Freud inconsciente

Hoje comecei a ler um livro de Jung, que adquiri em 1998, “O espírito na arte e na ciência”, com ensaios variados sobre o tema, valendo dizer que o motivo da leitura de obra que há décadas aguardava na estante foi ter finalizado o texto de correspondências entre David Bohm, físico, e Charles Bierdeman, artista, editado por Paavo Pylkkänen, com o título “Bohm-Bierdeman correspondence, Creativity and Science, David Bohm and Charles Bierdman”. David Bohm talvez seja um dos principais filósofos do século XX, porque sua obra vai muito além da Física, passando pelos domínios da Psicologia, da Filosofia, perseguindo a verdadeira Ciência em sua forma mais ampla e completa.

“Physics tells us that our bodies and brains are part of the universe, the totality. Similarly, in our immediate experiencing as individuals, we see only one totality, in which there is experiencing of ‘me’ and ‘the universe’. So we must say ‘The universe and I are one’” (Bohm-Bierdman correspondence. David Bohm and Charles Bierdman. Volume One: Creativity and Science. Edited by Paavo Pylkkänen. London and New York: Routledge, 2014, p. 217) (A Física nos diz que nossos corpos e cérebros são parte do universo, a totalidade. De modo semelhante, em nossa experiência imediata como indivíduos, vemos apenas uma totalidade, na qual há experiência do ‘eu’ e do ‘universo’. Portanto, devemos dizer ‘O universo e eu somos um’”).

Tal passagem remete à ideia básica do Cristianismo, manifestada por Jesus no Evangelho de João: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30), que tem uma profunda significação científica, ignorada pela academia e pelo pensamento racional. A questão da unidade já foi debatida nos artigos “Monoteísmo: A Santíssima Unidade” (https://holonomia.com/2016/12/10/monoteismo-a-santissima-unidade/) e “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/). A proposta científica de Bohm somente não é mais completa por lhe faltar a compreensão da importância do Cristianismo, como doutrina ou teoria da Realidade, vácuo este que o físico, e outro grande filósofo, Wolfgang Smith, tentou preencher, e penso que somente não teve mais sucesso porque limitado o seu pensamento, de outro lado, por dogmas que acabaram ofuscando a autêntica doutrina de Cristo.

Bohm afirma que há uma contradição no nosso pensamento quando nos separamos do resto do mundo, a qual é aceita por nós implicitamente nos nossos hábitos diários da vida, contradição essa que torna inválidas nossas razões. Sustenta que devemos ter pensamento claro, o que exige não haja contradição em ponto algum da mente, e que não podemos manter uma concepção de seres divididos em tópicos separados como física ou arte, porque isso origina uma confusão quando nos relacionamos com o universo ou as outras pessoas.

Para Bohm, segundo a Física, o universo é uma totalidade indivisível, de modo que devemos assim conceber o cosmos, incluindo nessa totalidade as nossas ações pensamentos, sentimentos, memórias, desejos etc.

Penso que, coerentemente, nessa totalidade estão incluídas as ideias religiosas, e aí se insere a importância do trabalho de Jung, em contraposição ao pensamento de Freud, porque, enquanto aquele destaca a relevância da realidade religiosa e sua e de simbologia, este relegou a questão religiosa para o plano da mentira e da fantasia.

Jung afirma que o pensamento de Freud pode ser inserido numa reação à mentalidade vitoriana que tentava restaurar algo das ideias medievais.

“A época vitoriana é a época da repressão, uma obstinada tentativa de conservar artificialmente vivos, através do moralismo, os ideais anêmicos que estavam de acordo com a compostura burguesa. Estes ‘ideais’ eram as últimas ramificações das representações religiosas comuns da Idade Média que haviam sido pouco antes profundamente abalados pelo iluminismo francês e pela Revolução que se seguiu” (Carl Gustav Jung. Sigmund Freud, um fenômeno histórico-cultural. In O espírito na arte e na ciência. Trad. Maria de Moraes Barros. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 29).

Tratou-se de uma tentativa de evitar que o pensamento cristão medieval se esvanecesse, diante de uma crescente influência do iluminismo, na forma do materialismo e do racionalismo científicos do século XIX, de modo que Freud “traça uma imagem da religião que corresponde exatamente ao preconceito da época materialista” (Ibidem).

Portanto, o trabalho de Freud significa uma reação, uma interpretação negativa do passado.

“Se enfocarmos FREUD desse ângulo do passado, isto é, como expoente dos ressentimentos do novo século que se inicia em relação ao século XIX, com suas ilusões, hipocrisias, semi-ignorâncias, sentimentos falsos e exagerados, moral superficial, religiosidade artificial e insossa e seu lamentável gosto, vêmo-lo então, na minha opinião, de modo bem mais certo do que se o cunhássemos como arauto de novos caminhos e verdades” (Idem, p. 30).

Contudo, ainda que crítica seja útil para levar à reflexão, renovar a discussão, Jung salienta que a teoria de Freud sobre a “fixação incestuosa” e as dúvidas por ela levantada “não podem ser levadas sadiamente às últimas consequências” (Idem, p. 31), sendo que a teoria da sexualidade deve ser entendida se soubermos contra que condições históricas ela se levanta.

Daí porque Jung questiona seriamente os méritos científicos de Freud, que devem ser considerados mais segundo sua situação histórica peculiar do que de uma perspectiva mais universal.

“Cientificamente a teoria da sexualidade do lactente tem pouco valor, pois também para a taturana é indiferente se disserem dela que devora a sua folha com prazer comum ou com prazer sexual. O mérito historicamente universal de FREUD não reside nessas falhas escolásticas de interpretação no terreno especificamente científico, mas sim no fato que justifica e fundamenta seu renome de, qual profeta do Antigo Testamento, derrubar falsos ídolos e trazer à luz, impiedosamente, a podridão da alma contemporânea” (Idem, p. 31). Seu mérito está na resposta que representa à doença do século XIX, com suas falsidades coletivas.

Assim, Freud não tem uma proposta para o futuro, pois toda sua orientação é para o passado, “e isso também de maneira unilateral”, porque apenas se preocupa de onde as coisas vêm, desprezando para onde vão. Portanto, se a atividade de Freud teve uma função destrutiva, no sentido de mostrar as falsidades do pensamento de uma época, ele pecou por carência de exatidão científica.

“Para falar a verdade, ao examinar os seus trabalhos com atenção, tem-se a impressão de que sua capacidade científica e correspondente finalidade, que FREUD sempre coloca em primeiro plano, foi usada furtivamente por sua missão cultural, inconsciente para ele, e isto às custas do verdadeiro desenvolvimento de sua teoria” (Idem, p. 33).

O pensamento de Freud representa o lado materialista da atividade científica, portanto, unilateral, do que decorre sua imprecisão e insuficiente utilidade para o debate racional propositivo. Ele foi um instrumento inconsciente de uma realidade mais profunda por ele ignorada.

“A ciência deseja, conforme se presume, um julgamento não tendencioso, imparcial e abrangente. No entanto, a teoria de FREUD é, na melhor das hipóteses, uma meia verdade, necessitando, por isso mesmo, para atuar e existir, da rigidez de um dogma e do fanatismo de um inquisidor” (Idem, p. 33).

Nessa mesma linha, Jung atribui igualmente a Adler a insuficiência racional, por suas reduções à tendência do poder.

“Aliás, a teoria de ADLER também é uma unilateralidade; mas junto com a freudiana forma uma imagem bem mais clara e abrangente do ressentimento contra o espírito do século XIX. Toda revolta moderna contra os ideais dos antepassados também se reflete em ADLER” (Idem, p. 34).

Destacando essas posições, Jung sustenta que uma proposta de Ciência, no caso, uma teoria psicológica, não pode se fundar apenas nas deformações do século XIX, concluindo que “FREUD não avançou naquela camada mais profunda do humano em geral. Não o devia nem podia, sem tornar-se infiel à sua missão histórico-cultural” (Idem, p. 35).

Soa até mesmo irônico o fato de que aquele que é conhecido como o homem que revelou o inconsciente ao mundo tenha passado inconsciente de sua própria atividade, tendo servido como um fantoche de forças ocultas que o dominaram sem que ele mesmo percebesse, forças essas que continuam agindo, ainda com mais força, na sociedade atual, e nos meios científico e político, que continuam seguindo a unilateralidade materialista, especialmente no âmbito jurídico, dominados, pode-se dizer, possuídos, por complexos psíquicos de racionalidade muitíssimo limitada, pela ignorância.

Inconsciência incolor

Na véspera do “dia da consciência negra”, um cidadão brasileiro foi morto por seguranças de uma rede multinacional de supermercados, e tal foi a deixa para a mídia começar a falar de racismo, colorindo os fatos em uma perspectiva distorcida da realidade, focando apenas no fato de a última vítima ser um homem negro. Em razão disso, o “dia da consciência negra” teve como manchetes de todos os jornais a morte brutal do cidadão, associando o fato à cor de sua pele.

O presente artigo teria como nome “inconsciência negra”, pela manipulação ocorrida com o trágico evento, mas a expressão “inconsciência incolor” acaba sendo mais adequada, por ser mais ampla.

Os fatos se deram por inconsciência de todos os envolvidos, valendo dizer que a vítima final e fatal foi, antes, agressora em dois momentos, em relação à funcionária que se sentiu intimidada e chamou a segurança do estabelecimento, equipe que, em um primeiro momento, em tese, pelas informações iniciais, agiu corretamente ao pedir ao consumidor inconveniente que se retirasse do local, não se sabendo ainda o teor da conversa havida no caminho da saída da loja, momento em que a vítima final foi mais uma vez a agressora, que socou o segurança, desencadeando a reação descontrolada e imoderada que levou ao lamentável e injustificável óbito daquele que, é imprescindível seja reconhecido, havia sido, anteriormente, duas vezes agressor.

Por isso, falar de racismo na situação é ignorar a realidade dos eventos, dando destaque a um aspecto que, muitíssimo provavelmente, foi irrelevante para o desenrolar dos acontecimentos.

Importante destacar que é negra a primeira vítima do ocorrido, a funcionária que se afastou porque intimidada pelo comportamento da vítima fatal, também uma pessoa negra, com histórico pessoal e policial de violência e ameaça, de modo que a atribuição de racismo ao conjunto da situação soa absurda.

Discutir o tema racial é, do ponto de vista da doutrina Cristã, uma não questão, porque a cor da pele não é relevante para o julgamento das pessoas e sua salvação, e se tal assunto é debatido como racismo em uma sociedade que se declara Cristã de forma absolutamente majoritária, há algo muito errado com o debate, de um lado, e/ou com a concepção dominante de Cristianismo, de outro.

Vale salientar que no mundo judaico de Jesus, do oriente médio, próximo da África, a questão racial não era minimamente significativa, sendo a Etiópia uma região com grande número de judeus desde antes de Cristo.

O primeiro e maior teólogo Cristão, o apóstolo Paulo já dizia:

Pois fomos todos batizados num só Espírito para ser um só corpo, judeus e gregos, escravos e livres, e todos bebemos de um só Espírito” (1 Cor 12, 13).

Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3, 28).

Portanto, levar a discussão para a cor da pele, ou qualquer outro ponto que não diga respeito à realidade espiritual, à inteligência, significa, na verdade, manipular os fatos com finalidade político-ideológica, afastando a discussão do único plano em que o problema pode ser definitivamente solucionado, o espiritual.

Isso porque a divisão em cores das pessoas é irrelevante, o que importa é a distinção espiritual, o espírito refletido em ações, boas ou más. Focar na cor da pele, por mais que esse ponto tenha recebido alguma relevância histórica, é retomar a discussão de uma perspectiva já equivocada, levando o tema para as questões visíveis e aparentes, quando os reais problemas são invisíveis e ocultos.

Nada disso teria ocorrido, em primeiro lugar, se a funcionária tivesse sido respeitada.

Em segundo lugar, se o cidadão tivesse consciência ele teria reconhecido o incômodo que causou, desculpando-se, e humildemente esperaria sua mulher do lado de fora, e não agredido o funcionário que representava a autoridade local, não sendo possível, por ora, saber se houve alguma ofensa verbal que tenha levado a vítima fatal a atacar fisicamente o segurança da loja, e mesmo que ofensa tivesse havido o soco seria reação desproporcional. Em todo caso, tal agressão, por si só, caso evitada por autocontenção do cidadão, também teria impedido a sequência dos acontecimentos.

Finalmente, e somente após as referidas duas agressões, houve o comportamento bestial dos seguranças, que agiram sem a mínima técnica, que se mostrava necessária para conter as agressões iniciadas por aquele que, ao final, veio a falecer, agindo referidos ficais de modo a demonstrar seu total despreparo técnico e psicológico para enfrentar situações desse jaez.

Portanto, o caso é de inconsciência negra contra a mulher negra e primeira vítima, seguida de inconsciência negra contra o funcionário branco e segunda vítima e, então, inconsciência branca contra o, até então, agressor negro, que se tornou, final e lastimavelmente, a terceira vítima, negra e fatal.

Foi o suficiente para os manipuladores dos fatos fazerem o recorte da parte que lhes interessava e destacar o momento mais grotesco e brutal da situação, que não foi o único, e descontextualizar o evento em sua irracionalidade que começou com uma postura aparentemente desrespeitosa da derradeira vítima e terminou com sua lamentável morte.

Por isso, discutir o ocorrido como racismo é manifestar a inconsciência incolor que domina a sociedade, porque o que realmente importa é o mau espírito que moveu cada um dos agressores, uma vez ser evidente que a cor da pele não fez a menor diferença na sequência dos acontecimentos, dado que a única pessoa que foi exclusivamente vítima em toda a situação foi a mulher negra agredida psicologicamente pelo homem negro que veio a morrer no final da referida sequência de erros, pelo que titular tudo como racismo é uma grande falácia, desviando o problema de seu foco, a questão espiritual e de falta de educação generalizada da população brasileira, cada vez menos instruída em termos qualitativos, e mais dirigida ao materialismo, egoísmo e consumismo.

A vida voltada exclusivamente para o consumo e os prazeres da carne tem obnubilado a consciência, fazendo prevalecer uma inconsciência incolor que tem causado males nefastos à população, no que se inclui a manipulação de uma tragédia com fins ideológicos, ligados à carne, com a falsa roupagem espiritual/intelectual/social, e também politicamente, de um modo geral, para os dois espectros da política, com prejuízo para a coerência com as declaradas crenças Cristãs.

Portanto, irmãos, somos devedores não à carne para vivermos segundo a carne. Pois se viverdes segundo a carne, morrereis, mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis” (Rm 8, 12-13).

Portanto, deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz. Como de dia, andemos decentemente; não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes. Mas vesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne” (Rm 13, 13-14).

A vida Cristã é o assunto científico da maior importância, é o principal tema do conhecimento humano, da civilização, da mais avançada Ciência Física e Social, e enquanto os Cristãos e as autoridades Cristãs não assumirem suas responsabilidades espirituais, não apenas nas missas e cultos, mas, principalmente, na vida cotidiana, na atividade profissional e acadêmica, absurdos como esse continuarão a ocorrer, enquanto a população persistirá sendo manipulada pela mídia, mantendo o povo em sua ignorância e inconsciência incolor.

Tivesse prevalecido o ensinamento do apóstolo, que indiretamente é o do próprio Cristo, mais uma vida e tantas outras vidas teriam sido poupadas.

Que a Verdade seja restabelecida, para que João Alberto possa descansar em Paz!

Jesus x Jesus e anticristo x anticristo

Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada. Com efeito, vim contrapor o homem ao seu pai, a filha à sua mãe e a nora à sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” (Mt 10, 34-36).

Quando lemos tal passagem da Escritura, é possível interpretar que seu significado está no fato de que o nome de Jesus causa divisões, e daí a ocorrência do fenômeno Jesus x Jesus, sendo que do lado oposto presume-se esteja o anticristo, o inimigo de Jesus, portanto anticristo x anticristo.

O Mestre também afirmou: “Todo reino dividido contra si mesmo acaba em ruína e nenhuma cidade ou casa dividida contra si mesma poderá subsistir” (Mt 12, 25); e: “Quem não está a meu favor, está contra mim, e quem não ajunta comigo, dispersa. Por isso vos digo: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém disser uma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado, mas se disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro” (Mt 12, 30-32).

Referidas passagens dizem muito sobre o atual momento político, porque as ideias e a mensagem do Evangelho estão em ambos os lados do conflito, conservador e progressista, ainda que de forma parcial, e igualmente estão nos dois espectros políticos aqueles que com ele Cristo não ajuntam, mas dispersam.

A eleição dos EUA mostra uma clara oposição política entre a população rural e a urbana, campo e cidade, interior e litoral, algo semelhante ao que ocorre no Brasil entre norte e sul, quanto à existência de divisão, porque suas causas não são propriamente as mesmas, dadas as peculiaridades de cada um dos citados países.

A política norte-americana do século XXI é importante, porque diz respeito ao conflito ideológico mundial e à história dos governos das nações, na medida em que os EUA representam hoje uma espécie de império em declínio, em contraposição à Rússia e à China, em que pese haver inegáveis diferenças ideológicas e internas entre estas últimas nações.

A Europa, por sua vez, simboliza uma antiga potência, decadente, que não mais entende sua posição no plano ideológico mundial, especialmente no que diz respeito à verdade do Cristianismo. Se parte da divisão norte-americana diz respeito à contraposição de Jesus x Jesus, a Europa, em sua avançada secularidade, perde cada vez mais contato com suas origens cristãs, apesar da ameaça do terror decorrente do radicalismo islâmico. É filha de Roma e Jerusalém, e mãe da América, todas, a seu tempo e modo, suas próprias versões da Babilônia.

A Europa simbolicamente é também a mulher de Apocalipse 17, sendo possível ver no mapa-múndi virado a imagem da mulher com a taça na mão:

A mulher estava vestida com púrpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas; e tinha na mão um cálice de ouro cheio de abominações; são as impurezas da sua prostituição. Sobre a sua fronte estava escrito um nome, um mistério: ‘Babilônia, a Grande, a mãe das prostitutas e das abominações da terra’. Vi então que a mulher estava embriagada com o sangue dos, santos e com o sangue das testemunhas de Jesus” (Ap 17, 4-6).

Essa mulher significa tanto o comércio quanto à promiscuidade da vida da cidade, da vertente do progressismo político que nega a religião, não reconhecendo a atuação dos santos, ou mesmo a existência de santidade, esse conceito espiritual que moveu as testemunhas de Jesus, inclusive na seara pública, no ambiente político, contra as ações dos poderosos.

No artigo O “Apocalipse e a Verdade” (https://holonomia.com/2020/03/28/o-apocalipse-e-a-verdade/) é mostrado o desenvolvimento dessa história dos impérios mundiais do tempo babilônico até a virada para a era messiânica.

Essa mulher, em certo sentido, é vencedora das eleições dos EUA, pois representa as cidades, a riqueza, o comércio. Também é perdedora, quanto ao armamentismo, à segregação das pessoas humanas. O anticristo, portanto, é onipresente na política mundial.

De um lado, temos Bento XVI dizendo que “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, defendida por uma ala política, é obra do anticristo (https://veja.abril.com.br/mundo/bento-xvi-diz-que-casamento-de-pessoas-do-mesmo-sexo-e-obra-do-anticristo/), de lado, Leonardo Boff afirma que Bolsonaro tem características do anticristo (https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/07/28/bolsonaro-anticristo.htm).

O atual contexto, não apenas quanto à eleição americana, como também em relação às últimas décadas, no diz respeito a esses movimentos políticos mundiais, é realmente histórico, e talvez signifique, como indicam as características de nossa era, uma situação de transição, literalmente, de proporções bíblicas, pois as Escrituras possuem uma descrição da realidade histórica, cujo viés científico urge seja resgatado.

A Bíblia é composta basicamente de narrativas históricas e psicológicas, textos normativos e sapienciais e profecias, estas tidas como manifestações de uma Verdade (hoje científica) (superior/absoluta).

O Cristianismo significou uma atualização da leitura profética, especialmente a partir dos textos do apóstolo Paulo, compreendendo o sentido da História Sagrada, porque o referido autor sagrado realizou uma mediação entre a verdade das Escrituras e a realidade do tempo em que vivia.

Uma determinada compreensão dessa leitura foi o sustentáculo da civilização ocidental, cujo tecido social vem sendo esgaçado a cada dia pela divisão antes citada, que não desaparecerá, porque ambos os lados continuarão se posicionando do lado de Jesus, vendo seus opositores como anticristos.

Existe um mal-entendido fundamental sobre o Evangelho que domina o pensamento ocidental, quanto à natureza do Reino de Deus, quanto ao fato de o Reino de Jesus ser (ou não) deste mundo (Jo 18, 36).

Apenas quando essa Verdade for compreendida, quanto à natureza também política e humana do Reino de Deus, e quando for identificada a natureza profética, que hoje corresponde à atividade científica, da mensagem de Jesus, será possível estabelecer os contendores reais no conflito espiritual que ronda a humanidade há milênios, e assim os lados em disputa serão bem delimitados, os apoiadores de Jesus contra os que estão contra ele, e representam os anticristos, e, então, será apenas questão de declarar o vencedor, acabar com a divisão do Reino, deixando de pecar contra o Espírito, e iniciar a era messiânica.

Todos estão errados, para que, então, Deus exerça misericórdia com todos.

Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia” (Rm 11, 32).