A Teodiceia de Leibniz

Tanto o artigo anterior como outros dois já publicados, “A indispensabilidade metafísica e A Monadologia” (https://holonomia.com/2020/08/16/a-indispensabilidade-metafisica-e-a-monadologia/) e “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/), são inspirados na obra de Gottfried Wilhelm Leibniz, cujo modo de pensar, tanto por sua lógica como pela coerência com a cosmovisão Cristã, muito me agrada, pois parte de um determinado entendimento de Deus, que compartilho com o autor, e daí desenvolve toda uma série de argumentos.

Já no texto anterior eu pretendia abordar algumas passagens da Teodiceia de Leibniz, mas a escrita acabou evoluindo em outra direção, de modo que foi interrompido o raciocínio sem passar para a obra indicada, de modo a não alongar demais o assunto.

A parte inicial do livro traz uma exposição dos tradutores sobre a diferença entre a Teologia Natural de Leibniz e Newton, ressaltando a busca pela causa primeira, Deus, na pesquisa dos referidos autores, bem como na distinção em suas concepções de espaço e tempo. Como salientado no artigo “A unidade entre corpo e alma”, Leibniz antecipou a relatividade do espaço e do tempo, contrariando o entendimento de Newton. Como consta na introdução:

“O fato de a Relatividade Geral de Einstein recusar o espaço e o tempo absolutos, somado ao advento, já no século anterior, das geometrias não euclidianas acaba por exigir uma nova leitura dos autores que entendiam o espaço e o tempo de forma diferente da de Newton ou mesmo da de Kant – revisão que pode muito bem ser iniciada pela leitura minuciosa da Teodiceia” (Ensaios de teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. Gottfried Wilhelm Leibniz. Tradução William de Siqueira Piauí e Juliana Cecci Silva. 2 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2017, p. 39).

Mas essa revisão, no contexto dos referidos autores, deve ocorrer mantendo o entendimento pela existência daquela causa primeira, ou Deus, Que é expressa nos trabalhos de Newton e Kant, e condicionam suas visões de mundo, não só no aspecto teológico, como também nos âmbitos filosófico e propriamente científico.

E não há como enfrentar a realidade adequadamente, mesmo em termos epistemológicos, deixando Deus de fora, sendo urgente superar a visão do século XX, que tinha as questões ligadas ao mundo divino como nulidades científicas ou irracionais, para voltar a conceber Deus como o centro e a origem da própria Razão, restaurando a cosmovisão Cristã em sua essência, segundo a qual no Princípio é o Logos, e esse Princípio e esse Logos é Deus.

É mesmo admirável como Leibniz sabe abordar a natureza das coisas, ainda que sua teoria não seja perfeita, pois tem uma noção corretíssima do universo, e dos atributos de Deus, como exposto no Prefácio:

As perfeições de Deus são aquelas da nossa alma, mas ele as possui sem limites; ele é um oceano do qual só recebemos gotas: em nós, existe algum poder, algum conhecimento, alguma bondade; mas em Deus eles existem plenamente. A ordem, as proporções, a harmonia nos encantam, a pintura e a música são exemplos disso; Deus é todo ordem, sempre mantém a justeza das proporções, e faz a harmonia universal: toda beleza é uma efusão dos seus raios” (Idem, p. 47).

Levando essas ideias a sério, isto é, Deus como fundamento da razão, da ordem, da bondade e da harmonia, Leibniz desenvolve com eloquência seus argumentos, entendendo muitos dos problemas enfrentados pela cristandade.

Cristãos pensavam que poderiam ser devotos sem amar seu próximo e piedosos sem amar a Deus; ou mesmo acreditou-se poder amar seu próximo sem servi-lo e poder amar a Deus sem conhecê-lo. Muitos séculos passaram sem que o público se apercebesse desta falha; e há ainda muitos vestígios do reino das trevas. Vemos algumas vezes pessoas que falam muito sobre a piedade, sobre a devoção e sobre a religião que estão, de fato, ocupadas em ensiná-las; mas não as achamos nem um pouco instruídas quanto às perfeições divinas. Elas concebem mal a bondade e a justiça do soberano do universo; elas imaginam um Deus que não merece ser imitado nem amado” (Idem, pp. 48-49).

Existem ainda outras falhas no entendimento Cristão que perduram por outros séculos desde que Leibniz escreveu tais sábias palavras, de todo modo, como sustenta o autor, é, sim, indispensável o conhecimento de Deus, das perfeições divinas, da bondade e da justiça do soberano do universo para que Ele possa ser adequadamente adorado e louvado, e tal Ciência é tanto benéfica para nós mesmos, pela Paz (de Cristo) que proporciona, quanto para aqueles com quem nos relacionamos, na medida em que podemos dar um verdadeiro testemunho de nossa fé, e pelos bons efeitos dessa fé na vida alheia. Nesse ponto, já diziam os apóstolos:

Por isso não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor” (Ef 5, 17);

antes, santificai a Cristo, o Senhor, em vossos corações, estando sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pede” (1Pe 3, 15).

Não é possível entender a vontade do Senhor ou dar as razões da fé e da esperança cristãs sem conhecimento, sem proximidade com os conceitos ligados a Deus e às virtudes e qualidades que Ele espera sejam desenvolvidas nos homens, especialmente sobre o projeto de Deus para a humanidade, que tem como destaque absoluto a Vida e Paixão de Jesus de Nazaré, o significado do Cristianismo, a encarnação do Logos, a vivência da maior racionalidade concebível, o Reino de Deus inaugurado por Cristo.

Sobre a ação da Providência no mundo, Leibniz diferencia o fatum stoïcum (destino estoico), que dava tranquilidade quanto aos eventos, para evitar preocupações inúteis, o fatum mahumetanum (destino maometano), pelo qual os turcos não evitavam perigos, e o fatum christianum (destino cristão), contentamento quanto à bondade de Deus, Que não negligencia nem os cabelos da nossa cabeça, referentes a distintos entendimentos sobre a necessidade dos acontecimentos, quanto ao futuro inevitável, aliado à presciência divina sobre todas as coisas do universo, do que decorre que devemos confiar em Deus inteiramente.

É como se disséssemos aos homens: façam o seu dever e fiquem contentes com o que vai acontecer, não somente porque vocês não poderiam resistir à providência divina ou à natureza das coisas (o que pode bastar para estar tranquilo, mas não para estar contente), mas também porque vocês têm obrigação para com um bom mestre. E é isso que podemos denominar fatum christianum)” (Idem, p. 51).

A pessoa de nosso tempo terá muita dificuldade para aceitar ou compreender o texto de Leibniz, inserido em contexto de presença espiritual e moralidade absoluta, com ênfase nos deveres, nas obrigações, quando o tempo presente é de destaque amplo e unilateral para os direitos, com enfoque eminentemente para o mundo material, que, apesar de importante, é, em realidade, um médium para a realização do Espírito.

Nessa mesma linha, a ideia de uma determinada realidade a ser alcançada, o Reino da graça, praticamente deixou de existir, passando a dominar o (des)entendimento sobre o Reino da natureza, que seria regida pelas forças do acaso. Perdeu-se completamente a noção do que Leibniz define como a “filosofia dos cristãos, que identifica melhor que a dos antigos a dependência das coisas (com relação) ao primeiro autor e seu concurso para com todas as ações das criaturas” (Idem, p. 54).

Uma das ideias principais de Leibniz é de que Deus escolhe sempre o melhor, e por isso vivemos no melhor dos mundos possíveis, caso contrário Ele não teria escolhido o melhor, o que seria negar sua suprema Bondade e infinita Sabedoria, O Qual, “fazendo tudo no mesmo instante, inicialmente com ordem, tinha estabelecido aí toda ordem e artifício futuro. Não existe caos no interior das coisas, e o organismo está, em toda parte, em uma matéria cuja disposição vem de Deus” (Idem, p. 62).

A existência de mal no mundo não contraria tudo o que foi dito, porque “Deus, tendo escolhido o mais perfeito de todos os mundos possíveis, fora levado por sua sabedoria a permitir o mal que estava ligado a ele, mas o que não impedia que, tudo calculado e acertado, este mundo fosse o melhor que pudesse ser escolhido” (Idem, p. 65).

A questão do mal está indissoluvelmente ligada com a da liberdade humana, com a natureza da alma, temas que serão novamente desenvolvidos no próximo artigo, mas a matéria alma merece uma citação final:

“Talvez ainda seja bom observar, antes de terminar este prefácio, que ao negar a influência da alma sobre o corpo ou do corpo sobre a alma, isto é, uma influência que faça com que um perturbe as leis do outro, de modo algum nego a união de um com o outro que nele é uma parte constitutiva, mas essa união é algo de metafísica que não muda nada nos fenômenos” (Idem, p. 67).

Como já ressaltei em artigo anterior, discordo desse entendimento do autor, pelo dualismo inerente à sua harmonia preestabelecida, segundo a qual a correspondência da alma com o corpo decorreu de uma sincronização estabelecida por Deus no princípio da criação, pela qual os fenômenos da alma ocorrem simultaneamente com os do corpo, como dois relógios coordenados.

Assim escrevi no artigo “A unidade entre corpo e alma” (https://holonomia.com/2020/08/23/a-unidade-entre-corpo-e-alma/):

“Leibniz afirmava que as almas possuem internamente a representação de todo universo, cada uma de seu ponto de vista, possuindo perfeita harmonia com as coisas que estão fora das almas, regidas pelas leis do mecanismo corporal. ‘E como a natureza da Alma é representar o universo de um modo muito exato (embora com maior ou menor nitidez), a sucessão de representações que a Alma produz para si mesma irá naturalmente corresponder à sucessão de mudanças no próprio universo’ (Idem, p. 67). Desse modo, há também um dualismo no entendimento do autor, por não haver interferência nos mecanismos das leis do corpo com a atividade da alma, porque tudo que ocorre nesta é originado de sua constituição original, como representação de todo universo, expressando cada coisa externa no seu devido tempo, pela harmonia conferida por Deus a todas as coisas.”

Esse é um assunto teológico de primeira grandeza, que será continuado na próxima semana…

Teodiceia

Teodiceia é palavra que trata de um assunto definitivo, fundamental, essencial, presente diuturnamente em nossas vidas, mas que lamentavelmente é pouco lembrado na vida cotidiana, fato este um sintoma do tempo sombrio em que vivemos, como reflexo do lampejo iluminista que sequestrou a alma da humanidade, na medida em que aquela fagulha de luz se apagou, porque se afastou de sua fonte, a Filosofia de Cristo, sobrevindo o período que talvez seja de mais intensas trevas da História, em que a tecnologia foi e tem sido usada para a destruição em grande escala, da vida humana e do planeta.

Tal vocábulo decorre da junção dos termos gregos Théos, ou Deus, e Díke, ou Justiça, referindo-se, pois, à ideia de Justiça Divina, conceito totalmente estranho à mente contemporânea, resultado do iluminismo que, ao longo do século XVIII, foi afastando a Ciência da Teologia, passando pela concepção marxista de que “a religião é o ópio do povo” e culminando na declaração de Nietzsche de que “Deus está morto”, no final do século XIX, proposta que restou desenvolvida ao longo do século XX, no qual temas religiosos ou a associação da racionalidade científica com a realidade espiritual foram implícita ou expressamente rechaçados, quando, não por acaso, a besta humana se mostrou com toda sua força, por meio do nazifascismo e do comunismo.

O pensamento secular e laico não consegue compreender a verdadeira dimensão da Justiça Divina, seu significado, principalmente quando o plano espiritual é tratado como uma fantasia, uma invenção humana destinada a ofuscar o medo da morte, de modo que falar em Teodiceia é entendido por aquele modo de pensar como uma nulidade científica, um anátema, sendo todas as pessoas e propostas a ela relativas condenadas de plano, a priori, como irracionais.

Na medida em que Deus foi excluído do chamado pensamento racional, o que levou consigo concepções filosóficas ligadas ao Absoluto, aberto ficou o caminho para o avanço do relativismo moral, que hoje domina a teoria política e o pensamento jurídico ocidental, a despeito de a condenação dos horrores nazistas ter se lastreado nos valores superiores da moralidade judaico-cristã, porque da perspectiva do relativismo moral e do materialismo não havia e não há fundamento bastante para condenar as propostas nazistas. Sem a utilização de uma ideia absoluta, de um valor supremo, que esteja acima da concepção supremacista racista, o conflito continuará no plano das ideias, e somente a força física restará como modo de superação dos impasses sociais.

Do ponto de vista evolutivo, apenas no estágio de desenvolvimento superior e posterior é possível entender adequadamente as deficiências do anterior, isso tendo como pressuposta a ideia de que a evolução é um fato. Como a ciência secular não oferece alternativa a esta, a menos que se pense que a vida chegou ao seu limite evolutivo, resta pensar quais são os critérios de seleção natural do próximo nível de existência biológica.

Para combater a supremacia branca, por exemplo, que pode ser considerada uma hipótese lógica da evolução material, e por isso seduziu a população germânica sob a liderança de Hitler, e continua convencendo alguns atualmente, apenas uma supremacia superior, com uma lógica mais elaborada, tem o condão argumentativo de suplantar a segregação humana, e tal é a lógica Cristã, com a ideia de encarnação do Logos, como Espírito Absoluto, de supremacia de Cristo, do Espírito que move a carne para o Bem. Em qualquer escala de valores que se possa conceber, nada há de mais elevado que o próprio Deus, que o mundo da divindade, que se coloca acima de possíveis hierarquias humanas.

Assim, é por meio de algo absoluto, ou sagrado, que a realidade é devidamente discernida, porque quando tudo é neutro e homogêneo, sem diferenciação, não há critério de escolha, não há ciência, não há lógica.

Vale dizer que a ideia de algo Absoluto, que serve de parâmetro para relativizar tudo mais que existe, é indispensável para o desenvolvimento do pensamento racional, pois sem que existam axiomas, postulados aceitos como certos, inquestionáveis, não há como fundar uma argumentação lógica. O princípio da não contradição é condição sine qua non para atividade filosófica, matemática e científica.

As noções de igualdade, semelhança e diferença são básicas na argumentação lógica, e também para as concepções de Justiça, que trabalha com os conceitos de certo e errado, bem e mal, classificando as diferenças entre comportamentos e fatos para, então, qualificá-los como justos e injustos. O justo é diferente do injusto, sob pena de violação do princípio da não contradição.

Assim voltamos à ideia de Teodiceia, porque diante da inequívoca existência de injustiça nas sociedades humanas, algumas excepcionalmente intensas, o argumento pela inexistência de Justiça Divina ganha força, principalmente entre os ignorantes.

Por isso é importante destacar dois níveis de Teodiceia, um a cargo da humanidade e outro de responsabilidade do próprio Deus.

Ao contrário do pensamento comum, a Justiça humana é, sim, uma delegação da atribuição divina de promover os valores superiores da criação, de modo que a Teodiceia deve ser realizada também por nós, para a promoção do Bem, promovendo o arrependimento dos malfeitores e a honra dos benfeitores. Na realidade, da perspectiva da divindade, quando nós exercermos bem essa função sacerdotal e celestial, especialmente no plano internacional, quando houver consciência verdadeiramente espiritual na tarefa de governar e julgar as questões terrenas, será dispensável a interferência de Deus para correção dos assuntos humanos, porque já estaremos atuando com Deus.

Por essa razão são as passagens bíblicas atribuídas aos apóstolos Paulo e Pedro, exigindo que os Cristãos sejam obedientes aos poderes humanos: “Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13, 1); e “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como enviados seus para a punição dos malfeitores e para o louvor dos que fazem o bem, pois esta é a vontade de Deus que, fazendo o bem, tapeis a boca à ignorância dos insensatos” (1Pe 2, 13-15).

Contudo, tanto por desconhecimento quanto por opção irracional, as leis divinas, o que também ocorre com as humanas, são rotineiramente desrespeitadas, provocando um aumento gradativo da desordem, o que culmina em revoltas e revoluções, na intervenção das autoridades ou do próprio Deus.

A História humana é repleta de eventos dessa natureza, estando narradas nas sagradas escrituras aquelas situações extraordinárias em que as forças celestiais agiram sobre o curso dos acontecimentos, do que podem ser citados o Dilúvio, o Êxodo e a Ressurreição de Jesus.

Em termos de Justiça Divina, este último fato é de importância maiúscula, que delimita exatamente o sentido da evolução, marcando antecipadamente as qualidades humanas do estágio de desenvolvimento superior e posterior da espécie, no exemplo de Jesus de Nazaré, e indicando a continuidade existencial dos indivíduos, pois na medida em que se entende que nossa realidade pessoal não se encerra com a morte, e que haverá uma prestação de contas pelas ações desta vida, tanto as benéficas quanto as maléficas, o conceito de Teodiceia fica melhor contextualizado.

Além disso, a Ressurreição é prova do acerto de determinada moralidade, da concepção de bem e mal adotada pelo judaísmo de Jesus Cristo, e visão política, o trabalho honrado e irrepreensível do líder, do Rei e Sacerdote, exatamente o exemplo de bom desempenho das atividades de governança humana, nos planos nacional e internacional, que dispensa a interferência de Deus para correção dos assuntos humanos, porque já conduzidos segundo a própria Lei Natural.

Como temos visto que, para os dois lados do espectro político, a humanidade está muito longe desse modelo, seja por falhas grotescas na legislação, quando premia a ilegalidade sexual, igualando indevidamente a diferença, com os benefícios do sagrado matrimônio, ou quando declara a normalidade do assassínio de vidas humanas, adotando uma lógica inferior, como a da supremacia branca, de um lado, ou pelo péssimo comportamento de lideranças de destaque, estimulando a desobediência civil com base ególatra, ou o desrespeito pela vida alheia e pelos menos favorecidos, de outro lado, isso é sinal de que a Teodiceia exercida pelo próprio Deus talvez esteja próxima de ocorrer…

A insuficiência da lei

O Brasil é um país em que se demonstra com facilidade da insuficiência da lei, havendo leis que “pegam” e “não pegam”, no sentido de serem respeitadas por seus destinatários, ou não.

A lei remete para uma autoridade que a edita, como norma geral de comportamento a ser respeitada por todos, presumindo-se que em sua elaboração sejam adotados critérios de racionalidade e justiça, o que, contudo, lamentavelmente, nem sempre ocorre na legislação humana. Muitas vezes, de outro lado, a norma estabelece padrões de comportamento que estão além da capacidade ordinária do cidadão para respeitá-la, carecendo de campanhas maciças de informação, para que o objetivo previsto pela norma seja compreendido e, então, realizado. Este último é o caso da Lei de Cristo, que também é a Torá, a Lei do amor, a qual, apesar de sua antiguidade e de o Evangelho ser pregado em todo planeta, ainda não atingiu a adequada compreensão de seus destinatários, porque sua Inteligência é de um nível difícil de ser alcançado, e mais difícil ainda de ser praticado.

Portanto, pode ocorrer de a norma não ser propriamente inteligente, porque mal elaborada, o que pode ocorrer com a lei humana, e será, mais cedo ou mais tarde, superada, ou ser superinteligente, situação da Lei Divina, exigindo intensa campanha de educação popular, e também da elite intelectual, para conscientização da necessidade de sua observância, para o Bem (que é sempre coletivo).

Desse modo, para além da questão formal, está presente na utilidade e eficácia da legislação um aspecto cultural, de desenvolvimento de uma mentalidade associada às razões pelas quais as normas existem, via de regra, o bem individual e comunitário.

Nesse aspecto, o brasileiro pode ser considerado um povo com momentos constantes de falta de educação, em que os valores civilizatórios, a consciência de respeito às leis e a boa formação cultural estão ausentes ou são solenemente ignorados, isso tudo a despeito da influência, em nosso país, do Cristianismo, que representa o melhor: da civilização, da consciência humana, do conceito de Lei e do desenvolvimento cultural.

Um exemplo recente que pode ser dado é o comportamento durante as eleições, nas quais, em que pesem as constantes campanhas de informação sobre a importância do voto, e da necessidade de escolha dos candidatos pela qualidade de suas propostas, os eleitores continuam a se envolver em episódios de compra de votos, em que há a correlata participação dos políticos, ou quando, no dia do pleito, insistem em movimentos coletivos ilegais de manifestação da preferência eleitoral, com aglomeração usando camisas das mesmas cores, as quais identificam grupos partidários, e o que é pior, em pleno período de pandemia. O último caso diz respeito a uma paixão mal direcionada por maus exemplos e má liderança, como também ocorre em eventos futebolísticos/esportivos, e mesmo em situações de religiosidade.

Outra situação tem sido constatada recentemente, quando são flexibilizadas as medidas de isolamento para contenção da disseminação do vírus, permitindo-se determinadas atividades, com alguns procedimentos de prevenção, como distância mínima entre as pessoas e uso de máscaras, mas tais protocolos são simplesmente desprezados. As regras existem, as pessoas delas têm conhecimento, mas optam, quase sempre por motivos ególatras, ou pela mais bruta insensatez, por não respeitar os mandamentos.

Esse problema não é novo, foi enfrentado pelo Messias, que destacou a hipocrisia das pessoas, e diz respeito a um assunto fundamental do Cristianismo, e que vale também para o Judaísmo e para Islamismo, porque são culturas religiosas inseridas em contexto de vida regulada por normas jurídicas. Por mais que o mundo cristão tenha se afastado dessa premissa, e isso é uma das principais falhas da visão cristã prevalente, o tema da Lei é central para a realização do Reino de Deus, que representa o tempo em que as leis são respeitadas, porque considerados seus objetivos espirituais e os valores e virtudes que representam.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Importava praticar estas coisas, mas sem omitir aquelas. Condutores cegos, que coais o mosquito e tragais o camelo!” (Mt 23, 23-24).

Importa praticar estas coisas, os preceitos menos importantes, sem esquecer o que é essencial: a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Apesar de o apóstolo Paulo, principal teólogo do Cristianismo, ter afirmado, naquela que pode ser considerada a obra de conclusão de sua doutrina, seu trabalho mais elaborado, talvez o último texto que escreveu e que chegou até nós, como uma síntese de seu pensamento, a Epístola aos Romanos, que “ninguém será justificado pelas obras da Lei, pois da Lei vem só o conhecimento do pecado” (Rm 3, 20), e que “sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei” (Rm 3, 28), ele expressamente se contrapõe a uma possível conclusão equivocada de suas palavras: “Então eliminamos a Lei através da fé? De modo algum! Pelo contrário, a consolidamos” (Rm 3, 31).

A Lei, outrossim, deve ser consolidada pela fé, não tendo sido revogada, mas cumprida e ressignificada pelo Cristo, porque “a Lei é santa, e santo, justo e bom é o preceito” (Rm 7, 12), pelo que deve ser considerada a “Lei a expressão da ciência e da verdade” (Rm 2, 20).

Mas é necessário ter entendimento do seu sentido, que é espiritual, dizendo respeito ao contexto de sua interpretação, à realidade última de que se origina e para qual se destina, o próprio Deus, O qual “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4).

Sabemos que a Lei é espiritual” (Rm 7, 14), pelo que o seu cumprimento não pode ser meramente formal, automático, ignorante, porque por essas obras ninguém é justificado, sendo necessário encarnar seu Espírito para que a justiça e a misericórdia nela presentes sejam manifestadas, para o Bem (que é sempre individual e coletivo).

A razão superior deve prevalecer sobre as vontades mais baixas que dominam o corpo, mascaradas sob falsos bens, no que se incluem as ideias sobre aborto, união gay, segregação arbitrária de estrangeiros etc. Para cumprir a Lei, destarte, é necessário vencer o instinto animal, o egoísmo que age em nós, inclusive ao racionalizar em favor de bestialidades.

Eu me comprazo na lei de Deus segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe em meus membros” (Rm 7, 22-23).

Todos queremos nos libertar das amarras das máscaras, e nos aproximar das pessoas queridas, com beijos e abraços, mas adotar estes comportamentos na situação atual equivale a levar a essas mesmas pessoas, e para aqueles que com eles convivem, um risco que pode ser fatal.

Ainda que sejamos fortes e saudáveis, podemos estar contaminados e levar o vírus a alguém que não suportará o desenvolvimento da doença. Isso é um fato. Quantos estiveram doentes e assintomáticos? Quantos não souberam dessa situação e, sem perceber e sem querer, provocaram, mesmo que indiretamente, a morte de alguém? Nesse ponto, diante da cobertura midiática da pandemia, ainda que por vezes sem o devido compromisso com a Verdade, poucos poderão dizer que não sabiam que era necessária a prevenção diante dos riscos representados pela pandemia, os demais terão agido com culpa, que certamente será reconhecida, e lamentada, ou punida, no derradeiro julgamento.

Pois todos nós compareceremos ao tribunal de Deus. Com efeito, está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim e toda língua dará glória a Deus. Assim, cada um de nós prestará contas a Deus de si próprio” (Rm 14, 10-12).

O critério de julgamento, há muito, já é conhecido, na Lei e para além dela, o amor ao próximo. Quem aglomera irresponsável e desnecessariamente não tem amor ao próximo. Quem não usa máscara, principalmente por opção política, não tem amor ao próximo, ao colocar, equivocadamente, projetos humanos egóicos acima do valor das pessoas, representando a hipocrisia que o Messias já revelava em seu tempo, que vale tanto para autoridades quanto para a população em geral. Uma autossuficiência soberba faz com que alguns entendam que não estão obrigados a prevenção, deixando de pensar que sua prevenção poderá impedir que o vírus, que é invisível e cuja ação ainda tem muitos aspectos para nós desconhecidos, chegue até alguém cujo organismo não terá condições de a ele resistir.

Não se trata, enfim, simplesmente da lei, mas de amor, da Lei.

A lei humana pode ser insuficiente, mas o Cristão se pauta por critérios superiores, por uma caridade para com todos, busca a realização do Espírito, indispensável para a plenitude da Lei.

Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei. De fato, os preceitos: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e todos os outros se resumem nesta sentença: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13, 8-10).