Realismo moral

“Assim, o realismo (científico), em regra geral, assume dois pressupostos, quais sejam: (1) a visão de que conceitos abstratos possuem uma existência real (mesmo que não corpórea) e podem ser, em parte, conferidos empiricamente; e (2) o mundo possui uma realidade que é independente dos nossos estados mentais. Já o realismo moral assume três pressupostos centrais que são derivados dessas duas primeiras ideias gerais:

(1) Fatos morais existem, mas possuem uma dimensão existencial diferenciada dos demais fatos naturais;

(2) Os fatos morais são independentes de qualquer crença ou estado mental que possamos assumir em relação a eles; e

(3) É possível que venhamos a nos equivocar sobre o que é certo e o que é errado em relação aos fatos morais” (O cognitivismo e não cognitivismo moral e sua influência na formação do pensamento jurídico. Tese de doutorado em Filosofia apresentada por Arthur Maria Ferreira Neto à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, 2013, p. 142).

A partir da citação acima é permite-se compreender como o pensamento filosófico é desenvolvido de forma axiomática: são estabelecidas premissas, postulados ou pressupostos, assumidos como verdadeiros, porque não passíveis de demonstração empírica, apenas confirmação lógica, a qual acaba por se tornar circular ou tautológica, pela necessidade de comprovação das premissas no curso do discurso argumentativo.

Nas premissas estão exatamente os fundamentos da realidade, o modo pelo qual o mundo é compreendido por aquela escola de pensamento. Na medida em que é possível derivar conclusões racionais das premissas, com maior ou menor adequação à experiência de vida, o referido modo de pensar é aceito e compartilhado, abarcando mais e mais fenômenos da realidade, quando a circularidade é superada, em parte, pelos crescentes níveis fenomênicos alcançados pela teoria. Diferentes tradições filosóficas escolhem pressupostos distintos, muitas vezes inconciliáveis, e daí surge uma grande dificuldade de comunicação entre as respectivas escolas de pensamento.

Nos primórdios da Filosofia, temas afetos à Teologia estavam imbricados nas questões básicas relativas ao conhecimento, tais como a existência da alma, da realidade ideal ou espiritual além do mundo físico, como se pode verificar na citação acima, ao mencionar a possível existência não corpórea de conceitos abstratos.

Contudo, uma vez que haja uma falha nas premissas, a racionalidade de todo o sistema resta comprometida, e é isso que penso ocorrer no discurso filosófico, as premissas são parcialmente equivocadas, porque conceitos teológicos foram mal interpretados inicialmente, e disso decorreu a parcial inconsistência da postura filosófica que concebo correta, o realismo.

Realmente, conceitos abstratos possuem uma existência real (mesmo que não corpórea) e podem ser conferidos empiricamente, mas o mundo possui uma realidade que não é independente dos nossos estados mentais.

Os conceitos abstratos são construções mentais desenvolvidas para a compreensão intelectual do mundo criado, possuindo uma existência real vinculada ao discurso em que usados, tanto em termos de pertencimento linguístico como em termos de honestidade intelectual.

Nesse sentido, a existência dos conceitos abstratos é dependente do contexto em que formulados e utilizados, o que inclui a intenção do sujeito, da finalidade na qual referidos conceitos são usados, que pode ser adequada ou não à sua referência existencial, quando serão instrumentalizados como forma de comunicação, tornar o mais comum possível a informação, ou manipulação, caso em que o sentido verdadeiro é ocultado por uma intenção subjacente do sujeito que se vale daquele conceito.

Não bastasse isso, nossa postura emocional perante o mundo afeta nossa forma de apreensão da realidade, de modo que não é propriamente adequado dizer que a realidade do mundo é independente de nossos estados mentais. Isso fica evidente em situações nas quais a pessoa é tomada de sentimentos intensos, que a tornam incapaz de perceber determinadas características ou sutilezas presentes naquele contexto a ser apreendido racionalmente, ocasiões em que a objetividade do mundo resta ofuscada por aspectos subjetivos da interpretação individual.

No realismo platônico, a realidade última é associada à ideia de Bem, ou Deus. Da perspectiva do Monoteísmo, por sua vez, Deus, o Altíssimo, também Bom, é essa realidade, mas na medida em que existimos, não podemos dizer que seja, em nosso modo de compreendê-la, propriamente independente de nós, “pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28), de modo que há uma realidade última, Deus, cujo conhecimento é dependente de nosso relacionamento com Ele, tanto do ponto de vista físico como também moral.

Outrossim, no que diz respeito ao realismo moral, os fatos morais, sim, existem, mas sua dimensão existencial não é diferenciada dos demais fatos naturais, estes apenas não são suficientemente bem conhecidos; os fatos morais não são independentes de qualquer crença ou estado mental que possamos assumir em relação a eles; é, sim, possível que venhamos a nos equivocar sobre o que é certo e o que é errado em relação aos fatos morais, o que decorre de nosso estado mental inadequado, de nossa falta de amor, de pouco pertencimento à realidade última.

A Escritura é repleta de exemplos em que o conhecimento está associado à emoção sublime, que é o amor, podendo-se dizer que a própria Ciência é por ele condicionada, seja em relação à natureza como à moralidade.

Por essa razão, eu te digo, seus numerosos pecados lhe estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor” (Lc 7, 47). A passagem relata um fariseu que pensava que Jesus não “saberia” quem era a mulher que o tocava, mas o conhecimento de Jesus vai muito além das aparências, é referente à própria essência, e no plano das essências tudo está significativamente interligado.

Mas eu vos conheço: não tendes em vós o amor de Deus” (Jo 5, 42). Mais uma passagem associando conhecimento e amor de Deus, que significa uma relação íntima com o Criador e, portanto, com as criaturas, e que permite sua apreensão intelectual, por uma correta noção de pertencimento à realidade.

Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13, 35). O Evangelho de João é aquele no qual Jesus é, de forma textual, a encarnação do Logos, da própria razão, e essa encarnação é existencial, não apenas verbal ou por palavras, é a própria vivência do amor de Deus entre os homens, que pode ser reconhecida externamente na relação entre os membros da comunidade, a partir do exemplo de Jesus. Assim, através dos fatos naturais, que também são expressos em comportamentos, os fatos morais podem ser apreendidos.

Assim como o Pai me amou também eu vos amei. Permanecei em meu amor. Se observais meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como eu guardei os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Eu vos digo isso para que a minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 9-12). “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei” (Rm 13, 8). Nessas passagens é inequívoca a associação entre obediência aos mandamentos e permanência no amor, significando a impossibilidade de separar a normatividade da afetividade.

Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci e estes reconheceram que tu me enviaste. Eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles” (Jo 17, 25-26). Os fatos morais, portanto, são dependentes de nossa crença e de nossos afetos, somente podendo ser conhecidos adequadamente no relacionamento íntimo com o único e verdadeiro Deus, o Pai justo. Na relação viva, os conceitos não são abstratos, possuem uma existência real vinculada ao discurso intelectual e existencial, tanto em termos de pertencimento linguístico como em termos de honestidade intelectual, servem para “dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37).

Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é Amor” (1Jo 4, 7-8).

Esta última transcrição é aquela em que de forma mais evidente e inafastável amor e conhecimento estão indissociados, pelo que resta evidente que o conhecimento, tanto físico como moral, é condicionado pelo amor, de modo que o realismo científico e moral, mesmo referindo-se a uma realidade objetiva, não significa que o mundo seja independente do sujeito ou de seus estados mentais.

Ontologicamente talvez seja possível falar de uma realidade independente, na qual inseridos todos os sujeitos reais e possíveis, que diz respeito ao Deus criador em si, mas epistemologicamente, porque estamos inseridos no mundo, nosso conhecimento é obrigatoriamente interacional, por meio de relações mentais e físicas com os objetos, colocando as qualidades subjetivas como relevantes e indispensáveis para a cognição do mundo.

Desse modo, necessário que as crenças e qualidades subjetivas voltem a ser consideradas como pressupostos e condicionantes da atividade científica, tanto nas ciências naturais, em que a medição quântica já é definida pela opção mental do observador, e pela atividade dela decorrente, como nas morais, nas quais, do mesmo modo, a postura do observador é determinante para a correta verificação do que é certo ou errado em relação aos fatos morais, que serão definidos, em último aspecto, pela adequação da crença e do amor manifestados pelo indivíduo, sempre tendo como referencial definitivo aquele que mais conheceu a Deus e permaneceu no Seu amor, Jesus de Nazaré, o Messias judeu.

É importante lembrar, finalmente, que nosso conhecimento do mundo físico e moral é apenas parcial, porque, como salientado no início do texto, as questões teológicas não são separáveis das filosóficas, de modo que a atualidade que conhecemos não é a expressão plena da realidade última, pois esta abarca não apenas este momento de nossa existência corporal, como também aquele mundo espiritual ainda em formação, no qual os derradeiros efeitos de nossas ações, físicas e morais, serão plenamente conhecidos, isto é, na ressurreição, sem a qual, da perspectiva monoteísta, resta fulminada qualquer ideia de realismo moral.

Israel, Palestina e Jesus

Com quase duzentas mortes até o momento, e mais de sessenta crianças entre as vítimas, é inequívoco que há uma guerra em curso, entre Israel e o Hamas. Na realidade, há um estado de guerra permanente em torno do Estado de Israel desde sua refundação, em 1948, que remete, de fato, à dissolução da unidade política dos hebreus após a morte do rei Salomão, há milênios.

Para se chegar às origens do conflito, muito além da questão territorial, pois, é preciso ir aos fundamentos teológicos do Monoteísmo, porque a divergência está na prioridade da descendência de Abraão, em seus dois filhos, Ismael e Isaac, representados, atualmente, por árabes e judeus, e, também, por cristãos.

O Anjo de Iahweh lhe disse: ‘Estás grávida e darás à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Ismael, pois Iahweh ouviu tua aflição. Ele será um potro de homem, sua mão contra todos, a mão de todos contra ele; ele se estabelecerá diante de todos os seus irmãos.’” (Gn 16, 11-12).

A maioria do povo árabe é constituída de muçulmanos, os quais reclamam a descendência de Ismael, e seu estabelecimento diante dos irmãos. Ismael é o filho mais velho de Abraão, e daí porque é natural, em certo sentido, que se considerem, os muçulmanos, com preferência sobre judeus.

Quanto a mim, eis a minha aliança contigo: serás pai de uma multidão de nações. E não mais te chamarás Abrão, mas teu nome será Abraão, pois eu te faço pai de uma multidão de nações. Eu te tornarei extremamente fecundo, de ti farei nações, e reis sairão de ti. Estabelecerei minha aliança entre mim e ti, e tua raça depois de ti, de geração em geração, uma aliança perpétua, para ser o teu Deus e o de tua raça depois de ti. A ti, e à tua raça depois de ti, darei a terra em que habitas, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o vosso Deus.” (Gn 17, 4-8).

Os judeus, que são uma especificação dos israelitas, por sua vez, com base na passagem acima, reclamam a possessão perpétua da terra de Canaã, o que inclui a atual Palestina.

Não há a mínima hipótese de se resolver definitivamente o problema de Israel com seus vizinhos árabes e muçulmanos sem passar pelo tratamento da questão acima referida.

Qualquer proposta que desconsidere as ramificações teológicas envolvidas será provisória e incompleta, e deixará espaço aberto para novos conflitos e discussões. O povo judeu aguardou por dois mil e quinhentos anos, aproximadamente, para retomar a autoridade política sobre a terra de Canaã, pelo que não será a ONU ou qualquer pensamento surgido no século XX que afastará a fundamentação multimilenar de sua vinculação ao referido território.

A alegação da preeminência de Ismael sobre Isaac, pela primogenitura do primeiro sobre o segundo, de sua vez, ignora outros relatos bíblicos em que houve a subversão desse princípio, quando o filho mais novo recebeu a bênção que seria devida ao mais velho, sendo exemplo claro o encontrado na narrativa sobre Esaú e Jacó, o último chamado Israel, pai de Judá, que deu origem ao povo Judeu.

Tal situação foi abordada claramente na nova Revelação:

Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da serva e outro da livre. Mas o da serva nasceu segundo a carne; o da livre, em virtude da promessa. Isto foi dito em alegoria. Elas, com efeito, são as duas alianças; uma, a do monte Sinai, gerando para a escravidão: é Agar (porque o Sinai está na Arábia), e ela corresponde à Jerusalém de agora, que de fato é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém do alto é livre e esta é a nossa mãe, segundo está escrito: Alegra-te, estéril, que não davas à luz! Põe-te a gritar de alegria, tu que não conheceste as dores do parto, porque mais numerosos são os filhos da abandonada do que os daquela que tem marido. Ora, vós, irmãos, como Isaac, sois filhos da promessa. Mas como então o nascido segundo a carne perseguia o nascido segundo o espírito, assim também agora” (Gl 4, 22-29).

A interpretação óbvia e atual da passagem acima coloca tanto árabes como judeus na situação de escravos, a Jerusalém de agora é escrava com seus filhos que disputam suas terras, que inclui judeus, muçulmanos e palestinos, incluídos alguns denominados cristãos.

A Jerusalém do alto, por sua vez, já é governada por Jesus, o Messias, o filho da promessa, o filho da Humanidade, por meio de quem todas as nações da terra são abençoadas. O povo judeu é uma nação, e espera o Messias para que a promessa alcance muitas nações, o qual, todavia, já veio, Jesus de Nazaré, após o qual surgiram os muçulmanos, e, então, uma multidão de nações reclama Abraão como patriarca, o que, infelizmente, muitos cristãos ignoram.

Juro por mim mesmo, palavra de Iahweh: porque me fizeste isso, porque não me recusaste teu filho, teu único, eu te cumularei de bênçãos, eu te darei uma posteridade tão numerosa quanto as estrelas do céu e quanto a areia que está na praia do mar, e tua posteridade conquistará a porta de seus inimigos. Por tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra, porque tu me obedeceste” (Gn 22, 16-18).

O Messias, pelo qual todas as nações da terra são abençoadas, contudo, não é aceito pelo povo judeu e não foi compreendido pelos muçulmanos, à medida que desprezam as primeiras revelações do Livro.

O Alcorão exige que seja interpretado conforme a Torá e o Evangelho:

Se estiveres em dúvida sobre o que te revelamos, consulta os que têm o Livro desde antes de ti. Teu Senhor te revelou a verdade. Não seja um dos que duvidam” (Sura 10, 94); “E, em religião, quem é melhor do que aquele que se submete a Deus, faz o bem e segue a crença, monoteísta, de Abraão? Deus elegeu Abraão por amigo” (Sura 4, 125).

Acreditareis, acaso, numa parte do Livro e renegareis a outra? Se o fizerdes, vosso castigo será a vergonha neste mundo e o suplício no dia da Ressurreição. Deus está atento ao que fazeis” (Sura 2: 85).

Cada religião se apega excessivamente a seu Mensageiro, os judeus a Moisés, os cristãos à imagem que fizeram de Jesus, que foi igualado ao próprio Criador, e os muçulmanos a Maomé, um homem imperfeito, ao contrário de Jesus.

Muhamad não é senão um Mensageiro. Outros mensageiros vieram antes dele” (Sura 3: 144).

E Nós lhe enviamos Nosso espírito sob a forma de um homem perfeito” (Sura 19:17). Este homem perfeito é o filho de Maria, Jesus. “E aquela que protegeu sua virgindade, e Nós sopramos nela de Nosso espírito e dela e de seu filho Jesus fizemos um sinal para os mundos” (Sura 21: 91).

Evidente que há uma superioridade de Jesus, o homem perfeito que recebeu o Espírito de Deus, sobre Maomé, o que vale igualmente para a questão profética. É interpretação simples e direta das Escrituras.

Contudo, “Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia” (Rm 11, 32), judeus e gregos, na época de Paulo, e cristãos e muçulmanos, hoje. São todos desobedientes, acreditando em parte do Livro e renegado a outra.

Ó vós que credes, não interrogueis acerca de coisas que, se vos fossem reveladas, vos magoariam. Mas se perguntardes por elas quando o Alcorão estiver sendo revelado, ser-vos-ão expostas. E Deus vos perdoará. Deus é compassivo e clemente” (Sura 5: 101).

O que magoaria os crentes muçulmanos é o fato de que o islamismo é uma revelação para servos, a aliança da atual Jerusalém, que é escrava com seus filhos, incluídos os judeus, estes porque renegaram o Messias, e os cristãos, em certo sentido, pelo mesmo motivo, ignorando o que significa Jesus ser o Messias, o Rei de todas as nações, neste mundo, mesmo que também seja o sacerdote da ordem de Melquisedeque, atemporal, e, assim, superior a Abraão. Jesus é descendente de Abraão na carne, mas o antecede no espírito, o mais novo recebeu a bênção, tornando-se mais velho, superior, com efeitos retroativos.

Vede, pois, a grandeza deste homem, a quem Abraão, o patriarca, entregou o dízimo da melhor parte dos despojos. Ora, os filhos de Levi, chamados ao sacerdócio, devem, segundo a Lei, estabelecer o dízimo para o povo, isto é, para os seus irmãos, conquanto são descendentes de Abraão. Aquele, porém, embora não figure em suas genealogias, submeteu Abraão ao dízimo, e abençoou o portador das promessas! Ora, é fora de dúvida que o inferior é abençoado pelo superior.” (Hb 7, 4-7).

Não por acaso Jesus afirmou: “antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8, 58); porque representa a aliança perpétua de Deus com Abraão, que remete à linhagem da mulher, que esmagou a cabeça da serpente, superando o pecado de Adão (Gn 3, 15), pelo que está acima tanto de Abraão como de Moisés, e de Maomé.

Em Jesus, a humanidade adquire a perfeição, sendo um sinal não apenas para o povo judeu ou árabe, e sim para os mundos.

A solução para conflito árabe-israelense, outrossim, entre Israel e Palestina, passa pela Teologia, pela concepção perfeita do Monoteísmo, por Jesus de Nazaré, o Messias, Rei de todas as nações, o Profeta, e sacerdote da ordem de Melquisedeque.

Cisne Negro e Criacionismo

“Boa parte do debate entre criacionistas e teóricos evolucionários (do qual não participo) reside no seguinte: criacionistas acreditam que o mundo é fruto de algum tipo de desígnio, enquanto teóricos evolucionários veem o mundo como resultado de mudanças aleatórias causadas por um processo sem propósito. Mas é difícil olhar para um computador ou para um carro e considerá-los resultado de processos sem propósito. Mas é isso que são” (Nassim Nicholas Taleb. A lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável. Tradução Marcelo Schild. 23 ed. Rio de Janeiro: BestBusiness, 2020, pp. 221-222).

A passagem acima é uma nota do livro, que trata do Cisne Negro, “um evento com três características elementares: é imprevisível, ocasiona resultados impactantes e, após sua ocorrência, inventamos um meio de torná-lo menos aleatório e mais explicável”, como consta orelha da referida obra.

O autor possui alguns argumentos interessantes, mas a nota citada mostra que seu pensamento é, no mínimo, carente de consistência filosófica, pois um computador e um carro podem ter se desenvolvido tendo por base acontecimentos aparentemente desconexos, mas dizer que são “resultado de processos sem propósito”, pois consistem em instrumentos desenhados para determinadas finalidades, é, no mínimo, uma meia verdade, e, como toda meia verdade, é, de fato, uma mentira.

Todo evento é fruto de uma base material que o torna possível, e a base material de tudo está nas origens do mundo, cujas qualidades e características especiais permitiram toda a sequência posterior dos acontecimentos. Desde que a vida surgiu, pelo menos, é possível dizer que há um propósito na existência, sobreviver, e em certo sentido tudo o que existe é resultado de um ou vários propósitos.

Para os teóricos evolucionários, no nível cosmológico, nosso mundo só faz sentido se outros bilhões existirem, e mesmo a origem da vida não é minimamente explicada, pois a evolução pressupõe o universo criado e o primeiro ser vivo, a partir do qual pudesse ocorrer. Para sustentar sua hipótese, o que é um propósito, incontáveis universos foram criados. E mesmo que tenha havido processos evolucionários dos sistemas vivos em nosso planeta, tal ideia não é incompatível com a criação da vida por Deus ou por saltos evolutivos por Ele promovidos, na medida em que, contrariando Darwin, a Física quântica mostra que, em sua base mais fundamental, a natureza, sim, dá saltos.

O próprio ser humano é a grande prova desse salto enorme, pois nossa presença na Terra é recente, e proporcionamos um salto qualitativo sem precedentes na história evolutiva. Tal salto é um ato de criação proporcionado por Deus.

Em algum momento da história, Deus soprou seu Espírito na criação, dando uma cabeça à sua criatura, e assim nasceram Adão e a Humanidade. De repente, o homem dá conta de sua existência, e ao lado da simples instintividade começa ele a perceber o “sobrenatural”, além dos seus meros instintos, e esse “sobrenatural” está tanto nele quanto no mundo: nele, porque é capaz de pensar algo além do evidente, do imediato, começa a entender a ordem, a causalidade, e com ela interage, a qual está presente em tudo; e no mundo, porque agora é possível perceber um outro tipo de ordem nos acontecimentos, não tão imediata como aquela percebida pelos sentidos.

Como ensina a Bíblia, em um primeiro momento, Adão ainda convive com Deus no paraíso, mas, então, decide criar sua própria ordem de mundo, algo ainda especificamente desconhecido ocorreu, e Adão pecou, conheceu o bem e o mal, quando passaram a existir duas realidades, a “sobrenatural” e a “natural”, com ordens mediatas e imediatas, uma em que existe temporalidade e causalidade de longo alcance e a outra mais ligada ao aqui e agora. Os ritos religiosos, num primeiro momento, e a atividade filosófica e científica, depois, passaram a tentar conectar tais ordens, relacionado-as com as vidas mentais e cotidianas.

A racionalidade humana é fundada nessa conjugação de ordens, mesmo hoje, o que muda é o conceito do “sobrenatural”, que para o pensamento materialista e ateísta é o puro caos, uma desordem primordial que esporadicamente se manifesta ao acaso, produzindo tanto universos como, em nosso, vida.

O Cristão, o Judeu e o Muçulmano, por sua vez, vinculam o “sobrenatural” a Deus, ao Criador, de modo que o desenvolvimento do mundo, da vida e da história humana não ocorrem ao acaso, mas por uma Providência. Deus é o “altamente improvável” que conduz a História e suas grandes viradas.

Especificamente da perspectiva cristã, Jesus de Nazaré é o novo Adão, pois reencontra o “sobrenatural” em si e no mundo, mas com uma consciência única e inigualável, como o Cristo, ou Messias de Israel, cuja função é exatamente restabelecer a unidade entre as realidades a “sobrenatural” e a “natural”, que haviam sido separadas pelo pecado, erro ou irracionalidade de Adão, de modo que Jesus personifica a Santidade, a Verdade e o Logos divino na humanidade. Os efeitos de sua atividade ainda estão em curso, após quase dois mil anos de sua morte e ressurreição, sendo um dos principais fatores intelectuais por trás dos principais acontecimentos da História.

Na realidade, Jesus personifica a própria Humanidade, porque o homem é um ser coletivo, não um indivíduo, é um ente social, e político, e jurídico, sem deixar de ser natural, de modo que não bastam bons comportamentos individuais e independentes, a humanidade apenas se desenvolve coletivamente e de modo interdependente, em comunidade.

Mas a comunidade, ou comum unidade, depende exatamente de uma unidade, de algo que a une, uma base comum. Essa base é nossa humanidade. Mas o que nos torna humanos? Ou, o que é a dignidade humana? Sua origem pode ser a sorte, a convenção ou o Espírito, ou pode mesmo não existir tal realidade, a depender da perspectiva adotada pela pessoa.

Como criaturas criadoras, temos a possibilidade de inventar realidades, até determinado limite, que não sabemos bem qual é. Na verdade, sabemos sim, essas realidades são o espelho daquilo que expressamos por pensamentos, palavras e ações, sendo que aquelas baseadas em última instância em caos criam desordem, e quando o seu fundamento é a ordem o resultado tende à organização do mundo.

O que é, então, o Criacionismo?

É o entendimento de que mundo é, sim, fruto de um desígnio, pois tudo o que existe é resultado de uma vontade, da humanidade que somos hoje aos computadores e carros. Por mais que haja nos fenômenos alguma aleatoriedade, ou imprevisibilidade, em termos epistêmicos, e não ontológicos, os resultados somente são alcançados por esforço, vontade, empenho em uma determinada direção, na construção de um sentido. A grande questão é se há algum significado nesse sentido, e quão durável ele pode ser.

Do ponto de vista de Cristo, esse sentido é a unidade com o Criador, a humanidade vivendo bem governada por líderes semelhantes a ele, seus reis e sacerdotes, que trabalham harmonizando as ordens mediata e imediata do mundo, a temporalidade e a causalidade de longo alcance e a ligada ao aqui e ao agora, em que os ritos religiosos são também filosóficos e científicos, porque seu rito o é, a Ceia, a partilha do pão, a meditação, o ensinamento e prática, e que mudou a História, o se permitir ser absolutamente injustiçado para manifestar a absoluta Justiça, no seu processo de morte e ressurreição.

A ressurreição é o maior Cisne Negro da História da Humanidade, e porque ela é assim, ainda é tratada com muita incredulidade, e de tão altamente improvável é tida por alguns como inexistente. Esse Cisne Negro, contudo, representa não a absoluta aleatoriedade do mundo, mas a Inteligência Suprema por trás de todas as coisas, e indica o Caminho, o sentido da História. E porque acredito tanto na ressurreição de Cristo como nessa Inteligência Suprema, também acredito no Cisne Negro que está por ser revelar, o evento altamente improvável da unificação do Monoteísmo, como efeito daquele anterior, a ressurreição, o que, em verdade, é até mesmo uma necessidade do Logos, uma exigência lógica.

Diversamente do que ocorre com os demais Cisnes Negros, frutos da ignorância humana, este é resultado do mais elevado conhecimento, e por isso é não só previsível mas previsto, está profetizado, e há uma Ciência por trás dele, a Ciência de Deus, ou Teologia, ou Filosofia Primeira.

A tal Ciência se aplica o que vale para as demais, havendo grande identificação entre teoria e teorizador, entre ciência e cientista, de modo que é possível associar algumas pessoas a um determinado conhecimento, Platão e Filosofia, Agostinho e Teologia, Copérnico e Astronomia, Darwin e Biologia, Jung e Psicologia, Einstein e Física, ainda que as respectivas ideias possam ter sido equivocadas, em maior ou menor grau. Pode-se perceber, nessa lista, um processo de especialização do saber humano, que foi perdendo cada vez mais sua unidade e, assim, sua qualidade verdadeiramente científica.

A unificação do Monoteísmo passa, assim, pela unidade da Ciência e pela correta associação ao seu melhor teorizador, que não é Moisés ou Maomé, ou nenhum dos citados no parágrafo anterior, e sim Jesus de Nazaré.

Assim, devemos, pensadores, filósofos e cientistas, seguir o Caminho, e adotar o método de Paulo de Tarso, unindo em Cristo todas as coisas, visíveis e invisíveis, participando da criação dessa Ciência, que é a Ciência da criação, na qual o Cisne Negro é apenas um dos modos pelo qual o Criador exerce seu trabalho.

Os limites da racionalidade e a Fé

O nível atual dos estudos científicos permite apontar três grandes fronteiras da racionalidade humana.

A primeira é o princípio da incerteza de Heisenberg, que impõe limites ao nosso conhecimento sobre a causalidade no mundo material, informando que, notadamente no nível quântico, há um ponto a partir do qual a precisão científica não pode avançar, pois ou se determina a velocidade ou a posição de uma partícula subatômica. Há, contudo, um tema filosófico da maior importância sobre esta questão, se tal princípio diz respeito a uma limitação epistemológica de nosso conhecimento, derivado da insuficiência atual de nosso aparato experimental, ou se elucida uma condição do próprio mundo natural, que seria ontologicamente determinado por probabilidades, pelo acaso.

A segunda restrição está no teorema da incompletude de Gödel, o qual demonstrou que a matemática é ou incompleta ou inconsistente, ou seja, que o sistema de axiomas suficientemente complexo não permitirá a prova plena de seus teoremas. São necessários sempre sistemas matemáticos superiores ou mais complexos para comprovarem os inferiores, mantendo a incompletude, mas em outro nível.

O terceiro extremo de nossa racionalidade pode ser encontrado na lei dos grandes números de Bernoulli:

“Assim, o teorema de Bernoulli assevera que os segmentos mais curtos de sequências casualoides mostram, muitas vezes, grandes flutuações, enquanto que os segmentos longos sempre se comportam de modo que sugere constância ou convergência; diz o teorema, em suma, que encontramos desordem e aleatoriedade no pequeno, ordem e constância no grande. É a esse comportamento que se refere a expressão ‘lei dos grandes números’” (Karl Raimund Popper. A lógica da pesquisa científica. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 2013, p. 161).

Tal normativa diz respeito às probabilidades, segundo o que, em números muito grandes e aleatórios, casualoides, surgirá uma constância específica, que pode ser estatisticamente mensurada, mas sem que seja possível determinar a causa ou a precisão exata de sua incidência, que será regida pela probabilidade. Assim, mesmo a Matemática, a mãe do entendimento científico moderno, mostrou-se uma disciplina com refreamentos epistemológicos de alta profundidade..

Da perspectiva atual, portanto, a definição sobre a origem última do mundo e de sua ordem não pode ser determinada racional ou empiricamente. Em síntese, isso significa que a experiência não pode provar ou afastar a existência de Deus.

As opções filosóficas principais para sair dessa situação fronteiriça são basicamente três: o abandono de uma tentativa de se alcançar esse conhecimento final, por uma postura agnóstica; a crença em um caos universal, ligada ao pensamento ateísta; e a Fé na ordem essencial do mundo, referente ao pensamento religioso.

Da perspectiva intelectual, vale dizer, é esperada uma coerência mínima, ou máxima, de cada uma dessas posturas, vinculando os acontecimentos do mundo aos princípios de cada uma dessas visões, incluindo tanto os eventos naturais como as normas jurídicas, da Física e da Biologia ao Direito e à Política.

Por mais que as ideias religiosas tenham dominado o mundo, desde sempre, o que, bem ou mal, permitiu que chegássemos até aqui, nos últimos cem ou duzentos anos a influência ateísta ganhou uma força gradativamente maior na sociedade ocidental, passando, nas últimas décadas, a dominar a política e o pensamento jurídico, valendo-se do argumento da laicidade do Estado, do que é exemplo mais claro a paradoxal apropriação do conceito de dignidade humana, construído com grande sacrifício humano, em termos literais e simbólicos, e fundado numa concepção espiritual de mundo, o que foi sequestrado pela doutrina ateísta, com a utilização desse conceito para a defesa de condutas totalmente contrárias àquele modo de entender as coisas, o qual permitiu o florescimento da dignidade humana.

O que nossa sociedade tem feito, na prática, portanto, é cada vez mais abandonar a ideia de uma ordem natural do mundo, fruto de criação divina, e adotar a postura filosófica materialista, no sentido de que o universo é mesmo regido pelo acaso, o que vale para a humanidade e sua natureza, deixando de lado a concepção segundo a qual nossa racionalidade é dependente de uma que lhe é superior, ligada à realidade espiritual.

A opção por uma racionalidade aleatória, que rege o ponto de vista ateísta e materialista do mundo, ou por uma fundante de toda a realidade, associada ao pensamento religioso e espiritualista, como já salientado, é, em última instância, um ato de fé.

Se Deus não existe, nossa existência é determinada apenas por nossas escolhas e pela mais pura sorte, não havendo no universo uma inteligência superior à humana, pois a hipótese alienígena mostra-se cada vez mais distante à medida em que avançam nossos conhecimentos físicos e cosmológicos, que apontam para a unicidade da vida em nosso planeta.

De minha parte, entre a sorte e a Providência, ainda fico com a última, porque, mesmo com o incrível avanço científico e tecnológico dos últimos tempos, continuo considerando a melhor hipótese filosófica e existencial para interpretar os dados e as pesquisas acadêmicas mais fundamentais, continuo a acreditar, a ter Fé, numa Razão superior, no Logos.

Jó tomou a palavra e disse: Sei muito bem que é assim: mas como poderia o homem justificar-se diante de Deus? Se Deus se dignar pleitear com ele, entre mil razões não haverá uma para rebatê-lo. Quem entre os mais sábios e mais fortes poderá resistir-lhe impunemente?” (Jó 9, 1-4).

Filosofia e História

Talvez não seja possível entender a História sem considerar a Filosofia, isto é, a forma como as pessoas pensavam a racionalidade do mundo em determinado período, e como isso teve influência no desenrolar dos acontecimentos.

Um dos momentos fundamentais da História, e do presente, é chamado de Helenismo, associado à difusão da cultura grega em razão das conquistas realizadas por Alexandre Magno, o qual foi orientado por Aristóteles, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Este fato, por si só, já é suficiente para a conexão antes relatada, o que exigiria uma atenção maior entre as ideias de Aristóteles, estritamente, e o sucesso político e militar de Alexandre.

O período seguinte foi dominado por Roma, com sua noção jurídica, e também filosófica, já impregnada da cultura grega, que depois acabou se fundindo com o Cristianismo, este servindo de base para o pensamento filosófico dos últimos vinte séculos, movendo a própria História em torno de si.

Nesse sentido, terminei a leitura de “História do Cristianismo”, de Bruce L. Shelley, no texto revisado por R. L. Hatchett, obra que serve para confirmar a ideia que tento desenvolver, de natureza teológica e científica, em torno do ideário Cristão.

“Apreciar nossas histórias pode, mais uma vez, levar-nos a valorizar o fato de que pertencemo ao povo de Deus acima de tudo.

Isso é um círculo. Ler a história da Igreja do jeito certo ajuda-nos a ler a Bíblia do jeito certo; ler a Bíblia do jeito certo ajuda-nos a ler a história da Igreja do jeito certo. Nossa leitura pode ter um novo apreço se discernimos o significado teológico da Igreja como povo de Deus reunido dentre as nações” (Bruce L. Shelley. História do cristianismo: uma obra completa e atual sobre a trajetória da igreja cristã deste as origens até o século XXI. Tradução Giuliana Niedhardt. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018, p. 530).

Contudo, o próprio texto indica um grande problema: “um dos aspectos mais notáveis do cristianismo hoje é quão poucos dentre os cristãos professos já estudaram a história de sua religião com seriedade. (…) Em nossos dias, porém, quando a comunicação em massa traz o mundo para perto de nós, é difícil justificar a ignorância dos cristãos” (Idem, p. 531).

Além disso, considero ser necessário complicar ainda mais a questão, para pensar não apenas a história do Cristianismo, mas a história filosófica e teológica do pensamento cristão associada aos eventos históricos, como o neoplatonismo e sua influência sobre Agostinho, com efeitos sobre a relação Império e Igreja, e o aristotelismo sobre Tomás de Aquino, resultando na atividade universitária dos séculos seguintes.

Mais ainda, é preciso comparar especificamente o significado teológico do Cristianismo como motivador das referidas divergências filosóficas, isto é, como um teísmo dualista de Agostinho diverge do teísmo tomista, e até que ponto o conceito trinitário tem origem antes na cultura grega do que na Bíblia e no Monoteísmo e como suas significações específicas contribuíram para a compreensão do mundo, ou a dificultaram. Também ligar o conceito de Logos com o tempo subsequente marcado por uma valorização da razão, que levou o mundo ao deísmo da modernidade, marcando os grandes filósofos do Ocidente, até que as noções sobre o mundo divino tivessem sido completamente absorvidas em conceitos filosóficos, e depois rejeitadas quase por completo pela maior parte da academia.

Ainda que Descartes, Newton, Kant e Hegel, dentre outros, tenham inequívocos pressupostos teóricos cristãos como condicionantes de suas formas específicas de pensar, sem os quais seus sistemas filosóficos perderiam sua sustentação racional, na medida em que os conceitos filosóficos foram sendo desacoplados daquelas bases teóricas, foi possível manipular argumentos dos respectivos pensadores, muitas vezes subvertendo completamente suas respectivas estruturas racionais, até para negar, também indiretamente, concepções que tais teóricos tinham como necessárias em seus modos de entender o mundo.

Mesmo que eu nunca tenha lido Marx, por exemplo, para além de pequenas partes do Manifesto Comunista, julgo que seja completamente inadequado associar as ideias de Hegel ao pensamento marxista, colocando-os como teóricos aproximados ou semelhantes, porque Hegel tinha uma narrativa história baseada no cristianismo e nos valores da religião, o que foi apropriado sem critério e subvertido pelo ideário materialista do teórico do comunismo.

Aliás, acerca a ligação entre Filosofia e História, é provável que estejamos num hiato entre o sistema de Hegel, que representa a racionalização do ideário Cristão, portanto, o que de melhor já foi produzido pela mente humana, sem prejuízo para a Revelação, e sua atualização (da proposta hegeliana), em uma sistematização superior do Cristianismo como Filosofia.

A substância do pensamento filosófico, segundo tenho compreendido, avançou até Hegel, e desde então houve alguns avanços pontuais e acidentais no estudo da Filosofia, que somente poderá continuar seu desenvolvimento e aprimoramento racional a partir da correção tanto dos pontos nos quais Hegel se equivocou como, e principalmente, no aprimoramento de nosso conhecimento do que seja o Cristianismo, que é a base existencial e racional sobre a qual o trabalho de Hegel foi elaborado.

Outrossim, como Cristão, penso que o Cristianismo, na sua correta e adequada acepção, é o melhor insuperável da racionalidade e da experiência humanas, o que inclui tanto uma sabedoria, uma Filosofia/Teologia, que lhe é intrínseca, como uma consequente realidade vivencial.

Cristianismo é o modo de viver e pensar que tem como centro a experiência do Espírito a partir de uma pessoa, Jesus de Nazaré, o judeu cuja vida, obra, incluída sua ressurreição por Deus, e ideias mudaram de forma inigualável o curso da História.

“Todavia, os cristãos podem ter esperança, pois a fé sempre supera as circunstâncias terrenas. Sua confiança está em uma pessoa, e nenhuma outra pessoa na história influenciou mais indivíduos em tantas condições ao longo do tempo do que Jesus Cristo. Os tons e nuances de sua imagem parecem mudar conforme as necessidades dos homens: o Messias judeu do remanescente cristão, a Sabedoria dos apologistas gregos, o Rei cósmico da Igreja Imperial, o Logos celestial dos concílios ortodoxos, o Governante mundial das cortes papais, o Modelo monástico da pobreza apostólica e o Salvador pessoal dos avivalistas evangélicos.

Ele é verdadeiramente um homem de todos os tempos. Em uma época em que muitos o consideram irrelevante ou uma relíquia de um passado rapidamente descartado, a história da Igreja fornece um testemunho silencioso de que Jesus Cristo não sairá de cena. Seu título pode mudar, mas sua verdade resiste a todas as gerações” (Obra citada, pp. 534-535).

Outrossim, compreender teológica e filosoficamente o messianismo judeu, e como Jesus consumou, em si, o conceito de Messias, de forma surpreendente para o que era, e ainda é, o judaísmo dominante, e sua relação com as ideias políticas dos últimos vinte séculos, é o ponto de partida para o correto entendimento da História e também da Filosofia.

Indispensável, finalmente, nesse sentido, discernimos o significado teológico da Igreja não apenas como povo de Deus reunido dentre as nações, mas como comunidade que tem na dignidade humana o centro da atividade social, privada e pública, política e jurídica, o que transforma a Ekklesia na atual assembleia política, o Estado, cujo modo de tratar seus cidadãos é baseado no melhor que a racionalidade humana, e divina, foi e será capaz de produzir, Jesus Cristo, ápice da realização da Sabedoria na História, fundador e fundamento da Ekklesia, e do próprio Estado.

Kant e a holonomia

Assistindo a uns vídeos neste fim de semana, deparei-me com um elaborado por Mateus Salvadori, tratando da Filosofia do Direito (https://www.youtube.com/watch?v=xyu8EbF4t5s), bem didático, no qual ele informa a posição de Kant sobre o Direito, dizendo que na obra “Metafísica dos Costumes” o filósofo do criticismo aduz existirem as leis da natureza e as leis da liberdade, e que a ambas estamos submetidos, tendo a física, a química e a biologia como exemplos das primeiras, e as leis da razão ou morais, da segunda. As leis da razão incluem as leis éticas, ou moralidade, e jurídicas, ou legalidade, sendo que estas, leis éticas e jurídicas, fundamentam-se naquelas, leis da razão, ou morais. Assim, o Direito tem como fundamento último a Moral, estando vinculado ao Justo. A grande diferença entre leis éticas e jurídicas se dá entre os âmbitos de aplicação, o interno, leis éticas, e o externo, leis jurídicas. Assim, as leis éticas dizem respeito à autonomia, ao nível interno da pessoa, enquanto as jurídicas correspondem ao comportamento externo, o que está ligado à ideia de heteronomia.

No artigo “Heteronomia, autonomia e holonomia – A logocracia” (https://holonomia.com/2020/04/11/heteronomia-autonomia-e-holonomia/), abordei parcialmente essa questão, nos seguintes termos:

A autonomia em Kant, portanto, não é a mera vontade da pessoa, mas a vontade conforme a lei universal, associada a uma visão Cristã de mundo, da qual decorre sua ideia de dignidade humana. Desse modo, é possível entender a autonomia de Kant, porque fundada na racionalidade e na universalidade, conceitualmente, como correspondente à holonomia, quando a lei moral individual não é ligada a qualquer moralidade, com qualquer fundamento para as regras comportamentais, mas está vinculada à moralidade infinita, santa, à ideia de ética, entendida como ciência da moralidade, da razão moral universal, que supera os conceitos de todas as moralidades particulares.

Considerando as ideias expostas no vídeo, e corroborando a proposta filosófica e teológica que venho desenvolvendo, entendo que a distinção entre leis da natureza e leis da liberdade é arbitrária, decorrente das categorias a priori adotadas por Kant, e de sua visão teológica de mundo, que não corresponde à melhor forma de enfrentar os próprios fundamentos do pensamento kantiano, associados às ideias cristãs, as quais também não dão sustentáculo para a distinção do filósofo entre normas internas e externas, e entre moralidade e legalidade.

Partindo de um Monoteísmo radical, inicialmente, é difícil sustentar que leis da natureza e leis da liberdade não têm comunicação, pelo contrário, pressupõe-se uma estrita ligação entre elas, havendo, nas próprias escrituras, diversos momentos em que os pensamentos humanos, que estão muito próximos conceitualmente da ideia de leis de liberdade, possuem associações com a realidade física, como na passagem “Pedro caminhou sobre as águas e foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’” (Mt 14, 29-30).

Na doutrina de Jesus há uma inegável ligação de causa e efeito entre bom comportamento e consequências físicas:

Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e no mundo futuro, a vida eterna” (Mc 10, 29-30).

Na verdade, toda a Bíblia está repleta dessa conexão entre o comportamento humano e as ações do mundo natural, tanto resultando do pecado de Adão como pela atuação conforme os mandamentos, refletindo uma interconexão entre ação moral e efeitos naturais. As pragas do Egito são um exemplo claro de conexão entre leis de liberdade e leis da natureza. Também na era messiânica:

E acontecerá que aquele das famílias da terra que não subir a Jerusalém para prostrar-se diante do rei, Iahweh dos Exércitos, para ele não haverá chuva. E se a família do Egito não subir e não vier, haverá contra ela a praga com que Iahweh ferirá as nações que não subirem para celebrar a festa das Tendas” (Zc 17-18).

Em um certo sentido, a própria ressurreição de Jesus, um fato físico, químico e biológico, é resultado de suas ações morais, de seu comportamento exemplar, resultando na ação divina de ressuscitá-lo, de modo que seu corpo não sofreu sequer a corrupção material, voltando à vida renovado e glorioso.

Mesmo hoje, até que ponto é possível separar o comportamento (i)moral humano e o aquecimento global ou mesmo os efeitos da pandemia sobre nós?

A distinção feita por Kant, outrossim, decorre de uma visão deísta de mundo, que não é o entendimento do teísmo cristão, pelo qual Deus sustenta o universo com sua Palavra. Kant está, pois, de acordo com a mentalidade de seu tempo, que tentava superar com a razão humana uma compreensão teológica de mundo das gerações anteriores. Por melhor que tenha sido seu pensamento, trata-se de um conhecimento limitado, segundo a própria teoria do autor, que impede que alcancemos a sabedoria de Deus.

Ensinamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Glória. Mas, como está escrito, o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam. A nós, porém, Deus o revelou pelo Espírito. Pois o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus. Quem, pois, dentre os homens conhece o que é do homem, senão o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, o que está em Deus, ninguém o conhece senão o Espírito de Deus. Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, a fim de que conheçamos os dons da graça de Deus. Desses dons não falamos segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas segundo aquela que o Espírito ensina, exprimindo realidades espirituais em termos espirituais. O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado. Pois quem conheceu o pensamento do Senhor para poder instruí-lo? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo” (1Cor 2, 7-16).

E também o pensamento de Cristo, espiritual, não concebe a separação entre o plano interior e o exterior, na medida em que a realidade espiritual em que vive, e transmite a seus seguidores, é muito superior à corporal.

Wolfgang Smith está renovando o conhecimento dessa realidade espiritual, como desenvolve no livro “The Vertical Ascent: From Particles to the Tripartite Cosmos and Beyond”, e explica na entrevista que aborda sua última obra (https://philos-sophia.org/vlog-introducing-vertical-ascent/), dizendo que a totalidade precede a divisão do mundo em átomos espaço-temporais, e que a totalidade é irredutível às suas partes, narrando que enquanto a realidade corporal é limitada pelo tempo e pelo espaço, a dimensão anímica é restrita pelo tempo, mas não pelo espaço, enquanto o espírito não se limita ao tempo ou ao espaço.

Portanto, apenas do ponto de vista estritamente corporal se pode falar em plano interno e externo, pois para a realidade espiritual há uma unidade inafastável entre realidade interior e exterior, uma vez que o espírito que nos move também age sobre o mundo.

Sua consciência desse fato está expressa em diversas passagens, como: “Quem vos recebe, a mim me recebe, e quem me recebe, recebe ao que me enviou” (Mt 10, 40); “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” e “Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25, 40 e 45). Finalmente, uma das partes fundamentais da oração de Jesus antes de ser sacrificado: “Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 22-23).

A ideia de unidade cristã, portanto, não reconhece a separação entre moralidade e legalidade ou entre o interior e o exterior, porque todos estão na unidade, na totalidade divina, percebida espiritualmente por aqueles que são do Espírito.

Se no tempo de Paulo os homens psíquicos não tinham a menor possibilidade de compreender as dimensões espirituais, porque eram loucura para eles, atualmente, contudo, o mesmo não se pode dizer dos homens de hoje, porque a Física quântica tem procurado explicar as conexões entre o mundo espiritual e a realidade material, como o fazem Fritjof Capra, em “O tao da física — Um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental”, Amit Goswami, em “O Universo Autoconsciente” e “Deus não está morto”, e David Bohm e Wolfgang Smith nas obras de suas vidas, enfrentando a questão da totalidade que emerge da devida compreensão da realidade física e que está associada ao Espírito, conhecimento esse que indica a ainda maior aproximação do Reino de Deus.

Desse modo, a crítica e as categorias kantianas são, atualmente, claramente insuficientes para a compreensão do universo em que vivemos, e mesmo para a devida conceituação da dignidade humana e do conceito de dever, fazendo-se necessário superar as propostas jurídicas e filosóficas associadas às ideias e autonomia e heteronomia, que ficam suprassumidas no conceito de holonomia, que tenho procurado desenvolver, como um dos fundamentos teóricos do Reino dos Céus.

A Passagem

Passagem, Páscoa ou Pesach é a festa mais importante do Cristianismo, porque rememora a ressurreição do Messias, o início corporal da nova criação, esta que é um longo processo que se completará após o milênio, o período em que a humanidade inteira se dedicará ao Criador, produzindo o melhor a criatura e a criação podem oferecer, até que, enfim, céu e terra estejam reunificados.

O vídeo “Heaven and Earth” (https://www.youtube.com/watch?v=Zy2AQlK6C5k&t=181s), que conta com legenda em português, explica que a histórica bíblica se refere ao restabelecimento da unidade entre Criador e criatura pela cruz e ressurreição de Jesus, unidade que havia sido prejudicada pelo pecado de Adão, dando uma amostra do sentido da Passagem definitiva.

Ao contrário do que muitos pensam, a religião não é uma questão privada, não é um tema da individualidade, é uma forma de expressão cultural, que trabalha a vida humana em sociedade, com um sentido espiritual. Jesus não foi crucificado apenas porque expressava ideias diferentes, mas porque suas ideias tinham importantes impactos no modo de vida, nas relações públicas e no exercício do poder social.

Nesse sentido, tanto a primeira Passagem, que representa a libertação do povo judeu da escravidão do Egito, com inegáveis contornos comunitários, como a segunda e definitiva, por meio da qual a morte foi vencida, são questões públicas, temas coletivos, muito além da crença individual ou da esfera mais íntima da pessoa.

A religião é uma forma de pensar coletivamente, por meio de uma simbologia que vincula os membros da comunidade a um determinado sentido existencial, sendo que no mundo pós-iluminista a religiosidade tradicional foi substituída por teorias políticas e ideológicas pretendendo dar significado à vida humana. O artigo “Religiões jurídicas” (https://holonomia.com/2017/08/10/600/) já abordou o tema.

Ontem assisti a um vídeo com Douglas Murray (https://www.youtube.com/watch?v=lp4XhZytdD0), em que comenta seu livro “The Madness of Crowds: Gender, Race and Identity” (Há versão do livro em português: “A loucura das massas: Gênero, raça e identidade”), chegando a comentar sobre a religiosidade das questões que aborda, e no tempo 32m29s do vídeo é transcrita uma passagem do livro: “While the endless contradictions, fabrications and fantasies within identity politics are visible to all, identifying them is not just discouraged but literally policed. and so we are asked to agree to things which we cannot believe” (Embora as infinitas contradições, fabricações e fantasias da política de identidade sejam visíveis para todos, identificá-las não é apenas desencorajado, mas literalmente policiado. E assim somos solicitados a concordar com coisas que não podemos acreditar). Após é feita outra citação, referente à situação de um cidadão da União Soviética, comentando sobre o sistema comunista, em que o que era esperado dos cidadãos era a prática da mentira, insistindo em questões que sabiam que não eram verdadeiras.

Em tempos de fake news é cada vez mais difícil distinguir verdade e mentira, a informação de qualidade desvinculada de interesses subalternos é quase um artigo de luxo, e por isso é importante lembrar que a Verdade é um dos temas fundamentais do Cristianismo.

E na medida em que cada vez mais somos obrigados a conviver com mentiras, inclusive no mundo jurídico, que tem chancelado a prática da mentira como doutrina oficial do Estado, e das grandes corporações, como destacado por Douglas Murray, torna-se importante resgatar a ideia de Verdade que é defendida por Jesus em várias passagens do Novo Testamento:

Seja o vosso ‘sim’, sim, e o vosso ‘não’, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5, 37)

Ele (o diabo) foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44).

Assim, enquanto, de um lado, um espectro do pensamento atual força a mentira a todos, por meio das políticas identitárias, o que é claramente anticristão, não se pode negar que parcela significativa do outro lado da discussão também rejeita a essência do ensinamento do Messias, insistindo na presença física em templos construídos por mãos humanas, colocando em risco, desnecessariamente, a saúde das pessoas no período mais mortal da pandemia no país, além de contrariar a Verdade do Cristo.

Uma das passagens mais importantes de toda a Bíblia, teologicamente falando, é a que descreve a conversa de Jesus com a mulher samaritana, e já foi objeto do artigo “O terceiro Templo” (https://holonomia.com/2019/04/09/o-terceiro-templo/). Tal episódio trata tanto do comportamento amistoso perante o povo que teria praticado a idolatria, quanto porque conversava com uma mulher. Mas o mais importante é sobre a questão da adoração, do culto devido a Deus.

Crê, mulher, vem a hora em que nem sobre esta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora — e é agora — em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, pois tais são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4, 21-24).

A adoração, o culto, a Deus, portanto, independe de localidade e oportunidade, na medida em que o Cristão adora o Pai em sua vida, a todo momento, em Espírito e Verdade, não havendo locais especiais ou momentos especiais para que estejamos na presença do Pai, que é onipresente e onisciente. O Cristianismo é exatamente o processo de “criar pequenos espaços do Céu onde as pessoas podem estar na presença de Deus”, mesmo no mundo do pecado e da morte, até que os céus e a terra se encontrem definitivamente, quando não mais haverá pecado ou morte.

Portanto, por mais que a confraternização, o encontro dos irmãos, seja um momento muito especial, para a celebração da Passagem, especialmente neste tempo de pandemia, não é necessário aglomerar em construções humanas, bastando a adoração a Deus em Espírito e Verdade, o que pode ser feito na refeição familiar, “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18, 20). Jesus não mente, seu testemunho é verdadeiro, e, por isso, quando dois Cristãos, com o coração voltado para Deus, de uma forma sincera, se reúnem, em Espírito e Verdade, mesmo em sua casa, Jesus está ali, e também o próprio Deus, o Pai, torna-se presente.

O culto Cristão, portanto, muito mais do que a reunião pública corporal em determinada construção feita por mãos humanas, é santificação permanente, mesmo no mundo, é o testemunho contínuo da Verdade, o corpo habitado pelo Espírito (santo) de Deus.

Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. Eles não são do mundo como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é verdade. Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E, por eles, a mim mesmo me santifico, para que sejam santificados na verdade” (Jo 17, 15-19).

O culto cristão é, antes de tudo, a vida de santidade na Verdade. No momento de seu julgamento, Jesus reafirmou que seu compromisso é (com) a Verdade.

Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37).

Infelizmente, não vemos nossos líderes dando testemunho da Verdade, e chega a ser muito preocupante que os principais nomes da política nacional estejam mergulhados em tantas falsidades, tentam convencer que são vítimas de mentira jurídica ou que não disseram o que todas as pessoas minimamente informadas sabem que falaram.

Precisamos de novos governantes, verdadeiros Cristãos:

“Ora, se aquilo que eu disse anteriormente sobre a importância política do Templo tem alguma relevância neste contexto, significa que a redefinição do Templo feita por Jesus também era parte do que os evangelistas viam como o estabelecimento de um reino muito superior ao de Herodes ou ao de César. (…) Entretanto, para uma visão genuinamente judaica de teocracia, Deus precisa estar presente. E é isto que os evangelhos – especialmente João, mas também os demais – oferecem: a habitação de Deus em Jesus, o Messias e, por meio dele, sua habitação no Espírito. O próprio Jesus é o novo Templo, no coração da nova criação; contudo, chegará o dia em que toda a terra se encherá da glória de Deus, como as águas cobrem o mar (Isaías 11:9). Por isso, esse Templo, como o tabernáculo no deserto, é um templo móvel. No poder do Espírito, o povo de Jesus se propaga e passa a ser a habitação de Deus aonde vai, antecipando o cumprimento da promessa por meio de sua vida e obra comunais moldadas pela cruz.

(…) Infelizmente, diminuímos a cruz, imaginando-a apenas como um mecanismo por meio do qual podemos escapar da nossa perversidade egoísta ou como exemplo de alguma verdade benevolente. Contudo, trata-se de algo muito, muito maior. A cruz é o momento em que a história de Israel alcança seu ponto culminante; o momento em que, enfim, sentinelas nas muralhas de Jerusalém veem o seu Deus retornar em seu reino; o momento em que o povo de Deus é renovado para ser, finalmente, o sacerdócio real que tomará posse do mundo, não por amor ao poder, mas pelo poder do amor; o momento em que o reino de Deus vence os reinos desde mundo. É o momento em que uma grande porta antiga, trancada e lacrada desde a nossa primeira desobediência, escancara-se de repente, revelando não apenas o jardim, aberto mais uma vez para nosso deleite, mas a cidade vindoura, o jardim-cidade que Deus sempre planejou e que agora nos convida a adentrar e a edificar consigo. O poder das trevas, um obstáculo no caminho da visão do reino, foi derrotado, destronado, anulado. Suas legiões ainda farão muito barulho e causarão muita dor, mas a vitória definitiva agora está assegurada. Essa é a visão que os evangelistas nos oferecem ao unirem o reino e a cruz” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, pp. 251-252).

A Passagem para o Reino de Deus, outrossim, não pode ser feita por meio de falsidades e discursos mentirosos, como o fazem as legiões do poder das trevas, mas apenas pela Verdade, pela vida e obra comuna moldada pela cruz, o único modo possível de se viver na cidade de Deus, na autêntica civilização.

Política como Teologia – parte III

Aproveitando o domingo de ramos, que significa a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, é possível continuar o tema dos artigos anteriores, na medida em que tal passagem bíblica tem inegáveis conotações políticas, quando o povo aclamou Jesus, cantando: “Bendito o que vem em nome de Iahweh!” (Sl 118, 26); enquanto ele entrava na cidade montado em um jumento, significando que trazia mensagem de paz.

Desse momento de glória, Jesus passou, na semana que se seguiu, pela paixão e, então, pela ressurreição.

É sempre importante dizer que, sem a ressurreição, a Páscoa continuaria sendo uma festividade apenas judaica, eminentemente política, significando a libertação daquele povo específico da escravidão do império egípcio, o maior poder político e militar daquele tempo. Acerca da historicidade de tal fato, recomendo “Exodus Rediscovered: Documentary” (https://www.youtube.com/watch?v=bk4CLwL9BQs), que, a partir da arquelogia egípcia, defende a plena compatibilidade da referida narrativa bíblica com fatos históricos já conhecidos da ciência atual, referentes àquele da humanidade.

Urge que o Cristianismo volte a interpretar a Páscoa em seu contexto verdadeiro, dentro da narrativa bílica, não mais apenas a libertação política do povo escolhido, mas algo de proporções muito maiores, de natureza cósmica, o momento em que a própria morte foi vencida, juntamente com os poderes malignos que ainda exercem influência no mundo, e que estão na iminência de serem derrotados.

Toda a Bíblia narra a história da humanidade, do momento de sua criação, a queda, até a redenção promovida por Jesus, cuja ressurreição inicia a nova criação, que se consumará nos novos céus e terra, descritos tanto nas profecias veterotestamentárias, como Isaías e Jeremias, assim também no livro do Apocalipse. Esse contexto essencial da Escritura não pode ser esquecido, sob pena de desvio da interpretação dos textos sagrados, prejudicando o entendimento sobre o significado de nossa vida e dos nossos afazeres, menos e mais importantes.

Nesse ponto, como desenvolvido nos artigos anteriores, a questão Política é essencial no contexto judaico-cristão, haja vista que Jesus é o Messias Judeu, o Rei de Israel, aquele através do qual as nações adorarão ao Deus único, Iahweh. A história bíblica passa da queda de Adão, ao chamado de Abraão, para ser pai de muitas nações, os eventos envolvendo os seus filhos Ismael e Isaac, e depois Jacó, que passou a ser chamado Israel, gerando Judá, Moisés, Davi e Salomão, culminando em Jesus, que reconduziu a humanidade para Deus, reunindo a partir de si todas as nações, cumprindo as promessas feitas a Abraão.

Tal, contudo, é um longo processo que hoje conta com quase quatro mil anos, contados do tempo de Abraão. Portanto, existe um desenvolvimento ideológico e político em curso durante esse vasto período de tempo, tanto aquele que antecede a vinda do Messias como após sua manifestação, até a consumação de sua obra.

No último período, a ideia política se dissociou da teológica, provavelmente para o desenvolvimento pleno das capacidades humanas, segundo os propósitos de Deus para a criação.

“Lembremo-nos dos níveis nos quais o espírito europeu dos últimos quatro séculos se movimentou, e das diferentes esferas espirituais nas quais ele encontrou o centro da sua existência humana. São quatro grandes passos simples, seculares. Eles correspondem aos quatro séculos e vão do teológico ao metafísico, daí ao humanitário-moral e, finalmente, ao econômico. (…) Nos passados quatro séculos da história europeia, a vida espiritual teve quatro centro diferentes, e o pensamento da elite activa que formava a respectiva tropa avançada movia-se, nos diferentes séculos, em torno de diferentes pontos centrais” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 142-143).

Tal passagem se encontra num texto com o nome “A Era das Neutralizações e das Despolitizações”, descrevendo a mudança nas convicções e argumentos, de natureza espiritual, utilizados pelas elites, afirmando, depois do período teológico, o pensamento sistematicamente científico, metafísico ou natural, o que foi seguido por uma filosofia deísta no século XVIII, quando formados os “conceitos fundamentais da moral e da teoria do Estado”, até chegar mundo econômico e da industrialização do século XIX.

“Certamente, o progresso técnico torna-se, já no século XIX, tão espantoso, e as situações sociais e econômicas transformam-se, em consequência disso, tão rapidamente, que todos os problemas morais, políticos, sociais e econômicos são apanhados pela realidade deste desenvolvimento técnico. Debaixo da tremenda sugestão de sempre novas e surpreendentes invenções e realizações, surge uma religião do progresso técnico para a qual todos os outros problemas se resolvem por si mesmos precisamente através do progresso técnico. Para as grandes massas das terras industrializadas esta crença era evidente e óbvia. Elas saltaram por cima de todos os níveis intermediários que são característicos do pensamento das elites liderantes, e nelas emerge logo, a partir da crença nos milagres e no além, sem elo intermédio, uma religião do milagre técnico, das realizações humanas e da dominação da natureza. Uma religiosidade mágica para uma igualmente mágica tecnicidade. Assim, o século XX aparece, no seu começo, como a era não apenas da técnica, mas também de uma crença religiosa na técnica” (Idem, pp. 145-146).

Essa religiosidade da técnica, cada vez mais afastada de Deus, é a persistência do exercício dos poderes do mundo que Jesus derrotou, mas continuam hoje com grande influência planetária, preparando exatamente o campo da última batalha, naquela guerra que já vencida pelo Enviado de Deus.

Ideias têm consequências, pelo que as realizações de Jesus produzem efeitos de longo prazo, ainda que não seja fácil para a maioria compreender como, neste mundo desordenado, existe um governo justo em ação, sendo importante ressaltar, nesse ponto, que a própria noção de justiça e o entendimento de vivemos um tempo de injustiça mostram a força do trabalho de Cristo, isto é, que nenhum outro ser humano expressou ideia melhor sobre governo humano, sobre o exercício do poder e sobre a ideia de Justiça. A inafastabilidade da dignidade humana e dos direitos humanos é a prova cabal da vitória de Cristo sobre os poderes do mundo, restando apenas serem corretamente aplicados tais conceitos na governança das nações, segundo a doutrina messiânica.

“Jesus chega a Jerusalém e não vê mais o Templo como lugar onde o céu se relaciona com a terra, mas como lugar onde Mamom e a violência reinam sem limites, em cumplicidade com o governo de César” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 219).

Os poderes espirituais que exerciam influência sobre Caifás, Pilatos e César ainda estão em ação no mundo, o dinheiro e a violência ainda reinam, mas isso não diminui a vitória de Jesus sobre eles, na medida em que é necessário o cumprimento das profecias, é indispensável que o projeto de Deus se realize em sua totalidade, para que seja visível e concluída a ação de seu Messias, o que ocorrerá quando passarmos a segui-lo no plano político internacional, porque não há dúvida em qualquer argumento racional no sentido de que a dignidade humana e os direitos humanos são axiologicamente superiores ao dinheiro e à violência.

Tal desenvolvimento pode ser claramente extraído tanto das visões proféticas de Daniel como no livro do Apocalipse, que retoma e reorganiza as profecias veterotestamentárias, agora sob a perspectiva da entronização de Jesus como mandatário de Deus, nos céus e na Terra, depois de cumprida sua missão salvadora.

No capítulo 12 do livro da Revelação é descrita a mulher que dá à luz ao filho que governará as nações, simbolizando a vitória do Messias sobre a bestialidade que domina os poderes humanos.

Ela deu à luz um filho, um varão, que irá reger todas as nações com um cetro de ferro. Seu filho, porém, foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono, e a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar em que fosse alimentada por mil duzentos e sessenta dias. Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu” (Ap 12, 5-8).

A mulher é Israel, a nação eleita, e o filho varão é o Messias, Jesus, arrebatado para junto de Deus e seu trono, ficando a mulher, agora a comunidade Cristã, no deserto, ou seja, fora cidade, sem acesso ao governo político, esperando o desenvolvimento dos efeitos da guerra no céu já vendida pelos anjos de Deus. Na teoria política e teológica, e no céu, não mais há lugar para a venalização humana ou para a violência política, a guerra já foi vencida.

Enquanto isso, na terra, na realidade dos fatos temporais, as nações ainda são dominadas pela Besta, que, em nome do Dragão, exerce a influência dos poderes espirituais sobre a humanidade, por meio daquela crença religiosa na técnica, a religião do progresso técnico descrita por Carl Schmitt.

Ela opera grandes maravilhas: até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens. Graças às maravilhas que lhe foi concedido realizar em presença da Besta, ela seduz os habitantes da terra, incitando-os a fazerem uma imagem em honra da Besta que tinha sido ferida pela espada, mas voltou à vida. Foi-lhe dado até mesmo infundir espírito à imagem da Besta, de modo que a imagem pudesse falar e fazer com que morressem todos os que não adorassem a imagem da Besta. Faz também com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos recebam uma marca na mão direita ou na fronte, para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome. Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem: seu número é 666!” (Ap 13, 13-18).

Temos, pois tanto os milagres técnicos produzidos pela Besta, o fogo que faz descer do céu sobre a terra, à vista dos homens, as bombas atômicas explodindo sobre Hiroshima e Nagasaki, como o controle econômico sobre as nações e a população mundial, estabelecendo quem pode comprar ou vender.

A Política, pois, nada mais é do que a expressão moderna da Teologia.

Política como Teologia – parte II

Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne? Se fizeres isto, a tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente, a tua justiça irá à tua frente e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda” (Is 58, 6-8).

Para expressar a realidade da Política como Teologia, o texto acima, do livro de Isaías, é bem esclarecedor, principalmente neste tempo de quaresma, em que o jejum é uma prática comum dos cristãos, especialmente os católicos, porque o profeta, falando em nome de Deus, já muito antes de Cristo, coloca na atividade do jejum temas que são políticos e jurídicos: romper os grilhões da iniquidade, pôr em liberdade os oprimidos, despedaçar todo o jugo, repartir o teu pão com o faminto; em que a questão da justiça social, tema político, é tratado como coisa religiosa, integrante da relação mais próxima da humanidade com Deus.

Retoma-se, pois, ao entendimento da Teologia ou Filosofia como teoria e modo de vida da unidade do conhecimento racional, o que inclui tanto a coerência das ideias como destas com o agir social, e da dificuldade dos teóricos modernos em pensar a partir dessa perspectiva unitária.

Encerrada a leitura de “O Conceito do Político”, de Carl Schmitt, percebe-se que, como ele mesmo havia afirmado em “Teologia Política”, em que afirma que qualquer mudança profunda nessa esfera de conhecimento passa pela superação do dogma, seu trabalho ainda está inserido numa ideia de separação, não tendo logrado êxito em conceber a expressão do político como teológico fora do dualismo mental em que inserido, ainda que seu texto aponte para tal reunificação.

Depois de afirmar que a unidade política pressupõe a possibilidade real do inimigo e que não pode haver um “Estado” mundial, assevera que a “unidade política, segundo a sua essência, não poder ser universal, no sentido de uma unidade que abarque toda a humanidade e a Terra inteira” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 96-97), quando não haveria nem política nem Estado, apenas economia, moral, direito, arte, etc.. E continua:

“A humanidade, enquanto tal, não pode fazer qualquer guerra, pois ela não tem qualquer inimigo, pelo menos não neste planeta. O conceito de humanidade exclui o conceito de inimigo, pois também o inimigo não deixa de ser homem e nele não se encontra nenhuma diferenciação específica” (Idem, p. 98).

Contudo, reconhece que em nome da humanidade são feitas guerras, com uso desse conceito universal como um instrumento ideológico das expansões imperialistas, e que o confisco de tal palavra acarreta consequências, como “a terrível reivindicação de que ao inimigo é recusada a qualidade de homem” (Idem, p. 99).

Schmitt remete o conceito humanitário para doutrinas do direito natural e afirma que tal é uma construção ideal universal, que abrange todos os homens da Terra, em que o agrupamento amigo-inimigo se torna impossível. Ao concluir o capítulo sobre esse tópico, ele afirma que um “Estado mundial” não será político, pois abarcará a Terra inteira, em unidade econômica.

“Se ela (a humanidade) quisesse formar, para além disso, também ainda uma unidade cultural, mundividencial ou alguma outra ‘mais elevada’, mas simultaneamente, ainda assim, uma unidade incondicionalmente apolítica, ela seria uma corporação consumidora e produtiva que procura, entre as polaridades de ética e economia, um ponto de indiferença. Ela não conheceria nem Estado nem Reich nem Império, nem República nem Monarquia, nem Aristocracia nem Democracia, nem protecção nem obediência, mas teria perdido de todo qualquer caráter político.

Mas a questão que se coloca é a de a que homens cabeira o poder temível que está ligado a uma centralização econômica e técnica que abranja a Terra inteira. Esta questão de modo nenhum pode ser contornada ao esperar-se que tudo passe a ‘ir por si mesmo’, que as coisas ‘se administrassem a si mesmas’, e que um governo de homens sobre homens se tornasse supérfluo porque os homens seriam, então, absolutamente ‘livres’; pois pergunta-se precisamente para que é que se tornam livres. A isso pode responder-se com suposições optimistas e pessimistas que, em última análise, remontam todas a uma profissão de fé antropológica” (Idem, pp. 104-105).

Volta-se, assim, ao conceito de humano, à sua concepção ontológica, pois a profissão de fé antropológica não pode deixar de ser também uma profissão de fé teológica, sobre a natureza humana, e nesse ponto a limitação dogmática da Teologia de Schmitt o impede de compreender que as respostas às suas perguntas já foram dadas por Cristo e seus seguidores.

Não é que a Política não mais existirá, mas que voltará a não mais haver distinção entre ela e Teologia, porque de Teocracia se tratará, uma nunca antes praticada, que se aproveitará de todo aparato científico e tecnológico produzido pela humanidade, para que sejam utilizados os poderes humanos a serviço do Logos, do Deus criador de todas as coisas, de modo que os homens que exercerão esse poder serão os servos e santos do Altíssimo, os reis e sacerdotes de Cristo, por meio da técnica, do método, o Caminho, que é o próprio Cristo. Continuarão a existir Estados e nações, bem como o caráter político, mas vinculado a uma concepção simultaneamente teológica e antropológica, além de ética e econômica.

Entra aí a leitura evangélica de Thomas Wright, restaurando para o Cristianismo o entendimento judaico sobre o futuro da humanidade e sua governança, na medida em que Jesus Cristo, como o Rei dos Judeus, necessariamente se insere no cumprimento das profecias do antigo Israel, segundo as quais, um dia, “as nações seriam convocadas a jurar lealdade a alguém maior do que Davi, isto é, ao Filho de Davi” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 152). Após o Iluminismo, que separou Igreja e Estado, a história genuína pode ressurgir, de modo que a atual geração tem condições de fazer a correta leitura judaica e política dos evangelhos, nos quais Jesus é declarado o Messias. “É chegado o tempo de reler os evangelhos como ‘teologia política’ – não porque não dizem respeito a Deus, à espiritualidade, ao novo nascimento, à santidade etc., mas, precisamente, porque dizem respeito a isso tudo” (Idem, p. 155).

Na base desse entendimento está, de fato, uma profissão de fé antropológica, encontrada nos textos bíblicos, que restou prejudicada em Schmitt em razão de sua Teologia, estritamente vinculada ao dogma, e pela mentalidade dos últimos séculos.

Para além de uma discussão rasteira entre evolucionismo e criacionismo, a narrativa bíblica descreve a criação do homem à imagem e semelhança de Deus, o desvio que impediu que a humanidade atingisse sua plena potencialidade, a partir do pecado ou erro de Adão, e a consumação dessa plenitude existencial em Jesus de Nazaré, o qual reconduziu a criatura para o seu correto desenvolvimento, que culminará na nova criação, nos novos céus e nova Terra.

“A própria nova criação começou, os apóstolos diziam, e será completada. Jesus está governando sobre essa nova criação, tornando-a uma realidade por meio do testemunho da igreja. ‘O governante deste mundo’ foi derrotado; os poderes deste mundo foram postos por último na procissão triunfal de Jesus como um exército derrotado, maltrapilho. E é assim que Deus está se tornando rei na terra como no céu. Essa é a verdade que os evangelhos estão ávidos por nos contar, verdade que, nos últimos duzentos anos, as culturas europeia e americana têm tentado abafar desesperadamente” (Idem, p. 178).

Para o Cristão, Jesus ressuscitou, isso é um pressuposto definidor do Cristianismo.

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram. Com efeito, visto que a morte veio por um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Pois, assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida. Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. A seguir haverá o fim, quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo Principado, toda Autoridade, todo Poder. Pois é preciso que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído será a Morte, pois ele tudo colocou debaixo dos pés dele” (1Cor 15, 12-27).

Esta passagem destaca tanto a antropologia, como a política e mesmo a física, porque deixa claro que a ressurreição foi um evento físico, corporal, real.

É curioso como hoje se fala em criogenia, conservação de corpos e memórias, para resgatar uma vida, em energia atômica, em avanços tecnológicos vários, alguns esperando até uma nova vida em novo corpo, tudo feito por mãos humanas, mas se esquece que a condição existencial do Cristianismo é o evento da maior magnitude já ocorrido, a ressurreição, sem a qual não haveria motivo para os apóstolos enfrentarem as autoridades judaicas e romanas, e a morte, depois a crucificação de Jesus. É ilógico que eles passassem por isso se não tivessem a certeza da superação da morte por Jesus, pela ressurreição, que significa o princípio material da nova criação, da qual todos participaremos.

Para além disso, há uma clara ideia antropológica ligada à pessoa de Jesus, a plena realização da imagem e semelhança de Deus na humanidade, nele Jesus, sendo evidente o teor político do Evangelho, tanto no que diz respeito à missão do Cristo, como o Rei dos Judeus, o que tem uma conotação inequivocamente política, como pela necessidade de que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés.

Então Jesus tem inimigos, de modo que a proposta de Carl Schmitt não é de todo equivocada, porque os inimigos de Jesus são exatamente aqueles principados, autoridades e potestades que exercem o governo da humanidade, uma realidade espiritual que encarna em pessoas concretas, dominando as nações, pelo que os inimigos não são propriamente as nações ou seus membros, mas aquelas realidades espirituais com suas ideias e ações que se manifestam nas nações, em seus governos de todos os níveis, opondo-se à governança de Deus na Terra, opondo-se ao verdadeiro serviço público e à realização da justiça (que é sempre social).

Fundamental, portanto, a análise teológica da questão política, e que seja levado solenemente a sério o trabalho de Tom Wright, lembrando que no “judaísmo, o Deus criador desejava que o mundo fosse ordenado e governado por aqueles que criou segundo a suam imagem” (Idem, p. 188), imagem esta que restou consolidada na pessoa de Jesus, o santo do Altíssimo por excelência.

Quanto aos quatro grandes animais, quatro reis surgirão da terra. Mas os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para todo o sempre” (Dn 7, 17-18).

“Já está claro. Como de costume em ‘literatura apocalíptica’, os elementos da visão são simbólicos e precisam ser decodificados. Os monstros representam impérios humanos, mas ‘um semelhante ao filho do homem’ representa Israel, ou pelo menos os justos em Israel. Há muito eles sofrem sob o governo dos monstros, porém serão resgatados – não apenas resgatados, mas colocados em posição de soberania sobre o mundo” (Idem, pp. 205-206).

A referência a Schmitt é novamente clara, quanto à questão da humanidade, do filho do homem, e dos monstros, que se opõem aos justos de Israel, dos inimigos que não são homens, pelo que estão presentes, indissoluvelmente, conceitos antropológicos, teológicos e políticos na narrativa bíblica.

Vi, então, tronos, e aos que neles se sentaram foi dado poder de julgar. Vi, também, as vidas daqueles que foram decapitados por causa do Testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e dos que não tinham adorado a Besta, nem sua imagem, e nem recebido a marca sobre a fronte ou na mão, eles voltaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos” (Ap 20, 4).

Portanto, respondendo às indagações de Carl Scmitt sobre “a que homens cabeira o poder temível que está ligado a uma centralização econômica e técnica que abranja a Terra inteira”, são os alter cristos, os outros Cristos, os santos do Altíssimo, que, de fato, realizam a verdadeira imagem e semelhança de Deus, são os verdadeiros humanos, no seu melhor conceito, não se submetem à Besta, e quanto à questão “para que é que se tornam livres”, a reposta é exatamente para serem servos do Altíssimo.

Pois aquele que era escravo quando chamado no Senhor, é um liberto do Senhor. Da mesma forma, aquele que era livre quando foi chamado, é um escravo de Cristo” (1Cor 7, 22), para romper os grilhões da iniquidade, soltar as ataduras do jugo, pôr em liberdade os oprimidos, despedaçar todo o jugo e repartir o pão com o faminto, manifestando, assim, a justiça e a Glória de Deus.

Política como Teologia

Enquanto a formação jurídica desenvolve alguns conceitos políticos e normativos, a religiosa trata de temas teológicos e espirituais, sempre, no tempo contemporâneo, separando as referidas esferas de entendimento do mundo e de ação sobre este, o que é o resultado de uma interferência tida como maléfica, do período anterior, quanto aos âmbitos terreno e espiritual.

Todavia, do ponto de vista filosófico, considerada a Filosofia como teoria e modo de vida da unidade do conhecimento racional, o que inclui tanto a coerência das ideias como destas com o agir social, referida separação afronta a unidade da inteligência, padecendo de uma irracionalidade fundamental, cuja compreensão somente pôde ser melhor alcançada com o aparato epistemológico oriundo da física moderna e da psicologia profunda, que apontam para uma unidade entre observador e observado, entre ideia e ação.

Na medida em que a unidade teórica da razão foi rompida em termos estruturais, em que conceitos científicos, religiosos, jurídicos, políticos, teológicos etc. estão em esferas distintas da abordagem intelectual, a Filosofia acabou se transformando em outra coisa, em uma nova disciplina, menor, insuficiente para os fins a que se destina.

Da perspectiva aristotélica, que expressa o modo de pensar geral do mundo antigo, a Filosofia é indistinta da Teologia, porque considera em conjunto as coisas e tudo o que existe desde os primeiros princípios, desde de sua origem mais remota e primordial intelectualmente concebível, que tem o lugar de deus no respectivo sistema de pensamento, e pode ser tanto o caos ou acaso, não-deus, como o próprio Deus criador (ou deuses, da perspectiva politeísta), sejam quais forem suas respectivas qualidades ou atributos.

Na busca da superação de tal dualidade, considerei forçosa uma ressignificação do que seja o Cristianismo, em sua essência, tanto filosófica como científica e religiosa, o que torna necessária a pesquisa impossível de toda a produção intelectual humana ocidental que trata dos temas referidos, tanto na análise da filosofia política como teológica, e nunca abandonando as descobertas técnicas da chamada pesquisa acadêmica.

A conclusão atual de meu trabalho investigativo leva a uma refutação da Teologia Política de Agostinho, em sua ideia de separação das cidades de Deus e dos homens e de sua escatologia, ainda que tal pensamento tenha sido plenamente justificável pela sua posição histórica intermediária, entre a revelação da encarnação e sua compreensão científica.

A expressão “Teologia Política”, por sua vez, remete às ideias do século XX, a Carl Schmitt, à sua ligação com o nacional-socialismo alemão, à reação das nações a este movimento religioso, o que culminou na restauração política do povo judeu, no Estado de Israel, fato que cumpre importantíssimas profecias messiânicas contidas em Isaías 52 e Ezequiel 37, e na declaração universal dos direitos humanos.

A questão dos direitos humanos é, hoje, exatamente o tema em que convergem as abordagens tanto da Política como da Teologia, sendo certo que a atual concepção da primeira tenta, de todo modo, afastar a última do debate, fundando-se exatamente naquela divisão estrutural das esferas do conhecimento antes mencionada.

Nesse ponto, iniciada a leitura de “O Conceito do Político”, já é possível antever, salvo uma correção interpretativa decorrente da análise do restante da obra, o que considero uma falha categorial do pensamento de Schmitt, ao estabelecer como a diferenciação essencialmente política aquela tida entre amigo e inimigo.

“O inimigo político não precisa ser moralmente mau, não precisa ser esteticamente feio; não tem de surgir como concorrente econômico e até talvez possa parecer vantajoso fazer negócios com ele. Ele é, precisamente, o outro, o estrangeiro, e é suficiente, para a sua essência, que ele seja existencialmente, num sentido particularmente intensivo, algo outro e estrangeiro, de tal modo que, em caso extremo, sejam possíveis conflitos com ele que não possam ser decididos nem por uma normatização geral, que possa ser encontrada previamente, nem pela sentença de um terceiro ‘não participante’ e, portanto, ‘apartidário’” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 51-52).

O ambiente político é, antes de tudo, a área em que o humano se mostra em seus extremos, de modo que a diferenciação política essencial, ao contrário do que o referido autor sustenta, ocorre entre as categorias humano e bestial, faces manifestadas no conflito político máximo, a guerra, de modo que, então, secundariamente, as distinções amigo e inimigo poderiam surgir, mas já com uma normatização capaz de solucionar os conflitos, os direitos humanos. A disputa principal não é entre o amigo e o inimigo, mas entre Cristo e a besta, entre uma concepção plena de humanidade, que inclui sua natureza espiritual, e aquela que nega a existência do Espírito e altera as concepções do corpo, categorias em que temas políticos e teológicos estão indissoluvelmente interligados, referentes à própria existência humana e seu significado último, do que são exemplos a discussão sobre os direitos humanos, o aborto e mesmo a gestão humana sobre o planeta. As categorias amigo e inimigo, portanto, são de um pensamento de certo modo pré-cristão, anterior à formatação dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais e ao estabelecimento, por Cristo, do Reino da fraternidade, exercendo a soberania de Deus sobre toda a Terra, de modo que o inimigo é, de fato, o opositor da humanidade e sua melhor expressão.

A controvérsia sobre o sentido da dignidade humana é, atualmente, o locus da disputa teórica da Política, a qual resta sequestrada por sua separação absoluta da Teologia, e que mesmo assim usa uma narrativa, em última análise, teológica, naquela acepção aristotélica, para fundamentar suas decisões, porque remete o plano humano para o estritamente corporal e material, já adotando, assim, uma posição filosófico-teológica segundo a qual é possível e necessária tal separação, dado que questões espirituais não podem e não devem ser admitidas no debate político. A dignidade humana fica restrita, nessa análise, ao corpo da pessoa e à vontade do indivíduo, à sua visão quase solipsista de mundo, em que não existe uma natureza das coisas, a não ser aquela dada pelo próprio indivíduo, o qual assume o controle da criação, dispensando qualquer ideia sobre o Criador.

De outro lado, mesmo a Teologia concorda com tal afastamento, como resultado de uma concepção do Cristianismo assentada no mundo ocidental cristão, que, contraditoriamente, nega as próprias bases teóricas e teológicas da mensagem do Cristo.

O significado do que é o ser humano, do que é a dignidade humana, depende de uma visão filosófica desse ente, dessa realidade existencial, de sua história, de sua origem última, e das respectivas concepções sobre o bom, o belo, o útil, o justo etc., sem as quais aquela expressão, dignidade humana, resta vazia e sem conteúdo, e pode ser relativizada ou manipulada. Não há como afastar a Política, portanto, dos fundamentos da própria existência humana, do que se entende por racionalidade humana, e sua aplicação às relações sociais.

Nessa linha, vinda de direção contrária, indispensável a revisão da Teologia, sendo altamente adequada a visão de Thomas Wright, exposta em seu “Como Deus se tornou Rei”. Tal obra é exatamente no sentido de reunificar o que, do ponto de vista de Cristo e seus seguidores, nunca foi e nunca será apartado, Teologia e Política.

Wright destaca quatro visões acadêmicas mais comuns sobre o trabalho de “pregar o evangelho” e Jesus: “um revolucionário, esperando derrotar os romanos por meio de violência militar e estabelecer um novo Estado judaico; um visionário apocalíptico, esperando o fim do mundo; um mestre gentio de razoabilidade dócil, cuja ênfase estava na paternidade de Deus e na fraternidade do ‘ser humano’; ou talvez uma combinação de todas essas opções” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 45).

O autor destaca que dos três primeiros resulta um Jesus iludido, porque não matou os romanos, o “fim do mundo” não veio e a maioria de seus discípulos são tudo, menos amáveis e razoáveis.

Trazendo tais pontos para a Política, todavia, temos inequívoco que os romanos caíram, que o novo Estado judeu foi estabelecido e a obrigação de sermos fraternos e razoáveis é decorrente de uma leitura mais ou menos óbvia da declaração universal dos direitos humanos: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. Tenho que todos esses efeitos resultam diretamente, ainda que com alguma postergação temporal, do trabalho messiânico de Jesus, cujo alcance é muito maior do que a filosofia dos últimos séculos costuma aceitar.

Outrossim, voltando a Wright, o objetivo de seu livro é mostrar que a história narrada pelos Evangelhos serve para explicar como os acontecimentos envolvendo “a vida, a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus” dizem respeito ao reino vindouro de Deus, estabelecendo o autor que, se “nosso desejo é nos apegar à grande tradição, devemos estar preparados para levar os evangelhos mais a sério” (Idem, p. 51).

Quanto à tradição, aproveitando o gancho para fazer um parêntese, e dando ênfase à questão da coerência filosófica, é possível dizer que podemos compreender maravilhosamente bem uma teoria hermenêutica moderníssima como a de Gadamer, mas na medida em que a própria tradição, que está no centro do trabalho filosófico de Gadamer, carrega consigo falhas interpretativas de elevada magnitude, acabamos entendendo muito pouco sobre a realidade intelectual, nossa interpretação mais elaborada do mundo resta fadada a repetir equívocos de toda ordem.

Assim, Wright enfatiza o desafio escondido por trás da Ciência moderna, a Teocracia, sendo necessário superar os erros e desencontros do mundo pós-iluminista, fruto da filosofia epicurista, cuja visão existencial era oposta à Cristã, para chegarmos, enfim, à correta compreensão do que seja um mundo ordenado por Deus e da própria mensagem do Cristo para o plano político das nações.

A “principal filosofia do Iluminismo”, salienta Wright, “nada mais era do que uma versão da filosofia antiga de Epicuro, cujo ensinamento era que os deuses, se existiam, estavam a uma longa distância do mundo dos humanos e não se preocupavam com eles. Como resultado, o mundo que conhecemos cresce, muda e se desenvolve sob seu próprio engenho, como se por meio de uma força inerente. Aplique isto ao estudo científico das origens e o resultado é a evolução darwinista mais uma vez, não uma ideia nova, mas a conclusão lógica que surge na ausência de controle e intervenção divinos. Em vez de ‘descobrir os pensamentos de Deus’, a ciência estava agora estudando o mundo como se Deus não existisse. Aplique-o à ciência política e o resultado é a democracia, a sociedade se orienta de acordo com os próprios desejos e caprichos, medos e modas. Em lugar do ‘direito divino’ dos governantes, a política agora ordenava o mundo – pelo menos na França e nos Estados Unidos – com base na separação estrita entre igreja e Estado.

Apenas quando essas conexões e paralelos são trazidos à luz fica claro o motivo pelo qual, do século XVIII em diante, a grande massa de pesquisas dos evangelhos fez certas perguntas e propôs certas respostas. A escolha entre o revolucionário judaico fracassado de Reimarus e o visionário apocalíptico fracassado de Schweitzer é, de acordo com os próprios evangelhos, uma escolha entre alternativas falsas. Nem Reimarus nem Schweitzer estavam preparados para considerar a possibilidade, proposta de maneira categórica pelos evangelhos, de que, em Jesus, o Deus de Israel – ou seja, o Deus criador – realmente tenha confundido epicureus e todos os demais grupos ao se tornar rei na terra como no céu. Teocracia – mas de um tipo radicalmente diferente de qualquer coisa que alguém já há muito imaginara – era o nome do jogo. Mas o mundo pós-Iluminismo, mesmo o mundo devoto, piedoso, evangélico ou católico pós-iluminista, não estava pronto para aceitá-lo. Se a questão da teocracia fosse levantada, remeteria prontamente ao clero corrupto e preguiçoso que tentava intimidar uma população fraca, ou a Jorge III, enviando bispos para as colônias a fim de manter o controle sobre elas. A teocracia não era desejada nem pelo reformador cético, nem pelo ‘ortodoxo’ piedoso, ambos contentes, como os rabinos depois da revolta de Bar-Kochba, em abandonar a visão do reino de Deus na terra e se retirar para um mundo de piedade privada, um mundo de ‘religião’” (Idem, pp. 53-55).

Não há como ter uma correta compreensão do Cristianismo sem entender que Jesus é o Messias judeu, o Rei de Israel, e que quando ele estabeleceu sua Ekklesia, palavra grega que designa Igreja, fê-lo em um contexto que é indissociavelmente político e teológico, de modo que toda e qualquer leitura que se faça da realidade social deve considerar a Política como Teologia e a Teologia com Política, e somente a partir desse pressuposto será possível resolver de forma duradoura os problemas da sociedade contemporânea.