A indispensabilidade metafísica e A Monadologia

O mesmo fato me deixa extremamente animado, por um lado, e profundamente irritado, de outro, a indispensabilidade metafísica, o que decorre do fato logicamente inegável de que a ciência de hoje é antes decorrente de pressupostos metafísicos do que propriamente da atividade experimental, na medida em que esta tem aqueles como antecedentes metodológicos necessários.

Inicialmente, é necessária uma definição básica de Metafísica, que pode ser tanto tomada como o que está além do nosso conhecimento da Física quanto no sentido de Ideologia, ou Filosofia, ou seja, a forma fundamental de um entendimento mais amplo e completo de mundo. Isso decorre da circunstância científica resultante da incapacidade humana de alcançar experimentalmente, de forma imediata, determinados fenômenos da realidade, que somente são atingidos, ao menos inicialmente, na forma de experimentos ou elaborações mentais ou conceituais, e daí a indispensabilidade metafísica.

A partir de algo conhecido e sentido é (re)formulada uma hipótese de organização do mundo, que é uma concepção ideológica ou proposta metafísica, tentando-se, então, através de ações, medições e observações a associação racional e sensível de fenômenos conhecidos com aqueles logicamente decorrentes dessa organização de mundo. Esta e alguns de seus aspectos, portanto, até que sejam comprovados, devem ser considerados conceitos metafísicos, porque além da física, superam nossa capacidade experimental imediata.

Tomemos por exemplo uma das últimas grandes descobertas científicas, produzida pela mais cara e maior máquina já produzida pela humanidade, o LHC – Large Hadron Collider, ao encontrar os traços deixados pelo bóson de Higgs, que era apenas uma hipótese até sua comprovação em 2013. De outro lado, o valor encontrado para a massa do bóson de Higgs foi aproximadamente de 126GeV (giga-elétron-volt), que frustrou as expectativas metafísicas dos físicos, que pretendiam um valor de 115GeV ou 140GeV, que seriam compatíveis, respectivamente, com as ideias da supersimetria e do multiverso, este ligado a uma ideia de caos.

No documentário Particle Fever – A Febre das partículas (https://www.youtube.com/watch?v=sIrxEq7JvhQ), é muito interessante a sociologia da ciência na discussão sobre os possíveis efeitos da definição da massa do bóson de Higgs para as carreiras dos físicos e para as possibilidades científicas. E após a grande celebração pela confirmação da descoberta do bóson de Higgs, é curiosa a discussão sobre a natureza metafísica dos resultados, segundo os quais o Higgs não é matematicamente adequado nem às teorias que os físicos desenvolviam sobre supersimetria e nem acerca do multiverso. Uma cientista tem uma fala marcante, dizendo que “a nova física ainda está para ser descoberta”. Tal manifestação é efeito do enigma metafísico para o qual apontou o bóson de Higgs, exigindo, de fato, uma nova Filosofia, que seja adequada à nova Física.

A Física, como Ciência mais básica, portanto, é dirigida pelo pensamento metafísico, queiram ou não os antimetafísicos, o que é motivo de irritação, porque as ideias que ainda orientam as pesquisas são essencialmente metafísicas: multiverso, supersimetria, teoria das cordas etc.

A Metafísica é, dessarte, indispensável. Mesmo tendo sido relegada nas áreas humanas e sociológicas, é essencial e pressuposta naquelas tidas como naturais, o que é mesmo uma contradição, resultado do domínio materialista na atividade científica contemporânea no âmbito do conhecimento sobre a humanidade, que deve ser tida como majoritariamente inconsistente, filosoficamente incoerente.

A busca da integridade filosófica, ou metafísica, portanto, exige a conjugação das ideias científicas mais modernas com os mais tradicionais sistemas de pensamento, sendo minha opção óbvia uma linha dentro do pensamento monoteísta. Nesse ponto, destaco a grande satisfação na leitura de uma pequena grande obra, A Monadologia, de Leibniz, porque há muito não encontrava tanta coerência em tão poucas páginas, cerca de vinte, em formato de livro de bolso, que contêm os noventa parágrafos do texto em questão.

Gottfried Wilhelm Leibniz foi um gênio, tendo inventado, simultaneamente com Sir Isaac Newton, mas de forma independente, o cálculo diferencial e integral, fundamental para os empreendimentos científicos dos séculos seguintes. Mas o que destaco é seu entendimento metafísico monoteísta, sua forma de pensar o mundo criado por Deus.

Ainda que seja possível que haja, naturalmente, falhas nos detalhes de seu pensamento, é digno de nota o desenvolvimento de uma concepção de universo levando em consideração os atributos do verdadeiro Deus, que é Bom.

<52> E é por isso que entre as Criaturas as Ações e as Paixões são mútuas. Pois Deus, comparando duas substâncias simples, encontra em cada uma delas razões que O obrigam a acomodá-las uma à outra e, por conseguinte, o que é ativo sob certos aspectos, é passivo sob outro ponto de vista: ativo enquanto o que nele se conhece distintamente serve para explicar o que se passa em outro; e passivo enquanto a razão do que nele se passa se encontra no que se conhece distintamente em outro (Teodiceia § 66).

<53> Ora, como há uma infinidade de Universos possíveis nas Ideias de Deus e apenas um único pode existir, tem de haver uma razão suficiente da escolha de Deus, que O determina a um em vez de outro (Teodiceia §§ 8; 10; 44; 173; 196 ss; 225; 414-416).

<54> E esta razão só pode encontrar-se na conveniência ou nos graus de perfeição que esses mundos contêm, cada possível tendo o direito de pretender a Existência em proporção à perfeição que envolver (Teodiceia §§ 74; 130; 167; 201; 345 ss; 350; 352; 354).

<55> E essa é a causa da Existência do melhor, que Deus conhece pela Sua sabedoria, escolhe pela Sua bondade e produz pelo Seu poder (Teodiceia §§ 8; 78; 80; 84; 119; 204; 206; 208; Resumo 1ª Objeção; 8ª Objeção).

<56> Ora, esse vínculo ou essas acomodações de todas as coisas criadas a cada uma, e de cada uma a todas as outras, faz com que cada substância simples tenha relações que exprimem todas as outras e seja, por conseguinte, um perpétuo espelho vivo do universo (Teodiceia §§ 130, 360).

<57> E assim como uma mesma cidade, observada de diferentes lados, parece outra e se multiplica em perspectivas, assim também ocorre que, pela quantidade infinita de substâncias simples, parece haver outros tantos universos diferentes, os quais não são, todavia, senão perspectivas de um só, segundo os diferentes pontos de vista de cada Mônada (Teodiceia § 147).

<58> E esse o meio de se obter tanta variedade quanto possível, mas com a maior ordem, ou seja, é o meio de obter tanta perfeição quanto se possa (Teodiceia §§ 120; 124; 214; 241-243; 275)” (Gottfried Wilhelm Leibniz. A Monadologia e outros textos. Org. e trad. Fernando Luiz Barreto Gallas e Souza. São Paulo: Hedra, 2009, pp. 35-36).

Leibniz consegue, num mesmo e curto texto, compatibilizar ideias de supersimetria e de múltiplos universos dentro de uma ideia única de universo com ordem absoluta. Ele concebe Deus como a unidade primitiva que é origem de todas as Mônadas, das quais somos um tipo especial, porque Espíritos, “imagens da própria Divindade ou do próprio Autor da Natureza” (Idem, p. 41), Mônadas que são as substâncias simples, os verdadeiros átomos da natureza.

Tal proposta tem uma proximidade impressionante com a ideia de ordem implicada de David Bohm, ao sustentar uma interligação em tudo que existe, dizendo que o movimento da luz em cada região se expande interferindo em cada região do espaço, e se “expande por todo o Universo e sobre todo o passado, com implicações para todo o futuro”, gerando uma noção da nova visão da realidade, em que “a ordem total está contida, de algum modo implícito, em cada região do espaço e do tempo”; e implícito, no caso, decorre do verbo “implicar”, significando “dobrar para dentro”, de modo que “cada região contém a estrutura total ‘envolvida’ dentro dela” (David Bohm. Totalidade e a ordem implicada. Trad. Teodoro Lorente. São Paulo: Madras, 2008, p. 157). A concepção é a mesma antes citada: esse vínculo ou essas acomodações de todas as coisas criadas a cada uma, e de cada uma a todas as outras, faz com que cada substância simples tenha relações que exprimem todas as outras e seja, por conseguinte, um perpétuo espelho vivo do universo.

É importante destacar que Leibniz tem uma ideia de Justiça Divina, sendo que o nome de sua obra Teodiceia reúne os conceitos de Théos (Deus) e Díke (Justiça), e não esquece as noções de compensação e recompensa inerentes à cosmovisão monoteísta, muitas vezes esquecida na atual mentalidade cristã, dizendo ele que “os pecados devem carregar consigo sua penitência, em relação à ordem da natureza e em virtude da estrutura mecânica das coisas; da mesma maneira que as belas ações atraem suas recompensas por vias mecânicas, com relação aos corpos, ainda quando isso não possa nem deva acontecer sempre imediatamente” (Obra citada, p. 42), afirmando que não haverá obra boa sem recompensa ou má sem castigo, o que se pode aceitar como correto ainda que a analogia mecânica de mundo não seja a mais adequada. Ressalve-se, ainda, a possibilidade de exercício da misericórdia divina, quando ocorre autêntico arrependimento, correspondente a uma mudança ontológica da Mônada, alterando suas qualidades e ações perante o universo.

O problema do mal existente no mundo, é importante destacar, não pode ser analisado dentro uma perspectiva monoteísta senão com o indispensável pressuposto segundo o qual a morte não encerra a existência humana, de modo que haverá uma prestação de contas, a compensação ou recompensa, sob pena de ruína completa da ideia de um mundo bom criado por um Deus Bom, Justo e Misericordioso.

Nessa linha, é impressionante como Leibniz tem, segundo penso, a correta compreensão da Criação, no sentido de que Deus criou o melhor mundo possível, porque não se poderia esperar outra coisa Dele, e de que Ele não é arbitrário ou injusto, mas segue um Princípio de Razão, o Logos, e é Bom, pelo que, ousadamente, Leibniz afirma que Deus é obrigado a acomodar todas as criaturas em ordem e determinado a escolher o melhor universo, que Deus conhece pela Sua sabedoria e escolhe pela Sua bondade.

Deus é o Ser mais Ético que se pode conceber, e, como tal, como Ético, é de sua Natureza agir segundo o Bem, pelo qual se pode dizer é obrigado e determinado a certas ações. Sim, é possível conhecer alguns aspectos do caráter de Deus, e com base nisso deduzir alguns de seus comportamentos lógicos, pois mesmo que nossa lógica seja limitada em relação à de Deus, a Dele não pode ser inferior à nossa, mas sempre melhor, de modo que somente podemos esperar o melhor do Criador. Se assim não agimos, é porque Dele nos afastamos e esquecemos Seus mandamentos.

Muitas vezes antropomorfizamos Deus indevidamente, mas é próprio Jesus Cristo que nos permite compreender Deus a partir de nossas qualidades, mas em um nível ainda mais elevado. Quando concebemos corretamente Deus como Bom, e atuamos para tornar manifesto o mundo mais perfeito que ele criou, obviamente com o coração puro e obedientes a seus mandamentos, Ele nos dá as boas coisas que precisamos. Sejamos bons filhos, para que possamos ver o Pai, que está nos céus.

Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto; pois todo o que pede recebe; o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá. Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? Ou lhe dará uma cobra, se este lhe pedir peixe? Ora, se vós que sois maus sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedem!” (Mt 7, 7-11).

A natureza dinâmica da Vida

Mesmo que se manifeste no corpo, a Vida não pode ser analisada em termos estritamente corporais, quanto aos indivíduos que possuem algumas qualidades vitais, pois são essas qualidades que se vinculam ao corpo físico e lhe dão a característica de vivo. É por demais sutil a distinção entre um indivíduo dormindo, em coma e morto, e essa diferença é relativa a um movimento que se reduz do primeiro ao último. Daí poder-se falar na natureza dinâmica da Vida, relativa a um movimento.

Mas que movimento? O movimento de um tempo, de modo que Vida está associada a tempo, de que existem vários tipos: o instante, que rapidamente passa, o momento, a fase, a época, a era, a eternidade. São muitas formas de conceitar cortes temporais, do mais fugaz ao mais permanente. O conceito de Vida, portanto, deve ser associado ao de temporalidade. E não só isso.

Também a causalidade é essencial para a caracterização da Vida, tida sua natureza como essencial ou acidental. Daí se chega à Filosofia Primeira, Metafísica ou Teologia, porque se pode entender, de um lado, que há uma teleologia cósmica, uma causalidade, que levou ao desenvolvimento dos seres vivos; ou, de outro, que nós somos o mero resultado acidental, fortuito ou casual das forças cegas da natureza. Isso nos define como seres humanos, essa será nossa derradeira natureza: a criatura que recebe o Espírito do Criador, ao qual nos uniremos; ou um momento aleatório em meio a um nada existencial, a que retornaremos, individual e coletivamente, no próximo instante ou em alguns milhares, milhões ou bilhões de anos, no Big Crunch, Big Rip, Big Freeze ou Big Slurp. Vale dizer que em todas estas hipóteses A Criação é completamente ignorada, e Jesus Cristo não tem o menor significado.

Dito isso, não seria possível conciliar uma teoria científica séria com algum entendimento Monoteísta de cosmos? Evidentemente que sim, mas todas as propostas que tentam ser levantadas nesse sentido são solenemente ignoradas ou prontamente repelidas pelo establishment, pelo materialismo e neodarwinismo que rejeitam tudo que diga respeito ao mundo divino, ao Espírito, porque anticifientífico.

Contudo, o Cristianismo não é uma teoria da ignorância, mas da Sabedoria, porque Deus quer “todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 4). Verdade que é tanto teológica como filosófica e científica.

Para superar essa barreira intelectual, é preciso, indispensável, entender a afirmação de Jesus Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” também em termos modernos, porque sua fala tinha conotação científica para a época, e Paulo, o maior teorizador do Cristianismo, era um grande conhecedor não só da Teologia judaica como da Filosofia grega, que sustentava a racionalidade daquela época.

Os conceitos Vida e Deus, assim, são indissociáveis, sendo mister enfrentar sua essência, seu centro inteligível. Nesse ponto, é mais importante saber onde está o centro de uma esfera ou círculo do que sua superfície ou circunferência, porque apenas o centro permite definir o raio ou o diâmetro, dando-lhe inteligibilidade. Da famosa série Dark, que termina em nova formulação do paradoxo do avô, e que fere o princípio da não contradição, porque o acidente é e não é ao mesmo tempo, de modo que sua solução somente pode ser interpretada como intervenção divina, literalmente a ação de anjos, vale citar a frase: “O que sabemos é uma gota. O que não sabemos é um oceano”. Não é possível, em todo caso, conhecer o oceano sem aquela gota, indispensável para a concepção do todo maior que integra, cujo tamanho ou dimensão talvez seja impossível compreender.

Numa escolha impossível, portanto, entre o centro e a margem, em que esta é definida por aquele, pelo que mesmo a busca da última pressupõe alguma ideia do primeiro, é preciso fixar uma referência, o ponto de apoio, a raiz, o princípio que servirá de fundamento para o desenvolvimento de uma ideia.

Assim, aquele que se diz cristão, mas para quem Jesus não é, de alguma forma, o centro de sua concepção de Vida, daquilo que se entende por Vida e que fundamenta os movimentos de sua vida, talvez não seja verdadeiramente cristão. Se toda sua concepção de Vida estiver limitada à narrativa com conceitos como Big Bang, Big Crunch, Big Rip, Big Freeze ou Big Slurp, que dizem respeito a oceanos de ignorância, sem a inserção de um significado ontológico sobre a crucificação e ressurreição de Jesus Cristo, sua visão não será propriamente cristã, mas algo como um materialismo ou ateísmo, mitigado, ou não.

O centro do Cristianismo decorre desse fato, um evento histórico, que aconteceu no mundo material: “A este Jesus Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas”. “Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos, e disto nós somos testemunhas”. (At 2, 32; 3, 15).

Indispensável, pois, que tal questão esteja no centro da definição do que seja Vida, o que também se aplica a nós.

E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11).

Sem a ressurreição, o Cristianismo é uma mentira. Sem esse fato material, que exige alguma explicação, o cristão é uma falsa testemunha:

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam” (1 Cor 15, 12-15).

Para o Cristão, pois, o movimento da Vida não cessa com a morte do corpo individual, corpo o qual não é de modo algum desprezível, uma vez que templo do Espírito do próprio Deus, existindo, por isso, um nível de movimento que não cessa quando o corpo pára, e que ressurgirá novamente em cada indivíduo, mesmo que essa dinâmica ainda seja para nós um oceano de ignorância. Mas, para além desse desconhecimento, é um pressuposto factual e cognitivo do Cristianismo que a plenitude da Vida se manifestou naquela gota do oceano chamada Jesus Cristo, significando nele tudo aquilo que desconhecemos, mas que em sua ressurreição passou a ter um sentido, mesmo que obscuro, para nós.

Num momento trágico da humanidade, em que a morte é um dos temas centrais, um fato histórico, marcado pelo simbólico e real número de cem mil mortos somente no Brasil, é importante entender a dinâmica por trás desses eventos, com algumas causas recentes e outras que remontam à antiguidade, associadas a ideias, a espíritos, que movem as pessoas e as nações, dentre elas aquelas referentes aos conceitos sobre a origem de todas as coisas e ao nosso papel cósmico, como indivíduos e como espécie, como nações e humanidade, como liderados e como líderes. Enfim, se cada um e todos somos meros acidentes cósmicos ou algo muito, muito mais valioso. Disso decorre como devemos nos portar diante da Vida, em sociedade, perante nossas obrigações sociais, que são morais, jurídicas e religiosas, e sobre como tratamos nossos corpos mortais.

A reflexão não pode se limitar a apontar dedos e indicar culpados, a oportunidade deve servir para uma mudança de entendimento e de comportamento mais profundos, também sobre a responsabilidade dos Cristãos e a função do Estado, sobre que ideias queremos nos governando, sobre qual conceito de Vida devemos adotar. Mesmo que a morte não seja o fim, é indispensável que saibamos nos portar como vivos, valorizando nossos corpos e nossas almas, e sobre o Espírito que nos anima.

Que a Vida tem natureza dinâmica, portanto, não se pode ter dúvida, na medida em que resulta de uma infinidade de interações, incompreensíveis em suas características mais profundas, porque o conhecimento da gota não permite entender o oceano, apenas para ele aponta, e é por um ato fundamental de fé, cientificamente não demonstrado, em uma direção ou outra, que escolhemos, ou livremente arbitramos, Sua origem, como cega fatalidade ou por ação de uma Inteligência antecedente.

Na narrativa Cristã, Jesus é o que mais próximo temos de nós quanto a esse movimento cósmico mais amplo, pois estão além da experiência humana imediata tanto o início de tudo quanto o começo da Vida, tendo ele nos mostrado a correta dinâmica de seu desenvolvimento, por suas ações e interações comunitárias, que levaram aqueles que com ele conviveram a continuar seu movimento de entrega corporal, o que vale ainda hoje, permitindo-se morrer enquanto davam e dão o testemunho da sua ressurreição, situação que somente é adequadamente compreendida tendo essa ressurreição como um fato da Vida, um movimento real e material ocorrido no tempo e no espaço, e que ainda produz efeitos, tanto naqueles que continuam a segui-lo como nos que recebem os bons resultados de suas boas ações.

Na dinâmica da Vida, portanto, nossas ações não têm efeitos apenas de curto espaço e alcance temporal, possuem também consequências de amplo espectro, cabendo a nós, como Cristãos, e como cidadãos, tentar valorizar o que melhor expressa a direção a seguir, o que, contudo, mostra-se por demais ofuscado nas ações das lideranças várias de nossa civilização, o que vale, deve-se dizer, tanto para os têm em seu discurso a defesa da Vida como para os que ignoram o que isso significa.

A Criação

Este artigo continua um tema já tratado em “O ser e o estar: o problema ontológico do nada” (https://holonomia.com/2019/05/01/o-ser-e-o-estar-o-problema-ontologico-do-nada/), cuja pretensão, deve-se reconhecer, bastante controversa, é restaurar a Teologia Cristã a suas origens, na mensagem do próprio Jesus e seus apóstolos, transmitidas por estes mesmos, ou seus seguidores mais próximos, incluídos seus significados filosóficos, escatológicos e históricos. Retomando o argumento:

Pela Teologia, o mundo foi criado pelo Deus único, e apesar de alguns entenderem que essa criação ocorreu a partir do nada, pela criação ex nihilo, existe uma contradição lógica nessa ideia, conforme expressão ex nihilo nihil fit, significando que nada surge do nada. Em nossa experiência ordinária as coisas não surgem do nada. Há na física o princípio da conservação da energia, além do brocardo segundo o qual na natureza nada se cria, tudo se transforma. Mesmo no texto sagrado não é dito que Deus criou tudo a partir do nada, pois a Bíblia informa que ‘no princípio criou Deus céus e terra’, sem que seja informado que a criação tenha sido feita do nada.

Uma boa interpretação teológica pode ser feita da carta aos Hebreus, para entender que o mundo visível surge de um mundo invisível, e não do nada: ‘Por isso é que o mundo visível não tem sua origem em coisas manifestas’ (Hb 11, 3). É possível que haja coisas que somente se tornam visíveis, manifestas ou sensíveis depois de determinados procedimentos ou da aquisição de qualidades especiais necessárias para a percepção dessa realidade mais sutil, até então invisível, mas já existente. (…)

Na Teologia, o argumento óbvio para refutar a ideia de uma criação a partir do nada está no fato pressuposto de que Deus estava presente antes da criação do mundo, porque dentre os atributos divinos está a onipresença, e uma vez que ‘oni’ é um prefixo latino que significa ‘todo’, pelo que onipresente é o que está em todos os lugares e tempos, em todas as partes, ubíquo, o conceito de nada é incompatível com o de Deus, sendo apenas uma palavra com significado meramente lógico, instrumental, com existência mental e não sensível, de modo que não se pode dizer logicamente que a criação ocorreu a partir do nada, e por isso a mente de Deus, e não o nada, é a substância da criação do mundo. Assim, há que se concordar com Aristóteles no sentido de pressupor uma causa primeira, que não é o nada, muito antes, pelo contrário, tudo, Deus, como origem cósmica.”

Se não vemos ou sentimos a presença de alguma coisa ou alguém isso não significa que tal coisa ou pessoa não exista, mas que simplesmente podem estar fora de nosso alcance experimental e/ou simbólico.

Muitas vezes é necessário conhecer uma simbologia para que se possa compreender e, às vezes, até mesmo perceber uma realidade. Segundo a famosa frase de Ludwig Wittgenstein: “As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo”.

A linguagem está inserida em uma cultura, que possui uma semântica própria, um entendimento de mundo representado em palavras, que devem ser tidas como símbolos que apontam para uma realidade, aquele mundo da vida que a linguagem pretende traduzir sonora e graficamente, mas com sentido existencial. Portanto, somente é possível entender o significado da criação em um mundo que considere um Deus específico como Criador, especificidade dada por seus atributos e qualidades, como onipresença, onisciência e onipresença, além de sabedoria e bondade.

Assim, Deus criou um espaço em Si mesmo para a criação se desenvolver, uma espécie de “nada”, ainda a ser preenchido, mas já prenhe da Sua presença. Usando a linguagem aristotélica, na criação, todo ato já existe como potência, sendo possível compreender esse ato ainda em potência na simbologia da própria criação, vivendo seu Espírito, porque conhecer, na linguagem bíblica, é ter intimidade, é viver uma unidade corporal e espiritual, não se trata de algo meramente intelectual.

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Pode ser usada a ilustração de uma esfera, como o espaço da criação, a potência do Corpo criado, tendo sido colocado em seu centro virtual a semente de tudo que ainda viria a existir como ato, sendo cabível uma analogia dessa semente com a singularidade inicial do Big Bang, de modo que cabe à criação se desenvolver até atingir a circunferência da esfera, como ato final da criação, limite entre Criador e criatura.

O destino de toda criação é, pois, reencontrar o Criador, quando o tempo e o espaço criacionais chegarem ao seu termo final, quando o Corpo concluir seu crescimento. Nesse momento, segundo as Escrituras, a criação será refeita, renovada, talvez com o estabelecimento de uma nova esfera, mais ampla, mas com um limite mais fluido entre essa nova criação e o Criador.

Vi então um céu novo e uma nova terra — pois o primeiro céu e a primeira terra se foram, e o mar já não existe. Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade santa, uma Jerusalém nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para seu marido. Nisto ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: ‘Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!’ O que está sentado no trono declarou então: ‘Eis que eu faço novas todas as coisas’. E continuou: ‘Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras.” (Ap 21, 1-5)

Tal profecia já constava de Isaías: “Com efeito, vou criar novos céus e nova terra; as coisas de outrora não serão lembradas, nem tornarão a vir ao coração” (Is 65, 17; 66, 22).

Nós somos membros desse Corpo, e podemos nos desenvolver individualmente segundo Suas Leis, integrados às corretas forma e matéria corporais, ao Corpo e ao Espírito, ou tentando uma autonomia, com normas próprias, como um câncer, que passa a agir desvinculado do organismo em que se situa, uma doença. Assim, em nossa morte, ou no momento em que o Corpo atingir sua maturidade, nos depararemos com os limites da criação, com o Criador, quando poderemos estar de frente para Ele, porque já caminhando em Sua direção, pelo que não haverá surpresa nesse encontro, de lado e até mesmo de costas para o Criador, caso em que o susto não poderá ser evitado. Nesse momento haverá o julgamento, a prestação de contas, quando a própria criação testemunhará sobre aqueles que contribuíram para seu desenvolvimento e os que se voltaram contra ele, e contra Ele.

Pois a criação, submissa a ti, seu Criador, inflama-se para castigar os injustos e abranda-se para beneficiar os que confiam em ti” (Sb 16, 24).

Pois a criação inteira, obedecendo às tuas ordens, em sua natureza tomava novas formas para guardar incólumes os teus filhos” (Sb 19, 6).

Quando, no princípio, o Senhor criou as suas obras, assim que foram feitas, atribuiu um lugar a cada uma. Ordenou para sempre a sua atividade e suas tarefas pelas suas gerações” (Eclo 16, 26-27).

Por suas palavras o Senhor fez suas obras e a criação obedece à sua vontade” (Eclo 42, 15).

Existe, dessarte, uma Lei da Natureza, uma Lei da Vida, o Logos, que podemos seguir, para vivermos em saúde, de forma íntegra, santa. E o melhor exemplo, insuperável, que nunca poderá ser ultrapassado, é o de Jesus, que viveu plenamente esse Logos, obedecendo à Sua vontade, de modo que mostrou em si, em sua vida, o sentido do crescimento do Corpo criado, em favor do qual renunciou ao seu corpo individual, na cruz.

Tal foi a correção de seu caminhar que encontrou Deus frente a frente, sem falhas, naquele momento da maturidade do Corpo criado, e assim voltou ao Corpo no momento em que o deixou, no terceiro dia de sua morte, ressuscitado, em novo corpo individual, servindo de Luz para os que ficaram, como testemunho da Verdade, mostrando que o Caminho por ele seguido é o único que leva à Vida da criação, ainda que ele, pessoalmente, tenha morrido.

Essa morte não era necessária para Jesus, mas indispensável para corrigir a direção do crescimento do Corpo, tendo sido ele a cura do câncer que crescia e se desenvolvia na criação, desde o pecado, a desobediência, desde que o a liberdade foi usada contra o Corpo e o Espírito, contra a Lei, contra o Logos, o que Jesus veio reparar: “Desse modo, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20,28).

Outrossim, a simbologia cósmica somente pode ser adequadamente compreendida reconhecendo que “não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4, 12), e esse nome é Jesus, o Cristo, o Rei, o maior líder da humanidade, porque sacrificou-se para redirecionar a criatura para seu Criador. Sua morte foi a semente da nova criação, que começa aqui.

Por isso Deus o sobreexaltou grandemente e o agraciou com o Nome que é sobre todo o nome, para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho dos seres celestes, dos terrestres e dos que vivem sob a terra, e, para glória de Deus, o Pai, toda língua confesse: Jesus é o Senhor” (Fl 2, 9-11).

A criação, portanto, tem um destino, um ponto final de crescimento, quando passará, e será renovada, momento que alguns profetas já testemunharam em Espírito, porque viviam segundo a ordem dada por Deus, e ainda que ninguém saiba exatamente quando será, a magnificência do Altíssimo nos fez revelar alguns sinais, para nos encorajar, dando-nos esperança para a realidade vindoura. “Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão. Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai” (Mt 24, 35-36).

Esse testemunho é para fortalecer nossa esperança, dar-nos força para continuar durante as provações, quando a doença da criatura tenta sufocar a boa semente.

Penso, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se em nós. Pois a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação foi submetida à vaidade — não por seu querer, mas por vontade daquele que a submeteu — na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente. E não somente ela. Mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo” (Rm 8, 18-23).

Existe uma realidade transcendente que, ao mesmo, tempo, já está presente na imanência criada, ainda que não a vejamos, porque o Espírito já nos revelou, ainda que parcialmente, a plenitude que, enfim, será alcançada pela criação e, então, sua renovação, quando a criatura poderá desfrutar da convivência do Criador.

The End of Quantum Reality

The End of Quantum Reality” é um documentário produzido por “The Philos-Sophia Initiative” (https://philos-sophia.org/), instituição que tem o objetivo de contribuir para a transformação de nossa civilização através da recuperação do aspecto “vertical” da realidade cósmica, com base nas descobertas filosóficas e científicas de Wolfgang Smith.

O documentário objeto deste artigo foi lançado no início de 2020, e adiei o cadastro em novo sítio de disponibilização de vídeos pela internet até recentemente, quando conheci a página Lumine TV (https://lancamento.lumine.tv/cadastro/), através de e-mail recebido do próprio sítio Philos-Sophia. Com surpresa, descobri que também está disponibilizado no sítio o documentário “The Rise of Jordan Peterson”. O melhor é que a plataforma disponibiliza 14 (quatorze) dias de acesso gratuito ao seu conteúdo, pelo que esse terceiro motivo torna imperativo o convite para conhecer o vídeo sobre o trabalho e o pensamento de Wolfgang Smith, e também de Jordan Peterson e a vida de santos, como o Padre Pio, todos com legenda em português.

Assisti ao filme na noite de ontem, cujo assunto é um dos mais complexos, talvez o mais elaborado tema da Ciência e da Filosofia dos últimos cem anos, e que retoma uma discussão de séculos, que, na verdade, surge com a própria Filosofia.

Por que poucas pessoas sabem disso? Wolfgang Smith dá uma resposta quando justifica o abandono de sua bolsa de estudos em Filosofia três semanas após o início do curso.

Se no início de sua carreira acadêmica ele pensava que a Física era o caminho para a compreensão do mundo, depois descobriu que a Filosofia havia se tornado para ele uma busca sagrada, porque significava “amor à sabedoria”, relativo à sabedoria profunda, mística, espiritual, que está além de acrobacias mentais, e por haver amor, não apenas uma questão profissional.

Tal como David Bohm, Smith entendeu que a ciência como a entendemos hoje é insuficiente para explicar o mundo, sendo necessário um retorno à sua origem, à Filosofia. Assim, depois de se formar em Física aos 18 (dezoito) anos, Smith foi cursar Filosofia na Universidade de Cornell, mas lá ficou apenas três semanas, abandonando o curso. Em suas palavras:

Depois de três semanas, eu não aguentava mais, não aguentava o ambiente. E fui ao diretor de departamento de Filosofia e disse: ‘Estou desistindo de minha bolsa de estudos. Vou embora’. Porque para mim filosofia era Philo Sophia. E aquelas pessoas: a) não estavam interessadas em Sophia; também não havia nenhum Philos, nenhum amor em seus corações. Era algo profissional, era frio, era seco (…) e senti não apenas que eu não estava interessado naquilo, eu senti que era uma profanação de algo que é fundamentalmente sagrado. Me senti como se estivesse sacudindo a poeira dos meus pés.”

Em suas falas, Jordan Peterson também afirma que a Universidade de hoje subverte a sua função, que 80% (oitenta por cento) dos trabalhos universitários das humanidades, das chamadas ciências humanas, não são citados uma única vez, e nem mesmo os amigos olham esses trabalhos, o que significa um fracasso institucional. Peterson diz que as universidades falham, prolongando o período de adolescência, não ensinando a falar em público, a ler criticamente ou a escrever. Destaca que a busca pelo conhecimento não se encerra aos vinte e poucos anos, e que a Universidade não vem servido ao público maior para o qual foi instituída.

Portanto, é possível dizer, com Smith, que a Sabedoria tem sido profanada, mas o sacudir a poeira dos pés não é desistir, é continuar, haja vista que o Evangelho, e é disso que se trata, é por isso que Universidade foi criada no seio da comunidade Cristã, o Evangelho continua a ser pregado, e continua a se espalhar, a Boa Nova é cada vez mais presente, e da inconsciência representada pelas eleições de Trump e Bolsonaro chegaremos à consciência da necessidade de um Governo submetido à Vontade de Deus, ao Logos, e não à mentira politicamente correta que domina a academia materialista e ateia e a grande mídia.

Para isso, o trabalho de Smith é indispensável, mas insuficiente, porque se é necessário reformular a Filosofia dos últimos quinhentos anos, é também urgente compreender a Teologia de Cristo, corrigindo dezoito séculos de desvio pagão fruto de influência platônica. Nesse ponto, a base aristotélica da Filosofia de Smith está no caminho certo, e deve ser utilizada também na Teologia, para a melhor compreensão da ideia de Encarnação, que o próprio Smith menciona, mas que o dogma acaba por impedir ser melhor entendida.

A recuperação da dimensão Vertical exige que se entenda o verdadeiro significado de “Deus acima de todos”, de uma Verdade ontológica, e Teológica, que o Cristianismo esqueceu, incluindo o fato de que o Messias é também um líder político e faz a vontade do Pai, o Único Deus, e maior que todos. Nas palavras de Cristo: “o Filho, por si mesmo, nada pode fazer mas só aquilo que vê o Pai fazer” (Jo 5, 19); “Meu Pai, que me deu tudo, é maior que todos e ninguém pode arrebatar da mão do Pai” (Jo 10, 29); “o Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28).

A verticalidade também se aplica a Jesus, o enviado de Deus, como obviamente a nós, os enviados do enviado, para proclamar o Reino.

Em qualquer cidade em que entrardes e fordes recebidos, comei o que vos servirem; curai os enfermos que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’. Mas em qualquer cidade em que entrardes e não fordes recebidos, saí para as praças e dizei: ‘Até a poeira da vossa cidade que se grudou aos nossos pés, nós a sacudimos para deixá-la para vós. Sabei, no entanto, que o Reino de Deus está próximo’. Digo-vos que, naquele Dia, haverá menos rigor para Sodoma do que para aquela cidade. Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Pois se em Tiro e Sidônia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há muito teriam se convertido, vestindo-se de cilício e sentando-se sobre cinzas. Assim, no Julgamento, haverá menos rigor para Tiro e Sidônia do que para vós. E tu, Cafarnaum, te elevarás até ao céu? Antes, até ao inferno descerás! Quem vos ouve a mim ouve, quem vos despreza a mim despreza, e quem me despreza, despreza aquele que me enviou’” (Lc 10, 8-16).

Em verdade, em verdade, vos digo: o servo não é maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que quem o enviou. Se compreenderdes isso e o praticardes, felizes sereis. Não falo de todos vós; eu conheço os que escolhi. Mas é preciso que se cumpra a Escritura: Aquele que come o meu pão levantou contra mim o seu calcanhar! Digo-vos isso agora antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais que Eu Sou. Em verdade, em verdade, vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim recebe e quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (Jo 13, 16-20).

A ubiquidade da realidade quântica transforma o pensamento materialista em loucura, dando novo espaço às questões espirituais na mais fundamental das ciências, e por isso haverá menos rigor para Sodoma do que para a Universidade, de modo que as ideias de Wolfgang Smith devem ser seriamente consideradas, trazendo o conhecimento de volta ao mundo real, ao reino das qualidades, porque “o grande projeto para reduzir o mundo ao que pode ser medido e operado por instrumentos e procedimentos da ciência física está chegando ao fim”, abrindo o conhecimento da humanidade novamente para um cosmos integral, em que o Caminho a ser seguido… é para cima, pela dimensão vertical da cruz, ligando terra e céu.

Infinite Potential: The Life and Ideas of David Bohm

Em setembro de 2014, enquanto lia “A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido”, de Marcelo Gleiser, fui apresentado às ideias de David Bohm:

Uma tentativa de construir uma física quântica satisfazendo as demandas do realismo é a teoria de De Broglie-Bohm das ‘variáveis ocultas’. O físico americano David Bohm desenvolveu a teoria quando trabalhava como assistente de Einstein em Princeton, continuando quando foi para São Paulo em 1952, escapando da perseguição anticomunista da era do macarthismo. Inspirado por ideias de De Broglie, Bohm adicionou um nível de explicação extra na teoria quântica, capaz de descrever a posição do elétron com exatidão. A equação de Schrödinger continuava a mesma, mas era ‘pilotada’ por outra equação, que descrevia a ‘função de onda-piloto’. Da mesma forma que um maestro controla diferentes setores de uma orquestra durante uma sinfonia, a função de onde-piloto determina a divisão (ou bifurcação) da função de onda entre os vários estados físicos possíveis. Esse direcionamento ocorria sob o comando de uma ou mais variáveis ocultas, que eram indetectáveis por experimentos. Como uma divindade onipresente, a função de onda-piloto atuava em todos os lugares ao mesmo tempo, uma propriedade que os físicos chamam de ‘não localidade’. Em outras palavras, na mecânica de De Broglie-Bohm, as partículas permaneciam sendo partículas, e seu movimento coletivo era guiado de forma determinística pela ação não local da onda-piloto. As partículas agiam como um grupo de surfistas pegando a mesma onda, cada um guiado em uma certa direção à medida que a onda onipresente avançava.

Na teoria de De Broglie-Bohm, o comportamento do elétron é perfeitamente previsível; podemos calcular onde estará em um determinado momento do futuro. A variável oculta faz a ponte entre o conceito clássico de realidade e a indeterminação quântica. Mas a barganha tem um preço: para transformar a mecânica quântica em uma teoria determinística é necessário impor uma teia de influência entre tudo o que existe. Em princípio, o Universo como um todo influencia o resultado de cada experimento. Na prática, a velocidade e a aceleração de cada partícula dependem da posição instantânea de todas as outras partículas. O Universo age conjuntamente, determinando as condições ‘ambientais’ (isto é, tudo o que não é a própria partícula) que influenciam cada subsistema – de uma colisão dos detectores do CERN ao movimento das nuvens do céu. A teoria de De Broglie-Bohm leva a condição de não localidade ao extremo. Não é por coincidência que Bohm intitulou seu livro explorando os fundamentos filosóficos de sua teoria de A totalidade e a ordem implicada. E também não é surpreendente que poucos físicos endossem essas ideias, se bem que algumas variações da teoria de De Broglie-Bohm continuem sendo estudadas” (Marcelo Gleiser. A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido. Rio de Janeiro: Record, 2014, pp. 228-229).

Posso dizer que a leitura da passagem acima teve um impacto definitivo em minha vida intelectual, fornecendo o que seria, ao lado das ideias de Hegel e Jung, o terceiro tripé teórico da Teologia ou Filosofia natural que sustento, tudo sob uma leitura Cristã de mundo. Lendo o texto acima transcrito, imediatamente me veio à mente a ideia Cristã de Espírito santo, à qual associei a de onda-piloto, por uma certa identidade entre as respectivas qualidades: a ação de um maestro com atributos de uma divindade onipresente, atuando em todos os lugares ao mesmo tempo, pressupondo existir uma teia de influência instantânea entre tudo o que existe no Universo.

Vale, pois, um novo agradecimento à honestidade intelectual de Marcelo Gleiser, porque deu a descrição teórica da hipótese sem ocultar ou manipular dados, ao contrário do que fazia Stephen Hawking, como exposto no artigo “Ciência: a luta do cosmos contra o caos” (https://holonomia.com/2016/08/13/ciencia-a-luta-do-cosmos-contra-o-caos/):

Para culminar sua extravagância ‘filosófica’, Hawking ainda afirma que as ‘teorias de ‘variáveis ocultas’ preveem resultados em desacordo com as observações. Mesmo Deus está limitado pelo princípio da incerteza e não pode conhecer a posição e a velocidade; Ele só pode conhecer a função de onda’ (Op. cit., p. 107). Tal afirmação, além de conter a visão de uma ameba julgando o conhecimento humano, não é honesta cientificamente. Marcelo Gleiser, na obra que me indicou o trabalho de David Bohm, informa que a teoria das variáveis ocultas ‘produz os mesmos resultados da mecânica quântica’, que as ‘duas teorias fazem as mesmas previsões e não existe uma possibilidade de distinção’, optando ele pela mecânica quântica sem uma onda-piloto por ser ‘bem mais simples’ (In A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido. Rio de Janeiro: Record, 2014, p. 229).”

Em outubro de 2014 eu estava lendo “A totalidade e a ordem implicada”, e desde então me interesso por tudo o que diz respeito ao trabalho de David Bohm, tendo descoberto, então, que estava sendo produzido um documentário sobre sua vida.

Assim, em 20 de junho de 2020, ao pesquisar sobre a previsão de conclusão do documentário, depois de meses sem consultar o assunto, constatei que aquele era o dia do lançamento do filme, que foi disponibilizado gratuitamente no YouTube: “Full Film – Infinite Potential: The Life and Ideas of David Bohm” (https://www.youtube.com/watch?v=XDpurdHKpb8).

O vídeo começa com as palavras de Bohm: “When I was younger I felt that, in the beginning, the science would surely be a source of benefiting mankind. I had no question about it. I began to feel that something beyond science wold be needed to approach this question” (Quando eu era mais jovem, sentia que, no começo, a ciência certamente seria uma fonte de benefício para a humanidade. Eu não tinha dúvida sobre isso. Comecei a sentir que algo além da ciência seria necessário para abordar essa questão).

Apesar de o vídeo ser em inglês, há uma possibilidade (acabo de descobrir) no sentido de configurar a legenda automática gerada em inglês para uma tradução automática para o português (a maravilhosa tecnologia sendo bem usada para permitir a divulgação do conhecimento), o que, mesmo não tendo muita precisão, e às vezes com falhas grosseiras, permitirá que os que não têm um bom entendimento da língua inglesa possam aproveitar o vídeo.

Espero sinceramente que o leitor separe uma hora e onze minutos de sua vida para receber informações e conhecimentos com potencial de iluminar seu conhecimento do mundo, porque a vida de Bohm está completamente inserida nas ideias que dominaram o século XX, da total negação da espiritualidade na ciência, passando pela perseguição pessoal porque ele tinha participado de reuniões do partido comunista para encontrar pessoas que poderiam discutir Hegel com ele, mas que nem sabiam quem Hegel era, isso sem falar no fato de que suas ideias e pesquisa científica foram usadas, sem sua participação, para concluir o projeto Manhattan, que produziu a bomba atômica.

A ignorância quanto a Bohm e mesmo sua rejeição são fruto de uma posição filosófica equivocada, e mais cedo ou mais tarde seu trabalho terá o reconhecimento público que merece, do que o vídeo talvez seja apenas o começo, lembrando que o nome deste sítio está diretamente ligado à visão de mundo de Bohm associada a uma interpretação científica da Teologia Cristã.

O primeiro “ai”

Uma das passagens que considero mais intrigantes do livro do Apocalipse é aquela referente à quinta trombeta, que libera os gafanhotos sobre a terra:

Foi-lhes dada a permissão, não de matá-los, mas de atormentá-los durante cinco meses com um tormento semelhante ao do escorpião, quando fere um homem. Naqueles dias, os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão; desejarão morrer, mas a morte fugirá deles. O aspecto dos gafanhotos era semelhante ao de cavalos preparados para uma batalha: sobre sua cabeça parecia haver coroas de ouro e suas faces eram como faces humanas; tinham cabelos semelhantes ao cabelo das mulheres e dentes como os do leão; tinham couraças como que de ferro, e o ruído de suas asas era como o ruído de carros com muitos cavalos, correndo para um combate; eram ainda providos de caudas semelhantes à dos escorpiões, com ferrões: nas suas caudas estava o poder de atormentar os homens durante cinco meses. Como rei tinham sobre si o Anjo do Abismo, cujo nome em hebraico é ‘Abaddon’ e, em grego, ‘Apollyon’. O primeiro ‘Ai’ passou. Eis que depois destas coisas vêm ainda dois ‘ais’…” (Ap 9, 5-12).

Para além do significado dos gafanhotos e sua aparência, nunca compreendi a parte do texto em que fala que, “naqueles dias, os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão; desejarão morrer, mas a morte fugirá deles”. Como assim? As pessoas tentarão se matar? Não terão sucesso no suicídio? Isso sempre foi muito estranho, porque não é difícil tirar a vida humana, dada nossa fragilidade corporal, pelo que soa estranho que alguém que realmente queira se matar não consiga.

Hoje temos pragas de gafanhoto por todo planeta, situação que não é única do tempo atual, como ocorre com vários outros eventos climáticos que se repetem ao longo da história. Mas desta vez temos uma condição adicional, a pandemia, resultado do vírus com uma coroa, que mudou a atividade diária de bilhões pelo planeta, e essa mudança de rotina tem impactado a vida e os ciclos biológicos das pessoas.

No artigo “O Apocalipse e a Verdade” (https://holonomia.com/2020/03/28/o-apocalipse-e-a-verdade/) é descrita uma narrativa dos acontecimentos históricos até o clímax, a guerra do Grande Dia do Deus todo-poderoso, que não representa o fim do mundo, mas a derrocada do governo dos reinos pagãos, iniciando um novo tempo histórico, a era messiânica ou Reino de Deus.

O que coloca os sinais muito próximos desse Dia é a situação inigualável do nosso tempo, pela reunião do povo judeu de volta na Terra Santa, em razão da criação do Estado de Israel, situação ausente da história humana praticamente desde o tempo do rei Salomão, e que é efeito político mediato da ação de Jesus, O Messias. Nesse tema específico, a mídia internacional tem sido assustadoramente omissa sobre a promessa de Israel anexar parte das terras da Judeia e da Samaria, o que pode começar no dia primeiro de julho, com potencial de gerar reação de países próximos, ação esta também profetizada (https://www.breakingisraelnews.com/153822/iran-turkey-could-unite-wage-war-against-israel-warns-middle-east-experts/ – notícia original a que cheguei por outra https://ultimosacontecimentos.com.br/2020/06/28/ira-e-turquia-podem-se-unir-para-fazer-guerra-contra-israel-alerta-especialistas-do-oriente-medio/).

Temos, ainda, a sexta taça: “O sexto derramou sua taça sobre o grande rio Eufrates… E a água do rio secou, abrindo caminho aos reis do Oriente. Nisto vi que da boca do Dragão, da boca da Besta e da boca do falso profeta saíram três espíritos impuros, como sapos. São, com efeito, espíritos de demônios: fazem maravilhas e vão até aos reis de toda a terra, a fim de reuni-los para a guerra do Grande Dia do Deus todo-poderoso. (Eis que eu venho como um ladrão: feliz aquele que vigia e conserva suas vestes, para não andar nu e deixar que vejam a sua vergonha.) Eles os reuniram então no lugar que, em hebraico, se chama ‘Harmagedôn’” (Ap 16, 12-16). O que é assombroso é o fato ecológico atual da seca do rio Eufrates, que pode ser constatado numa pesquisa em qualquer buscador da internet.

Portanto, é possível uma interpretação contemporânea da quinta trombeta, conjugada com outros sinais, para além dos gafanhotos, de modo a entender o que significa “os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão”. Como salientado, a pandemia alterou a rotina das pessoas, o que tem provocado distúrbios do sono, de modo que o texto inicialmente transcrito pode ser lido como os homens tentarão dormir, mas não conseguirão, o sono fugirá deles.

Qual a base dessa leitura? Na confusão de ideias entre morrer e dormir encontrada na própria linguagem bíblica daquele tempo:

Disse isso e depois acrescentou: ‘Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo’. Os discípulos responderam: ‘Senhor, se ele está dormindo, vai se salvar!’ Jesus, porém, falara de sua morte e eles julgaram que falasse do repouso do sono. Então Jesus lhes falou claramente: ‘Lázaro morreu’” (Jo 11, 10-14).

Com essa leitura, portanto, afasta-se a dúvida original quanto à estranheza da interpretação literal de “os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão”, do capítulo 9 do livro do Apocalipse.

O segundo “ai” se refere às duas testemunhas, cuja interpretação é muito mais enigmática, com alguma referência simbólica a Moisés e Elias. Tenho para mim que tal tema se refere ao conhecimento científico, ao testemunho da Verdade, num paralelo com o que expus em “Elias e a verdade científica” (https://holonomia.com/2019/02/12/elias-e-a-verdade-cientifica/), porque as “duas oliveiras e os dois candelabros” têm relação com a questão religiosa e com a luz, a sabedoria de Deus, de modo que as duas oliveiras podem ser Israel e a Igreja referidas em Romanos, capítulo 11, em que também se faz citação do profeta Elias e da sabedoria e da ciência de Deus. Israel, vale dizer, se refere aos judeus sinceros, que não conheceram Cristo, e a Igreja é a comunidade dos cristãos, independentemente de denominação, e todos se reunirão sob o governo de Deus e seu Cristo.

O segundo ‘Ai’ passou. Eis que chega rapidamente o terceiro ‘Ai’. E o sétimo Anjo tocou… Houve então fortes vozes no céu, clamando: ‘A realeza do mundo passou agora para nosso Senhor e seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos’” (Ap 11, 14-15).

Temos, então, um “ai”, possivelmente presente, que será seguido de uma crescente de acontecimentos, de qualquer forma já em andamento, envolvendo disputas sobre a verdade científica e religiosa, e sobre a questão política, associadas ao Messias, ao Logos encarnado, culminando na mudança de poder global, quando a realeza do mundo passará para nosso Senhor, dos cristãos, judeus e muçulmanos, e seu Cristo.

O Apocalipse contém uma descrição de eventos religiosos e políticos, porque o Reino de Deus tem natureza científico/religiosa e política, pelo que a Besta domina as nações, embebedadas pela Babilônia, que tem a pretensão iluminista, de governar pela ciência e pela razão, quando manifesta ignorância e trevas.

Daí a importância política da era messiânica, do governo de Cristo, porque será a verdadeira Luz guiando os homens, quando o “Dragão, a antiga Serpente — que é o Diabo, Satanás”, será acorrentado por mil anos, no Abismo, por um anjo, “para que não seduzisse mais as nações até que os mil anos estives sem terminados. Depois disso, ele deverá ser solto por pouco tempo” (Ap 20, 2-3). A mensagem do evangelho será compreendida, e essa mensagem, esse anjo, levará à mudança da compreensão científica e política da humanidade, de modo que nas nações, nos governos humanos, não mais serão aceitas a corrupção, a maldade, a mentira, não mais serão governadas pelo comércio, como ocorre hoje, mas pela Verdade e Justiça.

Vi também as vidas daqueles que foram decapitados por causa do Testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e dos que não tinham adorado a Besta, nem sua imagem, e nem recebido a marca sobre a fronte ou na mão eles voltaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos” (Ap 20, 4).

Adorar a besta e ter sua marca significa seguir o mau governo político, que dá acesso ao deus mercado àqueles que têm sua marca, porque esta serve para “para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome” (Ap 13, 17).

Deixemos, pois, a Besta e sua marca, pois nem mesmo os anjos podem receber adoração, e esse é o espírito da profecia, o testemunho de Jesus:

Caí então a seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: ‘Não! Não o faças! Sou servo como tu e como teus irmãos que têm o testemunho de Jesus. É a Deus que deves adorar!’ Com efeito, o espírito da profecia é o testemunho de Jesus” (Ap 19, 10).

A questão teológica do realismo científico e filosófico

Os temas teológicos são, literalmente, fundamentais, pois neles estão embasados, expressa ou implicitamente, todos os nossos demais conhecimentos. Considero, como exposto no artigo “O problema é Teológico” (https://holonomia.com/2017/06/07/o-problema-e-teologico/), que o problema do mundo é essencialmente teológico, porque falhamos em cumprir o primeiro mandamento, o mais essencial, e, como consequência, falhamos em viver conforme a reta razão, porque Deus é o Logos, a própria Razão, e quando Dele nos afastamos estamos em estado, em maior ou menor grau, de irracionalidade.

A forma como conhecemos o mundo, inclusive cientificamente, é dependente de uma concepção teológica, no que estão incluídas as propostas realista e representacionalista de compreensão filosófica do mundo.

Recentemente, terminei a leitura da obra “The ecological approach to visual perception”, de James J. Gibson, livro ao qual cheguei após expressa menção de Wolfgagn Smith, em “Ciência e Mito”, e de David Bohm, em “A teoria da relatividade restrita”. Também Jordan Peterson faz referência ao trabalho de Gibson em suas aulas das disciplinas “PSY 230 H – Personality and its Transformations” e “PSY 434 H – Maps of Meaning”, ministradas na Universidade de Toronto, Canadá, e disponibilizadas no canal de Peterson no YouTube (https://www.youtube.com/c/jordanpetersonvideos).

Mas devo confessar que só compreendi a plena importância da proposta de Gibson na minha atual leitura, de Edward C. Feser, “Aristotle’s Revenge: The Metaphysical Foundations of Physical and Biological Science”, exatamente na parte que hoje analisei, sobre a percepção incorporada (Embodied perception), em que situa a abordagem científica de Gibson dentro da posição realista da filosofia, em contraposição ao entendimento representacionalista.

Interessante notar, ainda, que tanto Peterson como Feser fazem direta referência à filosofia de Heidegger como paralela à abordagem de Gibson, porque este analista a percepção visual a partir da inserção do homem corporalmente no mundo, e aquele tem também uma filosofia do homem como ser no mundo, o dasein. Contudo, enquanto Feser faz uma abordagem mais estrita, do fenômeno visual, Heidegger aprofunda o sentido da existência humana, e, porque sua filosofia contraria o que entendo como a correta visão da natureza humana e sua essência, concluo que este acaba por falhar na sua visão de que o homem é um ser voltado para a morte.

Não é possível negar o problema da morte, o que indica o parcial acerto da postura heideggeriana. Todavia, o tema da morte não pode ser abordado sem a necessária conexão com a questão teológica e espiritual, quanto à (in)existência de uma realidade que permanece para além da morte corporal, sobre alguma forma de continuidade existencial após a cessação das funções biológicas de nosso corpo físico, seja pela sobrevivência da alma ou pela ressurreição do corpo, o que é solenemente ignorado por Heidegger, provavelmente porque aderiu à postura do seu tempo no sentido de ser proibitiva de qualquer alusão científica a Deus.

Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena” (Mt 10, 28).

Os mortos foram então julgados conforme sua conduta, a partir do que estava escrito nos livros. O mar devolveu os mortos que nele jaziam, a Morte e o Hades entregaram os mortos que neles estavam, e cada um foi julgado conforme sua conduta. A Morte e o Hades foram então lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte: o lago de fogo. E quem não se achava inscrito no livro da vida foi também lançado no lago de fogo” (Ap 20, 12-15).

Do ponto de vista cristão, outrossim, entendo que a ideia de Heidegger dizendo que homem é um ser voltado para morte é essencialmente anticristã, manifesta um dasein anticristão, porque a postura existencial do cristão é a da pessoa que vive plenamente no corpo físico mas com a perspectiva da vida eterna, em ação e discurso, de modo que a morte corporal será apenas uma etapa de seu processo existencial, e a mesma pessoa continuará a existir na ressurreição do corpo. Portanto, do ponto de vista cristão, a ideia de Heidegger de que o homem é o ser voltado para a morte só faz sentido se a morte em questão significar a segunda morte, a qual corresponde ao resultado de uma vida afastada da reta razão, contrária ao Logos, cuja conduta viola a própria Vida, que está presente não somente no atual corpo individual como também, simultaneamente, muito além dele.

Voltando a Gibson, vale destacar que Smith, Bohm e Feser o colocam no rumo do realismo filosófico, que se contrapõe ao dualismo cartesiano segundo o qual existem dois mundos, um corpóreo e outro mental, de modo que o que vemos não é o mundo em si, mas a representação do mundo corpóreo através de imagens formadas na mente, ou no cérebro. Pela proposta representacionalista, não temos acesso direto à realidade, mas às imagens que fazemos do mundo.

A impressionante alegação de Gibson é que nossa crença normal está incorreta: o que realmente percebemos não são imagens, não são representações de algum tipo, não são coisas que existem no cérebro ou na mente do percebedor, e sim, com efeito, objetos externos ou acontecimentos. Ora, essa é certamente uma alegação filosófica; contudo, Gibson a formula de forma científica. (…)

Vemos que a teoria gibsoniana se apresenta como uma redescoberta do realismo e, com efeito, de um ‘realismo ingênuo’, pode-se dizer. E isso levanta uma questão intrigante: se uma teoria cientificamente segura acerca da percepção visual se revela defensora do realismo, talvez não seja a ruína do realismo da filosofia ocidental, que começou com Descartes, o resultado de um conceito cientificamente espúrio da percepção visual: uma teoria, nomeadamente, baseada no paradigma da câmera? Se a percepção visual de fato constitui nosso meio básico de acesso ao mundo externo, é compreensível que um paradigma que coloca os perceptos ‘dentro da cabeça’ evidentemente favorece modos não realistas de filosofia, sejam cartesianos, idealistas ou céticos” (Wolfgang Smith. Ciência e mito: com uma resposta a O Grande Projeto de Stephen Hawking. 1ed. Campinas: Vide Editorial, 2014, pp. 120-122).

Passando à teologia profunda, entendo que a dualidade cartesiana está associada às duas cidades de Agostinho, ambas fruto de um dualismo platônico e de uma concepção teológica falha do que seja o cristianismo em sua mensagem fundamental, a aproximação do Reino de Deus ao plano terreno, questão objeto do artigo “Agora” (https://holonomia.com/2018/11/11/agora/), texto que, em síntese, refuta a tese segundo a qual o Reino de Deus não é e nunca será deste mundo, apenas não era para se manifestar no tempo romano em que Jesus viveu. O dualismo é efeito do entendimento no sentido de que o Reino de Deus é ontologicamente de outro mundo, o que é contrário às palavras de Cristo.

Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt 12, 28).

O Reino de Deus está próximo de vós” (Lc 10, 9).

A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17, 20).

Como eles ouviam isso, Jesus acrescentou uma parábola, porque estava perto de Jerusalém, e eles pensavam que o Reino de Deus ia se manifestar imediatamente” (Lc 19, 11).

Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer do alto não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3, 3).

Jesus mostrou a antecipação do Reino, por seus feitos, por sua obra, porque já vivia plenamente submisso à Vontade de Deus, cumpria o primeiro mandamento, e por isso manifestou a reta razão, o Logos, corporalmente, com obras, sinais e milagres, transformando-se na semente humana do nascente reino a se manifestar na terra. O Reino é uma realidade já presente, não é algo de outro mundo, é algo espiritual, que vem se manifestando na humanidade desde o tempo de Cristo, apenas não se manifestou politicamente em sua plenitude, ainda não chegou à política internacional, ao governo das nações, o que permanece sendo esperado por judeus e muçulmanos.

O Reino de Deus é um conceito teológico, e que, como visto, possui profundas implicações científicas e filosóficas, refletindo diretamente na filosofia política e na doutrina jurídica, quanto à função do Estado e ao significado da dignidade humana.

A divisão atual do mundo, que é um efeito mediato daquele dualismo, só permite ver o que não é o Reino de Deus, porque só se veem os demônios manifestados nos outros. Mas tanto no lado do “nós” como do “eles” existem bons e maus espíritos em ação, sendo necessário ver o espírito que se manifesta além das representações mentais parciais.

É preciso ver os bons e maus espíritos em ação, pelas obras, na ciência e na política, na manipulação das informações. É mister que vejamos as obras de Cristo, e de seus enviados, segundo a doutrina de Cristo, para contemplarmos a realidade.

As obras que faço em nome de meu Pai dão testemunho de mim” (Jo 10, 25).

Quem crê em mim não é em mim que crê, mas em quem me enviou, e quem me vê, vê aquele que me enviou” (Jo 12, 44-45).

O mundo espiritual está a nossa volta, é possível vê-lo, é uma realidade com a qual interagimos concretamente. Não vivemos apenas no mundo do corpo, como animais que têm consciência de que morrem, a plenitude de nossa vida é vivermos no mundo espiritual encarnado, mudamos o mundo por meio do espírito que encarnamos, porque entramos em um mundo no qual já há um espírito, do que a cultura é um exemplo, e deixamos nossa marca material na terra em razão do espírito que deixamos agir em nós, um legado que transcende nossa morte e que surge permanentemente, como resíduos materiais e espirituais de todas as nossas ações. E segundo os que têm a fé de Cristo, futuramente voltaremos neste mundo, em uma reciclagem universal, com uma nova composição material que receberá os efeitos de todos os espíritos encarnados, inclusive, e especialmente, para nós, de nós mesmos.

O Espírito não é algo em nossos cérebros ou nossas mentes, porque Nele vivemos, nos movemos e existimos (At 17, 28), e desse realismo ontológico, teológico, científico e filosófico não podemos fugir, pelo que urge que a ele regressemos, para que possamos, enfim, viver conforme a reta razão, segundo a vontade de Deus, o Logos, cumprindo o primeiro mandamento e manifestando a realidade do Reino de Deus.

Um Deus contra vários ídolos

Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh! Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu as atarás também à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre os teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas” (Dt 6, 4-9).

Este é o Shemá, que contém o credo básico do Monoteísmo, e serve de fundamento para o credo cristão: “Creio em um só Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”.

Também no Alcorão: “Seja qual for o assunto de vossas divergências, a palavra final pertence a Deus. Ele é meu Senhor. N’Ele deposito minha confiança e para Ele volto contrito” (Sura 42: 10).

Há um só Deus, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, a Quem pertence a palavra final sobre todos os assuntos, e para O qual todos voltaremos.

Contudo, em Seu lugar, muitos ídolos foram e são colocados, ídolos que dizem respeito ao (des)conhecimento de Deus, de sua Unicidade, ídolos que são a fonte das divergências relativas aos assuntos humanos e divinos, porque são ídolos científicos e religiosos.

Francis Bacon, na sua busca pelo conhecimento correto, desenvolveu a ideia de quatro ídolos, que significam falsas noções ou conceitos que impedem a mente de alcançar a ciência correta: os ídolos da tribo, que são tendências inerentes à natureza humana, de confundir as coisas como elas são com a forma como elas aparecem para nós; os ídolos da caverna, decorrentes das formações individuais e suas particularidades; os ídolos do foro ou do mercado, relativos ao uso indevido das palavras, que impedem a compreensão; e os ídolos do teatro, correspondentes aos vícios filosóficos e científicos, pelos quais, ao invés de procurarmos a verdade das coisas, acabamos colocando nossas “verdades”, ou vícios, nas coisas.

A teoria de Bacon usa a expressão “ídolos” e remete diretamente à questão teológica de Israel, porque a adoração ao Deus único e a obediência aos seus mandamentos sempre foram ofuscadas por ídolos que se opunham entre os homens e Deus, e Seu conhecimento, de modo que havia o desvio da autêntica prática religiosa, que é científica e filosófica, é teológica.

Por ser considerado um dos pais da ciência moderna, dizendo que esta deveria ser buscada a partir da observação, fazendo com que a ciência passasse a experimental, pode-se dizer que a idolatria, que era um conceito teológico, transformou-se em um tema científico, pelo que é possível afirmar que, ainda hoje, e especialmente hoje, a teoria dos ídolos tem aplicação, e que a ciência atual está dominada pelos ídolos que um de seus fundadores rejeitava.

Os ídolos da tribo significam conceituar o ser humano em termos estritamente biológicos, como apenas uma espécie de primata que mais se desenvolveu, dando destaque às nossas semelhanças com os animais e ignorando como epifenômenos cerebrais as experiências mais fundamentais e que nos definem como humanos.

Como ídolo da caverna pode ser citado o individualismo, que entende a humanidade associada ao prazer particular e exclusivamente subjetivo, como algo isolado de sua comunidade e de sua formação psíquica ancestral e coletiva, como se fosse possível criar novas identidades artificiais, como uma nova natureza, sem que isso implicasse em profundos danos psíquicos à convivência social.

Os ídolos do mercado ou do foro estão hoje de ponta a cabeça, porque, ao invés de se estabelecer a linguagem para a correta descrição da realidade, as palavras passaram a significar qualquer coisa, em que deve ser exaltado o multiculturalismo no qual os significados dos fenômenos são meramente convencionais, pois não há Verdade.

Finalmente, pode-se dizer que a ciência moderna incorporou a própria ideia do que sejam os ídolos do teatro, pelo cientificismo materialista, que rejeita como não científico tudo que não pode ser pesado, medido e contato, e sequer é capaz de explicar razoavelmente a natureza da própria realidade material, diante das várias dúvidas geradas pela física quântica, da qual o ídolo mor é o multiverso, o qual foi literalmente alçado ao deus criador de nosso universo, deus esse cuja existência não podemos provar, do qual não podemos experimentar e que está simplesmente posto como supostamente real para além de nosso universo físico, tendo sido projetado da mente de alguns cientistas para o plano cosmológico, para ser adorado.

É preciso voltar, pois, às bases do conhecimento científico, entendido como algo relacional, porque conhecer é relacionar coisas, entre móveis e imóveis, variantes e invariantes, as que passam e as que ficam.

As coisas básicas permanentes iniciais somos nós mesmos, nossos corpos, que têm sua origem nos corpos de nossos pais, no material genético que recebemos, que remete à origem da vida, e do próprio cosmos, ainda que nossos corpos sejam, de outro lado, provisórios, porque morreremos e voltaremos ao pó.

Incrustada em nossos corpos está nossa cultura, fruto de desenvolvimento físico e mental, que permite que algumas ideias invariantes se projetem no tempo e no espaço, estendendo nossa existência para o passado, para o futuro e para outros espaços geográficos. Assim, para além da existência biológica local, passada geneticamente, possuímos uma existência espiritual, não local e atemporal, presente tanto nas religiões como na própria ciência, fruto de nossa capacidade mental de abstração e imaginação, que permite a representação das coisas e eventos que transcendem a capacidade sensorial imediata, e que é transmitida comunitariamente.

A cultura é resultado de representações do mundo, entendida como criação de modelos mentais de mundo, às vezes físicos, pela arte e pelo instrumental científico, modelos esses que podem ou não ser adequados à realidade sutil ou não presente que pretendem simbolizar, ou seja, a realidade que nossas habilidades sensitivas ordinárias não captam no aqui e agora. A função da representação, portanto, é trazer para o presente imediato e local algo que se pressupõe contínuo ao aqui e agora, mas que escapa à nossa capacidade individual de apreensão física e intelectual, pela distância temporal e espacial e pela quantidade de informação e dados necessários para serem relacionados e reunidos em unidade sensorial e mental.

A busca do conhecimento é no sentido da unidade dessas relações, daquilo que permanece, é sempre invariante, o universal que permite as relações e a tradução entre os eventos, dando-lhes continuidade lógica, tornando presente a continuidade existencial do movimento do mundo que transcende nossa limitação sensorial, como a proposta aristotélica de um motor imóvel como causa de todos os movimentos do mundo.

Para Bacon, essa unidade é buscada pelas experiências que nos conduzem à lei geral dos fenômenos, alcançada por meio do método indutivo. Pode-se dizer que Bacon estava voltado teologicamente para o conhecimento do Deus único, que estabeleceu as leis da natureza, porque a existência do Criador é pressuposta na ideia de leis da natureza, aprimorando a proposta do motor imóvel aristotélico.

Conhecimento é diferente de mero ajuntamento, porque o primeiro é organizado, ao contrário do segundo. Uma das principais obras de Bacon é o Novum organum, que expressamente traz em seu título a ideia de organismo, organização, e não mero ajuntamento aleatório e caótico.

O conhecimento, portanto, é a ciência que transcende as coisas individuais sobrepostas, pressupondo a superação das suas finitudes, de modo que a ciência, ainda que passe por uma experimentação, está além da limitação corporal, referindo-se à transposição da mera particularidade, para alcançar uma unidade que supera nossa finitude, e que está no infinito, referindo-se ao organismo do qual somos membros.

Mesmo no atomismo, o conhecimento, que chegava à finitude, os átomos, referia-se a nós como sua infinitude, ao que está além dos átomos, no que se incluíam nossos corpos e tudo mais que existe no mundo visível, mundo infinito em relação aos átomos considerados individualmente, mundo este no qual os próprios atomistas viviam, pois não comiam átomos e não dormiam em átomos, mas nas coisas por eles formadas. Daí porque também é necessário superar nossa mera individualidade corporal, ou atômica, para obtenção de uma ciência social, da ordem do mundo humano, pois se os comportamentos puderem se basear simplesmente na vontade atômica das pessoas, reinará o caos, o mundo em que cada um é ídolo de si mesmo.

O progresso do conhecimento é, portanto, em direção à infinitude e seu limite cognoscível, Deus ou caos, o primeiro como unidade que está além de toda particularidade, e o segundo como uma limitação primordial insuperável, que deve ser ignorada para tornar a vida possível além dos infinitos ídolos.

O bezerro de ouro está diante de nós, governando o mundo, especialmente por meio dos ídolos do comércio e do teatro, o que explica parcialmente a divisão atual do mundo, decorrente da natureza teológica das questões científicas e políticas, do que um dos patronos da ciência tinha pleno conhecimento, mas que é solenemente ignorado pela maioria das pessoas, que acabam adorando ídolos, porque quando estão contando mortos ou indicadores econômicos, de fato, calculam os números dos ídolos que continuam seguindo, esquecendo-se que Iahweh nosso Deus é o único Iahweh:

Vi depois outra Besta sair da terra: tinha dois chifres como um Cordeiro, mas falava como um dragão. Toda a autoridade da primeira Besta, ela a exerce diante desta. E ela faz com que a terra e seus habitantes adorem a primeira Besta, cuja ferida mortal tinha sido curada. Ela opera grandes maravilhas: até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens. Graças às maravilhas que lhe foi concedido realizar em presença da Besta, ela seduz os habitantes da terra, incitando-os a fazerem uma imagem em honra da Besta que tinha sido ferida pela espada, mas voltou à vida. Foi-lhe dado até mesmo infundir espírito à imagem da Besta, de modo que a imagem pudesse falar e fazer com que morressem todos os que não adorassem a imagem da Besta. Faz também com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos recebam uma marca na mão direita ou na fronte, para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome. Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem: seu número é 666!” (Ap 13, 11-18).

Vidas importam – lives matter

O título do artigo não é “vidas negras importam”, relativo ao movimento black lives matter, porque falar em vidas negras é reduzir hipocritamente o âmbito da discussão, como o fazem muitos que estão nas manifestações recentes de protesto contra a imbecil e absurda morte de George Floyd, decorrente da ação criminosa de um policial, que não foi impedido por outros policiais, também contrariando seus deveres legais, todos os quais agiram com manifesto desprezo pela vida humana.

O ponto em questão é o fato de que muitos dos que estão nas ruas, normalmente os brancos, dizendo que vidas negras importam, são os mesmos que se fazem presentes em manifestações pela liberação do aborto, inclusive de mulheres negras, o que implica em inegável contradição, hipocrisia, porque o foco está em uma verdade inquestionável, as vidas negras importam, que acaba se transformando em uma mentira se a perspectiva do discurso do mesmo emissor aumenta, quando se trata dessa mesma vida em formação, que deixa de importar.

Mesmo reconhecendo que meu conhecimento da matéria é insuficiente, faço uma clara associação entre os movimentos racistas, de um lado, e o movimento judaico, de outro, ambos entendidos como a manifestação da supremacia da espécie, e, como não é possível haver duas supremacias, a opção nazista, que deve ser entendida como um movimento de esquerda, socialista e nacionalista, promoveu o holocausto, como tentativa de extinção de um movimento supremacista opositor, ideologicamente superior, e que era tratado com outros grupos como a parcela inferior da humanidade.

Não se pode esquecer, no ponto, que o nazismo se distinguia do comunismo porque este era socialista e internacionalista, sendo que o foco do primeiro era subjetivamente restrito, o povo ariano, e o do segundo subjetivamente mais amplo, a classe trabalhadora. Nos dois casos, o método de ação foi a eliminação das outras subjetividades.

Portanto, tirando alguns autênticos defensores da Vida e os negros, alguns dos quais também integram o primeiro grupo, que legitimamente defendem a preservação de suas vidas, que ficam em risco quando a cor da pele é motivo de violência, muitos que defendem a bandeira “black lives matter” são do mesmo espectro ideológico do comunismo e do nazismo, a ideologia de uma igualdade material, de classe ou nacional, responsável por dezenas de milhões de mortes humanas, e permanecem completamente omissos quanto às violações de vidas humanas na Coreia do Norte, na Venezuela e na China, por exemplo, e não levantam minimamente a voz em manifestação contra a morte do médico chinês que tentou alertar sobre o vírus e que se tivesse sido ouvido provavelmente poder-se-iam salvar dezenas de milhares de vias.

A questão fica extremamente complexa, nessa linha, quando colocado o presidente dos EUA no jogo argumentativo, pois ele é atacado com a pecha de racismo por seu linguajar às vezes ignorante e, quiçá, racista, quando, ao mesmo tempo, argumenta a favor da vida, contra o aborto, defende a liberdade civil em Hong Kong e coloca o Irã, cujos líderes políticos têm a declarada intenção de “varrer Israel da face da Terra”, como um dos perigos para a comunidade internacional, para a humanidade.

A ideia de supremacia ariana está associada à de supremacia judaica, uma forma de racismo, uma ideia limitada de humanidade. Muitos não conseguem enxergar essa realidade da visão judaica, cujo desenvolvimento levou ao conceito moderno de humanidade e dignidade humana, e era expressa até mesmo nas palavras de Jesus:

Entrou numa casa e não queria que ninguém soubesse, mas não conseguiu permanecer oculto. Pois logo em seguida, uma mulher cuja filha tinha um espírito impuro ouviu falar dele, veio e atirou-se a seus pés. A mulher era grega, siro-fenícia de nascimento, e lhe rogava que expulsasse o demônio de sua filha. Ele dizia: ‘Deixa que primeiro os filhos se saciem porque não é bom tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos’. Ela, porém, lhe respondeu: ‘É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas das crianças!’ E Ele disse-lhe: ‘Pelo que disseste, vai: o demônio saiu da tua filha’. Ela voltou para casa e encontrou a criança atirada sobre a cama. E o demônio tinha ido embora” (Mc 7, 24-30).

Tal é a mesma passagem de Mt 15, 21-28, na qual consta em nota da Bíblia de Jerusalém:

Jesus deve ocupar-se com a salvação dos judeus, ‘filhos’ de Deus e das promessas, antes de cuidar dos gentios, que aos olhos dos judeus eram apenas ‘cães’. O caráter tradicional dessa imagem e a forma diminutiva atenuam, nos lábios de Jesus, o que esse epíteto tinha de desdenhoso” (BÍBLIA DE JERUSALÉM. 1. ed. 9.ª reimpressão. São Paulo: Paulus, 2013, p. 1732).

Portanto, considerando que esta passagem é estranha aos ouvidos atuais, porque contradiz a imagem do Jesus “politicamente correto” que nos foi passada, certamente é classificada por Bart Ehrman como algo que o Jesus histórico verdadeiramente disse.

O cristianismo não é “politicamente correto”, é ontologicamente correto, cientificamente correto, filosoficamente correto e antecede a mensagem da política correta, o correto exercício do poder público fundado no império de uma Lei justa e conforme a vontade de Deus, ou conforme a Natureza, e nossa origem divina. Essa Lei era a Torá, interpretada pelos profetas, cujo cumprimento era a missão de Cristo, porque o Rei cumpre a Lei. Há uma hierarquia na ideia de humanidade, a qual progrediu a partir da visão judaica de mundo, que representava a melhor concepção de humanidade da antiguidade.

O cristianismo é a manifestação da subjetividade divina expressa por sujeitos humanos, porque com a morte de Jesus, o Messias Judeu, o povo judeu como nação perdeu provisoriamente sua posição privilegiada perante Deus, para voltar a este posto não mais com exclusividade nacional, mas como um dos povos filhos de Abraão, os povos dos filhos de Deus, os que têm a visão integral da humanidade e representam o ápice da espécie. Vale dizer que essa é a mensagem de Paulo, um antigo nacionalista judeu, que se transformou em israelita espiritual, defensor da nova humanidade, como evolução da humanidade judaica, que deixa de ser nacional e passa a internacional.

Não quero que ignoreis, irmãos, este mistério, para que não vos tenhais na conta de sábios: o endurecimento atingiu uma parte de Israel até que chegue a plenitude dos gentios, e assim todo Israel será salvo, conforme está escrito: De Sião virá o libertador e afastará as impiedades de Jacó, e esta será minha aliança com eles, quando eu tirar seus pecados. Quanto ao Evangelho, eles são inimigos por vossa causa; mas quanto à Eleição, eles são amados, por causa de seus pais. Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento. Com efeito, como vós outrora fostes desobedientes a Deus e agora obtivestes misericórdia, graças à desobediência deles, assim também eles agora são desobedientes graças à misericórdia exercida para convosco, a fim de que eles também obtenham misericórdia no tempo presente. Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia” (Rm 11, 25-32).

Interessante notar que, cientificamente, a subjetividade antecede a objetividade, porque todas as nossas experiências são, para nós, subjetivas e objetivas, enquanto para outros podem ser apenas subjetivas. Contudo, algumas pessoas especiais têm maior acesso à realidade, por dons que possuem, como sensibilidade ou inteligência aprimoradas, algumas vezes absurdamente desenvolvidas, no que devem ser incluídos os profetas da antiguidade e os grandes cientistas. Esses sujeitos tinham o foco correto em determinados temas e conseguiam antever o que ainda seria visto pelas outras pessoas posteriormente, e o que lhe era atribuído como niilismo muitas vezes era a manifestação direta de uma realidade muito mais ampla, objetivamente.

O maior desses sujeitos é Jesus Cristo, que, mesmo vindo no contexto da supremacia judaica, dada a superioridade inquestionável de sua religiosidade e de seu entendimento de Deus, tem como missão levar esse conhecimento superior para o governo das nações, no plano internacional, em que a vida do estrangeiro importa, em que o inimigo deve ser amado, ou seja, em que há direitos humanos. Nesse governo as vidas importam, porque reconhece que a Vida importa de Deus, é exportada de Deus, não é algo que vem da carne, mas do Espírito, e cada vida humana, desde o ventre materno, é um dom e uma graça de Deus, um Templo de Seu Espírito, e por isso de valor inestimável. Por isso:

Assim também, não é da vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca” (Mt 18, 14).

Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 39).

Jesus não falou de aborto nem de vidas negras, simplesmente porque era impensável para um judeu, que tinha uma ideia superior da Vida, cogitar um aborto e porque a cor da pele nunca importou no tempo de Cristo, que vivia no oriente médio, esteve no Egito, na África, em que a cor da pele negra era comum, irrelevante, sendo que o que importava era a fé da pessoa, seu modo de vida, e muitos judeus eram negros, sem que isso significasse qualquer redução do seu status religioso.

Portanto, se uns defendem vidas negras apenas por interesses políticos, e outros a elas não dão o valor devido, ambos baseados em ideologias políticas parciais, estão todos errados, Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia, porque Vidas importam, Lives matter.

Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos! Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe fez o dom para receber em troca? Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! Amém” (Rm 11, 33-36).

Um futuro inevitável

Um futuro é inevitável. Isso é um fato lógico, considerada a premissa do tempo, que vivemos no tempo, no qual os eventos se sucedem e o presente antecede o futuro, ambos com o passado atrás de si.

Qual o futuro inevitável é a grande questão, devendo ser destacado que a posição filosófica da pessoa determina o entendimento sobre o modus operandi da ação temporal: se existe ou não ordem; e qual seria sua causalidade.

Tenho concluído que o principal problema ou tema cognitivo está ligado à definição principiológica sobre a existência de ordem no mundo e quanto à sua origem, se há ou não cosmos, isto é, se vivemos em um mundo ordenado, disciplinado, organizado, que é o significado etimológico do termo kosmós; ou caótico, palavra derivada do grego khaos, que significava vazio, abismo, do verbo khaíno, com o sentido de abrir-se ou separar.

O caos era tido na mitologia grega como a divindade primitiva, portanto tema afeto às questões teológicas, as quais, com a filosofia grega, passaram a se confundir com as ideias racionais, porque a finalidade filosófica era exatamente explicar de forma inteligível e natural, com uma simbologia mais concreta, a origem do mundo, em substituição às narrativas mitológicas e religiosas primitivas, que eram a forma de conhecimento do mundo e, ressalte-se, permitiram a unidade social e a sobrevivência e o desenvolvimento da humanidade por dezenas de milhares de anos.

Entre os gregos havia um certo consenso no sentido de que havia uma ordem atual de mundo, porque sem essa pressuposição a própria ideia de conhecimento se tornaria impossível.

Para os materialistas a “ordem (o cosmo) é efeito de encontro mecânico entre os átomos, não projetado e não produzido por uma inteligência. A própria inteligência segue-se ao e não precede o composto atômico” (Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia: Filosofia pagã antiga. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003, p. 46).

No extremo oposto do espectro filosófico estão a ideia platônica do Bem, como origem do mundo, e o Deus do Monoteísmo, O Criador de todas as coisas.

Existe uma diferença ontológica entre os modos de pensar dos dois últimos parágrafos, são dois universos completamente distintos, se um é verdadeiro o outro é necessariamente falso.

É importante ressaltar que a Ciência moderna e a civilização ocidental se baseiam na ideia Monoteísta, do Deus Criador, porque esse era um pressuposto necessário no desenvolvimento das ideias de Galileu, Descartes e Newton. A ciência tem por finalidade a busca dessa inteligência que está na origem da harmonia do mundo natural, sobre como funcionam as coisas.

A ordem das ideias é importante, explicando porque determinados pensamentos surgiram, especialmente quanto à chamada revolução científica e seus desdobramentos, porque Galileu viveu entre 1564 e 1642, tendo sido condenado pela inquisição, enquanto a vida de Descartes ocorreu entre 1596 e 1650, e este também sustentou ideias heliocêntricas, mas não as publicou, porque Galileu já estava tendo problemas com a Igreja. Numa época de dúvidas sobre a autoridade teológica da Igreja, com reflexo em assuntos sobre o conhecimento do mundo natural, Descartes baseou seu conhecimento subjetivo, de um lado, na dúvida, questionando tudo o mais que existe além de si mesmo; mas, de outro lado, sua ideia sobre o mundo objetivo, o mundo material, estava assentado na ideia de Deus. Havia, pois, um ceticismo parcial, pois ainda subjazia a crença na ordem divina de mundo.

Newton viveu entre 1643 e 1727, e considerava Deus como a origem da harmonia celeste. Portanto, o principal nome da revolução científica entendia que a ordem do mundo era fruto da ação de Deus, e não o resultado do encontro mecânico e aleatório de átomos, como defendiam os materialistas gregos.

Em um tempo de vida humana de duzentos mil anos, com registros de domínio de pensamento religioso pelo menos há dez mil anos, pode ser considerada uma exceção a ampla difusão do pensamento ateísta no mundo atual, principalmente nos últimos trezentos anos, com destaque para o século XX e os horrores nele ocorridos.

Com a física moderna, a questão da ordem do mundo chegou a limite do inimaginável, especialmente quanto ao mundo quântico e ao princípio da incerteza, e em relação a este existem duas posturas fundamentais, uma no sentido de que esse princípio representa uma restrição epistemológica, um limite ao nosso conhecimento da causalidade do mundo natural, enquanto outros sustentam que a indeterminação é ontológica, própria do mundo natural.

Se a incerteza é epistemológica, o futuro pode ser determinado, ainda que não tenhamos condições intelectuais ou experimentais de antecipá-lo. Se a incerteza é ontológica, é impossível predizer o conhecimento sobre o futuro, notadamente aquele mais distante.

Como cristão, alinhado ao pensamento monoteísta, para ser coerente, entendo que a única opção é pela incerteza epistemológica, interpretando esse princípio como uma limitação ao nosso conhecimento do mundo por meios materiais. Porque, sendo Deus o Criador de todas as coisas, Ele estabeleceu a ordem que há no mundo, e pode antecipar os acontecimentos futuros, e o fez, através dos profetas.

Voltemos, então, ao pensamento que proporcionou a revolução científica:

Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 19, 1).

Deus controla a ordem do mundo. “Não se vendem dois pardais por um asse? E, no entanto, nenhum deles cai em terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até mesmo os vossos cabelos foram todos contados” (Mt 10, 29-30).

Entendo, assim, que há ordem, ou sentido, também na História, e estamos diante de uma série de acontecimentos associados à vinda do Reino de Deus, precedida de vários eventos importantes, muitos dos quais vivemos de forma única em nossa geração, com destaque para a restauração do Estado de Israel, decorrente da ação messiânica de Jesus Cristo, e em torno desse povo existem algumas profecias importantes para os desdobramentos finais desse tempo.

Na semana que passou, mais uma notícia confirma tal narrativa, porque o primeiro-ministro de Israel está empenhado em recuperar o domínio sobre parte das terras ocupadas por palestinos, estabelecendo que as reuniões sobre o tema, uma prioridade de seu governo, começarão em 1.º de julho, e que não perderá a oportunidade única atual, relativa ao apoio do governo dos EUA, para exercer soberania sobre a Judeia e a Samaria (https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020052615622851/).

Em um mundo já desequilibrado pela pandemia e seus efeitos, Israel pretende aumentar significativamente a complexidade das relações internacionais, provocando o que talvez seja a etapa final de realização das profecias bíblicas, até que, enfim, cheguemos a um futuro inevitável, impossível de ser antecipado materialmente, mas previsto espiritualmente pelos profetas do Altíssimo.