Infinite Potential: The Life and Ideas of David Bohm

Em setembro de 2014, enquanto lia “A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido”, de Marcelo Gleiser, fui apresentado às ideias de David Bohm:

Uma tentativa de construir uma física quântica satisfazendo as demandas do realismo é a teoria de De Broglie-Bohm das ‘variáveis ocultas’. O físico americano David Bohm desenvolveu a teoria quando trabalhava como assistente de Einstein em Princeton, continuando quando foi para São Paulo em 1952, escapando da perseguição anticomunista da era do macarthismo. Inspirado por ideias de De Broglie, Bohm adicionou um nível de explicação extra na teoria quântica, capaz de descrever a posição do elétron com exatidão. A equação de Schrödinger continuava a mesma, mas era ‘pilotada’ por outra equação, que descrevia a ‘função de onda-piloto’. Da mesma forma que um maestro controla diferentes setores de uma orquestra durante uma sinfonia, a função de onde-piloto determina a divisão (ou bifurcação) da função de onda entre os vários estados físicos possíveis. Esse direcionamento ocorria sob o comando de uma ou mais variáveis ocultas, que eram indetectáveis por experimentos. Como uma divindade onipresente, a função de onda-piloto atuava em todos os lugares ao mesmo tempo, uma propriedade que os físicos chamam de ‘não localidade’. Em outras palavras, na mecânica de De Broglie-Bohm, as partículas permaneciam sendo partículas, e seu movimento coletivo era guiado de forma determinística pela ação não local da onda-piloto. As partículas agiam como um grupo de surfistas pegando a mesma onda, cada um guiado em uma certa direção à medida que a onda onipresente avançava.

Na teoria de De Broglie-Bohm, o comportamento do elétron é perfeitamente previsível; podemos calcular onde estará em um determinado momento do futuro. A variável oculta faz a ponte entre o conceito clássico de realidade e a indeterminação quântica. Mas a barganha tem um preço: para transformar a mecânica quântica em uma teoria determinística é necessário impor uma teia de influência entre tudo o que existe. Em princípio, o Universo como um todo influencia o resultado de cada experimento. Na prática, a velocidade e a aceleração de cada partícula dependem da posição instantânea de todas as outras partículas. O Universo age conjuntamente, determinando as condições ‘ambientais’ (isto é, tudo o que não é a própria partícula) que influenciam cada subsistema – de uma colisão dos detectores do CERN ao movimento das nuvens do céu. A teoria de De Broglie-Bohm leva a condição de não localidade ao extremo. Não é por coincidência que Bohm intitulou seu livro explorando os fundamentos filosóficos de sua teoria de A totalidade e a ordem implicada. E também não é surpreendente que poucos físicos endossem essas ideias, se bem que algumas variações da teoria de De Broglie-Bohm continuem sendo estudadas” (Marcelo Gleiser. A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido. Rio de Janeiro: Record, 2014, pp. 228-229).

Posso dizer que a leitura da passagem acima teve um impacto definitivo em minha vida intelectual, fornecendo o que seria, ao lado das ideias de Hegel e Jung, o terceiro tripé teórico da Teologia ou Filosofia natural que sustento, tudo sob uma leitura Cristã de mundo. Lendo o texto acima transcrito, imediatamente me veio à mente a ideia Cristã de Espírito santo, à qual associei a de onda-piloto, por uma certa identidade entre as respectivas qualidades: a ação de um maestro com atributos de uma divindade onipresente, atuando em todos os lugares ao mesmo tempo, pressupondo existir uma teia de influência instantânea entre tudo o que existe no Universo.

Vale, pois, um novo agradecimento à honestidade intelectual de Marcelo Gleiser, porque deu a descrição teórica da hipótese sem ocultar ou manipular dados, ao contrário do que fazia Stephen Hawking, como exposto no artigo “Ciência: a luta do cosmos contra o caos” (https://holonomia.com/2016/08/13/ciencia-a-luta-do-cosmos-contra-o-caos/):

Para culminar sua extravagância ‘filosófica’, Hawking ainda afirma que as ‘teorias de ‘variáveis ocultas’ preveem resultados em desacordo com as observações. Mesmo Deus está limitado pelo princípio da incerteza e não pode conhecer a posição e a velocidade; Ele só pode conhecer a função de onda’ (Op. cit., p. 107). Tal afirmação, além de conter a visão de uma ameba julgando o conhecimento humano, não é honesta cientificamente. Marcelo Gleiser, na obra que me indicou o trabalho de David Bohm, informa que a teoria das variáveis ocultas ‘produz os mesmos resultados da mecânica quântica’, que as ‘duas teorias fazem as mesmas previsões e não existe uma possibilidade de distinção’, optando ele pela mecânica quântica sem uma onda-piloto por ser ‘bem mais simples’ (In A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido. Rio de Janeiro: Record, 2014, p. 229).”

Em outubro de 2014 eu estava lendo “A totalidade e a ordem implicada”, e desde então me interesso por tudo o que diz respeito ao trabalho de David Bohm, tendo descoberto, então, que estava sendo produzido um documentário sobre sua vida.

Assim, em 20 de junho de 2020, ao pesquisar sobre a previsão de conclusão do documentário, depois de meses sem consultar o assunto, constatei que aquele era o dia do lançamento do filme, que foi disponibilizado gratuitamente no YouTube: “Full Film – Infinite Potential: The Life and Ideas of David Bohm” (https://www.youtube.com/watch?v=XDpurdHKpb8).

O vídeo começa com as palavras de Bohm: “When I was younger I felt that, in the beginning, the science would surely be a source of benefiting mankind. I had no question about it. I began to feel that something beyond science wold be needed to approach this question” (Quando eu era mais jovem, sentia que, no começo, a ciência certamente seria uma fonte de benefício para a humanidade. Eu não tinha dúvida sobre isso. Comecei a sentir que algo além da ciência seria necessário para abordar essa questão).

Apesar de o vídeo ser em inglês, há uma possibilidade (acabo de descobrir) no sentido de configurar a legenda automática gerada em inglês para uma tradução automática para o português (a maravilhosa tecnologia sendo bem usada para permitir a divulgação do conhecimento), o que, mesmo não tendo muita precisão, e às vezes com falhas grosseiras, permitirá que os que não têm um bom entendimento da língua inglesa possam aproveitar o vídeo.

Espero sinceramente que o leitor separe uma hora e onze minutos de sua vida para receber informações e conhecimentos com potencial de iluminar seu conhecimento do mundo, porque a vida de Bohm está completamente inserida nas ideias que dominaram o século XX, da total negação da espiritualidade na ciência, passando pela perseguição pessoal porque ele tinha participado de reuniões do partido comunista para encontrar pessoas que poderiam discutir Hegel com ele, mas que nem sabiam quem Hegel era, isso sem falar no fato de que suas ideias e pesquisa científica foram usadas, sem sua participação, para concluir o projeto Manhattan, que produziu a bomba atômica.

A ignorância quanto a Bohm e mesmo sua rejeição são fruto de uma posição filosófica equivocada, e mais cedo ou mais tarde seu trabalho terá o reconhecimento público que merece, do que o vídeo talvez seja apenas o começo, lembrando que o nome deste sítio está diretamente ligado à visão de mundo de Bohm associada a uma interpretação científica da Teologia Cristã.

O primeiro “ai”

Uma das passagens que considero mais intrigantes do livro do Apocalipse é aquela referente à quinta trombeta, que libera os gafanhotos sobre a terra:

Foi-lhes dada a permissão, não de matá-los, mas de atormentá-los durante cinco meses com um tormento semelhante ao do escorpião, quando fere um homem. Naqueles dias, os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão; desejarão morrer, mas a morte fugirá deles. O aspecto dos gafanhotos era semelhante ao de cavalos preparados para uma batalha: sobre sua cabeça parecia haver coroas de ouro e suas faces eram como faces humanas; tinham cabelos semelhantes ao cabelo das mulheres e dentes como os do leão; tinham couraças como que de ferro, e o ruído de suas asas era como o ruído de carros com muitos cavalos, correndo para um combate; eram ainda providos de caudas semelhantes à dos escorpiões, com ferrões: nas suas caudas estava o poder de atormentar os homens durante cinco meses. Como rei tinham sobre si o Anjo do Abismo, cujo nome em hebraico é ‘Abaddon’ e, em grego, ‘Apollyon’. O primeiro ‘Ai’ passou. Eis que depois destas coisas vêm ainda dois ‘ais’…” (Ap 9, 5-12).

Para além do significado dos gafanhotos e sua aparência, nunca compreendi a parte do texto em que fala que, “naqueles dias, os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão; desejarão morrer, mas a morte fugirá deles”. Como assim? As pessoas tentarão se matar? Não terão sucesso no suicídio? Isso sempre foi muito estranho, porque não é difícil tirar a vida humana, dada nossa fragilidade corporal, pelo que soa estranho que alguém que realmente queira se matar não consiga.

Hoje temos pragas de gafanhoto por todo planeta, situação que não é única do tempo atual, como ocorre com vários outros eventos climáticos que se repetem ao longo da história. Mas desta vez temos uma condição adicional, a pandemia, resultado do vírus com uma coroa, que mudou a atividade diária de bilhões pelo planeta, e essa mudança de rotina tem impactado a vida e os ciclos biológicos das pessoas.

No artigo “O Apocalipse e a Verdade” (https://holonomia.com/2020/03/28/o-apocalipse-e-a-verdade/) é descrita uma narrativa dos acontecimentos históricos até o clímax, a guerra do Grande Dia do Deus todo-poderoso, que não representa o fim do mundo, mas a derrocada do governo dos reinos pagãos, iniciando um novo tempo histórico, a era messiânica ou Reino de Deus.

O que coloca os sinais muito próximos desse Dia é a situação inigualável do nosso tempo, pela reunião do povo judeu de volta na Terra Santa, em razão da criação do Estado de Israel, situação ausente da história humana praticamente desde o tempo do rei Salomão, e que é efeito político mediato da ação de Jesus, O Messias. Nesse tema específico, a mídia internacional tem sido assustadoramente omissa sobre a promessa de Israel anexar parte das terras da Judeia e da Samaria, o que pode começar no dia primeiro de julho, com potencial de gerar reação de países próximos, ação esta também profetizada (https://www.breakingisraelnews.com/153822/iran-turkey-could-unite-wage-war-against-israel-warns-middle-east-experts/ – notícia original a que cheguei por outra https://ultimosacontecimentos.com.br/2020/06/28/ira-e-turquia-podem-se-unir-para-fazer-guerra-contra-israel-alerta-especialistas-do-oriente-medio/).

Temos, ainda, a sexta taça: “O sexto derramou sua taça sobre o grande rio Eufrates… E a água do rio secou, abrindo caminho aos reis do Oriente. Nisto vi que da boca do Dragão, da boca da Besta e da boca do falso profeta saíram três espíritos impuros, como sapos. São, com efeito, espíritos de demônios: fazem maravilhas e vão até aos reis de toda a terra, a fim de reuni-los para a guerra do Grande Dia do Deus todo-poderoso. (Eis que eu venho como um ladrão: feliz aquele que vigia e conserva suas vestes, para não andar nu e deixar que vejam a sua vergonha.) Eles os reuniram então no lugar que, em hebraico, se chama ‘Harmagedôn’” (Ap 16, 12-16). O que é assombroso é o fato ecológico atual da seca do rio Eufrates, que pode ser constatado numa pesquisa em qualquer buscador da internet.

Portanto, é possível uma interpretação contemporânea da quinta trombeta, conjugada com outros sinais, para além dos gafanhotos, de modo a entender o que significa “os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão”. Como salientado, a pandemia alterou a rotina das pessoas, o que tem provocado distúrbios do sono, de modo que o texto inicialmente transcrito pode ser lido como os homens tentarão dormir, mas não conseguirão, o sono fugirá deles.

Qual a base dessa leitura? Na confusão de ideias entre morrer e dormir encontrada na própria linguagem bíblica daquele tempo:

Disse isso e depois acrescentou: ‘Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo’. Os discípulos responderam: ‘Senhor, se ele está dormindo, vai se salvar!’ Jesus, porém, falara de sua morte e eles julgaram que falasse do repouso do sono. Então Jesus lhes falou claramente: ‘Lázaro morreu’” (Jo 11, 10-14).

Com essa leitura, portanto, afasta-se a dúvida original quanto à estranheza da interpretação literal de “os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão”, do capítulo 9 do livro do Apocalipse.

O segundo “ai” se refere às duas testemunhas, cuja interpretação é muito mais enigmática, com alguma referência simbólica a Moisés e Elias. Tenho para mim que tal tema se refere ao conhecimento científico, ao testemunho da Verdade, num paralelo com o que expus em “Elias e a verdade científica” (https://holonomia.com/2019/02/12/elias-e-a-verdade-cientifica/), porque as “duas oliveiras e os dois candelabros” têm relação com a questão religiosa e com a luz, a sabedoria de Deus, de modo que as duas oliveiras podem ser Israel e a Igreja referidas em Romanos, capítulo 11, em que também se faz citação do profeta Elias e da sabedoria e da ciência de Deus. Israel, vale dizer, se refere aos judeus sinceros, que não conheceram Cristo, e a Igreja é a comunidade dos cristãos, independentemente de denominação, e todos se reunirão sob o governo de Deus e seu Cristo.

O segundo ‘Ai’ passou. Eis que chega rapidamente o terceiro ‘Ai’. E o sétimo Anjo tocou… Houve então fortes vozes no céu, clamando: ‘A realeza do mundo passou agora para nosso Senhor e seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos’” (Ap 11, 14-15).

Temos, então, um “ai”, possivelmente presente, que será seguido de uma crescente de acontecimentos, de qualquer forma já em andamento, envolvendo disputas sobre a verdade científica e religiosa, e sobre a questão política, associadas ao Messias, ao Logos encarnado, culminando na mudança de poder global, quando a realeza do mundo passará para nosso Senhor, dos cristãos, judeus e muçulmanos, e seu Cristo.

O Apocalipse contém uma descrição de eventos religiosos e políticos, porque o Reino de Deus tem natureza científico/religiosa e política, pelo que a Besta domina as nações, embebedadas pela Babilônia, que tem a pretensão iluminista, de governar pela ciência e pela razão, quando manifesta ignorância e trevas.

Daí a importância política da era messiânica, do governo de Cristo, porque será a verdadeira Luz guiando os homens, quando o “Dragão, a antiga Serpente — que é o Diabo, Satanás”, será acorrentado por mil anos, no Abismo, por um anjo, “para que não seduzisse mais as nações até que os mil anos estives sem terminados. Depois disso, ele deverá ser solto por pouco tempo” (Ap 20, 2-3). A mensagem do evangelho será compreendida, e essa mensagem, esse anjo, levará à mudança da compreensão científica e política da humanidade, de modo que nas nações, nos governos humanos, não mais serão aceitas a corrupção, a maldade, a mentira, não mais serão governadas pelo comércio, como ocorre hoje, mas pela Verdade e Justiça.

Vi também as vidas daqueles que foram decapitados por causa do Testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e dos que não tinham adorado a Besta, nem sua imagem, e nem recebido a marca sobre a fronte ou na mão eles voltaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos” (Ap 20, 4).

Adorar a besta e ter sua marca significa seguir o mau governo político, que dá acesso ao deus mercado àqueles que têm sua marca, porque esta serve para “para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome” (Ap 13, 17).

Deixemos, pois, a Besta e sua marca, pois nem mesmo os anjos podem receber adoração, e esse é o espírito da profecia, o testemunho de Jesus:

Caí então a seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: ‘Não! Não o faças! Sou servo como tu e como teus irmãos que têm o testemunho de Jesus. É a Deus que deves adorar!’ Com efeito, o espírito da profecia é o testemunho de Jesus” (Ap 19, 10).

A questão teológica do realismo científico e filosófico

Os temas teológicos são, literalmente, fundamentais, pois neles estão embasados, expressa ou implicitamente, todos os nossos demais conhecimentos. Considero, como exposto no artigo “O problema é Teológico” (https://holonomia.com/2017/06/07/o-problema-e-teologico/), que o problema do mundo é essencialmente teológico, porque falhamos em cumprir o primeiro mandamento, o mais essencial, e, como consequência, falhamos em viver conforme a reta razão, porque Deus é o Logos, a própria Razão, e quando Dele nos afastamos estamos em estado, em maior ou menor grau, de irracionalidade.

A forma como conhecemos o mundo, inclusive cientificamente, é dependente de uma concepção teológica, no que estão incluídas as propostas realista e representacionalista de compreensão filosófica do mundo.

Recentemente, terminei a leitura da obra “The ecological approach to visual perception”, de James J. Gibson, livro ao qual cheguei após expressa menção de Wolfgagn Smith, em “Ciência e Mito”, e de David Bohm, em “A teoria da relatividade restrita”. Também Jordan Peterson faz referência ao trabalho de Gibson em suas aulas das disciplinas “PSY 230 H – Personality and its Transformations” e “PSY 434 H – Maps of Meaning”, ministradas na Universidade de Toronto, Canadá, e disponibilizadas no canal de Peterson no YouTube (https://www.youtube.com/c/jordanpetersonvideos).

Mas devo confessar que só compreendi a plena importância da proposta de Gibson na minha atual leitura, de Edward C. Feser, “Aristotle’s Revenge: The Metaphysical Foundations of Physical and Biological Science”, exatamente na parte que hoje analisei, sobre a percepção incorporada (Embodied perception), em que situa a abordagem científica de Gibson dentro da posição realista da filosofia, em contraposição ao entendimento representacionalista.

Interessante notar, ainda, que tanto Peterson como Feser fazem direta referência à filosofia de Heidegger como paralela à abordagem de Gibson, porque este analista a percepção visual a partir da inserção do homem corporalmente no mundo, e aquele tem também uma filosofia do homem como ser no mundo, o dasein. Contudo, enquanto Feser faz uma abordagem mais estrita, do fenômeno visual, Heidegger aprofunda o sentido da existência humana, e, porque sua filosofia contraria o que entendo como a correta visão da natureza humana e sua essência, concluo que este acaba por falhar na sua visão de que o homem é um ser voltado para a morte.

Não é possível negar o problema da morte, o que indica o parcial acerto da postura heideggeriana. Todavia, o tema da morte não pode ser abordado sem a necessária conexão com a questão teológica e espiritual, quanto à (in)existência de uma realidade que permanece para além da morte corporal, sobre alguma forma de continuidade existencial após a cessação das funções biológicas de nosso corpo físico, seja pela sobrevivência da alma ou pela ressurreição do corpo, o que é solenemente ignorado por Heidegger, provavelmente porque aderiu à postura do seu tempo no sentido de ser proibitiva de qualquer alusão científica a Deus.

Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena” (Mt 10, 28).

Os mortos foram então julgados conforme sua conduta, a partir do que estava escrito nos livros. O mar devolveu os mortos que nele jaziam, a Morte e o Hades entregaram os mortos que neles estavam, e cada um foi julgado conforme sua conduta. A Morte e o Hades foram então lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte: o lago de fogo. E quem não se achava inscrito no livro da vida foi também lançado no lago de fogo” (Ap 20, 12-15).

Do ponto de vista cristão, outrossim, entendo que a ideia de Heidegger dizendo que homem é um ser voltado para morte é essencialmente anticristã, manifesta um dasein anticristão, porque a postura existencial do cristão é a da pessoa que vive plenamente no corpo físico mas com a perspectiva da vida eterna, em ação e discurso, de modo que a morte corporal será apenas uma etapa de seu processo existencial, e a mesma pessoa continuará a existir na ressurreição do corpo. Portanto, do ponto de vista cristão, a ideia de Heidegger de que o homem é o ser voltado para a morte só faz sentido se a morte em questão significar a segunda morte, a qual corresponde ao resultado de uma vida afastada da reta razão, contrária ao Logos, cuja conduta viola a própria Vida, que está presente não somente no atual corpo individual como também, simultaneamente, muito além dele.

Voltando a Gibson, vale destacar que Smith, Bohm e Feser o colocam no rumo do realismo filosófico, que se contrapõe ao dualismo cartesiano segundo o qual existem dois mundos, um corpóreo e outro mental, de modo que o que vemos não é o mundo em si, mas a representação do mundo corpóreo através de imagens formadas na mente, ou no cérebro. Pela proposta representacionalista, não temos acesso direto à realidade, mas às imagens que fazemos do mundo.

A impressionante alegação de Gibson é que nossa crença normal está incorreta: o que realmente percebemos não são imagens, não são representações de algum tipo, não são coisas que existem no cérebro ou na mente do percebedor, e sim, com efeito, objetos externos ou acontecimentos. Ora, essa é certamente uma alegação filosófica; contudo, Gibson a formula de forma científica. (…)

Vemos que a teoria gibsoniana se apresenta como uma redescoberta do realismo e, com efeito, de um ‘realismo ingênuo’, pode-se dizer. E isso levanta uma questão intrigante: se uma teoria cientificamente segura acerca da percepção visual se revela defensora do realismo, talvez não seja a ruína do realismo da filosofia ocidental, que começou com Descartes, o resultado de um conceito cientificamente espúrio da percepção visual: uma teoria, nomeadamente, baseada no paradigma da câmera? Se a percepção visual de fato constitui nosso meio básico de acesso ao mundo externo, é compreensível que um paradigma que coloca os perceptos ‘dentro da cabeça’ evidentemente favorece modos não realistas de filosofia, sejam cartesianos, idealistas ou céticos” (Wolfgang Smith. Ciência e mito: com uma resposta a O Grande Projeto de Stephen Hawking. 1ed. Campinas: Vide Editorial, 2014, pp. 120-122).

Passando à teologia profunda, entendo que a dualidade cartesiana está associada às duas cidades de Agostinho, ambas fruto de um dualismo platônico e de uma concepção teológica falha do que seja o cristianismo em sua mensagem fundamental, a aproximação do Reino de Deus ao plano terreno, questão objeto do artigo “Agora” (https://holonomia.com/2018/11/11/agora/), texto que, em síntese, refuta a tese segundo a qual o Reino de Deus não é e nunca será deste mundo, apenas não era para se manifestar no tempo romano em que Jesus viveu. O dualismo é efeito do entendimento no sentido de que o Reino de Deus é ontologicamente de outro mundo, o que é contrário às palavras de Cristo.

Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt 12, 28).

O Reino de Deus está próximo de vós” (Lc 10, 9).

A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17, 20).

Como eles ouviam isso, Jesus acrescentou uma parábola, porque estava perto de Jerusalém, e eles pensavam que o Reino de Deus ia se manifestar imediatamente” (Lc 19, 11).

Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer do alto não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3, 3).

Jesus mostrou a antecipação do Reino, por seus feitos, por sua obra, porque já vivia plenamente submisso à Vontade de Deus, cumpria o primeiro mandamento, e por isso manifestou a reta razão, o Logos, corporalmente, com obras, sinais e milagres, transformando-se na semente humana do nascente reino a se manifestar na terra. O Reino é uma realidade já presente, não é algo de outro mundo, é algo espiritual, que vem se manifestando na humanidade desde o tempo de Cristo, apenas não se manifestou politicamente em sua plenitude, ainda não chegou à política internacional, ao governo das nações, o que permanece sendo esperado por judeus e muçulmanos.

O Reino de Deus é um conceito teológico, e que, como visto, possui profundas implicações científicas e filosóficas, refletindo diretamente na filosofia política e na doutrina jurídica, quanto à função do Estado e ao significado da dignidade humana.

A divisão atual do mundo, que é um efeito mediato daquele dualismo, só permite ver o que não é o Reino de Deus, porque só se veem os demônios manifestados nos outros. Mas tanto no lado do “nós” como do “eles” existem bons e maus espíritos em ação, sendo necessário ver o espírito que se manifesta além das representações mentais parciais.

É preciso ver os bons e maus espíritos em ação, pelas obras, na ciência e na política, na manipulação das informações. É mister que vejamos as obras de Cristo, e de seus enviados, segundo a doutrina de Cristo, para contemplarmos a realidade.

As obras que faço em nome de meu Pai dão testemunho de mim” (Jo 10, 25).

Quem crê em mim não é em mim que crê, mas em quem me enviou, e quem me vê, vê aquele que me enviou” (Jo 12, 44-45).

O mundo espiritual está a nossa volta, é possível vê-lo, é uma realidade com a qual interagimos concretamente. Não vivemos apenas no mundo do corpo, como animais que têm consciência de que morrem, a plenitude de nossa vida é vivermos no mundo espiritual encarnado, mudamos o mundo por meio do espírito que encarnamos, porque entramos em um mundo no qual já há um espírito, do que a cultura é um exemplo, e deixamos nossa marca material na terra em razão do espírito que deixamos agir em nós, um legado que transcende nossa morte e que surge permanentemente, como resíduos materiais e espirituais de todas as nossas ações. E segundo os que têm a fé de Cristo, futuramente voltaremos neste mundo, em uma reciclagem universal, com uma nova composição material que receberá os efeitos de todos os espíritos encarnados, inclusive, e especialmente, para nós, de nós mesmos.

O Espírito não é algo em nossos cérebros ou nossas mentes, porque Nele vivemos, nos movemos e existimos (At 17, 28), e desse realismo ontológico, teológico, científico e filosófico não podemos fugir, pelo que urge que a ele regressemos, para que possamos, enfim, viver conforme a reta razão, segundo a vontade de Deus, o Logos, cumprindo o primeiro mandamento e manifestando a realidade do Reino de Deus.

Um Deus contra vários ídolos

Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh! Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu as atarás também à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre os teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas” (Dt 6, 4-9).

Este é o Shemá, que contém o credo básico do Monoteísmo, e serve de fundamento para o credo cristão: “Creio em um só Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”.

Também no Alcorão: “Seja qual for o assunto de vossas divergências, a palavra final pertence a Deus. Ele é meu Senhor. N’Ele deposito minha confiança e para Ele volto contrito” (Sura 42: 10).

Há um só Deus, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, a Quem pertence a palavra final sobre todos os assuntos, e para O qual todos voltaremos.

Contudo, em Seu lugar, muitos ídolos foram e são colocados, ídolos que dizem respeito ao (des)conhecimento de Deus, de sua Unicidade, ídolos que são a fonte das divergências relativas aos assuntos humanos e divinos, porque são ídolos científicos e religiosos.

Francis Bacon, na sua busca pelo conhecimento correto, desenvolveu a ideia de quatro ídolos, que significam falsas noções ou conceitos que impedem a mente de alcançar a ciência correta: os ídolos da tribo, que são tendências inerentes à natureza humana, de confundir as coisas como elas são com a forma como elas aparecem para nós; os ídolos da caverna, decorrentes das formações individuais e suas particularidades; os ídolos do foro ou do mercado, relativos ao uso indevido das palavras, que impedem a compreensão; e os ídolos do teatro, correspondentes aos vícios filosóficos e científicos, pelos quais, ao invés de procurarmos a verdade das coisas, acabamos colocando nossas “verdades”, ou vícios, nas coisas.

A teoria de Bacon usa a expressão “ídolos” e remete diretamente à questão teológica de Israel, porque a adoração ao Deus único e a obediência aos seus mandamentos sempre foram ofuscadas por ídolos que se opunham entre os homens e Deus, e Seu conhecimento, de modo que havia o desvio da autêntica prática religiosa, que é científica e filosófica, é teológica.

Por ser considerado um dos pais da ciência moderna, dizendo que esta deveria ser buscada a partir da observação, fazendo com que a ciência passasse a experimental, pode-se dizer que a idolatria, que era um conceito teológico, transformou-se em um tema científico, pelo que é possível afirmar que, ainda hoje, e especialmente hoje, a teoria dos ídolos tem aplicação, e que a ciência atual está dominada pelos ídolos que um de seus fundadores rejeitava.

Os ídolos da tribo significam conceituar o ser humano em termos estritamente biológicos, como apenas uma espécie de primata que mais se desenvolveu, dando destaque às nossas semelhanças com os animais e ignorando como epifenômenos cerebrais as experiências mais fundamentais e que nos definem como humanos.

Como ídolo da caverna pode ser citado o individualismo, que entende a humanidade associada ao prazer particular e exclusivamente subjetivo, como algo isolado de sua comunidade e de sua formação psíquica ancestral e coletiva, como se fosse possível criar novas identidades artificiais, como uma nova natureza, sem que isso implicasse em profundos danos psíquicos à convivência social.

Os ídolos do mercado ou do foro estão hoje de ponta a cabeça, porque, ao invés de se estabelecer a linguagem para a correta descrição da realidade, as palavras passaram a significar qualquer coisa, em que deve ser exaltado o multiculturalismo no qual os significados dos fenômenos são meramente convencionais, pois não há Verdade.

Finalmente, pode-se dizer que a ciência moderna incorporou a própria ideia do que sejam os ídolos do teatro, pelo cientificismo materialista, que rejeita como não científico tudo que não pode ser pesado, medido e contato, e sequer é capaz de explicar razoavelmente a natureza da própria realidade material, diante das várias dúvidas geradas pela física quântica, da qual o ídolo mor é o multiverso, o qual foi literalmente alçado ao deus criador de nosso universo, deus esse cuja existência não podemos provar, do qual não podemos experimentar e que está simplesmente posto como supostamente real para além de nosso universo físico, tendo sido projetado da mente de alguns cientistas para o plano cosmológico, para ser adorado.

É preciso voltar, pois, às bases do conhecimento científico, entendido como algo relacional, porque conhecer é relacionar coisas, entre móveis e imóveis, variantes e invariantes, as que passam e as que ficam.

As coisas básicas permanentes iniciais somos nós mesmos, nossos corpos, que têm sua origem nos corpos de nossos pais, no material genético que recebemos, que remete à origem da vida, e do próprio cosmos, ainda que nossos corpos sejam, de outro lado, provisórios, porque morreremos e voltaremos ao pó.

Incrustada em nossos corpos está nossa cultura, fruto de desenvolvimento físico e mental, que permite que algumas ideias invariantes se projetem no tempo e no espaço, estendendo nossa existência para o passado, para o futuro e para outros espaços geográficos. Assim, para além da existência biológica local, passada geneticamente, possuímos uma existência espiritual, não local e atemporal, presente tanto nas religiões como na própria ciência, fruto de nossa capacidade mental de abstração e imaginação, que permite a representação das coisas e eventos que transcendem a capacidade sensorial imediata, e que é transmitida comunitariamente.

A cultura é resultado de representações do mundo, entendida como criação de modelos mentais de mundo, às vezes físicos, pela arte e pelo instrumental científico, modelos esses que podem ou não ser adequados à realidade sutil ou não presente que pretendem simbolizar, ou seja, a realidade que nossas habilidades sensitivas ordinárias não captam no aqui e agora. A função da representação, portanto, é trazer para o presente imediato e local algo que se pressupõe contínuo ao aqui e agora, mas que escapa à nossa capacidade individual de apreensão física e intelectual, pela distância temporal e espacial e pela quantidade de informação e dados necessários para serem relacionados e reunidos em unidade sensorial e mental.

A busca do conhecimento é no sentido da unidade dessas relações, daquilo que permanece, é sempre invariante, o universal que permite as relações e a tradução entre os eventos, dando-lhes continuidade lógica, tornando presente a continuidade existencial do movimento do mundo que transcende nossa limitação sensorial, como a proposta aristotélica de um motor imóvel como causa de todos os movimentos do mundo.

Para Bacon, essa unidade é buscada pelas experiências que nos conduzem à lei geral dos fenômenos, alcançada por meio do método indutivo. Pode-se dizer que Bacon estava voltado teologicamente para o conhecimento do Deus único, que estabeleceu as leis da natureza, porque a existência do Criador é pressuposta na ideia de leis da natureza, aprimorando a proposta do motor imóvel aristotélico.

Conhecimento é diferente de mero ajuntamento, porque o primeiro é organizado, ao contrário do segundo. Uma das principais obras de Bacon é o Novum organum, que expressamente traz em seu título a ideia de organismo, organização, e não mero ajuntamento aleatório e caótico.

O conhecimento, portanto, é a ciência que transcende as coisas individuais sobrepostas, pressupondo a superação das suas finitudes, de modo que a ciência, ainda que passe por uma experimentação, está além da limitação corporal, referindo-se à transposição da mera particularidade, para alcançar uma unidade que supera nossa finitude, e que está no infinito, referindo-se ao organismo do qual somos membros.

Mesmo no atomismo, o conhecimento, que chegava à finitude, os átomos, referia-se a nós como sua infinitude, ao que está além dos átomos, no que se incluíam nossos corpos e tudo mais que existe no mundo visível, mundo infinito em relação aos átomos considerados individualmente, mundo este no qual os próprios atomistas viviam, pois não comiam átomos e não dormiam em átomos, mas nas coisas por eles formadas. Daí porque também é necessário superar nossa mera individualidade corporal, ou atômica, para obtenção de uma ciência social, da ordem do mundo humano, pois se os comportamentos puderem se basear simplesmente na vontade atômica das pessoas, reinará o caos, o mundo em que cada um é ídolo de si mesmo.

O progresso do conhecimento é, portanto, em direção à infinitude e seu limite cognoscível, Deus ou caos, o primeiro como unidade que está além de toda particularidade, e o segundo como uma limitação primordial insuperável, que deve ser ignorada para tornar a vida possível além dos infinitos ídolos.

O bezerro de ouro está diante de nós, governando o mundo, especialmente por meio dos ídolos do comércio e do teatro, o que explica parcialmente a divisão atual do mundo, decorrente da natureza teológica das questões científicas e políticas, do que um dos patronos da ciência tinha pleno conhecimento, mas que é solenemente ignorado pela maioria das pessoas, que acabam adorando ídolos, porque quando estão contando mortos ou indicadores econômicos, de fato, calculam os números dos ídolos que continuam seguindo, esquecendo-se que Iahweh nosso Deus é o único Iahweh:

Vi depois outra Besta sair da terra: tinha dois chifres como um Cordeiro, mas falava como um dragão. Toda a autoridade da primeira Besta, ela a exerce diante desta. E ela faz com que a terra e seus habitantes adorem a primeira Besta, cuja ferida mortal tinha sido curada. Ela opera grandes maravilhas: até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens. Graças às maravilhas que lhe foi concedido realizar em presença da Besta, ela seduz os habitantes da terra, incitando-os a fazerem uma imagem em honra da Besta que tinha sido ferida pela espada, mas voltou à vida. Foi-lhe dado até mesmo infundir espírito à imagem da Besta, de modo que a imagem pudesse falar e fazer com que morressem todos os que não adorassem a imagem da Besta. Faz também com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos recebam uma marca na mão direita ou na fronte, para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome. Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem: seu número é 666!” (Ap 13, 11-18).

Vidas importam – lives matter

O título do artigo não é “vidas negras importam”, relativo ao movimento black lives matter, porque falar em vidas negras é reduzir hipocritamente o âmbito da discussão, como o fazem muitos que estão nas manifestações recentes de protesto contra a imbecil e absurda morte de George Floyd, decorrente da ação criminosa de um policial, que não foi impedido por outros policiais, também contrariando seus deveres legais, todos os quais agiram com manifesto desprezo pela vida humana.

O ponto em questão é o fato de que muitos dos que estão nas ruas, normalmente os brancos, dizendo que vidas negras importam, são os mesmos que se fazem presentes em manifestações pela liberação do aborto, inclusive de mulheres negras, o que implica em inegável contradição, hipocrisia, porque o foco está em uma verdade inquestionável, as vidas negras importam, que acaba se transformando em uma mentira se a perspectiva do discurso do mesmo emissor aumenta, quando se trata dessa mesma vida em formação, que deixa de importar.

Mesmo reconhecendo que meu conhecimento da matéria é insuficiente, faço uma clara associação entre os movimentos racistas, de um lado, e o movimento judaico, de outro, ambos entendidos como a manifestação da supremacia da espécie, e, como não é possível haver duas supremacias, a opção nazista, que deve ser entendida como um movimento de esquerda, socialista e nacionalista, promoveu o holocausto, como tentativa de extinção de um movimento supremacista opositor, ideologicamente superior, e que era tratado com outros grupos como a parcela inferior da humanidade.

Não se pode esquecer, no ponto, que o nazismo se distinguia do comunismo porque este era socialista e internacionalista, sendo que o foco do primeiro era subjetivamente restrito, o povo ariano, e o do segundo subjetivamente mais amplo, a classe trabalhadora. Nos dois casos, o método de ação foi a eliminação das outras subjetividades.

Portanto, tirando alguns autênticos defensores da Vida e os negros, alguns dos quais também integram o primeiro grupo, que legitimamente defendem a preservação de suas vidas, que ficam em risco quando a cor da pele é motivo de violência, muitos que defendem a bandeira “black lives matter” são do mesmo espectro ideológico do comunismo e do nazismo, a ideologia de uma igualdade material, de classe ou nacional, responsável por dezenas de milhões de mortes humanas, e permanecem completamente omissos quanto às violações de vidas humanas na Coreia do Norte, na Venezuela e na China, por exemplo, e não levantam minimamente a voz em manifestação contra a morte do médico chinês que tentou alertar sobre o vírus e que se tivesse sido ouvido provavelmente poder-se-iam salvar dezenas de milhares de vias.

A questão fica extremamente complexa, nessa linha, quando colocado o presidente dos EUA no jogo argumentativo, pois ele é atacado com a pecha de racismo por seu linguajar às vezes ignorante e, quiçá, racista, quando, ao mesmo tempo, argumenta a favor da vida, contra o aborto, defende a liberdade civil em Hong Kong e coloca o Irã, cujos líderes políticos têm a declarada intenção de “varrer Israel da face da Terra”, como um dos perigos para a comunidade internacional, para a humanidade.

A ideia de supremacia ariana está associada à de supremacia judaica, uma forma de racismo, uma ideia limitada de humanidade. Muitos não conseguem enxergar essa realidade da visão judaica, cujo desenvolvimento levou ao conceito moderno de humanidade e dignidade humana, e era expressa até mesmo nas palavras de Jesus:

Entrou numa casa e não queria que ninguém soubesse, mas não conseguiu permanecer oculto. Pois logo em seguida, uma mulher cuja filha tinha um espírito impuro ouviu falar dele, veio e atirou-se a seus pés. A mulher era grega, siro-fenícia de nascimento, e lhe rogava que expulsasse o demônio de sua filha. Ele dizia: ‘Deixa que primeiro os filhos se saciem porque não é bom tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos’. Ela, porém, lhe respondeu: ‘É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas das crianças!’ E Ele disse-lhe: ‘Pelo que disseste, vai: o demônio saiu da tua filha’. Ela voltou para casa e encontrou a criança atirada sobre a cama. E o demônio tinha ido embora” (Mc 7, 24-30).

Tal é a mesma passagem de Mt 15, 21-28, na qual consta em nota da Bíblia de Jerusalém:

Jesus deve ocupar-se com a salvação dos judeus, ‘filhos’ de Deus e das promessas, antes de cuidar dos gentios, que aos olhos dos judeus eram apenas ‘cães’. O caráter tradicional dessa imagem e a forma diminutiva atenuam, nos lábios de Jesus, o que esse epíteto tinha de desdenhoso” (BÍBLIA DE JERUSALÉM. 1. ed. 9.ª reimpressão. São Paulo: Paulus, 2013, p. 1732).

Portanto, considerando que esta passagem é estranha aos ouvidos atuais, porque contradiz a imagem do Jesus “politicamente correto” que nos foi passada, certamente é classificada por Bart Ehrman como algo que o Jesus histórico verdadeiramente disse.

O cristianismo não é “politicamente correto”, é ontologicamente correto, cientificamente correto, filosoficamente correto e antecede a mensagem da política correta, o correto exercício do poder público fundado no império de uma Lei justa e conforme a vontade de Deus, ou conforme a Natureza, e nossa origem divina. Essa Lei era a Torá, interpretada pelos profetas, cujo cumprimento era a missão de Cristo, porque o Rei cumpre a Lei. Há uma hierarquia na ideia de humanidade, a qual progrediu a partir da visão judaica de mundo, que representava a melhor concepção de humanidade da antiguidade.

O cristianismo é a manifestação da subjetividade divina expressa por sujeitos humanos, porque com a morte de Jesus, o Messias Judeu, o povo judeu como nação perdeu provisoriamente sua posição privilegiada perante Deus, para voltar a este posto não mais com exclusividade nacional, mas como um dos povos filhos de Abraão, os povos dos filhos de Deus, os que têm a visão integral da humanidade e representam o ápice da espécie. Vale dizer que essa é a mensagem de Paulo, um antigo nacionalista judeu, que se transformou em israelita espiritual, defensor da nova humanidade, como evolução da humanidade judaica, que deixa de ser nacional e passa a internacional.

Não quero que ignoreis, irmãos, este mistério, para que não vos tenhais na conta de sábios: o endurecimento atingiu uma parte de Israel até que chegue a plenitude dos gentios, e assim todo Israel será salvo, conforme está escrito: De Sião virá o libertador e afastará as impiedades de Jacó, e esta será minha aliança com eles, quando eu tirar seus pecados. Quanto ao Evangelho, eles são inimigos por vossa causa; mas quanto à Eleição, eles são amados, por causa de seus pais. Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento. Com efeito, como vós outrora fostes desobedientes a Deus e agora obtivestes misericórdia, graças à desobediência deles, assim também eles agora são desobedientes graças à misericórdia exercida para convosco, a fim de que eles também obtenham misericórdia no tempo presente. Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia” (Rm 11, 25-32).

Interessante notar que, cientificamente, a subjetividade antecede a objetividade, porque todas as nossas experiências são, para nós, subjetivas e objetivas, enquanto para outros podem ser apenas subjetivas. Contudo, algumas pessoas especiais têm maior acesso à realidade, por dons que possuem, como sensibilidade ou inteligência aprimoradas, algumas vezes absurdamente desenvolvidas, no que devem ser incluídos os profetas da antiguidade e os grandes cientistas. Esses sujeitos tinham o foco correto em determinados temas e conseguiam antever o que ainda seria visto pelas outras pessoas posteriormente, e o que lhe era atribuído como niilismo muitas vezes era a manifestação direta de uma realidade muito mais ampla, objetivamente.

O maior desses sujeitos é Jesus Cristo, que, mesmo vindo no contexto da supremacia judaica, dada a superioridade inquestionável de sua religiosidade e de seu entendimento de Deus, tem como missão levar esse conhecimento superior para o governo das nações, no plano internacional, em que a vida do estrangeiro importa, em que o inimigo deve ser amado, ou seja, em que há direitos humanos. Nesse governo as vidas importam, porque reconhece que a Vida importa de Deus, é exportada de Deus, não é algo que vem da carne, mas do Espírito, e cada vida humana, desde o ventre materno, é um dom e uma graça de Deus, um Templo de Seu Espírito, e por isso de valor inestimável. Por isso:

Assim também, não é da vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca” (Mt 18, 14).

Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 39).

Jesus não falou de aborto nem de vidas negras, simplesmente porque era impensável para um judeu, que tinha uma ideia superior da Vida, cogitar um aborto e porque a cor da pele nunca importou no tempo de Cristo, que vivia no oriente médio, esteve no Egito, na África, em que a cor da pele negra era comum, irrelevante, sendo que o que importava era a fé da pessoa, seu modo de vida, e muitos judeus eram negros, sem que isso significasse qualquer redução do seu status religioso.

Portanto, se uns defendem vidas negras apenas por interesses políticos, e outros a elas não dão o valor devido, ambos baseados em ideologias políticas parciais, estão todos errados, Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia, porque Vidas importam, Lives matter.

Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos! Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe fez o dom para receber em troca? Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! Amém” (Rm 11, 33-36).

Um futuro inevitável

Um futuro é inevitável. Isso é um fato lógico, considerada a premissa do tempo, que vivemos no tempo, no qual os eventos se sucedem e o presente antecede o futuro, ambos com o passado atrás de si.

Qual o futuro inevitável é a grande questão, devendo ser destacado que a posição filosófica da pessoa determina o entendimento sobre o modus operandi da ação temporal: se existe ou não ordem; e qual seria sua causalidade.

Tenho concluído que o principal problema ou tema cognitivo está ligado à definição principiológica sobre a existência de ordem no mundo e quanto à sua origem, se há ou não cosmos, isto é, se vivemos em um mundo ordenado, disciplinado, organizado, que é o significado etimológico do termo kosmós; ou caótico, palavra derivada do grego khaos, que significava vazio, abismo, do verbo khaíno, com o sentido de abrir-se ou separar.

O caos era tido na mitologia grega como a divindade primitiva, portanto tema afeto às questões teológicas, as quais, com a filosofia grega, passaram a se confundir com as ideias racionais, porque a finalidade filosófica era exatamente explicar de forma inteligível e natural, com uma simbologia mais concreta, a origem do mundo, em substituição às narrativas mitológicas e religiosas primitivas, que eram a forma de conhecimento do mundo e, ressalte-se, permitiram a unidade social e a sobrevivência e o desenvolvimento da humanidade por dezenas de milhares de anos.

Entre os gregos havia um certo consenso no sentido de que havia uma ordem atual de mundo, porque sem essa pressuposição a própria ideia de conhecimento se tornaria impossível.

Para os materialistas a “ordem (o cosmo) é efeito de encontro mecânico entre os átomos, não projetado e não produzido por uma inteligência. A própria inteligência segue-se ao e não precede o composto atômico” (Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia: Filosofia pagã antiga. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003, p. 46).

No extremo oposto do espectro filosófico estão a ideia platônica do Bem, como origem do mundo, e o Deus do Monoteísmo, O Criador de todas as coisas.

Existe uma diferença ontológica entre os modos de pensar dos dois últimos parágrafos, são dois universos completamente distintos, se um é verdadeiro o outro é necessariamente falso.

É importante ressaltar que a Ciência moderna e a civilização ocidental se baseiam na ideia Monoteísta, do Deus Criador, porque esse era um pressuposto necessário no desenvolvimento das ideias de Galileu, Descartes e Newton. A ciência tem por finalidade a busca dessa inteligência que está na origem da harmonia do mundo natural, sobre como funcionam as coisas.

A ordem das ideias é importante, explicando porque determinados pensamentos surgiram, especialmente quanto à chamada revolução científica e seus desdobramentos, porque Galileu viveu entre 1564 e 1642, tendo sido condenado pela inquisição, enquanto a vida de Descartes ocorreu entre 1596 e 1650, e este também sustentou ideias heliocêntricas, mas não as publicou, porque Galileu já estava tendo problemas com a Igreja. Numa época de dúvidas sobre a autoridade teológica da Igreja, com reflexo em assuntos sobre o conhecimento do mundo natural, Descartes baseou seu conhecimento subjetivo, de um lado, na dúvida, questionando tudo o mais que existe além de si mesmo; mas, de outro lado, sua ideia sobre o mundo objetivo, o mundo material, estava assentado na ideia de Deus. Havia, pois, um ceticismo parcial, pois ainda subjazia a crença na ordem divina de mundo.

Newton viveu entre 1643 e 1727, e considerava Deus como a origem da harmonia celeste. Portanto, o principal nome da revolução científica entendia que a ordem do mundo era fruto da ação de Deus, e não o resultado do encontro mecânico e aleatório de átomos, como defendiam os materialistas gregos.

Em um tempo de vida humana de duzentos mil anos, com registros de domínio de pensamento religioso pelo menos há dez mil anos, pode ser considerada uma exceção a ampla difusão do pensamento ateísta no mundo atual, principalmente nos últimos trezentos anos, com destaque para o século XX e os horrores nele ocorridos.

Com a física moderna, a questão da ordem do mundo chegou a limite do inimaginável, especialmente quanto ao mundo quântico e ao princípio da incerteza, e em relação a este existem duas posturas fundamentais, uma no sentido de que esse princípio representa uma restrição epistemológica, um limite ao nosso conhecimento da causalidade do mundo natural, enquanto outros sustentam que a indeterminação é ontológica, própria do mundo natural.

Se a incerteza é epistemológica, o futuro pode ser determinado, ainda que não tenhamos condições intelectuais ou experimentais de antecipá-lo. Se a incerteza é ontológica, é impossível predizer o conhecimento sobre o futuro, notadamente aquele mais distante.

Como cristão, alinhado ao pensamento monoteísta, para ser coerente, entendo que a única opção é pela incerteza epistemológica, interpretando esse princípio como uma limitação ao nosso conhecimento do mundo por meios materiais. Porque, sendo Deus o Criador de todas as coisas, Ele estabeleceu a ordem que há no mundo, e pode antecipar os acontecimentos futuros, e o fez, através dos profetas.

Voltemos, então, ao pensamento que proporcionou a revolução científica:

Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 19, 1).

Deus controla a ordem do mundo. “Não se vendem dois pardais por um asse? E, no entanto, nenhum deles cai em terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até mesmo os vossos cabelos foram todos contados” (Mt 10, 29-30).

Entendo, assim, que há ordem, ou sentido, também na História, e estamos diante de uma série de acontecimentos associados à vinda do Reino de Deus, precedida de vários eventos importantes, muitos dos quais vivemos de forma única em nossa geração, com destaque para a restauração do Estado de Israel, decorrente da ação messiânica de Jesus Cristo, e em torno desse povo existem algumas profecias importantes para os desdobramentos finais desse tempo.

Na semana que passou, mais uma notícia confirma tal narrativa, porque o primeiro-ministro de Israel está empenhado em recuperar o domínio sobre parte das terras ocupadas por palestinos, estabelecendo que as reuniões sobre o tema, uma prioridade de seu governo, começarão em 1.º de julho, e que não perderá a oportunidade única atual, relativa ao apoio do governo dos EUA, para exercer soberania sobre a Judeia e a Samaria (https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020052615622851/).

Em um mundo já desequilibrado pela pandemia e seus efeitos, Israel pretende aumentar significativamente a complexidade das relações internacionais, provocando o que talvez seja a etapa final de realização das profecias bíblicas, até que, enfim, cheguemos a um futuro inevitável, impossível de ser antecipado materialmente, mas previsto espiritualmente pelos profetas do Altíssimo.

Para onde vamos

A resposta à referida indagação está coligada ao entendimento sobre nossa origem. E isso vale tanto para os indivíduos como para as sociedades, e possui profunda significação filosófica, ou teológica.

Vale dizer que, na sua origem, o Cristianismo não faz distinção entre Filosofia e Teologia, e qualquer entendimento que refute esse pressuposto está alheio à realidade permanente que é o Cristianismo. A razão desse fato é muito óbvia, Jesus, antecipando o mundo futuro, manifesta o Logos na humanidade, conceito este extraído da filosofia grega, que remete a Heráclito, de modo que a própria ideia Cristã, enquanto Teologia, está fundada sobre a Filosofia, conjugando uma narrativa de mundo judaica aos conceitos filosóficos básicos gregos sobre a racionalidade do mundo natural.

Se existe uma Sabedoria, ou o Logos, em nossa origem, como defendiam Heráclito, Platão e como está na base do Monoteísmo judaico-cristão-muçulmano, esse mesmo é nosso destino, havendo possibilidade teórica de se perquirir esse caminho. De outro lado, se a ordem do mundo é fortuita, a previsibilidade futura é enormemente restrita, e o caos pode aumentar até que a humanidade viva uma completa distopia.

Nesse sentido, pode-se considerar como dada a existência de uma profunda dissonância cognitiva na mentalidade ocidental, o que presumo tenha validade para a oriental, por menor que seja meu conhecimento sobre o outro lado do mundo, diante da predominante ausência de consonância entre o pensamento científico e o religioso, entre Filosofia da Ciência e da Religião, pelo simples fato de Ciência e Teologia serem consideradas disciplinas absolutamente distintas, quando são uma só e mesma forma de conhecimento. A impossibilidade de compreensão dessa situação é fruto de falhas inseridas nas raízes dos respectivos marcos teóricos divergentes.

Outrossim, a dissonância cognitiva será superada apenas caso haja uma conciliação fundante entre Ciência e Teologia, ou na hipótese de predomínio absoluto de uma visão sobre a outra. A falta de entendimento, por sua vez, perpetuará a esquizofrenia mental da humanidade e a falta de entendimento do mundo natural e humano.

Dentro da visão monoteísta, a ordem de mundo futura é antecipada a algumas pessoas, chamadas profetas, fenômeno que recebe o nome de revelação, e mostra previamente, de forma mais ou menos obscura, o caminho a ser seguido por uma pessoa, uma nação ou toda humanidade, especialmente em relação ao destino comum dos povos, que hoje é um fato consumado.

É inequívoco que vivemos uma situação muito especial na História humana, porque, se em termos nominais o planeta continua do mesmo tamanho, a ligação planetária se estreitou de uma forma como nunca havia ocorrido, e chegamos a um momento em que as maiores distâncias podem ser superadas em horas, quanto ao deslocamento de pessoas, enquanto a troca de informação é praticamente instantânea em todo orbe.

A disseminação do vírus, assim, é um sintoma dessa nova realidade, e talvez, ou muito provavelmente, a primeira das últimas grandes pragas, ou tragédias humanitárias, que antecederão o novo governo planetário, ou a nova ordem global.

Minha convicção profunda é no sentido de que essa situação emergente se refere à realização da mensagem evangélica, comprovando a essência veraz do Cristianismo. Contudo, paradoxalmente, para tal empreitada, a mudança comportamental possivelmente será mais radical no ocidente, no chamado mundo Cristão, do que no oriente, incluídos o mundo islâmico, a China e a Rússia.

A chamada Era Messiânica, ou Reino de Deus, é baseada numa obediência irrestrita aos mandamentos divinos, o que significa a submissão individual ao Logos, e nesse ponto o mundo ocidental, no tocante ao seu individualismo quase anárquico, de viés materialista, sentirá mais fortemente os efeitos da necessidade de contenção dos instintos egoístas, do consumo irracional e do relativismo moral associado às ideias do politicamente correto, significando um avanço civilizatório que para muitos é considerado um retrocesso cultural. Essa é uma necessidade racional, indispensável, para permitir tanto o equilíbrio do mundo natural quanto a harmonia social.

O mundo corânico já espera, em boa parte, o “retorno de Jesus”, acompanhando o Imam Mahdi, que encherá o mundo de justiça, e ainda que seja necessário um aprimoramento na Teologia islâmica, para, dentre outras coisas, compreender a superioridade profética de Yeoushua sobre Muhammad, a ideia de uma vida religiosa dentro dos contextos sociais e políticos ainda é uma realidade muçulmana.

A Rússia já é uma nação cristã, e seus problemas políticos, como no ocidente, serão resolvidos quando compreendida a questão teológica, provavelmente após o conflito envolvendo Irã e Israel, como limite da desordem política planetária, que levará ao “transbordamento da ‘ira’ de Deus”.

A China, finalmente, não poderá ficar isolada do mundo, tanto por uma questão de sua sobrevivência, para alimentação de sua população, quanto por sua já existente proximidade com a Rússia e com nações islâmicas, e será afetada pelo citado conflito e seus desdobramentos. Nesse sentido, já ocorre um processo de integração com o mundo ocidental, de superação crescente do ideário comunista, valendo dizer que a repressão à “democracia individualista”, como salientado acima, também será uma necessidade ocidental, e as origens confucionistas e taoístas podem facilmente ser resgatadas com um viés cristão, associado à aceitação da dignidade humana pelas autoridades chinesas.

Entretanto, o processo de libertação é doloroso, pois o coração dos faraós continuará endurecido, e a intensidade das pragas deve aumentar, tal como narrado nas Escrituras, para eventos passados e futuros. Ainda há dor no porvir, mas, para onde vamos, o que nos espera é a Glória de Deus.

Será derramado outra vez sobre nós um Espírito que vem do alto. Então o deserto se transformará em jardim, e o jardim será tido como floresta. O direito habitará no deserto e a justiça morará no jardim. O fruto da justiça será a paz, e a obra da justiça consistirá na tranquilidade e na segurança para sempre. O meu povo habitará em moradas de paz, em mansões seguras e em lugares tranquilos. Embora a floresta venha abaixo, embora a cidade seja humilhada, sereis felizes, semeando junto de águas abundantes, deixando andar livres os bois e os jumentos” (Is 32, 15-20).

O espírito do Senhor Iahweh está sobre mim, porque Iahweh me ungiu; enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos, a proclamar um ano aceitável a Iahweh e um dia de vingança do nosso Deus, a fim de consolar todos os enlutados, os aflitos de Sião, a fim de dar-lhes um diadema em lugar de cinza e óleo de alegria em lugar de luto, uma veste festiva em lugar de um espírito abatido. Chamar-lhes-ão terebintos de justiça, plantação de Iahweh para a sua glória” (Is 61, 1-3).

A mentalidade viral

O vírus é um ser que tem causado enormes estragos à vida humana ao longo da história. A despeito disso, e do magnífico desenvolvimento científico dos últimos séculos, é controversa e muito debatida sua classificação como ser vivo. Sem entrar em detalhes sobre uma posição sobre essa divergência, salta aos olhos a questão técnica do tema para além dessa definição, na medida em que há um grande debate científico e político sobre as medidas corretas a serem adotadas para combater a pandemia, do uso de medicamentos específicos à forma e intensidade do isolamento necessário para preservação da vida humana, bem como os efeitos de médio e longo prazo das ações públicas adotadas.

Tem-se falado que a pandemia destacou a importância da ciência nas discussões políticas, mas tal argumento é completamente omisso quanto à divergência científica essencial sobre uma definição básica se o vírus é ou não vivo. Ainda que essa posição conceitual não tenha maiores reflexos na situação pandêmica, num primeiro momento, é fato incontroverso que demonstra uma insuficiência cognitiva moderna fundamental ao (não) conceituar uma questão fulcral, que é a própria classificação de algo como vivo ou não.

A conclusão única a que se pode chegar é essa: a Ciência conhece parcialmente o funcionamento de alguns seres vivos, mas ignora o que seja a Vida, falta de conhecimento essa que se estende à questão da origem da vida no planeta, fato ainda obscuro e dependente de uma explicação científica.

Se é possível aceitar parcialmente uma evolução da vida, ainda permanecem como absolutamente abertas as questões essenciais sobre a origem da vida e, pode-se falar, das espécies. Neste último ponto, a carência de uma enormidade de seres vivos intermediários, as supostas tentativas evolutivas que não teriam dado certo no processo cego e aleatório de especiação, é um buraco negro da teoria evolutiva, estando as perguntas formuladas por Darwin ainda pendentes de respostas científicas adequadas e coerentes com os dados experimentais.

O problema, segundo penso, está na mentalidade que embasa o conhecimento científico predominante, vinculado a um materialismo que rejeita qualquer argumento ou conceito associado à ideia de um Deus criador ou a uma realidade espiritual.

A solução está em estabelecer a mentalidade correta da Vida, que entendo ser baseada em dois axiomas ou valores inescapáveis: Deus no céu e Jesus Cristo na terra. Tal mentalidade é oposta à mentalidade viral. Significa a Vida que se manifestou em Jesus, trazendo à humanidade o Logos, o Espírito do criador, renovando o próprio conceito e sentido da evolução da espécie, sendo que a literatura bíblica, na Carta aos Efésios, já falava em “homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4, 24), ou seja, com qualidades espirituais associadas à vida social.

É possível dizer que o vírus tem uma mentalidade, um sentido existencial, ainda que não seja propriamente uma consciência. A mentalidade do vírus é essencialmente egoísta, é o perfeito gene egoísta de Richard Dawkins, porque sua única finalidade é a reprodução infinita de uma individualidade genética, para o que deve utilizar as células vivas que invade e destrói. É algo entre o puramente material e o vivo, e que usa a vida para se reproduzir, em detrimento de tudo mais.

Uma parte de nós possui essa mentalidade viral, de reprodução, que pode repercutir em outros aspectos da vida, no sentido de conduzir o indivíduo à satisfação de ideias e vontades individuais, corporais e espirituais, e nesse aspecto somos muito mais complexos que os vírus, para o que também podemos usar a vida a nossa volta, em detrimento da própria Vida.

A humanidade tem se portado coletivamente como um vírus, quase como regra, porque adotamos uma mentalidade destrutiva, da cultura inútil, que hoje é chamada de arte, ao consumo irresponsável de bens que deixa um rasto de morte semelhante ao provocado pela infestação viral, tudo conduzido por políticas, de um lado, pela esquerda, materialistas, individualistas e igualitárias, que ignoram algumas diferenças biológicas essenciais indispensáveis para a formação da vida, e, de outro, pela direita, materialistas, individualistas e igualitárias, que ignoram algumas diferenças sociais estruturais que impedem o florescimento de parcela significativa humanidade.

Interessante que assim como o vírus, que é para nós invisível, também as questões espirituais são invisíveis, e muitas vezes somente são percebidas quando efeitos nocivos são produzidos no plano corporal, o que, no caso das ideias, vale para o corpo social, incluídas pessoas que compõem a sociedade, dos milhões de mortes causadas pelas ideias marxistas, e vidas ignoradas pela mentalidade revolucionária, aos milhões de mortes causadas pelas guerras capitalistas, e vidas ignoradas pela mentalidade meramente econômica.

Daí porque é necessário resgatar a mentalidade de Cristo, que se identificou como a Vida, e não é de admirar que a ciência desconheça tanto o conceito biológico da Vida quanto sua acepção espiritual, que também é material, elaborada por Jesus de Nazaré, que significa tanto justiça social quanto liberdade individual, em ambos os casos segundo uma razão comum, o Logos, o Espírito na carne que se volta para o Espírito.

Assistindo ontem ao programa da CNN “Mundo Pós-Pandemia”, com o neurocirurgião Fernando Gomes, em determinado momento ele afirmou que conversou com um pastor e indagou a este se estávamos vivendo o Apocalipse, tendo recebido uma resposta negativa do religioso, momento em que as entrevistadoras ficaram aliviadas com essa informação.

Se minha proposta constante do artigo “O Apocalipse e a Verdade” (https://holonomia.com/2020/03/28/o-apocalipse-e-a-verdade/) estiver correta, e tenho uma convicção teórica e pessoal profunda no sentido de que efetivamente está, a resposta dada pelo pastor e o alívio das jornalistas somente expressam a ignorância do mundo atual quanto ao que seja a mentalidade Cristã e ao significado dos eventos do mundo desde (antes d)a vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré.

O Apocalipse se refere a um longo período de tempo em quem vem ocorrendo eventos que manifestam a essência da Vida humana, a qual está no polo oposto existencial ao do vírus, entre a vida material e a divindade.

E o evento mais importante da História é exatamente a ressurreição de Jesus, que se posiciona em posição contrária à do vírus, porque da morte do Messias se seguiu a nova forma da vida, o corpo glorificado, indicando o Caminho para chegar a essa situação evolutiva de Vida coletiva, ou seja, o autossacrifício pelo Logos, que produz o Logos, ao contrário do vírus, em sua autorreplicação que gera a morte de seu entorno.

Quando vejo a batalha política voltada à reprodução de mandatos, de ideias materialistas, à esquerda e à direita, enquanto no mundo jurídico o conceito de Logos continua sendo ignorado, quando se pretende afirmar uma laicidade ateia do Estado em detrimento de símbolos cristãos, negando e rejeitando o evento mais importante da humanidade, em termos filosóficos, políticos, jurídicos e científicos, a vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, e o seu significado, quando vejo a mentalidade viral em uma de suas manifestações mais dantescas, estupefato, lamento profundamente, enquanto espero o desdobrar dos acontecimentos, e me lembro das palavras do Messias em seu momento glorificador: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

Salmos

A Amazon, recentemente, liberou vários livros eletrônicos para serem baixados gratuitamente, pelo que, aproveitando essa oportunidade, selecionei vários textos para leitura futura, dentre eles “Salmos”, do teólogo N. T. Wright, autor esse já referido no artigo “Teologia Cristã em Paulo” (https://holonomia.com/2019/07/04/teologia-crista-em-paulo/).

Obviamente, a pessoa mais importante da história do Cristianismo é Jesus de Nazaré, o próprio Cristo, e penso que é praticamente uma unanimidade que a segunda maior referência é Paulo, ao qual é atribuída quase metade dos livros do novo Testamento, sendo sete deles aceitos pacificamente pelos estudiosos como autênticos escritos do referido apóstolo.

É importante ressaltar que Wright participa de um movimento que faz nova leitura teológica, uma nova perspectiva, sobre o significado da mensagem de Paulo, o que se aplica ao próprio Cristianismo. No livro “Salmos”, assim, essa visão serve de meio para a interpretação dos cânticos respectivos, e seu significado existencial dentro da revelação monoteísta.

O livro bíblico Salmos foi composto em sua maior parte na época do exílio babilônico, por volta do século VI a.C., como poemas, os quais eram cantados até a época de Jesus: “Depois de terem cantado o hino (salmos), saíram para o monte das Oliveiras” (Mt 26, 30; Mc 14, 26).

Os salmos eram conhecidos dos judeus da época de Jesus, o que inclui o Messias e seus seguidores, da mesma forma como sabemos de cor canções populares, mas no caso daqueles o conteúdo dos hinos era expressão artística de um sentimento religioso, sendo que “cantavam e oravam Salmos, dia após dia e mês após mês, levando o livro a modelar seu caráter, aguçar sua visão de mundo, enquadrar sua leitura do restante da Escritura e, acima de tudo, alimentar e fornecer recursos à vida ativa que levavam, fomentando esperanças que preservavam a confiança em seu Deus, o criador do universo, mesmo quando tudo parecia sombrio e estéril” (N. T. Wright. Salmos: contextos históricos, literário e espirituais para resgatar o significado do hinário do antigo Israel. Tradução de Elissamai Bauleo. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020, versão eletrônica).

O autor faz uma importantíssima distinção entre a mentalidade moderna e aquela do tempo de Jesus, para além da situação científica, no sentido de que “os primeiros cristãos, judeus do primeiro século cuja fé era que o Deus de Israel cumprira suas promessas antigas em Jesus de Nazaré, correspondiam ao que eu e outros chamamos de ‘monoteístas criacionais’. Isto é: eles criam que o único Deus criador, tendo feito o mundo, permanecia ativo e dinâmico em relação à sua criação” (Idem).

Portanto, trata-se da típica visão teísta, mais do que o simples deísmo do Deus criador, porque no teísmo há relacionamento contemporâneo do Criador com a criatura, sendo ainda válidas as promessas feitas aos antepassados, “de habitar com ele (seu povo) e estabelecer seu governo soberano, na terra como no céu” (Idem).

Wright destaca que a visão dos judeus é antiga como também o é a filosofia de Epicuro, que propunha um universo não criado por deuses, entendendo que estes, se existiam, não se importavam com as questões humanas.

Em termos populares, a mensagem era a seguinte: balance os ombros e usufrua a vida da melhor forma que você puder. Soa familiar? Essa é a filosofia cujo ideal nosso mundo moderno adotou, em grande medida, como norma.

O problema com o qual nos deparamos ao ler, orar e cantar partes da Bíblia não é que ela é ‘velha’, em contraste com nossa ‘nova’ (e, portanto, de alguma forma superior) filosofia atual. O problema é que, das muitas visões de mundo antigas, a Bíblia tem absolutamente uma só, enquanto boa parte do mundo ocidental moderno tem uma visão diferente. Nossa visão de mundo prevalecente não é mais ‘moderna’ do que a visão de mundo dos primeiros cristãos. O que acontece é que muitos cientistas proeminentes dos séculos XVIII e XIX, atraídos ao epicurismo por diversas razões (sociais, culturais e políticas), interpretaram suas observações científicas legítimas e adequadas (em relação, por exemplo, à origem e ao desenvolvimento de diferentes espécies de plantas e animais) nos moldes epicureus. Por isso, presume-se que a ‘ciência’ realmente apoia esse ponto de vista desassociado da ‘divindade’, restando um mundo que se desenvolve sozinho. Mas essa interpretação é profundamente enganosa. O epicurismo, então, é uma visão de mundo antiga, resgatada, porém, no Ocidente moderno como algo novo” (Idem).

Wright ressalta a visão de mundo contida nos Salmos, convidando os cantores a “viver na junção de tempo, espaço e matéria”, algo bem moderno em termos científicos, porque adequado à física do século XX, fundindo passado e futuro no presente, o espaço humano com o divino, terra e céu, e a ordem criada atual com aquela dotada ainda mais do esplendor de Deus, os novos céu e terra.

O livro de Salmos, conforme sugiro, compõe-se de cânticos e poemas que nos ajudam não apenas a entender essa visão de mundo antiga e relevante, mas a realmente captá-la e celebrá-la – perspectiva segundo a qual, em contraste com a maior parte dos pressupostos modernos, o tempo de Deus e o nosso se intercalam e intersectam; o espaço de Deus e o nosso se interpõem e interligam; e, de maneira ainda mais surpreendente, o próprio mundo material da criação divina é infundido, tomado e inundado com a vida, o amor e a glória de Deus” (Idem).

O autor indica a leitura dos Salmos como forma de entendimento do contexto histórico narrado na Escrituras, segundo a leitura Cristã, entendendo que por meio de Jesus houve a interseção do tempo, do espaço e da matéria de Deus com os nossos, significando o Deus criador assumindo o reinado e o governo na terra como no céu.

A ressurreição é, nesse sentido, a fusão de futuro e presente, a antecipação da nova criação, em que terra e céu coabitam, em que os corpos terão outra consistência física, algo radiativa.

Essa percepção não é alcançada pelo leitor “moderno”, moldado por uma visão epicurista e materialista de mundo que não tem suporte nem mesmo nas leituras mais avançadas da ciência atual, porque descartada a existência dos átomos materiais que fundamentavam aquela outra filosofia antiga (epicurista), a qual ainda contamina indevidamente a mente das pessoas.

A questão não é tanto que o mundo não crê em Deus: a maioria das pessoas simplesmente não consegue imaginar o que seria viver no mundo de Deus, em seu tempo, espaço e matéria” (Idem).

Isso significa viver conforme seus mandamentos, pelo exemplo de Jesus, com as dificuldades que ainda decorrem de se tentar viver pelo Espírito num mundo regido pelo hedonismo epicurista, com amplo suporte político e jurídico.

Mesmo que seja inimaginável ver Deus retomando o controle dos governos humanos, a história mostra, especialmente pelo próprio movimento Cristão, que o Altíssimo é pródigo em proporcionar viradas retumbantes no curso dos acontecimentos. Talvez, e penso que sim, estejamos imersos em uma dessas situações históricas.

Venha o teu Reino, seja feita a tua Vontade na terra, como no céu.

Por que as nações se amotinam, e os povos meditam em vão? Os reis da terra se insurgem, e, unidos, os príncipes conspiram contra Iahweh e contra o seu Messias: ‘Rebentemos seus grilhões, sacudamos de nós suas algemas!’ O que habita nos céus ri, o Senhor se diverte à custa deles. E depois lhes fala com ira, confundindo-os com seu furor: ‘Fui eu que consagrei o meu rei sobre Sião, minha montanha sagrada!’ Vou proclamar o decreto de Iahweh: Ele me disse: ‘Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede, e eu te darei as nações como herança, os confins da terra como propriedade. Tu as quebrarás com um cetro de ferro, como um vaso de oleiro as despedaçarás’. E agora, reis, sede prudentes; deixai-vos corrigir, juízes da terra. Servi a Iahweh com temor, beijai seus pés com tremor, para que não se irrite e pereçais no caminho, pois sua ira se acende depressa. Felizes aqueles que nele se abrigam!” (Salmo 2)

Realismo moral

Retomo um tema fundamental do artigo “Heteronomia, autonomia e holonomia – A logocracia” (https://holonomia.com/2020/04/11/heteronomia-autonomia-e-holonomia/), quanto à necessidade de se fixar um limite à autonomia individual na formação das regras morais, sob pena de se cair inevitavelmente em um relativismo moral, o qual entendo socialmente nefasto.

Encerrando a leitura de “O juízo moral na criança”, de Piaget, vale destacar o percurso através do qual cheguei ao referido texto, o que significo como uma observação atenta de sinal deixado pela Providência, haja vista que A tenho como pressuposta em minha visão de mundo, pelA Qual não há acaso ou sorte, mas uma interconexão profunda e material em tudo o que existe, pois “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1, 31), e Ele “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4), na medida em que “nada podemos contra a verdade, mas só temos poder em favor da verdade” (2 Cor 13, 8). Outrossim, defendo que existe Verdade, o que afasta a possibilidade de um relativismo moral, Verdade que deve ser buscada teológica, filosófica e cientificamente.

O livro “O juízo moral na criança”, de Piaget, é uma das indicações bibliográficas de Jordan Peterson (https://www.jordanbpeterson.com/great-books/), cujo tema é afeto à área jurídica, e por isso o interesse pela obra. A Peterson cheguei pela Providência, quando, por volta de junho de 2018, assistia a um vídeo sobre o CERN, em um site evangélico com temas do Apocalipse, do qual não me recordo no momento, e no vídeo foi inserida uma fala de Peterson, a quem desconhecia, em palestra na Oxford Union, a qual assisti posteriormente em sua versão completa (https://www.youtube.com/watch?v=UZMIbo_DxJk).

Como descrito no Apocalipse, obra que revela a Verdade na História:

Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu. Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada — foi expulso para a terra, e seus Anjos foram expulsos com ele.” (Ap 12, 7-9).

Se tudo o que Deus criou é muito bom, não apenas bom, mas muito bom, e não vemos essa bondade tão facilmente a nossa volta, tendo havido uma guerra no céu, onde já foi vencida, resta a guerra ser vencida na Terra por meio do, ou após o, governo humano dos reis e sacerdotes de Cristo, as autoridades sábias e justas, para que vejamos a bondade da criação em sua plenitude. A Verdade já venceu no céu, mas na Terra a mentira ainda reina e tem grande poder, na guerra em que batalhamos, e o fato de Peterson, uma espécie de marechal atual nesse conflito, não ser muito conhecido no Brasil decorre da ocultação da Verdade praticada por grande parte pela mídia e da academia, também em razão de não aceitarem a própria existência da Verdade.

Vale dizer que o livro de Piaget é realmente muito bom, e no final ele faz uma comparação de sua investigação da moralidade infantil com a formação da moral na sociedade, por meio de referências à obra “A Responsabilidade”, do sociólogo francês Fauconnet, além de considerar o entendimento sociológico de Durkheim.

Em Fauconnet é explicada a evolução da responsabilidade social, de inicialmente objetiva e comunicável, para subjetiva e individual. Assim profetizou Fauconnet:

A responsabilidade estritamente pessoal é como o último valor positivo de uma responsabilidade que tende a tornar-se nula. Deste ponto de vista, a evolução da responsabilidade aparece como uma regressão. O que tomamos por responsabilidade perfeita é a responsabilidade enfraquecida e a ponto de desaparecer” (Apud Jean Piaget. O juízo moral na criança. Tradução Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994, p. 248).

A expressão “profetizou” se explica no garantismo penal extremo, hoje defendido por muitos, o que acaba, de fato, por tornar nula a responsabilidade individual penal.

Fauconnet explica que a responsabilidade passou a depender da consciência do responsável, como uma questão espiritual, pelo fato de a sociedade ter se tornado imanente ao indivíduo, pois a vida social se torna interior enquanto se individualiza, no movimento de espiritualização da responsabilidade. E complementa:

Da mesma forma que a individualização da responsabilidade, sua espiritualização no decorrer da histórica aparece, então, como um imenso empobrecimento, uma perpétua abolição. A responsabilidade subjetiva, bem longe de ser, como o admitimos geralmente, a responsabilidade por excelência, é uma forma atrofiada de responsabilidade” (Idem).

Piaget informa que Fauconnet segue Durkheim na sua metodologia, definindo sua (Fauconnet) noção de responsabilidade a partir do que entendeu como seu elemento estrutural, que é a noção de crime, o fato invariante no conceito de responsabilidade, enquanto Piaget adota uma análise preferencial da evolução da noção de responsabilidade.

Para Piaget, a moralidade evolui de uma moral de coação, dever puro, heteronomia e responsabilidade objetiva, em que existe sanção expiatória, para uma moral de cooperação, solidariedade, autonomia e responsabilidade subjetiva, na qual a sanção torna impossível a autonomia da consciência.

Depois de ressalvar o ponto de vista jurídico, em que talvez seja a sanção necessária para defesa da sociedade, destacando, contudo, a moderna ideia de reeducação e readaptação social, Piaget conclui:

Portanto, entre a responsabilidade interior, que vai a par com a autonomia da consciência e que resulta das relações de cooperação, e a forma de responsabilidade ligada à ideia de sanção expiatória e, por consequência, à coação e à heteronomia, não há simples filiação: um novo tipo de atitude moral sucedeu a uma atitude prescrita, e a continuidade de fato não deve ocultar a diferença de natureza.

Em conclusão, e aí é que queríamos chegar, porque este resultado nos será indispensável na sequência, a coação social e a cooperação não chegam a resultados morais comparáveis. A coação social – entendemos assim toda relação social na qual intervém um elemento de autoridade e que não resulta, como a cooperação, de pura troca entre indivíduos iguais – tem como efeitos sobre o indivíduo resultados análogos ao da coação adulta em relação ao espírito da criança. Porque, na realidade, os dois fenômenos constituem apenas um só, e o adulto, dominado pelo respeito unilateral dos ‘Velhos’ e da tradição, conduz-se à maneira de uma criança. Podemos mesmo afirmar que o realismo das concepções primitivas do crime e da sanção é, em alguns aspectos, uma reação infantil. Para o primitivo, o universo moral e o universo físico são um só: a regra é, simultaneamente, lei do universo e princípio de conduta. É por isso que o crime ameaça o equilíbrio do próprio universo e deve ser misticamente anulado por uma expiação adequada. Mas esta ideia de uma lei ao mesmo tempo física e moral está no centro da representação do mundo da criança, a qual, sob o efeito da coação adulta, só pode conceber as leis do mundo físico sob as formas de uma certa obediência das coisas à regra” (Jean Piaget. O juízo moral na criança. Tradução Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994, pp. 253-254).

É possível inferir do início do presente texto, porque sustento uma interconexão profunda e material em tudo o que existe, que entendo haver moralidade física, na própria criação, resultante do fato de que “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1, 31).

Portanto, minha visão é, sim, semelhante ao realismo das concepções primitiva e infantil, porque concebo que o universo moral e o universo físico são um só, pelo que a regra é, simultaneamente, lei do universo e princípio de conduta, bem como a ideia de uma lei ao mesmo tempo física e moral. É importante lembrar, nesse sentido, as palavras do próprio Messias: “aquele que não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele” (Lc 18, 17).

Se minha visão é fruto, em grande parte, o que deve ser expressamente reconhecido, de uma concepção teológica de mundo, ao mesmo tempo reflete um profundo exercício de teologia natural, a partir da física quântica, na leitura de David Bohm do universo como uma totalidade indivisível, com seu holomovimento e sua holonomia, esta, portanto, uma como lei do universo e princípio de conduta, uma lei ao mesmo tempo física e moral.

Possível, assim, compatibilizar o realismo moral com a responsabilidade subjetiva. Já a própria Bíblia, em que a ideia de realismo moral está presente, há cerca de dois mil e quinhentos anos, sustenta a evolução em direção à responsabilidade subjetiva.

Nesses dias já não se dirá: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram. Mas cada um morrerá por sua própria falta. Todo homem que tenha comido uvas verdes terá seus dentes embotados” (Jr 31, 29-30).

Claramente, a passagem fala de responsabilidade pessoal, que está associada à Nova Aliança:

Eis que dias virão — oráculo de Iahweh — em que selarei com a casa de Israel (e com a casa de Judá) uma aliança nova. Não como a aliança que selei com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los sair da terra do Egito — minha aliança que eles mesmos romperam, embora eu fosse o seu Senhor, oráculo de Iahweh! Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Eu porei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhecei a Iahweh!’ Porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores, — oráculo de Iahweh — porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31, 31-34).

Fundamental, portanto, a retomada da discussão teológica, relativa à ideia do Pecado Original, que Piaget, dentro de uma determinada leitura religiosa, associa à de responsabilidade objetiva e coletiva, em que a “humanidade inteira é votada à condenação eterna pelos pecados de seus primeiros antepassados” (Idem, p. 252), questão ligada à antiga aliança, renovada e transcendida por Jesus de Nazaré, o Messias, que aceitou a responsabilidade objetiva para que a Lei se cumprisse, tornando subjetiva a responsabilidade, o que se deu pelo cumprimento pleno da Lei e dos Profetas, sendo o Rei Justo e Santo, que deu a vida pelos seus, e ressuscitou, sendo a ressurreição imediata um dos efeitos físicos de sua ação moral perfeita, irrepreensível. O antigo testamento relata outras situações em que a ação moral repercutiu na vida física da pessoa, notadamente em relação a Enoque e Elias, que andaram com Deus e não experimentaram a morte corporal, sendo, de alguma forma, transcendidos para a realidade celestial.

Os erros morais, as faltas morais das pessoas, outrossim, têm consequências cumulativas e postergadas no tempo, como regra, mas determinadas ações morais, boas e más, praticadas por pessoas em posições governamentais e simbólicas especiais, com função social relevante, possuem efeitos imediatos, e de grandes proporções, para a vida e para a morte.

O limite à autonomia individual, portanto, é o Logos, não se permitindo o exercício da autonomia enquanto ação irracional, mesmo quando decorrente de cooperação e solidariedade meramente grupais, as quais podem se voltar contra a própria humanidade, contra a Natureza, do que a história está repleta de exemplos.

O limite individual é a coletividade, a razão pública, é o conhecimento de Iahweh, o Logos, de cuja imitação depende a realização da boa realidade moral na Terra, o que acontece a “quem é como Deus”, como Miguel, que ganhou a batalha no céu, e Jesus, o Messias, que também é como Deus e venceu a batalha na Terra, derrotando o pecado e a morte, tornando imanente em si a sociedade divina, pondo Sua Lei em seu seio e seu coração.

Portanto, o Pecado Original é o erro do líder que engana a coletividade, não se tratando de evento passado e primitivo, mas de algo que continuará a se renovar até que, em substituição aos seguidores do desobediente Adão, o obediente Jesus Cristo seja adotado como modelo de Rei e Sacerdote, Governante e Acadêmico/Cientista, e nesse sentido é possível falar em responsabilidade objetiva ou coletiva, porque a ação do governante repercute em todo o meio social. De fato, a ação de todo membro do grupo, inclusive fisicamente, causa efeitos nos demais membros da sociedade, mas o comportamento do líder, por sua posição e função pública, tem o condão de macular grandemente a vida social, quando movido por uma razão limitada, particular, em detrimento da razão total, ou holonomia, contra o Logos. O exemplo de Cristo, de outro lado, tem função e efeito salvíficos, não apenas por ele, como por seus autênticos e fiéis seguidores, que cumprem seus mandamentos, encarnando, o tanto quanto podem, o Logos em suas vidas, vivendo o realismo moral da Verdade, teológica, filosófica e científica.