O significado

Existe algum sentido nos eventos, especialmente aqueles pelos quais estamos passando?

Obviamente que sim, caso contrário não haveria evento algum, como algo que é digno de ser observado como algo, como distinto de toda a massa indiferente de informações à qual estamos sujeitos diuturnamente. Assim, existe significado nesses eventos, pois nos marcam, de uma forma ou outra, sendo o signo, o elemento básico do significado, aquilo que é ou deixa uma marca.

A dúvida diz respeito à origem do significado, se existe um significado nas coisas ou se todo sentido é por nós colocado no mundo, porque este seria destituído de qualquer interpretação especial. A resposta a essa indagação é de ordem filosófica ou teológica, e pode variar em certo grau.

O radicalismo materialista, ou ateísta, pode levar a “crer” não haver sentido no mundo, e apenas vivemos mais um movimento no caldo caótico de acontecimentos que não têm um destino certo ou previsível, na luta pela sobrevivência do mais apto.

Existe uma opção menos radical, que consegue colocar sentido na catástrofe a partir de uma perspectiva humana, de um humanismo, através da qual é possível analisar os fatos por uma significação do sofrimento, das vidas perdidas e do que se pode fazer para minorar essa perda existencial.

De minha leitura Cristã da realidade, ou seja, de uma narrativa que pretende compreender tudo o que existe pressupondo uma realidade subjacente, uma lógica que tudo perpassa, associada à ideia de divindade, do Deus Único, do Logos, em seu processo de manifestação na consciência humana, os eventos são mais uma etapa desse desenvolvimento, com capacidade de mostrar os caracteres das pessoas.

Nos momentos extremos, as pessoas podem ser portar resoluta ou desesperadamente, de forma mais ativa ou passiva, sendo o movimento e a inércia causados por uma racionalidade individual ou coletiva.

Assim, existe uma lógica própria na sobrevivência particular, e até mesmo o ato criminoso está associado a uma lógica específica, o lucro, a vingança ou a insanidade, a última correspondendo à valoração ou valorização desproporcional dos fenômenos, por uma significação exclusivamente pessoal e niilista. Um nobre Promotor de Justiça que fez dezenas de júris comigo falava que os crimes que eram julgados, o que vale também para os outros, eram motivados pelas três barras, a barra de ouro (lucro), a barra da saia (vingança) e São João da Barra (bebida – insanidade).

Essa elaboração teórica vale para as distintas visões de mundo, pois de um individualismo radical, com um domínio do egoísmo, de ações voltadas para a própria satisfação, pois a vida é curta, não há nada além deste corpo, o qual deve ser aproveitado o máximo possível. Essa é uma postura racional, de racionalidade limitada, deve-se dizer, mas racional.

Existe uma forma de inteligência superior à do indivíduo, associada à do grupo ou da espécie, com sentimento de solidariedade, ainda com uma visão estritamente material do mundo, de modo que o sentido das coisas é colocado exclusivamente pela cultura, é relativo, de modo que não existem valores absolutos, e nessa linha é possível a defesa, por exemplo, o aborto, pensando num suposto bem-estar individual da mulher que simplesmente não quer o desconforto ou o inconveniente da gravidez e do parto.

Finalmente, existe uma racionalidade que é ao mesmo tempo existencial e transcendental, entendendo haver uma ordem absoluta que se expressa no mundo visível, de modo que o sentido que colocamos no mundo é preexistente ao ato de fazê-lo, ainda que sua manifestação dependa de um ato criador. Esse argumento vale também para a matemática, que preexiste enquanto potencialidade lógica, mas que depende de um ato criador para que ocorra na mente humana e, então, na realidade científica.

Essa visão também é radical, entendendo haver causalidade cósmica, e não apenas sorte e acaso, de modo que o sentido colocado no mundo é também o sentido do mundo, é real e verdadeiro, ontologicamente. Por essa ideia, há algo além do mero corpo, há uma ordem parcialmente invisível na qual a vida permanece mesmo após o perecimento do corpo individual.

O significado do mundo é imanante e transcendente, é algo que já é mas ainda não aconteceu, que está se formando.

Por isso, os que se vão da imanência continuam na transcendência, até que essas duas realidades se unam, dando o sentido global da existência.

Entrando na semana da Páscoa, que representa a libertação da escravidão política, no aspecto humano comum, e da morte corporal, em termos científicos, porque ou a ressurreição é um nada ou representa uma realidade física e palpável, portanto, científica, é importante repensar o sentido de tudo, de nossas ações e de nossas razões, e verificarmos, honesta a sinceramente, se o significado que colocamos no mundo é individual, coletivo ou divino, e qual é o caráter de nossos comportamentos.

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