Alma

Alguns conceitos são essenciais para a compreensão do mundo, porque ligados às ideias fundamentais ou categorias pelas quais captamos intelectualmente a realidade.

Sistemas filosóficos distintos possuem conceitos ou categorias simbólicas diferentes, de modo que a utilização de determinados termos em um discurso depende da inserção de seu significado dentro do contexto, não podendo palavras de um sistema de pensamento serem usadas indistintamente em outro.

A palavra alma está incluída nessa hipótese, pois sua significação depende de uma determinada posição filosófica ou teológica. Assim, no novo dicionário Aurélio da língua portuguesa, em sua 4.ª edição, por exemplo, o vocábulo alma possui 26 (vinte e seis) significações “1. Princípio de vida. 2. Filos. Entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida (do nível orgânico às manifestações mais diferenciadas da sensibilidade) e ao pensamento, e que se define em oposição ao corpo (embora não necessariamente a matéria) e, às vezes, a espírito, estando associadas à consideração da ideia de alma as questões da imortalidade, da personalidade, da individualidade, da consciência, etc., com todas as implicações morais, religiosas e metafísicas que elas suscitam (…). 3. Princípio espiritual do homem concebido como separável do corpo e imortal (…). 12. Pessoa, indivíduo”.

Teologicamente, portanto, alma pode ter vários sentidos, dentre os quais merecem ser destacados três: um segundo o qual a alma é uma entidade imaterial e imortal que se une ao corpo em vida, do corpo se separando após a morte, segundo uma concepção dualista do mundo; outra entendendo que a alma é uma questão psicológica, decorrente dos estados neurais da pessoa, sendo uma ilusão ou criação da mente que se extingue com a morte, conforme a vertente filosófica e teológica materialista; e outra decorrente da tradição hebraica, segundo a qual alma é a própria pessoa.

Para entender essa última concepção, em contraposição com a primeira, vale assistir ao vídeo “Estudo da palavra: Nephesh – ‘Alma’” produzido por “The Bible Project”, com legenda em português (https://www.youtube.com/watch?v=g_igCcWAMAM). Ficam recomendados, a propósito, todos os vídeos de “The Bible Project”, uma vez que já assisti a vários, ainda que nem todos tenham legenda em português, salientando-se que o projeto explica a Bíblia segundo uma perspectiva Cristã, com certa neutralidade teológica, dentro das possibilidades de uma atividade qualquer que possa ser neutra, sustentando que a Bíblia é uma história única que leva a Jesus.

Segundo o vídeo, a palavra nephesh constante do Antigo Testamento foi traduzida, de forma infeliz, como alma, porque o termo alma é carregado de bagagem da filosofia grega, uma vez que no sistema de pensamento helênico a alma seria uma essência não física e imortal da pessoa, que está presa ao corpo, do qual é liberada após a morte, como na ideia do “fantasma dentro da máquina”.

“–– Não é outra coisa (a morte) senão a separação da alma do corpo, não é? Estar morto é bem isto: de um lado, separado da alma, o corpo isola-se em si mesmo; do outro, a alma, por sua vez, separada do corpo, é isolada em si mesma? Ou a morte será outra coisa?

–– Não, é isso mesmo, disse ele.” (Platão. Fédon. Trad. Miguel Ruas. São Paulo: Editora Martins Claret, 2005, p. 27).

Tem-se, pois, na filosofia platônica uma concepção dualista do mundo, com duas realidades, dos corpos e das ideias, sendo fato histórico que Agostinho de Hipona viveu em um tempo sob forte influência filosófica do neoplatonismo, tendo, então, desenvolvido sua proposta teológica com as categorias das duas cidades, também podendo-se inferir que o dualismo cartesiano, e suas duas substâncias, possui ligação com filosofia platônica.

Platão entendia que a alma, “apresentando-se em um corpo, faz com que ele seja vivo” (Idem, p. 90), sendo imortal e indestrutível, indo ao Hades após a morte do corpo.

A separação entre alma e corpo sustenta, por sua vez, o desenvolvimento da ideia da reencarnação, metempsicose ou transmigração das almas, que é divergente do ensinamento bíblico pelo qual “é um fato que os homens devem morrer uma só vez, depois do que vem um julgamento” (Hb 9, 27).

Outrossim, tal concepção grega não tem correspondência com a ideia hebraica de nephesh, palavra que, para a Bíblia, pode significar “garganta” ou a pessoa inteira. Na Bíblia, a pessoa não tem uma alma, ela é uma alma, nephesh, um ser vivo e físico que respira, em um corpo.

O conceito de alma, destarte, é um para os gregos e outro conforme o entendimento bíblico do mundo. Resumindo, para os materialistas alma é um conceito fruto do excesso de conexões neurais, da imaginação de um cérebro ocioso, mera criação da imaginação humana; dentro de uma filosofia dualista, alma é o princípio que dá vida ao corpo, do qual se separa após a morte deste; enquanto para o hebreu a alma é a própria pessoa em sua integridade, incluindo seus sentimentos e sua realidade física, havendo uma unidade entre corpo e alma.

Portanto, o conceito de ressurreição é diferente daqueloutro de reencarnação, no sentido de retorno físico da pessoa integral em um corpo físico renovado, havendo, nesse aspecto, um significativo hiato ontológico entre a Teologia bíblica e a grega, sem prejuízo de uma proximidade prática entre tais visões de mundo, “na realidade, agora que a alma se revelou imortal, não há nenhuma saída para seus males, nenhuma outra salvação, senão a de se tornar a melhor possível e a mais sábia” (Platão. Obra citada, p. 93).

Ainda que Platão sustente tal ideia para que a alma chegue ao Hades em boas condições, sem se prejudicar, referido entendimento tem pertinência com o entendimento bíblico segundo o qual devemos buscar a santidade, tornando-nos a melhor e mais sábia alma possível, conforme o modelo de Deus: “Sede santos, porque eu, Iahweh vosso Deus, sou santo” (Lv 19, 2)

Nesse sentido, o mandamento de Moisés, ensinamento repetido por Jesus, deve ser corretamente interpretado dentro do contexto bíblico e suas categorias fundamentais da realidade:

Ouve, ó Israel, Iahweh nosso Deus é o único Iahweh! Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (Dt 6, 4-5).

Amar a Deus com toda a alma, ou nephesh, significa dedicar toda a existência física ao Criador, incluindo todos os pensamentos, palavras e ações, todos os movimentos internos e externos da pessoa devem ser santos, puros, adotados para realizar o Bem, e oferecer todo o ser, com todas as suas capacidades e limitações, para amar, e servir, a Deus e ao próximo como a si mesmo.

Na tradição bíblica, assim, existe uma unidade inseparável entre corpo e alma, entre o mundo e Deus, sendo ilusória a ideia de distinção entre a realidade física e a espiritual, dada a ligação direta entre o que fazemos no corpo e o julgamento na eternidade, pelo que o corpo integra a eternidade e a alma é una com o corpo.

Por isso, devemos ampliar nossa alma, para manter a unidade com o mundo, tornando-nos mahatamas, grandes almas, almas coletivas, que têm comportamento solidário, sendo “luzes no mundo, mensageiros da Palavra de vida”, porque as grandes almas cuidam dos outros com amor.

Portanto, pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que há no Amor, pela comunhão no Espírito, por toda ternura e compaixão, levai à plenitude a minha alegria, pondo-vos acordes no mesmo sentimento, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um só do que é seu, mas também do que é dos outros” (Fl 2, 1-4).

Elias e a verdade científica

Elias é uma personagem bíblica que surgiu no tempo do rei Acab, em um período de idolatria, quando o rei “passou a servir Baal e a adorá-lo”, “irritando Iahweh, Deus de Israel, mais que todos os reis de Israel que o precederam” (1Rs 16, 31 e 33).

Nessa época, pois, o poder político de Israel estava submetido a uma falsa teologia e a ideias desviantes da verdade, propagadas por falsos profetas. Fazendo uma adequação teórica ao tempo atual, os profetas do tempo de Elias, o que vale também para este profeta, correspondiam aos cientistas e acadêmicos (e religiosos) da era atual, aqueles que sustentam uma narrativa de mundo com pretensão de verdade. A diferença entre o profeta (cientista ou religioso) de Iahweh e o falso profeta (cientista ou religioso) está no fato de que aquele é expressão da Verdade, enquanto este é pregador da mentira e do engodo. As previsões do autêntico profeta, ou cientista, ou religioso, se realizam e se cumprem no mundo da vida.

A figura de Elias possui elevado destaque no antigo testamento, sendo que profetizou uma seca de três anos e ressuscitou o filho de uma viúva (1Rs 17, 1 e 22), antecipando sinais que seriam realizados pelo próprio Jesus Cristo, que controlou a tempestade e também ressuscitou pessoas, como narrado nos Evangelhos.

Um dos eventos mais marcantes da vida de Elias é o embate com os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, no monte Carmelo, quando os desafiou a invocar o nome de deus, enquanto ele invocaria Iahweh, e o deus que respondesse enviando fogo, “é ele o Deus” (1Rs 18, 24). Aceito o desafio, os profetas de Baal passaram metade do dia pedindo a seu deus, mas o fogo de sua oferenda não foi aceso. Então, Elias “empilhou a lenha, esquartejou o novilho e colocou-o sobre a lenha. Depois disse: ‘Enchei quatro talhas de água e entornai-a sobre o holocausto e sobre a lenha’; assim o fizeram. E ele disse: ‘Fazei-o de novo’, e eles o fizeram. E acrescentou: ‘Fazei-o pela terceira vez’, e eles o fizeram. A água se espalhou em torno do altar e inclusive o rego ficou cheio d’água. Na hora em que se apresenta a oferenda, Elias, o profeta, aproximou-se e disse: ‘Iahweh, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saiba-se hoje que tu és Deus em Israel, que sou teu servo e que foi por ordem tua que fiz todas estas coisas. Responde-me, Iahweh, responde-me, para que este povo reconheça que és tu, Iahweh, o Deus, e que convertes os corações deles!’ Então caiu o fogo de Iahweh e consumiu o holocausto e a lenha, secando a água que estava no rego. Todo o povo o presenciou; prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: ‘É Iahweh que é Deus! É Iahweh que é Deus!’ Elias lhes disse: ‘Prendei os profetas de Baal; que nenhum deles escape!’ e eles os prenderam. Elias fê-los descer para perto da torrente do Quison e lá os degolou” (1Rs 18, 33-40).

Elias mostrou, assim, que estava do lado da verdade científica, da Verdade, derrotando os falsos profetas, porque a palavra de Elias era adequada às coisas, sendo dotada de adaequatio intellectus et rei, de identificação entre o intelecto e a coisa, a ideia e a existência, o pensamento e a realidade.

Atualmente, a verdade científica é encontrada, mesmo que parcialmente, por meio das previsões das teorias científicas, notadamente quando são confirmadas, ocasiões em que o intelecto se apresenta no mundo dos fatos, ainda que restritamente, dado que a plena adequação só ocorre nas manifestações do próprio Deus, na verdadeira Ciência, o Cristianismo, de que os profetas (e religiosos) de hoje estão muito distantes.

A teoria da relatividade, nesse sentido, é uma expressão parcial e muito limitada da adequação entre ideia e realidade, como ocorreu com a recente comprovação da existência de ondas gravitacionais pela proposta científica de Einstein. Parcial porque nem Einstein, nem qualquer outro cientista posterior, conseguiu compatibilizar a relatividade com a física quântica.

O problema de Einstein foi sua fixação com o materialismo, que pode ser considerado uma nova forma de teologia, pelo que Einstein, nesse sentido, é um profeta do materialismo, tendo ele procurado eliminar os “conceitos provenientes da esfera psicológica, como dor, meta, finalidade etc.” do pensamento científico, pois este deve tratar apenas de “conceitos ‘de natureza espacial’, buscando expressar por meio deles todas as relações que possuem caráter de lei”, reduzindo os fatos “de tal maneira que o psíquico como tal seja eliminado do encadeamento causal do ser, de modo que ele, por conseguinte, não se manifeste em parte alguma como um elo independente nas ligações causais. Esta atitude, que em princípio considera possível abranger todas as relações empregando exclusivamente conceitos de ‘natureza espacial’, é certamente o que entendemos hoje por ‘materialismo’ (depois que a ‘matéria’ perdeu seu papel de conceito fundamental)” (Albert Einstein. A Teoria da Relatividade Especial e Geral. Trad. Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999, pp. 116-117).

A busca final de Einstein era pela descrição da “realidade física de maneira exaustiva (incluindo o espaço a quatro dimensões) por meio de um campo”, em uma “teoria de campo relativístico”, objetivo não compartilhado pelos físicos de seu tempo, acreditando estes que “o estado de um sistema não pode ser caracterizado direta mas apenas indiretamente”, através de estatísticas, porque predomina a “convicção de que a natureza dupla (estrutura corpuscular e estrutura ondulatória), solidamente provada pela experiência, só pode ser alcançada através desse enfraquecimento do conceito de realidade” (Idem, p. 130).

Pode-se ver que Einstein procurava uma ciência dissociada do aspecto humano, porque a exclusão da dor (e consequentemente do prazer), da meta, da finalidade, enfim, do sentido das coisas e do âmbito psíquico do pensamento científico é produzir uma ciência sem humanidade. A Ciência produzida dessa forma é estéril, é morta, porque sem Metafísica, sendo mister, para a busca da verdade científica, a superação do materialismo e do positivismo, que rejeitam a ideia de uma realidade espiritual e significado e negam os valores humanos que fazem a vida ter sentido.

Nos anos 30, o reducionismo ocupava uma parte importante do programa neopositivista que aspirava alcançar a unidade da ciência pela redução de seus diversos ramos à linguagem fisicista. As entidades ou níveis mais altos não seriam ‘outra coisa que’ a soma das entidades ou teorias de níveis mais baixos. Este projeto tropeçou de imediato em dificuldades insuperáveis, mas os intentos reducionistas não cessaram” (Carlos A. Casanova. Física e Realidade: reflexões metafísicas sobre a ciência natural. Trad. Raphael D. M. De Paola. Campinas, SP: VIDE Editoral, 2013, p. 210).

Casanova defende, com absoluta razão, que é preciso pressupor inteligibilidade na natureza para que seja possível a atividade científica, atitude esta que é previa à própria empreitada científica, a qual “se encontra num universo de sentido que a transcende. (…) Quando, em nome da ciência natural, se pretende negar este universo de sentido, já não se está fazendo ciência, mas metafísica, ainda que mascarada e falsa” (Idem, p. 245).

A verdade científica, assim, está longe de ser alcançada pelos profetas do materialismo, por maior que tenha sido o seu sucesso parcial provisório, como ocorreu com os profetas de Baal até o embate com Elias. A vida de Elias é inacreditável para um materialista, especialmente porque aquele simplesmente não morreu, pois quando estava com Eliseu, “aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, eis que um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu no turbilhão” (2Rs 2, 11).

A opção pelo Cristianismo na busca da verdade científica é, portanto, insólita, contrariando tudo o que se tem entendido como ciência, e como religião, mas não afronta os dados científicos em si, em uma interpretação não reducionista da Natureza. Essa visão científica mais ampla da realidade, de todo modo, como uma expressão própria da Ciência, depende de uma comprovação pública da teoria em algum momento, como ocorreu com a relatividade, e com Elias, diante dos profetas de Baal.

Elias, destarte, está relacionado à manifestação da verdade científica, como profetizado: “Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o Dia de Iahweh, grande e terrível. Ele fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais, para que eu não venha ferir a terra com anátema” (Ml 3, 23-24).

O espírito, padrão, ideia, arquétipo ou forma de verdade de Elias se manifestou antes de Jesus Cristo, na vida de João Batista, antecipando a revolução teológica que viria a se desenvolver tanto no Cristianismo como no Islamismo, religião esta diretamente dependente da Verdade contida na Torá e no Evangelho, até que o início da consumação dessa Verdade se dê também no plano político internacional.

Os discípulos perguntaram-lhe: ‘Por que razão os escribas dizem que é preciso que Elias venha primeiro?’ Respondeu-lhes Jesus: ‘Certamente Elias terá de vir para restaurar tudo. Eu vos digo, porém, que Elias já veio, mas não o reconheceram. Ao contrário, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem irá sofrer da parte deles’. Então os discípulos entenderam que se referia a João Batista” (Mt 17, 10-13).

João Batista pregava: “Mudai de mentalidade, pois ficou próximo o reino dos céus” (Mt 3, 1). Anunciava uma realidade que ainda não é bem compreendida, porque exige uma interpretação do mundo que transcende a aparência fugaz do plano corporal, uma nova mentalidade, visão de mundo ou Metafísica que inclua uma temporalidade ligada à escala da evolução da vida humana na Terra, mensagem que deve submeter o poder político internacional a partir de Israel e seu Messias, Jesus.

Para isso, é fundamental a correta interpretação da relatividade e da física quântica, da Ciência, que corrobora a Verdade Cristã, uma vez que passou a exigir que o mundo seja entendido não como um espaço cheio de coisas atomicamente isoladas ou como objetos exteriores, mas como relações, infinitas, como funções, como valores, vinculados ao observador, ao sujeito que é templo de um Espírito infinito, de um Logos que perpassa todas as coias. A posição relativa é fundamental para a compreensão da relatividade, exigindo a orgânica quântica, contudo, a definição prévia de um valor, de uma utilidade da observação, no sentido de verificar o fenômeno a ser observado, ou em razão de sua natureza como onda ou como partícula, dando propriamente sentido às coisas no plano espaço-temporal.

O que o materialismo de Einstein não percebeu, como também escapou ao positivismo, é que o mundo material é feito não de coisas extensas, mas de Espírito encarnado, como O Logos, A Razão, Deus, entre os homens e a natureza. Sem Espírito, sem alma, sem o sentido do movimento, a matéria é morta, é indiferente, é insossa, e isso não provoca atividade no organismo vivo.

Também fundamental é a correta interpretação do Cristianismo, como Judaísmo renovado, e do Islamismo, e por isso busca-se restaurar o espírito de Elias, anunciando o Reino de Deus, indicando o caminho de restauração da Verdade Científica, mesmo que essa Mensagem não seja bem compreendida, confusão que cessará quando o Espírito de Cristo se manifestar, de forma semelhante ao fogo descendo no monte Carmelo, para que os falsos profetas, materialistas e positivistas, sejam desmascarados, servindo como escabelo para a proclamação do Evangelho, submetendo o poder político e a atividade científica e acadêmica à Verdade da Ciência, que é Cristo.

Hierarquia das Ciências

A questão sobre a existência de uma hierarquia das ciências é abordada no livro “Física e Realidade – Reflexões metafísicas sobre a ciência natural”, de Carlos Augusto Casanova, professor da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Chile, em que o autor perquire a existência de uma ciência primeira, valendo-se dos ensinamentos de Aristóteles e sua Metafísica.

Concordo com o autor quando ele sustenta, baseando-se em Aristóteles, que a Metafísica é condicionante para o exercício da atividade científica, funcionando como um pressuposto que torna possível o próprio desenvolvimento das ciências particulares. De outro lado, mesmo que a leitura do texto ainda esteja em andamento, é possível antever que a Metafísica com a qual trabalha o autor diverge em seu conteúdo teológico daquela que venho desenvolvendo, pelo que é possível falar em uma Teologia antecedente que leva ao desenvolvimento de uma Metafísica que, por sua vez, é pressuposta na pesquisa científica.

Casanova inicia seu primeiro capítulo afirmando que para Aristóteles e Platão “epistéme é uma atividade teórica, contemplativa, em que uma afirmação é sustentada por fundar-se em princípios ou causas” (Carlos A. Casanova. Física e Realidade: reflexões metafísicas sobre a ciência natural. Trad. Raphael D. M. De Paola. Campinas, SP: VIDE Editoral, 2013, p. 17). O que significa um conhecimento decorrente de premissas que estejam relacionadas com a causa real daquilo que está na conclusão de um juízo, saber esse que pode estar ordenado em uma disciplina. “Mas nunca devemos perder de vista que, diferentemente de Karl Popper, Thomas Kuhn ou Alasdair MacIntyre, Platão e Aristóteles não entendiam ‘ciência’ num sentido primordialmente sistemático”, porque mesmo enquadrando seus conhecimentos numa visão unitária do mundo, em tarefa aberta ao real e, pois, assistemática, “a abertura às últimas causas – ao ser não unívoco, e ao divino, do qual não podemos alcançar nem intelecções nem demonstrações propriamente ditas – excluía qualquer espelhismo de sistema fechado” (Idem, p. 18).

Reconheço que não tenho conhecimento suficiente das obras de Platão e Aristóteles para contrariar a afirmação anterior, mas, pelo que sei, concluo que também para eles a Ciência era primordialmente sistemática, a despeito de tal sistema, de fato, não ser fechado, não ter limites demasiadamente rígidos.

Entendo, de outro lado, que Casanova, como a maioria absoluta dos cristãos que trabalham seriamente com conceitos filosóficos, não percebe que a visão unitária do mundo dos gregos, sistemática ou não, começou a ser perdida quando uma determinada posição teológica do Cristianismo se firmou na junção do pensamento greco-romano com o judaico-cristão, inicialmente pelo trinitarismo de Niceia; depois ganhando contornos teológicos e filosóficos com Agostinho, na sua proposta de duas cidades, em sua interpretação amilenarista do Apocalipse, com reflexos sobre o sentido e a posição da humanidade na História e na mentalidade geral de uma comunidade científica em que a Teologia era a Primeira Ciência; culminando no dualismo cartesiano, fruto indireto do trinitarismo e da proposta das duas cidades, que é uma forma de gnosticismo platônico contrária à visão de mundo monoteísta.

Nesse sentido, com a trindade, Jesus foi transferido para uma realidade celestial e transcendental, a despeito de sua dupla natureza (sobre o que remeto o leitor ao artigo “A dupla natureza de Jesus Cristo” – https://holonomia.com/2017/08/16/a-dupla-natureza-de-jesus-cristo/), rompendo com a unidade da humanidade e, de certa forma, desencarnando o Verbo. Com as duas cidades e os dois mundos, a vida humana passou a ser regida teoricamente por dois governos, comprometendo a estabilidade política e social, do que os embates político-religiosos que se sucederam são consequência direta. O dualismo cartesiano abriu caminho ao materialismo que, em sua posição final neodarwinista, excluiu a alma e o espírito da realidade.

De fato, por este seu intento de fundar uma ‘matemática universal’, Descartes lutou denodadamente para eliminar da natureza toda forma, qualidade ou fim, convertendo-a em pura res extensa. Por isso, podemos considerá-lo o pai do mecanicismo ou do racionalismo” (Carlos A. Casanova. Obra citada, p. 33).

Casanova, todavia, acertadamente, rejeita a ideia segundo a qual a matemática seria a primeira das ciências, aludindo à Metafísica de Aristóteles para aduzir que a matemática supõe axiomas primeiros, que não são por ela estudados, declarando que a física é subordinada à matemática que, por sua vez, é subordinada à metafísica, porque é esta última que tem como objeto o princípio de não-contradição, pressuposto tanto pela física como pela matemática, das quais não é alvo de estudo.

Ora, uma disciplina que supõe o axioma fundamental, que não o considera, não pode ser tida como a primeira de todas. Mas é óbvio que a disciplina que em sua etapa ‘demonstrativa’ (não somente ‘inventiva’) considera o princípio de não-contradição é a metafísica. Somente ela, portanto, possui o título para reclamar a primazia entre as ciências” (Idem, p. 53 – negrito meu).

Assim, como afirmado acima, uma Teologia mais ampla é pressuposto da Filosofia Primeira, ou Metafísica, enquanto Teologia articulada, que condiciona as ciências particulares. A Teologia, pois, está no topo da hierarquia das ciências, seja enquanto Metafísica sistemática, ou como Primeira Verdade, vinculada ao primeiro postulado, adotado como valor fundante de uma posição perante o mundo da vida e sua relação com a realidade, ou como religião existencial. A Teologia Monoteísta, destarte, prevendo uma ordem de mundo, é indispensável para o desenvolvimento científico.

Casanova sustenta que os cientistas pressupõem que haja uma inteligibilidade no mundo, como conhecimento pré-científico:

Assegurado este âmbito pré e supra-científico com nossa chamada ao pressuposto da inteligibilidade do mundo expressada no princípio da não-contradição, podemos acrescentar que ao menos uma parte dos conhecimentos que precedem às convenções científicas básicas pertencem a esta mesma região metafísica da alma humana. Existe todo um mundo de experiências que constitui o todo contextual, sem o que não poderíamos construir os discursos científicos particulares e analíticos. Parece-me que a máxima aristotélica antes transcrita trata de orientar-nos nesta direção: ‘Toda doutrina e toda disciplina procedem de um conhecimento prévio’” (Idem, p. 84).

Vale citar que parte desse âmbito pré e supra-científico que pressupõe a inteligibilidade do mundo decorre, no ocidente, da tradição judaico-cristã, segundo a qual há uma Sabedoria, uma Razão, o Logos, subjacente a tudo o que existe, acessível à mente humana, em maior ou menor nível. Essa visão é um valor que orientou a vida ocidental por séculos, permitiu o desenvolvimento das ciências naturais e, no plano jurídico, está na origem histórica e racional dos direitos humanos e da dignidade humana, fato constatado por qualquer pessoa com mínima honestidade intelectual.

Nesse sentido, de que a ciência decorre de uma posição teológica perante o mundo, uma Teologia Cristã trinitarista dominou, e domina, o pensamento ocidental por séculos, perdendo parte de seu poder descritivo sobre a natureza com o pensamento cartesiano e com a revolução científica que foi proporcionada por aquela Teologia, quando uma ideia mecanicista passou a preponderar nas ciências naturais, regendo o estudo da res extensa, das coisas do mundo sensível, de um lado, até que também no plano social, associado à res cogitans, de outro lado, ascenderam os pensamentos sociológicos positivista e marxista, do que são exemplos o Círculo de Viena e a Escola de Frankfurt, assumindo posições equivalentes à que tinha a Teologia durante a chamada idade média.

Diante do esgaçamento dessas propostas, dessas teologias cambetas, é válido o resgate da Metafísica aristotélica, pretendido por Casanova. Entretanto, considero essencial que essa restauração inclua a ressurreição da Teologia Cristã primitiva, antes da imposição dogmática que afastou o pensamento cristão do mundo judaico, para restabelecer como ponto primordial a unidade Monoteísta, em que o Espírito, Deus, está no mundo e em nós, e se manifesta na História humana, que culminará no Reino, ou Era Messiânica, até que venha a evolução material do cosmos.

Por isso, o Cristianismo e a ideia do Reino de Deus devem ser reconcebidos, com o abandono do platonismo que levou ao dogma da trindade e à projeção do Reino para o além, para o mundo das ideias platônicas.

Nada mais distante do realismo de Aristóteles que pensar que a mente seja um espelho do mundo. A crítica mais dura do Estagirita à teoria das ideias de seu mestre residia em que as ‘Ideias’ eram uma projeção de nossas noções mentais sobre o mundo” (Carlos A. Casanova. Obra citada, pp. 128-129).

Daí a leitura Cristã sem a trindade, na refundação da união dos logos grego, conforme a Metafísica aristotélica, com o Logos semítico, porque nós vivemos em ideias, vivemos no Espírito, somos Espírito, ou Ideia, encarnamos o Logos, encerrando no tempo o que está fora do tempo, dando forma à matéria, segundo a Forma Primordial do mundo. O pleno desenvolvimento científico depende da Metafísica, e a perfeição desta é condicionada pela Teologia, pela Ciência Primeira, pela ontologia básica da realidade divina da qual participamos.

Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’. Ora, se nós somos de raça divina, não podemos pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, a uma escultura da arte e engenho humanos” (At 17, 27-29).

Por elas nos foram dadas as preciosas e grandíssimas promessas, a fim de que assim vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de vos libertardes da corrupção que prevalece no mundo como resultado da concupiscência” (2Pe 1, 4).

Juiz Cristo

Existe, na teoria do Direito, uma proposta de descrever os modelos de juiz usando ideias da mitologia, podendo serem citados os modelos Júpiter, Hércules e Hermes, cada qual representando um tipo de comportamento do magistrado e o modo como atua ao proferir suas decisões. Também pode ser mencionado o juiz MacGyver, em crítica à forma de atuação dos juízes brasileiros (https://www.conjur.com.br/2013-nov-02/diario-classe-complexo-macgyver-modelos-juiz-episodio).

Entendo que tais sugestões somente existem porque não foi corretamente compreendido o que realmente significam o Direito e o Cristianismo, dentro de uma visão integral da Vida, que não separa aspectos políticos, religiosos e científicos, os quais se inserem em uma só realidade cultural, física e histórica, em uma só substância de mundo, e uma Humanidade.

O presente texto desenvolve algumas propostas do artigo “O Juiz Sacerdote” (https://holonomia.com/2017/05/30/o-juiz-sacerdote/), em que constou:

Nas assim chamadas ciências jurídicas, a Lei ainda possui relação com a ideia do sagrado, e a Constituição representa concretamente essa Lei, como espaço especial das relações humanas. Considerando que o art. 102 da Constituição Federal, por exemplo, dispõe que compete ao Supremo Tribunal Federal guardar a Constituição, o que é missão profissional do Poder Judiciário, e obrigação cidadã de toda a população, podemos dizer que vivemos em uma nação de reis sacerdotes, em que todos têm a obrigação de servir e guardar a Constituição, sendo os magistrados sacerdotes especiais, pois são os guardiões profissionais da Constituição. Portanto, como o juiz tem a função especial de servir e guardar a Constituição, ele é o novo sacerdote.”

Toda sociedade vive dentro de um quadro simbólico, que significa, dá sentido às coisas, aos fenômenos e aos eventos da história, tendo o ocidente sido formado dentro de uma simbologia judaico-cristã, que sucedeu a do mundo grego, o qual já havia transcendido, pela Filosofia, as narrativas mitológicas, por mais que estas sejam uma forma arcaica de Ciência e tenham sido úteis para a formação da cultura helênica, a qual, por sua vez, exerceu grande ascendência sobre a vida romana.

Existe, assim, um hiato, talvez intransponível, entre os símbolos da mitologia greco-romana e os conceitos jurídicos posteriores ao desenvolvimento da Filosofia, o que não ocorre com as ideias do Cristianismo, que ainda estão presentes na vida ocidental, com elevada força simbólica unificadora capaz de canalizar grande volume de energia na comunidade.

Nesse sentido, vale dizer que o fundamento de nossa civilização, a dignidade humana, vincula-se teórica, científica e historicamente, de maneira indissolúvel, ao judaísmo, à pessoa de Jesus Cristo e às ideias a ele ligadas. Daí porque é muito apropriado falar em juiz Cristo, para posicionar a figura do magistrado dentro da cosmovisão da qual se originaram os direitos humanos, narrativa que não pode ignorar a pureza moral, incluindo o aspecto sexual, de Jesus, de João Batista, que o antecedeu, e de Paulo, o maior responsável pela propagação das ideias de Jesus Cristo, e sua relação com a integridade conceitual da dignidade humana e dos direitos humanos.

É importantíssimo, ainda, inserir a pessoa do magistrado, e não somente sua função, em um quadro simbólico, porque o mundo é feito de pessoas e por pessoas, e não de coisas, ou por coisas. A autoridade pública é exercida por pessoas, e quanto melhor a pessoa mais corretamente exerce essa autoridade, como exposto no artigo “Sobre a autoridade secular” (https://holonomia.com/2018/11/28/sobre-a-autoridade-secular/).

No caso do juiz, do magistrado, a pessoa do julgador pode favorecer ou comprometer a autoridade da decisão, e não é por outro motivo que a Lei Complementar n.º 35, de 1979, que dispõe sobre a Lei Orgânica da Magistratura Nacional, no inciso VIII do seu art. 35, estabelece como dever do magistrado manter conduta irrepreensível na vida pública e particular.

A identificação com a postura do cristão é imediata, porque, no Cristianismo, Deus, o Juiz Supremo, que é Santo e Perfeito, delegou o julgamento do mundo a Cristo, expressão humana da perfeição de Deus, e aos cristãos, ou alter cristos, os que se portam como Cristo, buscando a santidade e a perfeição, porque “os santos julgarão o mundo” (1Cor 6, 2), e ser santo é manter conduta irrepreensível permanentemente, dentro de nossa imperfeição, tendo como modelo de vida aquele que deu corpo ao Logos, encarnando-O em Vida, cumprindo a Lei plenamente.

Antes, como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos também vós santos em todo o vosso comportamento, porque está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. E se chamais Pai aquele que com imparcialidade julga a cada um de acordo com as suas obras, portai-vos com temor durante o tempo do vosso exílio” (1Pd 1, 15-17).

Deus é Legislador, Rei e Juiz da Criação, e da Humanidade, é o Logos, a Sabedoria Suprema, da qual derivam a dignidade humana e os direitos humanos, conceitos estes dependentes daquele conjunto de ideias, o Logos que serve de parâmetro para a definição eterna do que é o Direito e a Justiça. A lei é elaborada pela Razão, o governo é exercido segundo a Razão e o julgamento é proferido pela Razão, e quanto melhor a Razão, tanto melhores a lei, o governo e o julgamento.

Nesse sentido, porque Jesus Cristo deu corpo, encarnou a Razão Perfeita, o Logos, irá “julgar os vivos e os mortos, pela sua Aparição e por seu Reino” (2 Tm 4, 1). “E ordenou-nos que proclamássemos ao Povo e déssemos testemunho de que ele é o juiz dos vivos e dos mortos, como tal constituído por Deus” (At 10, 42).

Sua Aparição e seu Reino são vinculados ao reconhecimento público de sua Autoridade, com a plena submissão a ela e com a superação da hipocrisia que separa a teoria Cristã da prática dos que se chamam cristãos, especialmente na vida pública e no ambiente político e jurídico, na medida em que o Reino é o governo segundo o Logos, Logos que também é a Lei que fundamenta o julgamento, a atuação do juiz.

O juiz Cristo é o que possui autoridade na comunidade, sendo capaz de, com sua força moral, não condenar um culpado, como ocorreu com a mulher adúltera, no episódio emblemático que foi apresentado na novela Jesus, transmitida pela emissora Record, nessa semana, ao salientar que aquele que condena deve estar sem pecado, não pode ser hipócrita: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” (Jo 8, 7). Contudo, a condição para que a condenação não seja executada é o arrependimento, o reconhecimento do erro, teórico e prático, com a sincera disposição de não mais falhar, o que é um julgamento feito pelo juiz sobre uma dificílima questão de fato, relativa à alma, sobre o coração humano, sobre a boa-fé ou a má-fé: “Nem eu te condeno. Vai. A partir de agora não voltes nunca mais a errar” (Jo 8, 11).

A atividade do juiz é tanto técnica como simbólica, e se refere aos valores mais elevados da comunidade, à Política, cuja teoria variou muito ao longo dos últimos séculos. Com a restauração dos estados nacionais, após o período chamado Idade Média, a função de juiz era exercida pelo monarca, que era considerado um delegado de Deus entre os homens, o que pode ser considerado um período de predomínio do que hoje chamamos de poder executivo. Em seguida, com a proposta de se alcançar uma razão objetiva para regular o comportamento social, essa razão se associou à ideia de um poder legislativo, sobrevindo um tempo de codificação, em que o Direito era o que estava nas leis e nos códigos, sendo o juiz a boca da lei, uma vez que ênfase estava na função legislativa. Contudo, toda lei exige interpretação e aplicação aos casos, inclusive dos valores fundantes do Estado, conforme o constitucionalismo, de modo que a atividade julgadora passou a ganhar cada vez mais destaque. O pêndulo jurídico passou da subjetividade do monarca para a objetividade da lei, e diante da necessidade de sua concretização a ênfase do Direto volta a destacar a subjetividade, desta vez do julgador, em confronto com a pretensa objetividade da Lei.

A dificuldade está, portanto, em encontrar uma objetividade para além da subjetividade do julgador, para que as decisões sejam proferidas segundo a norma pública e racionalmente estabelecida, e não segundo uma vontade meramente individual ou pessoal do magistrado, para que haja máxima previsibilidade nos julgamentos, ou segurança jurídica, sem prejuízo para a realização da justiça no caso.

Quanto à objetividade, a física moderna, tanto pela relatividade como pela orgânica quântica, demonstra que a posição do sujeito é fundamental para a determinação de sua relação com os fenômenos observados, e com a objetividade. Segundo a relatividade, não existe um ponto de Arquimedes material que sirva de referencial absoluto para as observações, devendo ser destacado que a relatividade trata apenas de fenômenos materiais, aqueles em que está envolvida uma troca local de partículas. Assim, o significado dos eventos depende da posição relativa dos observadores, dos referenciais adotados, dos sujeitos. Igualmente pela física quântica, a observação e o modelo de medição escolhidos são determinantes para o resultado do experimento.

A posição do sujeito, pois, importa física e psiquicamente, porque coloca a subjetividade dentro de um contexto, e essa posição é determinada tanto materialmente, dentro do espaço-tempo, como simbolicamente, em uma narrativa de mundo, um arcabouço teórico, que dá sentido aos eventos dentro do espaço-tempo, inclusive determinando a seta do tempo, a direção da História, e se o resultado da medição será em termos particulares ou ondulatórios, como partícula local com posição ou velocidade determinada ou como onda espalhada em um campo não local.

Outrossim, a objetividade só é possível se o sujeito estiver na posição correta, que inclua tanto uma posição material local quanto uma relação não local, ou transcendente. Para o juiz, a objetividade inclui, portanto, sua manifestação local, pelas teorias e razões expostas no processo, e sua relação não local, o arcabouço teórico que encarna e os símbolos que o movem, consciente e, principalmente, inconscientemente, como o demonstra a psicologia moderna, notadamente a psicologia profunda.

Quando o arcabouço teórico é mais definido, e nele está inserido conscientemente o magistrado, a previsibilidade do julgamento é maior, do que é exemplo claro a Suprema Corte dos Estados Unidos e a divisão filosófica entre conservadores e liberais. Mesmo assim, ambas as linhas filosóficas pecam por incompletude e incoerência, porque ainda trabalham, como exposto no artigo anterior, sob domínio do inconsciente, e porque a simbologia ocidental está fragmentada desde a modernidade, pela separação cartesiana e os seus efeitos prejudiciais à integridade do conhecimento científico no período subsequente, incluída a atual teoria do Direito.

Daí porque é necessária a restauração da cosmovisão Cristã, com sua adequada simbologia, para posicionar os sujeitos corretamente dentro de uma objetividade teórica integral, com unidade psíquica entre consciente e inconsciente, através do uso apropriado dos símbolos na sociedade.

O Estado, ou Igreja, a Ekklesia de Cristo, é um sistema de ideias corretas, adotado por um grupo de pessoas, um pensamento encarnado em pessoas que agem convenientemente, com fundamento na dignidade humana, que encarnam o Logos, sendo expressão viva da Sabedoria. O Cristianismo é também um sistema meritocrático de liderança, baseado em ideias, fundado no Logos, em que têm mais mérito e, portanto, mais autoridade aqueles que melhor encarnam consciente e permanentemente o respectivo sistema de ideias, manifestam o sistema jurídico em comportamento e linguagem.

O juiz Cristo é o que conhece biblicamente, porque O vive, o Logos, conhece o Princípio que dá unidade ao sistema e sustenta a totalidade e a integridade do Direito, mantendo conduta irrepreensível na vida pública e particular, sendo santo porque santo é o Pai, santa é a Lei, santo é o Logos, e por isso seu julgamento é imparcial, porque sua subjetividade é uniplurissubjetiva, ele é, objetivamente, a própria Humanidade, uma Ideia realizada em uma pessoa que compartilha essa Ideia em sua vida privada e profissional, mantendo a unidade social no plano moral, o que implica ser ético, e jurídico, o que significa ser justo.

Essa é a correta teoria, essa a simbologia que será, enfim, alçada à condição de verdade científica, o que é condição para a Paz, para a realização do Reino, quando “o poder de julgar” será entregue ao juiz Cristo (Ap 20, 4), depois que Jesus Cristo for devidamente reconhecido e elevado, em nossa simbologia prática, Religiosa, Política e Jurídica, ao lugar que lhe cabe, à direita de Deus.

Em verdade vos digo que, quando as coisas forem renovadas, e o Filho do Homem se assentar no seu trono de glória, também vós, que me seguistes, vos sentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19, 28).

Domínio do inconsciente

No artigo anterior, “Direito e ordem mental”, foi destacado que os indivíduos dos dias atuais ainda são dominados pelo inconsciente, apesar das conquistas tecnológicas alcançadas, sendo ressaltado que o desenvolvimento da personalidade se dá em direção à consciência, como ocorre no mito do herói, que se liberta da inconsciência.

A inconsciência está tanto nas pessoas como nos grupos, repercutindo no mundo das ideias e dos conceitos, comprometendo a racionalidade do ambiente intelectual humano, inserindo equívocos nas teorias científicas, não percebidos num primeiro momento, o que afeta sobremaneira o ambiente social, e jurídico. Por isso não vivemos em uma sociedade de paz, mas no mundo do consumo irracional, da concorrência, muitas vezes desleal, em que o crime é uma constante.

Para que seja possível a superação desse ambiente de permanente tensão, inclusive no plano internacional, é necessário despender muita energia física e psíquica da forma e na direção corretas, de modo a permitir que alcancemos um estado de maior consciência, de conhecimento da realidade mais profunda, como afirma Erich Neumann: “o estado inconsciente é o estado básico e natural; o estado consciente, o produto de um esforço que consome libido” (Erich Neumann. História da Origem da Consciência. 5 ed. Trad. Margit Martincic. São Paulo: Cultrix, 2014, p. 205).

Uma vez que nossa libido é desperdiçada, consciente e inconscientemente, na realização de desejos egoístas e em razão de instintos que não dominamos, e que, de fato, nos dominam, o estado de consciência mais elevada não é atingido.

Como ressaltado no último artigo, o esforço para se chegar ao conhecimento mais profundo da realidade, à inteligência, inclui a superação da ordem de mundo materialista de Freud, em que o conceito de libido, ou energia psíquica, foi indevidamente limitado a uma conotação sexual. No Código Penal Brasileiro, por exemplo, nos arts. 130, 148, 213, 215, 217-A, dentre outros, o termo “ato libidinoso” recebe o sentido exclusivamente sexual, o que é derivado das teorias de Freud sobre o mundo, com uma visão incompleta sobre o ser humano, sexualmente limitada, visão essa que é, portanto, inconsciente.

Assim, as palavras citadas por Erich Neumann acima, indicando que o estado de consciência depende de “um esforço que consome libido”, podem ser deturpadas em decorrência da leitura falha que Freud fez da humanidade, entendendo os fenômenos de uma perspectiva limitada, e indevida. Por mais que tenha tentado desvendar o inconsciente, a teoria freudiana é inconsciente da realidade humana mais profunda.

Como junguiano, Erich Neumann entende libido como energia psíquica. Segundo Jung, “é melhor compreender o processo psíquico simplesmente como um processo de vida. Desta forma estendemos o conceito restrito de uma energia psíquica para o conceito mais amplo de uma energia de vida, a qual engloba a chamada energia psíquica como componente específico”; afirmando que sugeriu “designar por libido a hipótese da energia de vida, levando em conta a sua utilização psicológica (…) para diferenciá-la de um conceito universal de energia” (Carl Gustav Jung. A energia psíquica. Trad. Maria Luiza Appy. 14 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p. 27).

Jung destaca a importância dos símbolos religiosos para a formação psíquica humana, porque tais símbolos foram produzidos pelo inconsciente para permitir a utilização da energia psíquica no desenvolvimento da consciência. De certa forma, em contraste com o entendimento de Jung, o pensamento de Freud pode ser considerado uma teoria infantil, uma teoria imatura, que não apreende a totalidade humana:

Na experiência direta, o espírito primitivo só nos é dado sob a forma da psique infantil, ainda possível de ser lembrada. As particularidades da mesma são consideradas por Freud, com certa razão, como sexualidade infantil; pois é desta disposição embrionária que mais tarde surgirá o ser sexuado maduro. Freud, porém, faz derivar da disposição embrionária infantil uma série de particularidades mentais, de forma a parecer que a mente também provém de um estágio sexual preliminar, e portanto não passa de um subproduto da sexualidade. Mas para Freud passa desapercebido que a disposição embrionária infantil polivalente não é apenas um estágio preliminar perverso singular de uma sexualidade normal e madura, mas que justamente ela parece ser perversa porque não é apenas um estágio preliminar da sexualidade madura, mas também o é da singularidade mental do indivíduo. Da disposição embrionária infantil surgirá posteriormente o ser humano inteiro, razão pela qual a disposição embrionária não é pura sexualidade, da mesma maneira que a psique do ser humano adulto não o é” (Idem, pp. 64-65).

A teoria de Freud é entendida, assim, como limitada, parcialmente correta, mas incapaz de ser universalizada, hipótese em que “só poderá ser uma explicação fictícia”, quando aplicada, por exemplo, à interpretação da obra de arte ou a uma experiência religiosa.

Jung destaca que “a formação da religião ou do símbolo tem para o espírito primitivo um interesse tão grande quanto a satisfação do instinto”, de modo que “o caminho da continuidade do desenvolvimento é assim dado logicamente” (Idem, p. 72). O desenvolvimento da consciência ocorre, portanto, por meio de símbolos religiosos, que “possibilitaram ao ser humano construir uma posição contraposta à natureza instintiva primitiva, uma atitude cultural diante da mera instintividade. Foi esta desde sempre a função de todas as religiões” (Idem, p. 73).

Esse processo de conscientização é iniciado por um indivíduo, um ser singular com consciência de sua singularidade, dando início ao progresso cultural, que é uma ampliação da consciência.

No mundo ocidental, esse ser singular, que moldou nossa cultura, inquestionavelmente, é Jesus Cristo, que tomou conhecimento de sua unidade com Deus, cumprindo as profecias ou ideias religiosas necessárias para o progresso da humanidade. Vale dizer que o Cristianismo ainda não aconteceu na sociedade humana, apenas tivemos vislumbres dessa realidade, ofuscada pelos dogmas que impediram o conhecimento da Verdade Cristã em sua plenitude religiosa, política e científica.

Nesse sentido, segundo a simbologia da religião Cristã primitiva, antes do pleno desenvolvimento da cultura iniciada por Jesus Cristo, antes que a civilização por ele inaugurada aflore na era messiânica, era necessário que o símbolo oposto se desenvolvesse, pela manifestação do anticristo e pela ação do falso profeta.

O profeta significa aquele que serve de meio para a revelação de Deus, a Verdade, sendo que na simbologia atual a verdade está associada à Ciência, que reclama para si a autoridade plena sobre o conhecimento racional. Cristo significa “Ungido” pelo Espírito, que age por ação do Espírito, o que é o oposto do que faz a ciência reducionista dos dias atuais. Desta feita, o falso profeta que permite a manifestação do anticristo é a ciência materialista que prevalece no mundo contemporâneo, fazendo com que a humanidade permaneça sob o domínio do inconsciente, porque impede a consciência sobre a totalidade da experiência da realidade e o conhecimento sobre o ser humano inteiro.

Pois hão de surgir falsos Cristos e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios de modo a enganar, se possível, até mesmo os eleitos” (Mt 24, 24).

Hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, os quais apresentarão sinais e prodígios para enganar, se possível, os eleitos” (Mc 13, 22).

Vivemos sob o domínio de falsos Messias e falsos profetas, falsos cientistas, como Freud, que realizam prodígios e sinais enganosos, do que é exemplo a tecnologia que encanta as pessoas desviando-as da Vida, mas que não encontraram a Verdade e desviaram a humanidade do seus verdadeiros conhecimento e desenvolvimento.

A Verdade está, sim, na Ciência, desde que vinculada a Cristo, ao Logos encarnado, porque Cristianismo é Ciência, e a Vida segundo a Razão, a Lógica, sendo Jesus Cristo o maior cientista de todos os tempos, o Homem pleno.

Erich Neumann, ao tratar do desenvolvimento da personalidade, fala da fase adolescente, passível de ser aplicada à coletividade de nosso tempo, aduzindo que a “perversão sexual não passa de expressão mórbida da dominância dessa fase arquetípica”, vinculada à “bissexualidade original da Grande Mãe urobórica” (Obra citada, p. 223). E continua:

Do mesmo nível desses adolescentes narcisistas e passivos são os homens identificados com a Grande Mãe, que realizam essa identificação, quer como castrados, que sacrificam o falo, ou, como ‘travestis’, usando roupas femininas.

Na psicologia, esses níveis intermediários desempenham importante papel nas neuroses, nas quais surgem, de preferência, como estado de fusão do ego masculino com a Anima e, na mulher, com o Animus, o que representa uma fixação que impede a completa diferenciação da personalidade.

Também nas neuroses, como nas perversões e na homossexualidade – todas pertencentes ao mesmo nível –, o desenvolvimento do ego e da consciência é incompleto e o domínio do inconsciente continua, isto é, em nenhum desses casos foi atingido o estágio da luta heroica” (Idem, p. 223).

Em seguida Neumann arremata dizendo que tal situação psicológica do indivíduo deve “ser considerada um desenvolvimento defeituoso”.

Vivemos, assim, coletivamente, sob o domínio do inconsciente, porque as pessoas com desenvolvimento defeituoso e incompleto são oficialmente consideradas normais, o que significa que a norma perdeu o sentido, a consciência coletiva se desviou do caminho de seu desenvolvimento, fixando-se em símbolos de perversão, de uma fase imatura da vida, do que a questão sexual é apenas um aspecto. Se Jung estiver correto, esse fato levará o inconsciente coletivo a compensar essa situação, sem o controle da consciência, com os riscos decorrentes, potencialmente catastróficos. Daí a importância de manter a consciência alerta, vigilante.

Olhai, vigiai, pois não sabeis quando será o momento. Será como um homem que partiu de viagem; deixou sua casa, deu autoridade a seus servos, distribuiu a cada um sua responsabilidade e ao porteiro ordenou que vigiasse. Vigia, portanto, porque não sabeis quando o Senhor da casa voltará: à tarde, à meia-noite, ao canto do galo, ou de manhã, para que, vindo de repente não vos encontre dormindo” (Mr 13, 33-36).

Direito e ordem mental

Direito é ordem mental, organização das ideias que atuam sobre o mundo, movimentando pensamentos, dentro de nós e na comunidade a que pertencemos, pensamentos os quais, por sua vez, agem sobre as pessoas que cumprem (ou descumprem) as ordens ou mandamentos normativos ao atuarem no mundo social segundo o (ou contrariamente ao) sistema jurídico.

A expressão ordem mental remete ao âmbito científico, existindo na Ciência dois ramos fundamentais, sem os quais o conhecimento perde sustentação racional, porque se referem aos aspectos mais essenciais da natureza, ramos que dizem respeito às raízes da realidade, exterior e interior. A Física, que trata das bases materiais do mundo, e a Psicologia, que condiciona a apreensão inteligível de todos os fenômenos, tanto os exteriores aos corpos dos indivíduos como na parte mais interna ou subjetiva, são disciplinas que moldam as categorias pelas quais compreendemos o universo.

A ordem mental do mundo, portanto o Direito, é diretamente dependente tanto da Física como da Psicologia, ainda que a temporalidade dessa influência possa ser postergada. Nesse sentido, o sucesso das ideias heliocêntricas de Copérnico e Galileu, reforçadas pela mecânica de Newton, todos cientistas que atuaram no ramo da Física, teve impacto no poder jurídico religioso, estimulando um modo formal e racional de pensamento, no tempo conhecido como Iluminismo, que levou às revoluções dos séculos XVIII e XIX e que ainda exerce influência no Direito.

Contudo, tratando de Física e de Psicologia, o século XX foi um tempo de profundas transformações nas bases da ordem de mundo, porque a relatividade e a orgânica quântica, de um lado, abalaram os fundamentos da física newtoniana; e o aprofundamento do conhecimento da psicologia do inconsciente, de outro lado, demonstrou que a vida humana é regida por forças até então ocultas que escapavam ao controle de uma racionalidade superficial.

Na Física o assombro sobre a realidade permanece, situação cristalizada na frase do ganhador do Nobel, Richard Feynman, ao afirmar “que ninguém entende física quântica”. Na Psicologia, por sua vez, as propostas materialistas e antirreligiosas de Freud exercem profunda influência no mundo intelectual ocidental, e no Direito, numa sociedade que, paradoxalmente, intitula-se majoritariamente como Cristã, por mais que as ideias freudianas tenham se mostrado inúteis para a resolução dos problemas existenciais humanos, uma vez que se a psicanálise não fosse um completo fracasso os problemas psíquicos da humanidade já teriam sido por ela resolvidos.

Assim, já passou o tempo necessário para que a visão ontológica de Jung, que se opôs a Freud, sobre a psique, defendendo Jung uma religiosidade natural do ser humano e a preponderância dos arquétipos do inconsciente coletivo no mundo psíquico, diante do fracasso da proposta freudiana, já passou o tempo necessário para que as ideias junguianas sejam devidamente valorizadas e postas em prática, e no Direito.

Erich Neumann, discípulo de Jung, escreveu a obra “História da Origem da Consciência”, cujo Prefácio é do próprio Jung, no qual este destacou as vantagens do trabalho da segunda geração dos estudiosos da psicologia analítica, ou junguiana, afirmando que Neumann “foi bem-sucedido na construção de uma história ímpar da evolução da consciência (…). Chega, assim, a conclusões e percepções que estão entre as mais importantes já alcançadas nesse domínio”, e arrematando:

Nenhum sistema pode prescindir de uma hipótese geral que dependa, por seu turno, do temperamento e de pressupostos subjetivos do autor e, simultaneamente, de dados objetivos. Em psicologia, esse fator é a da maior importância, pois a ‘equação pessoal’ dá colorido à maneira de ver. A verdade final, se existe tal coisa, exige o concerto de muitas vozes” (Prefácio de Jung. Erich Neumann. História da Origem da Consciência. 5 ed. Trad. Margit Martincic. São Paulo: Cultrix, 2014, pp. 11-12).

A “equação pessoal” é a ordem mental incorporada pela pessoa, é o olho ou filtro pelo qual os fenômenos entram para a consciência, interferindo na forma pela qual a realidade é apreendida e compreendida.

A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado; mas se o teu olho estiver doente, todo o teu corpo ficará escuro. Pois se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas!” (Mt 6, 22-23).

A cosmovisão, ou ordem mental mais ampla, a hipótese geral, destarte, condiciona o modo como nos portamos perante o mundo, de modo que nosso comportamento é tanto mais luminoso quanto mais luz possuirmos em nossa “equação pessoal”, em nosso olho.

É indispensável, outrossim, a revisão da simbologia psíquica que ampara o conhecimento intelectual do mundo, e do Direito, para rejeição dos equívocos da “equação pessoal” freudiana com a incorporação de uma psicologia compatível com a visão de mundo ocidental, estabelecida na tradição judaico-cristã, a partir das propostas de Jung, ainda que este também tenha cometido erros, porque, de todo modo, a compreensão junguiana da mitologia e do significado do herói é mais coerente com as ideias de uma civilização Cristã, como a nossa.

Como sustentado por Erich Neumann, o mito do herói deve ser compreendido no sentido da libertação do mundo inconsciente e sua simbologia, urgindo o devido esclarecimento sobre esses pontos, “tanto mais necessário por causa dos enganos da psicanálise, cuja interpretação errônea do chamado complexo de Édipo e da mitologia totêmica derivada deste causou a maior confusão” (Obra citada, p. 111).

Neumann reconheceu que Freud fez descobertas importantes sobre o fenômeno do totemismo e do desenvolvimento do mundo espiritual, “mas distorceu e entendeu erroneamente algumas (descobertas) ainda mais importantes” (Idem, p. 114).

Ainda sobre o complexo de Édipo, afirmou Neumann:

A teoria freudiana sobre o assassinato do pai, que Rank tentou aplicar, reúne como unidade sistemática as seguintes características: o romance familiar, sempre relacionado com o filho, culmina no desejo incestuoso deste em relação à mãe, ao qual o pai se opõe de maneira hostil; o herói é o rapaz que mata o pai e desposa a mãe. O mito do herói é uma plasmação da fantasia pela qual a imagem desse desejo se impõe de modo direto ou indireto. Essa teoria é ‘sustentada’ – mas, na realidade, ‘entulhada’ – pela hipótese de Freud, inconsequente e antropologicamente inviável, de um pai gorila. Um poderoso patriarca-macaco rouba as mulheres dos filhos e é abatido pelos irmãos unidos. A superação do pai é o aspecto heroico. Freud toma isso ao pé da letra e deriva daí o totemismo e o surgimento de características importantes da cultura e da religião. Aqui, como noutras partes, devido ao seu preconceito personalista, Freud interpretou fatores decisivos de maneira errônea” (Idem, p. 122).

Se Freud distorceu e entendeu erroneamente as descobertas mais importantes sobre o totemismo e o mundo espiritual, se ele interpretou fatores decisivos de maneira errônea, sendo sua hipótese inconsequente e antropologicamente inviável, a estrutura de sua psicologia está equivocada, exigindo seja descartada a ordem mental de mundo e a “equação pessoal” freudiana sobre a humanidade.

A Psicologia e sua simbologia exercem influência preponderante no mundo jurídico, porque determinam a ordem mental coletiva, que constrange o comportamento das pessoas, pelas razões que fundamentam as ações, conformes ou contrárias àquela ordem, amparando argumentos morais que se tornam científicos e, em consequência, jurídicos, formando a razão coletiva de ação, da qual decorre a censura moral e social sobre as atitudes individuais.

Portanto, mais importante do que as ideias individuais são as coletivas, relativas aos simbolismos da alma humana, em que dominam arquétipos e imagens primordiais, expressadas na mitologia e nas grandes religiões.

A realidade de qualquer cultura e civilização, inclusive a nossa, é composta pela realização dessas imagens da alma. Toda arte, religião, ciência e tecnologia, tudo o que já foi feito, falado ou concebido, tem a sua origem nesse centro criador. O poder autogerativo da alma é o segredo verdadeiro e definitivo do homem, que faz dele a imagem semelhante à Divindade Criadora e o distingue das outras criaturas vivas” (Idem, p. 160).

Essa a verdadeira ordem mental do mundo, em que as questões religiosas recebem a atenção que merecem, pois o comportamento religioso do homem é “a nascente de toda cultura” (Idem, p. 161), decorrendo da tradição judaico-cristã o entendimento segundo o qual a humanidade foi criada à imagem e semelhança de Deus, do Criador.

A ênfase deve ser dada, portanto, à psique inconsciente de grupo, porque “os indivíduos dos nossos dias, apesar de todas as suas realizações conscientes, ainda estão contidos na estrutura do seu grupo e no inconsciente que o domina” (Idem, p. 198), porque é do inconsciente coletivo, a camada mais profunda da psique, que flui a energia original da qual surge a consciência.

O comportamento dos indivíduos é pautado, assim, pelo grupo a que pertencem, porque o “relacionamento com o mundo exterior é, em larga medida, realizado, não diretamente pelo indivíduo, mas pela entidade imaginária ‘grupo’, cuja encarnação é o líder ou animal dirigente, e cuja consciência representa a de todas as partes do grupo”, sendo destacado quanto a essa passagem, no rodapé, que o “líder, o Estado, etc. representam a sua consciência e o arrastam às cegas para movimentos de massa, como as guerras” (Idem, p. 200).

Daí porque a ordem mental, o Direito, deve ser pautado por Cristo, na simbologia original do Messias, constante das Escrituras, entendido como líder político, bom pastor.

Em verdade, em verdade, vos digo: eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes; mas as ovelhas não os ouviram. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. O ladrão vem só para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá sua vida pelas suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo aproximar-se, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa, porque ele é mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem, como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo 10, 7-15).

Por tudo isso, nossa civilização somente alcançará a plenitude quando Cristo for reconhecido herói da humanidade, e quando a ordem mental do mundo, o Direito e a Política se sujeitarem às suas ideias, que são o Logos, a Consciência encarnada, porque o fundamento do Estado já é a dignidade humana, restando ser reconhecido que ele Cristo ainda é a consciência humana, o líder cujo exemplo heroico deve ser enaltecido, seguido e multiplicado.

Direito Comum da Humanidade

Encerrada a leitura do Volume I, Tomo I, de “História do Direito Comum da Humanidade: Ius Commune Humanitatis ou Lex Mundi?”, Dissertação de doutoramento em Ciências Histórico-Jurídicas apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa por Eduardo Vera-Cruz Pinto, Professor Catedrático da mencionada instituição, merecem destaque abordagens fundamentais da obra, que impressiona inicialmente já pela extensa bibliografia pesquisada e devidamente anotada, sendo mais de cento e trinta páginas, além do vasto número de obras indicadas nas notas de rodapé, não constantes da bibliografia.

Vera-Cruz censura a abordagem jurídica da atualidade, avaliação bem exposta na obra “O Futuro da Justiça”, na qual faz críticas aos sistemas de ensino, judicial e político, dizendo ser necessária uma radicalidade filosófico-jurídica, reconstruindo a realidade intelectual a partir da desconstrução da existente, por meio de uma grande ruptura daqueles sistemas para a realização plena da Justiça, destacando a necessidade de restaurar a auctoritas dos jurisprudentes, dentro de uma determinada leitura do Estado Constitucional, para que este seja um Estado de Direito. A autoridade é fundamental na comunidade humana, como já exposto no artigo “Autoridade” (https://holonomia.com/2018/10/16/autoridade/), urgindo seja resgatada em sua concepção correta e original.

O retorno às origens é indispensável, e como se pode extrair do artigo “Estado, Cristo e culto” (https://holonomia.com/2018/07/30/estado-cristo-e-culto/) a noção moderna de Estado surge após a chamada Paz de Westfália (1648), havendo uma tendência em grande parte das doutrinas jurídica e política no sentido de negar ou ignorar, por influência do positivismo, os milênios de evolução do conhecimento que antecederam a modernidade, pois os fundamentos antigos da vida social, política e jurídica eram religiosos e metafísicos, pelo que seria exigida uma fundamentação na ciência positiva para se alcançar o último estágio mental da humanidade.

De outro lado, como tenho sustentado, o último estágio mental da humanidade, com adoção da verdadeira Ciência, foi atingido por Jesus Cristo em sua metodologia unitária e monoteísta de mundo, científica, metafísica e religiosa, pela qual conheceu a Verdade, integrando plenamente em sua vida a conduta ajustada à ordem cósmica, com o Logos, a Razão que fundamenta a realidade em todos os seus níveis, entendimento que pode ser vislumbrado no plano teórico-científico a partir da física moderna, na leitura dada por David Bohm, e da psicologia coletiva, consciente e inconsciente, sistematizada pelos princípios estudados por Carl Jung.

Contudo, ainda prevalece no meio universitário uma ojeriza à visão científica de mundo que seja compatível com ideias espirituais e religiosas, e com os sistemas filosóficos respectivos, no que se inclui o idealismo, especialmente o de Hegel, o que também explica a rejeição a Jung e a Bohm, sendo majoritária a ideologia materialista fundada em autores como Marx e Freud, e em um neodarwinismo eminentemente dogmático, e materialisticamente religioso.

Grandes autores e teorias do passado, e mais recentes, são rejeitados de plano, pois se considera que o verdadeiro conhecimento científico deve ser iniciado pelas leituras de mundo de Marx e Freud, o último amparado no niilismo existencialista de Nietzsche, sendo mister a rejeição dessas ideologias, para redirecionar o conhecimento à Verdade e à Ciência da totalidade do mundo, com o sentido espiritual nele existente.

Nessa mesma linha, Vera-Cruz desenvolve a ideia de Ius Commune Humanitatis como “conceito jurídico com raízes no Ius Romanum, cuja tematização, no plano metodológico, tem sua sedes materiae na História do Direito Romano e, no plano antropológico, na visão cristã do Homem” (Eduardo Vera-Cruz Pinto. História do Direito Comum da Humanidade: Ius Commune Humanitatis ou Lex Mundi? Vol. I. Tomo I. Lisboa: Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2003, pp. 170-171).

Divergindo parcialmente de Vera-Cruz, entendo que também no plano metodológico se inclui a visão cristã do Homem, o que decorre da leitura teológica segundo a qual a trindade não é um conceito cristão, e considerando que o Reino de Deus é deste mundo e será realizado na História da Humanidade, ao contrário do entendimento dominante no Cristianismo pelo qual o Reino não é deste mundo.

Ainda assim, porque Vera-Cruz concede a devida relevância histórica e teórica às ideias de Cristo, há compatibilidade filosófica e pragmática entre a minha e a sua abordagem do Direito, especialmente quando ele afirma:

Como conjunto de normas jurídicas materiais concretas, como um Direito de direitos, o Ius Commune Humanitatis preenche, mais que uma ideia de Direito como ideal de Justiça, uma instância de regulação objectiva ao serviço da dignidade humana, não de mera técnica de concertação de interesses e pacificação de conflitos ou descrição lógico-conceitual da realidade humana, mas meio de responsabilizar, fazendo recuar o inhumanum-iniustum” (Idem, pp. 171-172).

Trata-se de restaurar a cosmovisão de mundo que contém verdades morais absolutas, transcendendo o relativismo moral materialista em direção à natureza religiosa, transpessoal e mítica do humano, com seu fundo psíquico comum, unidade psíquica a ser trazida da inconsciência instintiva para a consciência da dignidade humana, esta decorrente do Monoteísmo e da visão espiritual de Cristo, maior herói e líder da Humanidade, o Messias judeu.

Enquanto a moderna historiografia, com o seu viés personalista, se inclina a representar os eventos coletivos da vida das nações e da humanidade como dependentes dos impulsos personalistas de monarcas e líderes, o mito reflete a realidade transpessoal através dos eventos singulares da vida do herói” (Erich Neumann. História da Origem da Consciência. 5 ed. Trad. Margit Martincic. São Paulo: Cultrix, 2014, p. 152).

É preciso, destarte, reinterpretar Cristo, deixando de vê-lo como membro de uma trindade para entendê-lo não como Deus e sim como o mais Humano dos humanos, e assim plena imagem e semelhança de Deus, significando o mito, enquanto realidade psíquica arquetípica, do herói que realiza em si a Humanidade completa, no tempo e fora do tempo, indicando o Caminho que deve ser seguido por todos os que pretendem se tornar plenamente humanos, portanto imagem e semelhança de Deus, encarnação do Logos, tanto no mundo psíquico interior como na realidade objetiva.

Política e juridicamente, Cristo ou Messias é o modelo de líder a ser imitado pelos governantes, realizando a Razão da Humanidade, o Logos, no plano público oficial, no Estado, na nação, na comunidade internacional, como serviço coletivo da dignidade humana, que independe de nacionalidade, segundo sua (da dignidade humana) concepção autêntica e cristã.

Daí porque o Cristianismo é a Ciência da transformação da realidade objetiva, adequando os comportamentos da vida material, nos níveis individual e coletivo, portanto normativo, à Ordem mais profunda do universo, ao Cosmos, ao Logos, a Teoria de Tudo que é não só Física como também Biológica, Psíquica e Jurídica.

Por isso está com razão Vera-Cruz ao dizer ser necessária a responsabilização de cada um, pelo Direito, para que todos sejam responsáveis pela dignidade humana, sejam heróis em suas batalhas individuais para alcançar a Humanidade, apontando para

uma responsabilidade mais intensa, não só jurídico-política mas também moral (ligação dever-moral, obrigação cívica e responsabilidade civil) (…), é preciso investir na consciência da ‘ilicitude’ como base da responsabilidade. (…)

A construção de um Ius Commune Humanitatis só pode partir de uma perspectiva não materialista da vida e do Homem, que dê primazia ao espiritual” (Obra citada, p. 173).

O Direito Comum da Humanidade exige, destarte, ontologicamente, um conceito de humanidade, um conceito de consciência, que seja compatível com o primeiro, e um sistema jurídico no qual a perspectiva da vida e do Homem seja fundada no Espírito, pelo que o Direito Comum da Humanidade é a transposição do Cristianismo de mera religião espiritual, de salvação individual, para o seu devido lugar como Ciência, também no aspecto religioso da vida humana, incluindo as realidades política e jurídica da vida social, porque o Cristo é o Messias, e este é essencialmente um conceito político-jurídico dentro da visão Monoteísta (e Espiritual) da realidade, que inclui a natureza e o governo das nações.

É preciso passar do não-sistema materialista de mundo para o único sistema de conhecimento possível, fundado na unidade de um Espírito e um Corpo, governado por Cristo, em nome Daquele que é Santo e Perfeito, Clemente e Misericordioso, o Autor do Direito e da Justiça.

Adorai a Iahweh no seu santo esplendor, terra inteira, tremei em sua frente! Dizei entre as nações: ‘Iahweh é Rei! O mundo está firme, jamais tremerá. Ele governa os povos com retidão’. Que o céu se alegre! Que a terra exulte! Estronde o mar, e o que ele contém! Que o campo festeje, e o que nele existe! As árvores da selva gritem de alegria, diante de Iahweh, pois ele vem, pois ele vem para julgar a terra: ele vai julgar o mundo com justiça, e as nações com sua verdade” (Sl 96, 9-13).

Natal e ano novo: começo e recomeço

O período de fim de ano representa uma mistura de sentimentos, positivos e negativos, pelo conflito inerente à natureza do Natal, sua origem enquanto comemoração pagã, de um lado, e seu significado dentro do Cristianismo, de outro.

Para entender um pouco sobre a origem do Natal e os problemas de sua incorporação ao Cristianismo, indico o vídeo “O Cristão pode comemorar o Natal?” (https://www.youtube.com/watch?v=xkMh9eqGo3c) do canal Dois Dedos de Teologia; sendo, ainda, interessante a leitura do livro “Cristãos, Judeus e Pagãos”, de Roque Frangiotti, no qual o tema do Natal também é abordado dentro do contexto do surgimento do Cristianismo.

O ponto positivo do Natal é trazer à memória pública o evento mais importante da História, depois do início da própria História, porque é o recomeço que nos liga ao começo de tudo, remetendo à origem da Humanidade e ao significado de nossa presença nesse planeta.

Natal é Teologia, é um tema ligado ao Criador e sua relação com a Humanidade, referindo-se ao conceito mais profundo de Humanidade. Não é Papai Noel, não é a melhor época para o comércio, ainda que o seja, não é a distribuição de presentes, ainda que o seja.

Natal é a Graça de Deus, o Presente de Deus para nós, nossa nova oportunidade, a despeito de não a merecermos, porque a primeira foi perdida com Adão, no começo que se desviou, no humano que caiu no erro, na tentação, assumindo uma postura egoísta, tentando exercer uma autonomia impossível, de sair do âmbito da Ordem Cósmica, a autonomia de ser superior à Natureza, de desobedecer a Deus, contrariando a Razão que Ele nos deu, o Logos.

Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Pois até a Lei havia pecado no mundo; o pecado, porém, não é levado em conta quando não existe lei. Todavia, a morte imperou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram de modo semelhante à transgressão de Adão, que é figura daquele que devia vir… Entretanto, não acontece com o dom o mesmo que com a falta. Se pela falta de um só todos morreram, com quanto maior profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se derramaram sobre todos” (Rm 5, 12-15).

O Natal, contudo, só é Natal em conexão com a Cruz, pois é esta que dá àquele momento do nascimento carnal, em unidade simbólica, com efeitos retroativos e atemporais, toda a glória do renascimento humano, na ressurreição, ainda que Jesus já em sua vida tenha manifestado essa mesma glória, cumprindo a vontade do Pai.

Tivesse Jesus caído em tentação, no deserto ou no monte das Oliveiras, ou no Getsêmani, não haveria Cruz ou Natal. E da ideia da tentação surge um grave problema teológico, porque Deus não pode ser tentado: “Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: ‘É Deus que me está tentando’, pois Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta’” (Ti 1, 13).

Se Jesus foi tentado, como narrado pelas Escrituras, então, ele não é Deus, Que não pode ser tentado, pelo que o Natal não representa o nascimento de Deus, e sim da Humanidade, que em Adão era mera figura, que foi realizada, tornada real, enfim, em Cristo. Se Jesus não pudesse errar de fato, caindo em tentação, seu mérito não seria o mesmo, pelo que a possibilidade de erro era real e concreta; contudo, Deus não está sujeito sequer à possibilidade de errar, ao contrário de Jesus, o que reforça que conceitualmente a trindade é teologicamente equivocada. Por isso o Natal significa o nascimento do Humano, em sua perfeição original, ideal, que enfim foi concretizada, na Cruz.

Existe, pois, simultaneamente, uma continuidade, que é o recomeço, e uma ruptura, o começo de novo, da Humanidade, pelo Natal, é o nascimento do alto, do Espírito: “Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito” (Jo 3, 5-6).

O Natal é o novo nascimento, depois que o vivo nasce da Vida, o mesmo vivo nasce na Vida, quando o Espírito vence a carne, quando a tentação é superada pela obediência a Deus, quando o indivíduo humano encarna em si a Humanidade de todos, respeitando a Ordem, encarnando o Logos.

Nesse período de renovação, quando um ciclo natural se completa, no solstício, e nasce um ano novo, que, de fato, é a continuidade do velho, mas com nova cara, devemos entender que o Natal é permanente, o Natal de Cristo ocorre todos os dias, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia, o tempo todo, no ciclo sem fim, que é a Vida eterna, quando aceitamos a Cruz, que, contraditoriamente, nos coloca diante do Amor de Deus, que é Infinito, porque o Natal só tem valor uma vez que a tentação foi superada, a Cruz foi aceita, permitindo que a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, fossem derramados sobre todos, tornando-nos Humanidade, tendo a Ressurreição manifestado o verdadeiro nascimento de Cristo, nascimento perpétuo, na anunciação, no natalício em si, quando vencida a tentação e na ressurreição, símbolo definitivo do Natal, o fruto da Vida.

De modo análogo também vós, meus irmãos, pelo corpo de Cristo fostes mortos para a Lei, para pertencerdes a outro, àquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de produzirmos frutos para Deus. Quando estávamos na carne, as paixões pecaminosas que através da Lei operavam em nossos membros produziram frutos de morte” (Rm 7, 4-5).

O verdadeiro Natal é a Ressurreição, é a aceitação do Espírito que supera a morte, “pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados” (1Cor 15, 16-17). Natal não é nascimento do perecível, e sim do imperecível; é a fé segundo a qual a Vida está no corpo e além do corpo mortal, do que passou pelo primeiro nascimento e pelo renascimento, é a fé na Vida que nasce do Espírito, diariamente, quando nos expomos à morte, pela Vida.

E nós mesmos, por que a todo momento nos expomos ao perigo? Diariamente estou exposto à morte, tão certo, irmãos, quanto vós sois a minha glória em Jesus Cristo nosso Senhor. De que me teria adiantado lutar contra os animais em Éfeso, se eu tivesse apenas interesses humanos? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (1Cor 15, 30-31).

E aqui reside um dos problemas das festas de fim de ano, quando comemos e bebemos além da conta, sem moderação, sem medida. Podemos, sim, celebrar a vida, a Graça de Deus em nós, em comunhão com os que amamos, o que pode ser feito também nos feriados de fim de ano, quando as famílias se reúnem para celebrar o Natal e o Ano Novo, mas sem que nos esqueçamos de vigiar, orar e dar o Bom exemplo, que deve ser a conduta permanente do Cristão, para não cairmos em pecado, vivendo apenas o mundo, em detrimento do Espírito, e para não sermos surpreendidos por um julgamento iminente, humano ou divino.

Cuidado para que vossos corações não fiquem pesados pela devassidão, pela embriaguez, pelas preocupações da vida, e não se abata repentinamente sobre vós aquele Dia, como um laço; pois ele sobrevirá a todos os habitantes da face de toda a terra. Ficai acordados, portanto, orando em todo momento, para terdes a força de escapar de tudo o que deve acontecer e de ficar de pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 34-36).

Que o fim de ano, o natal, o Natal, seja, enfim, um recomeço, o começo da Humanidade, para que estejamos acordados, sóbrios, ainda que alegres, em Paz, por meio de um compromisso, uma aliança com o melhor de nós, da Humanidade, dos filhos de Deus, desde já, agora, e para sempre, Amém!

Direito e entropia

Entropia é um conceito físico ligado ao de ordem de um dado sistema, e também ao limite de energia que pode ser convertido em trabalho. A segunda lei da termodinâmica estabelece que a entropia de um sistema isolado sempre aumenta, indicando o limite de energia disponível para realizar trabalho, conceito que engloba noções de força e deslocamento.

No entanto, é bom esclarecer que não existem sistemas isolados no mundo real, e o próprio Universo está sujeito a flutuações do vácuo quântico, havendo sérias dúvidas se o Universo como um todo é um sistema físico isolado, tornando a segunda lei da termodinâmica um tanto quanto artificial, parcialmente válida, mas com sérias limitações em níveis mais complexos do mundo e do conhecimento.

Ligada à entropia está a entalpia, que significa a máxima energia de um sistema termodinâmico passível de alteração por meio de reações químicas, indicando a energia atrelada ao sistema e à sua vizinhança.

Fazendo uma construção intelectual, é possível conectar os termos entropia com desordem e entalpia com ordem, de modo que criemos ideias como a de uma função entrópica, significando a capacidade de aumento da desordem, conforme a segunda lei da termodinâmica, e a de função entálpica, cujo sentido é a capacidade de aproveitamento útil da energia de um sistema. Temos assim dois polos conceituais, um indicando incremento da desordem e outro associado à construção da ordem.

Daí se conclui que simbolicamente o Direito tem uma associação ideológica com os conceitos físicos de entropia e entalpia, e das citadas funções entrópicas e entálpicas, porque também trata com noções de ordem e desordem.

Podemos falar, igualmente, em agentes entálpicos e agentes entrópicos, os primeiros aumentando a ordem do sistema jurídico e social e os últimos promovendo a desordem pública. Na Natureza, e na Vida, os dois agentes atuam, havendo uma Ordem mais ampla que transcende ordens e desordens locais, sendo cabível associar aquela Ordem ao conceito de Vida, a qual se mantém, apesar da morte, ou desordem, ocorrida em organismos individuais.

Existem, portanto, agentes de vida e de morte que atuam nos indivíduos, tidos como sistemas, que integram sistemas mais amplos; também sendo possível inferir que há agentes de Vida e de Morte, trabalhando contrariamente ou a favor do sentido da Ordem, da Vida, o sentido que parte da matéria “inanimada” em direção à consciência, a consciência da Ordem, da Lei, o que permitirá, ou não, o exercício de função entálpica ou entrópica pelo indivíduo, em relação a si mesmo e ao meio a que pertence.

A ideia de ordem está presente na Natureza, na ordem atômica, na ordem molecular orgânica, incluindo organismos dentro de organismos, como ocorre com nós humanos, que temos em nosso interior uma quantidade maior de bactérias do que de células propriamente humanas, e nossas vidas dependem desses micro-organismos, de sua ordem dentro de nós.

Há, pois, ordem interna e externa, que se refere àquela existente dentro de um corpo, vivo ou não, e nos seus arredores. Pode-se dizer que há uma ordem planetária, que inclui, dentre outras, questões políticas, econômicas e ambientais; ordem cósmica, associada à cosmologia. David Bohm, por sua vez, desenvolveu os conceitos de ordem implicada e ordem manifesta, ideia esboçada no artigo “A Ordem Implicada” (https://holonomia.com/2017/05/22/a-ordem-implicada/). No Direito está a ordem jurídica, ordem do relacionamento do indivíduo humano com sua espécie, e que por isso se vincula à citada Ordem da Vida.

O conceito de Ordem da Vida remete à Filosofia Primeira ou Teologia, remete a Deus, enquanto Logos, ou Ordem do Princípio que se mantém, sendo transcendente à aparente entropia, à morte aparente. É a Ordem que permanece.

Daí porque o Direito tem origem na Religião, na Teologia, que trata da Ordem eterna, possuindo, assim, função entálpica, de manutenção ou construção da Ordem, de desenvolvimento da Ordem da Vida, pressupondo que haja uma Ordem. De outro lado, mesmo para aqueles que entendem não existir Ordem, a função entálpica do Direito igualmente se faz presente e seria, no mínimo, para reduzir a desordem.

A função entálpica do Direito tem duplo aspecto, ainda que sua natureza seja essencialmente unitária, possuindo uma perspectiva corpuscular, material ou imanente e outra, a ela associada, ondulatória, espiritual e simbólica ou transcendente, fazendo incidir localmente – ao estabelecer os corretos comportamentos a serem adotados pelos indivíduos e ao prever e impor indenizações, prisões, penas, restituições, obrigações de fazer ou não fazer – a ordem maior, não local (mas também local) ou transcendente, que é o Logos ou Sabedoria coletiva, materializada na Constituição, na Lei, como concretude temporal da razão uniplurissubjetiva, da vontade geral ou universal.

O homem, destarte, tem a opção de ser agente entálpico ou entrópico, possui liberdade para exercer uma função entálpica ou entrópica, promover a vida ou causar morte, construir ou destruir, e adotar ambos os posicionamentos.

É importante reconhecer que a morte integra o processo vital, de modo que a Ordem da Vida inclui a morte de indivíduos, e da destruição faz surgir uma nova realidade.

Em verdade, em verdade, vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto. Quem ama sua vida a perde e quem odeia a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna” (Jo 12, 24-25).

Pode-se dizer que até a chegada da humanidade no Universo a liberdade na Ordem da Vida era restrita, e com no homem essa a liberdade se tornou plena, para matar, destruir a maior parte da vida na Terra, ou salvar, dando-se, perder sua vida neste mundo, em favor daquela Ordem. Nesse sentido, um Cristo ou Messias é um agente entálpico, que atua em favor da Vida. Jesus Cristo, outrossim, exerceu perfeitamente a função entálpica, promovendo plenamente a Ordem, o Cosmos, em sua vida, e assim realizou a própria Vida.

Deus, ou Logos, atua no Universo desde o Princípio, e está presente no homem, na medida em que este é templo de Seu Espírito, podendo encarnar a Ordem, sendo Vida, como Jesus Cristo. Em Deus, no Logos, há equilíbrio entre ordem e desordem, funcionando esta como um instrumento da Ordem, tendo a espécie humana a habilidade para seguir o Logos, que determinou e determina a evolução dos seres vivos até nós e além, ou para Dele se afastar, negando o Caminho evolutivo, podendo os homens adotarem uma rota de involução, bestializando-se, comportando-se como animais desprovidos da sensibilidade do Espírito, contrariando o Logos. Por essa razão é função do Direito regular o comportamento humano para promoção da Vida, em seu sentido evolutivo rumo à consciência da Ordem.

Para o desenvolvimento da Ordem é preciso trabalho, que a energia seja exercida, individual e coletivamente, em uma atividade que promova a Vida. Deus faz sua parte, mas cabe também a nós fazermos a nossa, sendo agentes entálpicos, agentes da evolução da humanidade, da espécie, seguindo o exemplo, o Método, Cristo. Nesse sentido, é preciso sacrifício, trabalho pelo futuro da espécie, com solidariedade, em favor dos outros, para e pela eternidade, sendo mister haver trabalho de contenção dos instintos animais e egoístas, para resistir com energia à inércia instintiva animal.

É necessário, para o sucesso dessa empreitada, conhecimento da Ordem, que se dá do nível individual para o coletivo, porque é primeiramente alcançado por um membro do grupo que, então, o difunde, propaga esse conhecimento, até que alcance o nível do grupo, da nação e, finalmente, o plano planetário, da humanidade.

O trabalho entálpico é exercido por líderes, bons líderes, bons pastores, por cristos, pelos reis e sacerdotes de Jesus Cristo, aqueles com conhecimento da Ordem que transcende a aparente entropia corporal, que encarnam a Vida.

Esse processo pode ser exemplificado pelos trabalhos de Abraão, que orientou sua família em direção ao Deus Vivo, ao Logos; depois o fazendo Moisés, não mais em relação a uma família, pois a parentela de Abraão já havia se desenvolvido, e sim quanto a uma nação; até que se manifestou Jesus, o Cristo, o Messias e Rei dos reis de todas as nações, conduzindo esse processo, em curso, para o nível planetário, para a humanidade. Assim, Abraão teve uma função entálpica, assim como a nação de Israel, culminando com Jesus Cristo, agente de uma Ordem que ainda não se manifestou, cujo desenvolvimento depende de destruições conceituais, filosóficas e teológicas, pontuais, que impedem o florescimento daquela Ordem, para que a Vida emerja na coletividade das nações.

O trabalho de desenvolvimento e propagação da Ordem na humanidade está em andamento, em vários níveis ao mesmo tempo, dentro de nós, em nossas famílias, nas nações e no âmbito da humanidade, na Filosofia, na Teologia e no Direito internacional. Esse trabalho depende de cada e um todos nós, depende de que sejamos agentes entálpicos, promovendo a Ordem em nós e no nosso entorno, na nossa vizinhança, perante nossos próximos, de modo que a Vida seja o fundamento do nosso comportamento, e de nossa família, da assembleia, da igreja, da nação, das Nações, enfim, que a própria Humanidade, como espécie, exerça plenamente a função entálpica que lhe cabe, sendo, finalmente, habitação do Deus vivo, anunciando que “Iahweh é reto: nosso Rochedo, nele não há injustiça” (Sl 92, 16).

Fundamentos da Educação

Fundamentos da Educação” é nome de um livro escrito por Gilberto Vieira Cotrim e Mário Parisi, obra que chegou a mim por empréstimo do advogado José Roque da Silva, e o presente artigo é escrito para contribuir com a matéria e para destacar algumas passagens da aludida obra, que trata do mais relevante tema da humanidade, uma vez que da educação depende a forma pela qual entendemos e interagimos com o mundo.

A nossa origem física, enquanto não disseminada a manipulação genética, pode ser determinada, mas o que herdaremos intelectualmente em grande medida depende de nós, de uma postura ativa em relação ao conhecimento, indicando as pesquisas científicas mais modernas que a plasticidade fenotípica, o modo como reagimos ao ambiente, ambiente o qual também é por nós construído, reação e construção variantes conforme a educação, a plasticidade fenotípica pode condicionar o acionamento ou não de determinados genes.

Em termos comportamentais mais amplos, somente por meio da educação é possível alcançar a liberdade, porque é através dela que limitamos as ações instintivas e nos permitimos agir segundo uma razão superior, que transcende a prisão da vontade corporal, e sua razão limitada, e um determinismo genético. Apenas com a contenção dos instintos animais egoístas, e bestiais, pode-se falar em exercício de liberdade, pois a atuação limitada àqueles comportamentos autômatos equipara-se a uma espécie de escravidão.

A pior escravidão é a que nos prende a más ideias, a pensamentos irracionais, ou de racionalidade limitada, como a meramente corporal, do prazer sensual, considerando que as más ideias podem comprometer nossa evolução rumo à consciência humana superior, impedindo o pleno desenvolvimento da humanidade, impedindo que construamos um ambiente material-intelectual mais saudável e equilibrado. A função do ensino e do aprendizado está intimamente ligada a uma ideia de mundo, a um sentido sobre as coisas, a uma filosofia de vida, presente esparsamente em todos níveis do processo educativo, de forma expressa ou não, devendo ser ressaltado que nos dias de hoje predomina a ausência de consciência de uma filosofia radical e integral no comportamento humano, incluído o plano educacional, o que se dá em grande parte por decorrência da insustentável manutenção da visão cartesiana e dualista da realidade no mundo educacional.

Contudo, certa variação ideológica pode ser útil, divergência já havida entre os gregos quanto à finalidade da educação, que não era unitária, porque em Atenas seu “objetivo estava voltado para o aprimoramento da razão, o cultivo das artes, ciência e filosofia”, enquanto para os cidadãos de Esparta “o alvo a ser atingido era o bom preparo físico para o exercício da vida militar” (Gilberto Vieira Cotrim e Mário Parisi. Fundamentos da educação: história e filosofia da educação. 11 ed. São Paulo: Saraiva, 1986, p. 19).

Em Roma, segundo os autores, a educação se dirigia à integração do indivíduo na sociedade, dando ênfase às virtudes do cidadão. Já na chamada Idade Média, quando foram criadas as Universidades, predominou o ensino religioso. Após, passou-se a valorizar o homem, atentando-se para as coisas da Terra, em detrimento das do Céu.

O desenvolvimento das ciências começa a substituir a estrutura teológica que sustentava a Idade Média. Esta preocupação científica ainda se faz presente nos tempos modernos, mas também já está sendo superada por concepções mais abrangentes” (Idem, p. 20).

Analisando esse processo em perspectiva, conclui-se que a filosofia religiosa medieval, que permitiu e criou a instituição Universidade, sem a qual a tecnologia atual não existiria, foi antecedente necessário para a revolução científica.

O foco da educação, assim, é dependente da Filosofia adotada, que, por sua vez, é associada a uma Filosofia Primeira, ou Teologia, como sustentou Aristóteles em sua Metafísica.

Do ponto de vista Cristão, com sua Filosofia e Teologia, o homem é criatura de Deus, sendo a educação, e a própria vida, pautada por dois mandamentos: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22, 34-40).

Tendo esse ponto como pressuposto, é possível compreender uma linha comum na transição do período chamado medieval para o moderno, a busca do entendimento da ordem do mundo, ditada por Deus, o que era um dos aspectos da Filosofia que permitiu o desenvolvimento da revolução científica. Por trás, e acima, das propostas científicas de Descartes, Galileu e Newton havia um universo no qual Deus exercia uma função relevante, seja a partir de uma cosmovisão teísta, seja deísta.

Em um polo oposto, no século XX, na atividade científica, informalmente, foi proibida qualquer menção a Deus, por mais implícita que fosse, sob pena de exclusão da comunidade acadêmica, dominada por uma filosofia de mundo materialista, com reflexos diretos e indiretos na educação. As questões morais, as virtudes pessoais do cientista, no mundo materialista, passaram a ser tidas como irrelevantes na ciência.

Contudo, desde o neolítico, o ensino já era praticado “através da imitação”, sendo usada inicialmente para “transmitir conhecimentos sobre o uso e a fabricação de armas marciais como o arco e a lança” (Idem, p. 39), educação essa com certa limitação, pois a mera repetição de movimentos externos não permite a compreensão integral do objeto de estudo, carecendo toda prática de uma teoria, como racionalização simbólica daquela prática. Ainda assim, a educação prática, com sua teoria, mesmo que implícita, também desenvolveu tecnologias, usadas para manipulação do mundo exterior, para melhoria das condições de vida.

Posteriormente, abrangendo conhecimentos relativos a causas sutis dos fenômenos, surgiu uma educação simbólica mais abstrata, ligada ao culto religioso, na tentativa de dominar o desconhecido, o que pode ser entendido como uma forma de tecnologia do plano imaterial, da realidade sutil, do universo psíquico, que, segundo a mente primitiva, de algum modo estava interligado com o físico.

A educação Cristã continua se pautando por essa conexão entre Espírito e Corpo, indicando que o corpo encarna espírito, que as ações corporais são manifestações de uma realidade invisível, espiritual. Ao dizer “quem me vê vê aquele que me enviou” (Jo 12, 45) e “quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9), Jesus falou que pela realidade visível é possível compreender a realidade invisível, ensinando que seu exemplo é o método pedagógico correto para ministrar essa sabedoria, daí a emblemática fala “eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes” (Jo 14, 6-7).

Portanto, Jesus mostrou a importância fundamental do exemplo na educação, por seu próprio exemplo ou modelo de vida e comportamento social. “Aquele que não toma a sua cruz e me segue não é digno de mim” (Mt 10, 38). “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).

Educação significa, igualmente, aumento de conhecimento, a inclusão de novos dados em uma forma mais ampla de compreensão do mundo, ou seja, unem-se coisas conhecidas a novas coisas, aprimorando o entendimento sobre os fenômenos.

Tudo aquilo que acrescenta alguma novidade a um determinado repertório, denominamos informação e a parte que não acrescenta novidade, chamamos de redundância. Toda mensagem, para ser eficiente, deve possuir informação e um certo grau de redundância. Mensagens excessivamente carregadas de informação tendem a ser totalmente rejeitadas pelo receptor” (Idem, p. 139).

Mas algumas questões redundantes podem ser deturpadas ao longo do tempo, como se vê na ideia recente que defende (“educa”) o aborto como um “direito da mulher”, novidade esta associada à visão materialista de mundo, em que os valores são invertidos, tendo mais importância a vontade egoísta da mulher que abusou da atividade sexual do que a vida humana em gestação.

Daí a necessidade de “elaboração de uma escala de valores, contendo uma hierarquia nas áreas mais importantes de estudo” (Idem, p. 251), como sustentado pelo filósofo inglês Herbert Spencer, ditando a seguinte ordem de importância do conhecimento: 1- autopreservação direta, para a manutenção da vida, incluídas questões de saúde e higiene; 2- autopreservação indireta, pelos conhecimentos que auxiliam a satisfação das necessidades básicas; 3- criação dos filhos, porque fundamental para formar o caráter dos cidadãos; 4- vida social, pela necessidade de se ter consciência de direitos e deveres na comunidade; 5- horas de lazer, pois os conhecimentos relativos às artes completam o encanto da vida.

Uma escala de valores é, destarte, fundamental para que a orientação da pessoa perante o mundo seja adequada, e essa escala de valores é dependente das escolhas filosóficas das pessoas e das sociedades. O problema do mundo atual está em priorizar os bens materiais e o lazer, e essa inversão, segundo a escala de Spencer, aumentou os riscos para a preservação da vida humana, individual e coletivamente.

O objetivo da educação, assim, é conservar a vida, melhorando-a. O valor a ser alcançado pela educação é o aumento da qualidade de vida de cada um e todos nós.

Para John Dewey, o sentido da vida é a sua própria continuidade, e essa continuidade só pode ser conseguida pela renovação constante. A sociedade se perpetua por um processo de transmissão, onde os mais jovens recebem dos mais velhos os hábitos de pensar, sentir e agir e, também, pela renovação da experiência, que tem por fim recriar toda a herança recebida. No mais amplo sentido, educação é o meio de continuidade e renovação da vida social e é o próprio processo da vida em comum, porque amplia e enriquece a experiência” (Idem, p. 285).

Dewey destaca a importância da meta no processo educacional, como uma antecipação do resultado do processo, sendo transcrito, no livro multicitado, um trecho de sua autoria no qual diz que “agir com uma meta é a mesma coisa que agir inteligentemente” (Idem, p. 286).

Portanto, o objetivo do processo educacional é fazer de cada pessoa um Cristo, a encarnação do Logos, uma pessoa que age com Inteligência, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, O Profeta do Monoteísmo, de modo que todos manifestemos o Espírito Santo, a Razão Santa, manifestemos o próprio Deus. Essa é a meta proposta por Cristo para nós:

Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 20-21).

O Cristianismo pressupõe a existência de ordem no mundo, que há cosmos, e que esse cosmos foi criado por Uma Inteligência Superior, segundo a qual é mantido o funcionamento de tudo o que existe, A Qual podemos manifestar em nossa vida. Portanto, para o Cristianismo no cosmos existe uma gestalt, palavra que significa “configuração, forma geral, modelo organizado.

Para os psicólogos da teoria da gestalt, a aprendizagem ocorre mediante a percepção, pelo indivíduo, de um todo global” (Idem, p. 310).

Assim, os fatos que percebemos não são isolados, mas estão interligados com outros fatos, tendo as qualidades de uma coisa relação com as das demais coisas. Para essa escola, “a percepção passa a ser o resultado da interação entre indivíduo receptor e ambiente emissor” (Idem, p. 311), conceito que se adéqua perfeitamente ao da medição quântica.

Reforça-se, assim, enormemente, a importância da educação, e do mundo interior, da filosofia que orienta a ação da pessoa perante o mundo, porque “o ser humano, para a gestalt, não é o produto do meio, mas sim o produto da sua interação com o meio (…), os teóricos da gestalt afirmam que aprendizagem é o desenvolvimento de insights, palavra inglesa que significa discernimento, compreensão, penetração no entendimento de um assunto” (Ibidem).

O insight é a iluminação de um problema, ocorre quando “o indivíduo compreende as relações existentes entre todos os fatores de uma situação, estabelecendo entre eles um vínculo solucionador” (Idem, pp. 311-312).

Mas o insight é um processo individual, somente podendo ser alcançado pela pessoa, internamente, espiritualmente, num processo verdadeiramente místico, religioso, porque a verdadeira educação é esse processo de reunificação do sentido da vida, para a vivência segundo o sentido da unidade da vida, sobre quem somos, de onde viemos, e para onde vamos, que é dado com perfeição pelo Cristianismo, significando a educação para o encontro com o Deus Altíssimo, que é o Logos, ou Sabedoria do Cosmos, presente inclusive em nós.

De um só ele fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, fixando os tempos anteriormente determinados e os limites do seu habitat. Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’” (At 17, 26-28).