Radiação moral

Em “Justiça para Ouriços”, Ronald Dworkin aborda a questão sobre a veracidade de juízos morais, fazendo uma comparação com o mundo físico, ao sustentar que este “determina se as nossas opiniões são realmente verdadeiras ou falsas”, de modo que “as afirmações sobre o mundo físico tornam-se verdadeiras graças ao estado real do mundo físico – os seus continentes, quarks e disposições” (Ronald Dworkin. Justiça para ouriços. Tradução de Pedro Elói Duarte. Coimbra: Almedina, 2012, p. 40). De outro lado, afirma o autor que não se pode dizer que existem fatos morais: “A perspectiva comum insiste que os juízos morais não se tornam verdadeiros por causa dos acontecimentos históricos, das opiniões ou emoções das pessoas, ou de qualquer coisa no mundo físico ou mental” (Idem, pp. 40-41).

Dworkin, assim, adota uma posição cética em relação aos juízos morais, dizendo que não existem partículas morais, ou morões, chegando a definir o que sejam os céticos: “qualquer pessoa que negue que os juízos morais possam ser objetivamente verdadeiros – ou seja, verdadeiros não em virtude das atitudes ou crenças que alguém tenha, mas independentemente de qualquer uma dessas atitudes ou crenças” (Idem, p. 41).

Em certo sentido, pode-se dizer que Dworkin está correto ao dizer que não se pode falar em juízos morais verdadeiros independentemente de quaisquer atitudes ou crenças das pessoas perante o mundo, uma vez que a moralidade está inserida numa perspectiva inteligente do mundo, que pressupõe as atitudes e crenças das pessoas, envolve a existência de consciência, a racionalidade comportamental do indivíduo e a possibilidade de adoção de uma ou outra ação perante os fatos da vida. Fatos são fatos dentro de um contexto, que os significa, sendo, portanto, necessária inteligência para a constatação dos fatos.

Por isso, a rigor, não é muito adequado falar em moralidade no comportamento dos animais, destituídos de crenças, e cujos comportamentos são predominantemente dominados pela ação instintiva, de contexto limitadíssimo, sem que isso negue a possibilidade de algum aprendizado no mundo animal. Ainda assim, como o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, é dotado de poder criador que permite transmitir alguma inteligência aos animais, fazendo com que tenham comportamentos quase humanos, de um lado, quando sob a influência de um espírito santo; ou bestiais, de outro, quando a influência é de um espírito impuro, diabólico; tudo em decorrência de influência humana.

Contudo, em contrapartida, o entendimento de Dworkin sobre o que seja o mundo físico certamente não é uma unanimidade entre os próprios físicos, haja vista a divergência sobre a interpretação do mundo quântico, havendo a visão predominante de Copenhague, a proposta de Everett de que a observação cria a realidade e, assim, muitos mundos, ou multiverso, além da proposta realista de David Bohm, dentre outras.

A depender da posição filosófica, portanto, que implica a adoção de um postulado ou axioma fundamental segundo o qual o mundo físico é analisado, as afirmações sobre a realidade podem variar, pelo que falar em “estado real do mundo físico” é, de início, controverso, segundo a própria ciência física.

Por isso, é importante, em qualquer discussão científica ou filosófica, de plano, a determinação do ponto de partida, do postulado, ou axioma, da linha teórica que servirá de base para a argumentação subsequente, para que se permita o controle da coerência discursiva, que é o mínimo que se exige de uma proposta com pretensões científicas, como condição antecedente até mesmo para a possibilidade de experimentação empírica.

Desta feita, é mister deixar claro que adoto uma postura realista de mundo, entendendo haver uma realidade física subjacente, um contexto adequado e verdadeiro, uma objetividade na realidade que tem validade para todos os sujeitos, uma racionalidade que pode ser alcançada por qualquer um, independentemente da posição do observador, o que se aplica inclusive para as questões morais. Assim, sustento que existem fatos físicos, como também há fatos morais, podendo-se falar, consequentemente, em certo sentido, em partículas morais, ou morões, uma leitura que julgo coerente tanto com a física moderna quanto com os ensinamentos bíblicos, com o Cristianismo.

Vale dizer, nessa linha argumentativa, que nunca antes na história de nossa espécie o Cristianismo teve tanta sustentação científica, somente não chegando a essa conclusão aqueles que não querem enxergar a realidade. Tomemos como exemplo a seguinte passagem da Escritura:

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Para fins didáticos, diante da dificuldade da definição do que seja espírito, o que também vale para a ideia de energia, podemos equipar as respectivas noções, na conversão de conceitos religiosos e científicos, para entender simbolicamente que espírito é energia, e vice-versa, na medida em que o Espírito move o corpo e a energia tem relação com potencialidade do movimento.

Feita essa consideração, inicialmente, podemos citar a famosa equação de Einstein, E=mc², equiparando energia e matéria, pela conversibilidade entre elas, indicando, assim, desde já, a ideia de unidade entre corpo e espírito.

A unidade do corpo também pode ser encontrada no resultado da relatividade geral, relativa à curvatura do espaço-tempo, recentemente comprovada pela descoberta das ondas gravitacionais, demonstrando uma conexão material sutil entre todos os corpos, que entendemos como separados, pois integram o que pode ser chamado de um único tecido espaço-temporal. As ondas gravitacionais indicam que todo movimento corporal altera o material cósmico, mudando a tecitura do espaço-tempo, que é o corpo universal, mesmo que nossa tecnologia ainda não seja capaz de detectar senão as ondas de grandes movimentos gravitacionais, como as decorrentes da colisão das estrelas de nêutron que provavelmente criaram um buraco negro, quando anunciada a descoberta das referidas ondas pelo LIGO.

A detecção do bóson de Higgs, igualmente, aponta para a existência de um campo cósmico, o campo de Higgs, que interage com os demais campos quânticos provocando a resistência nestes campos, conformando a sensação material, a existência da própria matéria. Desta feita, a existência do mundo material em si é decorrente de um campo quântico, um campo de energia, que provoca a reação física que tem como resultado conferir massa, ou matéria, a todas as demais partículas.

Desse modo, segundo os dados mais atualizados das ciências físicas, tudo o que fazemos deixa uma marca no tecido cósmico, por mais que não possamos detectar esses rastos de nossos comportamentos, o que vale, igualmente, até para os pensamentos humanos, que provocam correntes elétricas no cérebro e, consequentemente, ondas eletromagnéticas que se propagam em todas as direções na velocidade da luz, além de causar ondas gravitacionais, as quais também modificam, ainda que sutilmente, atualmente de forma indetectável, o tecido cósmico. Os dados científicos indicam claramente que existe essa repercussão física de nossas ações, mínimas que sejam, isso sem falar na possibilidade concreta de também nossas atitudes causarem entrelaçamentos quânticos em cadeia, com efeitos ainda mais profundos na realidade física total, independentemente da distância espacial ou temporal entre a fonte da ação e o ponto onde seu efeito ocorrerá. Isso tudo sem falar na matéria escura e na energia escura, postuladas cientificamente sem que consigamos detectar experimentalmente sua existência.

É lógica e racionalmente possível, portanto, sustentar a existência de algo que seja caracterizado como partículas morais, entendidas como manifestação física da moralidade, que talvez estejam relacionadas a uma espécie de rede quântica entrelaçada, isto é, o entrelaçamento quântico de múltiplas partículas, ou um fluxo de entrelaçamento quântico, que permita definir a posição ou sentido desse fluxo em referência a determinados comportamentos, tendo em vista a relação do movimento de um corpo em comparação com os meios próximo e distante associados a esse corpo, pelo seu pertencimento consciente, porque a moralidade é dependente da consciência, tanto a campos físicos locais como não locais.

De todos esses dados e fatos obtidos a partir das descobertas da Física, destarte, é bastante razoável, e até mesmo provável, se adotada, por princípio, a existência de uma ordem cósmica, no plano físico, que existam partículas morais, ou morões, ou algo que possa ser qualificado como manifestação física da moralidade, passível de mensuração, mesmo que nossa tecnologia material não seja capaz de sua detecção.

Considerando a unidade existencial de todos os fenômenos, em termos físicos, o que é capaz de ser compreendido em termos espirituais, pela consciência, nossos comportamentos, incluídos os pensamentos, por menores que sejam, provocam uma espécie de atrito, ou interferência, que se propaga pelo cosmos, no mínimo como ondas gravitacionais e eletromagnéticas. Assim, se existe uma ordem que permitiu, ou melhor, determinou o desenvolvimento da Vida, essa ordem é sensível aos comportamentos que possam e efetivamente violam essa mesma ordem, aos comportamentos que resistem à evolução da Vida em si, e essa sensibilidade pode ser caracterizada como moralidade, como o juízo racional sobre a adequação e a bondade de uma ação segundo aquela ordem e o sentido do desenvolvimento da Vida.

Nessa linha de raciocínio, a moralidade está associada tanto à sensibilidade, isto é, a uma questão física de interação corporal, quanto à razão, à racionalidade, consciência ou entendimento da ordem cósmica, do contexto universal, e do sentido da evolução do movimento inteligente da matéria espaço-temporal, a Vida, desde o início dos tempos, que culmina na humanidade e segue, então, em direção ao Espírito, pela prospectiva evolutiva.

Segundo o texto bíblico: “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1, 31). Isso significa que o mundo físico é moralmente bom, que há uma harmonia, uma beleza e uma bondade no universo criado, na criação; permite concluir que há uma espécie de curvatura existencial positiva, inclusive em termos morais, em tudo o que existe, de modo que o universo reage moralmente aos comportamentos morais, sendo cabível, e lógico, falar em partículas morais, ou morões, que devem ser detectadas em algum momento de nossa evolução tecnológica. Essa medição já é possível atualmente, mas é dependente da subjetividade, da sensibilidade individual de pessoas especialmente conscientes, mas cujo compartilhamento objetivo ainda é dependente da mesma subjetividade, do convencimento pessoal, que ocorre, por exemplo, nos julgamentos inteligentes proferidos na atividade social, o que vale, inclusive, e especialmente, para o trabalho dos magistrados, mesmo que nem todos, talvez poucos, tenham consciência dessa realidade.

Daí porque devemos procurar a radiação moral, tanto a emanada e captada pelas pessoas como a que contagia o ambiente, o que pode ser feito, neste caso, em locais nos quais eventos importantes ocorreram, como em Jerusalém e seu entorno, pelos lugares onde Jesus passou, em que certamente foram deixadas marcas morais, radiação moral, de sua passagem pelo planeta. Talvez tenha sido isso que Jesus quis dizer quando falou: “Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19, 40).

Se há uma energia invisível, por exemplo, em Chernobyl, captada por aparelhos detectores de radiação, o mesmo pode ser válido para uma radiação moral, de qualidade distinta daquela que provoca danos à vida, e causa primariamente morte orgânica, podendo haver uma radiação moral tanto prejudicial como benéfica, que, no último caso, recupera o DNA, e auxilia a restauração do organismo vivo, o que é a explicação científica para os chamados milagres de Jesus. Se há uma radiação oculta que pode causar a morte instantânea ou diferida, deteriorando o organismo vivo e produzindo o desenvolvimento de câncer, como há uma força que causa danos psíquicos, é perfeitamente cabível entender existir também uma radiação física com sentido contrário, associada à energia criadora primordial, pela qual produzido o mundo criado, muito bom, que conserta a estrutura orgânica e restaura a Vida.

Ciência extraordinária

A ciência é extraordinária, não é algo comum, mas diferenciado; apesar de existir uma modalidade ordinária dessa atividade humana. Outrossim, podemos falar de dois tipos de ciência, a verdadeira Ciência, admirável, excepcional; e a habitual, ou vulgar.

A primeira é associada à inovação, à criatividade, à ação do Criador, referindo-se ao estudo do Logos, pelo qual tudo foi feito. Tem natureza filosófica, especulativa, artística. Essa Ciência é única, irreproduzível em laboratório, depende de situações e/ou pessoas únicas para seu desenvolvimento, tais como Jesus, Sócrates, Abraão, Moisés, Newton, Galileu, Einstein. O universo foi criado uma única vez, a vida teve início em condições e em um tempo especiais, sendo igualmente singulares os eventos fulcrais da história coletiva e individual, como o fim de um império, ou o nascimento e a morte de um ente querido.

Mesmo em sua unicidade, a ciência extraordinária investiga as relações primárias de causalidade, porque estuda o mundo das causas, a ontoteologia. Trata, ainda, do âmbito da epistemologia e estabelece as categorias fundamentais do conhecimento, os primeiros princípios, sendo a matéria objeto de estudo da Metafísica aristotélica, ou Teologia, ligando aqueles eventos únicos e os fatos da vida cotidiana a uma razão que lhes seja comum, em que pese a dificuldade e excentricidade dessa empreitada.

Já a versão ordinária abarca o mundo dos efeitos, das regularidades e dos limites das ações causais, proporcionando o desenvolvimento da tecnologia. Isso não significa que a versão mais elevada da ciência não aborde as questões permanentes, pelo contrário, uma vez que sua área de atuação é exatamente a eternidade, ou seja, aquilo que é uno e imutável, o permanente do fluir temporal e material, e é a partir dessa ideia que se extrai a regularidade comum da ciência ordinária.

A ciência extraordinária gera, portanto, a ordinária, a qual, por sua vez, está na origem da tecnologia. Quanto mais profunda a primeira, mais específica a segunda e mais eficiente a terceira.

A atividade cognitiva vulgar, por sua vez, divide-se nos ramos do conhecimento, proporcionando as especializações científicas. Suas inovações, via de regra, são restritas às áreas respectivas. Tais ramos trabalham no âmbito fenomenológico, com as categorias próprias das respectivas áreas do conhecimento, em que as relações significativas são limitadas.

Pode-se dizer que uma espécie volta seu olhar para o conhecimento futuro, para a razão latente ou nascente, enquanto a outra se dirige ao passado, que já foi descoberto e está manifesto, ao menos parcialmente, havendo, contudo, uma ligação íntima entre esses saberes, decorrente da unidade lógica que inevitavelmente abarca ambos, no presente, na eternidade que conecta permanentemente o antes e o depois.

Uma é a ciência da ideia geral, universal, em todos os seus momentos, que inclui a particular, em suas singularidades, enquanto a outra é a razão da contingência, passageira, da temporalidade em si.

A mais elevada especialidade da ciência particular, para ser realmente elevada, deve alcançar o nível extraordinário, e por isso o título de doutor é melhor definido como PhD, que significa “doutor em filosofia”, pois PhD é uma abreviação de “Philosophy Doctor”, decorre da expressão latina philosophiae doctor ou doctor philosophiae, que remete ao significado da palavra grega “filosofia’, amor ao conhecimento ou amor à sabedoria.

O conhecimento extraordinário transcende o plano meramente sensorial, está além do mundo passageiro, sendo associado à sabedora. É, outrossim, de natureza espiritual, na medida em que o espírito é a totalidade das relações, é a unidade que permanece, a despeito do constante devir. A ciência em questão, portanto, busca o entendimento da totalidade das relações entre os fenômenos, enquanto a ordinária já pressupõe algum nível de relação entre todos os fenômenos, o que é inerente à proposta científica, mas tem seu foco em algumas relações restritas.

As verdadeiras mudanças no entendimento ocorrem quando há modificação na concepção sobre a qualidade das relações totais, quanto à sua causalidade, e nas categorias mentais ou filosóficas adotadas para explicar racionalmente essas relações.

Nesse ponto, a filosofia grega foi o marco na adoção de uma determinada racionalidade para explicar todos os fenômenos do mundo. O Monoteísmo significou a submissão cósmica total a um único Princípio ou Inteligência, que, pelo Cristianismo, foi incorporado à racionalidade humana, ainda não alcançada em seu verdadeiro sentido.

Em outro plano, o trabalho de Newton se baseou na unidade entre a matéria celeste e a terrestre. A relatividade de einsteniana uniu matematicamente os conceitos de tempo e de espaço. Finalmente, a física quântica demonstrou uma integração entre o pensamento, e seus instrumentais, e a realidade observável.

A evolução científica, assim, culmina em uma cosmovisão que não foi compreendida sequer pela comunidade acadêmica, porque continua atrelada a uma visão ordinária de ciência, parcial, e majoritariamente materialista. Por isso estamos num interlúdio no avanço do conhecimento humano, que está se desenvolvendo apenas lateralmente, sem perceber seu sentido mais profundo, dependente da verdadeira Ciência, até que esta seja revelada, como de praxe, numa situação excepcional, que será um salto qualitativo, um salto quântico, no entendimento, em direção ao plano espiritual, que é o locus originário da ciência extraordinária. Como disse o apóstolo dos gentios:

O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado” (1Cor 2, 14-15).

Outrossim, o mundo só é inteligível espiritualmente, porque é pelo espírito que os eventos do mundo são conectados racionalmente.

Nesse ponto, é importante dizer que a coerência intradisciplinar é obrigatória nas ciências particulares, de modo que uma mesma racionalidade possa ser usada indistintamente nos fenômenos observados nesses campos de observação.

A Filosofia, a Ciência autêntica, de seu lado, que tem como objeto imediato a linguagem, com sua coerência disciplinar própria, sua lógica, mas cujo referencial significativo é o conteúdo das ciências particulares, com a sua harmonia simbólica intradisciplinar, porque a linguagem filosófica adota os conceitos mais avançados das áreas específicas do conhecimento, desenvolve, ainda, a coerência interdisciplinar desses conceitos, sua significação mais própria em relação à completude dos fenômenos existenciais.

A Ciência, portanto, tem um aspecto epistemológico associado, necessariamente, a uma abordagem ontológica e existencial das coisas do mundo, conectando todos os significados possíveis da linguagem, de forma lógica e coerente, e por isso é absurda a unidade e racionalidade do universo conhecido, e extraordinária, e de tamanha extravagância, que a ciência materialista se viu obrigada a criar uma infinitude de outros universos, o multiverso, numa irracionalidade que chega ser ridícula, por rejeitar um postulado filosófico básico, a Navalha de Occam, apenas para não reconhecer a lógica extraordinária da Ciência, apenas para negar o Logos, com a moralidade e a normatividade que lhe são inerentes. Ainda assim, o conhecimento autêntico é acessível para os que se lhe abrirem seus corações:

A Sabedoria apregoa pelas ruas, nas praças levanta a voz: grita nas encruzilhadas, e nas portas da cidade anuncia: ‘Até quando, ingênuos, amareis a ingenuidade, e vós zombadores, vos empenhareis na zombaria; e vós, insensatos, odiareis o conhecimento? Convertei-vos à minha exortação: eis que vos derramarei o meu espírito e vos comunicarei minhas palavras’” (Pr 1, 20-23).

O Espírito da Lei

O presente texto decorre do início da leitura de “Do espírito das leis”. Ler um clássico também serve para fugir daquele conceito de obra clássica, entendida como aquela que todos citam e que ninguém lê. Assim, começada a leitura, já é possível fazer alguns comentários, com possibilidade de desenvolvimento de novos artigos após sua conclusão.

Inicialmente, é importante destacar a cosmovisão de Montesquieu, que principia o livro falando nas leis como “as relações necessárias que derivam da natureza das coisas” (Charles de Secondat, Baron de Montesquieu. Do espírito das leis. Trad. Roberto Leal Ferreira. São Paulo. Martin Claret, 2010, p. 21), porque entende haver leis para todos os seres.

Os que disseram que uma cega fatalidade produziu todos os efeitos que vemos no mundo disseram um grande absurdo: pois que maior absurdo há do que uma fatalidade cega que tivesse produzido seres inteligentes?” (Idem, p. 21).

O autor está falando aqui dos materialistas, correspondentes aos modernos ateus, para os quais não há uma causa última nos fenômenos do mundo, pois entendem que a ordem universal é efeito do movimento caótico dos átomos, pelo que a obra em questão deve ser situada dentro de um pensamento deísta, que era a posição intelectual geral daqueles que viveram no século XVIII. Nesse sentido, ele defende a existência de uma lei da natureza, “que, ao imprimir em nós mesmos a ideia de um Criador, nos leva a Ele, é a primeira das leis naturais pela importância, e não na ordem de suas leis” (Idem, p. 23); descrevendo em seguida quatro leis naturais: a paz, decorrente da fraqueza humana; a busca de alimento, para satisfação das necessidades da vida; a aproximação e continuidade dos membros da espécie, como terceira lei; a quarta, o desejo de viver em sociedade.

Em decorrência da vida em sociedade, com a perda do sentimento de fraqueza, começa, segundo Montesquieu, o estado de guerra, fazendo-se necessário o estabelecimento das leis entre os homens, as leis positivas, surgindo daí o Direito das Gentes, para a relação dos povos entre si; o Direito Político, para regular a atividade dos governantes e dos governados em sociedade; e o Direito Civil, para as relações entre os cidadãos. Dentro do contexto humanista iluminista em que estava inserido o autor, ele afirma que “a lei, em geral, é a razão humana”, que governa todos os povos, sendo que “as leis políticas e civis de cada nação devem ser apenas os casos particulares a que se aplica tal razão humana” (Idem, p. 26).

Montesquieu sustenta que as leis devem ser adequadas aos povos, às condições físicas do país, ao gênero de vida dos povos, à religião dos habitantes, aos costumes, aos comportamentos.

Enfim, tais leis mantêm relações entre si; estão relacionadas à sua origem, ao objetivo do legislador, à ordem das coisas sobre as quais foram estabelecidas. É segundo todas essas perspectivas que devem ser consideradas.

É o que tento fazer neste livro. Examinarei todas essas relações: elas formam juntas o que chamamos o ESPÍRITO DAS LEIS” (Idem, p. 26).

O espírito da lei, portanto, está vinculado à totalidade dos valores de uma sociedade, à visão geral de mundo em que foi produzida. É digno de nota, de outro lado, que Montesquieu, de plano, já faz uma distinção entre as leis da natureza e as leis positivas, ainda que se pudesse antever, pela sua própria quarta lei natural, o desejo de viver em sociedade, uma definição da própria natureza da vida humana em sociedade, com as respectivas leis que lhe são inerentes, à razão humana em si.

Se o desejo de viver em paz e em sociedade são leis naturais, é perfeitamente compreensível que haja uma configuração das leis dos homens que expressem a natureza da coisa humana, da humanidade enquanto tal, e tal é o Direito das Gentes, Político e Civil Cristão. De fato, os direitos humanos e a dignidade humana nada mais são do que essa Lei, estando relacionados à ordem das coisas sobre a qual foram estabelecidos, e tal ordem é a ordem de mundo Cristã, que vê o homem como templo do Espírito de Deus, imagem e semelhança de Deus, e daí a citada dignidade, que vale para todo ser humano. A religião e os costumes cristãos, portanto, estão na origem do Espírito da Lei atual, do constitucionalismo do século XXI.

Interessante notar que, ao se referir à educação entre os antigos, em contraposição à de seu tempo, Montesquieu fala de educações diferentes e contrárias: dos pais, dos mestres e do mundo; destacando o contraste entre “os compromissos da religião e do mundo; algo que os antigos não conheciam” (Idem, p. 52).

No vocabulário cristão, apostasia é o termo que pode ser usado para explicar essa divisão que os antigos não conheciam, que ocorre quando há separação entre a vida religiosa e a vida política, e entre a lei moral a lei política e civil, o que certamente aconteceu historicamente dentro do contexto da aliança de Deus com os homens para demonstrar que a vida religiosa, na cientificidade do conhecimento de Deus, do Logos ou razão plena, deve ser vivida à perfeição, para não ser contaminada pela idolatria pagã, pela irracionalidade das superstições do mundo. Neste último caso ocorre a corrupção do povo, quando a violação da lei não gera vergonha, quando a desonra do flagelo, a punição por um crime, deixa de existir, situação que se daria segundo a natureza do homem republicano, movido pela virtude, esta entendida como amor das leis de um país, pois para ele a maior parte do castigo é a infâmia de recebê-lo, porque significa censura pública pela falta de virtude cívica da pessoa.

Pode-se perceber pelo que já foi exposto até aqui que a ideia que nos resta de Montesquieu, da divisão do poder público entre os órgãos legislativo, executivo e judiciário, para ser devidamente entendida, exige uma coerência filosófica e moral inexistente nos dias atuais, tendo a moralidade religiosa e a virtude cívica, de amor às leis, sucumbido à ideologia partidária e ao materialismo.

A própria ideia de razão humana foi sequestrada pelos defensores do “maior absurdo que há”, dos que defendem “que uma fatalidade cega produziu seres inteligentes”, que são as mesmas pessoas que deturpam a dignidade humana para sustentar a legitimidade do aborto, ou que dizem que a união de pessoas do mesmo sexo pode ser chamada de casamento.

Tal é a situação tanto da Europa, das Nações Unidas, e mesmo das Américas, em que a dignidade humana foi subvertida em defesa do egoísmo individual secundado, por um lado, pelo materialismo ateu, e, por outro, pelo tribalismo nacionalista, em que a solidariedade foi ofuscada pelo medo do outro e as teorias da Política e do Direito perderam sua consistência e sua coerência, impedindo que executivo, legislativo e judiciário entendam e realizem o Espírito da Lei.

Conexão simbólica

Existe uma rede de significados que conecta todos os fenômenos, o que é um fato apenas para os que entendem haver cosmos, ao invés de caos, como fundamento último da realidade. Um símbolo aponta para outro, e outro, todos inseridos e conectados racionalmente em uma narrativa de mundo, pressupondo-se que esta seja dotada de racionalidade. Isso vale desde os movimentos mais básicos da natureza, nos campos quânticos e suas influências recíprocas, que condicionam as respectivas interações, dando-lhes sentido dentro dos experimentos científicos em que são estudados; até as reações químicas que ocorrem no cérebro enquanto experimentamos as emoções mais sublimes, ou não, cujas expressões comunicativas, por mais perfeitas que possam ser, não são adequadas para transmitir as realidades que representam, na profundidade do seu significado existencial.

A conexão simbólica, se adequadamente realizada, de todo modo, permite relacionar os símbolos mais sutis, e aparentemente sem significado, a uma narrativa de mundo, ou cosmovisão, dependendo da sensibilidade daquele que experimenta os símbolos, o que também é condicionado pela bagagem simbólica do observador ou intérprete, incluídas a lógica e a coerência interna entre os significados dessa narrativa.

A cosmovisão, por sua vez, é o mundo implícito em que vivemos, em que os significados básicos são presumidos, aceitos, e por isso algos não ditos. Problemas ocorrem, contudo, quando narrativas de mundo com valores opostos se misturam, de modo que determinados fenômenos passam a ter sentido dúbios, até opostos, dependendo da situação ou perspectiva de análise, se dentro de um ou outro sistema de pensamento.

Essa contradição é o pano de fundo para os conflitos que nossa civilização tem presenciado, decorrentes da divergência entre as narrativas religiosa e materialista que se sobrepõem na vida diária das pessoas, causando confusões e oposições de interesses. Para uma cosmovisão, o homem é fruto do acaso, da evolução cega e sem propósito da vida, e esse entendimento condiciona a interpretação geral dos fenômenos da vida, o mesmo valendo para a visão oposta, de natureza religiosa, segundo a qual a presença do homem no cosmos não é acidental, mas fruto da Providência, A Qual determina o significado mais profundo de tudo o que existe, pois há sentido na vida e na história.

A conjugação simbólica dos fenômenos do mundo é distinta para cada uma dessas cosmovisões, o que pode ser considerado desde as hipóteses mas amplas da cosmologia até a interpretação da realidade quântica, quanto ao sentido ou interpretação a ser dada aos fenômenos quânticos, o que vale igualmente para os comportamentos cotidianos das pessoas, dos animais e da natureza.

Segundo entendo, a cosmovisão materialista já foi derrotada pela Ciência, e essa visão é sustentada por diversos pensadores, como Hegel, Jung, Bohm, Amit Goswami, Stephen Meyer, dentre outros. São várias as razões para essa conclusão. Pela inexistência de átomos, que era o fundamento original do materialismo, uma vez que tais partículas sólidas indivisíveis não existem, pois a realidade não é feita de coisas separadas espacialmente, mas de campos energéticos que se interpenetram. Pela temporalidade do universo, porque, ao contrário do que sustentava o pensamento grego, o mundo físico não é eterno, indicando as evidências científicas, tal como pensado pela cosmovisão judaico-cristã, que houve um início das coisas, uma criação do mundo. Pela sintonia fina das constantes da natureza, sendo sua única saída racional (do materialismo) a invenção despudorada do multiverso. Pela assustadora complexidade da vida, cujo funcionamento não pode ser explicado de forma reducionista, das partes para o todo, mas, ao contrário, somente é compreensível do todo para as partes. Pela impossibilidade matemática de ter havido uma evolução cega em sem direção das espécies, por tentativa e erro. Pela singularidade da vida, proporcionada por condições únicas de nosso planeta no universo, incluída sua posição na galáxia, sua formação num tempo cósmico propício, com presença de elementos químicos pesados e com a abundância de carbono, sem falar na existência da lua, dando estabilidade ao movimento planetário, dos planetas gigantes, como Júpiter e Saturno, que nos protegem de astros com capacidade destruidora da vida, como no evento que dizimou os dinossauros.

Por esses e tantos outros argumentos, o que resta ao materialismo é a gritaria e a invencionice, como salientado, tirando da cartola hipóteses ad hoc para fugir da realidade e da conclusão óbvia dos dados científicos, que apontam para uma maravilhosa ordem cósmica, que permitiu o desenvolvimento da vida humana e sua inteligência, situação perfeitamente compatível com o ideário religioso monoteísta, antecipando em mais de dois mil anos os resultados da ciência moderna. É de se considerar o materialismo, destarte, uma cosmovisão antiquada e derrotada, ainda que esse fato não tenha chegado ao conhecimento do grande público, ou mesmo de grande parte da elite intelectual, que insiste em viver segundo os preconceitos científicos datados do século dezenove.

A cosmovisão Cristã, de outro lado, em certa medida, está igualmente presa à ideia de dois mundos, do Reino do outro mundo, associada, como o materialismo, a preconceitos gregos, ao platonismo que se infiltrou na gênese da doutrina Cristã, o que acaba permitindo que sejam ignorados os significados mais profundos da realidade, relativos à unidade material e espiritual do único mundo governado por Deus, especialmente no que toca à importância de todas as pessoas, todos animais, toda a vida do planeta, à interconexão entre tudo o que existe, preconceitos e ideias que, direta ou indiretamente, acarretam seja ignorada a necessidade de uma ordem de mundo verdadeira e plenamente Cristã, especialmente nas políticas nacionais e internacional, nos maiores e menores detalhes, integrando uma relação maior de significado para questões de relevo e, do mesmo modo, para os temas aparentemente menos importantes da vida cotidiana, pela conexão simbólica de tudo o que existe.

Um simples papel no chão, por exemplo, não é algo irrelevante, mas um sinal de desrespeito a normas básicas de educação, e o pior não está no simples papel, mas nas toneladas de dejetos sólidos, líquidos e gasosos eliminados pela população em qualquer lugar, até mesmo nas nossas fontes de água, e, do mesmo modo, destinados indevidamente pelas autoridades públicas, que têm a incumbência profissional de promover tanto a educação das pessoas quanto de um serviço de saneamento básico eficiente. Isso para não falar no descarte diário de seres humanos, por mortes que poderiam ser evitadas por um esforço coletivo de média intensidade.

Os símbolos que vemos por todo lado indicam uma incongruência generalizada no comportamento humano, uma irracionalidade disseminada tanto na vida privada e individual das pessoas como na gestão pública, no serviço que é prestado ignorando os valores mais elevados da comunidade, quando os interesse coletivo é preterido por questões pessoais, egoístas, meramente fugazes. Essa é a manifestação visível da ação do anticristo no mundo.

Daí a necessidade de coerência máxima, de racionalidade Cristã extrema, na preservação da vida, no amor a Deus e ao próximo, nos menores detalhes da atividade cotidiana. É preciso reaprender a viver, significando corretamente as coisas da vida, conforme a adequada racionalidade que rege o mundo, o Logos.

Para isso, e considerando que o amor ao próximo inclui a educação, para aperfeiçoamento dos indivíduos para seu próprio bem e também em benefício da coletividade, é fundamental que os erros nos comportamentos humanos sejam devidamente detectados, apontados para que possam ser corrigidos, por meio de uma educação firme, com dignidade, segundo o mandamento Cristão, conforme ditos milenares do judaísmo:

Quem ama a correção ama o saber; que detesta a correção torna-se imbecil” (Pr 12, 1).

Os conselhos dos injustos são armadilhas mortais, mas a boca dos retos salva do perigo” (Pr 12, 5).

Assim, é necessário significar devidamente o que é correção, o que é conselho reto, distinguindo do que é desvio, do que é conselho que desagrega da verdadeira Ciência, pelo que não se pode tolerar o erro sem a devida advertência, sob pena de a corrupção não ser contida, espalhar-se e tomar cada vez mais espaço na mente e na atividade da comunidade.

O significado do que seja corrupção, enfim, está associado à narrativa de mundo, à cosmovisão, que define o que é erro, pecado, crime, ilícito ou idolatria. Se o materialismo é uma narrativa de mundo falsa, equivocada, baseada em pressupostos que se mostraram inconsistentes, todo cuidado é pouco ao se significar os fenômenos do mundo, para que não sejam influenciados pelos erros de ideias equivocadas, que não podem produzir bons resultados para a vida humana. Igualmente é necessário revisar o significado religioso do mundo, para que os valores Cristãos sejam aplicados em sua forma mais correta e mais ampla, que possam proporcionar a plenitude da vida Cristã para toda a comunidade, devendo ser considerado que o acerto da cosmovisão Cristã em relação à ordem do mundo aponta para a necessidade de observância, igualmente, da moralidade Cristã.

Outrossim, é preciso combater tanto a idolatria materialista quanto a religiosa, porque a idolatria é a prática e a defesa da cosmovisão ou narrativa de mundo que contraria o culto e a adoração do Deus único, impedindo que Sua vontade seja realizada, e por isso a sociedade atual está polarizada, porque existem narrativas de mundo com valores opostos, tanto do lado materialista, que tenta a realização individual das pessoas no mundo sensível, ignorando a realidade espiritual subjacente ao mundo, negando a moralidade Cristã; como deve-se enfrentar as falhas do outro lado ideológico, que despreza a necessidade de uma solidariedade humanitária com todos; exigindo-se, enfim, o pleno cumprimento dos mandamentos Cristãos, de amor ao próximo, incluído o inimigo, para seu arrependimento e salvação, o que inclui a correção deste, com dignidade, no tratamento amoroso de pai para filho, com o rigor que a pedagogia exige, pois: “Quem poupa a vara odeia seu filho, aquele que o ama aplica a disciplina” (Pr 13, 24).

Portanto, somente a adoção integral da correta conexão simbólica permitirá a superação da cisão da humanidade.

Ninguém pode ser escravo de dois senhores. Ou odiará um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir como escravos a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24).

Paulo não era um Cristão

Paul was not a Christian: the original message of a misunderstood apostle”, ou “Paulo não era um Cristão: a mensagem original de um apóstolo incompreendido”, é o nome de um livro de Pamela Eisenbaum, uma Judia com Ph.D. pela Columbia University e que leciona Estudos Bíblicos e Origens Cristãs na Universidade de Denver. A tese da obra é bem lógica e muito interessante, no sentido de que Paulo não foi o fundador do Cristianismo ou um convertido do Judaísmo, e sim alguém que se manteve como um Judeu devoto, que acreditava em Jesus, mas que continuou vinculado ao Judaísmo até sua morte. Como consta na primeira frase do primeiro capítulo do livro, em tradução literal, “Paulo viveu e morreu um Judeu – essa é a reivindicação essencial deste livro”.

A proposta da obra é defender que Paulo não se converteu do Judaísmo após seu encontro com Jesus ressuscitado, um evento fundamental, e místico, que mudou o curso da História, mas apenas evoluiu seus conceitos religiosos judaicos para adiantar seu relógio apocalíptico, entendendo o encontro com Jesus algo como um “chamado de Deus” para cumprir uma missão particular prevista pelos profetas para a escatologia messiânica: levar o conhecimento do Deus único, o Deus de Israel, para todas as nações do mundo.

A autora se baseia nas cartas não disputadas de Paulo, aquelas que os especialistas reconhecem como escritas pelo próprio Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filemon. Isso porque a carta aos Hebreus é reconhecida entre os estudiosos como não tendo sido escrita pelo apóstolo, havendo controvérsia sobre a autoria das cartas aos Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses e das Cartas Pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito).

Essa lista de textos, por si só, já demonstra a importância de se entender, do melhor modo possível, o significado dos escritos de Paulo e de sua mensagem, porque dos 27 (vinte e sete) livros que compõem cânon do Novo Testamento, os 14 (quatorze) citados são relacionados a Paulo, sem falar nos Atos dos Apóstolos, em que, a partir do capítulo 8, até o final, no capítulo 28, são narradas, quase exclusivamente, as atividades de Paulo, pelo que o livro poderia ser chamado de Atos do Apóstolo Paulo.

Por essa e outras razões, Eisenbaum destaca que Paulo é “o segundo homem mais importante na história do Cristianismo”, o que confirma a relevância da correta compreensão de sua mensagem e da interpretação de sua Teologia.

E no desenvolvimento do aspecto teológico, segundo a autora, Agostinho relacionou sua conversão à de Paulo, o que acabou sendo um modelo para o mundo Cristão, dizendo que a leitura de Paulo através de Agostinho prevaleceu, leitura no sentido de que o apóstolo rejeitou o Judaísmo. “Because Augustine stands as the single most important theologian in Christian history, his interpretation of Paul has reigned ever since” (Pamela Eisenbaum. Paul was not a Christian: the original message of a misunderstood apostle. New York. HarperOne – HarperCollins Publishers, 2010, p. 48) (Como Agostinho é individualmente o teólogo mais importante na história Cristã, sua interpretação de Paulo reinou desde então).

Vale dizer que a pesquisa que resultou no livro está inserida em um movimento que pode ser chamado de “Nova perspectiva em Paulo”, no que está incluído o trabalho de N. T. Wright, como narrado no artigo “Teologia Cristã em Paulo” (https://holonomia.com/2019/07/04/teologia-crista-em-paulo/), um debate que é mais afeto ao mundo protestante, porque, como constou no artigo “A cidade de Deus” (https://holonomia.com/2017/12/03/a-cidade-de-deus/), o catolicismo romano segue a escatologia de Agostinho, negando a realização do Reino na História, segundo a doutrina do parágrafo 676 do Catecismo da Igreja Católica:

676. Esta impostura anticrística já se esboça no mundo, sempre que se pretende realizar na história a esperança messiânica, que não pode consumar-se senão para além dela, através do juízo escatológico. A Igreja rejeitou esta falsificação do Reino futuro, mesmo na sua forma mitigada, sob o nome de milenarismo (642), e principalmente sob a forma política dum messianismo secularizado, «intrinsecamente perverso» (643)”.

De outro lado, como mencionado no artigo “Sobre a autoridade secular” (https://holonomia.com/2018/11/28/sobre-a-autoridade-secular/comment-page-1/), tal posição também é amplamente adotada no protestantismo:

Vale salientar que Lutero segue a teoria de Agostinho das duas cidades, proposta que não tem amparo bíblico e que mais se aproxima de uma ideia gnóstica maniqueísta, porque aquele declara que ‘Deus instituiu os dois governos, o (governo) espiritual, que molda os verdadeiros cristãos e as pessoas justas por meio do Espírito Santo sob Cristo, e o governo secular (weltlich), que reprime os maus e os não-cristãos e os obriga a conservarem-se exteriormente em paz e a permanecerem quietos, gostem ou não disso’ (Idem, p. 15).

Calvino adota a mesma linha, não aceitando que a era messiânica ocorra neste mundo, como ainda é esperado pelos judeus:

Mas qualquer um que saiba como distinguir entre a alma e o corpo, entre esta vida transitória atual e a vida eterna que está por vir, não terá dificuldade em compreender que o reino espiritual de Cristo e o governo civil são coisas muitíssimo distantes uma da outra. É uma insensatez judaica esperar o reino de Cristo entre as coisas que constituem este mundo e encarcerá-lo entre elas’ (Idem, p. 73)”.

Contudo, a insensatez talvez seja o entendimento que prevaleceu no Cristianismo desde Agostinho, incluindo o catolicismo e os protestantismos de Lutero e Calvino, rejeitando o aspecto político do Reino de Deus, o que exige que seja devidamente recuperado o significado da mensagem evangélica, daquilo que Jesus efetivamente realizou, inclusive no âmbito político, como o Messias de Israel. Essa releitura do Cristianismo aponta para uma revisão do que seja a religião, no sentido de entender sua natureza essencialmente política, na linha judaica original, assim como segundo o Islamismo, em sua melhor hermenêutica.

Outrossim, é possível fazer até mesmo uma interpretação política do conceito de pecado original, no desenvolvimento de uma Teologia Cristã mais consentânea com o Evangelho na sua perspectiva autêntica, como esboçado no artigo “Pecado original” (https://holonomia.com/2017/11/09/pecado-original/).

Destarte, é necessário interpretar adequadamente o trabalho de Paulo, o que remete o Cristianismo à sua origem judaica, e nesta senda o livro de Eisenbaum é muito significativo, por mais que a visão judaica anterior a Jesus exija o aprimoramento realizado por Paulo, para se entender que a profecia se cumpriu em Jesus, o qual é efetivamente o Messias de Israel e, por sua ressurreição, tornou universal a Lei, moral e política, judaica, como, aliás, também sucede com o Islamismo, na sua interpretação sem deturpação, no sentido de que sua mensagem é, literalmente, segundo o próprio Alcorão, apenas uma confirmação da Torá e do Evangelho.

Daí a importância do livro “Paul was not a Christian”, que aborda questões históricas relevantes, sem deixar de enfrentar assuntos teológicos fundamentais, sobre a salvação através da fé de (ou em) Jesus e/ou com base nas obras (da Lei).

Assim, termino este texto com a mensagem encaminhada à autora do livro em comento:

Eu penso que você entendeu Paulo muito bem, porque ele era realmente um Judeu.

Mas penso que ele também era Cristão, ou melhor, um Cristo.

Minha tese é que Jesus é o problema e a chave para entender o Monoteísmo, pois as três principais religiões têm uma interpretação errada sobre ele, porque na minha opinião ele é o Messias de Israel, ele não é membro de uma trindade e ele é O Profeta.

Jesus salva, na verdade, não apenas os Gentios, mas também os Judeus. Foi o seu Espírito, o Espírito encarnado através dele em nós, que salvou os Judeus e levou Israel de volta à terra prometida. O Estado de Israel é um efeito de Jesus agindo como Messias, embora tenha levado algum tempo para que isso acontecesse, assim como levou tempo para a realização da promessa feita a Abraão sobre todas as nações, como você escreveu em seu livro.

Jesus, de fato, é também uma figura política, e como o Messias, e o maior conhecedor da Lei, ele tinha autoridade para fazer exceções, como ninguém mais. Não haverá ninguém melhor que ele como líder político. Seu exemplo tem que ser seguido na política, porque sua igreja é o estado fundado nos direitos humanos, na dignidade humana, já que somos todos filhos de Deus, a igreja de Jesus não é o que os Cristãos pensam como igreja.

Nesse sentido, sobre o Reino, o Estado de Israel só aconteceu por causa de Jesus, o Messias, já que não foi o povo judeu que levou Israel de volta à terra prometida, mas o Espírito de Cristo, em seus seguidores, o novo Israel, as pessoas com a fé de Jesus, em reação ao holocausto, que cumpriu a profecia. Há uma ligação direta e inegável entre as ações de Jesus, o Messias de Israel, e a restauração da soberania de Israel na terra prometida, pelos direitos humanos, embora o longo tempo passado desde a ressurreição. Foi o tempo de Deus.

Quando Israel reconhecer esse fato, que Jesus é o Messias, eles voltarão, como está escrito em Romanos 11, e eu acho que estamos perto disso. Talvez nossa geração, finalmente, seja a geração.

Na minha opinião, Israel tem que reconhecer Jesus como o Messias para que todos sigam seu exemplo, com sua fé, para serem alter christus, para que Deus possa viver conosco e através de nós.

Paz!

O juiz total, ou juiz holonômico

O juiz total, ou holonômico, é o oposto do juiz parcial, pois enquanto este está ligado a uma das partes aquele se vincula à comunidade como um todo, o que inclui as pretensões ideais das partes como integrantes de uma organização social, da plena acusação à ampla defesa. O juiz total é mais do que o juiz imparcial, ou seja, o que está entre as partes do processo, equidistante, porque naquele estão presentes todas as vontades de todas as partes com deveres e direitos previstos no sistema jurídico, podendo ser também chamado de magistrado pleno, ou completo.

No processo penal, por exemplo, e principalmente, uma vez que em debate eventos afetos aos bens jurídicos mais elevados de uma sociedade, o juiz total, holonômico ou completo atua, simultaneamente, como acusador e defensor, porque tem o compromisso com a decisão justa, isto é, que faça o peso da balança pender para o lado que o Direito determina. O juiz com a mínima consciência jurídica e social não pode permitir que, sob sua jurisdição, o réu potencialmente culpado seja absolvido por ineficiência da acusação, ou que o acusado sem responsabilidade pelo ilícito seja incriminado, para o que é necessário que exerça o poder-dever instrutório, de produção de provas de ofício, para esclarecer a realidade da culpa, a insuficiência de provas de sua ocorrência ou a inocência do acusado. Ainda que essa seja a mesma obrigação do promotor de justiça, não tem o juiz a vinculação psicológica ou a posição institucional, como titular da ação penal, daquele que formulou a peça acusatória, fato este que é capaz de prejudicar a mais perfeita isenção do membro do Parquet.

Quanto ao objeto da ação penal, o próprio sistema jurídico estabelece quais são os valores que devem ser protegidos pelo Estado, ditando os comportamentos que são nocivos à Vida e à integridade social. Nesse sentido, os fatos são tipificados abstratamente como ilícitos, tendo em vista uma ordem geral de mundo, um determinado sentido existencial. Assim, no processo, iniciada a investigação, é dever do juiz providenciar que a definição sobre a ocorrência do crime e a qualificação do fato seja a mais precisa possível, com a maior quantidade de circunstâncias, ou informações juridicamente relevantes, para permitir a certeza sobre a materialidade, a autoria, ou ausência de participação, e a tipicidade, responsabilizando o autor do delito, ou absolvendo o inocente e aquele contra quem não há prova suficiente de culpa, para permitir a recuperação, ainda que simbólica, da ordem de mundo rompida pelo ato ilícito.

Vale dizer que o juiz não tem compromisso com partes concretas, mas com partes ideais, enquanto membros de uma comunidade cônscios de seus direitos e deveres, à procura da verdade dos fatos, segundo as normas jurídicas vigentes, no sentido de buscar indícios que sustentam a acusação, enquanto houver elementos de culpabilidade, e, ao mesmo tempo, verificar todas as condições e situações favoráveis ao réu, uma vez que haja elementos probatórios que apontem para sua culpa, pois sem a prova de responsabilidade ou participação no delito a decisão satisfatória para o juiz, e para a comunidade, é a absolutória.

O magistrado total tem o compromisso com a máxima eficiência do Direito, como um todo, em sua integridade significativa e instrumental, incluído o Direito Processual, cujo objetivo é proporcionar a apreciação do mérito com qualidade, em termos fáticos e teóricos. O Direito, em si, tem uma função, pelo que as normas jurídicas são teleológicas, possuem finalidade, o que é determinado, em termos gerais, por exemplo, pelo artigo 3.º da Constituição Federal, ao dispor sobre os objetivos da República: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

E mesmo no Preâmbulo da Lei Maior são declarados os valores supremos de nossa sociedade: o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça.

A realização da justiça, portanto, é um valor e um objetivo da República, do Estado Brasileiro, estando incluída nessa empreitada, destarte, a absolvição dos inocentes e a responsabilização penal dos delinquentes, para que se arrependam, mudem de mentalidade, por meio do processo, tornando efetivas as normas penais, dando concretude aos valores liberdade e segurança dos cidadãos.

Por isso consta como dever do magistrado, conforme artigo 35 da Lei Orgânica da Magistratura, cumprir e fazer cumprir, com independência, serenidade e exatidão, as disposições legais e os atos de ofício, porque o Poder Judiciário tem especialmente a incumbência de ser o guardião da Constituição.

Assim, e para tanto, segundo o Código de Processo Penal, deve o juiz, de ofício, dentre outras, adotar as seguintes providências: declarar a extinção da punibilidade (art. 61); ordenar o sequestro dos bens imóveis, adquiridos pelo indiciado com os proventos da infração (arts. 125 e 127); proceder à verificação da falsidade (art. 147); instaurar o incidente de insanidade mental do acusado (art. 149); ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida, e determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante (art. 156); proceder a novo interrogatório (art. 196); determinar a busca pessoal ou domiciliar (arts. 240 e 242); impor medidas cautelares (art. 282); decretar, no curso da ação penal, a prisão preventiva (art. 311); aplicar interdições provisórias de direitos (art. 373); e, como presidente do Tribunal do Júri, determinar as diligências destinadas a sanar nulidade ou a suprir falta que prejudique o esclarecimento da verdade (art. 497, XI). São medidas que o juiz deve implementar, a bem da sociedade e do Direito, no processo penal, segundo sua capacidade e experiência pessoal, e sem que, por fazer isso, possa ser tachado de parcial ou suspeito.

O art. 251 do estatuto processual, por sua vez, dispõe que ao juiz incumbirá prover à regularidade do processo, sendo que, por força do art. 5.º da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro, na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.

Outrossim, ninguém mais simboliza ou presentifica o Estado do que Estado-Juiz, que concretiza os valores e todo o sistema jurídico, o Estado de Direito, em sua atividade, nas decisões dos magistrados.

Daí porque o melhor juiz é o holonômico, é a Lei do todo em ação na parte desse todo, sem perda do sentido de totalidade; e o todo, o Direito, em sua integralidade e integridade, deve se fazer presente no processo e no julgamento mais especificamente por seus valores essenciais, porque o julgamento deve manifestar a essência do Estado de Direito, que é, substancialmente, promover a Justiça.

O juiz holonômico, finalmente, sabe que exerce uma função divina, e que será julgado por Aquele que lhe outorgou essa autoridade, porque a Lei do todo também se aplica aos julgadores, pois estes também estão sujeito a julgamento, tanto humano como divino.

Deus se levanta no conselho divino, em meio aos deuses ele julga: ‘Até quando julgareis injustamente, sustentando a causa dos ímpios? Protegei o fraco e o órfão, fazei justiça ao pobre e ao necessitado, libertai o fraco e o indigente, livrai-os da mão dos ímpios! Eles não sabem, não entendem, vagueiam em trevas: todos os fundamentos da terra se abalam. Eu declarei: Vós sois deuses, todos vós sois filhos do Altíssimo; contudo, morrereis como um homem qualquer, caireis como qualquer dos príncipes’. Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois as nações todas pertencem a ti!” (Salmo 82).

Quem é o inimigo?

Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu. Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada — foi expulso para a terra, e seus Anjos foram expulsos com ele. Ouvi então uma voz forte no céu, proclamando: ‘Agora realizou-se a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo: porque foi expulso o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava dia e noite diante do nosso Deus. Eles, porém, o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho, pois desprezaram a própria vida até à morte. Por isso, alegrai-vos, ó céu, e vós que o habitais! Ai da terra e do mar, porque o Diabo desceu para junto de vós cheio de grande furor, sabendo que lhe resta pouco tempo’. Ao ver que fora expulso para a terra, o Dragão pôs-se a perseguir a Mulher que dera à luz o filho varão” (Ap 12, 7-13).

O texto acima representa o momento histórico em que e a humanidade atual está inserida, um tempo de guerra, que já foi vencida no céu, restando pendente sua definição na terra, quando o inimigo da humanidade será acorrentado por mil anos, para que possamos, enfim, viver uma era de paz, até que, ao final, a guerra seja definitivamente vencida.

Mas qual o significado concreto disso tudo?

A passagem transcrita da Escritura se refere a um contexto teológico, político e religioso, inserido na narrativa bíblica de redenção da humanidade, porque houve, em algum momento da história, um rompimento da humanidade com Deus, com reflexo na relação dos homens entre si e com a natureza.

As questões climáticas e ecológicas são parte dos sintomas desse rompimento, são a reação da natureza à violação de suas leis pela espécie humana. Uma vez desrespeitado o sutil equilíbrio cósmico, nós sofremos as consequências, individual e coletivamente, de nossas ações.

O mesmo problema é verificado no âmbito das relações humanas, regulado pela política e pela religião, que, na realidade, são uma só e mesma coisa, fato que somente não é percebido pela cegueira do homem moderno, que, em sua empreitada unilateral decorrente do racionalismo iluminista, perdeu o contato com o sentido da vida, como exposto no artigo anterior.

A grande dificuldade está no fato de que poucos conseguem compreender que, em nome da ciência, a “civilização sucumbiu à fantasia”, sendo que a maioria não entende, de fato, o que acontece a sua volta, porque vive segundo as ideias do passado, e, o pior, segundo uma indevida interpretação dessas ideias, na medida em que as melhores ideias ainda são as do passado, notadamente as ideias de eternidade. Como bem falou Nietzsche no parágrafo 285 de “Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro”:

Os maiores acontecimentos e as maiores ideias — e as ideias maiores são também os maiores acontecimentos — são os últimos a serem compreendidos, as gerações contemporâneas não chegam a vivê-los — passam sempre ao lado deles. Acontece na vida como acontece entre os astros. A luz das estrelas mais longínquas chega mais tarde até nós e tanto que o homem que não as percebeu nega a sua existência. ‘Quantos séculos necessita um espírito para ser compreendido?’”.

Em que pese a loucura de Nietzsche, e sua falta de compreensão do plano mais elevado da realidade, algumas de suas críticas ao pensamento ocidental são válidas, uma vez que o Cristianismo, a principal ideia e o maior evento da história da humanidade, de fato, padece de falhas consideráveis na interpretação que prevaleceu, a começar pela separação artificial entre sociedade política e religiosa, a cidade de Deus e a cidade dos homens, ainda que ao tempo de sua formulação essa interpretação pudesse ter aparência de razoabilidade.

Assim, o maior evento da História ainda não é devidamente vivido, pois se passaram quase vinte séculos sem que Espírito de Cristo tenha sido adequadamente compreendido em sua correta significação política, porque, afinal, o Messias é o Rei dos Judeus, o que, inquestionavelmente, é uma questão de ordem política, e isso também vale para o adversário de Cristo, que age principalmente no mundo político.

O inimigo da humanidade, o Dragão, a Serpente, o Diabo ou Satanás, é o espírito que separa o homem de Deus, e esse espírito, como todo espírito, é invisível, e se manifesta através das ações humanas, pelo que nossos inimigos não são as pessoas, ainda que essas manifestem ou encarnem aquele espírito, dando-lhe expressão concreta, causando mal aos filhos de Deus.

Em sentido oposto, o amigo da humanidade é Cristo, que através de ações humanas manifesta o Espírito de Deus, encarnando a Razão Divina, o Logos, ao fazer o Bem.

Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se praticais o que vos mando” (Jo 15, 12-14).

O Cristo é o servo fiel de Deus, que cumpriu sua missão de mostrar como o Rei, o governante, deve se portar, o que possui uma profunda realidade espiritual e religiosa, daí porque Jesus, o Messias, venceu a guerra no céu, mostrou o dever e o ser do verdadeiro governante, como deve agir, a serviço da Lei Perfeita, que é a Lei de Deus, sendo servo até a morte, dando a vida por seus amigos, e por isso, como Messias, ele é o Rei dos Reis.

Essa guerra já foi vencida no céu, no plano espiritual, no mundo das ideias, na teoria, porque não há exemplo melhor de governante do que o de Cristo, ou Messias, e esse é um exemplo antigo e eterno, que não pode ser superado, e será sempre uma luz contra a mentira e os desvios do poder, o que se apresenta em comportamentos egoístas arraigados na humanidade, que muitas vezes ocorrem sem que o percebamos, inconscientemente.

Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestiais” (Ef 6, 12).

Esses espíritos povoam as regiões celestiais mas agem sobre as pessoas, e até Freud entendeu isso, fazendo com que os interesses individuais contrários à Lei Perfeita sejam realizados, em detrimento do próximo, quando o amor a si exclui o amor ao próximo, quando as vontades pessoais, familiares, partidárias ou ideológicas tentam falar mais alto que a Verdade, o que só pode ocorrer com sucesso de forma provisória, porque a Verdade é invencível, pelo que a guerra será também vencida na terra.

Por isso deveis vestir a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e sair firmes de todo o combate. Portanto, ponde-vos de pé e cingi os vossos rins com a verdade e revesti-vos da couraça da justiça e calçai os vossos pés com a preparação do evangelho da paz, empunhando sempre o escudo da fé, com o qual podereis extinguir os dardos inflamados do Maligno. E tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus” (Ef 6, 13-17).

O que falta, portanto, é a guerra da prática, no plano terreno, no dia a dia, no cotidiano, pela ação conforme a verdade, com a Palavra de Deus, com a Razão, com Logos, inicialmente em nós mesmos, e depois pela pregação ou proclamação da Verdade, para que, enfim, o inimigo seja vencido, individual, pelo exemplo de Cristo, e coletivamente, pela encarnação de seu Espírito, quando as pessoas o compreenderem e passarem a viver encarnando o Logos, ou Vontade Deus, também no âmbito político.

Seja feita Vossa vontade, assim na terra como no céu”.

Cosmos e transcendência

Cosmos e transcendência: rompendo a barreira da crença cientificista” é o mais recente livro de Wolfgang Smith traduzido para o português, lançado originalmente em 1984, em língua inglesa. Já foram editados, em português, do mesmo autor, “O enigma quântico: desvendando a chave oculta”, “Ciência e mito” e “A sabedoria da antiga cosmologia”, obras essas escritas depois de “Cosmos e transcendência”. Consta na orelha deste livro, ora em comento, que “suas pesquisas e artigos em aerodinâmica e campos de difusão forneceram a chave teórica para a solução de problemas de reentrada na atmosfera em viagens espaciais”, tendo Wolfgang Smith obtido Ph.D. em Matemática pela Columbia University, e também foi professor no MIT e na University of California. Trata-se, portanto, de alguém com grande conhecimento teórico e prático, e não de um simples criador de ideias fantasiosas.

Na apresentação, consta a seguinte mensagem de Harry Oldmeadow:

Como este livro não poderia deixar mais claro, a Revolução Científica do século XVII proclamou o triunfo de uma determinada cosmovisão científica (racionalista, materialista), com sua epistemologia (o empirismo) e seus procedimentos (o ‘método científico’). Ao contrário do que supõe o vulgo, a ciência moderna não é tão somente um modo desinteressado, desapegado e não-valorativo de investigar o mundo material: é um complexo de disciplinas e técnicas que se ancora todo ele em pressupostos e atitudes de base cultural, relativos à natureza da realidade e às maneiras mais apropriadas de explorar os fenômenos materiais, explicá-los e, talvez mais significativamente, controlá-los. Com efeito, seria impossível separar dos métodos da ciência moderna as suas teorias e as ideologias que fornecem a sua força motriz – e é a esse novelo emaranhado, ou, no dizer de Wolfgang Smith, aos pressupostos inverificáveis assumidos pelas proposições ‘verificáveis’ da ciência, que o autor aplica o termo cientificismo” (Cosmos e transcendência, p. 9).

No capítulo I é tratado o tema do universo físico, objeto de estudo da Física, relativo às coisas que podem ser descritas em termos matemáticos, do qual é excluído tudo o que não pode ser reduzido a extensão e número. A ideia de universo físico decorre de um pressuposto metafísico que divide a realidade em dois mundos, um extenso e um pensante, o que remonta a Galileu e Descartes, que foi assumido por Newton, e daí penetrou no pensamento científico ainda vigente. Newton adotou a metafísica bifurcacionista, e fortaleceu a “filosofia experimental”, que prevaleceu quase absoluta por duzentos anos, até ser questionada pela relatividade.

Pela física clássica, associada a Newton, o homem era um mero espectador local de um mecanismo eterno, em um espaço absoluto e um tempo absoluto. Contudo, a relatividade passou a exigir a adoção de referenciais, concluindo que não há o espaço e o tempo absolutos da física clássica, tendo a orgânica quântica, então, obrigado o cientista a “admitir que o conhecimento científico é irremediavelmente fenomênico – um conhecimento não de coisas em si mesmas, mas de coisas em relação ao observador” (Cosmos e transcendência, p. 28). Pode-se notar, claramente, por essa citação, que Wolfgang Smith adota uma postura kantiana perante a realidade, pelo que, em que pese o brilhantismo de sua obra, talvez sua posição filosófica, por mais que evolua para superar o materialismo, ainda não seja o que de melhor a razão humana desenvolveu.

Uma vez que a investigação científica, portanto, é o estudo de nossa relação com o cosmos, conclui o autor que o postulado da bifurcação provou-se carente de aval científico, passando a uma ideia opcional, ou seja, “um pressuposto metafísico, que se sustenta ou se derruba em bases estritamente filosóficas” (Idem, p. 33).

O dualismo cartesiano mente-corpo, ou postulado da bifurcação, decorreu da concepção segundo a qual apenas o universo extenso pode ser descrito em termos mecânicos, com leis que regulam o movimento da res extensa, ou matéria, no espaço.

Todo o resto fica relegado a res cogitans, ou substância pensante, que existe por si só como uma espécie de entidade espiritual. É digno de nota que a res cogitans surge a Descartes logo no início das suas meditações como a uniquíssima certeza imediata – o famoso cogito ergo sum –, ao passo que a existência do universo mecânico, âmbito externo à res cogitans, é alcançada só depois por meio de um argumento lógico construído sobre a ideia de Deus e Sua veracidade. É mesmo uma ironia assinalável que a premissa básica do materialismo moderno se tenha fundado sobre a teologia!” (Idem, p. 39)

Wolfgang Smith narra que, a despeito do sucesso do universo mecânico como “doutrina oficial da ciência”, houve quem questionasse seus fundamentos, como George Berkeley, ao sustentar, sobre as coisas não pensantes, que “não podem elas ter existência fora da mente ou da coisa pensante que as percebe”, e que “não há outra substância além do Espírito, ou aquilo que percebe” (Apud Wolfgang Smith, obra citada, p. 42).

Depois veio Kant com sua tentativa de superar o entendimento de Hume, valendo ressaltar que, do mesmo modo como Descartes, aquele:

estava preocupado em apoiar a ciência da mecânica sobre uma firme base teológica. Escutara atento a corrente controvérsia filosófica e entendera que o busílis da questão se encontrava num abismo intransponível entre o cientista e seus objetos. A solução kantiana para o problema resumia-se em puxar os objetos para o lado de cá daquele abismo” (Idem, pp. 42-43).

Wolfgang Smith destaca que Kant, de seu modo, resolve o problema da bifurcação de uma forma compatível com a situação atual da física, segundo a qual o objeto da ciência é nossa relação com o cosmos. Depois cita Edmund Husserl e Alfred North Whitehead, que “são as figuras de maior destaque na refutação filosófica contemporânea da premissa cartesiana”, dizendo, então, que foi dado o “veredicto no julgamento filosófico da cosmovisão ‘científica’: o pressuposto básico dela provou-se insustentável” (Idem, p. 50).

Ainda assim, apesar da “derrocada da física clássica”, a mentalidade dos cientistas continua atrelada à metafísica newtoniana, e a despeito de uma certa sofisticação sobre as noções básicas da ciência, adquirida em razão da física moderna, as questões fundamentais do conhecimento continuam sendo abordadas em um “clima de superficialidade – um pluralismo leviano – que evita e escamoteia o problema básico em vez de resolvê-lo” (Idem, p. 53), porque nossa cosmovisão científica continua a “repousar sobre as velhas fundações newtonianas”, sustentadas pela doutrina cartesiana, sendo que, “apesar de tudo o que se desenrolou no transcurso dos últimos três séculos e meio, essa contestadíssima hipótese ainda constitui o alicerce metafísico da ciência moderna, implicado, como já vimos, pelo próprio conceito de universo físico” (Idem, p. 54).

Este conceito de universo físico, contudo, “é alheio à física num plano técnico e, assim, pouco passa de um capricho pessoal, um tineta desprovida de aval científico” (Idem, pp. 54-55), sendo que a comunidade científica está alheia a esse problema fundamental da ciência.

Isso nos leva, enfim, à conclusão aparentemente paradoxal de que a cosmovisão associada à mais exata das ciências está inçada de equívocos fundamentais. Segue fugindo ao entendimento convencional que a Weltanschauung pretensamente científica se baseia não em legítimas descobertas da ciência, mas em pressupostos filosóficos ocultos que se revelam em última análise autocontraditórios. Em nome da física, a civilização sucumbiu à fantasia” (Idem, p. 57).

Em seguida, Wolgang Smith informa que o cientificismo significou a perda do sentido de transcendência, do entendimento cristão de que o cosmos é uma teofania, ou manifestação de Deus; demonstra que a evolução é apenas uma hipótese geral, ao invés de significar um fato científico incontroverso; e questiona o entendimento da psicologia do século XX, tanto em relação a Freud como Jung.

Ao final, o autor aborda a questão da cosmologia, assunto que será melhor desenvolvido no livro “A sabedoria da antiga cosmologia”, citado mais acima, narrando que a cosmologia é uma doutrina referente ao cosmos em sua inteireza, afirmando que:

as coisas da natureza apontam para além de si próprias; ainda que sejam corpóreas, falam de domínios incorpóreos – são símbolos. Existe mesmo uma correspondência analógica entre os vários planos: ‘como em cima, assim em baixo’, segundo reza o axioma hermético. Não nos esqueçamos que apesar da sua estrutura hierárquica o cosmos constitui uma unidade orgânica, muito afim à unidade orgânica de mente, alma e corpo que podemos vislumbrar em nós mesmos. Acaso o rosto não espelha emoções, os pensamentos ou até o próprio espírito do homem? Viemos a perder de vista que também o cosmos é um ‘animal’, como observavam os filósofos antigos” (Idem, pp. 196-197).

Assim, falando de “coisas que apontam para além de si próprias”, remeto, finalmente, o leitor ao meu artigo “Transcendência imanente” (https://holonomia.com/2017/09/14/transcendencia-imanente/), com uma proposta para resolver o problema da transcendência, que, na linha adotada por Descartes e Kant, é fundada na Teologia, que, de fato, é o fundamento de toda Ciência.

Teologia Cristã em Paulo

A Teologia é uma realidade onipresente na vida moderna, ainda que poucos o percebam, porque os temas teológicos fundamentais são dados como certos pela maioria absoluta das pessoas, estão arraigados nas visões de mundo e nas filosofias que lhes são subjacentes, em suas linhas gerais de pensamento. Na vida cotidiana estão implícitos conceitos desenvolvidos teológica e filosoficamente, que repercutiram, direta e indiretamente, nas variadas ciências, da Física ao Direito, porque a revolução científica, por exemplo, foi baseada em uma visão deísta de ordem do mundo e a dignidade humana é fruto do desenvolvimento filosófico do Cristianismo.

Na tradição ocidental, é possível dizer que, desde o tempo de Jesus, estamos em um processo de mutação teológica, de mudança na compreensão de Deus e de sua ação sobre o mundo, o que teve reflexo na atividade filosófica e científica de grandes pensadores, de Agostinho a Tomás de Aquino, de Descartes a Newton e Galileu.

Assim, é fundamental o retorno à análise dos fundamentos teológicos, filosóficos e científicos que embasam nossa visão de mundo, com destaque para Paulo, o primeiro e grande sistematizador das ideias relativas a Cristo.

Recomendo, pois, o vídeo “Why and How Paul Invented ‘Christian Theology’” (Por que e como Paulo inventou a ‘Teologia Cristã’ – https://www.youtube.com/watch?v=Y4CY73psVFQ), uma palestra proferida pelo teólogo N. T. Wright, no seu trabalho de trazer uma nova perspectiva sobre o significado da mensagem de Paulo, que tem o sentido de ensinar os membros da igreja a pensar de uma nova forma, entendendo como Jesus, o Messias de Israel, revelou, por sua vida, morte e ressurreição, a nova criação de Deus. O que segue é um resumo da referida palestra:

Na abordagem de Paulo, segundo Wright, é ensinado ao Cristão não se conformar com o tempo presente, mas viver na nova era já iniciada por Jesus, devendo o seguidor de Cristo aprender a pensar, e não apenas a se comportar, de acordo com a era inaugurada por Cristo. Assim, a nova comunidade tem uma nova mentalidade, vinculada a Jesus, como Messias, e à nova criação por ele aberta, o Reino de Deus, que possui um modo próprio de pensamento. Indo além das abordagens filosóficas da época, pelas suas disciplinas fundamentais, que eram a física, a ética e a lógica, Paulo direcionou tal conhecimento à cosmovisão do judaísmo, de um modo como ninguém havia feito anteriormente, redefinindo o povo de Deus em termos judaicos e não judaicos, e ensinando a pensar como o Messias.

Em seus escritos, Paulo estimula a comunidade a viver em unidade e em santidade, sendo exigido grande esforço para que a manutenção da unidade não prejudique a santidade, e para que a santidade não se dê pela fragmentação do corpo da comunidade a cada desacordo, o que prejudicaria a unidade. Para tanto é necessário ensinar as pessoas a pensar em termos messiânicos, de modo que a Teologia Cristã seja uma tarefa, uma vocação e uma atribuição de todo Cristão, porque somente assim é concebível que haja a unidade e a santidade da comunidade, como um processo de pensamento que se torne uma realidade.

Paulo está, assim, ensinando a transformação mental da nova era, do Reino de Deus inaugurado pelo Messias de Israel, Jesus. O objetivo de suas cartas, como das Escrituras, é ensinar a direção da viagem do povo de Deus para a era messiânica que já começou com a ressurreição, fazer com que as pessoas aprendam a pensar de modo diferente e a descobrir a rota a seguir, pelo que desafia seus ouvintes a pensar teologicamente, a fazer Teologia Cristã como uma tarefa compartilhada, para amadurecer na nova forma de pensar.

Portanto, pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que há no Amor, pela comunhão no Espírito, por toda ternura e compaixão, levai à plenitude a minha alegria, pondo-vos acordes no mesmo sentimento, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um só do que é seu, mas também do que é dos outros” (Fl 2, 1-4).

Essa atividade só é possível pela mente do Messias, com humildade e abandono de si ao amor. No Messias é oferecida a salvação, mas para isso é necessário seguir o seu exemplo, e o do próprio Paulo, pensando como o Messias, aprendendo a pensar com a mente do Messias, pelo que o desenvolvimento da Teologia Cristã é um trabalho de toda a igreja, de toda a comunidade e de seus integrantes.

O destaque dessa Teologia é a morte e a ressurreição de Jesus, o Messias, que não fazia o menor sentido para o pensamento da época, para judeus ou pagãos, e ainda assim, por mais que absurda tal ideia pudesse ser e pareça, é o marco inaugural do novo mundo, não apenas como um mundo diferente, mas como a transformação do velho mundo a partir de dentro, o que contrariava o senso comum antigo, era uma coisa sem sentido, assim como a ideia de uma comunidade unida em santidade. Nesse processo de mudança entre o mundo velho e o novo, os seguidores do Messias devem ser transformar, pela renovação de sua mentalidade, o que não acontece automaticamente, sendo, na verdade, uma atividade que está em curso desde a ressurreição de Jesus, de formação de uma nova humanidade a partir de uma nova forma de pensamento, uma comunidade de membros com a mente desperta e com plena responsabilidade, porque o Reino de Deus é feito de pessoas, e não de fantoches.

Há uma nova sabedoria desde Cristo, que deve ser buscada por seus seguidores, o que faz com que estes sejam todos teólogos, e não meros dogmáticos, pensando como o povo do Reino de Deus, que vive no mundo da Escritura, em que há um Deus a Quem todas as coisas pertencem, e na mente do Messias.

De Iahweh é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes” (Sl 24, 1)

No ponto, Paulo era um judeu, e recitava regularmente a Shemá, a profissão de fé do Monoteísmo, segundo a qual há somente um Deus.

não há outro Deus a não ser o Deus único. Se bem que existam aqueles que são chamados deuses, quer no céu, quer na terra — e há, de fato, muitos deuses e muitos senhores —, para nós, contudo, existe um só Deus, o Pai, de quem tudo procede e para quem nós somos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem tudo existe e por quem nós somos” (1Cor 8, 4-6).

A Teologia Cristã inventada por Paulo é uma atividade que significa aprender a pensar e a viver na narrativa das promessas feitas a Abraão e a Israel, que se realizaram em Jesus, quando Deus agiu de forma chocante, surpreendente, mudando o mundo, por sua ressurreição, o que foi o cumprimento daquelas antigas promessas.

A atividade teológica de Paulo incluiu o antigo mundo pagão, cuja filosofia abordava as questões de física, ética e lógica, sendo a física a origem do mundo, a ética sobre o comportamento adequado e a lógica a ciência do conhecimento correto. Havia, de outro lado, uma nova física no novo mundo, criado em Jesus, transformado do antigo, e não uma criação ex nihilo; uma nova ética, exigindo que as pessoas vivam com discernimento das coisas, com novos comportamentos; e um novo conhecimento, decorrentes da nova mente do Messias.

Assim, Paulo inventou a Teologia Cristã porque apenas quando a comunidade, ou igreja, está engajada nessa atividade há alguma esperança de realização das virtudes da unidade e da santidade. O trabalho de refletir sobre Deus, sobre o povo de Deus e o futuro de Deus é, assim, a novidade de Paulo, pois esse modo de pensar não ocorria no mundo judeu ou não judeu.

Paulo ensina a pensar uma narrativa escriturística reconfigurada pela mente do Messias, até que essa forma pensar e esse conhecimento encham toda a Terra e toda a criação; e que uma visão judaica da nova criação a partir do Messias é o fundamento para o engajamento criativo de um mundo mais amplo, o que é a disciplina da Teologia Cristã.

Em outras exposições muito pertinentes, “Gifford Lectures 2018” (https://www.youtube.com/watch?v=zdUM0ZB5zT0&list=PLv797D4CCFPAyZfVlS02nzhFD-l2GgHf4), que também ficam indicadas, N. T. Wright aborda o tema do Reino de Deus, esquecido pela Teologia Cristã.

Saindo das lições de Wright, é possível entender que a atual divisão da sociedade seja a consumação de profecias do próprio Jesus, até que, enfim, a comunidade possa se tornar unida e santa, no Reino de Deus.

“‘Pensais que vim para estabelecer a paz sobre a terra? Não, eu vos digo, mas a divisão. Pois doravante, numa casa com cinco pessoas, estarão divididas três contra duas e duas contra três; ficarão divididos: pai contra filho e filho contra pai, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra’.

Dizia ainda às multidões: ‘Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: ‘Vem chuva’, e assim acontece. E quando sopra o vento do sul, dizeis: ‘Vai fazer calor’, e isso sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e por que não discernis o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? Com efeito, enquanto te diriges com teu adversário em busca do magistrado, esforça-te por entrar em acordo com ele no caminho, para que ele não te arraste perante o juiz, o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Eu te digo, não sairás de lá antes de pagares o último centavo’” (Lc 12, 51-59).

No Brasil, enquanto um certo ex-presidente e seus seguidores não entenderem a mensagem mais profunda da passagem acima, e o significado de verdade e santidade, e isso também vale para seus opositores, nossa comunidade continuará dividida…

O cristianismo, se for falso, não tem valor; se for verdadeiro, tem valor infinito. A única coisa que lhe é impossível é ser ‘mais ou menos’ importante”. C. S. Lewis

Direito e fake news

Ao meditar sobre o tema a escrever, deparei-me com uma notícia do sítio Uol, tendo o título: “Ao dizer que gênero é igual a sexo biológico, ministério ignora a ciência” (https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/06/26/ao-dizer-que-genero-e-igual-a-sexo-biologico-ministerio-ignora-a-ciencia.htm).

Pois bem, a apresentação gráfica da página já indica a linha da reportagem, antecipando, sem a menor sombra de dúvida, a posição ideológica do texto e, consequentemente, sua conclusão, uma vez que a coluna tem o nome “Universa”, cujas letras são permeadas pelas cores do arco-íris…

O artigo começa dizendo que a Chancelaria do Brasil está orientado seus diplomatas a reforçar a visão do governo brasileiro no sentido de que gênero e sexo biológico são a mesma coisa. O segundo parágrafo do texto é o seguinte:

Do ponto de vista da Ciência, não há como afirmar que sexo biológico (aquele designado no nascimento) e gênero (como a pessoa se identifica) se refiram ao mesmo conceito. ‘Essa é uma afirmação ideológica, sem base científica’, diz Maria Cristina Cavaleiro, professora da Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp) e pesquisadora de estudos de gênero”.

Entretanto, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 4.ª edição, no verbete “gênero”, consta no item 7: “Antrop. A forma culturalmente elaborada que a diferença sexual toma em cada sociedade, e que se manifesta nos papéis e status atribuídos a cada sexo e constitutivos da identidade sexual dos indivíduos”.

Portanto, a definição de “gênero”, ainda que contenha influência cultural, é condicionada pelo que seja “sexo”, porque esse significado é mencionado três vezes no período citado, indicando uma evidente interdependência entre os conceitos de “gênero” e “sexo”. O mesmo dicionário, no verbete “sexo”, por sua vez, faz constar os seguintes sentidos: “1. Conformação particular que distingue o macho da fêmea, nos animais e nos vegetais, atribuindo-lhes um papel determinado na geração e conferindo-lhes certas características distintivas. 2. O conjunto das pessoas que possem o mesmo sexo. (…) 4. Bras. Os órgãos genitais externos”.

Além da questão linguística, que se aplica a praticamente todas as culturas, indistintamente, condicionando a definição de “gênero” à de “sexo”, a própria biologia, ressalvadas situações excepcionais de hermafroditismo e alguma outra anomalia genética, define o homem e a mulher pelos seus cromossomos específicos, o que está associado à geração e perpetuação da espécie.

Desta feita, se “gênero” está ligado a “sexo” e, no Brasil, este conceito se associa aos “órgãos genitais externos”, anda muito bem a Chancelaria da República Federativa do Brasil, respeitando a cultura nacional e a verdadeira Ciência, ao rejeitar um modismo de feições autoritárias e dizer que gênero e sexo biológico são a mesma coisa.

Numa leitura rasa da situação, portanto, a afirmação ideológica e sem base científica não é dizer que gênero é igual a sexo, mas negar esse fato evidente, e a negativa a essa evidência exige toda uma criação ideológica que transforma os significados milenares das palavras e o conteúdo dos fenômenos do mundo para que eles sejam adequados a uma ideologia igualitária de feições unilaterais e materialistas, associada ao comunismo em sua atual vertente cultural, essa, sim, sem base científica.

Para rebater o argumento comunista primitivo, vale citar uma noção extraída dos comentários ao I Ching, o Livro das Mutações, datado de aproximadamente 3000 a.C, obra que consta como primeira sugestão da lista da Revista Superinteressante de março de 2015, edição especial, a qual arrola os 30 (trinta) livros mais importantes da história, e que começa exatamente com o I Ching, o Livro das Mutações.

A ideia do citado livro, em si, é a ideia básica da ciência, inclusive da física moderna, ao procurar as constâncias por trás das mudanças do mundo, o Tao, o Caminho (Jesus é o Caminho), ou a realidade invisível e una que se mantém eterna por trás dos fenômenos transitórios.

Não é coincidência que o I Ching tenha origem na China, que Hegel comece sua filosofia da História na China, e que esta nação esteja superando a economia dos EUA como a maior a do planeta, que inventou a pólvora, usada para moldar o ocidente, com guerras, criou a impressão com tipos móveis no século XI, cerca de trezentos anos antes de Gutemberg, abandonou o comunismo econômico e nunca adotou sua versão cultural.

O que falta à China é se render ao Cristianismo, o que não tardará acontecer, no correto significado dessa Teologia, Ciência e Cosmovisão. Nesse ponto, a Ciência busca o eterno, e o I Ching traz a ideia de uma realidade permanente além das mudanças da natureza, que seja invariável, não provisória. Essa realidade, mesmo que seja una, é permeada de distinções, que devem ser respeitadas. Como consta no comentário à imagem do hexagrama “10. Lu / A conduta (Trilhar)”:

Assim também entre os homens há, necessariamente, diferenças de nível. É impossível chegar a uma igualdade universal. Porém, o que importa é que as diferenças de nível na sociedade humana não sejam arbitrárias e injustas, pois nesse caso a inveja e a luta de classes se seguiriam inevitavelmente. Se, ao contrário, às diferenças de nível externo corresponderem diferenças de capacidade interna, e o valor interno for o critério para a determinação da hierarquia externa, a tranquilidade reinará entre os homens e a sociedade encontrará ordem” (I Ching: o livro das mutações / tradução do chinês para o alemão, introdução e comentários Richard Wilhelm; prefácio C. G. Jung; introdução à edição brasileira Gustavo Alberto Corrêa Pinto; tradução para o português Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto. São Paulo: Pensamento, 2006, pp. 56-57).

Existe uma necessária ligação entre o mundo interno e o mundo externo, o que inclui, obviamente, os genes, os cromossomos, os órgãos externos, sendo a cisão dessa unidade ontológica uma criação artificiosa da ideologia, que tem inventado igualdades na sociedade humana que são arbitrárias e injustas, porque negam diferenças universais existentes na natureza.

Há uma hierarquia cósmica, e humana, em cujo ápice está Jesus, o Cristo, e enquanto seus verdadeiros valores não forem aceitos e usados como o padrão para a definição da verdade científica, seja pela imprensa ou pela sociedade política, as fake news, dentre as quais a indicada no começo deste artigo, serão um mal social com efeitos cada vez mais nocivos para a vida social.

Não é por acaso que na conversa entre Willian Waack e Luiz Felipe Pondé, no canal Democracia na Teia (https://www.youtube.com/watch?v=UvdcKDNxZcc), é destacado que a grande mídia é vista pela sociedade como divulgadora de fake news, porque o público entende que o jornalismo o está conduzindo para um determinado lado, que é o lado da mentira, perdendo a qualidade de fonte de informação confiável, o que se aplica ao referido sítio Uol.

O grande problema está no fato de que essas igualdades arbitrárias e injustas, essas mentiras, ou fake news, têm sido estabelecidas como “normas jurídicas” por meio de decisões judiciais, especialmente daquela que historicamente pode ser considerada a ínfima corte brasileira, e tal situação vem aumentando as tensões sociais, fomentando uma espécie de luta de classes, cujo resultado já é conhecido, a vitória da Verdade, dos santos de Deus…

A ideologia que nega a Ciência, assim, sequestrou não só o jornalismo, como também o mundo jurídico, e vem tentando, por enquanto, transformar o Direito em fake news