Monoteísmo como condição da Ciência

Assistindo a uns vídeos sobre a história das religiões, produzidos por Leandro Karnal, em que pesem as profundas divergências teóricas entre meu pensamento e o dele, reafirmei meu entendimento sobre a indispensabilidade histórica do pensamento religioso monoteísta, e da Teologia, para o desenvolvimento da Ciência, tal como a conhecemos, apesar da publicidade em sentido contrário produzida por muitos pretensos cientistas, pela chamada academia, em geral.

Explicando a criação do mundo pelo Deus da Bíblia, o historiador mostra a distinção entre o pensamento monoteísta e aquele da religião grega e das religiões indígenas da América, porque apenas no Monoteísmo há um Deus que preexiste a tudo, e é anterior ao tempo e ao espaço, que deu origem ao mundo (https://www.youtube.com/watch?v=CztqsoWZOQU).

Do ponto de vista cosmológico, e ao contrário do que pensavam os gregos, a ideia de que o mundo teve um início está associado à religião do Deus único, e a revelação do Big Bang, no século XX, decorreu da proposta do sacerdote católico belga Georges Lemaître, fazendo com que Einstein depois mudasse um detalhe de sua concepção científica.

A opção moderna é o deus multiverso, anterior ao tempo e ao espaço, que teria criado o nosso mundo, o que é a crença de muitos cientistas da teologia materialista, do ateísmo, e é uma crença muito pior que a dos Cristãos, pois materialismo é baseado exclusivamente na fé, enquanto o Cristianismo tem, a seu favor, além da história da Ciência, o testemunho dos primeiros cristãos, e também de outros, que vivenciaram a encarnação do Logos.

Mesmo entre os gregos, Aristóteles, que foi um grande investigador científico, tendo pesquisado o mundo natural em vários aspectos, pressupunha um “motor imóvel” a movimentar todo universo.

“Visto que há uma ciência independente do ser como ser, é necessário que investiguemos se esta deve ser considerada idêntica à ciência natural ou, ao contrário, um ramo distinto de conhecimento. A física ocupa-se de coisas que encerram uma fonte de movimento em si mesmas; as matemáticas são especulativas, sendo ciências que se ocupam de coisas permanentes, mas não com coisas que são capazes de existir separadamente. Há, portanto, uma ciência distinta de ambas, a qual se ocupa daquilo que existe separadamente e é imóvel, isto é, se efetivamente houver uma substância deste tipo, quero dizer: que tenha existência independente e seja imóvel, como nos empenharemos em demonstrar que há. E se houver uma coisa desse jaez no mundo, aqui certamente deve estar o divino, e este tem que ser o princípio primeiro e o mais fundamental. Fica evidente, portanto, que há três tipos de ciência especulativa: a física, as matemáticas e a teologia. A melhor das classes de ciências é a especulativa, e, entre as próprias ciências especulativas, a melhor é a que nomeamos por último, porque ela trata do mais importante aspecto da realidade.” (Aristóteles. Metafísica. Trad. Edson Bini. 2 ed. São Paulo: EDIPRO, 2012, p. 282).

Em Aristóteles, portanto, havia um princípio primeiro, mais fundamental, associado à esfera divina, às coisas eternas e imóveis, sendo a melhor ciência aquela que trata desse assunto, o mais importante aspecto da realidade.

Aristóteles possuía uma ideia teológica de mundo, e não é por acaso que o mundo islâmico preservou suas obras, as quais depois reingressaram de modo importante no mundo ocidental através da obra de São Tomás de Aquino.

Ao falar sobre a era de ouro do Islamismo, Leandro Karnal, trata da preservação da obra de Aristóteles pelos muçulmanos, pelo avanço científico por eles proporcionado, destacando as universidades de Córdoba, Cairo, Bagdá e Damasco; “o que havia de mais brilhante, o que havia de mais estável, o que havia de maior no ocidente, pertencia ao Islamismo, ao mundo árabe, em particular” (https://www.youtube.com/watch?v=T90Dxs_uYcM).

“Hoje em dia, a maioria dos historiadores concorda que árabes e muçulmanos foram essenciais para a filosofia e toda a ciência moderna.

(…)

É consenso entre autores que o ponto culminante para o estabelecimento ciência moderna está na série de descobertas feitas durante o movimento histórico nomeado pelo próprio Koyré de Revolução Científica. O que muitos autores esquecem, porém, é que se não fossem as pesquisas e o desenvolvimento do Império árabe-islâmico na Idade Média, nada disso teria acontecido. Só para citar alguns exemplos, os árabes deixaram trabalhos de destaque em Matemática, Filosofia, Medicina, Física, Química, e Astronomia que influenciaram diretamente os autores europeus por trás da Revolução Científica” (https://www.15snhct.sbhc.org.br/resources/anais/12/1473991953_ARQUIVO_ArnaldoArtigo15SNHCTT.pdf).

É importante, e extremamente necessário, portanto, que a História como a conhecemos, e como é transmitida nas escolas, passe a ter mais verdade científica, correspondente aos fatos efetivamente ocorridos, e às condições de racionalidade que permitiram que hoje tivéssemos o que chamamos Ciência, atividade esta que, na realidade, é quase ignorada pelos cientistas, mais apegados aos seus pressupostos ideológicos, a maioria deles já rejeitados pela própria Ciência, do que à coerência do conhecimento, em si.

Como Aristóteles e os judeus já pensavam, é indispensável, para a existência de Ciência, que haja uma ordem anterior do mundo, à qual este esteja vinculado, porque pensar que tudo no mundo é formado a partir dos encontros aleatórios e fortuitos dos átomos, pois estes seriam as únicas coisas eternas, é simplesmente pressupor que todo conhecimento está sujeito à iminente alteração fortuita, prejudicando, por princípio, a investigação científica mais duradoura. Por isso, a teoria do multiverso faz parte, na realidade, não de atividade propriamente científica, mas de teologia, que não é das melhores.

Segundo penso, há uma dependência entre o conceito de Ciência e o Deus Único do Monoteísmo, dependência que de explícita nos primeiros autores da revolução científica foi sendo tornada cada vez mais implícita, até que, hoje, o conhecimento científico dominante, desenvolvido sobre essas bases teóricas, que para ele são indispensáveis, acabou se voltando contra a própria ideia de Deus, certamente porque o próprio Cristianismo foi se distanciando de suas origens, do seu gênesis e da filosofia judaica de mundo, com sua coerência e integralidade, incorporando um dualismo platônico em seus conceitos, que já era criticado por Aristóteles, chegando à sua completa deturpação epicurista, da modernidade aos tempos atuais.

É preciso, pois, retomar os fundamentos judaicos do Cristianismo, refundindo-o com o aristotelismo, mas com prevalência do primeiro, para compreendermos que o Ser que existe separadamente e é imóvel, que tem existência independente e é eterno, isto é, que o mundo divino, que é o princípio primeiro e o mais fundamental, uniu-se ao mundo humano e temporal a partir de Jesus Cristo, superando aquela separação entre os dois mundos, num processo que se consumará quando essa unidade se manifestar em toda criação, consumando a encarnação iniciada por Jesus cristo e continuada em seus autênticos seguidores, muitos deles cientistas, quando Deus for tudo em todos, quando a unidade da Ciência for onipresente, tanto na vida humana quanto no mundo natural, quando essa potência se transformar em ato.

Para isso, a unidade científica deve ser recuperada, pela submissão de todas as coisas, inclusive científicas e políticas, à Ética de Jesus Cristo, ao seu modo integral de viver no mundo, encarnando a própria Razão, sendo manifestação viva do Deus Único, que é o princípio primeiro de todas as coisas, da própria racionalidade, é o Logos.

Se a melhor das classes de ciências é a especulativa, e, entre as próprias ciências especulativas, a melhor é a teologia, porque ela trata do mais importante aspecto da realidade, urge que tal conhecimento retome sua preeminência ontológica, lógica e racional, é preciso que o conhecimento de Jesus seja restaurado, e que ele reine, derrotando a ignorância e irracionalidade que dominam o pensamento científico e a academia.

Pois é preciso que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído será a Morte, pois ele tudo colocou debaixo dos pés dele. Mas, quando ele disser: ‘Tudo está submetido’, evidentemente excluir-se-á aquele que tudo lhe submeteu. E, quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todos” (1Cor, 15, 25-28).

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