O problema democrático

Como  escrevi sobre o tema, no artigo “A democracia contemporânea como falácia informal” (https://holonomia.com/2016/10/02/a-democracia-contemporanea-como-falacia-informal/):

Já dizia Platão em sua República que a democracia, como regra, descamba para a tirania/demagogia, e que a melhor forma de governo é a sofocracia, o governo dos sábios/justos, dos filósofos (o sábio é justo, como uma de suas qualidades ontológicas).”

Hoje assisti ao vídeo referente ao mesmo assunto: “POR QUE Sócrates odiava a democracia?” (https://www.youtube.com/watch?v=sGCcA1P7Dq4).

Em síntese, narra que a maior invenção da Grécia antiga, a Filosofia, tinha profundas desconfianças da Democracia, citando o exemplo de Sócrates e seu pessimismo quanto ao processo democrático, porque o critério de igualdade não é adequado para definir a melhor pessoa para o governo público, e pelo fato de a liberdade levar à insolência e à anarquia.

Um dos livros do momento é “Como as democracias morrem”, o qual ainda não li, mas que expressa a preocupação com as instituições democráticas, criticando a onda populista e de extrema-direita que se levanta na Europa.

Não se pode esquecer, contudo, que a Revolução Francesa teve a ideia democrática de conduzir o povo ao poder, tendo culminado no período do terror e, então, no império napoleônico. A alegação de defesa da população russa também conduziu ao comunismo e à matança generalizada inerente a tal regime. Isso tudo sem falar na ascensão do socialismo trabalhista na Alemanha das décadas de 20 e 30 do século passado, um movimento democrático, que chegou e se manteve no poder dentro de instituições democráticas.

No vídeo citado, é destacada a passagem do Livro VI da República de Platão, em que Sócrates compara a sociedade com um navio, explicando que o comandante do navio não pode ser qualquer um, mas alguém com conhecimento suficiente para comandar um barco. O mesmo vale para o governo do país, de modo que o voto deve ser ensinado, é uma habilidade, não pode ser exercido sem educação verdadeira, sob pena de incidir na mesma irresponsabilidade de colocar como piloto de um barco, durante uma tempestade, alguém sem conhecimento náutico.

Sócrates aduzia que quando existem problemas de saúde quem deve ser chamado é o médico, e para conduzir o navio é o piloto, sendo o médico inútil para a navegação e o piloto para a medicina. Igualmente, para o governo é apto aquele que é sábio e conhece a justiça e o bem. O conhecer, no caso, é bíblico, significando a intimidade carnal, a prática da justiça e da bondade.

Contudo, diante da permissão democrática, muitos líderes fingem os interesses do povo para manipular as massas, transformando a democracia em demagogia, pelo que afirmam Sócrates e Platão, com razão, que o mundo da autoridade deve estar subordinado às exigências racionais.

As exigências de Sócrates e Platão, outrossim, são atendidas apenas parcialmente, quando se impõe idade mínima para o exercício do direito de voto, facultado aos analfabetos, do lato ativo da capacidade eleitoral, e ao se estabelecer os casos de inelegibilidade para proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato, considerando vida pregressa do candidato, e a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso da atividade pública, como previsto pelo art. 14, §9.º, da Constituição Federal, regulamentado pela chamada Lei da Ficha Limpa.

O que vemos, contudo, é a eleição baseada na retórica vazia, no discurso em grande parte desvinculado de ações, sem que seja possível obrigar juridicamente o eleito a manter sua palavra, fato que torna comum o chamado estelionato eleitoral.

A manipulação eleitoral, de um lado, e a ignorância da população, de outro, permitem que estelionatos eleitorais se perpetuem, quando a atividade política é voltada à manutenção do próprio corpo governante, manipulando o discurso público, que é orientado em sentido diverso ao da ação política real.

Esse problema é ainda mais grave e evidente em países com a cultura pouco desenvolvida, em que a educação social e formal é muito frágil, que é o caso do Brasil, no qual a formação superior é nivelada por baixo, pois os cursos de graduação são, de fato, cada vez mais, salvo honrosas exceções, superensinos médios, colegiões.

A história política brasileira é uma sucessão de escândalos, com mensalões, sanguessugas, anões do orçamento, petrolões, malas de dinheiro, rachadinhas etc.

As suspeitas escancaradas se mostram a todos, publicamente, e os envolvidos continuam sendo votados, porque nem sempre a Lei da Ficha Limpa consegue ser aplicada, sendo naturalmente lento o processo de apuração criminal, ainda mais arrastado pela multiplicação de recursos e incidentes processuais que quase permitem a eternização dos processos. As pessoas menos instruídas, ou por interesses não republicanos, assim, elegem pessoas com práticas ignorantes, injustas e más.

Há, contudo, esperança, pois, ainda que muito lentamente, o sistema vem sendo depurado, do que a Lei da Ficha Limpa é um exemplo, e a tendência é que o tempo mostre que opções políticas e ideológicas equivocadas são desastrosas a médio e longo prazo, o que vale para o plano econômico.

Falando sobre a última recessão nacional, um comentarista econômico, cujo nome agora me escapa, afirmava que o Brasil sob o último governo que sofreu impeachment era um ônibus sem freio descendo a ribanceira rumo ao precipício, e a ação governamental foi… pisar no acelerador… Por essa, e por outras, a liderança política foi saída antes que o desastre aumentasse e se transformasse em uma catástrofe ainda maior.

Assim, os problemas de agora também passarão, mesmo que seja possível, e provável, que as coisas ainda piorem muito antes de as nuvens da escuridão e da ignorância se dissiparem, mas talvez seja, enfim, o grande momento de redirecionamento da humanidade, quando a ideia platônico-socrática se realizar como profecia judaico-cristã cumprida, na vinda do Reino de Deus, no tempo em que os justos, os sábios, os reis e sacerdotes de Cristo, finalmente, reinarão, quando este for reconhecido como “Cabeça de todo Principado e de toda Autoridade” (Cl 2, 10), “pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13, 1).

Portanto, democracia ou não, a despeito de as coisas continuarem a piorar, com as catástrofes e medo generalizado de um mundo despedaçado, nem que seja por instinto de sobrevivência, a força do Espírito prevalecerá: “Quando começarem a acontecer essas coisas, erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação” (Lc 21, 28).

A ideologia da OMS

Na semana que passou, estava lendo o artigo “Qual o valor jurídico das recomendações da Organização Mundial da Saúde?” (https://www.conjur.com.br/2020-abr-14/opiniao-qual-valor-juridico-recomendacoes-oms), em que é destacada a Constituição da Organização Mundial de Saúde – OMS, quando constatei, mais uma vez, o engodo ideológico que domina mundo científico e acadêmico, com inevitável repercussão nas esferas política e jurídica.

A referida Constituição passou a integrar o ordenamento jurídico nacional por meio do Decreto n.º 26.042, de 1948, constando de seu preâmbulo (https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1940-1949/decreto-26042-17-dezembro-1948-455751-publicacaooriginal-1-pe.html):

A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e nao apenas a ausência de doença ou enfermidade ( * ).

O gôzo do melhor estado de saúde que lhe seja possível atingir, constitui um dos direitos fundamentais de todo ser humano, sejam quais forem sua raça, sua religião, suas opiniões políticas, sua condição econômica ou social. (…)

A extensão a todos os povos dos benefícios decorrentes do conhecimento das ciências médicas, psicológicas e ciências afins é essencial para lograr-se o mais alto grau de saúde.

Uma opinião pública esclarecida e uma cooperação ativa por parte do público, são de uma importância capital para o melhoramento da saúde dos povos.

Os Govêrnos são responsáveis pela saúde de seus povos; êles só poderão desincumbir-se dêsse encargo tamanho as medidas sanitárias e sociais apropriadas.

( * ) A palavra “ENFERMIDADE” é empregada, aqui, na acepção que a medicina lhe empresta para traduzir, na expressão, de Littréee, ” aquêles casos em que o indivíduo, com ou sem desordem apreciável da disposição material do corpo, não possui esta ou aquela função ou a possui de maneira imperfeita ou irregular”.”

Já o artigo 1.º da Constituição da OMS tem o seguinte teor:

O Objetivo da ‘Organização Mundial de Saúde’ (aqui doravante denominada Organização), é conduzir todos os povos ao nível de saúde mais elevado possível.”

Daí, a indagação óbvia é sobre o significado de estado de completo bem-estar físico, mental e social; melhor estado de saúde que seja possível atingir; e conhecimento das ciências médicas, psicológicas e ciências afins.

Essas definições dependem não de conceitos científicos em sentido estrito, mas de cosmovisões, entendimentos filosóficos sobre a origem humana, seu sentido histórico, enfim, sobre a natureza humana, o que, repita-se, a ciência atual não é capaz de responder, sendo tais pontos dependentes de uma opção teológica, filosófica, existencial, decorrente do que se pode chamar livre-arbítrio, ou seja, a escolha arbitrária sobre qual a origem do mundo, da vida, do ser humano.

Vale dizer, a ciência não sabe explicar a origem do universo, não decifrou a origem da vida e do ser humano, não compreende o que seja a consciência, sendo que a própria teoria da evolução é uma hipótese com vários buracos interpretativos, pelo que dizer que houve, desde o início da vida (fenômeno não compreendido cientificamente), evolução das espécies de forma cega, ou seja, aleatória e sem direção, e por tentativa e erro, é uma hipótese baseada em um claro ato de FÉ materialista.

No artigo “Homo humanorum” (https://holonomia.com/2018/10/31/homo-humanorum/), faço referência ao texto “Os Matemáticos da Evolução”, de Josiney A. Souza, concluindo que:

As linhas gerais do citado artigo, segundo as teses dos matemáticos, são no sentido de que a evolução não é plenamente explicada pela teoria de Darwin, não podendo ser entendida como um processo cego ou aleatório, e sem inteligência, pois não houve tempo cósmico bastante para tanto, não sendo o (neo)darwinismo suficiente para a compreensão da complexidade da vida”.

Portanto, no plano das ciências biológicas, a complexidade da vida não é explicada em termos estritamente materialistas, o que repercute diretamente nos conceitos de estado de completo bem-estar físico, mental e social e de melhor estado de saúde que seja possível atingir.

No plano psicológico também há a vertente materialista, que passou a ser adotada pela OMS, como se nota no caso dos transgêneros. Extrai-se da página das Nações Unidas no Brasil:

Segundo a especialista, a alteração aconteceu porque a agência de saúde da ONU teve um ‘melhor entendimento de que isto não é realmente um problema de saúde mental’. A decisão reflete avanços críticos na ciência e na medicina.

Para Lale, a reclassificação vai reduzir o estigma, ao mesmo tempo em que garantirá o acesso a intervenções de saúde necessárias.

A incongruência de gênero pode ser descrita como um sentimento de angústia vivenciado quando a identidade de uma pessoa entra em conflito com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento.” (https://nacoesunidas.org/oms-retira-a-transexualidade-da-lista-de-doencas-mentais/)

De minha perspectiva, fazer com que a pessoa com “incongruência de gênero” se submeta a uma mutilação corporal grotesca, ou estimular essa ideia, não é promover o completo bem-estar físico, mental e social ou o melhor estado de saúde que seja possível atingir, não corresponde à busca do nível de saúde mais elevado possível. Para Freud, talvez o melhor estado de saúde mental possível seja o filho poder fazer sexo com a mãe e a filha com o pai, e possivelmente hoje seria do pai com o filho e da mãe com a filha, o sexo sem amarras morais, do que discordo veementemente.

Penso que a ética Cristã, que ainda fundava a cosmovisão da época da Constituição da OMS, continua sendo o que melhor representa o melhor estado de saúde e o nível de saúde mais elevado possível.

Repito, aqui, o que constou no artigo “Domínio do inconsciente” (https://holonomia.com/2019/01/15/dominio-do-inconsciente/), citando o trabalho do psicólogo Erich Neumann, no livro “História da Origem da Consciência”:

“‘Também nas neuroses, como nas perversões e na homossexualidade – todas pertencentes ao mesmo nível –, o desenvolvimento do ego e da consciência é incompleto e o domínio do inconsciente continua, isto é, em nenhum desses casos foi atingido o estágio da luta heroica’ (Idem, p. 223).

Em seguida Neumann arremata dizendo que tal situação psicológica do indivíduo deve ‘ser considerada um desenvolvimento defeituoso’”.

A mudança que ocorreu desde que Neumann escreveu seu texto reflete muito mais uma alteração ideológica, contrariando aquela que levou à Constituição da OMS e em favor do materialismo e da visão freudiana de mundo, do que propriamente científica, ainda que o argumento seja falsamente tratado como estritamente científico”, uma vez que não existe ciência neutra.

A atuação ideológica da OMS permanece durante a atual Pandemia, não tanto pela orientação de isolamento, que, por ora, é medida de precaução para preservação de vidas, que deve ser adotada com maior ou menor rigor dependendo das condições de cada localidade, dos níveis de propagação da doença e de adesão da comunidade a medidas de prevenção do contágio.

Mas a leniência com a China, que errou muito no início da Pandemia, a demora em reconhecer a situação de emergência internacional, que foi pautada não por critérios técnicos imediatos, mas depois de se combinar com os chineses a forma pela qual seria feita a declaração, e agora a ausência de manifestação crítica sobre a “recontagem” que elevou o número de mortos na China em 50% (cinquenta por cento) demonstram claramente que a OMS não tem uma posição estritamente neutra e científica, e sim manifesta ações de cunho evidentemente ideológico, de natureza materialista e, portanto, contrária à Constituição da OMS.

Quantas mortes poderiam ter sido evitadas por uma postura mais incisiva da OMS desde as primeiras notícias da doença na China? Provavelmente muitas, talvez milhares.

Penso, assim, que a OMS não vem respeitando sua Constituição, porque suas ações não proporcionam o melhor estado de saúde que é possível atingir e não conduzem todos os povos ao nível de saúde mais elevado possível.

Jesus de Nazaré continua representando o estado de completo bem-estar físico, mental e social, o melhor estado de saúde que é possível atingir, pois de seu corpo, suas palavras e ações ainda é irradiada saúde física, mental e social, direta e indiretamente, o que é o caso dos hospitais e universidades, criados por seus seguidores, em cumprimento de seus mandamentos.

O que se espera é que, ao final dessa avalanche pela qual passamos e continuaremos a viver, seja rejeitada a má ideologia que tem desorientado as decisões da OMS, restabelecendo-se os seus princípios fundadores, com a observância da visão de mundo, da teologia, da postura existencial que subjaz à sua Constituição.

Heteronomia, autonomia e holonomia – A logocracia

O nome do sítio, holonomia, como noticiado na página das informações (Sobre), está associado à proposta do físico e filósofo David Bohm, à ideia de uma totalidade física indivisível, ligada ao âmbito da formação teórica do referido autor, Ph.D. em Física pela Universidade da Califórnia, de modo que holonomia é lei do holomovimento, a lei do todo, também uma lei de razão, de lógica, do Logos.

O conceito físico, contudo, pode ser ampliado para o aspecto teológico, e também filosófico e político, pensamento que o próprio David Bohm chegou a desenvolver em seus livros, pela aplicação à vida em geral, e à moralidade, cujas normas podem ser heteronômicas ou autonômicas, isto é, quando a regra de conduta é estabelecida de fora, pelo outro, ou ditada pela própria pessoa.

Segundo Kant, a “autonomia é, pois, o fundamento da dignidade da natureza humana e de toda a natureza racional” (Immanuel Kant. Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos. Tradução Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 66), significando, para o autor, a escolha que pode ser adotada como lei universal, dizendo que a heteronomia da vontade é a fonte dos princípios ilegítimos de moralidade.

Já na Crítica da Razão Prática, Kant coloca a existência de Deus como postulado da razão pura prática, sustentando que a doutrina do cristianismo apresenta um conceito do “sumo bem (do reino de Deus), que é o único que satisfaz à mais rigorosa exigência da razão prática. A lei moral é santa (inflexível) e exige a santidade dos costumes, (…) por conseguinte, em relação à santidade exigida pela lei cristã, nada mais resta à criatura que um progresso ao infinito, mas justamente por isso justifica a esperança de sua continuidade, que vai ao infinito” (Immanuel Kant. Crítica da Razão Prática. Tradução Rodolfo Schaefer. São Paulo: Martin Claret, 2004, 137/138).

A autonomia em Kant, portanto, não é a mera vontade da pessoa, mas a vontade conforme a lei universal, associada a uma visão Cristã de mundo, da qual decorre sua ideia de dignidade humana. Desse modo, é possível entender a autonomia de Kant, porque fundada na racionalidade e na universalidade, conceitualmente, como correspondente à holonomia, quando a lei moral individual não é ligada a qualquer moralidade, com qualquer fundamento para as regras comportamentais, mas está vinculada à moralidade infinita, santa, à ideia de ética, entendida como ciência da moralidade, da razão moral universal, que supera os conceitos de todas as moralidades particulares.

Lendo “O juízo moral na criança”, de Piaget, ainda que a leitura não tenha sido encerrada, é possível compreender uma evolução da compreensão da regra moral que é encontrada no desenvolvimento da criança, mas que também é aplicável historicamente à própria moralidade humana.

Nas crianças, a primeira consciência das regras está associada à ideia de sagrado, à sua imutabilidade, que participa da autoridade paterna.

No tocante às regras morais, a criança intencionalmente se submete, mais ou menos por completo, às regras prescritas. Mas estas, permanecendo, de qualquer forma, exteriores à consciência do indivíduo, não transformam verdadeiramente seu comportamento” (Jean Piaget. O juízo moral na criança. Tradução Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994, p. 58).

A fonte das normas, sendo externa, implica a submissão do indivíduo a elas, o que corresponde à heteronomia moral. Contudo, a partir dos dez anos, em média, a consciência da criança a respeito das regras se transforma:

À heteronomia sucede a autonomia: a regra do jogo se apresenta à criança não mais como uma lei exterior, sagrada, enquanto imposta pelos adultos, mas como o resultado de uma livre decisão, e como digna de respeito na medida em que é mutuamente consentida”, afirmando, ainda, que “a democracia sucede à teocracia e à gerontocracia: não há mais delitos de opinião, apenas de procedimento” (Idem, p. 60).

Piaget relata que primeiro ocorre um respeito unilateral à autoridade paterna, do que decorre a regra coercitiva de comportamento, associada à heteronomia, mas, com o amadurecimento, ocorre mutação do estado de consciência, quando as representações coletivas passam a dar lugar à discussão das regras, prevalecendo um respeito recíproco vinculado à noção de cooperação. De todo modo, seja quanto à coação pura, o respeito puramente unilateral, ou em relação ao respeito mútuo, a cooperação, nunca há o domínio absoluto de um ou outro, existindo uma descontinuidade ou gradação entre eles.

Da cooperação decorre a regra racional. “A harmonia é encontrada pela união do racional e da natureza, enquanto a coação moral e o respeito unilateral opõem uma sobrenatureza à natureza e uma mística à experiência lógica”; afirmando, enfim, que ainda que seus estudos decorram de análise de jogo de bolinhas, para crianças, tal conclusão vale para a “história das religiões e das formas de governo” (Idem, p. 86).

Deve-se salientar, entretanto, assim como Kant, que Piaget também tinha uma visão de mundo Cristã, pelo que é cabível uma leitura complementar de seu trabalho, segundo o Cristianismo.

Portanto, o governo humano passou da noção heteronômica para a autonômica, da teocracia para a democracia. É de ser desconsiderada, no caso, a democracia grega, que era muito incipiente, porque dela excluída a maioria absoluta da população, sendo a sociedade mantida pelo trabalho escravo ou servil. De todo modo, da união das ideias gregas e Cristãs surgiram os fundamentos da democracia moderna, baseada em fraternidade, liberdade e igualdade, consumando-se no constitucionalismo moderno.

Mas se a teocracia era unilateral e vertical, a democracia, com seu consensualismo e horizontalidade, deteriorou-se em um relativismo moral, em que a dignidade humana se distanciou na noção de santidade e de progresso ao infinito, como apontado por Kant, e passou a aceitar comportamentos puramente materiais, egoístas e limitados como dotados de “dignidade”, o que vale para questões sexuais e para os excessos alimentares e de consumo, contrariando a proposta de busca da santidade.

Outrossim, é mister o resgate da dimensão vertical da vida, da meritocracia moral, do conceito de sumo bem, de santidade, que são a fonte da noção de dignidade humana, decorrente da ideia de filiação divina, pelo fato de a humanidade possuir natureza divina, ser da raça de Deus, para avançarmos para a logocracia, o governo do Logos. Há que se recuperar a ideia de que a autoridade paterna é acompanhada de amor paterno, bem como a noção da experiência acumulada ao longo do tempo, e da sabedoria dela decorrente, que pode ser vista pela consciência imatura como heteronomia, quando é, na realidade, expressão de uma razão superior, de um Logos ainda não experimentado pela criança, com características de imutabilidade e eternidade, a inteligência presente desde o princípio, cuja simplicidade tem uma aparência de complexidade e irracionalidade quando não compreendida em seu movimento de se manter una, de se manter imóvel.

A cosmologia narra uma ideia de evolução, o mesmo se aplicando à biologia, pelo que também em termos morais podem-se compreender noções superiores e inferiores de moralidade. Se a própria evolução biológica está associada à diferenciação sexual e funcional dos órgãos no ser vivo, anular ou ignorar a distinção sexual, por exemplo, é uma regressão comportamental, como o é não conferir maior merecimento às pessoas que exercem posições governamentais e simbólicas especiais, pela função social quando bem exercida, pelo que existem, sim, atividades mais e menos nobres, sem desconsiderar a importância social de todo trabalho humano bem feito. Nesses tempos de pandemia, por exemplo, pode-se distinguir com mais clareza aquilo de que mais precisamos e dependemos e as coisas que podemos dispensar, às vezes definitivamente, para viver bem, em simplicidade essencial.

Por isso, é indispensável, para a melhoria da vida humana, reconsiderar o entendimento sobre o significado da democracia moderna, restaurando sua linha evolutiva e sua base filosófica, notadamente quanto ao seu fundamento, a dignidade humana, associada a um entendimento espiritual, da busca infinita da santidade, de modo que a evolução moral conduza ao governo humano pautado pela ideia holonômica, cósmica, para que a humanidade, finalmente, seja conduzida pelo Logos, na logocracia, reconhecendo, então, o mérito moral máximo de Jesus Cristo:

Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro; como uma ovelha que permanece muda na presença dos seus tosquiadores ele não abriu a boca. Após detenção e julgamento, foi preso. Dentre os seus contemporâneos, quem se preocupou com o fato de ter ele sido cortado da terra dos vivos, de ter sido ferido pela transgressão do seu povo?” (Is 53, 7-8).

A hermenêutica teológica demonstra, de outro lado, que sua atuação foi em favor não apenas do seu povo, que o rejeitou, mas de toda humanidade.

Se entre seus contemporâneos o Messias não foi reconhecido, ainda é tempo de aceitá-lo como símbolo de bondade e justiça, seguindo seus mandamentos na busca do sumo bem, da única ética, em sua holonomia, que inclui pensamentos, palavras e ações, com reflexos no próprio mundo natural, porque a ação ética produz a harmonia decorrente da união do racional e da natureza, na teocracia cooperativa de respeito mútuo, ou logocracia:

Procurai a Iahweh enquanto pode ser achado, invocai-o enquanto está perto. Abandone o ímpio o seu caminho, e o homem mau os seus pensamentos, e volte para Iahweh, pois terá compaixão dele, e para o nosso Deus, porque é rico em perdão. Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos, oráculo de Iahweh. Quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos. Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, dando semente ao semeador e pão ao que come, tal ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não torna a mim sem fruto; antes, ela cumpre a minha vontade e assegura o êxito da missão para a qual a enviei. Haveis de sair com alegria e em paz sereis reconduzidos. Na vossa presença, montes e outeiros romperão em canto, e todas as árvores do campo baterão palmas. Em lugar do espinheiro crescerá o zimbro, em lugar da urtiga crescerá o mirto; isto trará renome a Iahweh e um sinal eterno, que nunca será extirpado” (Is 55, 6-12).

O significado

Existe algum sentido nos eventos, especialmente aqueles pelos quais estamos passando?

Obviamente que sim, caso contrário não haveria evento algum, como algo que é digno de ser observado como algo, como distinto de toda a massa indiferente de informações à qual estamos sujeitos diuturnamente. Assim, existe significado nesses eventos, pois nos marcam, de uma forma ou outra, sendo o signo, o elemento básico do significado, aquilo que é ou deixa uma marca.

A dúvida diz respeito à origem do significado, se existe um significado nas coisas ou se todo sentido é por nós colocado no mundo, porque este seria destituído de qualquer interpretação especial. A resposta a essa indagação é de ordem filosófica ou teológica, e pode variar em certo grau.

O radicalismo materialista, ou ateísta, pode levar a “crer” não haver sentido no mundo, e apenas vivemos mais um movimento no caldo caótico de acontecimentos que não têm um destino certo ou previsível, na luta pela sobrevivência do mais apto.

Existe uma opção menos radical, que consegue colocar sentido na catástrofe a partir de uma perspectiva humana, de um humanismo, através da qual é possível analisar os fatos por uma significação do sofrimento, das vidas perdidas e do que se pode fazer para minorar essa perda existencial.

De minha leitura Cristã da realidade, ou seja, de uma narrativa que pretende compreender tudo o que existe pressupondo uma realidade subjacente, uma lógica que tudo perpassa, associada à ideia de divindade, do Deus Único, do Logos, em seu processo de manifestação na consciência humana, os eventos são mais uma etapa desse desenvolvimento, com capacidade de mostrar os caracteres das pessoas.

Nos momentos extremos, as pessoas podem ser portar resoluta ou desesperadamente, de forma mais ativa ou passiva, sendo o movimento e a inércia causados por uma racionalidade individual ou coletiva.

Assim, existe uma lógica própria na sobrevivência particular, e até mesmo o ato criminoso está associado a uma lógica específica, o lucro, a vingança ou a insanidade, a última correspondendo à valoração ou valorização desproporcional dos fenômenos, por uma significação exclusivamente pessoal e niilista. Um nobre Promotor de Justiça que fez dezenas de júris comigo falava que os crimes que eram julgados, o que vale também para os outros, eram motivados pelas três barras, a barra de ouro (lucro), a barra da saia (vingança) e São João da Barra (bebida – insanidade).

Essa elaboração teórica vale para as distintas visões de mundo, pois de um individualismo radical, com um domínio do egoísmo, de ações voltadas para a própria satisfação, pois a vida é curta, não há nada além deste corpo, o qual deve ser aproveitado o máximo possível. Essa é uma postura racional, de racionalidade limitada, deve-se dizer, mas racional.

Existe uma forma de inteligência superior à do indivíduo, associada à do grupo ou da espécie, com sentimento de solidariedade, ainda com uma visão estritamente material do mundo, de modo que o sentido das coisas é colocado exclusivamente pela cultura, é relativo, de modo que não existem valores absolutos, e nessa linha é possível a defesa, por exemplo, o aborto, pensando num suposto bem-estar individual da mulher que simplesmente não quer o desconforto ou o inconveniente da gravidez e do parto.

Finalmente, existe uma racionalidade que é ao mesmo tempo existencial e transcendental, entendendo haver uma ordem absoluta que se expressa no mundo visível, de modo que o sentido que colocamos no mundo é preexistente ao ato de fazê-lo, ainda que sua manifestação dependa de um ato criador. Esse argumento vale também para a matemática, que preexiste enquanto potencialidade lógica, mas que depende de um ato criador para que ocorra na mente humana e, então, na realidade científica.

Essa visão também é radical, entendendo haver causalidade cósmica, e não apenas sorte e acaso, de modo que o sentido colocado no mundo é também o sentido do mundo, é real e verdadeiro, ontologicamente. Por essa ideia, há algo além do mero corpo, há uma ordem parcialmente invisível na qual a vida permanece mesmo após o perecimento do corpo individual.

O significado do mundo é imanante e transcendente, é algo que já é mas ainda não aconteceu, que está se formando.

Por isso, os que se vão da imanência continuam na transcendência, até que essas duas realidades se unam, dando o sentido global da existência.

Entrando na semana da Páscoa, que representa a libertação da escravidão política, no aspecto humano comum, e da morte corporal, em termos científicos, porque ou a ressurreição é um nada ou representa uma realidade física e palpável, portanto, científica, é importante repensar o sentido de tudo, de nossas ações e de nossas razões, e verificarmos, honesta a sinceramente, se o significado que colocamos no mundo é individual, coletivo ou divino, e qual é o caráter de nossos comportamentos.