Paulo não era um Cristão

Paul was not a Christian: the original message of a misunderstood apostle”, ou “Paulo não era um Cristão: a mensagem original de um apóstolo incompreendido”, é o nome de um livro de Pamela Eisenbaum, uma Judia com Ph.D. pela Columbia University e que leciona Estudos Bíblicos e Origens Cristãs na Universidade de Denver. A tese da obra é bem lógica e muito interessante, no sentido de que Paulo não foi o fundador do Cristianismo ou um convertido do Judaísmo, e sim alguém que se manteve como um Judeu devoto, que acreditava em Jesus, mas que continuou vinculado ao Judaísmo até sua morte. Como consta na primeira frase do primeiro capítulo do livro, em tradução literal, “Paulo viveu e morreu um Judeu – essa é a reivindicação essencial deste livro”.

A proposta da obra é defender que Paulo não se converteu do Judaísmo após seu encontro com Jesus ressuscitado, um evento fundamental, e místico, que mudou o curso da História, mas apenas evoluiu seus conceitos religiosos judaicos para adiantar seu relógio apocalíptico, entendendo o encontro com Jesus algo como um “chamado de Deus” para cumprir uma missão particular prevista pelos profetas para a escatologia messiânica: levar o conhecimento do Deus único, o Deus de Israel, para todas as nações do mundo.

A autora se baseia nas cartas não disputadas de Paulo, aquelas que os especialistas reconhecem como escritas pelo próprio Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filemon. Isso porque a carta aos Hebreus é reconhecida entre os estudiosos como não tendo sido escrita pelo apóstolo, havendo controvérsia sobre a autoria das cartas aos Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses e das Cartas Pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito).

Essa lista de textos, por si só, já demonstra a importância de se entender, do melhor modo possível, o significado dos escritos de Paulo e de sua mensagem, porque dos 27 (vinte e sete) livros que compõem cânon do Novo Testamento, os 14 (quatorze) citados são relacionados a Paulo, sem falar nos Atos dos Apóstolos, em que, a partir do capítulo 8, até o final, no capítulo 28, são narradas, quase exclusivamente, as atividades de Paulo, pelo que o livro poderia ser chamado de Atos do Apóstolo Paulo.

Por essa e outras razões, Eisenbaum destaca que Paulo é “o segundo homem mais importante na história do Cristianismo”, o que confirma a relevância da correta compreensão de sua mensagem e da interpretação de sua Teologia.

E no desenvolvimento do aspecto teológico, segundo a autora, Agostinho relacionou sua conversão à de Paulo, o que acabou sendo um modelo para o mundo Cristão, dizendo que a leitura de Paulo através de Agostinho prevaleceu, leitura no sentido de que o apóstolo rejeitou o Judaísmo. “Because Augustine stands as the single most important theologian in Christian history, his interpretation of Paul has reigned ever since” (Pamela Eisenbaum. Paul was not a Christian: the original message of a misunderstood apostle. New York. HarperOne – HarperCollins Publishers, 2010, p. 48) (Como Agostinho é individualmente o teólogo mais importante na história Cristã, sua interpretação de Paulo reinou desde então).

Vale dizer que a pesquisa que resultou no livro está inserida em um movimento que pode ser chamado de “Nova perspectiva em Paulo”, no que está incluído o trabalho de N. T. Wright, como narrado no artigo “Teologia Cristã em Paulo” (https://holonomia.com/2019/07/04/teologia-crista-em-paulo/), um debate que é mais afeto ao mundo protestante, porque, como constou no artigo “A cidade de Deus” (https://holonomia.com/2017/12/03/a-cidade-de-deus/), o catolicismo romano segue a escatologia de Agostinho, negando a realização do Reino na História, segundo a doutrina do parágrafo 676 do Catecismo da Igreja Católica:

676. Esta impostura anticrística já se esboça no mundo, sempre que se pretende realizar na história a esperança messiânica, que não pode consumar-se senão para além dela, através do juízo escatológico. A Igreja rejeitou esta falsificação do Reino futuro, mesmo na sua forma mitigada, sob o nome de milenarismo (642), e principalmente sob a forma política dum messianismo secularizado, «intrinsecamente perverso» (643)”.

De outro lado, como mencionado no artigo “Sobre a autoridade secular” (https://holonomia.com/2018/11/28/sobre-a-autoridade-secular/comment-page-1/), tal posição também é amplamente adotada no protestantismo:

Vale salientar que Lutero segue a teoria de Agostinho das duas cidades, proposta que não tem amparo bíblico e que mais se aproxima de uma ideia gnóstica maniqueísta, porque aquele declara que ‘Deus instituiu os dois governos, o (governo) espiritual, que molda os verdadeiros cristãos e as pessoas justas por meio do Espírito Santo sob Cristo, e o governo secular (weltlich), que reprime os maus e os não-cristãos e os obriga a conservarem-se exteriormente em paz e a permanecerem quietos, gostem ou não disso’ (Idem, p. 15).

Calvino adota a mesma linha, não aceitando que a era messiânica ocorra neste mundo, como ainda é esperado pelos judeus:

Mas qualquer um que saiba como distinguir entre a alma e o corpo, entre esta vida transitória atual e a vida eterna que está por vir, não terá dificuldade em compreender que o reino espiritual de Cristo e o governo civil são coisas muitíssimo distantes uma da outra. É uma insensatez judaica esperar o reino de Cristo entre as coisas que constituem este mundo e encarcerá-lo entre elas’ (Idem, p. 73)”.

Contudo, a insensatez talvez seja o entendimento que prevaleceu no Cristianismo desde Agostinho, incluindo o catolicismo e os protestantismos de Lutero e Calvino, rejeitando o aspecto político do Reino de Deus, o que exige que seja devidamente recuperado o significado da mensagem evangélica, daquilo que Jesus efetivamente realizou, inclusive no âmbito político, como o Messias de Israel. Essa releitura do Cristianismo aponta para uma revisão do que seja a religião, no sentido de entender sua natureza essencialmente política, na linha judaica original, assim como segundo o Islamismo, em sua melhor hermenêutica.

Outrossim, é possível fazer até mesmo uma interpretação política do conceito de pecado original, no desenvolvimento de uma Teologia Cristã mais consentânea com o Evangelho na sua perspectiva autêntica, como esboçado no artigo “Pecado original” (https://holonomia.com/2017/11/09/pecado-original/).

Destarte, é necessário interpretar adequadamente o trabalho de Paulo, o que remete o Cristianismo à sua origem judaica, e nesta senda o livro de Eisenbaum é muito significativo, por mais que a visão judaica anterior a Jesus exija o aprimoramento realizado por Paulo, para se entender que a profecia se cumpriu em Jesus, o qual é efetivamente o Messias de Israel e, por sua ressurreição, tornou universal a Lei, moral e política, judaica, como, aliás, também sucede com o Islamismo, na sua interpretação sem deturpação, no sentido de que sua mensagem é, literalmente, segundo o próprio Alcorão, apenas uma confirmação da Torá e do Evangelho.

Daí a importância do livro “Paul was not a Christian”, que aborda questões históricas relevantes, sem deixar de enfrentar assuntos teológicos fundamentais, sobre a salvação através da fé de (ou em) Jesus e/ou com base nas obras (da Lei).

Assim, termino este texto com a mensagem encaminhada à autora do livro em comento:

Eu penso que você entendeu Paulo muito bem, porque ele era realmente um Judeu.

Mas penso que ele também era Cristão, ou melhor, um Cristo.

Minha tese é que Jesus é o problema e a chave para entender o Monoteísmo, pois as três principais religiões têm uma interpretação errada sobre ele, porque na minha opinião ele é o Messias de Israel, ele não é membro de uma trindade e ele é O Profeta.

Jesus salva, na verdade, não apenas os Gentios, mas também os Judeus. Foi o seu Espírito, o Espírito encarnado através dele em nós, que salvou os Judeus e levou Israel de volta à terra prometida. O Estado de Israel é um efeito de Jesus agindo como Messias, embora tenha levado algum tempo para que isso acontecesse, assim como levou tempo para a realização da promessa feita a Abraão sobre todas as nações, como você escreveu em seu livro.

Jesus, de fato, é também uma figura política, e como o Messias, e o maior conhecedor da Lei, ele tinha autoridade para fazer exceções, como ninguém mais. Não haverá ninguém melhor que ele como líder político. Seu exemplo tem que ser seguido na política, porque sua igreja é o estado fundado nos direitos humanos, na dignidade humana, já que somos todos filhos de Deus, a igreja de Jesus não é o que os Cristãos pensam como igreja.

Nesse sentido, sobre o Reino, o Estado de Israel só aconteceu por causa de Jesus, o Messias, já que não foi o povo judeu que levou Israel de volta à terra prometida, mas o Espírito de Cristo, em seus seguidores, o novo Israel, as pessoas com a fé de Jesus, em reação ao holocausto, que cumpriu a profecia. Há uma ligação direta e inegável entre as ações de Jesus, o Messias de Israel, e a restauração da soberania de Israel na terra prometida, pelos direitos humanos, embora o longo tempo passado desde a ressurreição. Foi o tempo de Deus.

Quando Israel reconhecer esse fato, que Jesus é o Messias, eles voltarão, como está escrito em Romanos 11, e eu acho que estamos perto disso. Talvez nossa geração, finalmente, seja a geração.

Na minha opinião, Israel tem que reconhecer Jesus como o Messias para que todos sigam seu exemplo, com sua fé, para serem alter christus, para que Deus possa viver conosco e através de nós.

Paz!

O juiz total, ou juiz holonômico

O juiz total, ou holonômico, é o oposto do juiz parcial, pois enquanto este está ligado a uma das partes aquele se vincula à comunidade como um todo, o que inclui as pretensões ideais das partes como integrantes de uma organização social, da plena acusação à ampla defesa. O juiz total é mais do que o juiz imparcial, ou seja, o que está entre as partes do processo, equidistante, porque naquele estão presentes todas as vontades de todas as partes com deveres e direitos previstos no sistema jurídico, podendo ser também chamado de magistrado pleno, ou completo.

No processo penal, por exemplo, e principalmente, uma vez que em debate eventos afetos aos bens jurídicos mais elevados de uma sociedade, o juiz total, holonômico ou completo atua, simultaneamente, como acusador e defensor, porque tem o compromisso com a decisão justa, isto é, que faça o peso da balança pender para o lado que o Direito determina. O juiz com a mínima consciência jurídica e social não pode permitir que, sob sua jurisdição, o réu potencialmente culpado seja absolvido por ineficiência da acusação, ou que o acusado sem responsabilidade pelo ilícito seja incriminado, para o que é necessário que exerça o poder-dever instrutório, de produção de provas de ofício, para esclarecer a realidade da culpa, a insuficiência de provas de sua ocorrência ou a inocência do acusado. Ainda que essa seja a mesma obrigação do promotor de justiça, não tem o juiz a vinculação psicológica ou a posição institucional, como titular da ação penal, daquele que formulou a peça acusatória, fato este que é capaz de prejudicar a mais perfeita isenção do membro do Parquet.

Quanto ao objeto da ação penal, o próprio sistema jurídico estabelece quais são os valores que devem ser protegidos pelo Estado, ditando os comportamentos que são nocivos à Vida e à integridade social. Nesse sentido, os fatos são tipificados abstratamente como ilícitos, tendo em vista uma ordem geral de mundo, um determinado sentido existencial. Assim, no processo, iniciada a investigação, é dever do juiz providenciar que a definição sobre a ocorrência do crime e a qualificação do fato seja a mais precisa possível, com a maior quantidade de circunstâncias, ou informações juridicamente relevantes, para permitir a certeza sobre a materialidade, a autoria, ou ausência de participação, e a tipicidade, responsabilizando o autor do delito, ou absolvendo o inocente e aquele contra quem não há prova suficiente de culpa, para permitir a recuperação, ainda que simbólica, da ordem de mundo rompida pelo ato ilícito.

Vale dizer que o juiz não tem compromisso com partes concretas, mas com partes ideais, enquanto membros de uma comunidade cônscios de seus direitos e deveres, à procura da verdade dos fatos, segundo as normas jurídicas vigentes, no sentido de buscar indícios que sustentam a acusação, enquanto houver elementos de culpabilidade, e, ao mesmo tempo, verificar todas as condições e situações favoráveis ao réu, uma vez que haja elementos probatórios que apontem para sua culpa, pois sem a prova de responsabilidade ou participação no delito a decisão satisfatória para o juiz, e para a comunidade, é a absolutória.

O magistrado total tem o compromisso com a máxima eficiência do Direito, como um todo, em sua integridade significativa e instrumental, incluído o Direito Processual, cujo objetivo é proporcionar a apreciação do mérito com qualidade, em termos fáticos e teóricos. O Direito, em si, tem uma função, pelo que as normas jurídicas são teleológicas, possuem finalidade, o que é determinado, em termos gerais, por exemplo, pelo artigo 3.º da Constituição Federal, ao dispor sobre os objetivos da República: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

E mesmo no Preâmbulo da Lei Maior são declarados os valores supremos de nossa sociedade: o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça.

A realização da justiça, portanto, é um valor e um objetivo da República, do Estado Brasileiro, estando incluída nessa empreitada, destarte, a absolvição dos inocentes e a responsabilização penal dos delinquentes, para que se arrependam, mudem de mentalidade, por meio do processo, tornando efetivas as normas penais, dando concretude aos valores liberdade e segurança dos cidadãos.

Por isso consta como dever do magistrado, conforme artigo 35 da Lei Orgânica da Magistratura, cumprir e fazer cumprir, com independência, serenidade e exatidão, as disposições legais e os atos de ofício, porque o Poder Judiciário tem especialmente a incumbência de ser o guardião da Constituição.

Assim, e para tanto, segundo o Código de Processo Penal, deve o juiz, de ofício, dentre outras, adotar as seguintes providências: declarar a extinção da punibilidade (art. 61); ordenar o sequestro dos bens imóveis, adquiridos pelo indiciado com os proventos da infração (arts. 125 e 127); proceder à verificação da falsidade (art. 147); instaurar o incidente de insanidade mental do acusado (art. 149); ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida, e determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante (art. 156); proceder a novo interrogatório (art. 196); determinar a busca pessoal ou domiciliar (arts. 240 e 242); impor medidas cautelares (art. 282); decretar, no curso da ação penal, a prisão preventiva (art. 311); aplicar interdições provisórias de direitos (art. 373); e, como presidente do Tribunal do Júri, determinar as diligências destinadas a sanar nulidade ou a suprir falta que prejudique o esclarecimento da verdade (art. 497, XI). São medidas que o juiz deve implementar, a bem da sociedade e do Direito, no processo penal, segundo sua capacidade e experiência pessoal, e sem que, por fazer isso, possa ser tachado de parcial ou suspeito.

O art. 251 do estatuto processual, por sua vez, dispõe que ao juiz incumbirá prover à regularidade do processo, sendo que, por força do art. 5.º da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro, na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.

Outrossim, ninguém mais simboliza ou presentifica o Estado do que Estado-Juiz, que concretiza os valores e todo o sistema jurídico, o Estado de Direito, em sua atividade, nas decisões dos magistrados.

Daí porque o melhor juiz é o holonômico, é a Lei do todo em ação na parte desse todo, sem perda do sentido de totalidade; e o todo, o Direito, em sua integralidade e integridade, deve se fazer presente no processo e no julgamento mais especificamente por seus valores essenciais, porque o julgamento deve manifestar a essência do Estado de Direito, que é, substancialmente, promover a Justiça.

O juiz holonômico, finalmente, sabe que exerce uma função divina, e que será julgado por Aquele que lhe outorgou essa autoridade, porque a Lei do todo também se aplica aos julgadores, pois estes também estão sujeito a julgamento, tanto humano como divino.

Deus se levanta no conselho divino, em meio aos deuses ele julga: ‘Até quando julgareis injustamente, sustentando a causa dos ímpios? Protegei o fraco e o órfão, fazei justiça ao pobre e ao necessitado, libertai o fraco e o indigente, livrai-os da mão dos ímpios! Eles não sabem, não entendem, vagueiam em trevas: todos os fundamentos da terra se abalam. Eu declarei: Vós sois deuses, todos vós sois filhos do Altíssimo; contudo, morrereis como um homem qualquer, caireis como qualquer dos príncipes’. Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois as nações todas pertencem a ti!” (Salmo 82).

Quem é o inimigo?

Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu. Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada — foi expulso para a terra, e seus Anjos foram expulsos com ele. Ouvi então uma voz forte no céu, proclamando: ‘Agora realizou-se a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo: porque foi expulso o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava dia e noite diante do nosso Deus. Eles, porém, o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho, pois desprezaram a própria vida até à morte. Por isso, alegrai-vos, ó céu, e vós que o habitais! Ai da terra e do mar, porque o Diabo desceu para junto de vós cheio de grande furor, sabendo que lhe resta pouco tempo’. Ao ver que fora expulso para a terra, o Dragão pôs-se a perseguir a Mulher que dera à luz o filho varão” (Ap 12, 7-13).

O texto acima representa o momento histórico em que e a humanidade atual está inserida, um tempo de guerra, que já foi vencida no céu, restando pendente sua definição na terra, quando o inimigo da humanidade será acorrentado por mil anos, para que possamos, enfim, viver uma era de paz, até que, ao final, a guerra seja definitivamente vencida.

Mas qual o significado concreto disso tudo?

A passagem transcrita da Escritura se refere a um contexto teológico, político e religioso, inserido na narrativa bíblica de redenção da humanidade, porque houve, em algum momento da história, um rompimento da humanidade com Deus, com reflexo na relação dos homens entre si e com a natureza.

As questões climáticas e ecológicas são parte dos sintomas desse rompimento, são a reação da natureza à violação de suas leis pela espécie humana. Uma vez desrespeitado o sutil equilíbrio cósmico, nós sofremos as consequências, individual e coletivamente, de nossas ações.

O mesmo problema é verificado no âmbito das relações humanas, regulado pela política e pela religião, que, na realidade, são uma só e mesma coisa, fato que somente não é percebido pela cegueira do homem moderno, que, em sua empreitada unilateral decorrente do racionalismo iluminista, perdeu o contato com o sentido da vida, como exposto no artigo anterior.

A grande dificuldade está no fato de que poucos conseguem compreender que, em nome da ciência, a “civilização sucumbiu à fantasia”, sendo que a maioria não entende, de fato, o que acontece a sua volta, porque vive segundo as ideias do passado, e, o pior, segundo uma indevida interpretação dessas ideias, na medida em que as melhores ideias ainda são as do passado, notadamente as ideias de eternidade. Como bem falou Nietzsche no parágrafo 285 de “Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro”:

Os maiores acontecimentos e as maiores ideias — e as ideias maiores são também os maiores acontecimentos — são os últimos a serem compreendidos, as gerações contemporâneas não chegam a vivê-los — passam sempre ao lado deles. Acontece na vida como acontece entre os astros. A luz das estrelas mais longínquas chega mais tarde até nós e tanto que o homem que não as percebeu nega a sua existência. ‘Quantos séculos necessita um espírito para ser compreendido?’”.

Em que pese a loucura de Nietzsche, e sua falta de compreensão do plano mais elevado da realidade, algumas de suas críticas ao pensamento ocidental são válidas, uma vez que o Cristianismo, a principal ideia e o maior evento da história da humanidade, de fato, padece de falhas consideráveis na interpretação que prevaleceu, a começar pela separação artificial entre sociedade política e religiosa, a cidade de Deus e a cidade dos homens, ainda que ao tempo de sua formulação essa interpretação pudesse ter aparência de razoabilidade.

Assim, o maior evento da História ainda não é devidamente vivido, pois se passaram quase vinte séculos sem que Espírito de Cristo tenha sido adequadamente compreendido em sua correta significação política, porque, afinal, o Messias é o Rei dos Judeus, o que, inquestionavelmente, é uma questão de ordem política, e isso também vale para o adversário de Cristo, que age principalmente no mundo político.

O inimigo da humanidade, o Dragão, a Serpente, o Diabo ou Satanás, é o espírito que separa o homem de Deus, e esse espírito, como todo espírito, é invisível, e se manifesta através das ações humanas, pelo que nossos inimigos não são as pessoas, ainda que essas manifestem ou encarnem aquele espírito, dando-lhe expressão concreta, causando mal aos filhos de Deus.

Em sentido oposto, o amigo da humanidade é Cristo, que através de ações humanas manifesta o Espírito de Deus, encarnando a Razão Divina, o Logos, ao fazer o Bem.

Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se praticais o que vos mando” (Jo 15, 12-14).

O Cristo é o servo fiel de Deus, que cumpriu sua missão de mostrar como o Rei, o governante, deve se portar, o que possui uma profunda realidade espiritual e religiosa, daí porque Jesus, o Messias, venceu a guerra no céu, mostrou o dever e o ser do verdadeiro governante, como deve agir, a serviço da Lei Perfeita, que é a Lei de Deus, sendo servo até a morte, dando a vida por seus amigos, e por isso, como Messias, ele é o Rei dos Reis.

Essa guerra já foi vencida no céu, no plano espiritual, no mundo das ideias, na teoria, porque não há exemplo melhor de governante do que o de Cristo, ou Messias, e esse é um exemplo antigo e eterno, que não pode ser superado, e será sempre uma luz contra a mentira e os desvios do poder, o que se apresenta em comportamentos egoístas arraigados na humanidade, que muitas vezes ocorrem sem que o percebamos, inconscientemente.

Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestiais” (Ef 6, 12).

Esses espíritos povoam as regiões celestiais mas agem sobre as pessoas, e até Freud entendeu isso, fazendo com que os interesses individuais contrários à Lei Perfeita sejam realizados, em detrimento do próximo, quando o amor a si exclui o amor ao próximo, quando as vontades pessoais, familiares, partidárias ou ideológicas tentam falar mais alto que a Verdade, o que só pode ocorrer com sucesso de forma provisória, porque a Verdade é invencível, pelo que a guerra será também vencida na terra.

Por isso deveis vestir a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e sair firmes de todo o combate. Portanto, ponde-vos de pé e cingi os vossos rins com a verdade e revesti-vos da couraça da justiça e calçai os vossos pés com a preparação do evangelho da paz, empunhando sempre o escudo da fé, com o qual podereis extinguir os dardos inflamados do Maligno. E tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus” (Ef 6, 13-17).

O que falta, portanto, é a guerra da prática, no plano terreno, no dia a dia, no cotidiano, pela ação conforme a verdade, com a Palavra de Deus, com a Razão, com Logos, inicialmente em nós mesmos, e depois pela pregação ou proclamação da Verdade, para que, enfim, o inimigo seja vencido, individual, pelo exemplo de Cristo, e coletivamente, pela encarnação de seu Espírito, quando as pessoas o compreenderem e passarem a viver encarnando o Logos, ou Vontade Deus, também no âmbito político.

Seja feita Vossa vontade, assim na terra como no céu”.

Cosmos e transcendência

Cosmos e transcendência: rompendo a barreira da crença cientificista” é o mais recente livro de Wolfgang Smith traduzido para o português, lançado originalmente em 1984, em língua inglesa. Já foram editados, em português, do mesmo autor, “O enigma quântico: desvendando a chave oculta”, “Ciência e mito” e “A sabedoria da antiga cosmologia”, obras essas escritas depois de “Cosmos e transcendência”. Consta na orelha deste livro, ora em comento, que “suas pesquisas e artigos em aerodinâmica e campos de difusão forneceram a chave teórica para a solução de problemas de reentrada na atmosfera em viagens espaciais”, tendo Wolfgang Smith obtido Ph.D. em Matemática pela Columbia University, e também foi professor no MIT e na University of California. Trata-se, portanto, de alguém com grande conhecimento teórico e prático, e não de um simples criador de ideias fantasiosas.

Na apresentação, consta a seguinte mensagem de Harry Oldmeadow:

Como este livro não poderia deixar mais claro, a Revolução Científica do século XVII proclamou o triunfo de uma determinada cosmovisão científica (racionalista, materialista), com sua epistemologia (o empirismo) e seus procedimentos (o ‘método científico’). Ao contrário do que supõe o vulgo, a ciência moderna não é tão somente um modo desinteressado, desapegado e não-valorativo de investigar o mundo material: é um complexo de disciplinas e técnicas que se ancora todo ele em pressupostos e atitudes de base cultural, relativos à natureza da realidade e às maneiras mais apropriadas de explorar os fenômenos materiais, explicá-los e, talvez mais significativamente, controlá-los. Com efeito, seria impossível separar dos métodos da ciência moderna as suas teorias e as ideologias que fornecem a sua força motriz – e é a esse novelo emaranhado, ou, no dizer de Wolfgang Smith, aos pressupostos inverificáveis assumidos pelas proposições ‘verificáveis’ da ciência, que o autor aplica o termo cientificismo” (Cosmos e transcendência, p. 9).

No capítulo I é tratado o tema do universo físico, objeto de estudo da Física, relativo às coisas que podem ser descritas em termos matemáticos, do qual é excluído tudo o que não pode ser reduzido a extensão e número. A ideia de universo físico decorre de um pressuposto metafísico que divide a realidade em dois mundos, um extenso e um pensante, o que remonta a Galileu e Descartes, que foi assumido por Newton, e daí penetrou no pensamento científico ainda vigente. Newton adotou a metafísica bifurcacionista, e fortaleceu a “filosofia experimental”, que prevaleceu quase absoluta por duzentos anos, até ser questionada pela relatividade.

Pela física clássica, associada a Newton, o homem era um mero espectador local de um mecanismo eterno, em um espaço absoluto e um tempo absoluto. Contudo, a relatividade passou a exigir a adoção de referenciais, concluindo que não há o espaço e o tempo absolutos da física clássica, tendo a orgânica quântica, então, obrigado o cientista a “admitir que o conhecimento científico é irremediavelmente fenomênico – um conhecimento não de coisas em si mesmas, mas de coisas em relação ao observador” (Cosmos e transcendência, p. 28). Pode-se notar, claramente, por essa citação, que Wolfgang Smith adota uma postura kantiana perante a realidade, pelo que, em que pese o brilhantismo de sua obra, talvez sua posição filosófica, por mais que evolua para superar o materialismo, ainda não seja o que de melhor a razão humana desenvolveu.

Uma vez que a investigação científica, portanto, é o estudo de nossa relação com o cosmos, conclui o autor que o postulado da bifurcação provou-se carente de aval científico, passando a uma ideia opcional, ou seja, “um pressuposto metafísico, que se sustenta ou se derruba em bases estritamente filosóficas” (Idem, p. 33).

O dualismo cartesiano mente-corpo, ou postulado da bifurcação, decorreu da concepção segundo a qual apenas o universo extenso pode ser descrito em termos mecânicos, com leis que regulam o movimento da res extensa, ou matéria, no espaço.

Todo o resto fica relegado a res cogitans, ou substância pensante, que existe por si só como uma espécie de entidade espiritual. É digno de nota que a res cogitans surge a Descartes logo no início das suas meditações como a uniquíssima certeza imediata – o famoso cogito ergo sum –, ao passo que a existência do universo mecânico, âmbito externo à res cogitans, é alcançada só depois por meio de um argumento lógico construído sobre a ideia de Deus e Sua veracidade. É mesmo uma ironia assinalável que a premissa básica do materialismo moderno se tenha fundado sobre a teologia!” (Idem, p. 39)

Wolfgang Smith narra que, a despeito do sucesso do universo mecânico como “doutrina oficial da ciência”, houve quem questionasse seus fundamentos, como George Berkeley, ao sustentar, sobre as coisas não pensantes, que “não podem elas ter existência fora da mente ou da coisa pensante que as percebe”, e que “não há outra substância além do Espírito, ou aquilo que percebe” (Apud Wolfgang Smith, obra citada, p. 42).

Depois veio Kant com sua tentativa de superar o entendimento de Hume, valendo ressaltar que, do mesmo modo como Descartes, aquele:

estava preocupado em apoiar a ciência da mecânica sobre uma firme base teológica. Escutara atento a corrente controvérsia filosófica e entendera que o busílis da questão se encontrava num abismo intransponível entre o cientista e seus objetos. A solução kantiana para o problema resumia-se em puxar os objetos para o lado de cá daquele abismo” (Idem, pp. 42-43).

Wolfgang Smith destaca que Kant, de seu modo, resolve o problema da bifurcação de uma forma compatível com a situação atual da física, segundo a qual o objeto da ciência é nossa relação com o cosmos. Depois cita Edmund Husserl e Alfred North Whitehead, que “são as figuras de maior destaque na refutação filosófica contemporânea da premissa cartesiana”, dizendo, então, que foi dado o “veredicto no julgamento filosófico da cosmovisão ‘científica’: o pressuposto básico dela provou-se insustentável” (Idem, p. 50).

Ainda assim, apesar da “derrocada da física clássica”, a mentalidade dos cientistas continua atrelada à metafísica newtoniana, e a despeito de uma certa sofisticação sobre as noções básicas da ciência, adquirida em razão da física moderna, as questões fundamentais do conhecimento continuam sendo abordadas em um “clima de superficialidade – um pluralismo leviano – que evita e escamoteia o problema básico em vez de resolvê-lo” (Idem, p. 53), porque nossa cosmovisão científica continua a “repousar sobre as velhas fundações newtonianas”, sustentadas pela doutrina cartesiana, sendo que, “apesar de tudo o que se desenrolou no transcurso dos últimos três séculos e meio, essa contestadíssima hipótese ainda constitui o alicerce metafísico da ciência moderna, implicado, como já vimos, pelo próprio conceito de universo físico” (Idem, p. 54).

Este conceito de universo físico, contudo, “é alheio à física num plano técnico e, assim, pouco passa de um capricho pessoal, um tineta desprovida de aval científico” (Idem, pp. 54-55), sendo que a comunidade científica está alheia a esse problema fundamental da ciência.

Isso nos leva, enfim, à conclusão aparentemente paradoxal de que a cosmovisão associada à mais exata das ciências está inçada de equívocos fundamentais. Segue fugindo ao entendimento convencional que a Weltanschauung pretensamente científica se baseia não em legítimas descobertas da ciência, mas em pressupostos filosóficos ocultos que se revelam em última análise autocontraditórios. Em nome da física, a civilização sucumbiu à fantasia” (Idem, p. 57).

Em seguida, Wolgang Smith informa que o cientificismo significou a perda do sentido de transcendência, do entendimento cristão de que o cosmos é uma teofania, ou manifestação de Deus; demonstra que a evolução é apenas uma hipótese geral, ao invés de significar um fato científico incontroverso; e questiona o entendimento da psicologia do século XX, tanto em relação a Freud como Jung.

Ao final, o autor aborda a questão da cosmologia, assunto que será melhor desenvolvido no livro “A sabedoria da antiga cosmologia”, citado mais acima, narrando que a cosmologia é uma doutrina referente ao cosmos em sua inteireza, afirmando que:

as coisas da natureza apontam para além de si próprias; ainda que sejam corpóreas, falam de domínios incorpóreos – são símbolos. Existe mesmo uma correspondência analógica entre os vários planos: ‘como em cima, assim em baixo’, segundo reza o axioma hermético. Não nos esqueçamos que apesar da sua estrutura hierárquica o cosmos constitui uma unidade orgânica, muito afim à unidade orgânica de mente, alma e corpo que podemos vislumbrar em nós mesmos. Acaso o rosto não espelha emoções, os pensamentos ou até o próprio espírito do homem? Viemos a perder de vista que também o cosmos é um ‘animal’, como observavam os filósofos antigos” (Idem, pp. 196-197).

Assim, falando de “coisas que apontam para além de si próprias”, remeto, finalmente, o leitor ao meu artigo “Transcendência imanente” (https://holonomia.com/2017/09/14/transcendencia-imanente/), com uma proposta para resolver o problema da transcendência, que, na linha adotada por Descartes e Kant, é fundada na Teologia, que, de fato, é o fundamento de toda Ciência.

Teologia Cristã em Paulo

A Teologia é uma realidade onipresente na vida moderna, ainda que poucos o percebam, porque os temas teológicos fundamentais são dados como certos pela maioria absoluta das pessoas, estão arraigados nas visões de mundo e nas filosofias que lhes são subjacentes, em suas linhas gerais de pensamento. Na vida cotidiana estão implícitos conceitos desenvolvidos teológica e filosoficamente, que repercutiram, direta e indiretamente, nas variadas ciências, da Física ao Direito, porque a revolução científica, por exemplo, foi baseada em uma visão deísta de ordem do mundo e a dignidade humana é fruto do desenvolvimento filosófico do Cristianismo.

Na tradição ocidental, é possível dizer que, desde o tempo de Jesus, estamos em um processo de mutação teológica, de mudança na compreensão de Deus e de sua ação sobre o mundo, o que teve reflexo na atividade filosófica e científica de grandes pensadores, de Agostinho a Tomás de Aquino, de Descartes a Newton e Galileu.

Assim, é fundamental o retorno à análise dos fundamentos teológicos, filosóficos e científicos que embasam nossa visão de mundo, com destaque para Paulo, o primeiro e grande sistematizador das ideias relativas a Cristo.

Recomendo, pois, o vídeo “Why and How Paul Invented ‘Christian Theology’” (Por que e como Paulo inventou a ‘Teologia Cristã’ – https://www.youtube.com/watch?v=Y4CY73psVFQ), uma palestra proferida pelo teólogo N. T. Wright, no seu trabalho de trazer uma nova perspectiva sobre o significado da mensagem de Paulo, que tem o sentido de ensinar os membros da igreja a pensar de uma nova forma, entendendo como Jesus, o Messias de Israel, revelou, por sua vida, morte e ressurreição, a nova criação de Deus. O que segue é um resumo da referida palestra:

Na abordagem de Paulo, segundo Wright, é ensinado ao Cristão não se conformar com o tempo presente, mas viver na nova era já iniciada por Jesus, devendo o seguidor de Cristo aprender a pensar, e não apenas a se comportar, de acordo com a era inaugurada por Cristo. Assim, a nova comunidade tem uma nova mentalidade, vinculada a Jesus, como Messias, e à nova criação por ele aberta, o Reino de Deus, que possui um modo próprio de pensamento. Indo além das abordagens filosóficas da época, pelas suas disciplinas fundamentais, que eram a física, a ética e a lógica, Paulo direcionou tal conhecimento à cosmovisão do judaísmo, de um modo como ninguém havia feito anteriormente, redefinindo o povo de Deus em termos judaicos e não judaicos, e ensinando a pensar como o Messias.

Em seus escritos, Paulo estimula a comunidade a viver em unidade e em santidade, sendo exigido grande esforço para que a manutenção da unidade não prejudique a santidade, e para que a santidade não se dê pela fragmentação do corpo da comunidade a cada desacordo, o que prejudicaria a unidade. Para tanto é necessário ensinar as pessoas a pensar em termos messiânicos, de modo que a Teologia Cristã seja uma tarefa, uma vocação e uma atribuição de todo Cristão, porque somente assim é concebível que haja a unidade e a santidade da comunidade, como um processo de pensamento que se torne uma realidade.

Paulo está, assim, ensinando a transformação mental da nova era, do Reino de Deus inaugurado pelo Messias de Israel, Jesus. O objetivo de suas cartas, como das Escrituras, é ensinar a direção da viagem do povo de Deus para a era messiânica que já começou com a ressurreição, fazer com que as pessoas aprendam a pensar de modo diferente e a descobrir a rota a seguir, pelo que desafia seus ouvintes a pensar teologicamente, a fazer Teologia Cristã como uma tarefa compartilhada, para amadurecer na nova forma de pensar.

Portanto, pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que há no Amor, pela comunhão no Espírito, por toda ternura e compaixão, levai à plenitude a minha alegria, pondo-vos acordes no mesmo sentimento, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um só do que é seu, mas também do que é dos outros” (Fl 2, 1-4).

Essa atividade só é possível pela mente do Messias, com humildade e abandono de si ao amor. No Messias é oferecida a salvação, mas para isso é necessário seguir o seu exemplo, e o do próprio Paulo, pensando como o Messias, aprendendo a pensar com a mente do Messias, pelo que o desenvolvimento da Teologia Cristã é um trabalho de toda a igreja, de toda a comunidade e de seus integrantes.

O destaque dessa Teologia é a morte e a ressurreição de Jesus, o Messias, que não fazia o menor sentido para o pensamento da época, para judeus ou pagãos, e ainda assim, por mais que absurda tal ideia pudesse ser e pareça, é o marco inaugural do novo mundo, não apenas como um mundo diferente, mas como a transformação do velho mundo a partir de dentro, o que contrariava o senso comum antigo, era uma coisa sem sentido, assim como a ideia de uma comunidade unida em santidade. Nesse processo de mudança entre o mundo velho e o novo, os seguidores do Messias devem ser transformar, pela renovação de sua mentalidade, o que não acontece automaticamente, sendo, na verdade, uma atividade que está em curso desde a ressurreição de Jesus, de formação de uma nova humanidade a partir de uma nova forma de pensamento, uma comunidade de membros com a mente desperta e com plena responsabilidade, porque o Reino de Deus é feito de pessoas, e não de fantoches.

Há uma nova sabedoria desde Cristo, que deve ser buscada por seus seguidores, o que faz com que estes sejam todos teólogos, e não meros dogmáticos, pensando como o povo do Reino de Deus, que vive no mundo da Escritura, em que há um Deus a Quem todas as coisas pertencem, e na mente do Messias.

De Iahweh é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes” (Sl 24, 1)

No ponto, Paulo era um judeu, e recitava regularmente a Shemá, a profissão de fé do Monoteísmo, segundo a qual há somente um Deus.

não há outro Deus a não ser o Deus único. Se bem que existam aqueles que são chamados deuses, quer no céu, quer na terra — e há, de fato, muitos deuses e muitos senhores —, para nós, contudo, existe um só Deus, o Pai, de quem tudo procede e para quem nós somos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem tudo existe e por quem nós somos” (1Cor 8, 4-6).

A Teologia Cristã inventada por Paulo é uma atividade que significa aprender a pensar e a viver na narrativa das promessas feitas a Abraão e a Israel, que se realizaram em Jesus, quando Deus agiu de forma chocante, surpreendente, mudando o mundo, por sua ressurreição, o que foi o cumprimento daquelas antigas promessas.

A atividade teológica de Paulo incluiu o antigo mundo pagão, cuja filosofia abordava as questões de física, ética e lógica, sendo a física a origem do mundo, a ética sobre o comportamento adequado e a lógica a ciência do conhecimento correto. Havia, de outro lado, uma nova física no novo mundo, criado em Jesus, transformado do antigo, e não uma criação ex nihilo; uma nova ética, exigindo que as pessoas vivam com discernimento das coisas, com novos comportamentos; e um novo conhecimento, decorrentes da nova mente do Messias.

Assim, Paulo inventou a Teologia Cristã porque apenas quando a comunidade, ou igreja, está engajada nessa atividade há alguma esperança de realização das virtudes da unidade e da santidade. O trabalho de refletir sobre Deus, sobre o povo de Deus e o futuro de Deus é, assim, a novidade de Paulo, pois esse modo de pensar não ocorria no mundo judeu ou não judeu.

Paulo ensina a pensar uma narrativa escriturística reconfigurada pela mente do Messias, até que essa forma pensar e esse conhecimento encham toda a Terra e toda a criação; e que uma visão judaica da nova criação a partir do Messias é o fundamento para o engajamento criativo de um mundo mais amplo, o que é a disciplina da Teologia Cristã.

Em outras exposições muito pertinentes, “Gifford Lectures 2018” (https://www.youtube.com/watch?v=zdUM0ZB5zT0&list=PLv797D4CCFPAyZfVlS02nzhFD-l2GgHf4), que também ficam indicadas, N. T. Wright aborda o tema do Reino de Deus, esquecido pela Teologia Cristã.

Saindo das lições de Wright, é possível entender que a atual divisão da sociedade seja a consumação de profecias do próprio Jesus, até que, enfim, a comunidade possa se tornar unida e santa, no Reino de Deus.

“‘Pensais que vim para estabelecer a paz sobre a terra? Não, eu vos digo, mas a divisão. Pois doravante, numa casa com cinco pessoas, estarão divididas três contra duas e duas contra três; ficarão divididos: pai contra filho e filho contra pai, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra’.

Dizia ainda às multidões: ‘Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: ‘Vem chuva’, e assim acontece. E quando sopra o vento do sul, dizeis: ‘Vai fazer calor’, e isso sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e por que não discernis o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? Com efeito, enquanto te diriges com teu adversário em busca do magistrado, esforça-te por entrar em acordo com ele no caminho, para que ele não te arraste perante o juiz, o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Eu te digo, não sairás de lá antes de pagares o último centavo’” (Lc 12, 51-59).

No Brasil, enquanto um certo ex-presidente e seus seguidores não entenderem a mensagem mais profunda da passagem acima, e o significado de verdade e santidade, e isso também vale para seus opositores, nossa comunidade continuará dividida…

O cristianismo, se for falso, não tem valor; se for verdadeiro, tem valor infinito. A única coisa que lhe é impossível é ser ‘mais ou menos’ importante”. C. S. Lewis

Direito e fake news

Ao meditar sobre o tema a escrever, deparei-me com uma notícia do sítio Uol, tendo o título: “Ao dizer que gênero é igual a sexo biológico, ministério ignora a ciência” (https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/06/26/ao-dizer-que-genero-e-igual-a-sexo-biologico-ministerio-ignora-a-ciencia.htm).

Pois bem, a apresentação gráfica da página já indica a linha da reportagem, antecipando, sem a menor sombra de dúvida, a posição ideológica do texto e, consequentemente, sua conclusão, uma vez que a coluna tem o nome “Universa”, cujas letras são permeadas pelas cores do arco-íris…

O artigo começa dizendo que a Chancelaria do Brasil está orientado seus diplomatas a reforçar a visão do governo brasileiro no sentido de que gênero e sexo biológico são a mesma coisa. O segundo parágrafo do texto é o seguinte:

Do ponto de vista da Ciência, não há como afirmar que sexo biológico (aquele designado no nascimento) e gênero (como a pessoa se identifica) se refiram ao mesmo conceito. ‘Essa é uma afirmação ideológica, sem base científica’, diz Maria Cristina Cavaleiro, professora da Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp) e pesquisadora de estudos de gênero”.

Entretanto, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 4.ª edição, no verbete “gênero”, consta no item 7: “Antrop. A forma culturalmente elaborada que a diferença sexual toma em cada sociedade, e que se manifesta nos papéis e status atribuídos a cada sexo e constitutivos da identidade sexual dos indivíduos”.

Portanto, a definição de “gênero”, ainda que contenha influência cultural, é condicionada pelo que seja “sexo”, porque esse significado é mencionado três vezes no período citado, indicando uma evidente interdependência entre os conceitos de “gênero” e “sexo”. O mesmo dicionário, no verbete “sexo”, por sua vez, faz constar os seguintes sentidos: “1. Conformação particular que distingue o macho da fêmea, nos animais e nos vegetais, atribuindo-lhes um papel determinado na geração e conferindo-lhes certas características distintivas. 2. O conjunto das pessoas que possem o mesmo sexo. (…) 4. Bras. Os órgãos genitais externos”.

Além da questão linguística, que se aplica a praticamente todas as culturas, indistintamente, condicionando a definição de “gênero” à de “sexo”, a própria biologia, ressalvadas situações excepcionais de hermafroditismo e alguma outra anomalia genética, define o homem e a mulher pelos seus cromossomos específicos, o que está associado à geração e perpetuação da espécie.

Desta feita, se “gênero” está ligado a “sexo” e, no Brasil, este conceito se associa aos “órgãos genitais externos”, anda muito bem a Chancelaria da República Federativa do Brasil, respeitando a cultura nacional e a verdadeira Ciência, ao rejeitar um modismo de feições autoritárias e dizer que gênero e sexo biológico são a mesma coisa.

Numa leitura rasa da situação, portanto, a afirmação ideológica e sem base científica não é dizer que gênero é igual a sexo, mas negar esse fato evidente, e a negativa a essa evidência exige toda uma criação ideológica que transforma os significados milenares das palavras e o conteúdo dos fenômenos do mundo para que eles sejam adequados a uma ideologia igualitária de feições unilaterais e materialistas, associada ao comunismo em sua atual vertente cultural, essa, sim, sem base científica.

Para rebater o argumento comunista primitivo, vale citar uma noção extraída dos comentários ao I Ching, o Livro das Mutações, datado de aproximadamente 3000 a.C, obra que consta como primeira sugestão da lista da Revista Superinteressante de março de 2015, edição especial, a qual arrola os 30 (trinta) livros mais importantes da história, e que começa exatamente com o I Ching, o Livro das Mutações.

A ideia do citado livro, em si, é a ideia básica da ciência, inclusive da física moderna, ao procurar as constâncias por trás das mudanças do mundo, o Tao, o Caminho (Jesus é o Caminho), ou a realidade invisível e una que se mantém eterna por trás dos fenômenos transitórios.

Não é coincidência que o I Ching tenha origem na China, que Hegel comece sua filosofia da História na China, e que esta nação esteja superando a economia dos EUA como a maior a do planeta, que inventou a pólvora, usada para moldar o ocidente, com guerras, criou a impressão com tipos móveis no século XI, cerca de trezentos anos antes de Gutemberg, abandonou o comunismo econômico e nunca adotou sua versão cultural.

O que falta à China é se render ao Cristianismo, o que não tardará acontecer, no correto significado dessa Teologia, Ciência e Cosmovisão. Nesse ponto, a Ciência busca o eterno, e o I Ching traz a ideia de uma realidade permanente além das mudanças da natureza, que seja invariável, não provisória. Essa realidade, mesmo que seja una, é permeada de distinções, que devem ser respeitadas. Como consta no comentário à imagem do hexagrama “10. Lu / A conduta (Trilhar)”:

Assim também entre os homens há, necessariamente, diferenças de nível. É impossível chegar a uma igualdade universal. Porém, o que importa é que as diferenças de nível na sociedade humana não sejam arbitrárias e injustas, pois nesse caso a inveja e a luta de classes se seguiriam inevitavelmente. Se, ao contrário, às diferenças de nível externo corresponderem diferenças de capacidade interna, e o valor interno for o critério para a determinação da hierarquia externa, a tranquilidade reinará entre os homens e a sociedade encontrará ordem” (I Ching: o livro das mutações / tradução do chinês para o alemão, introdução e comentários Richard Wilhelm; prefácio C. G. Jung; introdução à edição brasileira Gustavo Alberto Corrêa Pinto; tradução para o português Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto. São Paulo: Pensamento, 2006, pp. 56-57).

Existe uma necessária ligação entre o mundo interno e o mundo externo, o que inclui, obviamente, os genes, os cromossomos, os órgãos externos, sendo a cisão dessa unidade ontológica uma criação artificiosa da ideologia, que tem inventado igualdades na sociedade humana que são arbitrárias e injustas, porque negam diferenças universais existentes na natureza.

Há uma hierarquia cósmica, e humana, em cujo ápice está Jesus, o Cristo, e enquanto seus verdadeiros valores não forem aceitos e usados como o padrão para a definição da verdade científica, seja pela imprensa ou pela sociedade política, as fake news, dentre as quais a indicada no começo deste artigo, serão um mal social com efeitos cada vez mais nocivos para a vida social.

Não é por acaso que na conversa entre Willian Waack e Luiz Felipe Pondé, no canal Democracia na Teia (https://www.youtube.com/watch?v=UvdcKDNxZcc), é destacado que a grande mídia é vista pela sociedade como divulgadora de fake news, porque o público entende que o jornalismo o está conduzindo para um determinado lado, que é o lado da mentira, perdendo a qualidade de fonte de informação confiável, o que se aplica ao referido sítio Uol.

O grande problema está no fato de que essas igualdades arbitrárias e injustas, essas mentiras, ou fake news, têm sido estabelecidas como “normas jurídicas” por meio de decisões judiciais, especialmente daquela que historicamente pode ser considerada a ínfima corte brasileira, e tal situação vem aumentando as tensões sociais, fomentando uma espécie de luta de classes, cujo resultado já é conhecido, a vitória da Verdade, dos santos de Deus…

A ideologia que nega a Ciência, assim, sequestrou não só o jornalismo, como também o mundo jurídico, e vem tentando, por enquanto, transformar o Direito em fake news

A Teologia como definidora da relação entre mente e matéria

  1. A relação entre mente e corpo, ou mente e matéria, está na base e na ponta do desenvolvimento científico. Fundamental para a modernidade foi o trabalho racionalista de Descartes, propondo a separação entre as substâncias pensante e extensa, ideia cujo desenvolvimento permitiu que o conhecimento humano chegasse até a física moderna. Contudo, o dualismo cartesiano chegou ao seu limite, sendo necessário superar a proposta de duas substâncias distintas, porque a realidade física aponta para uma comunicação intrínseca, ou unidade, entre mente e matéria, o que talvez seja o tema mais atual da neurociência.

  2. A posição filosófica quanto à relação entre mente e matéria é condicionada, todavia, por uma delimitação teológica que antecede conceitualmente a questão. O ateísmo, como regra, sustenta o monismo materialista, no sentido de que a realidade é apenas material, sendo a mente um epifenômeno decorrente da atividade material ocorrida no cérebro, ou seja, a mente é o mero resultado de reações químicas.

  3. O dualismo cartesiano clássico é o entendimento que talvez seja melhor relacionado à cosmovisão deísta, que sustenta a ideia de um Deus criador, mas que não interfere na história do universo. Pelo deísmo, o mundo foi criado por uma inteligência superior, segundo leis racionais, e apenas essas leis passaram a governar o cosmos após a criação, sem que haja interferência divina nos acontecimentos da história, pelo que o deísmo, tradicionalmente, exclui a possibilidade de ocorrência de milagres. Aqui uma ressalva é cabível, pois somente é possível uma definição adequada de milagre com o pleno conhecimento do funcionamento da natureza, posição cognitiva da qual nossa ciência está muitíssimo afastada.

  4. Finalmente, para o teísta, o monismo materialista ou mesmo o dualismo cartesiano não podem ser a melhor hipótese para explicar a relação entre mente e corpo, porque o Cristianismo, por exemplo, o que vale também para o Judaísmo e o Islamismo, é baseado numa espécie de mistura entre as realidades espiritual e material, interferindo Deus, que é Espírito, constantemente, na História humana, do Gênesis ao Apocalipse, podendo ser citados como exemplos o Dilúvio, o Êxodo e a Ressurreição.

  5. Na discussão filosófica sobre o tema, remeto o leitor para o artigo “Nem dualismo, nem monismo: a totalidade indivisa de David Bohm”, escrito por Cínthia Roso Oliveira e Sofia Inês Albornoz Stein, que pode ser encontrado no sítio da Revista Kínesis (http://revistas.marilia.unesp.br/index.php/kinesis/article/view/6413), no qual é discutida a natureza da mente a partir da interpretação da física quântica formulada por David Bohm, como resumido na seguinte passagem:

    Bohm critica qualquer forma de reducionismo; diante disso ele parece se afastar tanto dos monismos idealistas quanto dos monismos materialistas. Para estes últimos, tudo o que existe é material ou se reduz a algo material, inclusive para os materialistas emergentistas as propriedades mentais de certa forma se reduzem às materiais, já que só existem por causa delas.”

  6. No referido texto é informado que Bohm critica o dualismo cartesiano, mas não se enquadra propriamente no que é chamado monismo neutro, segundo o qual a distinção mente-matéria seria formal, como uma distinção de propriedades de uma substância, “pois, apesar da semelhança entre as propostas de que a realidade última é neutra e tem propriedades mentais e materiais, para Bohm, tal realidade não se reduz a uma única substância cujas características já são completamente conhecidas”.

  7. O artigo também sustenta que a teoria de Bohm não se enquadra na proposta idealista, afirmando que: “Para o idealismo, de modo geral, o que existe e é conhecido são imaginações do sujeito, portanto tem um caráter subjetivo”. Uma vez que, pela hipótese de Bohm “as percepções não são estritamente subjetivas, mas podem ser compartilhadas”, ele não pode ser considerado um idealista.

  8. Contudo, o idealismo adotado pelo texto, extraído do Dicionário de filosofia de Abbagnano, possivelmente não é o mesmo adotado por Bohm, porque o idealismo da subjetividade é essencialmente associado à filosofia de Kant, e é sabido que Bohm foi influenciado pela leitura de Hegel, pelo que talvez possa ser considerado inserido em um idealismo objetivo ou metakantiano, caso não possa ser nominado de hegeliano. Não cabe aqui, entretanto, uma discussão sobre a interpretação da filosofia de Hegel dentro do idealismo ou sua influência sobre Bohm, valendo dizer que qualquer abordagem razoável do hegelianismo, por si só, é uma tese de doutorado em Filosofia, uma vez que não é possível entender Hegel sem conhecer Filosofia, e é muito provável que seja impossível um pensamento verdadeiramente filosófico e atual que ignore Hegel.

  9. De todo modo, Bohm rejeita tanto o materialismo quanto o dualismo, sendo certo que sua proposta, ainda que não seja associada às formas de idealismo tradicionais, mais se aproxima da essência idealista, ao considerar, como citado mais à frente, a existência de uma espécie de mente universal, apesar de ele não aceitar o que chama de reducionismo idealista, segundo o qual a matéria é reduzida um tipo de pensamento, por exemplo, na mente de Deus.

  10. No artigo “A new theory of the relationship of mind and matter” (http://www.tcm.phy.cam.ac.uk/~mdt26/local_papers/bohm_mind_matter_1990.pdf), Bohm desenvolve alguns de seus principais argumentos, para, numa tradução livre, “reunir os lados físico e mental da realidade”, sustentando uma nova forma de pensar, que é consistente com a física moderna, não separando a mente da matéria, o observador do observado, o sujeito do objeto.

  11. Bohm defende que, segundo o mundo quântico, nem mesmo a matéria inanimada pode ser adequadamente entendida em termos cartesianos, algo que apenas ocupa lugar no espaço, o que implica que também a mente possui sempre um aspecto físico, ainda que este seja muito sutil, havendo a possibilidade de uma relação real entre matéria e mente, as quais nunca tiveram a distinção absoluta sustentada por Descartes, ou pelos materialistas emergentistas.

  12. Segundo a ordem implicada, conceito desenvolvido por Bohm: “the whole universe is in some way enfolded in everything and that each thing is enfolded in the whole. From this it follows that in some way, and to some degree everything enfolds or implicates everything” (todo o universo está de algum modo envolvido em tudo e cada coisa está envolvida no todo. Daí resulta que, de algum modo, e até certo ponto, tudo envolve ou implica tudo). “It follows that each thing is internally related to the whole, and therefore, to everything else” (Segue-se que cada coisa está internamente relacionada ao todo e, portanto, a todo o resto).

  13. Bohm, nesse ponto, está na mesma linha da hermenêutica de Gadamer, um dos grandes filósofos do século XX, como pode ser observado no vídeo “Gadamer’s Hermeneutics” (https://www.youtube.com/watch?v=BJ9Lc0Tk9-Q), quando Gadamer afirma que é uma regra hermenêutica que o todo deve ser entendido do modo individual e o individual nos termos do todo, e que o movimento do entendimento é sempre do todo para a parte e de volta para o todo.

  14. Desenvolvendo a relação do todo com a parte, Bohm apresenta um novo conceito, de informação ativa, ligado ao de potencial quântico, sugerindo que o elétron pode ser muito mais complexo do que pensamos, em razão de nosso desconhecimento quanto à realidade física de dimensões inferiores a dez elevado a menos dezessete centímetros, que é o espaço mínimo até o qual nossos experimentos conseguiram atingir. Desse modo, “The notion of active information implies, as we have seen, the possibility of a certain kind of wholeness of the electron with distant features of its environment” (A noção de informação ativa implica, como vimos, a possibilidade de um certo tipo de completude do elétron com características distantes de seu ambiente).

  15. Além disso, o potencial quântico permite que duas ou mais partículas sejam afetadas uma pelas outras, mesmo a longas distâncias, fenômeno que hoje é bem conhecido como entrelaçamento quântico, que comprova a não localidade da realidade física. Portanto, prossegue Bohm, o comportamento básico da matéria envolve características como completude, não localidade e movimento organizado, ainda que no nível ordinário dos fenômenos tais características não sejam facilmente encontradas.

  16. Daí a comparação entre o comportamento material e mental, porque “the whole notion of active information suggests a rudimentary mind-like behaviour of matter, for an essential quality of mind is just the activity of form, rather than of substance. Thus, for example, when we read a printed page, we do not assimilate the substance of the paper, but only the forms of the letters, and it is these forms which give rise to an information content in the reader which is manifested actively in his or her subsequent activities” (toda a noção de informação ativa sugere um comportamento mental rudimentar da matéria, pois uma qualidade essencial da mente é apenas a atividade da forma, e não da substância. Assim, por exemplo, quando lemos uma página impressa, não assimilamos a substância do papel, mas apenas as formas das letras, e são essas formas que dão origem a um conteúdo de informação no leitor que se manifesta ativamente em suas atividades subsequentes).

  17. Bohm dá um exemplo do comportamento de uma pessoa diante de uma sombra que pode significar a presença de um assaltante, o que acarreta reações mentais, físicas, elétricas e químicas no corpo da pessoa, quando informações mentais se associam a processos físicos. E afirma:

    It seems clear from all this that at least in the context of the processes of thought, there is a kind of active information that is simultaneously physical and mental in nature. Active information can thus serve as a kind of link or ‘bridge’ between these two sides of reality as a whole. These two sides are inseparable, in the sense that information contained in thought, which we feel to be on the ‘mental’ side, is at the same time a related neurophysiological, chemical, and physical activity (which is clearly what is meant by the ‘material’ side of this thought)”. (Parece claro de tudo isso que, pelo menos no contexto dos processos de pensamento, existe uma espécie de informação ativa que é simultaneamente física e mental. A informação ativa pode, portanto, servir como um tipo de ligação ou ‘ponte’ entre esses dois lados da realidade como um todo. Esses dois lados são inseparáveis, no sentido de que a informação contida no pensamento, que sentimos estar do lado ‘mental’, é ao mesmo tempo uma atividade neurofisiológica, química e física relacionada – que é claramente o que se entende por lado ‘material’ deste pensamento).

  18. A conclusão de Bohm é no sentido de que a ordem implicada possui uma série de níveis inter-relacionados em que os mais sutis, como pensamentos, sentimentos e reações físicas, tanto desdobram como envolvem aquelas que são menos sutis, unindo, assim, mente e matéria em um único processo, que é essencialmente o mesmo, de modo que aquilo que experimentamos como mente, em seu movimento através de vários níveis de sutileza, irá, num processo natural, em última análise, movimentar o corpo ao alcançar o nível do potencial quântico e o das partículas atômicas.

  19. Existe, portanto, uma participação entre os vários níveis da realidade.

    For the human being, all of this implies a thoroughgoing wholeness, in which mental and physical sides participate very closely in each other. Likewise, intellect, emotion, and the whole state of the body are in a similar flux of fundamental participation. Thus, there is no real division between mind and matter, psyche and soma.” (Para o ser humano, tudo isso implica uma completude arrebatadora, na qual os lados mental e físico participam muito de perto um do outro. Da mesma forma, intelecto, emoção e todo o estado do corpo estão em um fluxo similar de participação fundamental. Assim, não há divisão real entre mente e matéria, psique e soma).

  20. E continua:

    Extending this view, we see that each human being similarly participates in an inseparable way in society and in the planet as a whole. What may be suggested further is that such participation goes on to a greater collective mind, and perhaps ultimately to some yet more comprehensive mind in principle capable of going indefinitely beyond even the human species as a whole” (Estendendo este ponto de vista, vemos que cada ser humano participa de forma semelhante em um inseparável na sociedade e no planeta como um todo. O que pode ser sugerido mais além é que essa participação se estende a uma mente coletiva maior, e talvez em última análise, para alguma mente ainda mais abrangente, em princípio, capaz de ir indefinidamente além da espécie humana como um todo).

  21. Outrossim, pelo desenvolvimento da proposta de Bohm, seguindo as ideias do parágrafo anterior, é possível caminhar da realidade física para a espiritual, e até mesmo chegar à Teologia. Não é por acaso, obviamente, que suas ideias não foram aceitas pelo mundo acadêmico de meados do século XX, dominado pelo materialismo.

  22. E assim voltamos ao dualismo cartesiano, em processo de superação em razão dos resultados científicos da física moderna, e ao entendimento teológico anterior àquele dualismo, e que o influenciou, associado à interpretação agostiniana do livro do Apocalipse e da escatologia Cristã, segundo a qual não haverá o milênio ou o Reino de Deus na história humana, como exposto no artigo “A cidade de Deus” (https://holonomia.com/2017/12/03/a-cidade-de-deus/), visão religiosa de separação entre Deus e os homens que possibilitou a distinção entre corpo e mente, ou corpo e alma.

  23. A união entre mente e matéria, portanto, está associada à realização do Reino de Deus, a uma Teologia e suas concepções fundamentais da realidade e da História humana, que já foram reveladas no Antigo Testamento, indicando que a espécie humana, coletivamente, participará do Espírito de Deus, da Mente Cósmica:

    Depois disto, derramarei o meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Mesmo sobre os escravos e sobre as escravas, naqueles dias, derramarei o meu espírito” (Jl 3, 1).

    Concluirei com eles uma aliança de paz, a qual será uma aliança eterna. Estabelecê-los-ei e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre. A minha Habitação estará no meio deles: eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Assim saberão as nações que eu sou Iahweh, aquele que santifica Israel, quando o meu santuário estiver no meio deles para sempre” (Ez 37, 26-28).

Constitucionalismo

A questão da continuidade, descrita no último artigo, tem relevância filosófica ampla, aplicando-se também às chamadas ciências humanas, incluídos o Direito e a História, porque o materialismo tem uma ideia recorrente de secionar os eventos, atomisticamente, como se não houvesse uma interdependência geral entre todos os fenômenos, tanto físicos e materiais quanto humanos e espirituais, para assim romper com a unidade da cadeia existencial e simbólica do ser.

No artigo “Estado, Cristo e culto” (https://holonomia.com/2018/07/30/estado-cristo-e-culto/), por exemplo, foi ressaltado o corte temporal a partir do qual é adotado o conceito de Estado, o qual seria emergente da Paz de Westfália, em 1648, segundo Canotilho. Com essa posição, tudo o que é anterior a essa época é remetido ao mundo obscuro e irracional do tempo medieval, da antiguidade e da pré-história, ao invés de se considerar uma evolução dos conceitos, por seu aprimoramento racional, a partir das ideias nacionais anteriores, de origem religiosa.

O mesmo vale para o estudo do constitucionalismo, que normalmente é iniciado a partir das experiências inglesa, francesa ou estadunidense, todas do segundo milênio depois de Cristo. Contudo, a essência desse conceito já vinha sendo desenvolvida desde a antiguidade.

A história do constitucionalismo, segundo Karl Loewenstein, revela a busca do homem político das limitações ao poder absoluto exercido pelos detentores do poder, assim como o esforço de estabelecer uma justificação espiritual, moral e ética da autoridade, no lugar da submissão cega à facilidade da autoridade existente. Essas aspirações se concretizam na necessária aprovação, por parte dos destinatários do poder, dos controles sociais exercidos pelos dominadores e, consequentemente, na participação ativa dos dominados no processo político.

Os hebreus já divisavam a existência do constitucionalismo como movimento de organização do Estado, que criaram limites, pela chamada ‘lei do Senhor’ ao poder político. Cabia aos profetas, legitimados pela vontade popular, fiscalizar e punir os atos dos governantes que ultrapassavam os limites bíblicos” (Kildare Gonçalves Carvalho. Direito constitucional. 13 ed. Belo Horizone: Del Rey, 2007, p. 250 – negrito meu).

O constitucionalismo está associado, outrossim, à ideia de governo de leis, em contraposição à de governo de homens, bem como à questão da natureza, das funções e dos fins do Estado e do Direito, temas que se desdobram da Filosofia, ao justificar espiritual, moral e eticamente a autoridade, e alcançam a realidade da vida através da prática constitucional, consciente ou inconscientemente, no meio social, político e jurídico.

Voltando à questão histórica, nunca é demais relembrar que foi a Filosofia de matiz Cristã que desenvolveu os conceitos dos quais decorreram a ideia de dignidade humana e os direitos humanos, que estão na base do constitucionalismo moderno. É muito difícil, ou até mesmo impossível, imaginar a existência de direitos humanos sem o longo processo de desenvolvimento histórico e teórico, havido no seio do mundo Cristão, das ideias contidas no Evangelho de Jesus Cristo. O materialista, convenientemente, esquece esse “detalhe”, que é um ponto racionalmente fundamental, em sua abordagem histórico-jurídica, pensando que as instituições humanas começaram com o iluminismo e com as revoluções do século XVIII.

É indispensável, por isso, enfrentar o âmago do constitucionalismo, em sua essência, relativo não apenas às limitações ao uso da força pública pelos detentores do poder, mas especialmente à justificação espiritual, moral e ética da autoridade e ao tópico fundamental sobre a natureza, as funções e os fins do Estado e do Direito. Tais temas somente podem ser abordados dentro uma leitura filosófica da realidade, que transborda, necessariamente, para um princípio fundamental do pensamento, para uma Filosofia Primeira, ou Teologia, para usar uma expressão aristotélica.

Com isso, retorna-se ao conteúdo do artigo “Deus é o Direito: Jesus Cristo e o controle de constitucionalidade” (https://holonomia.com/2017/04/22/deus-e-o-direito-jesus-cristo-e-o-controle-de-constitucionalidade/), em que são revisados os conceitos religiosos fundamentais do Cristianismo em sua significação histórica e política, que estão na origem das noções modernas de Estado e Direito, conceitos dos quais estas noções são racional e ontologicamente dependentes.

O constitucionalismo significa o estudo da racionalidade dos valores fundamentais de uma sociedade, de uma nação, que por isso são racionalizados como norma fundamental, como legislação básica, mais importante, da comunidade política, sobre o modo e o fim do exercício do poder público organizado.

A norma fundamental racionalizada decorre, assim, de uma norma fundamental postulada pelo pensamento lógico, tida como princípio de organização da própria racionalidade social, tendente a transcender a temporalidade humana normal, e que significa a norma fundamental hipotética em que está ancorada a Constituição como norma fundamental concreta, como Carta Política ou Lei Maior de um Estado.

A norma fundamental hipotética é, destarte, a própria hipótese científica primeira, em sua racionalidade primária, que contém os princípios ou axiomas dos quais decorrem toda a teoria e toda atividade científica, em seus vários ramos. Todo pensamento e toda atividade mental ou racional têm origem em uma realidade inicial, seja o eu pensante, o átomo, uma ideia, o Logos, em que se funda a hipótese científica inicial, a partir da qual são desenvolvidas, logicamente, as demais hipóteses, argumentos e pensamentos.

No âmbito do Direito, propriamente dito, a norma fundamental pode ser expressa por meio de dois princípios essenciais ou estruturantes do pensamento jurídico, desdobrados da hipótese científica primeira, que inclui a racionalidade humana como pressuposto. O primeiro é o princípio da unidade intelectual, ou princípio da realidade normativa. O segundo é o princípio da preservação e desenvolvimento da Vida.

Tais princípios e seus significados determinam a Constituição material, a Constituição formal e sua interpretação, por exemplo, quanto à extensão da intelectualidade ou da vida, neste caso do rei ou do sacerdote, sua família, seus ajudantes, sua comunidade até, finalmente, toda a humanidade, último estágio, decorrente da constituição Cristã. Os princípios funcionam como os axiomas da Matemática, uma vez que as demais normas, regras e princípios jurídicos são desdobramentos daqueles vetores axiológicos primários, são o seu desenvolvimento por dedução lógica.

O primeiro princípio é o equivalente moderno do primeiro mandamento Cristão; o outro, do segundo mandamento Cristão. Eis a essência do constitucionalismo Cristão:

Amarás o Senhor teu Deus em todo o teu coração em toda a tua alma e em todo o teu entendimento. Este é o grande, o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos está suspensa toda a Lei e os Profetas” (Mt 22, 37-40).

O princípio da unidade intelectual, ou princípio da realidade normativa, significa a necessidade lógica de os sentimentos, os movimentos internos e externos e a racionalidade estarem coerentemente vinculados aos valores mais elevados de uma pessoa e de uma comunidade, expressando sua realidade na vida de cada um e na dinâmica da organização social. É o princípio de moralidade, como fundamento primeiro do comportamento segundo uma racionalidade integral, ou ética de vida. O princípio da preservação e desenvolvimento da Vida implica no reconhecimento da inviolabilidade da vida humana e sua dignidade, como resultado da evolução máxima de um universo com leis muito especiais que permitiram a aquisição da Consciência ou Espírito pela humanidade.

Na conjugação teórica desses princípios estão incluídos, assim, o conceito de vida, de humanidade, de direitos humanos etc., bem como a função e a natureza do Estado, Igreja ou Assembleia de homens com fins comuns, da sociedade em geral, os direitos e os deveres de cada um perante os demais, individual e coletivamente, ou seja, no último caso, como Estado, Igreja ou Sociedade.

O primeiro princípio ou mandamento, portanto, inclui a normatividade dos valores fundantes de uma comunidade, e sua efetiva aplicação na vida social, isto é, a existência de exercício efetivo da vontade de Constituição pelas pessoas, bem como a realização dessa vontade nos comportamentos públicos e privados (Konrad Hesse), manifestados como os fatores reais e racionais de poder em uma sociedade politicamente organizada (Ferdinand Lassale).

Desse modo, acima da Constituição posta estão os princípios estruturantes do pensamento, oriundos da Filosofia, com conteúdos ontológicos, morais, jurídicos e políticos, utilizados na interpretação não só da própria Constituição, como também das normas infraconstitucionais.

Destarte, não basta ao constitucionalismo colocar a Constituição no topo da ordem jurídica, é necessária sua integração à racionalidade pública mais ampla, e daí decorre a cada vez maior utilização da argumentação (Alexy e Dworkin) e da hermenêutica jurídica (Gadamer) tanto na teoria como na prática constitucional, o que se dá pela significação dos citados princípios essenciais por meio de conceitos filosóficos, que escapam ao campo estritamente jurídico, mas que são usados na prática jurídica de uma comunidade.

A crise da civilização ocidental pode ser expressa, outrossim, como uma confrontação entre os sentidos de conceitos que se colocam em um nível acima da mera normatividade constitucional, porque são conceitos definidores do conteúdo filosófico e do sentido mais amplo dos fenômenos do mundo, como vida (e aborto), dignidade, humanidade, soberania e justiça.

Uma das causas dessa crise está no fato de que o materialismo, nas últimas décadas, tem sequestrado alguns conceitos consagrados pela tradição jurídica, de matiz Cristã, como dignidade, casamento e vida, por exemplo, dando-lhes novos sentidos que rompem com um histórico milenar que lhes são inerentes, o que provoca reações, por vezes viscerais, nas pessoas, porque sob o argumento de defender algumas posições e membros da coletividade outros são subtraídos de sua posição existencial, criando novos sentidos para fenômenos seculares e milenares, sem a devida continuidade conceitual.

O resultado dessa crise pode levar, dentre outros, a dois destinos possíveis, a criação de um novo mundo com valores superficiais, que sempre poderão ser destronados pelo relativismo conceitual, reducionista ou atomista, da vez, num eterno jogo de linguagem, ou à restauração simbólica da ordem natural, pela manifestação do poder constituinte fundamental, ligado ao Monoteísmo Judaico-Cristão-Muçulmano, recuperando a continuidade de uma ordem histórica e de um conhecimento científico que parece esquecido, mas que, na realidade, está na essência atemporal do constitucionalismo.

A continuidade

No artigo “O problema filosófico do átomo” (https://holonomia.com/2019/05/22/o-problema-filosofico-do-atomo/) foi exposta a problemática do atomismo e de sua visão de mundo, que entende não haver uma ordem de mundo anterior à existência material decorrente da agregação de partículas atômicas.

Como foi destacado, para os atomistas:

A ordem (o cosmo) é efeito de encontro mecânico entre os átomos, não projetado e não produzido por uma inteligência. A própria inteligência segue-se ao e não precede o composto atômico” (Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia: Filosofia pagã antiga. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003, p. 46).

Contudo, a ciência moderna aponta para uma inteligência anterior ao composto atômico, que já valia antes da formação dos primeiros átomos e da própria matéria, quando o universo era formado por uma energia tendente ao infinito, segundo o modelo do Big Bang.

O cenário desenvolvido por Gamow começa com o Universo cheio de prótons, nêutrons e elétrons. Esse ‘componente material’ do Universo foi chamado de ylem por Alpher. Fora seu componente material, o Universo era banhado por fótons altamente energéticos, o ‘calor’ do Universo primordial. O Universo era tão quente nesse estágio inicial que nenhuma ligação entre seus constituintes era possível” (Marcelo Gleiser. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 366).

É de se notar que o ‘componente material’ está destacado na passagem acima porque a matéria tal como a conhecemos ainda não havia se formado naquela época primordial, na medida em que apenas “quando o Universo tinha em torno de 300 mil anos de idade, as condições tornaram-se propícias para que elétrons e prótons formassem átomos de hidrogênio” (Idem, p. 369).

A física indica, assim, que, ao contrário do que sustentavam os atomistas, precursores dos materialistas modernos, há, sim, uma ordem ou inteligência que precede o composto atômico. O mundo material é regido por uma ordem ou inteligência que transcende a existência da própria matéria conhecida, sendo as chamadas matéria escura e energia escura apenas um sintoma dessa situação.

Para sair dessa encruzilhada filosófica, os atomistas modernos, que são os materialistas, passaram a defender a hipótese não comprovável, que, portanto, é fruto da mais pura especulação, e que se transformou em um mito moderno, na acepção deletéria da palavra mito, de que existem tantos universo quantas forem possíveis as combinações das leis da natureza. Nessa linha de pensamento: “Os resultados descritos neste capítulo indicam que nosso universo é também um entre muitos, e que suas leis aparentes não são determinadas de modo único” (Stephen Hawking e Leonard Mlodinow. O grande projeto: novas respostas para as questões definitivas da vida. Tradução Mônica Gaglioti Fortunato Friaça. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 105).

O fato de as leis da natureza serem fixadas de modo único significa a compatibilidade racional entre a Ciência e o Monoteísmo, o que é evitado de todo modo possível pelo materialismo, pelo que essa filosofia não teve alternativa senão remeter o acaso para antes da criação ou formação do universo, tentando fazer crer, mais uma vez, que a inteligência é posterior à organização material ou universal, e não anterior. Assim, ao invés de aceitar que a inteligência precede o composto atômico, o que é a conclusão óbvia dos dados científicos, mas que indica o quão especial é o universo, o materialismo tenta desmerecer o nosso mundo, criando infinitos universos imaginários, apenas para defender uma pretensa insignificância cósmica da vida humana e rejeitar, injustificadamente, a cosmovisão monoteísta.

O ateísmo/materialismo não aceita a dependência de uma ordem de continuidade que lhe seja superior, nega uma inteligência que esteja acima do plano material. O materialismo quer nascer do acaso, da sorte, para ser livre de Deus, porque a existência de uma unidade cósmica anterior à matéria aponta para a continuidade entre essa inteligência e tudo o que existe, remete à dependência de uma origem, para tudo, aponta para uma criação, e para Deus.

Quando respondem à pergunta sobre a origem da vida, do universo, sobre o que é a natureza, os materialistas não conseguem explicar a continuidade existencial, a impressionante interdependência dos fenômenos do mundo, sendo o acaso o argumento para romper com a cadeia do ser, para que o ser não seja ser, mas apenas um estar fortuito, ainda que pelo subterfúgio mental da criação de universos que estão além da comprovação científica. Deus, que está fora dos limites da comprovação científica atual, para os materialistas, deve, absolutamente, ser excluído da teoria científica; mas o multiverso, que está na mesma situação epistemológica citada para Deus, além dos limites da comprovação científica, o multiverso é aceito em simpósios acadêmicos com toda naturalidade.

O multiverso significa a existência de universos submetidos a leis próprias, sem que haja uma unidade existencial absoluta, relacionada ao pleno conceito de ser.

O ser condiciona o estar. Não havendo ser, aquilo que está não tem responsabilidade essencial, perante o ser. O mero estar, que é a opção materialista, libera, liberta, a responsabilidade pela permanência, pela unidade e racionalidade do ser. Ao optar pelo estar como condição humana essencial, o homem é transformado em deus, em causa de si mesmo, numa pretensa autonomia, que, de fato, é artificial e arbitrária, porque isola a pessoa do mundo do qual faz parte, e tira a responsabilidade de cada um pela manutenção da unidade existencial, da ordem cósmica. A unilateralidade do estar, vinculada apenas à imanência provisória do ente, que deixará de estar, é falsa, porque todos os entes estão dentro da cadeia do ser e possuem origem transcendente, como exposto no artigo “Transcendência imanente” (https://holonomia.com/2017/09/14/transcendencia-imanente/).

A continuidade, a permanência de algo, é uma questão profunda, que abarca tanto a filosofia como a física moderna.

Planck estava certo. A teoria quântica que ele ajudou a desenvolver provou ser uma revisão ainda mais profunda da ‘velha’ física do que a teoria da relatividade especial de Einstein. A física clássica é baseada em processos contínuos, como, por exemplo, planetas orbitando em torno do Sol, ou ondas propagando-se na água. A nossa percepção do mundo é baseada em fenômenos que evoluem continuamente no espaço e no tempo. O mundo submicroscópico, no entanto, é muito diferente: um mundo de processos descontínuos, um mundo que exibe comportamentos que contrariam frontalmente nosso amado bom-senso. Somos protegidos dessa realidade ‘chocante’ pela nossa própria cegueira sensorial; do mesmo modo que não percebemos as consequências da relatividade porque as velocidades de nosso dia a dia são muito mais baixas do que a velocidade da luz, as energias que ditam o comportamento de fenômenos acessíveis à nossa percepção sensorial contêm um número tão gigantesco de quanta de energia (pacotes de energia) que seu caráter ‘granular’ é perfeitamente desprezível. É como se vivêssemos num mundo de bilionários, onde um centavo é uma quantia desprezível de dinheiro. No mundo do muito pequeno, porém, o quantum é soberano absoluto” (Marcelo Gleiser. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 273).

A continuidade é o grande mistério da ciência, notadamente da orgânica quântica, porque, apesar dos processos descontínuos que estão na base da realidade física, apenas a pressuposição da continuidade permite o desenvolvimento científico, apenas a pressuposição de uma inteligência permanente e constante possibilita que os eventos do mundo sejam conectados racionalmente, o que é o objetivo da empreitada científica.

Cada pessoa que nasce não é fruto do acaso, é filho de seus pais, que tiveram ancestrais, até o início da vida, que teve uma causa, assim como o início de tudo. Interromper a cadeia causal e racional do ser, pela aleatoriedade, em qualquer ponto da existência, é interromper a própria razão de ser, é promover o caos, a morte, o não ser, é renunciar, enfim, ao que é mais próprio da Ciência.

Logicamente, portanto, a Ciência é dependente de uma inteligência que precede a existência, a Ciência é dependente do Logos, que estava no princípio, e por meio do qual todas as coisas foram feitas…

Adeus, Prince!

Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu. Tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar a planta. Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de destruir, e tempo de construir. Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de gemer, e tempo de bailar. Tempo de atirar pedras, e tempo de recolher pedras; tempo de abraçar, e tempo de se separar. Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de jogar fora. Tempo de rasgar, e tempo de costurar; tempo de calar, e tempo de falar. Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz. Que proveito o trabalhador tira de sua fadiga? Observo a tarefa que Deus deu aos homens para que dela se ocupem: tudo o que Ele fez é apropriado ao seu tempo. Também colocou no coração do homem o conjunto do tempo, sem que o homem possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim. E compreendi que não há felicidade para o homem a não ser a de alegrar-se e fazer o bem durante sua vida. E, que o homem coma e beba, desfrutando do produto de todo o seu trabalho, é dom de Deus. Compreendi que tudo o que Deus faz é para sempre. A isso nada se pode acrescentar, e disso nada se pode tirar. Deus assim faz para que o temam. O que existe, já havia existido; o que existirá, já existe, pois Deus procura o perseguido” (Ecl 3, 1-15).

Hoje se foi um companheiro de mais onze anos. Mais de onze anos dormindo ao pé da cama, latindo durante a noite, fazendo festa, fazendo pirraça…

Nos acompanhou de Juiz de Fora até o médio Jequitinhonha, enfrentando calangos, sapos-bois, aranhas caranguejeiras, cães três vezes o seu tamanho, dez vezes seu peso…

Não é por acaso que se discute, nos dias atuais, sobre a “guarda” de animais domésticos, porque, de fato, fazem parte da família. Só quem com eles convive e investe seu tempo nessas criaturas de Deus sabe a sua importância, e a falta que fazem quando partem.

Obviamente, as pessoas valem mais que os animais, mas isso não impede que soframos quando nossos entes queridos não humanos, pessoas não humanas, se vão, principalmente quando estão diariamente em nossa rotina, em nossos momentos cotidianos. De repente, não mais…

Depois da Tula, do Lord, do Kalifa, do Zeus, agora se foi o Prince, aquele com o qual mais convivi.

Deus é perfeito!

Assim, no outro plano estaremos não somente com as pessoas que se foram, como também com as outras criaturas que Ele nos deu para cuidar e criar, e que partiram, dentre as quais, agora, o Prince foi incluído.

Adeus, Prince!

Adeus, amigo!

Até a próxima! Haverá tempo para isso, mas, agora, é tempo de chorar…