essa filosofia não teve alternativa senão remeter o acaso para antes da criação ou formação do universo, tentando fazer crer, mais uma vez, que a inteligência é posterior à organização material ou universal, e não anterior. Assim, ao invés de aceitar que a inteligência precede o composto atômico, o que é a conclusão óbvia dos dados científicos, mas que indica o quão especial é o universo, o materialismo tenta desmerecer o nosso mundo, criando infinitos universos imaginários, apenas para defender uma pretensa insignificância cósmica da vida humana e rejeitar, injustificadamente, a cosmovisão monoteísta.

O ateísmo/materialismo não aceita a dependência de uma ordem de continuidade que lhe seja superior, nega uma inteligência que esteja acima do plano material. O materialismo quer nascer do acaso, da sorte, para ser livre de Deus, porque a existência de uma unidade cósmica anterior à matéria aponta para a continuidade entre essa inteligência e tudo o que existe, remete à dependência de uma origem, para tudo, aponta para uma criação, e para Deus.

Quando respondem à pergunta sobre a origem da vida, do universo, sobre o que é a natureza, os materialistas não conseguem explicar a continuidade existencial, a impressionante interdependência dos fenômenos do mundo, sendo o acaso o argumento para romper com a cadeia do ser, para que o ser não seja ser, mas apenas um estar fortuito, ainda que pelo subterfúgio mental da criação de universos que estão além da comprovação científica. Deus, que está fora dos limites da comprovação científica atual, para os materialistas, deve, absolutamente, ser excluído da teoria científica; mas o multiverso, que está na mesma situação epistemológica citada para Deus, além dos limites da comprovação científica, o multiverso é aceito em simpósios acadêmicos com toda naturalidade.

O multiverso significa a existência de universos submetidos a leis próprias, sem que haja uma unidade existencial absoluta, relacionada ao pleno conceito de ser.

O ser condiciona o estar. Não havendo ser, aquilo que está não tem responsabilidade essencial, perante o ser. O mero estar, que é a opção materialista, libera, liberta, a responsabilidade pela permanência, pela unidade e racionalidade do ser. Ao optar pelo estar como condição humana essencial, o homem é transformado em deus, em causa de si mesmo, numa pretensa autonomia, que, de fato, é artificial e arbitrária, porque isola a pessoa do mundo do qual faz parte, e tira a responsabilidade de cada um pela manutenção da unidade existencial, da ordem cósmica. A unilateralidade do estar, vinculada apenas à imanência provisória do ente, que deixará de estar, é falsa, porque todos os entes estão dentro da cadeia do ser e possuem origem transcendente, como exposto no artigo “Transcendência imanente” (https://holonomia.com/2017/09/14/transcendencia-imanente/).

A continuidade, a permanência de algo, é uma questão profunda, que abarca tanto a filosofia como a física moderna.

Planck estava certo. A teoria quântica que ele ajudou a desenvolver provou ser uma revisão ainda mais profunda da ‘velha’ física do que a teoria da relatividade especial de Einstein. A física clássica é baseada em processos contínuos, como, por exemplo, planetas orbitando em torno do Sol, ou ondas propagando-se na água. A nossa percepção do mundo é baseada em fenômenos que evoluem continuamente no espaço e no tempo. O mundo submicroscópico, no entanto, é muito diferente: um mundo de processos descontínuos, um mundo que exibe comportamentos que contrariam frontalmente nosso amado bom-senso. Somos protegidos dessa realidade ‘chocante’ pela nossa própria cegueira sensorial; do mesmo modo que não percebemos as consequências da relatividade porque as velocidades de nosso dia a dia são muito mais baixas do que a velocidade da luz, as energias que ditam o comportamento de fenômenos acessíveis à nossa percepção sensorial contêm um número tão gigantesco de quanta de energia (pacotes de energia) que seu caráter ‘granular’ é perfeitamente desprezível. É como se vivêssemos num mundo de bilionários, onde um centavo é uma quantia desprezível de dinheiro. No mundo do muito pequeno, porém, o quantum é soberano absoluto” (Marcelo Gleiser. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 273).

A continuidade é o grande mistério da ciência, notadamente da orgânica quântica, porque, apesar dos processos descontínuos que estão na base da realidade física, apenas a pressuposição da continuidade permite o desenvolvimento científico, apenas a pressuposição de uma inteligência permanente e constante possibilita que os eventos do mundo sejam conectados racionalmente, o que é o objetivo da empreitada científica.

Cada pessoa que nasce não é fruto do acaso, é filho de seus pais, que tiveram ancestrais, até o início da vida, que teve uma causa, assim como o início de tudo. Interromper a cadeia causal e racional do ser, pela aleatoriedade, em qualquer ponto da existência, é interromper a própria razão de ser, é promover o caos, a morte, o não ser, é renunciar, enfim, ao que é mais próprio da Ciência.

Logicamente, portanto, a Ciência é dependente de uma inteligência que precede a existência, a Ciência é dependente do Logos, que estava no princípio, e por meio do qual todas as coisas foram feitas…

Adeus, Prince!

Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu. Tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar a planta. Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de destruir, e tempo de construir. Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de gemer, e tempo de bailar. Tempo de atirar pedras, e tempo de recolher pedras; tempo de abraçar, e tempo de se separar. Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de jogar fora. Tempo de rasgar, e tempo de costurar; tempo de calar, e tempo de falar. Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz. Que proveito o trabalhador tira de sua fadiga? Observo a tarefa que Deus deu aos homens para que dela se ocupem: tudo o que Ele fez é apropriado ao seu tempo. Também colocou no coração do homem o conjunto do tempo, sem que o homem possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim. E compreendi que não há felicidade para o homem a não ser a de alegrar-se e fazer o bem durante sua vida. E, que o homem coma e beba, desfrutando do produto de todo o seu trabalho, é dom de Deus. Compreendi que tudo o que Deus faz é para sempre. A isso nada se pode acrescentar, e disso nada se pode tirar. Deus assim faz para que o temam. O que existe, já havia existido; o que existirá, já existe, pois Deus procura o perseguido” (Ecl 3, 1-15).

Hoje se foi um companheiro de mais onze anos. Mais de onze anos dormindo ao pé da cama, latindo durante a noite, fazendo festa, fazendo pirraça…

Nos acompanhou de Juiz de Fora até o médio Jequitinhonha, enfrentando calangos, sapos-bois, aranhas caranguejeiras, cães três vezes o seu tamanho, dez vezes seu peso…

Não é por acaso que se discute, nos dias atuais, sobre a “guarda” de animais domésticos, porque, de fato, fazem parte da família. Só quem com eles convive e investe seu tempo nessas criaturas de Deus sabe a sua importância, e a falta que fazem quando partem.

Obviamente, as pessoas valem mais que os animais, mas isso não impede que soframos quando nossos entes queridos não humanos, pessoas não humanas, se vão, principalmente quando estão diariamente em nossa rotina, em nossos momentos cotidianos. De repente, não mais…

Depois da Tula, do Lord, do Kalifa, do Zeus, agora se foi o Prince, aquele com o qual mais convivi.

Deus é perfeito!

Assim, no outro plano estaremos não somente com as pessoas que se foram, como também com as outras criaturas que Ele nos deu para cuidar e criar, e que partiram, dentre as quais, agora, o Prince foi incluído.

Adeus, Prince!

Adeus, amigo!

Até a próxima! Haverá tempo para isso, mas, agora, é tempo de chorar…

O problema filosófico do átomo

A filosofia, em sua gênese, está intimamente ligada à física, ao fundamento mais básico da realidade. Nesse sentido, os pré-socráticos buscaram a explicação racional do mundo nos elementos água, ar, fogo e terra, especulando, ainda, sobre a existência do éter. Seguindo esse caminho, foi levantada a hipótese do átomo, que é a base da filosofia materialista. Como exposto no artigo “Tudo em todos” (https://holonomia.com/2018/09/07/tudo-em-todos/):

“‘Tales de Mileto (fim do VII – primeira metade do séc. VI a.C.) é o criador, do ponto de vista conceitual (mesmo que não ainda do ponto de vista lexical), do problema concernente ao ‘princípio’ (arché), ou seja, a origem de todas as coisas. O ‘princípio’ é, propriamente, aquilo de que derivam e em que se resolvem todas as coisas, e aquilo que permanece imutável mesmo nas várias formas que pouco a pouco assume. Tales identificou o princípio com a água, pois constatou que o elemento líquido está presente em todo lugar em que há vida, e onde não existe água não existe vida’ (Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia: Filosofia pagã antiga. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003, p. 17).

Em decorrência da adoção de um primeiro elemento ou princípio, a ele são associados os fenômenos, explicando-se o mundo em movimento no qual vivemos. A escolha do primeiro princípio tem um caráter religioso, segundo a etimologia da palavra, porque nele são ligadas racionalmente todas as coisas. Com essa eleição, tudo se liga, e tem-se daí o princípio racional da religião, que inclui uma atividade de manutenção dessa unidade principiológica.

Pode-se dizer que o atual materialismo decorre do princípio atomista, seguindo as ideias iniciais de Leucipo e Demócrito, os quais afirmaram que a realidade é formada de infinitos corpos invisíveis, por sua pequenez e pequeno volume, corpos esses indivisíveis, os ‘átomos’, palavra de origem grega que significa ‘o não divisível’.

Os atomistas passaram para a história como aqueles que puseram o mundo ‘ao sabor do acaso’. Mas isso não quer dizer que eles não atribuem causas ao nascer do mundo (causas que, de fato, são as já explicadas), e sim que não estabeleceram uma causa inteligente, uma causa final. A ordem (o cosmo) é efeito de encontro mecânico entre os átomos, não projetado e não produzido por uma inteligência. A própria inteligência segue-se ao e não precede o composto atômico’ (Obra citada, p. 46).

Em sentido contrário, Platão sustentou a existência de um princípio supremo Uno, ao qual ele associou a ideia de Bem, afirmando uma realidade suprassensível, além das aparências sensíveis das coisas. Para Platão, a verdadeira realidade está no mundo das ideias ou essências das coisas. ‘Deste modo, o mundo sensível aparece como cópia do mundo inteligível. O mundo inteligível é eterno, enquanto o sensível existe no tempo, que é imagem móvel do eterno’ (Idem, p. 137).”

Contudo, a ciência do século XX indicou que a proposta atômica, da existência do átomo, estava incorreta em seu fundamento, na medida em que não existem aqueles corpos “invisíveis, por sua pequenez e pequeno volume”, e indivisíveis, os átomos, dos quais tudo o mais seria feito por meio de agregação desses mesmos corpos. Toda a filosofia materialista fundou-se na existência desse objeto sólido básico em sua localidade, mas a relatividade mostrou que a matéria mais básica pode ser transformada em energia ou radiação, que não é propriamente sólida, e a física quântica comprovou que nossa experiência material é dependente de uma opção mental, que está no problema da medição, descrito pelo experimento da dupla fenda, possuindo a realidade uma natureza não local.

Por isso, com exceção de Carlo Rovelli, de todos físicos a cuja obra tive acesso, incluídos Einstein, Bohr, Hawking, ninguém ainda sustenta a hipótese filosófica do átomo, e mesmo Rovelli subverte o conceito original de átomo utilizando, para tanto, em substituição, a ideia de quantum de ação, o que não é aquele corpo sólido indivisível que sustentava a filosofia materialista, mas a medida mínima da relação ou troca energética entre campos.

Segundo Amit Goswami: “O sucesso desfrutado pelo materialismo de Demócrito na ciência nos últimos 300 anos talvez seja apenas uma aberração” (In GOSWAMI, Amit; REED, Richard E.; GOSWAMI, Maggie. O universo autoconsciente: como a consciência cria o mundo material. Trad. Ruy Jungmann. São Paulo: Aleph, 2007, p. 84).

No mesmo sentido, repito uma passagem citada por mim em vários artigos, pela autoridade de quem a produziu e pelo significado de sua conclusão:

Independentemente da decisão última, podemos mesmo afirmar agora que a resposta final (sobre a equação fundamental da matéria) estará mais próxima dos conceitos filosóficos expressos, por exemplo, no Timeu de Platão do que dos antigos materialistas. Tal fato não deve ser mal compreendido como um desejo de rejeitar de maneira muito leviana as ideias do moderno materialismo do século XIX, o qual, uma vez que pôde trabalhar com toda a ciência natural dos séculos XVII e XVIII, abarcou um conhecimento muito importante de que carecia a antiga filosofia natural. Não obstante, é inegável que as partículas elementares da física de hoje se ligam mais intimamente aos corpos platônicos do que aos átomos de Demócrito. (…) E, desde que a estrutura matemática é, em última análise, um conteúdo intelectual, poderemos afirmar, usando as palavras de Goethe no Fausto, ‘No princípio era a palavra’ – o logos. Conhecer este logos em todas as suas particularidades, e com total clareza em relação à estrutura fundamental da matéria, constitui a tarefa da física atômica de hoje e de seu aparelhamento infelizmente muitas vezes complicado” (Werner Heisenberg. In Problemas da Física Moderna, 3 ed., São Paulo: Perspectiva, 2011, pp. 26-27).

O Logos é um termo grego que foi traduzido como “palavra” por Goethe, o qual, entretanto, faz uma referência inequívoca ao quarto Evangelho, atribuído, tradicionalmente, a João: “No princípio era o logos (verbo, palavra, discurso, razão), e o logos estava com Deus, e Deus era o logos. Este no princípio estava com Deus. Todas as coisas existiram por ação dele e sem ele existiu nem uma só coisa que existiu” (Jo 1, 1-3).

Assim, não é por acaso que Hegel faz de sua Filosofia a Ciência da Lógica, porque ele transforma em razão a ontologia Cristã, sendo a proposta dele fazer uma Filosofia do Cristianismo, para, nas palavras de Heisenberg, “conhecer este logos em todas as suas particularidades”

A Ciência se baseia no conhecimento racional de mundo, sendo que a busca dessa ordem decorre historicamente da junção da filosofia grega com a cosmovisão judaico-cristã, monoteísta, que se funda na existência da ordem natural universal, criada por Deus, pelo e no Logos, ou Sabedoria.

Daí porque o caminho da Verdade científica, considerando tudo o que entendemos como ciência desde Galileu, Descartes, Newton, até chegar à física moderna e sua compreensão adequada, passou e passa, necessariamente, pela unificação da cosmovisão monoteísta com a filosofia grega, em suas propostas no sentido de que o Logos é o princípio fundamental do mundo.

Todavia, a concepção tradicional dessa fusão decorre do pensamento de Agostinho, em que acabou prevalecendo um certo dualismo platônico que separa o mundo das ideias do mundo material, dualismo que se mostrou insustentável após a física quântica, que demonstrou haver uma unidade essencial entre o mundo sensível e o mundo inteligível. Assim, a Ciência, que é o conhecimento do Logos, a busca da Verdade, deve continuar a proposta filosófica de Hegel, ao refazer esse caminho de união da racionalidade grega com a ideia Cristã de mundo, aproveitando o conhecimento subsequente que se desenvolveu nesse sentido, o que inclui a psicologia analítica de Carl Jung e a leitura ontológica da física de David Bohm, consertando os erros pontuais de cada um deles. Ciência, assim, é o estudo da encarnação do Logos, em seus aspectos psíquicos e físicos, na sua unidade essencial.

Lendo Hegel, é surpreendente a precisão racional de sua exposição, ao enfrentar os fundamentos filosóficos da física, em conceitos como espaço, tempo e matéria. O princípio atomista, por exemplo, é abordado por ele como a “exterioridade completa”, insuficiente para a apreensão do conceito, do logos, como demonstrado pela física cerca de um século depois:

Portanto, não admira que o princípio atomista se conservou em todas as épocas; a relação igualmente trivial e externa da composição que precisa ainda acrescentar a fim de chegar à aparência de um concreto e de uma multiplicidade, é tão popular quanto os próprios átomos e o vazio” (Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Ciência da lógica: 1. A doutrina do ser. Traduzido por Christian G. Iber, Marloren L. Miranda e Frederico Orsini. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2016, p. 172).

A inteligência de Hegel, além disso, permitia que entendesse o funcionamento do mundo, criticando a desordem decorrente da proposta atômica e comparando-a com o mundo individualista, como aquele em que hoje vivemos.

De outra maneira, contudo, as determinações ulteriores dos antigos sobre a figura, a posição dos átomos, a direção do movimento deles, são bastante arbitrárias e externas e estão, nesse caso, na contradição direta com a determinação fundamental do átomo. Nos átomos, no princípio da suprema exterioridade e, com isso, da suprema ausência de conceito, a física sofre nas moléculas e partículas tanto quanto a ciência do Estado que parte da vontade singular dos indivíduos” (Idem, p. 173).

Não é à toa que Bohm, que leu Hegel, quando esteve no Brasil, salvo engano, foi um dos principais filósofos ou cientistas do século XX, talvez o maior, qualidade que não é reconhecida em decorrência da cegueira que toma conta da intelectualidade contemporânea, aplicando-se o que se repete na História e já foi dito do maior filósofo e cientista de todos os tempos: “E a luz brilha na escuridão, e a escuridão não dominou a luz” (Jo 1, 5).

Indispensável, pois, superar o materialismo e o individualismo atômico para que seja possível o conhecimento do Logos, em sua universalidade cósmica indivisível, em sua totalidade, que inclui o observador, o ser pensante, pois este e o mundo observado, fisicamente, “são aspectos imersos e interpenetrados de uma realidade completa, que é indivisível e incomensurável” (David Bohm. Totalidade e a ordem implicada. Tradução Teodoro Lorente. São Paulo: Madras, 2008, p. 25).

É preciso reconhecer a insuficiência e, em última análise, a falsidade do atomismo, “temos de considerar o Universo como uma totalidade indivisível e inseparável. A divisão em partículas, ou em partículas e campos, não passa de uma aproximação e uma abstração grosseira. Portanto, chegamos a uma ordem que é radicalmente diferente daquela de Galileu e de Newton – ordem da totalidade indivisível” (Idem, p. 135), e essa ordem apenas é ordem porque, de fato, e de Direito, não existe o átomo, mas, apenas, o Logos.

O ser e o ente

Na Filosofia, a questão terminológica é fundamental, porque os conceitos básicos têm significados em si, que condicionam as demais definições, havendo uma natural interdependência simbólica e lógica entre as palavras de uma língua, que vale, igualmente, para os sistemas de pensamento. Como regra, nesse ponto, há que se buscar, sempre que possível, o senso comum da palavra, sua ideia original, para a melhor interpretação de seu sentido, e para isso muitas vezes é necessário resgatar toda uma visão de mundo na qual foi criada determinada palavra, com seu conceito.

Assim, ente e ser são palavras ligadas por seus significados interdependentes, sendo o ente condicionado pelo ser, porque este possui um sentido mais geral, enquanto aquele é uma determinação deste. Terminologicamente, o ser é, o que vale também para o ente, que é o ser-aí, aquilo que está no ser. Contudo, o ser sempre é, é de sua natureza, do ser, ser o mesmo, mantendo-se o que era no que será. O ser era, é e será. O ente, por sua vez, é uma manifestação do ser, possuindo uma dupla natureza, como aquilo que está e é, porque manifestação do ser, e como aquilo que deixará de estar, porque em um determinado local e momento do ser em seu constante devir, numa forma material, que não se manterá no tempo, na medida em que o ser é o próprio ser em sua passagem de si para si mesmo, no devir, que inclui todos seus estares.

O ser possui, em sua eternidade, um movimento intrínseco no espaço e no tempo, abarcando todos os seus locais e momentos, a totalidade dos seus estados em suas determinações. Contudo, é humanamente impossível, sem auxílio do Espírito, conhecer a completude de um determinado estado do ser, ou seja, o ser em toda sua determinação e todas as suas entidades, porque o estado básico do ser, no mundo físico, é o movimento constante, sendo impossível ao ente, que está dentro do espaço-tempo, a determinação simultânea de todos esses estados, pela magnitude das informações a eles relativas e pela incapacidade de processamento material dessas mesmas informações. Aplicável, atualmente, epistemologicamente, o princípio da incerteza, que, entretanto, não alcança o nível ontológico do ser; caso contrário este não seria o ser em sua necessidade, apenas estaria, como um mero acidente entre um estado e outro.

O ser é sua necessidade na unidade de todos os entes, material e formalmente. O conhecimento humano ocorre pela análise do ser em entes, material e intelectualmente, sendo exigida, para a racionalidade do conhecimento, a unidade lógica, material e intelectual, ou simbólica, dos entes entre si, no ser.

O ser é inicialmente separado em coisas, indeterminadas nesse primeiro momento. Então, a coisa é nomeada pelo ente pensante, sem que este tenha ainda a consciência de sua essência, e o nome transfere intelectualidade ou pensamento à coisa pensada, transformando-a em ente. A Ciência, ou Filosofia, é a atividade humana que desenvolve a razão dos entes, pensantes e pensados, em sua unidade enquanto ser. O nome, por isso, realiza o potencial ôntico da coisa, externando sua essência. Nomear é transferir logos, é conferir uma determinada razão a uma determinada coisa, que deixa de ser coisa, passando a ente. Assim como Deus havia feito com a humanidade, transferindo-lhe seu Espírito, fazendo-a sua imagem e semelhança, o homem transporta para a coisa parte de seu espírito, de sua inteligência, fazendo com que a coisa se transforme em ente, ou seja, passe a ter uma essência, uma qualidade que transcende aquele determinado momento espaço-temporal e material da coisa entificada, porque a essência está, simultaneamente, dentro e fora do espaço-tempo, pelo que não apenas está na coisa, como também é.

Antes do nome, a coisa é indiferenciada, é uma coisa qualquer. Vale salientar que para os animais as coisas são entes, mas inconscientemente, porque representam uma unidade instintiva, com as razões que lhes são inerentes, sem que a inteligência animal possa conhecer as razões dessa unidade. A capacidade do animal para transcender o espaço-tempo é muito limitada, o que também ocorre com o homem sem atenção, sem a consciência da realidade de seu entorno, o que permite que seja enganado por sinais parecidos, que o levam a confundir um ente com outro, uma razão existencial com outra.

Essa limitação cognitiva também afeta os entes presos ao tempo e ao espaço, aos corpos, e que não conseguem a compreensão da eternidade, porque ignoram a realidade mais profunda que integram, e acabam rejeitando o próprio ser ao se identificarem exclusivamente com um aspecto de sua entidade.

O ente que rejeita o ser, apegando-se à sua finitude, ao seu ser-aí, ou dasein, é um ente limitado, fora de seu contexto adequado, transformando esse ente, ser-aí, ou dasein, em não ser. Transformar o ser-aí em mero finito é limitar o ente a uma perspectiva fugaz, à simples temporalidade. É o que faz Heidegger em sua filosofia.

A constituição ontológica existenciária da totalidade-do-Dasein se funda na temporalidade. Por conseguinte, o projeto estático do ser em geral deve ser possibilitado por um modo originário de temporalização da temporalidade estática ela mesma” (Martin Heidegger. Ser e tempo. Tradução Fausto Castilho. Campinas, SP:723). Editora da Unicamp; Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012, p. 1179).

Em Heidegger o ser-aí, ou dasein, é o ente voltado para a sua finitude, preocupado com sua morte. “A morte, como final do Dasein, é no ser desse ente para o seu final” (Idem, p. 711). Ou, ainda: “A morte é a possibilidade maisprópria do Dasein. O ser para a morte abre para o Dasein seu poder-ser maispróprio, no qual o ser do Dasein está pura e simplesmente em jogo” (Idem, p. 723).

O dasein, como ser-aí, é um ente que se entende no ser, mas sua compreensão de si é limitada e incompleta se identificada apenas com o ente que perece e, portanto, deixa de ser. Há uma incompreensão ontológica em Heidegger quando ele afirma que “o ser para a morte abre para o Dasein seu poder-ser maispróprio”, porque afirmar “ser para morte” como algo mais próprio do ser-aí significa cair em uma contradição ontológica, na medida em que o ser, conceitualmente, não pode ser para a morte, sob pena de deixar de ser, pelo que o correto seria dizer “o estar para a morte” é uma característica do dasein, e que seu poder-ser maispróprio é o seu modo-de-ser que não morre, e que é, sempre. O que está em jogo para o dasein, na realidade, pois, não é o que deixará de estar, porque morrerá, mas o que continuará a ser, porque é, ainda que esse ser seja experimentado pelo dasein na temporalidade.

Se é fato que algo de Heidegger morreu, seu corpo perdeu o movimento interno, também é irrefutável que o livro que dele tenho é algo dele que não morreu, é um movimento espiritual (um espírito) que continua agindo sobre a sociedade, inclusive materialmente, é uma parte de seu ser-aí que permanece, fora de seu corpo, no ser, em sua eternidade, o que refuta sua ideia de que o ser-aí é tão somente o que se volta para a morte, porque o ser, em realidade, transcende a morte, ele é. O ser mais-próprio do ser-aí, do dasein, do ente, pois, é o que se mantém além da morte.

Somente é possível compreender o ser, outrossim, a partir da perspectiva do Espírito, do Eu Sou, do entendimento do infinito, daquilo que era, é em nós, e continuará a ser, o Logos. Jesus afirmou “antes que Abraão fosse, Eu Sou”, unindo em si o finito e o infinito, e sua consciência de ser continua, movendo bilhões de pessoas a partir do Espírito que encarnou, do ser mostrado por seu ser-aí, ou dasein, que é o verdadeiro ser.

O entendimento insiste em rejeitar unidade do finito e do infinito, apenas porque ele tanto pressupõe a barreira e o finito quanto o ser em si como perenes; com isso, ele ignora a negação de ambos que está presente, de fato, no progresso infinito, como (ignora), do mesmo modo, que eles nisso ocorrem apenas como momentos de um todo e que eles emergem apenas mediante seu oposto, mas essencialmente, do mesmo modo, mediante o suprassumir de seu oposto” (Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Ciência da lógica: 1. A doutrina do ser. Traduzido por Christian G. Iber, Marloren L. Miranda e Frederico Orsini. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2016, p. 153).

Destarte, a verdade é agir como ser, é encarnar o Logos, de modo que o ser-aí seja o ser em si, sua essência. Como afirma Hegel:

A infinitude verdadeira, assim, em geral, como ser aí que está posto como afirmativo frente à negação abstrata é a realidade em sentido superior à anteriormente determinada como simples; aqui, ela obteve um conteúdo concreto. Não é o finito o real, mas o infinito. Assim, a realidade é determinada ulteriormente como a essência, o conceito, a Ideia etc” (Idem, p. 154).

A realidade, portanto, é o Logos, que estava no princípio e estará no fim, era, é e será, e determina o ente que é no ser.

O finito e o infinito: a questão do limite

O artigo anterior e o presente são influência direta de minha leitura atual, “A Ciência da Lógica – Vol. 1. A doutrina do Ser”, de Hegel.

Como destacado desde os primeiros artigos, a linha filosófica seguida em meus textos decorre de uma abordagem racional da ideia Cristã, acompanhando as propostas fundamentais de Hegel, Jung e David Bohm, todos com visões não materialistas do mundo. Os dois primeiros autores foram por mim conhecidos ainda na segunda metade da década de 90, na época da graduação. À proposta científica e filosófica último eu tive acesso em 2014, depois de ler Marcelo Gleiser, ganhador do Prêmio Templeton de 2019, seguindo uma hipótese levantada em “A ilha do conhecimento”, mas descartada pelo referido autor.

Ao cursar uma disciplina optativa de nome “Seminário de Temas Filosóficos”, em 1999, fui apresentado mais proximamente às ideias Hegel, pois a matéria era uma análise de sua Filosofia do Direito, livro que durante as aulas começou a ser lido em alemão, mas como esse caminho de trabalho estava profundamente lento o professor Antônio Cota Marçal, doutor em Filosofia e, ao mesmo tempo, aluno do curso de Direito, nosso colega, disponibilizou versões do texto em outras línguas, especialmente em francês e inglês, para escolha de cada aluno, de modo que o conteúdo da obra pudesse, enfim, ser analisado.

Após uma dessas aulas, uma conversa com o professor e colega marcou-me definitivamente, rompendo um preconceito teórico pessoal no sentido de pensar que as coisas e ideias novas e mais recentes eram sempre melhores do que as mais antigas. Isso porque, depois de uma pergunta que não me lembro exatamente qual foi, ele respondeu, em linhas gerais, que a Filosofia do Direito de Hegel ainda era a melhor Filosofia do Direito, mesmo tendo essa proposta mais de cento e cinquenta anos. Depois de ler as obras hegelianas “Filosofia da História”, “Fenomenologia do Espírito” e “Sobre as maneiras científicas de tratar o direito natural”, entendo que, de fato, o conhecimento da verdade filosófica, incluído o Direito, passa, necessariamente, pelo trabalho desenvolvido por Hegel.

Vale salientar que depois de Hegel vieram o positivismo, o marxismo, o existencialismo, a fenomenologia, a filosofia analítica, o desconstrucionismo, como algumas das principais linhas gerais de pensamento, todas contrárias às ideias fundamentais de Hegel. Ainda que eu não tenha conhecimento suficiente para desenvolver amplamente os conceitos dessas outras filosofias, penso que é possível dizer que todas elas se opõem fundamentalmente à proposta de Hegel, porque o idealismo hegeliano busca o conhecimento absoluto, pela realização do Espírito na História, o que é feito por meio de uma abordagem racional, e filosófica, do Cristianismo.

Para Hegel, o avançar na filosofia é um retorno ao fundamento original e verdadeiro.

Assim, a consciência é reconduzida, em seu caminho a partir da imediatidade, com a qual inicia, para o saber absoluto como sua mais íntima verdade. Este último, o fundamento, é, pois, também aquilo do qual surge o primeiro, que entrou em cena primeiramente como o imediato. – Assim, o espírito absoluto, que resulta como a verdade suprema, concreta e última, de todo ser, é ainda mais reconhecido, como o que se exterioriza com liberdade no fim do desenvolvimento e se solta para a figura de um ser imediato – decidindo-se para a criação de um mundo que contém tudo aquilo que entrou no desenvolvimento, o qual precedeu aquele resultado e é transformado, por meio dessa posição invertida em relação ao seu início, em algo dependente de um resultado como o princípio. O essencial para a ciência não é tanto que algo puramente imediato seja o início, mas que o todo da mesma seja um ciclo (Kreislauf) dentro de si mesmo, onde o primeiro também é o último e o último também é o primeiro” (Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Ciência da lógica: 1. A doutrina do ser. Traduzido por Christian G. Iber, Marloren L. Miranda e Frederico Orsini. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2016, p. 73).

Em tempos de relativismo e de materialismo, parece soar absurdo falar de “saber absoluto”, “espírito absoluto” e “verdade suprema”, como pretende Hegel, mas nada é mais científico do que um único padrão de conhecimento das coisas. Além disso, ao fazer de sua Filosofia um estudo da lógica do Espírito, de Deus, desenvolvendo expressamente a racionalidade do Cristianismo, Hegel suprassume (assume e supera) a filosofia kantiana, a qual, por sua vez, é superior ao materialismo.

Pode-se dizer que a Filosofia estudada por Hegel procura explicar o princípio do quarto Evangelho: “No princípio era o logos, e o logos estava com Deus, e Deus era o logos. (…) E o logos fez-se carne e habitou em nós” (Jo 1, 1 e 14).

A filosofia hegeliana significa a passagem do conhecimento do finito para o do infinito, na unidade entre finito e infinito: “O remeter do ser particular finito ao ser enquanto tal em sua universalidade totalmente abstrata precisa ser considerado como a exigência teórica e até mesmo prática primeiríssima” (Idem, p. 92).

Afirma que mesmo havendo distinção entre o conceito vazio de algo, como mera possibilidade, e seu ser efetivo nas coisas finitas, tal espécie de conhecimento deve ser superada quanto a Deus, que está indissoluvelmente ligado a seu conceito, como Logos.

É a definição das coisas finitas, que nelas conceito e ser são diversos, que conceito e realidade, alma e corpo são separáveis, com isso, são perecíveis e mortais; a definição abstrata de Deus é, por outro lado, precisamente que seu conceito e seu ser são inseparados e inseparáveis. A verdadeira crítica das categorias e da razão é exatamente esta: informar ao conhecer sobre esta diferença e impedir-lhe que aplique as determinações e relações do finito a Deus” (Idem, p. 93).

A diferença entre o conhecer finito e o conhecer Deus está presente de forma análoga na física moderna, que comprova a verdade científica do Cristianismo e, também, da Filosofia de Hegel, ao desenvolver a racionalidade do Cristianismo. Isso explica a incompatibilidade entre relatividade e orgânica quântica, porque a primeira tem uma validade local, e material, trata tão somente de categorias finitas, possuindo uma limitação intransponível quando aplicada ao início dos tempos e ao buraco negro, quando a barreira do finito é alcançada e deve ser superada, exigindo que o conhecimento passe para plano do não finito, ou infinito.

A contraposição localidade da relatividade e não-localidade da orgânica quântica pode ser comparada à oposição que Hegel faz entre natureza e espírito.

Assim o outro, apreendido unicamente como tal, não é o outro de algo, mas o outro nele mesmo, isto é, o outro de si mesmo. – Tal outro conforme sua determinação é a natureza física; ela é o outro do espírito; esta sua determinação é, então, inicialmente, uma mera relatividade, através da qual não se expressa uma qualidade própria da natureza, mas somente uma relação que lhe é externa. Mas na medida em que o espírito é o algo verdadeiro e a natureza, portanto, nela mesma, é apenas o que ela é contra o espírito, assim, na medida em que ela é tomada por si, sua qualidade é justamente a de ser o outro nela mesma, o que é fora de si (nas determinações do espaço, do tempo, da matéria)” (Idem, p. 123).

Não é coincidência constar na passagem acima conceitos como os de “relatividade”, “relação” “externa”, “espaço”, “tempo” e “matéria”, e de a física moderna, no âmbito da orgânica quântica, sustentar abordagens espiritualistas da realidade, em contraposição ao materialismo einsteniano.

Como é necessário superar a relatividade, igualmente é mister ir além do limite, que define o outro; porque algo “é ser aí imediato que se relaciona consigo e tem um limite inicialmente como frente a outro: o limite é o não ser do outro, não do próprio algo; ele limita nele seu outro” (Idem, p. 131). O limite define o finito: “Algo posto com seu limite imanente como a contradição de si mesmo, através da qual ele é apontado e impulsionado para além de si, é o finito” (Idem, p. 133). E o que é limitado está fadado a perecer, porque “o ser das coisas finitas como tal é ter o germe do perecer como seu ser dentro de si; a hora do nascimento delas é a hora de sua morte” (Idem, p. 134).

O finito tem o seu limite, no seu perecer, como passar para outro finito, e assim por diante, até o infinito. Como afirma Hegel, é “a natureza do próprio finito ir além de si, negar sua negação e tornar-se infinito” (Idem, p. 143).

Hegel sustenta, portanto, contraditoriamente, a possibilidade do conhecimento do infinito, e, por isso, conceitualmente, sua proposta é endossada pela física quântica, porque o conhecimento quântico transcende a finitude do ente, notadamente quando o quantum de ação, particular ou ondulatório, é transmitido de um ente a outro, rompendo o limite de um corpo, ou sua finitude, que passa a integrar outro corpo, cujo limite tem como início, em si, o que está além de sua finitude, de modo que o que está além do finito, o infinito, condiciona, portanto, a compreensão do finito.

O aspecto crucial, neste ponto, é o reconhecimento de que qualquer tentativa de analisar, à maneira habitual da física clássica, a ‘individualidade’ dos processos atômicos, condicionados pelo quantum de ação, é frustrada pela inevitável interação dos objetos atômicos em exame com os instrumentos de medida indispensáveis para esse fim” (Niels Bohr. Física atômica e conhecimento humano: ensaios 1932-1957. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1995, p. 24).

A necessidade de superação da finitude para o conhecimento está ainda mais clara quando Bohr afirma que o limite de uma unidade sujeito-objeto deve ser superada, além de sua finitude, por um outro sujeito:

Nesse aspecto, convém enfatizar que a distinção entre sujeito e objeto, necessária a uma descrição inambígua, é preservada na maneira como, em toda comunicação que contenha uma referência a nós mesmos, introduzimos, por assim dizer, um novo sujeito que não figura como parte do conteúdo da comunicação” (Idem, p. 129).

Consequentemente, os dados obtidos em diferentes condições experimentais não podem ser compreendidos dentro de um quadro único, mas devem ser considerados complementares, no sentido de que só a totalidade dos fenômenos esgota as informações possíveis sobre os objetos” (Idem, p. 51).

Temos, assim, na física quântica, a necessidade de superação dos limites, das finitudes, tanto do sujeito observador como do objeto, alcançado suas infinitudes, em uma nova finitude, que também deve ser suprassumida, até que seja obtida a totalidade dos fenômenos com suas informações, unindo conceitualmente suas formas com seus conteúdos, para a compreensão de todas as informações possíveis sobre os objetos, dentro de uma subjetividade infinitamente compartilhada, que é a uniplurissubjetividade e significa o “saber absoluto”, como experiência do “espírito absoluto” ou da “verdade suprema”, filosofada por Hegel, e vivida por Jesus, o Cristo.