Política como Teologia – parte III

Aproveitando o domingo de ramos, que significa a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, é possível continuar o tema dos artigos anteriores, na medida em que tal passagem bíblica tem inegáveis conotações políticas, quando o povo aclamou Jesus, cantando: “Bendito o que vem em nome de Iahweh!” (Sl 118, 26); enquanto ele entrava na cidade montado em um jumento, significando que trazia mensagem de paz.

Desse momento de glória, Jesus passou, na semana que se seguiu, pela paixão e, então, pela ressurreição.

É sempre importante dizer que, sem a ressurreição, a Páscoa continuaria sendo uma festividade apenas judaica, eminentemente política, significando a libertação daquele povo específico da escravidão do império egípcio, o maior poder político e militar daquele tempo. Acerca da historicidade de tal fato, recomendo “Exodus Rediscovered: Documentary” (https://www.youtube.com/watch?v=bk4CLwL9BQs), que, a partir da arquelogia egípcia, defende a plena compatibilidade da referida narrativa bíblica com fatos históricos já conhecidos da ciência atual, referentes àquele da humanidade.

Urge que o Cristianismo volte a interpretar a Páscoa em seu contexto verdadeiro, dentro da narrativa bílica, não mais apenas a libertação política do povo escolhido, mas algo de proporções muito maiores, de natureza cósmica, o momento em que a própria morte foi vencida, juntamente com os poderes malignos que ainda exercem influência no mundo, e que estão na iminência de serem derrotados.

Toda a Bíblia narra a história da humanidade, do momento de sua criação, a queda, até a redenção promovida por Jesus, cuja ressurreição inicia a nova criação, que se consumará nos novos céus e terra, descritos tanto nas profecias veterotestamentárias, como Isaías e Jeremias, assim também no livro do Apocalipse. Esse contexto essencial da Escritura não pode ser esquecido, sob pena de desvio da interpretação dos textos sagrados, prejudicando o entendimento sobre o significado de nossa vida e dos nossos afazeres, menos e mais importantes.

Nesse ponto, como desenvolvido nos artigos anteriores, a questão Política é essencial no contexto judaico-cristão, haja vista que Jesus é o Messias Judeu, o Rei de Israel, aquele através do qual as nações adorarão ao Deus único, Iahweh. A história bíblica passa da queda de Adão, ao chamado de Abraão, para ser pai de muitas nações, os eventos envolvendo os seus filhos Ismael e Isaac, e depois Jacó, que passou a ser chamado Israel, gerando Judá, Moisés, Davi e Salomão, culminando em Jesus, que reconduziu a humanidade para Deus, reunindo a partir de si todas as nações, cumprindo as promessas feitas a Abraão.

Tal, contudo, é um longo processo que hoje conta com quase quatro mil anos, contados do tempo de Abraão. Portanto, existe um desenvolvimento ideológico e político em curso durante esse vasto período de tempo, tanto aquele que antecede a vinda do Messias como após sua manifestação, até a consumação de sua obra.

No último período, a ideia política se dissociou da teológica, provavelmente para o desenvolvimento pleno das capacidades humanas, segundo os propósitos de Deus para a criação.

“Lembremo-nos dos níveis nos quais o espírito europeu dos últimos quatro séculos se movimentou, e das diferentes esferas espirituais nas quais ele encontrou o centro da sua existência humana. São quatro grandes passos simples, seculares. Eles correspondem aos quatro séculos e vão do teológico ao metafísico, daí ao humanitário-moral e, finalmente, ao econômico. (…) Nos passados quatro séculos da história europeia, a vida espiritual teve quatro centro diferentes, e o pensamento da elite activa que formava a respectiva tropa avançada movia-se, nos diferentes séculos, em torno de diferentes pontos centrais” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 142-143).

Tal passagem se encontra num texto com o nome “A Era das Neutralizações e das Despolitizações”, descrevendo a mudança nas convicções e argumentos, de natureza espiritual, utilizados pelas elites, afirmando, depois do período teológico, o pensamento sistematicamente científico, metafísico ou natural, o que foi seguido por uma filosofia deísta no século XVIII, quando formados os “conceitos fundamentais da moral e da teoria do Estado”, até chegar mundo econômico e da industrialização do século XIX.

“Certamente, o progresso técnico torna-se, já no século XIX, tão espantoso, e as situações sociais e econômicas transformam-se, em consequência disso, tão rapidamente, que todos os problemas morais, políticos, sociais e econômicos são apanhados pela realidade deste desenvolvimento técnico. Debaixo da tremenda sugestão de sempre novas e surpreendentes invenções e realizações, surge uma religião do progresso técnico para a qual todos os outros problemas se resolvem por si mesmos precisamente através do progresso técnico. Para as grandes massas das terras industrializadas esta crença era evidente e óbvia. Elas saltaram por cima de todos os níveis intermediários que são característicos do pensamento das elites liderantes, e nelas emerge logo, a partir da crença nos milagres e no além, sem elo intermédio, uma religião do milagre técnico, das realizações humanas e da dominação da natureza. Uma religiosidade mágica para uma igualmente mágica tecnicidade. Assim, o século XX aparece, no seu começo, como a era não apenas da técnica, mas também de uma crença religiosa na técnica” (Idem, pp. 145-146).

Essa religiosidade da técnica, cada vez mais afastada de Deus, é a persistência do exercício dos poderes do mundo que Jesus derrotou, mas continuam hoje com grande influência planetária, preparando exatamente o campo da última batalha, naquela guerra que já vencida pelo Enviado de Deus.

Ideias têm consequências, pelo que as realizações de Jesus produzem efeitos de longo prazo, ainda que não seja fácil para a maioria compreender como, neste mundo desordenado, existe um governo justo em ação, sendo importante ressaltar, nesse ponto, que a própria noção de justiça e o entendimento de vivemos um tempo de injustiça mostram a força do trabalho de Cristo, isto é, que nenhum outro ser humano expressou ideia melhor sobre governo humano, sobre o exercício do poder e sobre a ideia de Justiça. A inafastabilidade da dignidade humana e dos direitos humanos é a prova cabal da vitória de Cristo sobre os poderes do mundo, restando apenas serem corretamente aplicados tais conceitos na governança das nações, segundo a doutrina messiânica.

“Jesus chega a Jerusalém e não vê mais o Templo como lugar onde o céu se relaciona com a terra, mas como lugar onde Mamom e a violência reinam sem limites, em cumplicidade com o governo de César” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 219).

Os poderes espirituais que exerciam influência sobre Caifás, Pilatos e César ainda estão em ação no mundo, o dinheiro e a violência ainda reinam, mas isso não diminui a vitória de Jesus sobre eles, na medida em que é necessário o cumprimento das profecias, é indispensável que o projeto de Deus se realize em sua totalidade, para que seja visível e concluída a ação de seu Messias, o que ocorrerá quando passarmos a segui-lo no plano político internacional, porque não há dúvida em qualquer argumento racional no sentido de que a dignidade humana e os direitos humanos são axiologicamente superiores ao dinheiro e à violência.

Tal desenvolvimento pode ser claramente extraído tanto das visões proféticas de Daniel como no livro do Apocalipse, que retoma e reorganiza as profecias veterotestamentárias, agora sob a perspectiva da entronização de Jesus como mandatário de Deus, nos céus e na Terra, depois de cumprida sua missão salvadora.

No capítulo 12 do livro da Revelação é descrita a mulher que dá à luz ao filho que governará as nações, simbolizando a vitória do Messias sobre a bestialidade que domina os poderes humanos.

Ela deu à luz um filho, um varão, que irá reger todas as nações com um cetro de ferro. Seu filho, porém, foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono, e a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar em que fosse alimentada por mil duzentos e sessenta dias. Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu” (Ap 12, 5-8).

A mulher é Israel, a nação eleita, e o filho varão é o Messias, Jesus, arrebatado para junto de Deus e seu trono, ficando a mulher, agora a comunidade Cristã, no deserto, ou seja, fora cidade, sem acesso ao governo político, esperando o desenvolvimento dos efeitos da guerra no céu já vendida pelos anjos de Deus. Na teoria política e teológica, e no céu, não mais há lugar para a venalização humana ou para a violência política, a guerra já foi vencida.

Enquanto isso, na terra, na realidade dos fatos temporais, as nações ainda são dominadas pela Besta, que, em nome do Dragão, exerce a influência dos poderes espirituais sobre a humanidade, por meio daquela crença religiosa na técnica, a religião do progresso técnico descrita por Carl Schmitt.

Ela opera grandes maravilhas: até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens. Graças às maravilhas que lhe foi concedido realizar em presença da Besta, ela seduz os habitantes da terra, incitando-os a fazerem uma imagem em honra da Besta que tinha sido ferida pela espada, mas voltou à vida. Foi-lhe dado até mesmo infundir espírito à imagem da Besta, de modo que a imagem pudesse falar e fazer com que morressem todos os que não adorassem a imagem da Besta. Faz também com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos recebam uma marca na mão direita ou na fronte, para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome. Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem: seu número é 666!” (Ap 13, 13-18).

Temos, pois tanto os milagres técnicos produzidos pela Besta, o fogo que faz descer do céu sobre a terra, à vista dos homens, as bombas atômicas explodindo sobre Hiroshima e Nagasaki, como o controle econômico sobre as nações e a população mundial, estabelecendo quem pode comprar ou vender.

A Política, pois, nada mais é do que a expressão moderna da Teologia.

Política como Teologia – parte II

Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne? Se fizeres isto, a tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente, a tua justiça irá à tua frente e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda” (Is 58, 6-8).

Para expressar a realidade da Política como Teologia, o texto acima, do livro de Isaías, é bem esclarecedor, principalmente neste tempo de quaresma, em que o jejum é uma prática comum dos cristãos, especialmente os católicos, porque o profeta, falando em nome de Deus, já muito antes de Cristo, coloca na atividade do jejum temas que são políticos e jurídicos: romper os grilhões da iniquidade, pôr em liberdade os oprimidos, despedaçar todo o jugo, repartir o teu pão com o faminto; em que a questão da justiça social, tema político, é tratado como coisa religiosa, integrante da relação mais próxima da humanidade com Deus.

Retoma-se, pois, ao entendimento da Teologia ou Filosofia como teoria e modo de vida da unidade do conhecimento racional, o que inclui tanto a coerência das ideias como destas com o agir social, e da dificuldade dos teóricos modernos em pensar a partir dessa perspectiva unitária.

Encerrada a leitura de “O Conceito do Político”, de Carl Schmitt, percebe-se que, como ele mesmo havia afirmado em “Teologia Política”, em que afirma que qualquer mudança profunda nessa esfera de conhecimento passa pela superação do dogma, seu trabalho ainda está inserido numa ideia de separação, não tendo logrado êxito em conceber a expressão do político como teológico fora do dualismo mental em que inserido, ainda que seu texto aponte para tal reunificação.

Depois de afirmar que a unidade política pressupõe a possibilidade real do inimigo e que não pode haver um “Estado” mundial, assevera que a “unidade política, segundo a sua essência, não poder ser universal, no sentido de uma unidade que abarque toda a humanidade e a Terra inteira” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 96-97), quando não haveria nem política nem Estado, apenas economia, moral, direito, arte, etc.. E continua:

“A humanidade, enquanto tal, não pode fazer qualquer guerra, pois ela não tem qualquer inimigo, pelo menos não neste planeta. O conceito de humanidade exclui o conceito de inimigo, pois também o inimigo não deixa de ser homem e nele não se encontra nenhuma diferenciação específica” (Idem, p. 98).

Contudo, reconhece que em nome da humanidade são feitas guerras, com uso desse conceito universal como um instrumento ideológico das expansões imperialistas, e que o confisco de tal palavra acarreta consequências, como “a terrível reivindicação de que ao inimigo é recusada a qualidade de homem” (Idem, p. 99).

Schmitt remete o conceito humanitário para doutrinas do direito natural e afirma que tal é uma construção ideal universal, que abrange todos os homens da Terra, em que o agrupamento amigo-inimigo se torna impossível. Ao concluir o capítulo sobre esse tópico, ele afirma que um “Estado mundial” não será político, pois abarcará a Terra inteira, em unidade econômica.

“Se ela (a humanidade) quisesse formar, para além disso, também ainda uma unidade cultural, mundividencial ou alguma outra ‘mais elevada’, mas simultaneamente, ainda assim, uma unidade incondicionalmente apolítica, ela seria uma corporação consumidora e produtiva que procura, entre as polaridades de ética e economia, um ponto de indiferença. Ela não conheceria nem Estado nem Reich nem Império, nem República nem Monarquia, nem Aristocracia nem Democracia, nem protecção nem obediência, mas teria perdido de todo qualquer caráter político.

Mas a questão que se coloca é a de a que homens cabeira o poder temível que está ligado a uma centralização econômica e técnica que abranja a Terra inteira. Esta questão de modo nenhum pode ser contornada ao esperar-se que tudo passe a ‘ir por si mesmo’, que as coisas ‘se administrassem a si mesmas’, e que um governo de homens sobre homens se tornasse supérfluo porque os homens seriam, então, absolutamente ‘livres’; pois pergunta-se precisamente para que é que se tornam livres. A isso pode responder-se com suposições optimistas e pessimistas que, em última análise, remontam todas a uma profissão de fé antropológica” (Idem, pp. 104-105).

Volta-se, assim, ao conceito de humano, à sua concepção ontológica, pois a profissão de fé antropológica não pode deixar de ser também uma profissão de fé teológica, sobre a natureza humana, e nesse ponto a limitação dogmática da Teologia de Schmitt o impede de compreender que as respostas às suas perguntas já foram dadas por Cristo e seus seguidores.

Não é que a Política não mais existirá, mas que voltará a não mais haver distinção entre ela e Teologia, porque de Teocracia se tratará, uma nunca antes praticada, que se aproveitará de todo aparato científico e tecnológico produzido pela humanidade, para que sejam utilizados os poderes humanos a serviço do Logos, do Deus criador de todas as coisas, de modo que os homens que exercerão esse poder serão os servos e santos do Altíssimo, os reis e sacerdotes de Cristo, por meio da técnica, do método, o Caminho, que é o próprio Cristo. Continuarão a existir Estados e nações, bem como o caráter político, mas vinculado a uma concepção simultaneamente teológica e antropológica, além de ética e econômica.

Entra aí a leitura evangélica de Thomas Wright, restaurando para o Cristianismo o entendimento judaico sobre o futuro da humanidade e sua governança, na medida em que Jesus Cristo, como o Rei dos Judeus, necessariamente se insere no cumprimento das profecias do antigo Israel, segundo as quais, um dia, “as nações seriam convocadas a jurar lealdade a alguém maior do que Davi, isto é, ao Filho de Davi” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 152). Após o Iluminismo, que separou Igreja e Estado, a história genuína pode ressurgir, de modo que a atual geração tem condições de fazer a correta leitura judaica e política dos evangelhos, nos quais Jesus é declarado o Messias. “É chegado o tempo de reler os evangelhos como ‘teologia política’ – não porque não dizem respeito a Deus, à espiritualidade, ao novo nascimento, à santidade etc., mas, precisamente, porque dizem respeito a isso tudo” (Idem, p. 155).

Na base desse entendimento está, de fato, uma profissão de fé antropológica, encontrada nos textos bíblicos, que restou prejudicada em Schmitt em razão de sua Teologia, estritamente vinculada ao dogma, e pela mentalidade dos últimos séculos.

Para além de uma discussão rasteira entre evolucionismo e criacionismo, a narrativa bíblica descreve a criação do homem à imagem e semelhança de Deus, o desvio que impediu que a humanidade atingisse sua plena potencialidade, a partir do pecado ou erro de Adão, e a consumação dessa plenitude existencial em Jesus de Nazaré, o qual reconduziu a criatura para o seu correto desenvolvimento, que culminará na nova criação, nos novos céus e nova Terra.

“A própria nova criação começou, os apóstolos diziam, e será completada. Jesus está governando sobre essa nova criação, tornando-a uma realidade por meio do testemunho da igreja. ‘O governante deste mundo’ foi derrotado; os poderes deste mundo foram postos por último na procissão triunfal de Jesus como um exército derrotado, maltrapilho. E é assim que Deus está se tornando rei na terra como no céu. Essa é a verdade que os evangelhos estão ávidos por nos contar, verdade que, nos últimos duzentos anos, as culturas europeia e americana têm tentado abafar desesperadamente” (Idem, p. 178).

Para o Cristão, Jesus ressuscitou, isso é um pressuposto definidor do Cristianismo.

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram. Com efeito, visto que a morte veio por um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Pois, assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida. Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. A seguir haverá o fim, quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo Principado, toda Autoridade, todo Poder. Pois é preciso que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído será a Morte, pois ele tudo colocou debaixo dos pés dele” (1Cor 15, 12-27).

Esta passagem destaca tanto a antropologia, como a política e mesmo a física, porque deixa claro que a ressurreição foi um evento físico, corporal, real.

É curioso como hoje se fala em criogenia, conservação de corpos e memórias, para resgatar uma vida, em energia atômica, em avanços tecnológicos vários, alguns esperando até uma nova vida em novo corpo, tudo feito por mãos humanas, mas se esquece que a condição existencial do Cristianismo é o evento da maior magnitude já ocorrido, a ressurreição, sem a qual não haveria motivo para os apóstolos enfrentarem as autoridades judaicas e romanas, e a morte, depois a crucificação de Jesus. É ilógico que eles passassem por isso se não tivessem a certeza da superação da morte por Jesus, pela ressurreição, que significa o princípio material da nova criação, da qual todos participaremos.

Para além disso, há uma clara ideia antropológica ligada à pessoa de Jesus, a plena realização da imagem e semelhança de Deus na humanidade, nele Jesus, sendo evidente o teor político do Evangelho, tanto no que diz respeito à missão do Cristo, como o Rei dos Judeus, o que tem uma conotação inequivocamente política, como pela necessidade de que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés.

Então Jesus tem inimigos, de modo que a proposta de Carl Schmitt não é de todo equivocada, porque os inimigos de Jesus são exatamente aqueles principados, autoridades e potestades que exercem o governo da humanidade, uma realidade espiritual que encarna em pessoas concretas, dominando as nações, pelo que os inimigos não são propriamente as nações ou seus membros, mas aquelas realidades espirituais com suas ideias e ações que se manifestam nas nações, em seus governos de todos os níveis, opondo-se à governança de Deus na Terra, opondo-se ao verdadeiro serviço público e à realização da justiça (que é sempre social).

Fundamental, portanto, a análise teológica da questão política, e que seja levado solenemente a sério o trabalho de Tom Wright, lembrando que no “judaísmo, o Deus criador desejava que o mundo fosse ordenado e governado por aqueles que criou segundo a suam imagem” (Idem, p. 188), imagem esta que restou consolidada na pessoa de Jesus, o santo do Altíssimo por excelência.

Quanto aos quatro grandes animais, quatro reis surgirão da terra. Mas os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para todo o sempre” (Dn 7, 17-18).

“Já está claro. Como de costume em ‘literatura apocalíptica’, os elementos da visão são simbólicos e precisam ser decodificados. Os monstros representam impérios humanos, mas ‘um semelhante ao filho do homem’ representa Israel, ou pelo menos os justos em Israel. Há muito eles sofrem sob o governo dos monstros, porém serão resgatados – não apenas resgatados, mas colocados em posição de soberania sobre o mundo” (Idem, pp. 205-206).

A referência a Schmitt é novamente clara, quanto à questão da humanidade, do filho do homem, e dos monstros, que se opõem aos justos de Israel, dos inimigos que não são homens, pelo que estão presentes, indissoluvelmente, conceitos antropológicos, teológicos e políticos na narrativa bíblica.

Vi, então, tronos, e aos que neles se sentaram foi dado poder de julgar. Vi, também, as vidas daqueles que foram decapitados por causa do Testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e dos que não tinham adorado a Besta, nem sua imagem, e nem recebido a marca sobre a fronte ou na mão, eles voltaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos” (Ap 20, 4).

Portanto, respondendo às indagações de Carl Scmitt sobre “a que homens cabeira o poder temível que está ligado a uma centralização econômica e técnica que abranja a Terra inteira”, são os alter cristos, os outros Cristos, os santos do Altíssimo, que, de fato, realizam a verdadeira imagem e semelhança de Deus, são os verdadeiros humanos, no seu melhor conceito, não se submetem à Besta, e quanto à questão “para que é que se tornam livres”, a reposta é exatamente para serem servos do Altíssimo.

Pois aquele que era escravo quando chamado no Senhor, é um liberto do Senhor. Da mesma forma, aquele que era livre quando foi chamado, é um escravo de Cristo” (1Cor 7, 22), para romper os grilhões da iniquidade, soltar as ataduras do jugo, pôr em liberdade os oprimidos, despedaçar todo o jugo e repartir o pão com o faminto, manifestando, assim, a justiça e a Glória de Deus.

Política como Teologia

Enquanto a formação jurídica desenvolve alguns conceitos políticos e normativos, a religiosa trata de temas teológicos e espirituais, sempre, no tempo contemporâneo, separando as referidas esferas de entendimento do mundo e de ação sobre este, o que é o resultado de uma interferência tida como maléfica, do período anterior, quanto aos âmbitos terreno e espiritual.

Todavia, do ponto de vista filosófico, considerada a Filosofia como teoria e modo de vida da unidade do conhecimento racional, o que inclui tanto a coerência das ideias como destas com o agir social, referida separação afronta a unidade da inteligência, padecendo de uma irracionalidade fundamental, cuja compreensão somente pôde ser melhor alcançada com o aparato epistemológico oriundo da física moderna e da psicologia profunda, que apontam para uma unidade entre observador e observado, entre ideia e ação.

Na medida em que a unidade teórica da razão foi rompida em termos estruturais, em que conceitos científicos, religiosos, jurídicos, políticos, teológicos etc. estão em esferas distintas da abordagem intelectual, a Filosofia acabou se transformando em outra coisa, em uma nova disciplina, menor, insuficiente para os fins a que se destina.

Da perspectiva aristotélica, que expressa o modo de pensar geral do mundo antigo, a Filosofia é indistinta da Teologia, porque considera em conjunto as coisas e tudo o que existe desde os primeiros princípios, desde de sua origem mais remota e primordial intelectualmente concebível, que tem o lugar de deus no respectivo sistema de pensamento, e pode ser tanto o caos ou acaso, não-deus, como o próprio Deus criador (ou deuses, da perspectiva politeísta), sejam quais forem suas respectivas qualidades ou atributos.

Na busca da superação de tal dualidade, considerei forçosa uma ressignificação do que seja o Cristianismo, em sua essência, tanto filosófica como científica e religiosa, o que torna necessária a pesquisa impossível de toda a produção intelectual humana ocidental que trata dos temas referidos, tanto na análise da filosofia política como teológica, e nunca abandonando as descobertas técnicas da chamada pesquisa acadêmica.

A conclusão atual de meu trabalho investigativo leva a uma refutação da Teologia Política de Agostinho, em sua ideia de separação das cidades de Deus e dos homens e de sua escatologia, ainda que tal pensamento tenha sido plenamente justificável pela sua posição histórica intermediária, entre a revelação da encarnação e sua compreensão científica.

A expressão “Teologia Política”, por sua vez, remete às ideias do século XX, a Carl Schmitt, à sua ligação com o nacional-socialismo alemão, à reação das nações a este movimento religioso, o que culminou na restauração política do povo judeu, no Estado de Israel, fato que cumpre importantíssimas profecias messiânicas contidas em Isaías 52 e Ezequiel 37, e na declaração universal dos direitos humanos.

A questão dos direitos humanos é, hoje, exatamente o tema em que convergem as abordagens tanto da Política como da Teologia, sendo certo que a atual concepção da primeira tenta, de todo modo, afastar a última do debate, fundando-se exatamente naquela divisão estrutural das esferas do conhecimento antes mencionada.

Nesse ponto, iniciada a leitura de “O Conceito do Político”, já é possível antever, salvo uma correção interpretativa decorrente da análise do restante da obra, o que considero uma falha categorial do pensamento de Schmitt, ao estabelecer como a diferenciação essencialmente política aquela tida entre amigo e inimigo.

“O inimigo político não precisa ser moralmente mau, não precisa ser esteticamente feio; não tem de surgir como concorrente econômico e até talvez possa parecer vantajoso fazer negócios com ele. Ele é, precisamente, o outro, o estrangeiro, e é suficiente, para a sua essência, que ele seja existencialmente, num sentido particularmente intensivo, algo outro e estrangeiro, de tal modo que, em caso extremo, sejam possíveis conflitos com ele que não possam ser decididos nem por uma normatização geral, que possa ser encontrada previamente, nem pela sentença de um terceiro ‘não participante’ e, portanto, ‘apartidário’” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 51-52).

O ambiente político é, antes de tudo, a área em que o humano se mostra em seus extremos, de modo que a diferenciação política essencial, ao contrário do que o referido autor sustenta, ocorre entre as categorias humano e bestial, faces manifestadas no conflito político máximo, a guerra, de modo que, então, secundariamente, as distinções amigo e inimigo poderiam surgir, mas já com uma normatização capaz de solucionar os conflitos, os direitos humanos. A disputa principal não é entre o amigo e o inimigo, mas entre Cristo e a besta, entre uma concepção plena de humanidade, que inclui sua natureza espiritual, e aquela que nega a existência do Espírito e altera as concepções do corpo, categorias em que temas políticos e teológicos estão indissoluvelmente interligados, referentes à própria existência humana e seu significado último, do que são exemplos a discussão sobre os direitos humanos, o aborto e mesmo a gestão humana sobre o planeta. As categorias amigo e inimigo, portanto, são de um pensamento de certo modo pré-cristão, anterior à formatação dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais e ao estabelecimento, por Cristo, do Reino da fraternidade, exercendo a soberania de Deus sobre toda a Terra, de modo que o inimigo é, de fato, o opositor da humanidade e sua melhor expressão.

A controvérsia sobre o sentido da dignidade humana é, atualmente, o locus da disputa teórica da Política, a qual resta sequestrada por sua separação absoluta da Teologia, e que mesmo assim usa uma narrativa, em última análise, teológica, naquela acepção aristotélica, para fundamentar suas decisões, porque remete o plano humano para o estritamente corporal e material, já adotando, assim, uma posição filosófico-teológica segundo a qual é possível e necessária tal separação, dado que questões espirituais não podem e não devem ser admitidas no debate político. A dignidade humana fica restrita, nessa análise, ao corpo da pessoa e à vontade do indivíduo, à sua visão quase solipsista de mundo, em que não existe uma natureza das coisas, a não ser aquela dada pelo próprio indivíduo, o qual assume o controle da criação, dispensando qualquer ideia sobre o Criador.

De outro lado, mesmo a Teologia concorda com tal afastamento, como resultado de uma concepção do Cristianismo assentada no mundo ocidental cristão, que, contraditoriamente, nega as próprias bases teóricas e teológicas da mensagem do Cristo.

O significado do que é o ser humano, do que é a dignidade humana, depende de uma visão filosófica desse ente, dessa realidade existencial, de sua história, de sua origem última, e das respectivas concepções sobre o bom, o belo, o útil, o justo etc., sem as quais aquela expressão, dignidade humana, resta vazia e sem conteúdo, e pode ser relativizada ou manipulada. Não há como afastar a Política, portanto, dos fundamentos da própria existência humana, do que se entende por racionalidade humana, e sua aplicação às relações sociais.

Nessa linha, vinda de direção contrária, indispensável a revisão da Teologia, sendo altamente adequada a visão de Thomas Wright, exposta em seu “Como Deus se tornou Rei”. Tal obra é exatamente no sentido de reunificar o que, do ponto de vista de Cristo e seus seguidores, nunca foi e nunca será apartado, Teologia e Política.

Wright destaca quatro visões acadêmicas mais comuns sobre o trabalho de “pregar o evangelho” e Jesus: “um revolucionário, esperando derrotar os romanos por meio de violência militar e estabelecer um novo Estado judaico; um visionário apocalíptico, esperando o fim do mundo; um mestre gentio de razoabilidade dócil, cuja ênfase estava na paternidade de Deus e na fraternidade do ‘ser humano’; ou talvez uma combinação de todas essas opções” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 45).

O autor destaca que dos três primeiros resulta um Jesus iludido, porque não matou os romanos, o “fim do mundo” não veio e a maioria de seus discípulos são tudo, menos amáveis e razoáveis.

Trazendo tais pontos para a Política, todavia, temos inequívoco que os romanos caíram, que o novo Estado judeu foi estabelecido e a obrigação de sermos fraternos e razoáveis é decorrente de uma leitura mais ou menos óbvia da declaração universal dos direitos humanos: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. Tenho que todos esses efeitos resultam diretamente, ainda que com alguma postergação temporal, do trabalho messiânico de Jesus, cujo alcance é muito maior do que a filosofia dos últimos séculos costuma aceitar.

Outrossim, voltando a Wright, o objetivo de seu livro é mostrar que a história narrada pelos Evangelhos serve para explicar como os acontecimentos envolvendo “a vida, a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus” dizem respeito ao reino vindouro de Deus, estabelecendo o autor que, se “nosso desejo é nos apegar à grande tradição, devemos estar preparados para levar os evangelhos mais a sério” (Idem, p. 51).

Quanto à tradição, aproveitando o gancho para fazer um parêntese, e dando ênfase à questão da coerência filosófica, é possível dizer que podemos compreender maravilhosamente bem uma teoria hermenêutica moderníssima como a de Gadamer, mas na medida em que a própria tradição, que está no centro do trabalho filosófico de Gadamer, carrega consigo falhas interpretativas de elevada magnitude, acabamos entendendo muito pouco sobre a realidade intelectual, nossa interpretação mais elaborada do mundo resta fadada a repetir equívocos de toda ordem.

Assim, Wright enfatiza o desafio escondido por trás da Ciência moderna, a Teocracia, sendo necessário superar os erros e desencontros do mundo pós-iluminista, fruto da filosofia epicurista, cuja visão existencial era oposta à Cristã, para chegarmos, enfim, à correta compreensão do que seja um mundo ordenado por Deus e da própria mensagem do Cristo para o plano político das nações.

A “principal filosofia do Iluminismo”, salienta Wright, “nada mais era do que uma versão da filosofia antiga de Epicuro, cujo ensinamento era que os deuses, se existiam, estavam a uma longa distância do mundo dos humanos e não se preocupavam com eles. Como resultado, o mundo que conhecemos cresce, muda e se desenvolve sob seu próprio engenho, como se por meio de uma força inerente. Aplique isto ao estudo científico das origens e o resultado é a evolução darwinista mais uma vez, não uma ideia nova, mas a conclusão lógica que surge na ausência de controle e intervenção divinos. Em vez de ‘descobrir os pensamentos de Deus’, a ciência estava agora estudando o mundo como se Deus não existisse. Aplique-o à ciência política e o resultado é a democracia, a sociedade se orienta de acordo com os próprios desejos e caprichos, medos e modas. Em lugar do ‘direito divino’ dos governantes, a política agora ordenava o mundo – pelo menos na França e nos Estados Unidos – com base na separação estrita entre igreja e Estado.

Apenas quando essas conexões e paralelos são trazidos à luz fica claro o motivo pelo qual, do século XVIII em diante, a grande massa de pesquisas dos evangelhos fez certas perguntas e propôs certas respostas. A escolha entre o revolucionário judaico fracassado de Reimarus e o visionário apocalíptico fracassado de Schweitzer é, de acordo com os próprios evangelhos, uma escolha entre alternativas falsas. Nem Reimarus nem Schweitzer estavam preparados para considerar a possibilidade, proposta de maneira categórica pelos evangelhos, de que, em Jesus, o Deus de Israel – ou seja, o Deus criador – realmente tenha confundido epicureus e todos os demais grupos ao se tornar rei na terra como no céu. Teocracia – mas de um tipo radicalmente diferente de qualquer coisa que alguém já há muito imaginara – era o nome do jogo. Mas o mundo pós-Iluminismo, mesmo o mundo devoto, piedoso, evangélico ou católico pós-iluminista, não estava pronto para aceitá-lo. Se a questão da teocracia fosse levantada, remeteria prontamente ao clero corrupto e preguiçoso que tentava intimidar uma população fraca, ou a Jorge III, enviando bispos para as colônias a fim de manter o controle sobre elas. A teocracia não era desejada nem pelo reformador cético, nem pelo ‘ortodoxo’ piedoso, ambos contentes, como os rabinos depois da revolta de Bar-Kochba, em abandonar a visão do reino de Deus na terra e se retirar para um mundo de piedade privada, um mundo de ‘religião’” (Idem, pp. 53-55).

Não há como ter uma correta compreensão do Cristianismo sem entender que Jesus é o Messias judeu, o Rei de Israel, e que quando ele estabeleceu sua Ekklesia, palavra grega que designa Igreja, fê-lo em um contexto que é indissociavelmente político e teológico, de modo que toda e qualquer leitura que se faça da realidade social deve considerar a Política como Teologia e a Teologia com Política, e somente a partir desse pressuposto será possível resolver de forma duradoura os problemas da sociedade contemporânea.

Teologia física e corpo espiritual

O modo como concebo o mundo é distinto daquele estabelecido, seja no ambiente científico ou mesmo no teológico, na medida em que o conhecimento ordinário separa tais formas de pensar, como esferas distintas de saber. Há um ramo da Teologia, nomeado Teologia natural, cujo objeto que é um dos que mais se aproxima de minha forma de compreensão das coisas, ao ver o mundo natural como a Criação de Deus, desdobrando desse pressuposto a análise dos fenômenos ocorridos no universo.

Os grandes líderes da revolução científica, Galileu, Newton, Descartes, adotavam um posicionamento teológico embasando suas pesquisas, na medida em que eles buscavam no mundo as leis que Deus neste colocou, de modo que seus trabalhos eram, em certo sentido, Teologia aplicada à Física, e daí Teologia física.

Esse é o resultado do antigo modo de pensar monoteísta:

Os céus declaram a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos” (Sl 19, 1).

Mas tal forma de entendimento já não é mais comum nos dias de hoje, em que os temas dos conhecimento são compartimentalizados em áreas estanques e incomunicáveis, contrariando a unidade do saber racional, segundo a qual, como é da essência da Filosofia, todos os conceitos e ideias estão relacionados e são decorrentes de um primeiro princípio que suporta toda aquela racionalidade. Da perspectiva judaico-cristã-muçulmana, como também o era para Platão e Aristóteles, a seu modo de compreender o mundo, o Primeiro Princípio é Deus, por meio do Qual surgiu o mundo, com sua ordem. Para os materialistas, de seu lado, se os deuses existem, eles não têm contato com nosso universo, porque este é regido pelo acaso, pela sorte.

Mesmo no ambiente científico de hoje, tais hipóteses continuam em disputa, nos pressupostos ocultos da atividade de pesquisa, porque o multiverso é a forma moderna de materialismo, dizendo que a ordem de nosso mundo é casual, pois apenas por acaso o nosso universo é ordenado deste modo, que permite a vida como a conhecemos, e existem bilhões de outros mundos com leis diferentes em que não há possibilidade de vida. A pergunta que permanece em aberto, caso, de fato, exista multiverso, é sobre a origem desses incontáveis outros mundos, cuja resposta somente foi dada satisfatoriamente por Aristóteles e seu Primeiro Motor. Esse modo de pensar associado ao multiverso também pode ser enquadrado como uma Teologia física, mas uma Teologia negativa, no sentido de postular a inexistência de Deus, portanto ateísta, aplicada à Física.

Outrossim, nenhum ramo do saber escapa à análise teológica, caso a investigação e as perguntas sejam dirigidas aos primeiros princípios que amparam as respectivas concepções de mundo e de ser humano, o que os materialistas nunca fazem, porque não querem basear sua atividade científica, em última instância, na sorte, no acaso e na ausência de ordem.

Quanto à humanidade, sua posição especial na Criação, no mundo natural, levanta uma série de questionamentos não respondidos pela Biologia, notadamente aquela em que apenas análises materiais e corporais são consideradas, como ocorre com o neodarwinismo, a vertente da Teologia negativa aplicada à Biologia. Basicamente, essa forma de pensar entende que os corpos são formados de baixo para cima, com os agregados moleculares, cujo início não é explicado, ajuntando-se por tentativa e erro até a formação dos organismos mais complexos, culminando no ser humano, tudo sem direção, movido pelo mero acaso. O problema consiste no fato de que a matemática não suporta tal possibilidade, como exposto no artigo “Homo humanorum” (https://holonomia.com/2018/10/31/homo-humanorum/), no sentido de que uma Inteligência superior guiou o processo evolutivo para que este chegasse ao homem em tão curto espaço de tempo, cerca de quatro bilhões de anos, pelo que a formação orgânica de baixo para cima é orientada por uma Inteligência que age de cima para baixo.

Da perspectiva judaico-cristã-muçulmana, Deus está no controle do mundo, e nós somos sua criação especial, porque feitos à sua imagem e semelhança. Não entrarei aqui na possível distinção entre os conceitos imagem e semelhança, pois o essencial é que nessa ideia está compreendida a noção de que Ele nos dá nosso espírito, e É a fonte de nossa vida.

Devemos ser considerados, portanto, mesmo em nossos corpos, uma expressão espiritual, e, porque também somos livres, podemos ou não manifestar o Espírito de Deus. A união da alma com o corpo é, desse modo, tanto metafísica como também propriamente física, ao contrário do que sustentado por Leibniz:

“Pois, mesmo que eu não considere que a alma muda as leis do corpo nem que o corpo muda as leis da alma, e que eu tenha introduzido a harmonia preestabelecida para evitar tal desarranjo, não deixo de admitir uma verdadeira união entre a alma e o corpo, que os torna cúmplices. Essa união conduz ao metafísico, enquanto uma união de influência conduziria ao físico. Mas quando nós falamos da união do Verbo de Deus com a natureza humana, nós devemos nos contentar com um conhecimento por analogia, tal qual a comparação da união da alma com o corpo é capaz de nos dar; e devemos, além disso, nos contentar em dizer que a encarnação é a união mais estreita que pode existir entre o criador e a criatura, sem que seja necessário ir mais além” (Ensaios de teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. Gottfried Wilhelm Leibniz. Tradução William de Siqueira Piauí e Juliana Cecci Silva. 2 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2017, pp. 110-111).

Assim como Descartes, Leibniz entende haver uma separação entre corpo e alma, ainda que ajustados pela harmonia preestabelecida, e esta é uma questão tanto científica quanto teológica, que a neurociência moderna tenta desvendar, e que também está na raiz das indagações religiosas, a natureza da alma, sua relação com o corpo, o que também era objeto da especulação na filosofia platônica, para a qual o filósofo liberta a alma do comércio com o corpo, na medida em que o corpo é um entrave para a aquisição do conhecimento, como exposto no Fédon.

Todavia, essa não é a ideia bíblica de criação, porque a narrativa da Escritura é no sentido de que Deus criou o mundo para habitar com os homens, somente tendo havido o afastamento em razão do pecado, da falha de Adão, corrigida por Jesus. A projeção bíblica, descrita tanto em Jeremias quanto no Apocalipse, é Deus habitando conosco, de modo que haverá uma união da alma, ou melhor, do Espírito, com o corpo, no plano físico.

Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Eu porei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhecei a Iahweh!’ Porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores, — oráculo de Iahweh — porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31, 33-34).

A nova aliança foi iniciada pela encarnação do Verbo, do Logos, a partir de Jesus Cristo, que renovou o Espírito na humanidade, permitindo que se manifestasse em nós a realidade do próprio Deus, de modo que passássemos a ter um corpo espiritual, cuja manifestação será plena apensa na nova criação. A ideia de separação entre corpo e alma é, outrossim, contrária à mensagem Cristã, na medida em que em nossos corpos manifestamos as realidades espirituais, e quanto mais santificamos nossos corpos mais santo será o Espírito que habitará em nós.

Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus? … e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos? Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).

Há uma relação existencial entre corpo e espírito, porque o último dá vida ao primeiro, e quando Leibniz fala que a encarnação é a união mais estreita que pode existir entre o criador e a criatura, talvez ele não tenha compreendido que a encarnação começa com Jesus e continua com os seus seguidores fiéis, cujos corpos também servem de ação ao Espírito de Deus, pelo que também são encarnação de Deus, tanto no isolamento da oração quanto na participação social, e daí a Teologia também se aplica à Sociologia, ao Direito e, especialmente, à Política, porque o Espírito é onipresente, dando sentido a todas as manifestações humanas.

O resultado esperado dessa ação do corpo espiritual é a renovação do corpo humano, e da própria humanidade, culminando na nova criação, do que a ressurreição de Jesus é uma manifestação antecipada, as primícias da nova realidade, resultado de sua vitória sobre a política mundana. Pode-se dizer que a ressurreição de Jesus concretiza no nosso plano físico espaço-temporal quadridimensional a realidade da quinta (ou sexta ou sétima) dimensão, a dimensão da História realizada, de um éon consumado, do verdadeiro sentido do tempo.

Desse modo, não devemos pensar em ir para o céu, como é comum hoje em dia, mas em viver, no corpo, a plenitude do Espírito e, ao final, ressuscitar, e voltar a ter um corpo, um que expressará nossa verdadeira natureza, que é espiritual.

O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos; semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo psíquico, há também um corpo espiritual” (1Cor 15, 42-44).

Dessarte, há uma estreita conexão entre Teologia física com nossa realidade humana, da perspectiva Cristã, porque os céus declaram a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos, mas chegará o momento em que a realidade será alterada, não por um multiverso, ou por um big crunch, um big rip ou um big freeze ou um big slurp, mas pela epifania cósmica do próprio Deus.

O Espírito semeia no Corpo para colher, no próprio corpo, frutos espirituais. Não seria a energia escura o sopro de Deus insuflando a semente das novas coisas que estão sendo formadas, em continuidade ao Princípio da criação, para um novo big fiat?

Nisto ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: ‘Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus’

A cidade não precisa do sol ou da lua para a iluminarem, pois a glória de Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21, 3; 23).

Teocracia cruciforme

Ontem acordei com um telefonema de um número desconhecido, quando alguém me perguntou se eu tinha trinta segundos, tendo respondido que não, porque não conhecia a pessoa, pela qual tinha sido acordado naquele momento, mas ela, então, disse para eu olhar o Salmo 62, ou 72, estava acordando e não entendi direito, versículo 55, alguma coisa assim, também não entendi, pelo que agradeci a mensagem e desliguei o telefone. Quando fui conferir, verifiquei que nenhum dos dois Salmos tem o versículo 55, narrando o Salmo 62 sobre a perseguição do justo pelo ímpio, e o 72 tratando das medidas adotadas pelo Rei justo.

Na parte da tarde, ao participar de tarefa de curso com o tema “Violência doméstica e familiar contra a mulher”, na unidade que fala sobre a filosofia e a sociologia da Lei Maria da Penha, repliquei a uma postagem que exaltava os “movimentos feministas” que teriam sido importantes para a edição da referida lei, afirmando que esta norma significou a reação a uma situação de longa data de opressão à mulher, que era tida como inferior ao homem, com direitos restritos, e apenas nesse contexto, que em si já é equivocado, seria aceitável falar em “movimentos feministas”.

Aduzi que o feminismo como tal é fruto de uma má filosofia, e obviamente também o machismo, igualmente inaceitável, porque jamais seria possível falar em “movimentos machistas” como algo positivo, o que vale para os “ismos” em geral, na medida em que tal sufixo designa a universalização de um conceito, que serve de ponto para explicar os demais.

Ressaltei que a questão filosófica remete para a filosofia de mundo na qual a lei está inserida, salientando o grande problema deste ponto, porque a filosofia pressupõe uma visão coerente e racional das coisas e dos fenômenos, desde os primeiros princípios, orientando o comportamento das pessoas segundo essa visão, e o que não temos hoje é coerência filosófica.

Em termos filosóficos, concebo duas opções fundamentais que remetem a Demócrito e Epicuro, de um lado, e Platão e Aristóteles, de outro. Os primeiros, os materialistas, viam a ordem como acidental, enquanto os últimos pressupunham a existência de uma ordem, como ideia ou primeiro motor (Deus), o que veio a ser apropriado pelo Cristianismo, primeiro por Agostinho e depois por Tomás de Aquino, ainda que o resultado não tenha sido propriamente a melhor filosofia Cristã.

Da filosofia surge a ideia de pertencimento, ao mundo material e/ou espiritual, e da noção errada de pertencimento decorre a violência, que associo à ideia de um mundo sem ordem, e, assim, ao materialismo.

No mundo machista a mulher pertencia ao homem, como no mundo romano o filho pertencia ao pai, e algo muito próximo ainda ocorre em muitas regiões da África e da Ásia que não tiveram a influência judaico-cristã que permite a ideia de igualdade espiritual entre homem e mulher, ainda que o próprio Ocidente tenha se distanciado desse pensamento, o que muito decorreu da crescente influência filosófica do materialismo e do paganismo.

Se o patriarcado é considerado um problema, porque a mulher é reificada, o feminismo é o mesmo problema com polo invertido, em que ocorre, por exemplo, a reificação do embrião humano, tratado como objeto, para tentar legitimar o aborto.

Esclareci que o “ismo” que defendo, o Cristianismo, atende a todos que se preocupam com o que considero os mais elevados valores jurídicos, expostos em nossa Constituição, que tem a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, e que é fundada na dignidade humana, no fato de homens e mulheres serem imagem e semelhança de Deus, porque o Cristianismo significa Deus se tornar Rei, isto é, Direito, Justiça e Sabedoria governando a comunidade política, em que todos somos filhos do Altíssimo.

A expressão Deus se tornar rei decorre de livro que adquiri recentemente, que resgata uma concepção fundamental do Cristianismo, a questão política do Reino de Deus, porque a violência (doméstica) não é algo recente, sendo que a ideia de uma sociedade justa e de paz é objeto de meditação (profetizada) há milênios pela tradição judaica, pelo que é necessário compreender a verdadeira mensagem do Evangelho, no seu contexto filosófico, político e jurídico, que está na origem dos direitos humanos, o que se deu não por acaso, mas por ação de Cristo e seus seguidores.

Assim, indiquei o autor N. T. Wright, cuja visão considero muito coerente e adequada, destacando o livro “Como Deus se tornou Rei”, que ainda não li, e sugeri que fossem assistidas as “Gifford Lectures” do referido teólogo, às quais já assisti, e que são muito esclarecedoras para a real compreensão filosófica do Cristianismo (https://www.youtube.com/watch?v=zdUM0ZB5zT0). Tais palestras já tinham sido mencionadas no artigo “Teologia Cristã em Paulo” (https://holonomia.com/2019/07/04/teologia-crista-em-paulo/)

Após a postagem no curso, aproveitando o dia de folga, decidir assistir novamente às “Gifford Lectures” de N. T. Wright, que dão uma visão geral da filosofia moderna, a qual representa um resgate do pensamento epicurista, sendo, portanto, a nova roupagem de uma visão de mundo antiga, em que há a separação entre o plano terreno e o divino, valendo dizer que essa visão dualista, que também ocorre com a ideia platônica, não é adequada ao entendimento judaico de Cristo e seus seguidores.

Tom Wright destaca a mentalidade judaica do segundo Templo, segundo a qual no Santo dos Santos havia a interseção entre Terra e Céu, pela presença de Deus naquele local, e que tal ideia é indispensável para o correto entendimento do Cristianismo, porque Jesus substituiu e se tornou o Templo de Deus na Terra, tendo sua morte e ressurreição significado a transmissão dessa qualidade teológica para a Humanidade.

Tom Wright faz também uma leitura da mentalidade apocalíptica e escatológica do Cristianismo a partir dessa hermenêutica, enfatizando a vida e a ressurreição de Jesus como a inauguração do profetizado Reino de Deus na Terra, o início de um tempo que já começou, a nova criação, mas ainda não se consumou, na famosa expressão teológica “já e ainda não”, que perpassa as cartas do Apóstolo Paulo. Essa é a mensagem do Evangelho, o Reino se aproximou, está chegando, mas não atingiu ainda na sua forma plena, que depende de alguns eventos (políticos). A semente foi lançada, mas é preciso o trabalho e sacrifício dos cristãos, pelo exemplo da cruz, para sua plena realização, que, evidentemente, é dependente da Graça de Deus.

Ainda que seja de Graça, portanto, a vinda do Reino de Deus também é resultado de nossas ações e obras, precisamos trabalhar a semente, fazendo com que cresça e dê frutos, como exposto nas parábolas do Messias.

Isso está de acordo com o que Tom Wright fala durante uma das palestras: “The God of creation is to be known as the God who will work in his world through obedient humanity, and this is where again as in Psalm 72 the promise of new creation and the vocation of the King come together” (Lecture 8, 13m49s a 14m09s – O Deus da criação deve ser conhecido como o Deus que operará em seu mundo por meio da humanidade obediente, e é aqui que, novamente, como no Salmo 72, a promessa de uma nova criação e a vocação do Rei se encontram).

Portanto, do telefonema anônimo citando um Salmo, cheguei ao Salmo 72, e à expressão Teocracia cruciforme, citada por Tom Wright em sua palestra, que é a forma de governo do Cristianismo, pela qual os reis e sacerdotes de Cristo exercem o poder político, a exemplo da mensagem do referido Salmo: a promessa de uma nova criação e a vocação do Rei se encontram.

Já há muito tempo venho pensando que a Democracia não é a forma de governo do Cristão, e que o autêntico Cristianismo, porque inserido na Teologia monoteísta, adota a Teocracia como a correta opção política, na medida em que Deus é, de fato, o Único e Verdadeiro Soberano, Senhor da Terra, e a expressão dada por Wright, Teocracia cruciforme, é suficiente para afastar qualquer conexão com os maus exemplos de Teocracia que tivemos até hoje, porque a Teocracia cruciforme é alcançada pelo método da encarnação do Logos, em que os governantes aplicam o Direito e a Justiça, segundo a melhor racionalidade humana, guiada pela melhor interpretação teológica, segundo o exemplo do filho de Deus, que, de tão obediente tão israelita, tão muçulmano, mesmo justo e inocente, aceitou o martírio, a crucificação, para o Bem, a Salvação da humanidade, muito ao contrário do que ocorre com certos políticos, que todos sabemos culpados, porque as provas dos crimes são públicas e abundantes, e ainda assim não se arrependem e continuam com seus discursos mentirosos, não aceitando suas responsabilidades.

Não é a Democracia, mas a Teocracia cruciforme, pois, o governo que queremos, esta que é a origem dos mais elevados valores jurídicos, expostos em nossa Constituição, que tem a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, e que é fundada na dignidade humana, no fato de homens e mulheres serem imagem e semelhança de Deus, porque o Cristianismo significa Deus se tornar Rei, isto é, Direito, Justiça e Sabedoria governando a comunidade política, em que todos somos filhos do Altíssimo. A Teocracia cruciforme é o método de realização do Reino de Deus:

Ó Deus, concede ao rei teu julgamento e a tua justiça ao filho do rei; que ele governe teu povo com justiça, e teus pobres conforme o direito. Montanhas e colinas, trazei a paz ao povo. Com justiça ele julgue os pobres do povo, salve os filhos do indigente e esmague seus opressores. Que ele dure sob o sol e a lua, por geração de gerações; que ele desça como chuva sobre a erva roçada, como chuvisco que irriga a terra. Que em seus dias floresça a justiça e muita paz até ao fim das luas; que ele domine de mar a mar, desde o rio até aos confins da terra. Diante dele a Fera se curvará e seus inimigos lamberão o pó; os reis de Társis e das ilhas vão trazer-lhe ofertas. Os reis de Sabá e Sebá vão pagar-lhe tributo; todos os reis se prostrarão diante dele, as nações todas o servirão. Pois ele liberta o indigente que clama e o pobre que não tem protetor; tem compaixão do fraco e do indigente, e salva a vida dos indigentes. Ele os redime da astúcia e da violência, o sangue deles é valioso aos seus olhos. (Que ele viva e lhe seja dado o ouro de Sabá!) Que orem por ele continuamente! Que o bendigam todo o dia! Haja abundância de trigo pelo campo e tremule sobre o topo das montanhas, como o Líbano com suas flores e frutos, como a erva da terra. Que seu nome permaneça para sempre, e sua fama dure sob o sol! Nele sejam abençoadas as raças todas da terra, e todas as nações o proclamem feliz! Bendito seja Iahweh, o Deus de Israel, porque só ele realiza maravilhas! Para sempre seja bendito o seu nome glorioso! Que toda a terra se encha com sua glória! Amém! Amém! Fim das orações de Davi, filho de Jessé.”

Conhecimento profético

O conhecimento profético, ou revelado, está no centro da mensagem monoteísta, significando a recepção de uma determinada realidade pelo indivíduo escolhido, ao qual é apresentado um nível simbólico do mundo que muitas não é compreendido pelo próprio receptor daquela comunicação, como aconteceu com o profeta Daniel (Dn 12, 8-9) e com o autor do Apocalipse (Ap 17, 6-7).

Essa forma especial de conhecimento ocorria no tempo antigo com mais intensidade, mas ainda é um fenômeno que continua a existir, havendo dois exemplos muito importantes do início do século XX, ligados à atividade científica, com semelhanças com a verdade revelada, Nikola Tesla, que dizia ter contato com seres de outro mundo, e Srinivasa Ramanujan, o qual afirmava receber mensagens de uma deusa, e conseguia compreender instantaneamente complexas relações matemáticas, sem necessidade de demonstração.

A vida de Ramanujan é objeto de um filme muito bom “O homem que viu o infinito”, disponível na Netflix, sendo que recentemente assisti a um vídeo no YouTube sobre ele, em um canal sobre Matemática (Toda a matemática – https://www.youtube.com/watch?v=RMB8s27Rjeo), explicando que ele fazia contas de elevadíssima complexidade praticamente de cabeça, entendendo tais resultados como óbvios, sendo citado que uma dessas contas óbvias precisou ser explicada em uma dissertação de mestrado de cinquenta páginas.

Alguns indivíduos têm, portanto, uma capacidade extraordinária, podendo-se dizer sobrenatural, de percepção de determinadas realidades, que às vezes somente serão entendidas pelas demais pessoas dezenas, centenas ou milhares de anos depois, sendo fundamental a atenção a tal forma de conhecimento, que é revelado por Deus para muito além da racionalidade do tempo em que a mensagem é transmitida, principalmente porque toda a narrativa bíblica é baseada nesse tipo de acontecimento e na expectativa sobre o cumprimento de profecias dessa forma reveladas, do Gênesis ao Apocalipse.

Não é por acaso que o Apóstolo Paulo, na primeira carta que escreveu, o primeiro texto do Cristianismo, segundo os estudiosos, destacou a importância de tal estudo.

Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias. Discerni tudo e ficai com o que é bom” (1Ts 5, 19).

Falando em profecias, estou acompanhando uma série de um excelente canal do YouTube, “Davar – opinião e religião”, em que está sendo abordado o texto do profeta Isaías (https://www.youtube.com/watch?v=-0CWsh4Lirg), em um total esperado de treze vídeos de aproximadamente trinta minutos. O autor do canal é um estudioso das escrituras e tem uma ótima compreensão dos contextos históricos e simbólicos dos textos sagrados.

O correto entendimento das profecias é essencial para a interpretação adequada da História, e do próprio Cristianismo, pela inafastável conexão, por exemplo, entre as visões dos profetas do chamado Antigo Testamento e o livro do Apocalipse, que retoma temas já existentes na Escritura judaica, especialmente Isaías, Ezequiel e Daniel.

Um dos grandes problemas do Cristianismo, é importante ressaltar, está na desconexão entre o entendimento do Novo Testamento e o que significavam as profecias e os símbolos religiosos segundo Jesus e seus seguidores, todos judeus. Ainda que tenha havido uma renovação hermenêutica das Escrituras a partir de Jesus e de sua Mensagem, não houve o total rompimento com cosmovisão judaica.

A própria ideia do Reino de Deus, da concretização do projeto político de Deus para a humanidade acabou sendo mal compreendida, especialmente quando se entendeu e se entende que tal Reino não é deste mundo, contrariando o entendimento expresso, e talvez óbvio, dos textos proféticos.

Por mais que tal Verdade seja ignorada, está cada vez mais próxima sua revelação, quando as pessoas, como os profetas, serão arrebatadas pelo Espírito da profecia, e poderão, enfim, oferecer os louvores devidos ao Altíssimo, inclusive, e especialmente, no ambiente político internacional, porque Deus, de fato, é o único e verdadeiro Soberano, o Senhor das nações e dos exércitos.

E dirás naquele dia: Louvo-te, ó Iahweh, porque, embora tivesses estado encolerizado contra mim, a tua ira cessou e agora me deste o teu consolo. Ei-lo, o Deus da minha salvação: sinto-me inteiramente confiante, de nada tenho medo, porque Iahweh é a minha força e o meu canto. Ele é a minha salvação. Com alegria tirareis água das fontes da salvação. E direis naquele dia: Louvai a Iahweh, invocai o seu nome; proclamai entre os povos os seus feitos, fazei saber que o seu nome é excelso. Salmodiai a Iahweh, porque ele fez coisas sublimes; seja isto sabido no mundo inteiro. Erguei alegres gritos, exultai, ó habitantes de Sião, porque grande no meio de ti é o Santo de Israel” (Is 12).

A obra de salvação

Continuando o tema da Teodiceia, merece grande destaque a obra de salvação executada por Deus na criação, especialmente pelo trabalho desempenhado por Jesus, O Messias, e seu significado.

Sobre esse assunto, hoje assisti ao vídeo de um rabino explicando a importância do Messias para o povo de Israel, “A Crash Course on Everything Moshiach” (https://www.youtube.com/watch?v=-DNcKdgDejg&t=321s), falando sobre o Messias e a Era Messiânica, ou Tempo de Redenção, que está nos fundamentos do Judaísmo, um dos seus treze princípios de fé, que, em fato, está no centro dessa fé. Narra que o judeu não apenas deve acreditar na vinda do Messias, mas antecipá-la. Afirma que a salvação pressupõe algo errado com o mundo, para que este precise ser salvo, e que o povo judeu ainda está em situação de exílio, há dois mil anos, a despeito de já terem reconquistado a terra prometida, porque o exílio é um estado de mente ou espírito que pode afetar até mesmo os judeus que vivem em Israel, isto é, quando Deus não é percebido, e quando nossa vida não é regida pelos preceitos da Torá. A Era Messiânica significa liberdade em relação a ideologias estrangeiras, para que possamos servir a Deus de um modo aberto e puro. O rabino informa que a grande mudança será de consciência, de percepção sobre a realidade, pois veremos a obra do Autor da criação em tudo, que tudo é especial, e enxergaremos como isso se encaixa nos planos divinos. Depois “explica” porque Jesus, “o fundador do Cristianismo” não seria o Messias. Então, dá exemplos de alguns sinais da sua vinda: desprezo pela tradição, desrespeito pelos pais, idosos e autoridade, insolência, o conhecimento se tornará pútrido e a verdade abandonada, os não crentes atacarão a religião para sustentar seus falsos argumentos, o governo se tornará sem Deus, ímpio, e o aprendizado nas academias será palco de imoralidades. De outro lado, enfatiza que as profundidades da ciência confirmarão os ensinamentos mais profundos do Judaísmo.

Há muita proximidade, como não poderia deixar de ser, entre a narrativa acima e aquela inerente ao Cristianismo, haja vista o contexto judaico de Jesus, de seus apóstolos e, especialmente, de Paulo, valendo ressaltar que a mudança de consciência e de percepção da realidade já era pregada por João Batista, também judeu, antecessor do Cristo, bem como a necessidade de perceber a realidade divina e de se viver segundo os preceitos da Torá, contudo, na interpretação renovada por Batista e elevada ao ápice pelo Messias, Jesus de Nazaré.

Ainda que o referido rabino afirme que os judeus nunca reconhecerão Jesus como O Messias, tal fato decorre de estarem com o coração endurecido, não conseguindo entender que não há mais que se falar em templo construído por mãos humanas para adoração ao verdadeiro Deus, sendo descabido o retorno ao sacrifício de animais que era praticado pelos antigos sacerdotes judaicos. Ele não consegue perceber que a própria existência do Estado de Israel já é a realização de uma das principais profecias cumpridas pela atividade messiânica de Jesus, dada a inquestionável causalidade moral e física entre os ensinamentos de Cristo e o resgate do povo judeu após o holocausto.

A obra de salvação iniciada por Jesus tem por escopo a realização da Lei Natural, expressa na Torá, mas em sua racionalidade máxima, decorrente da vivência pelo Messias, da encarnação do Logos, que é a própria razão, e que possui, como expresso acima, uma causalidade moral e física, que se propaga pela criação.

Assim, acerta o rabino em sua fala no sentido de que as profundidades da Ciência confirmarão os ensinamentos mais profundos do Judaísmo, e que isso já acontece, na medida em que a Ciência moderna é resultado do pensamento Cristão, que aprimorou a Filosofia de Aristóteles, e não é sem motivo que Tomás de Aquino, o principal conciliador do Cristianismo com o aristotelismo combinava fé e razão.

Também Leibniz tem essa preocupação, quanto ao acordo da fé com a razão, podendo ser afirmado que a própria obra divina de salvação está ligada a essa união, porque tanto não podemos viver sem fé, porque a epistemologia demonstra os claros limites da instrumentalidade científica, do que são exemplos o princípio da incerteza e o teorema da incompletude de Gödel, sendo a crença na existência de uma ordem universal, de um cosmos, o próprio fundamento lógico ou antecedente da atividade científica, como não podemos viver como animais irracionais, desprezando nossa inteligência, pois é nosso dever moral usar com o máximo empenho e dedicação, do melhor modo possível, as faculdades mentais que recebemos do Criador. Nesse aspecto, os judeus são um exemplo marcante, pelo valor que concedem às atividades intelectuais, do que os prêmios Nobel obtidos são prova clara.

Leibniz lembra que os primeiros autores cristãos “se adaptavam aos pensamentos dos platônicos que mais lhes inspiravam confiança e que mais estavam em voga no momento” (Ensaios de teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. Gottfried Wilhelm Leibniz. Tradução William de Siqueira Piauí e Juliana Cecci Silva. 2 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2017, p. 76).

Não se pode esquecer que tanto nos Atos dos Apóstolos como nas próprias cartas de São Paulo e, finalmente, no quarto Evangelho, especialmente pelos termos Arqué e Logos, já estão presentes alguns elementos e conceitos de filosofia grega, que se incorporaram aos textos sagrados Cristãos.

Continua Leibniz dizendo que Santo Agostinho e outros autores Cristãos “contribuíram para reduzir a teologia à forma de ciência”, dando sequência com os escolásticos, que fizeram “um composto de teologia e filosofia, no qual a maior parte das questões vinha da preocupação que se tinha em conciliar a fé com a razão. Mas isso não aconteceu com todo o sucesso que era de esperar, pois a teologia tinha sido muito corrompida pelo infortúnio dos tempos, pela ignorância e pela teimosia; e porque a filosofia, além dos seus próprios defeitos, que eram muito grandes, encontrava-se sobrecarregada pelos da teologia, que, por sua vez, se ressentia da associação com uma filosofia muito obscura e muito imperfeita” (Idem, p. 77).

Outrossim, o trabalho científico bem desempenhado está associado a uma Filosofia Primeira, ou Teologia, como dizia Aristóteles, sendo que a própria Teodiceia enfrenta temas eminentemente teológicos: a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal.

Como salientado pelo autor em comento, há uma interferência recíproca entre Teologia e Filosofia, afirmando que a primeira foi muito corrompida e que a segunda, além de seus grandes defeitos, ainda levava consigo os daquela, já ressentida da associação com uma filosofia muito obscura e muito imperfeita.

Para um pensador do Monoteísmo, assim, a principal disciplina científica é a Teologia, e como reconhecido pelo rabino, a subdisciplina mais importante é a Cristologia, que está tanto no fundamento do judaísmo, na forma de messianismo, como, obviamente, no próprio Cristianismo.

Leibniz constata que não é por acaso que a “questão do uso da filosofia na teologia foi muito agitada entre os cristãos, e foi difícil reconhecer os limites desse uso, quando se entrou em (seu) detalhe. Os mistérios da Trindade, da Encarnação e da Santa Ceia foram os que mais ocasionaram controvérsias” (Idem, p. 86).

Portanto, não é coincidência que tais assuntos são objeto de grandes controvérsias teológicas, dada a necessidade de que temas especificamente religiosos sejam também tratados científica ou filosoficamente, acarretando aquela mescla de Teologia e Filosofia que são inerentes aos grandes pensadores da História, começando por Platão e Aristóteles e continuando com São Paulo, o autor do quarto Evangelho, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

O próprio Jesus desempenhou um trabalho de mudança de visão teológica, de tal magnitude que ainda não é compreendido adequadamente, seja por judeus ou cristãos, especialmente no que diz respeito a Trindade, Encarnação e Santa Ceia.

A despeito dessas controvérsias, para alcançamos o conhecimento da obra da salvação, algumas ideias de Leibniz são muito valiosas, especialmente sobre os atributos de Deus e sua atuação na criação:

Sabe-se que ele cuida de todo o universo, no qual todas as partes são ligadas; e disso devemos inferir que teve uma infinidade de cuidados, cujo resultado lhe fez considerar que não era oportuno impedir certos males.

35. Até devemos dizer que é preciso necessariamente que tenha existido grandes, ou melhor, invencíveis razões, que levaram a divina sabedoria à permissão do mal, por isso mesmo nos espanta que essa permissão tenha acontecido; pois nada pode vir de Deus que não seja perfeitamente conforme à bondade, à justiça e à santidade” (Idem, pp. 98-99).

Corretíssima, e de acordo com a mais avançada Ciência, a Física moderna, que todas as partes do universo estão ligadas, pelo que a afirmação muito comum nos dias de hoje, “meu corpo, minhas regras”, para defender o aborto, por exemplo, soa uma clara negativa dos fundamentos da Ciência, sem falar no absurdo moral que representa.

Indispensável que a discussão religiosa volte ao plano científico, como o fizeram os primeiros autores Cristãos demonstrando que era o paganismo que se mostrava contrário à razão.

É que a razão, bem longe de ser contrária ao cristianismo, serve de fundamento para essa religião, e fará com que seja aceita por aqueles que possam examiná-la. Mas como poucas pessoas são capazes disso, o dom celeste de uma fé nua e crua que leva ao bem basta para a maioria. ‘Se fosse possível’, diz ele (Orígenes), ‘que todos os homens que neglicenciam os compromissos da vida se aplicassem no estudo e na meditação, não seria preciso outra via para lhes fazer receber a religião cristã’” (Idem, p. 108).

A obra de salvação é, pois, também, e principalmente, um trabalho da Razão, do Logos, urgindo a grande mudança de consciência, de percepção sobre a realidade, sobre a natureza do Cristianismo, que se funda na própria Razão, no Logos, e que depende da atuação de cada um e todo Cristão, mostrando a obra do Autor da criação em si e em tudo, que tudo é especial, resgatando o conhecimento são e a busca da Verdade, impedindo que os não crentes ataquem indevidamente a religião usando de falsos argumentos e, finalmente, fazendo com que o governo humano volte a se submeter a Deus, no correto entendimento de Cristo, tornando-se justo e impedindo que o aprendizado nas academias seja palco de imoralidades, pois, no fim das contas, as profundidades da Ciência confirmam os ensinamentos mais profundos do Judaísmo, e do Cristianismo, na medida em que Jesus de Nazaré é o Messias de Israel, o centro de sua Fé.

A Teodiceia de Leibniz

Tanto o artigo anterior como outros dois já publicados, “A indispensabilidade metafísica e A Monadologia” (https://holonomia.com/2020/08/16/a-indispensabilidade-metafisica-e-a-monadologia/) e “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/), são inspirados na obra de Gottfried Wilhelm Leibniz, cujo modo de pensar, tanto por sua lógica como pela coerência com a cosmovisão Cristã, muito me agrada, pois parte de um determinado entendimento de Deus, que compartilho com o autor, e daí desenvolve toda uma série de argumentos.

Já no texto anterior eu pretendia abordar algumas passagens da Teodiceia de Leibniz, mas a escrita acabou evoluindo em outra direção, de modo que foi interrompido o raciocínio sem passar para a obra indicada, de modo a não alongar demais o assunto.

A parte inicial do livro traz uma exposição dos tradutores sobre a diferença entre a Teologia Natural de Leibniz e Newton, ressaltando a busca pela causa primeira, Deus, na pesquisa dos referidos autores, bem como na distinção em suas concepções de espaço e tempo. Como salientado no artigo “A unidade entre corpo e alma”, Leibniz antecipou a relatividade do espaço e do tempo, contrariando o entendimento de Newton. Como consta na introdução:

“O fato de a Relatividade Geral de Einstein recusar o espaço e o tempo absolutos, somado ao advento, já no século anterior, das geometrias não euclidianas acaba por exigir uma nova leitura dos autores que entendiam o espaço e o tempo de forma diferente da de Newton ou mesmo da de Kant – revisão que pode muito bem ser iniciada pela leitura minuciosa da Teodiceia” (Ensaios de teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. Gottfried Wilhelm Leibniz. Tradução William de Siqueira Piauí e Juliana Cecci Silva. 2 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2017, p. 39).

Mas essa revisão, no contexto dos referidos autores, deve ocorrer mantendo o entendimento pela existência daquela causa primeira, ou Deus, Que é expressa nos trabalhos de Newton e Kant, e condicionam suas visões de mundo, não só no aspecto teológico, como também nos âmbitos filosófico e propriamente científico.

E não há como enfrentar a realidade adequadamente, mesmo em termos epistemológicos, deixando Deus de fora, sendo urgente superar a visão do século XX, que tinha as questões ligadas ao mundo divino como nulidades científicas ou irracionais, para voltar a conceber Deus como o centro e a origem da própria Razão, restaurando a cosmovisão Cristã em sua essência, segundo a qual no Princípio é o Logos, e esse Princípio e esse Logos é Deus.

É mesmo admirável como Leibniz sabe abordar a natureza das coisas, ainda que sua teoria não seja perfeita, pois tem uma noção corretíssima do universo, e dos atributos de Deus, como exposto no Prefácio:

As perfeições de Deus são aquelas da nossa alma, mas ele as possui sem limites; ele é um oceano do qual só recebemos gotas: em nós, existe algum poder, algum conhecimento, alguma bondade; mas em Deus eles existem plenamente. A ordem, as proporções, a harmonia nos encantam, a pintura e a música são exemplos disso; Deus é todo ordem, sempre mantém a justeza das proporções, e faz a harmonia universal: toda beleza é uma efusão dos seus raios” (Idem, p. 47).

Levando essas ideias a sério, isto é, Deus como fundamento da razão, da ordem, da bondade e da harmonia, Leibniz desenvolve com eloquência seus argumentos, entendendo muitos dos problemas enfrentados pela cristandade.

Cristãos pensavam que poderiam ser devotos sem amar seu próximo e piedosos sem amar a Deus; ou mesmo acreditou-se poder amar seu próximo sem servi-lo e poder amar a Deus sem conhecê-lo. Muitos séculos passaram sem que o público se apercebesse desta falha; e há ainda muitos vestígios do reino das trevas. Vemos algumas vezes pessoas que falam muito sobre a piedade, sobre a devoção e sobre a religião que estão, de fato, ocupadas em ensiná-las; mas não as achamos nem um pouco instruídas quanto às perfeições divinas. Elas concebem mal a bondade e a justiça do soberano do universo; elas imaginam um Deus que não merece ser imitado nem amado” (Idem, pp. 48-49).

Existem ainda outras falhas no entendimento Cristão que perduram por outros séculos desde que Leibniz escreveu tais sábias palavras, de todo modo, como sustenta o autor, é, sim, indispensável o conhecimento de Deus, das perfeições divinas, da bondade e da justiça do soberano do universo para que Ele possa ser adequadamente adorado e louvado, e tal Ciência é tanto benéfica para nós mesmos, pela Paz (de Cristo) que proporciona, quanto para aqueles com quem nos relacionamos, na medida em que podemos dar um verdadeiro testemunho de nossa fé, e pelos bons efeitos dessa fé na vida alheia. Nesse ponto, já diziam os apóstolos:

Por isso não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor” (Ef 5, 17);

antes, santificai a Cristo, o Senhor, em vossos corações, estando sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pede” (1Pe 3, 15).

Não é possível entender a vontade do Senhor ou dar as razões da fé e da esperança cristãs sem conhecimento, sem proximidade com os conceitos ligados a Deus e às virtudes e qualidades que Ele espera sejam desenvolvidas nos homens, especialmente sobre o projeto de Deus para a humanidade, que tem como destaque absoluto a Vida e Paixão de Jesus de Nazaré, o significado do Cristianismo, a encarnação do Logos, a vivência da maior racionalidade concebível, o Reino de Deus inaugurado por Cristo.

Sobre a ação da Providência no mundo, Leibniz diferencia o fatum stoïcum (destino estoico), que dava tranquilidade quanto aos eventos, para evitar preocupações inúteis, o fatum mahumetanum (destino maometano), pelo qual os turcos não evitavam perigos, e o fatum christianum (destino cristão), contentamento quanto à bondade de Deus, Que não negligencia nem os cabelos da nossa cabeça, referentes a distintos entendimentos sobre a necessidade dos acontecimentos, quanto ao futuro inevitável, aliado à presciência divina sobre todas as coisas do universo, do que decorre que devemos confiar em Deus inteiramente.

É como se disséssemos aos homens: façam o seu dever e fiquem contentes com o que vai acontecer, não somente porque vocês não poderiam resistir à providência divina ou à natureza das coisas (o que pode bastar para estar tranquilo, mas não para estar contente), mas também porque vocês têm obrigação para com um bom mestre. E é isso que podemos denominar fatum christianum)” (Idem, p. 51).

A pessoa de nosso tempo terá muita dificuldade para aceitar ou compreender o texto de Leibniz, inserido em contexto de presença espiritual e moralidade absoluta, com ênfase nos deveres, nas obrigações, quando o tempo presente é de destaque amplo e unilateral para os direitos, com enfoque eminentemente para o mundo material, que, apesar de importante, é, em realidade, um médium para a realização do Espírito.

Nessa mesma linha, a ideia de uma determinada realidade a ser alcançada, o Reino da graça, praticamente deixou de existir, passando a dominar o (des)entendimento sobre o Reino da natureza, que seria regida pelas forças do acaso. Perdeu-se completamente a noção do que Leibniz define como a “filosofia dos cristãos, que identifica melhor que a dos antigos a dependência das coisas (com relação) ao primeiro autor e seu concurso para com todas as ações das criaturas” (Idem, p. 54).

Uma das ideias principais de Leibniz é de que Deus escolhe sempre o melhor, e por isso vivemos no melhor dos mundos possíveis, caso contrário Ele não teria escolhido o melhor, o que seria negar sua suprema Bondade e infinita Sabedoria, O Qual, “fazendo tudo no mesmo instante, inicialmente com ordem, tinha estabelecido aí toda ordem e artifício futuro. Não existe caos no interior das coisas, e o organismo está, em toda parte, em uma matéria cuja disposição vem de Deus” (Idem, p. 62).

A existência de mal no mundo não contraria tudo o que foi dito, porque “Deus, tendo escolhido o mais perfeito de todos os mundos possíveis, fora levado por sua sabedoria a permitir o mal que estava ligado a ele, mas o que não impedia que, tudo calculado e acertado, este mundo fosse o melhor que pudesse ser escolhido” (Idem, p. 65).

A questão do mal está indissoluvelmente ligada com a da liberdade humana, com a natureza da alma, temas que serão novamente desenvolvidos no próximo artigo, mas a matéria alma merece uma citação final:

“Talvez ainda seja bom observar, antes de terminar este prefácio, que ao negar a influência da alma sobre o corpo ou do corpo sobre a alma, isto é, uma influência que faça com que um perturbe as leis do outro, de modo algum nego a união de um com o outro que nele é uma parte constitutiva, mas essa união é algo de metafísica que não muda nada nos fenômenos” (Idem, p. 67).

Como já ressaltei em artigo anterior, discordo desse entendimento do autor, pelo dualismo inerente à sua harmonia preestabelecida, segundo a qual a correspondência da alma com o corpo decorreu de uma sincronização estabelecida por Deus no princípio da criação, pela qual os fenômenos da alma ocorrem simultaneamente com os do corpo, como dois relógios coordenados.

Assim escrevi no artigo “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/):

“Leibniz afirmava que as almas possuem internamente a representação de todo universo, cada uma de seu ponto de vista, possuindo perfeita harmonia com as coisas que estão fora das almas, regidas pelas leis do mecanismo corporal. ‘E como a natureza da Alma é representar o universo de um modo muito exato (embora com maior ou menor nitidez), a sucessão de representações que a Alma produz para si mesma irá naturalmente corresponder à sucessão de mudanças no próprio universo’ (Idem, p. 67). Desse modo, há também um dualismo no entendimento do autor, por não haver interferência nos mecanismos das leis do corpo com a atividade da alma, porque tudo que ocorre nesta é originado de sua constituição original, como representação de todo universo, expressando cada coisa externa no seu devido tempo, pela harmonia conferida por Deus a todas as coisas.”

Esse é um assunto teológico de primeira grandeza, que será continuado na próxima semana…

Teodiceia

Teodiceia é palavra que trata de um assunto definitivo, fundamental, essencial, presente diuturnamente em nossas vidas, mas que lamentavelmente é pouco lembrado na vida cotidiana, fato este um sintoma do tempo sombrio em que vivemos, como reflexo do lampejo iluminista que sequestrou a alma da humanidade, na medida em que aquela fagulha de luz se apagou, porque se afastou de sua fonte, a Filosofia de Cristo, sobrevindo o período que talvez seja de mais intensas trevas da História, em que a tecnologia foi e tem sido usada para a destruição em grande escala, da vida humana e do planeta.

Tal vocábulo decorre da junção dos termos gregos Théos, ou Deus, e Díke, ou Justiça, referindo-se, pois, à ideia de Justiça Divina, conceito totalmente estranho à mente contemporânea, resultado do iluminismo que, ao longo do século XVIII, foi afastando a Ciência da Teologia, passando pela concepção marxista de que “a religião é o ópio do povo” e culminando na declaração de Nietzsche de que “Deus está morto”, no final do século XIX, proposta que restou desenvolvida ao longo do século XX, no qual temas religiosos ou a associação da racionalidade científica com a realidade espiritual foram implícita ou expressamente rechaçados, quando, não por acaso, a besta humana se mostrou com toda sua força, por meio do nazifascismo e do comunismo.

O pensamento secular e laico não consegue compreender a verdadeira dimensão da Justiça Divina, seu significado, principalmente quando o plano espiritual é tratado como uma fantasia, uma invenção humana destinada a ofuscar o medo da morte, de modo que falar em Teodiceia é entendido por aquele modo de pensar como uma nulidade científica, um anátema, sendo todas as pessoas e propostas a ela relativas condenadas de plano, a priori, como irracionais.

Na medida em que Deus foi excluído do chamado pensamento racional, o que levou consigo concepções filosóficas ligadas ao Absoluto, aberto ficou o caminho para o avanço do relativismo moral, que hoje domina a teoria política e o pensamento jurídico ocidental, a despeito de a condenação dos horrores nazistas ter se lastreado nos valores superiores da moralidade judaico-cristã, porque da perspectiva do relativismo moral e do materialismo não havia e não há fundamento bastante para condenar as propostas nazistas. Sem a utilização de uma ideia absoluta, de um valor supremo, que esteja acima da concepção supremacista racista, o conflito continuará no plano das ideias, e somente a força física restará como modo de superação dos impasses sociais.

Do ponto de vista evolutivo, apenas no estágio de desenvolvimento superior e posterior é possível entender adequadamente as deficiências do anterior, isso tendo como pressuposta a ideia de que a evolução é um fato. Como a ciência secular não oferece alternativa a esta, a menos que se pense que a vida chegou ao seu limite evolutivo, resta pensar quais são os critérios de seleção natural do próximo nível de existência biológica.

Para combater a supremacia branca, por exemplo, que pode ser considerada uma hipótese lógica da evolução material, e por isso seduziu a população germânica sob a liderança de Hitler, e continua convencendo alguns atualmente, apenas uma supremacia superior, com uma lógica mais elaborada, tem o condão argumentativo de suplantar a segregação humana, e tal é a lógica Cristã, com a ideia de encarnação do Logos, como Espírito Absoluto, de supremacia de Cristo, do Espírito que move a carne para o Bem. Em qualquer escala de valores que se possa conceber, nada há de mais elevado que o próprio Deus, que o mundo da divindade, que se coloca acima de possíveis hierarquias humanas.

Assim, é por meio de algo absoluto, ou sagrado, que a realidade é devidamente discernida, porque quando tudo é neutro e homogêneo, sem diferenciação, não há critério de escolha, não há ciência, não há lógica.

Vale dizer que a ideia de algo Absoluto, que serve de parâmetro para relativizar tudo mais que existe, é indispensável para o desenvolvimento do pensamento racional, pois sem que existam axiomas, postulados aceitos como certos, inquestionáveis, não há como fundar uma argumentação lógica. O princípio da não contradição é condição sine qua non para atividade filosófica, matemática e científica.

As noções de igualdade, semelhança e diferença são básicas na argumentação lógica, e também para as concepções de Justiça, que trabalha com os conceitos de certo e errado, bem e mal, classificando as diferenças entre comportamentos e fatos para, então, qualificá-los como justos e injustos. O justo é diferente do injusto, sob pena de violação do princípio da não contradição.

Assim voltamos à ideia de Teodiceia, porque diante da inequívoca existência de injustiça nas sociedades humanas, algumas excepcionalmente intensas, o argumento pela inexistência de Justiça Divina ganha força, principalmente entre os ignorantes.

Por isso é importante destacar dois níveis de Teodiceia, um a cargo da humanidade e outro de responsabilidade do próprio Deus.

Ao contrário do pensamento comum, a Justiça humana é, sim, uma delegação da atribuição divina de promover os valores superiores da criação, de modo que a Teodiceia deve ser realizada também por nós, para a promoção do Bem, promovendo o arrependimento dos malfeitores e a honra dos benfeitores. Na realidade, da perspectiva da divindade, quando nós exercermos bem essa função sacerdotal e celestial, especialmente no plano internacional, quando houver consciência verdadeiramente espiritual na tarefa de governar e julgar as questões terrenas, será dispensável a interferência de Deus para correção dos assuntos humanos, porque já estaremos atuando com Deus.

Por essa razão são as passagens bíblicas atribuídas aos apóstolos Paulo e Pedro, exigindo que os Cristãos sejam obedientes aos poderes humanos: “Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13, 1); e “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como enviados seus para a punição dos malfeitores e para o louvor dos que fazem o bem, pois esta é a vontade de Deus que, fazendo o bem, tapeis a boca à ignorância dos insensatos” (1Pe 2, 13-15).

Contudo, tanto por desconhecimento quanto por opção irracional, as leis divinas, o que também ocorre com as humanas, são rotineiramente desrespeitadas, provocando um aumento gradativo da desordem, o que culmina em revoltas e revoluções, na intervenção das autoridades ou do próprio Deus.

A História humana é repleta de eventos dessa natureza, estando narradas nas sagradas escrituras aquelas situações extraordinárias em que as forças celestiais agiram sobre o curso dos acontecimentos, do que podem ser citados o Dilúvio, o Êxodo e a Ressurreição de Jesus.

Em termos de Justiça Divina, este último fato é de importância maiúscula, que delimita exatamente o sentido da evolução, marcando antecipadamente as qualidades humanas do estágio de desenvolvimento superior e posterior da espécie, no exemplo de Jesus de Nazaré, e indicando a continuidade existencial dos indivíduos, pois na medida em que se entende que nossa realidade pessoal não se encerra com a morte, e que haverá uma prestação de contas pelas ações desta vida, tanto as benéficas quanto as maléficas, o conceito de Teodiceia fica melhor contextualizado.

Além disso, a Ressurreição é prova do acerto de determinada moralidade, da concepção de bem e mal adotada pelo judaísmo de Jesus Cristo, e visão política, o trabalho honrado e irrepreensível do líder, do Rei e Sacerdote, exatamente o exemplo de bom desempenho das atividades de governança humana, nos planos nacional e internacional, que dispensa a interferência de Deus para correção dos assuntos humanos, porque já conduzidos segundo a própria Lei Natural.

Como temos visto que, para os dois lados do espectro político, a humanidade está muito longe desse modelo, seja por falhas grotescas na legislação, quando premia a ilegalidade sexual, igualando indevidamente a diferença, com os benefícios do sagrado matrimônio, ou quando declara a normalidade do assassínio de vidas humanas, adotando uma lógica inferior, como a da supremacia branca, de um lado, ou pelo péssimo comportamento de lideranças de destaque, estimulando a desobediência civil com base ególatra, ou o desrespeito pela vida alheia e pelos menos favorecidos, de outro lado, isso é sinal de que a Teodiceia exercida pelo próprio Deus talvez esteja próxima de ocorrer…

A insuficiência da lei

O Brasil é um país em que se demonstra com facilidade da insuficiência da lei, havendo leis que “pegam” e “não pegam”, no sentido de serem respeitadas por seus destinatários, ou não.

A lei remete para uma autoridade que a edita, como norma geral de comportamento a ser respeitada por todos, presumindo-se que em sua elaboração sejam adotados critérios de racionalidade e justiça, o que, contudo, lamentavelmente, nem sempre ocorre na legislação humana. Muitas vezes, de outro lado, a norma estabelece padrões de comportamento que estão além da capacidade ordinária do cidadão para respeitá-la, carecendo de campanhas maciças de informação, para que o objetivo previsto pela norma seja compreendido e, então, realizado. Este último é o caso da Lei de Cristo, que também é a Torá, a Lei do amor, a qual, apesar de sua antiguidade e de o Evangelho ser pregado em todo planeta, ainda não atingiu a adequada compreensão de seus destinatários, porque sua Inteligência é de um nível difícil de ser alcançado, e mais difícil ainda de ser praticado.

Portanto, pode ocorrer de a norma não ser propriamente inteligente, porque mal elaborada, o que pode ocorrer com a lei humana, e será, mais cedo ou mais tarde, superada, ou ser superinteligente, situação da Lei Divina, exigindo intensa campanha de educação popular, e também da elite intelectual, para conscientização da necessidade de sua observância, para o Bem (que é sempre coletivo).

Desse modo, para além da questão formal, está presente na utilidade e eficácia da legislação um aspecto cultural, de desenvolvimento de uma mentalidade associada às razões pelas quais as normas existem, via de regra, o bem individual e comunitário.

Nesse aspecto, o brasileiro pode ser considerado um povo com momentos constantes de falta de educação, em que os valores civilizatórios, a consciência de respeito às leis e a boa formação cultural estão ausentes ou são solenemente ignorados, isso tudo a despeito da influência, em nosso país, do Cristianismo, que representa o melhor: da civilização, da consciência humana, do conceito de Lei e do desenvolvimento cultural.

Um exemplo recente que pode ser dado é o comportamento durante as eleições, nas quais, em que pesem as constantes campanhas de informação sobre a importância do voto, e da necessidade de escolha dos candidatos pela qualidade de suas propostas, os eleitores continuam a se envolver em episódios de compra de votos, em que há a correlata participação dos políticos, ou quando, no dia do pleito, insistem em movimentos coletivos ilegais de manifestação da preferência eleitoral, com aglomeração usando camisas das mesmas cores, as quais identificam grupos partidários, e o que é pior, em pleno período de pandemia. O último caso diz respeito a uma paixão mal direcionada por maus exemplos e má liderança, como também ocorre em eventos futebolísticos/esportivos, e mesmo em situações de religiosidade.

Outra situação tem sido constatada recentemente, quando são flexibilizadas as medidas de isolamento para contenção da disseminação do vírus, permitindo-se determinadas atividades, com alguns procedimentos de prevenção, como distância mínima entre as pessoas e uso de máscaras, mas tais protocolos são simplesmente desprezados. As regras existem, as pessoas delas têm conhecimento, mas optam, quase sempre por motivos ególatras, ou pela mais bruta insensatez, por não respeitar os mandamentos.

Esse problema não é novo, foi enfrentado pelo Messias, que destacou a hipocrisia das pessoas, e diz respeito a um assunto fundamental do Cristianismo, e que vale também para o Judaísmo e para Islamismo, porque são culturas religiosas inseridas em contexto de vida regulada por normas jurídicas. Por mais que o mundo cristão tenha se afastado dessa premissa, e isso é uma das principais falhas da visão cristã prevalente, o tema da Lei é central para a realização do Reino de Deus, que representa o tempo em que as leis são respeitadas, porque considerados seus objetivos espirituais e os valores e virtudes que representam.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Importava praticar estas coisas, mas sem omitir aquelas. Condutores cegos, que coais o mosquito e tragais o camelo!” (Mt 23, 23-24).

Importa praticar estas coisas, os preceitos menos importantes, sem esquecer o que é essencial: a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Apesar de o apóstolo Paulo, principal teólogo do Cristianismo, ter afirmado, naquela que pode ser considerada a obra de conclusão de sua doutrina, seu trabalho mais elaborado, talvez o último texto que escreveu e que chegou até nós, como uma síntese de seu pensamento, a Epístola aos Romanos, que “ninguém será justificado pelas obras da Lei, pois da Lei vem só o conhecimento do pecado” (Rm 3, 20), e que “sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei” (Rm 3, 28), ele expressamente se contrapõe a uma possível conclusão equivocada de suas palavras: “Então eliminamos a Lei através da fé? De modo algum! Pelo contrário, a consolidamos” (Rm 3, 31).

A Lei, outrossim, deve ser consolidada pela fé, não tendo sido revogada, mas cumprida e ressignificada pelo Cristo, porque “a Lei é santa, e santo, justo e bom é o preceito” (Rm 7, 12), pelo que deve ser considerada a “Lei a expressão da ciência e da verdade” (Rm 2, 20).

Mas é necessário ter entendimento do seu sentido, que é espiritual, dizendo respeito ao contexto de sua interpretação, à realidade última de que se origina e para qual se destina, o próprio Deus, O qual “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4).

Sabemos que a Lei é espiritual” (Rm 7, 14), pelo que o seu cumprimento não pode ser meramente formal, automático, ignorante, porque por essas obras ninguém é justificado, sendo necessário encarnar seu Espírito para que a justiça e a misericórdia nela presentes sejam manifestadas, para o Bem (que é sempre individual e coletivo).

A razão superior deve prevalecer sobre as vontades mais baixas que dominam o corpo, mascaradas sob falsos bens, no que se incluem as ideias sobre aborto, união gay, segregação arbitrária de estrangeiros etc. Para cumprir a Lei, destarte, é necessário vencer o instinto animal, o egoísmo que age em nós, inclusive ao racionalizar em favor de bestialidades.

Eu me comprazo na lei de Deus segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe em meus membros” (Rm 7, 22-23).

Todos queremos nos libertar das amarras das máscaras, e nos aproximar das pessoas queridas, com beijos e abraços, mas adotar estes comportamentos na situação atual equivale a levar a essas mesmas pessoas, e para aqueles que com eles convivem, um risco que pode ser fatal.

Ainda que sejamos fortes e saudáveis, podemos estar contaminados e levar o vírus a alguém que não suportará o desenvolvimento da doença. Isso é um fato. Quantos estiveram doentes e assintomáticos? Quantos não souberam dessa situação e, sem perceber e sem querer, provocaram, mesmo que indiretamente, a morte de alguém? Nesse ponto, diante da cobertura midiática da pandemia, ainda que por vezes sem o devido compromisso com a Verdade, poucos poderão dizer que não sabiam que era necessária a prevenção diante dos riscos representados pela pandemia, os demais terão agido com culpa, que certamente será reconhecida, e lamentada, ou punida, no derradeiro julgamento.

Pois todos nós compareceremos ao tribunal de Deus. Com efeito, está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim e toda língua dará glória a Deus. Assim, cada um de nós prestará contas a Deus de si próprio” (Rm 14, 10-12).

O critério de julgamento, há muito, já é conhecido, na Lei e para além dela, o amor ao próximo. Quem aglomera irresponsável e desnecessariamente não tem amor ao próximo. Quem não usa máscara, principalmente por opção política, não tem amor ao próximo, ao colocar, equivocadamente, projetos humanos egóicos acima do valor das pessoas, representando a hipocrisia que o Messias já revelava em seu tempo, que vale tanto para autoridades quanto para a população em geral. Uma autossuficiência soberba faz com que alguns entendam que não estão obrigados a prevenção, deixando de pensar que sua prevenção poderá impedir que o vírus, que é invisível e cuja ação ainda tem muitos aspectos para nós desconhecidos, chegue até alguém cujo organismo não terá condições de a ele resistir.

Não se trata, enfim, simplesmente da lei, mas de amor, da Lei.

A lei humana pode ser insuficiente, mas o Cristão se pauta por critérios superiores, por uma caridade para com todos, busca a realização do Espírito, indispensável para a plenitude da Lei.

Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei. De fato, os preceitos: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e todos os outros se resumem nesta sentença: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13, 8-10).