Raízes judaicas do direito

Com grata satisfação, descobri que ainda existe pesquisa científica no âmbito jurídico na direção correta, representada pelo livro “Raízes judaicas do direito: princípios jurídicos da lei mosaica”, do professor Marcus Abraham, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, obra que é o resultado de sua tese de pós-doutorado realizada na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

O trabalho do autor resgata o ideário que nos legou o melhor da tradição ocidental, fazendo uma digressão histórica da teoria jurídica até suas verdadeiras raízes, porque é comum se ensinar nas faculdades de Direito que o mundo da racionalidade começou com o iluminismo, com destaque para as revoluções americana e francesa, sendo a referência positiva mais antiga a Magna Carta de 1215 (que foi produzida dentro de uma cosmovisão judaico-cristão de mundo), ou o direito romano, quando mencionado, sendo comum dizer que tudo que se passou anteriormente ao “renascimento” é fruto de misticismo e deve ser desprezado por seu obscurantismo, junto com qualquer coisa que diga respeito às questões religiosas.

Uma volta às origens do pensamento humano é mesmo necessária, o que também se constata em obra sobre os pensadores originários, Anaximandro, Parmênides e Heráclito, valendo transcrever uma passagem da introdução deste outro trabalho, feita por Emmanuel Carneiro Leão:

“Neste sentido, a presente investigação não quer ser uma obra de historiografia filosófica. Pretende levar a sério que os primeiros pensadores gregos são pensadores e não filósofos. O destino histórico de seu pensamento não provém da objetividade dos conhecimentos, mas do vigor do pensamento. Por isso o caminho a seguir é o caminho de um diálogo a partir da própria coisa do pensamento. Procurar-se-á atingir o centro do diálogo para da perspectiva central entender e interpretar os fragmentos. Pois de que outra maneira poder-se-ia apreender-lhes o pensamento senão pensando?

No horizonte deste questionamento o pensamento dos primeiros pensadores gregos revela uma profundidade atual em que as questões arroladas e as preocupações moventes acenam para o mistério vigente de sua verdade, de outro modo imperceptível. Em consequência, se encolhe a distância cronológica de mais de dois mil e quinhentos anos, que deles nos separa. A estranheza destes pensadores deixa de nos ser externamente estranha para afirmar-se como nossa própria estranheza. É então que nos sentimos conosco quando estamos com eles. Pensar o pensamento dos primeiros pensadores já não equivale a pesquisar nos fragmentos legados as ideias que passaram pelo cérebro de gregos dos séculos VI e V a.C. Será experienciar a decadência planetária de pensamento em que hoje nos debatemos. Trata-se de uma decadência tão decadente que grande é o risco de perdermos até as condições de identificar a decadência e apreciá-la como decadência.” (Anaximandro, Parmênides, Heráclito. Os pensadores originários. Introdução de Emmanuel Carneiro Leão. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017, pp. 11-12 – negrito meu).

Assim, é fugindo dessa decadência planetária de pensamento na qual nos encontramos que se insere o trabalho de Marcus Abraham, tentando elevar o pensamento jurídico ao plano de onde não deveria ter saído, ao nível da grandeza histórica, da construção multimilenar com início na Torá que desembocou na dignidade humana, ideia que hoje é sequestrada por aquela decadência do pensamento, que é tão decadente que não se consegue entender o quão absurdo é o conceito de dignidade, transmudado em indignidade, que hoje prevalece no discurso jurídico, para tentar fundamentar os pensamentos mais egoístas, individualistas e estapafúrdios possíveis, o que, contudo, muito poucos conseguem identificar como decadência.

O autor consegue apontar a raiz do problema:

“Verdadeiramente, a dignidade humana, numa visão puramente antropocêntrica (recorde-se que, como vimos na Introdução, próprio Kant ainda reservava um lugar em seu sistema filosófico para a noção de D’us), é uma invenção filosófica do século XIX, ou seja, muito recente. É somente neste século que se opera a definitiva cisão radical entre a dignidade do ente humano e sua referência à dignidade de um ente divino. Não à toa, Nietzsche pôde fechar este século com a afamada declaração da morte de D’us, preparada que foi pelo advento do materialismo, representado por figuras como Feuerbach e Marx.

(…)

O paradoxal é que a autonomia da dignidade humana em face da metafísica tenha coincidido com recuos tremendos desta dignidade. É o que se dá com o pensamento ocidental a admitir o conceito de raças superiores e inferiores (que pode remontar a Nietzsche com seu übermensch – super-homem)” (Marcus Abraham. Raízes judaicas do direito: princípios jurídicos da lei mosaica. Rio de Janeiro: Forense, 2020, pp. 150-151).

O materialismo “científico” nos legou as piores atrocidades do século XX, dezenas de milhões de mortos, muito pelo fato de a visão puramente antropocêntrica, desvinculada da metafísica e da realidade divina, ser incapaz de produzir o melhor da humanidade, uma vez que a falta de uma referência objetiva e transcendente de valor, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, leva à relativização da vida humana.

“Isso porque a vida em uma comunidade organizada sempre exigiu um conjunto de preceitos morais valorativos necessários para sustentar a harmonia da convivência social, cuja apreensão decorre tanto de um esforço da razão humana como de uma obediência oriunda da fé em uma divindade. Ambas as fontes, com muita frequência, atuam simbioticamente na formação cultural, ética e moral do indivíduo e dos povos” (Idem, p. 191).

Outrossim, é indispensável recolocar a discussão teológica no plano que merece, porque a racionalidade humana imanente, por si só, já se provou limitada e insuficiente para resolver os grandes problemas do mundo, não mais podendo ser usada isoladamente para a resolução das questões sociais fundamentais.

Ainda que essa não seja a proposta direta do autor, não há como negar que o resgate da coerência filosófica, da grandeza e da integridade do pensamento humano exige que os temas espirituais e transcendentais voltem à narrativa jurídica, porque tais questões estão no centro do debate físico, seja pela teoria das cordas ou do multiverso, pelo que se as discussões metafísicas fazem parte da discussão da ciência considerada mais objetiva, a Física, urge que também retornem à realidade do Direito, do qual não deveriam ter se afastado, porque o fundamento último da dignidade humana, como bem ressalta o autor, está no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, e decorre do fato de o homem e a mulher terem sido criados à imagem e semelhança de Deus. Sem essa referência, a dignidade perde seu valor.

Essa é a raiz de todo direito ocidental. Fica o livro indicado, para uma exploração detalhada da grandiosidade e atualidade de vários preceitos bíblicos, que se desenvolveram nos mais modernos princípios jurídicos, ainda vigentes.

A questão teleológica

A pergunta sobre a existência de teleologia no mundo está relacionada ao sentido das coisas, se há um fim a ser alcançado e qual seria ele.

Da perspectiva dos que entendem haver uma realidade espiritual, a ideia lógica é de que o mundo material está de algum modo ligado a um plano ontologicamente superior, pelo que a finalidade da atividade humana é se adequar a essa vida mais profunda, e também mais plena.

Mesmo do ponto de vista material, não há como negar a teleologia dos fenômenos, seja a gravidade atraindo os corpos, as plantas se dirigindo para a luz e a água, os animais para alimentação ou defendendo suas crias dos predadores.

No atual plano da civilização humana, o sistema jurídico-constitucional estabelece objetivos a serem alcançados pela comunidade politicamente organizada, dispondo o Preâmbulo da Carta de 1988 que nosso Estado democrático é destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, enquanto o seu art. 3.º estabelece que constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Portanto, nós brasileiros, como nação, temos teleologia, temos fins a serem alcançados, segundo as normas vigentes.

Mas para além dessa normatividade posta, há uma teleologia natural? Há um sentido próprio no desenvolvimento dos eventos cósmicos?

Para o entendimento monoteísta de mundo, a resposta a essa indagação é certamente afirmativa, havendo algumas divergências sobre exatamente como será o futuro, sobre muitas circunstâncias envolvendo os destinos individuais e da própria humanidade, mas há um entendimento mais ou menos próximo sobre uma espécie de comunhão espiritual futura, após a ressurreição e o julgamento final, existindo até mesmo algumas ideias também distintas sobre o período que antecederá tal desfecho escatológico.

O pensamento sobre uma teleologia intrínseca à realidade está na base do artigo “O tunelamento quântico (teletransporte) do apóstolo Filipe” (https://holonomia.com/2016/12/27/o-tunelamento-quantico-teletransporte-do-apostolo-filipe/), pois uma vez que existe teleologia, uma direção para a qual o universo se dirige, uma espécie de gravidade que puxa a História para frente, é natural que os comportamentos voltados para esse futuro tenham um fator de favorecimento, da mesma forma como se exige menos energia para descer um morro do que para subi-lo. Ainda que possa haver obstáculos impedindo o fluxo do movimento no sentido devido, como uma barreira contra a descida, com o acúmulo da energia necessária a descida ocorrerá, muitas vezes de forma violenta, com mais intensidade.

Em termos cosmológicos, o valor encontrado para a massa do bóson de Higgs foi aproximadamente de 126 GeV (giga-elétron-volt), que significa que estamos em uma fase metaestável do universo, no sentido de que nosso universo é como um gelo em processo de derretimento, está em mudança de fase.

“No entanto, a massa do bóson de Higgs tem papel análogo ao da temperatura no caso da água. Para um certo valor dessa massa, o Modelo Padrão passa a ter outra fase dominante, na qual o universo seria totalmente diferente do observado, sem possibilidade de desenvolver vida. A nossa fase seria instável, podendo desaparecer como um pedaço de gelo derretendo. Cálculos indicam que nossa fase seria instável para massas do bóson de Higgs menores que aproximadamente 129 GeV. Portanto, as medidas recentes da massa do bóson de Higgs indicam que nossa fase é instável e o universo pode colapsar para a fase dominante” (Rogério Rosenfeld. O cerne da matéria: A aventura científica que levou à descoberta do bóson de Higgs. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 170).

Se a Ciência não tem informações sobre qual seria essa fase dominante para a qual nos dirigimos, o Monoteísmo há muito tempo afirma que vivemos em um tempo de transição, de desequilíbrio, associado à teoria da Queda que afeta a natureza, mas que há um porto seguro a ser alcançado, que é a fase dominante da realidade, quando a humanidade se comportará segundo os mandamentos, corrigindo as atividades viciadas que se enraizaram em nossas ações, com destaque para a questão política, porque os governos serão justos, tanto em termos humanos como divinos.

Vale dizer que a energia escura, segundo as especulações dos físicos, é o que empurra o cosmos em sua expansão, pelo que o universo caminha para uma direção, ainda que não tenhamos como medi-la ou compreendê-la minimamente. Portanto, o próprio movimento cósmico mais amplo não é explicado pela nossa atual Ciência.

O fato de vivermos uma fase de transição cósmica, em direção a outro estado de coisas no universo, é esclarecedor quanto à realidade dos chamados milagres bíblicos, porque é da natureza de uma situação instável haver comportamentos e eventos extraordinários, do que é exemplo a sublimação da água, mantendo a analogia com os estados da matéria. Assim, a fase de transição faz com que maior energia se concentre em determinados pontos do universo, dada a irregularidade do período de crise, permitindo que eventos da realidade futura se manifestem antecipadamente, contrariando o comportamento ordinário daquela fase instável.

Por isso, em algumas situações, a energia é canalizada para esse estado futuro, numa espécie de salto quântico de grandes proporções, afetando uma localidade específica da realidade física macroscópica, em pontos da tecitura do espaço-tempo propícios para aquela manifestação. Assim como a água de uma represa passa por onde a resistência é menor, também o Espírito se manifesta em quem não resiste a Ele, a quem para Ele se volta, e no seu entorno, de modo que em algumas oportunidades essa manifestação alcança a realidade física visível.

Na narrativa bíblica, a História também tem uma direção, o que vale para a sociedade humana, sendo que Jesus realizou em sua vida toda essa plenitude de sentido, e sua ressurreição é exatamente a antecipação da fase dominante do Universo, o Reino de Deus, porque ele, pela quantidade de energia despendida em favor da existência, trabalhando para a evolução da humanidade, e por permitir seu próprio sacrifício, que foi a técnica divina de correção e redirecionamento da História, inseriu na psique humana, no Corpo e no Espírito, a semente da realidade emergente, do mundo que ainda se manifestará. Tal foi uma situação única, na qual, como no tunelamento quântico, certa quantidade de energia do futuro estado do universo foi emprestada ao passado, levando à sua ressurreição corporal.

Se há uma direção no movimento das coisas, quando se conhece tal tendência, a compreensão dos fenômenos é muito facilitada. Nesse ponto, é fácil entender que toda atividade humana é teleológica, deita-se para descanso, come-se para nutrição, sem falar nas diversas atividades sociais efetivadas para satisfazer interesses vários, para o bem e para o mal, porque se sabe o movimento das coisas, sendo possível manipular os eventos do mundo para alcançarmos certos objetivos.

Nós, com nossa limitação, conseguimos agir causalmente para consecução de nossos objetivos, o que pode ser entendido como uma obrigação instrumental para o sucesso de nossos projetos. Outrossim, para se obter determinados fins, certos meios devem ser utilizados, alguns princípios de Logos devem ser respeitados, regras que se impõe cumprir, pelo que, na atividade humana, no mundo da vida, conceitos causais e obrigacionais não se separam, havendo uma vinculação entre o ser e dever ser, como constou no artigo anterior. Os fins dependem das causas, havendo meios próprios para melhor alcançá-los, existindo deveres a serem cumpridos, obrigações a serem satisfeitas, uma moralidade a ser observada.

Voltando, pois, ao sistema jurídico, estabelecidos os objetivos a serem auferidos, os fins a serem atingidos, daí decorrem os deveres, os comportamentos necessários, em termos causais e morais, para que determinado estado de coisas seja promovido.

Outrossim, se restaurada a hermenêutica jurídica à sua origem espiritual, o estado de coisas perseguido pelas normas humanas pode ser identificado com aquele antecipado pela narrativa bíblica, a realização de uma sociedade livre, justa e solidária. Essa é nossa teleologia.

Eis que dias virão — oráculo de Iahweh — em que cumprirei a promessa que fiz à casa de Israel e à casa de Judá. Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para Davi um germe de justiça que exercerá o direito e a justiça na terra. Naqueles dias Judá será salvo e Jerusalém habitará em segurança. E este é o nome com que a chamarão: ‘Iahweh, nossa Justiça’” (Jr 33, 14-15).

O meio de chegar a esse fim passa pelo Método científico, pelo Caminho da Unidade do Logos, para que todos sejamos um com o Pai, reconhecendo Jesus como Seu enviado, com uma missão divina, para um fim espiritual, que é também nosso, de modo que a vida do Cristão é finalística, é teleológica:

E, POR eles, a mim mesmo me santifico, PARA QUE sejam santificados na verdade. Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: A FIM DE QUE todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, QUE eles estejam em nós, PARA QUE que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que me deste PARA QUE sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, PARA QUE sejam perfeitos na unidade e PARA QUE o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 19-23).

Falseando a lei de Hume: derivando um ought de um is

Para enfrentar a lei de Hume, ou guilhotina de Hume, que afirma não ser possível derivar um “ought” (deve) de um “is” (está/é), é necessário estabelecer duas premissas básicas, uma de ordem linguística e outra de natureza filosófica, pontos indispensáveis para que se possa falsear adequada e coerentemente tal entendimento do referido pensador.

A lei de Hume sustenta haver dois mundos separados, o dos fatos e o dos valores, que não podem ser unificados sem perda de coerência, pelo que seria impossível passar de um plano fático para um valorativo, por tratarem de esferas distintas de cognição.

Inicialmente, um ponto que merece destaque é o fato de Hume estar inserido em um ambiente cultural que os antigos chamariam de bárbaro, isto é, em que a comunicação popular não ocorre por meio do latim ou do grego. Os povos antigos eram denominados bárbaros pelos romanos principalmente em razão de não usarem as citadas línguas clássicas, sendo o adjetivo comportamental meramente derivado dessa circunstância. Esse ponto já pode servir para um primeiro esclarecimento, relativo à significação do verbo ser, que, nas línguas inglesa, alemã e francesa, usadas pelos principais filósofos, com seus correspondentes “to be”, “sein” e “être”, também significa o nosso “estar”. Ainda que, atualmente, pelos critérios romanos, a maioria dos povos sejam considerados bárbaros, inclusive nós, o uso indistinto dos referidos significados, “ser” e “estar”, em um mesmo verbo compromete sua significação mais profunda, porque pode expressar situações passíveis de enorme oposição semântica, prejudicando a precisão simbólica da comunicação, que é indispensável para uma boa empreitada filosófica.

Como já exposto no artigo “O ser e o estar: o problema ontológico do nada” (https://holonomia.com/2019/05/01/o-ser-e-o-estar-o-problema-ontologico-do-nada/):

“Assim, a Filosofia é o estudo do ser, daquilo que é, em comparação com aquilo que está, porque provisório e apenas aparente. Na língua portuguesa, conceitualmente, é relativamente fácil entender a diferença ontológica entre o ser, o que é, e o estar, o que está, porque nos significados dos substantivos formados dos respectivos verbos, por derivação imprópria, já estão presentes as qualidades de eternidade do ser e de provisoriedade do estar. O ser, ontologicamente, foi, é e será; enquanto o estar, por definição, apenas está, podendo ou não ter estado antes, ou continuar a estar depois.”

Portanto, quando Hume fala não ser possível derivar um “ought” de um “is”, necessariamente ele está se referido ao “is” como “está”; porque quando se usa o “is” como “é”, tal afirmação, conceitualmente, já indica o conhecimento de algo permanente, e o que é permanente, por natureza e definição, continuará a ser e, portanto, “deve ser”, inicialmente como causalidade.

Além da questão semântica da linguagem, mas a ela associada, há também um importante pressuposto filosófico que se deve considerar na situação em análise, porque há duas possibilidades básicas de concepção intelectual do universo: uma entendendo que há cosmos, uma ordem subjacente de mundo; e outra no sentido de que vivemos sujeitos às absolutas forças do acaso.

Se há ordem subjacente, como sustentado pela primeira opção, o mundo já é organizado e todo estado de coisas se vincula a essa ordem. O curso histórico é o desenvolvimento dessa ordem, de modo que as posições relativas das pessoas expressam movimentos de manutenção, desenvolvimento ou violação da ordem, o que vale inclusive para as ações humanas. Nesse ponto, o Direito tem como uma de suas funções examinar essa ordem, definir e qualificar os comportamentos humanos em relação a ela.

Outrossim, a partir de uma descrição do mundo, concebido filosoficamente como ordenado, é apreendida sua normatividade, seu dever ser, vinculada àquela ordem, valorando os comportamentos como jurídicos e antijurídicos, se conforme ou contrários ao movimento cósmico. Daí se poder falar em dever ser enquanto moralidade, como responsabilidade vinculada à referida ordem.

As chamadas ciências naturais são baseadas nesse pressuposto, procuram descobrir as leis da física, da química, da biologia, as quais regem o comportamento das coisas e animais, o que permite compreender as relações de causalidade e interação entre elas, de modo que a medição de uma determinada situação, tendo como base a observância daquelas leis, indica o que deve ser, isto é, o estado futuro do mundo, em termos de causalidade. A falta de correspondência entre o resultado esperado e a prévia observação terá como causa dois fatores: a má compreensão da lei e/ou a existência de dados insuficientes sobre o estado de coisas em análise.

Como salientado no início, Hume vivia em modo de bifurcação mental, com dois planos de existência separados, o dos fatos e o dos valores. Tal se deu porque ele estava inserido em uma filosofia cartesiana, uma vez que Descartes separou o mundo em duas substâncias, a pensante, sujeita à investigação subjetiva, e a extensa, de ordem objetiva, sendo esta, ponto importante, sustentada por Deus. O plano subjetivo era o das qualidades, dos valores, e o objetivo o das quantidades, o dos fatos. Interessante destacar que também Newton, em sua concepção de realidade, sustentava que o mundo material era dependente de e ordenado e por Deus.

Vale dizer que a tese da bifurcação cartesiana vai de encontro à da empreitada científica de maior sucesso da história da humanidade, a física quântica, segundo a qual a postura do observador, o sujeito, diante do observado, o objeto, condiciona o resultado do experimento, indicando que a ideia de dois mundos separados, subjetivo e objetivo, valores e fatos, é mais uma aparência do que propriamente uma realidade. E termos quânticos talvez se possa falar que cada um de nós é o próprio cosmos de uma perspectiva individual e, portanto, por ele responsável, com deveres para sua manifestação como tal.

Outrossim, mesmo o mundo objetivo, partindo-se da ideia primordial de que há cosmos, já é, em si, dotado de valor, o valor da ordem; e não só isso, também é cabível dizer sobre a existência de uma bondade natural, porque o Deus referido por Descartes e Newton, corifeus da revolução científica, o Deus considerado sustentáculo do universo material é o Criador de todas as coisas, referido na Bíblia:

E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom” (Gn 1, 31).

O cosmos é não apenas bom, mas muito bom. Sendo o mundo ordenado e muito bom, e diante da posição humana no universo, capaz de interagir com as coisas do mundo, para criar e destruir, há responsabilidade humana com esse ser do mundo, há obrigação, isto é, um dever ser.

A realidade objetiva em si, pois, segundo essa concepção filosófica, já está imbuída de acepções valorativas, e mesmo morais, o que também valia para o platonismo, com sua ideia de Bem, fonte de todas as coisas, e para o aristotelismo, com seu motor imóvel como causa de todo movimento que existe no mundo, que é organizado. A observação dos fatos, destarte, não é neutra, mas se dá segundo a própria ideia de ordenação do mundo, pela existência de um cosmos, de um lado, ou de um caos primordial, de outro.

Partindo, assim, do pressuposto de que há ordem nas coisas, e na medida em que as ações humanas são inseridas nessa ordem, e porque o Direito tem como uma de suas funções qualificar os comportamentos como ordenados ou desordenados, isto é, jurídicos ou antijurídicos, do estado de coisas resultado de uma ação humana é derivada uma consequência normativa, sua qualificação jurídica, bem como os efeitos a serem dela extraídos em relação à ordem do mundo, com a finalidade de restaurá-la, para correção dos efeitos do comportamento ilícito, um dever. É possível falar de um Espírito de ordem, e de um dever com esse Espírito, para que o mundo permaneça como tal, como mundo, com integridade, evitando que se torne um monte de fragmentos desconectados em um caleidoscópio sem nexo.

Portanto, uma vez tido o cosmos como um dado, um axioma, tem-se a sua descrição como um estado de coisas ordenado intrinsecamente, com a qualificação dos comportamentos segundo referida ordem, e considerando que o Direito vinculado à referida ideia não é neutro, mas se destina à manutenção, desenvolvimento e restauração dessa ordem, daí decorre o que deve ser, ligado à liberdade e à responsabilidade humana, referente à norma segundo a qual é devido o comportamento para recomposição daquela ordem, que é a sanção ou o efeito jurídico decorrente da ação ilícita, com seus componentes materiais e normativos, evitando que o cosmos de transforme em caos.

Nesse sentido, adotada a premissa de que há ordem no mundo, como postulado filosófico não sujeito a comprovação empírica, e tomados em consideração os comportamentos segundo essa ordem, a qual representa o “ser” do mundo, portanto, daí decorre o que “deve ser”, a necessidade lógica e moral de declarar a (i)licitude, com a exigência de se impor comportamentos individuais e coletivos para recuperar a ordem, superando a desordem decorrente do ilícito, conforme sua gravidade.

A depender da extensão dos danos causados pela ação, a reação jurídica deverá ser mais ou menos intensa, porque quanto maior a violação normativa, maior a ilicitude, significando que mais estragos são causados ao mundo, criando desordem, exigindo-se mais força, mais energia, para restauração da harmonia social e natural. De outro lado, menores danos podem ser absorvidos sem grandes prejuízos à coletividade, desde que cessadas sua causa e a possibilidade de progressão ou reiteração.

A partir do que é o mundo, se ordenado, daí se segue o que deve ser.

Portanto, essa hipótese é vinculada à primeira opção básica segundo a qual há ordem subjacente. Nesse caso, o “is” não pode ser compreendido como simples estado de coisas, uma situação provisória, ou como momento de um ser, mas como a própria concepção segundo a qual o mundo é ordenado, esse é o “is” do qual decorre o “ought”, o que deve ser, para que seja respeitada a premissa lógica da ordenação, da existência de cosmos.

Adaptado esse postulado, enfim, ao Direito cabe a investigação desse ser, e consequentemente de seu dever ser, o que vale para as disposições normativas, a legislação, administrativas, a prática social, e judiciais, a jurisdição. É atribuição da Ciência do Direito, nessa linha, investigar a ordem do mundo natural, prescrever os comportamentos segundo ela e estabelecer as medidas necessárias à sua restauração, para o equilíbrio das coisas, definindo, destarte, o ser e seu dever ser.

Mesmo em um materialismo comportamental, numa leitura behaviorista radical da humanidade, que tornaria a responsabilidade individual uma quimera, com inegáveis complicações para a fundamentação do Direito, talvez se pudesse falar em um dever ser naturalístico derivado do ser, fruto de uma relação causal entre estímulo e reação, porque em um mundo sem espírito seria realmente complexa a inserção de categorias deontológicas, de deveres propriamente morais.

De outro lado, caso não seja adotada a opção filosófica pela existência de ordem subjacente, o que é incompatível com o próprio projeto científico, e sua pretensão de encontrar as leis da natureza, somente aí a proposição de Hume, filosoficamente, faria sentido, porque cada estado de coisas momentâneo seria efeito aleatório de causas cegas agindo sobre o mundo, o que valeria também para ações humanas, de modo que, em termos naturais, de fato, não se poderia extrair um “ought” de um “is”.

Nessa situação, o “is” significaria “estar”, do qual, de fato, não se extrairia um dever, ou mesmo causalidade, pois existiriam apenas estados de coisas, não haveria um “ser”, um permanente “is”. Em um mundo desprovido de ordem, sem Deus, sem a ideia de Bem ou de um primeiro motor a conectar todas as coisas inteligentemente, outrossim, no qual a empreitada científica seria fadada ao fracasso, por princípio, porque sequer se desenvolveria, até mesmo por ausência de motivação hábil para tanto, conclusão a que se chega pela própria experiência histórica humana dos últimos séculos, Hume, enfim, poderia ter razão.

Aeterni Patris

A Encíclica Aeterni Patris, do Papa Leão XIII, foi citada no último artigo, tendo Alasdair Macintyre contraposto sua racionalidade e sua moralidade às da “Enciclopédia Britânica”, em sua Nona Edição, e ao pensamento de Nietzsche em “Genealogia da Moral”.

Agora vale enfatizar e enaltecer a exortação proferida por Leão XIII na referida obra, porque sua linha de pensamento continua atual, adequada à mentalidade cristã de nosso tempo, sua proposta deve ser seguida para a restauração de alguma unidade dentro do Cristianismo.

Alasdair Macintyre entende que a autêntica Tradição remete ao ideal de São Tomás de Aquino, defendido por Leão XIII, o que está corretíssimo, ao conceber uma integração necessária entre Fé e Razão, nunca uma oposição. Nessa vertente, o trabalho de São Tomás de Aquino representa o permanente esforço de unificação da Razão em torno da mesma Fé, sendo inestimável sua contribuição porque conciliou o pensamento cristão fundado na filosofia de Agostinho, de um lado, que, por sua vez, remetia a Platão, com as ideias aristotélicas, de outro lado, o que era considerado inviável pelos pensadores de seu tempo, que viam uma insuperável incomensurabilidade entre os respectivos esquemas de pensar o mundo.

Minha proposta segue esse ideal tomista, na tentativa de unificar um fundamentalismo cristão, de um lado, com as mais modernas descobertas científicas e filosóficas, de outro.

A tradução da Encíclica pode ser encontrada no seguinte sítio http://filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/Aeterni_Patris.pdf, de que foram extraídas as transcrições que seguem.

A Igreja, pelo texto, “sempre teve em vista e foi seu principal desejo, ensinar a religião e lutar perpetuamente contra os erros”, o que também é aplicado ao conhecimento científico, que depura seus erros ao longo do tempo, devendo ser destacado que o atual momento é de grande importância histórica, porque a física moderna mostrou que a realidade material é tão, ou mais, aparente, e enganosa, que o geocentrismo, o que reduz a escala de erro do pensamento científico cristão do início da modernidade.

“Porém, como, segundo o aviso do Apóstolo, ‘pela filosofia e vã falácia’ são muitas vezes enganadas as mentes dos fiéis cristãos e é corrompida a sinceridade da fé nos homens, os supremos pastores da Igreja sempre julgaram ser também próprio de sua missão, promover, com todas as forças, as ciências que merecem tal nome e a um só tempo zelar, com singular vigilância, para que as ciências humanas fossem ensinadas por toda parte, segundo a regra da fé católica, e, em especial, a filosofia, da qual, sem dúvida, depende em grande parte o reto ensinamento das demais ciências.”

Não pode haver margem para questionamento, assim, quanto ao incentivo à busca científica e filosófica, sendo exigida apenas a coerência de uma fé universal e cristã, isto é, que não seja meramente particular, pontual, e que se submeta a uma ideia de racionalidade, de Logos, que orienta o Cristianismo.

“Se alguém fixar a consideração na agrura de nossos dias, e abraçar com o pensamento a condição das coisas que, pública e privadamente se executam, descobrirá que, sem dúvida, a causa fecunda dos males, tanto daqueles que hoje nos oprimem, como dos que tememos, consiste em que os perversos princípios sobre as coisas divinas e humanas, emanados a tempo das escolas dos filósofos, foram-se introduzindo em todas as ordens da sociedade e recebidos pelo comum sufrágio de muitos. Pois, sendo natural ao homem que no obrar tenha a razão por guia, se em algo falta a inteligência, facilmente cai também no mesmo a vontade; e assim acontece que a perversidade das opiniões, cujo assento está na inteligência, influencie nas ações humanas e as perverta. Pelo contrário, se está são o entendimento do homem, e se apoia em princípios sólidos e verdadeiros, produzirá muitos benefícios de utilidade pública e privada.”

Destaca, assim, a importância da filosofia, dos primeiros princípios, os quais escolhidos equivocadamente comprometem todo o sistema de pensamento, o que vale para a ciência de hoje, na medida em que o primeiro princípio platônico era a ideia de Bem, o aristotélico o Primeiro Motor e o cristão o Logos, indicando que a ordem do mundo é resultado dessa realidade anterior, ao contrário dos materialistas que sustentam o acaso e a fatalidade como a força que rege o universo. Outrossim, na cosmologia, considerando que a ordem de nosso universo é de uma magnitude inimaginável, desde o princípio, a cosmologia materialista foi obrigada a criar outras dimensões e universos para tentar se manter no debate científico, e na biologia ainda insiste na evolução cega e aleatória, mesmo sendo tendo sido esta proposta refutada matematicamente. Daí porque a filosofia não pode ser incoerente.

“Ademais, sendo próprio e singular dos teólogos escolásticos o haver unido, com o mais estreito laço, a ciência humana e divina entre si, a teologia na qual sobressaíram não teria obtido tantas honras e louvores da parte dos homens, se houvessem empregado uma filosofia manca e imperfeita ou superficial”.

Assim, os adversários hostis ao Cristianismo continuam em ação, sustentando “a pluralidade de deuses (hoje, universos), que a matéria do mundo careceu de princípio e de causa, e que o curso das coisas conservava-se mediante uma força cega e uma necessidade fatal e não dirigida pelo conselho da Divina Providência”.

Tais pensadores são dotados de uma fé na desordem, porque não há como comprovar seus argumentos, e ainda assim usam sua razão na tentativa de demonstrar a veracidade de sua visão. Entre uma fé na desordem e outra na ordem, eu fico com a segunda, e também tenho todo o direito, como os cosmólogos e biólogos, de usar a razão para comprovar minha fé, ainda que seja para afastar a acusação de irracionalidade, e para tanto não violo, como eles, a navalha de Ockham ou a probabilidade matemática. Portanto, a boa razão é aliada da melhor fé.

“Não é em vão que Deus imprimiu na mente humana a luz da razão. E o acréscimo da luz da fé, mui longe de apagar ou diminuir a força da inteligência, aperfeiçoa-a, e, aumentando as suas forças, torna-a hábil para maiores empresas”.

A filosofia, destarte, deve ser feita de modo integrado, unindo as partes e os conhecimentos respectivos a um todo maior, em uma só racionalidade e coerência, o que parece ter sido o trabalho de São Tomás de Aquino, que espero ler um dia.

“Não há parte da filosofia que, de forma aguda e sólida, não haja tratado: tratou das leis do raciocínio, de Deus e das substâncias incorpóreas, do homem e de outras coisas sensíveis, dos atos humanos e de seus princípios, de tal modo que nada falta nele: nem a abundância das questões, nem a oportuna disposição das partes, nem a firmeza dos princípios ou a robustez dos argumentos, nem a claridade e propriedade da linguagem, nem certa facilidade de explicar coisas obscuras.”

Somente têm verdadeiramente essa capacidade aqueles que se colocam como filhos de Deus, do Aeterni Patris, ao Qual devemos sempre suplicar Sua graça, por Sua divina bondade, por Cristo Jesus, por meio de quem obtivemos essa divina filiação.

“Também nisto sigamos o exemplo do Doutor Angélico que nunca se pôs a ler e escrever sem antes haver-se feito propício a Deus com seus rogos e que confessou, candidamente, que tudo o que sabia não havia adquirido tanto com seu estudo e trabalho, senão que o havia recebido divinamente.

Por isso mesmo, roguemos todos juntamente a Deus, com humilde e concorde súplica, para que derrame sobre todos os filhos da Igreja o espírito de ciência e de entendimento, e abra-lhes os sentidos para entender a sabedoria”. AMÉM!

Filosofia x enciclopédia

Não existe uma contraposição necessária entre filosofia e enciclopédia, mas há contradição real entre essas ideias na atualidade, porque o entendimento da primeira acabou se confundindo indevidamente com o da segunda, resultando num amontoado amorfo de conhecimento, com prejuízo para a coerência intelectual que é inerente àquela.

Filosofia é a palavra que une dois conceitos, amor e sabedoria, significando amor à sabedoria, sendo certo que esse amor pode ser manifestado em elaboração e leitura de uma enciclopédia, palavra que tem origem em dois termos gregos enkyklos (geral, circular) e paideia (educação). Portanto, há uma ligação entre filosofia e enciclopédia, porque a sabedoria está associada a uma forma de educação geral, sobre todo o conhecimento, ou o máximo e mais importante conhecimento disponível, mas não se pode perder a unidade intrínseca àquela autêntica sabedoria.

Este texto é inspirado no livro “Three Rival Versions of Moral Enquiry: Encyclopaedia, Genealogy, and Tradition”, de Alasdair Macintyre, que comecei a ler na última semana; e ainda que a leitura esteja no terceiro capítulo, já é possível antecipar uma ampla concordância com a tese do autor, o qual demonstra os problemas enfrentados tanto pelo entendimento representado pela “Enciclopédia Britânica” como pelo decorrente das ideias de Nietzsche em “Genealogia da Moral”, desenvolvidas no trabalho de Foucault, o qual, segundo Macintyre, acabou se baseando em padrões atemporais e impessoais de verdade, referência e racionalidade que se mostram inconsistentes com o projeto genealógico baseado em Nietzsche.

O livro de Macintyre é a exposição de suas Gifford Lectures, proferidas em 1987, sendo que essas lectures (palestras) resultaram da vontade testamentária de Adam Gifford, que desejava a promoção do conhecimento humano, demandando que todos os palestrantes tratassem seus temas estritamente como ciência natural.

Vale dizer que conheci as Gifford Lectures ao mesmo tempo em que tive ciência do trabalho de Tom Wright, cujos ensinamentos foram fundamentais para consolidar meu entendimento do Cristianismo, porque ele ressalta a importância da ideia política do Reino na mensagem de Cristo. As palestras de Tom Wright estão disponíveis no YouTube e no sítio “The Gifford Lectures” (https://www.giffordlectures.org/lectures/discerning-dawn-history-eschatology-and-new-creation).

No primeiro capítulo de seu livro, Macintyre destaca o projeto de Adam Gifford, que considerava a Teologia Natural uma Ciência ainda em formação, e daí o realce para esse tema em suas palestras, e enfatizava a necessidade de adequadas metodologia e atenção aos primeiros princípios: “If first principles have not been truly carried out… then be sure that sooner ou later we must begin again, for nature will find out our failure…” (Apud Alasdair Macintyre. Three Rival Versions of Moral Enquiry: Encyclopaedia, Genealogy, and Tradition. University of Notre Dame: Notre Dame, 1990, p. 22). Se os primeiros princípios não foram verdadeiramente realizados… esteja certo, então, de que mais cedo ou mais tarde devemos começar de novo, porque a natureza descobrirá nossos erros… 

Macintyre salienta que havia um pensamento comum no tempo de Adam Gifford, no fim do século XIX, no sentido de que era reconhecida por todas as pessoas educadas a existência de uma única concepção substantiva de racionalidade, o que não mais ocorre em nosso tempo, porque participamos de uma cultura em que há um debate entre alternativas e conflitantes concepções de racionalidade, com inafastáveis reflexos nas ideias morais. Pelo que se deduz da introdução do livro, as três versões de rivais de moralidade que ele enfrenta são representadas pela Nona Edição da Enciclopédia Britânica, por Genealogia da Moral e pela Encíclica Aeterni Patris, do Papa Leão XIII.

A razão de rejeitar a proposta de Genealogia da Moral foi sumariamente exposta acima. O autor salienta, em outra vertente, que pelo entendimento da Enciclopédia a Filosofia era a Ciência do todo, que reunia em si, como uma síntese, os conhecimentos parciais das ciências, que eram compartimentados, enquanto para Adam Gifford era a Teologia Natural a maior de todas as possíveis ciências, e a única Ciência (Idem, p. 23).

Tendo a concordar com Gifford, porque também concebo a Teologia Natural como a mãe das ciências, a autêntica Ciência, da qual dependem todas as demais, sem prejuízo de conceber, em termos aristotélicos, tal Teologia Natural como equivalente à Filosofia Primeira, ou Metafísica, ligada ao estudo dos primeiros princípios, o que talvez seja abordado ao longo do livro, porque a Encíclica Aeterni Patris, do Papa Leão XIII, tem referenciais tomistas, vinculados às ideias de Aristóteles. Em termos cristãos, vale dizer, não há como afastar essa identidade, porque o seu primeiro princípio é o Logos, conceito que abarca tanto a Filosofia grega como a Teologia judaica, entendendo-o como a Sabedoria ou Inteligência primeira segundo a qual todas as coisas foram criadas, em que tudo está ligado, para além de qualquer compartimentação: No princípio era o Logos, Deus era o Logos, através do qual todas as coisas vieram à existência.

Mas a concepção unitária de racionalidade e de mente racional que predominava no século XIX não mais existe, incluída aquela subentendida constante da Enciclopédia Britânica em sua Nona Edição, porque a Décima Quinta Edição, que circulava no tempo das palestras proferidas por Macintyre, já expressava uma dissolução da posição enciclopedista.

Heterogeneous and divergent contributions, which recognize the diversity and fragmentation of standpoints in central areas, are deeply at odds with the overall scheme, insofar as that scheme presupposes any real unity to the work, rather then merely providing some organization for a massive work of reference (…). The encyclopaedic mode of enquiry has become one more fideism and a fideism which increasingly flies in the face of contemporary realities” (Idem, p. 56). Contribuições heterogêneas e divergentes, que reconhecem a diversidade e fragmentação de pontos de vista em áreas centrais, estão profundamente em desacordo com o esquema geral, na medida em que referido esquema pressupõe uma unidade real para o trabalho, ao invés de apenas fornecer alguma organização para uma grande obra de referência (…). O modo enciclopédico de investigação tornou-se mais um fideísmo e um fideísmo que cada vez mais se opõe às realidades contemporâneas.

O que prejudica, portanto, a unidade intelectual da enciclopédia é a ausência de uma verdadeira linha filosófica que lhe dê consistência racional, que talvez já estivesse presente nem mesmo quando da Nona Edição. Por maior que seja o conhecimento enciclopédico, sem uma vinculação filosófica, espiritual, tal não será verdadeiramente conhecimento, mas um amontoado de informações que não se consegue processar em unidade intelectual.

Portanto, ainda que os últimos séculos tenham representado um enorme acúmulo de informações e conhecimentos parciais, a humanidade continua mergulhada em ignorância quanto às realidades mais fundamentais, porque a Filosofia, ou Teologia, permanece excluída do debate sobre as questões essenciais. Considerando que o conhecimento enciclopédico peca pela desunidade racional, descambando para uma espécie de fé, disso decorre que o retorno a Deus, à Sua Sabedoria, que proporciona a Unidade Inteligente de todas as coisas, é inevitável, porque é melhor a fé na ideia de um Deus que formou nossa civilização, funda os direitos humanos, do que um fideísmo vazio, sem verdadeiro conteúdo.

Não lhes bastou somente errar acerca do conhecimento de Deus, pois vivendo na grande guerra da ignorância, a tais males proclamam paz!” (Sb 14, 22).

Com esse retorno, o verdadeiro conhecimento encherá a terra.

Ninguém fará o mal nem destruição nenhuma em todo o meu santo monte, porque a terra ficará cheia do conhecimento de Iahweh, como as águas enchem o mar.” (Is 11, 9)

Para tanto, é necessário que a honra devida seja dada ao Criador, que Ele seja reconhecido como Deus, Princípio de todas as coisas, exigindo-se a negação do princípio caótico como formador do mundo e da inteligência, porque para este a racionalidade é meramente acidental, o que vale para a razão da enciclopédia, assim como é indispensável dar valor aos seus mensageiros, com destaque para Cristo, que de modo inigualável expressa Sua Palavra, Seu Logos, urge, assim, seja a enciclopédia submetida ao Logos, que é a única razão, a racionalidade unitária capaz de dar inteligibilidade a todos os ramos do conhecimento, e a consequência de tal proceder é nada menos que a verdadeira paz.

Iahweh é exaltado, pois está entronizado nas alturas; ele assegura abundantemente a Sião o direito e a justiça. Nisto estará a segurança dos teus dias: a sabedoria e o conhecimento serão a riqueza capaz de salvar-te, o temor de Iahweh, eis o seu tesouro” (Is 33, 5-6).

A unidade entre corpo e alma

O presente artigo continua o anterior, fruto da leitura de trabalhos de Gottfried Wilhelm Leibniz, incluídos em “A Monadologia e outros textos”, agora mais especificamente os outros escritos constantes na citada obra, que vale a pena ser adquirida e lida, para os interessados em temas filosóficos, porque o custo-benefício é excelente.

No livro há um texto chamado “Sistema Novo da Natureza e da Comunicação das Substâncias”, e chega a ser impressionante o nível de acerto do autor em determinados pontos, segundo penso, como é igualmente inexplicável o motivo de tal abordagem não ser mais difundida. Na realidade, tal fato é plenamente compreensível, de outro lado, pela rejeição de uma visão espiritual de mundo, o que era o comprometimento intelectual do autor em questão, como se extrai de seus textos.

Inicialmente, é possível dizer, a partir do aludido escrito de Leibniz, um grande matemático e filósofo, que ele antecipou em nada menos que duzentos anos os conceitos fundamentais da teoria da relatividade de Einstein, exigindo seja reduzida proporcionalmente a importância dada a este último, sem, evidentemente, desmerecer seu trabalho, que inequivocamente contribuiu para o avanço científico.

Essas considerações, por mais metafísicas que possam parecer, são, contudo, maravilhosamente úteis na física por fundamentarem as leis do movimento, como minha Dinâmica será capaz de demonstrar. Podemos, pois, afirmar, que quando dois corpos colidem cada um é afetado apenas por sua própria elasticidade, causada pelo movimento que nele já existe. E no que diz respeito ao movimento absoluto, nada pode determiná-lo matematicamente, desde que tudo consiste de relações: o resultado sendo aquele em que há sempre uma equivalência perfeita de teorias, como na astronomia; de modo que, seja qual for o número de corpos que tomemos, deveremos arbitrariamente especificar ou o repouso ou algum grau de velocidade àquele que preferirmos, sem que nos seja possível ser refutados pelos fenômenos do movimento, se em uma linha reta, em uma circunferência ou em um composto. É ainda razoável, todavia, em conformidade com a noção de ação que estabelecemos aqui, atribuir movimentos autênticos aos corpos de acordo com o que se explicam os fenômenos do modo mais inteligível” (Gottfried Wilhelm Leibniz. A Monadologia e outros textos. Org. e trad. Fernando Luiz Barreto Gallas e Souza. São Paulo: Hedra, 2009, pp. 69-70).

Na passagem transcrita, Leibniz mostra uma divergência fundamental com Newton, quanto à questão do movimento absoluto, negado por aquele e defendido por este, tema no qual a atual leitura relativística indica o acerto do primeiro. Contudo, entendo que, uma vez considerada a expansão cósmica, que representaria um movimento constante em relação a todos os corpos existentes no universo, poder-se-ia falar em alguma espécie de movimento absoluto, que talvez não seja matematicamente formulável, como defendido por Leibniz, mas conceitualmente inteligível quando sincronizados os movimentos individuais relativos com o movimento da totalidade cósmica representado por aquela expansão, hoje atribuída ao que se chama de “energia escura”, a partir de uma singularidade inicial.

Mas para além da questão do movimento material, é digna de nota a abordagem de Leibniz quanto à sua interpretação metafísica ou teológica do universo, postulando, como um pensador monoteísta coerente, no texto “Sobre a origem fundamental das coisas”, que é necessário admitir Deus como “a razão fundamental e extramundana das coisas” (Idem, p. 72) para que se possa compreender como “uma espécie de Matemática Divina, ou Mecanismo Metafísico, é utilizada na criação das coisas e como a determinação de um máximo encontra lugar” (Idem, p. 74).

O teólogo em exame não consegue fugir de algum entendimento mecanicista de mundo, manifestado nas palavras usadas nos seus textos, o que era comum naquele tempo, constando no apêndice do citado livro, ao transcrever nota do Dicionário Histórico e Crítico de Pierre Bayle, em menção ao trabalho de Leibniz:

Ele (Leibniz) esclarece seu pensamento através do exemplo de dois relógios que estão perfeitamente sincronizados: isto é, ele supõe que, segundo as leis particulares que fazem agir a alma, ela deve sentir fome em um instante; e que, segundo as leis particulares que regem o movimento da matéria, o corpo que está unido àquela alma deve ser modificado quando a alma tem fome” (Idem, p. 104).

Tal passagem se refere ao entendimento de Leibniz sobre a relação entre corpo e alma, uma vez que ele rejeitava a ideia de causas ocasionais referidas por Descartes para explicar a ligação dos movimentos da alma com os do corpo. E a analogia com o relógio ainda existe, uma vez que um dos principais autores ateus da atualidade, Richard Dawkins, escreveu a obra “O Relojoeiro Cego” defendendo uma determinada ideia de seleção natural, cujo título faz referência ao pensamento deísta que via o mundo como uma máquina, como um relógio criado por Deus.

Tal tema é atualíssimo, porque referente ao entendimento sobre a consciência, a conexão entre mente e cérebro (corpo), sendo questão relativa à mais fundamental natureza humana, sobre a existência da alma e do Espírito. As respostas dadas a essas indagações partem de pressupostos metafísicos ou teológicos distintos, com suas várias possibilidades: o monismo materialista, entendendo que a alma é uma ilusão, um mero epifenômeno da bioquímica cerebral; algum tipo de dualismo, como o cartesiano, sustentando a existência de duas substâncias, ou o leibniziano, da sincronia entre alma e corpo; ou um monismo espiritual, do tipo oriental, dizendo que ilusória é a realidade material.

Leibniz afirmava que as almas possuem internamente a representação de todo universo, cada uma de seu ponto de vista, possuindo perfeita harmonia com as coisas que estão fora das almas, regidas pelas leis do mecanismo corporal. “E como a natureza da Alma é representar o universo de um modo muito exato (embora com maior ou menor nitidez), a sucessão de representações que a Alma produz para si mesma irá naturalmente corresponder à sucessão de mudanças no próprio universo” (Idem, p. 67). Desse modo, há também um dualismo no entendimento do autor, por não haver interferência nos mecanismos das leis do corpo com a atividade da alma, porque tudo que ocorre nesta é originado de sua constituição original, como representação de todo universo, expressando cada coisa externa no seu devido tempo, pela harmonia conferida por Deus a todas as coisas.

Por mais louvável e coerente que seja a tentativa de Leibniz, considero necessário superar o entendimento dualista, como também penso serem inaceitáveis os monismos materialista e espiritualista, porque acabam negando a importância do espírito ou da realidade corporal, ainda que, em favor das ideias orientais, deva ser dada prioridade ao plano espiritual, que é, em última análise, de fato, mais real que o corporal. Portanto, é crucial pensar uma forma de monismo integral, e para tanto pode-se ver como indispensável uma nova formulação teológica que abarque a questão, porque o tema da conexão entre e corpo e alma é fruto de uma prévia concepção teológica ou filosófica da realidade, tanto no que diz respeito ao materialismo ateísta como nas versões espiritualistas ocidentais e orientais, incluídos os dualismos de toda sorte.

Inicialmente, vale dizer que concordo com Leibniz quando diz que “Deus é a unidade primitiva” (Idem, p. 34), que “todo corpo se ressente de tudo que se faz no universo, de tal modo que Aquele que tudo vê poderia ler em cada um o que se faz em toda parte e até o que foi ou erá feito, observando no presente o que está afastado tanto nos tempos como nos lugares” (Idem, p. 37), que as almas racionais são “imagens da própria Divindade ou do próprio Autor da Natureza, capazes de conhecer o sistema do Universo e de imitar algo dele por intermédio de amostras arquitetônicas, sendo cada Espírito como uma pequena divindade em seu domínio” (Idem, p. 41), bem como que “as formas constitutivas das substâncias devem ter sido criadas com o mundo e devem sempre subsistir” (Idem, p. 60).

Leibniz entende espíritos como almas racionais, constando no glossário do livro citado que “espírito é uma alma virtualmente reflexiva, uma substância capaz de agir por si mesma. Cada espírito é uma expressão do universo, uma representação viva do universo como um todo” (Idem, p. 109).

Nesse ponto, entendo que há uma questão teológica a ser enfrentada, pois tenho um entendimento monoteísta no sentido de que é mais acertado dizer que há apenas um Espírito, Deus. Em termos escriturísticos “Deus é Espírito” (Jo, 18, 24), e podemos afirmar que “há um só Corpo e um só Espírito” (Ef 4, 4).

Portanto, dizendo que há um só Corpo, falamos que a realidade material é uma só, o que permite que cada corpo individual se ressinta de tudo que se faz no universo, o que é também entendido pela relatividade, na medida em que existem ondas gravitacionais demonstrando que há uma conexão material em tudo que existe, ou mesmo o campo de Higgs, que dá massa a todas as partículas, ou seja, um só Corpo.

Para se entender a existência de um só Espírito exige-se ainda mais esforço interpretativo, mais capacidade intelectiva, porque tal conceito somente é captado transcendentalmente, como unidade de todas as coisas. Para o materialista, ainda que use o Espírito para seus raciocínios e pensamentos, pois apenas por Ele temos essa capacidade, é muito difícil aceitar que somente uma unidade que está além dos corpos individuais, uma realidade imaterial, permite a comunicação entre as ideias particulares. Apenas por meio do Espírito foi possível elaborar a fórmula E=mc², pela inteligência daquele “=” (igual), na lógica que permite a tradução entre conceitos distintos em uma unidade intelectual superior. A inteligência é espiritual e, como tal, não local, está em toda parte, ainda que parcialmente, e daí porque a mesma inteligência, as mesmas leis cósmicas, estão em todo lugar, sendo buscadas pela Ciência, como Leis da Natureza. Há apenas uma Natureza, com suas interconexões profundas e sutis buscadas pela atividade científica, exercida por meio do Espírito, que é um e está presente na alma humana, e somente e em razão da participação nesse Espírito temos inteligência, além de liberdade para agir segundo ou contra Ele.

Finalmente, resta entender o significado da alma, que é algo situado simultaneamente no Corpo e no Espírito, é uma individualidade, uma Mônada, nas palavras de Leibniz, a unidade simples ou átomo real da natureza, ocupando uma posição material no Corpo, no tempo e no espaço, e uma posição inteligente no Espírito, não limitado espacial ou temporalmente. A alma está conectada materialmente a todo universo e espiritualmente ao próprio Deus, porque é em Seu Espírito.

Nossas almas, porque ligadas ao Espírito, que está em todos os lugares e em todos os tempos, e também fora do tempo e do espaço, como sustenta Leibniz, existem, no Espírito, desde antes do mundo.

Nele (em Cristo) Ele (Deus) nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1, 4).

Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo” (Mt 25, 34).

Assim, ao contrário das almas dos animais, que são de racionalidade mais restrita, com menos liberdade, temos possibilidade de tentar negar o Espírito, rejeitando sua ação, sua realidade transcendente, sua inteligência imaterial, para viver apenas no corpo, limitando-nos espacial e temporalmente, como animais, e perdendo, assim, parte significativa de nossa capacidade intelectual.

Se a alma não tem como, em vida, afastar-se do Corpo ao qual está unida, porque é a vida de um indivíduo, um membro vivo desse Corpo, é seu princípio de movimento, sua força ativa; ela pode perder conexão com o Espírito, passando a agir com inteligência, racionalidade, limitada, vivendo como se Ele não existisse, impedindo até mesmo o pleno desenvolvimento de seu cérebro, quanto às conexões neurais associadas à atividade espiritual.

Outrossim, havendo um Corpo, este é movido pelo Espírito, por Deus, que nos permite atuar na parte daquele Corpo em que nossos corpos estão situados, de modo que nossas almas tenham atuação sobre nossos corpos, em unidade intelectiva.

Mas, além disso, também podemos atuar sobre o Corpo, seja por meio do Espírito, em sua não localidade, com Sua força, que ainda desconhecemos, presente na energia abundante que a realidade quântica demonstrou existir, seja por meio instrumentos materiais elaborados como resultado da atividade espiritual, por ação das almas individuais interagindo umas com as outras e com o meio natural, o Corpo.

Encerro, finalmente, dizendo que a unidade entre corpo e alma, como salientado, é inegável, seja para considerar a alma ou o corpo como ilusão, ligada ao seu oposto que é a única autêntica realidade, seja de modo sutil, como no dualismo, que aceita suas duas existências, ou como sugerido acima, a alma como órgão do único Espírito no único Corpo, devendo cada um escolher a proposição que seja mais adequada às suas concepções mais fundamentais da realidade, isto é, mais coerente com sua Teologia.

A indispensabilidade metafísica e A Monadologia

O mesmo fato me deixa extremamente animado, por um lado, e profundamente irritado, de outro, a indispensabilidade metafísica, o que decorre do fato logicamente inegável de que a ciência de hoje é antes decorrente de pressupostos metafísicos do que propriamente da atividade experimental, na medida em que esta tem aqueles como antecedentes metodológicos necessários.

Inicialmente, é necessária uma definição básica de Metafísica, que pode ser tanto tomada como o que está além do nosso conhecimento da Física quanto no sentido de Ideologia, ou Filosofia, ou seja, a forma fundamental de um entendimento mais amplo e completo de mundo. Isso decorre da circunstância científica resultante da incapacidade humana de alcançar experimentalmente, de forma imediata, determinados fenômenos da realidade, que somente são atingidos, ao menos inicialmente, na forma de experimentos ou elaborações mentais ou conceituais, e daí a indispensabilidade metafísica.

A partir de algo conhecido e sentido é (re)formulada uma hipótese de organização do mundo, que é uma concepção ideológica ou proposta metafísica, tentando-se, então, através de ações, medições e observações a associação racional e sensível de fenômenos conhecidos com aqueles logicamente decorrentes dessa organização de mundo. Esta e alguns de seus aspectos, portanto, até que sejam comprovados, devem ser considerados conceitos metafísicos, porque além da física, superam nossa capacidade experimental imediata.

Tomemos por exemplo uma das últimas grandes descobertas científicas, produzida pela mais cara e maior máquina já produzida pela humanidade, o LHC – Large Hadron Collider, ao encontrar os traços deixados pelo bóson de Higgs, que era apenas uma hipótese até sua comprovação em 2013. De outro lado, o valor encontrado para a massa do bóson de Higgs foi aproximadamente de 126GeV (giga-elétron-volt), que frustrou as expectativas metafísicas dos físicos, que pretendiam um valor de 115GeV ou 140GeV, que seriam compatíveis, respectivamente, com as ideias da supersimetria e do multiverso, este ligado a uma ideia de caos.

No documentário Particle Fever – A Febre das partículas (https://www.youtube.com/watch?v=sIrxEq7JvhQ), é muito interessante a sociologia da ciência na discussão sobre os possíveis efeitos da definição da massa do bóson de Higgs para as carreiras dos físicos e para as possibilidades científicas. E após a grande celebração pela confirmação da descoberta do bóson de Higgs, é curiosa a discussão sobre a natureza metafísica dos resultados, segundo os quais o Higgs não é matematicamente adequado nem às teorias que os físicos desenvolviam sobre supersimetria e nem acerca do multiverso. Uma cientista tem uma fala marcante, dizendo que “a nova física ainda está para ser descoberta”. Tal manifestação é efeito do enigma metafísico para o qual apontou o bóson de Higgs, exigindo, de fato, uma nova Filosofia, que seja adequada à nova Física.

A Física, como Ciência mais básica, portanto, é dirigida pelo pensamento metafísico, queiram ou não os antimetafísicos, o que é motivo de irritação, porque as ideias que ainda orientam as pesquisas são essencialmente metafísicas: multiverso, supersimetria, teoria das cordas etc.

A Metafísica é, dessarte, indispensável. Mesmo tendo sido relegada nas áreas humanas e sociológicas, é essencial e pressuposta naquelas tidas como naturais, o que é mesmo uma contradição, resultado do domínio materialista na atividade científica contemporânea no âmbito do conhecimento sobre a humanidade, que deve ser tida como majoritariamente inconsistente, filosoficamente incoerente.

A busca da integridade filosófica, ou metafísica, portanto, exige a conjugação das ideias científicas mais modernas com os mais tradicionais sistemas de pensamento, sendo minha opção óbvia uma linha dentro do pensamento monoteísta. Nesse ponto, destaco a grande satisfação na leitura de uma pequena grande obra, A Monadologia, de Leibniz, porque há muito não encontrava tanta coerência em tão poucas páginas, cerca de vinte, em formato de livro de bolso, que contêm os noventa parágrafos do texto em questão.

Gottfried Wilhelm Leibniz foi um gênio, tendo inventado, simultaneamente com Sir Isaac Newton, mas de forma independente, o cálculo diferencial e integral, fundamental para os empreendimentos científicos dos séculos seguintes. Mas o que destaco é seu entendimento metafísico monoteísta, sua forma de pensar o mundo criado por Deus.

Ainda que seja possível que haja, naturalmente, falhas nos detalhes de seu pensamento, é digno de nota o desenvolvimento de uma concepção de universo levando em consideração os atributos do verdadeiro Deus, que é Bom.

<52> E é por isso que entre as Criaturas as Ações e as Paixões são mútuas. Pois Deus, comparando duas substâncias simples, encontra em cada uma delas razões que O obrigam a acomodá-las uma à outra e, por conseguinte, o que é ativo sob certos aspectos, é passivo sob outro ponto de vista: ativo enquanto o que nele se conhece distintamente serve para explicar o que se passa em outro; e passivo enquanto a razão do que nele se passa se encontra no que se conhece distintamente em outro (Teodiceia § 66).

<53> Ora, como há uma infinidade de Universos possíveis nas Ideias de Deus e apenas um único pode existir, tem de haver uma razão suficiente da escolha de Deus, que O determina a um em vez de outro (Teodiceia §§ 8; 10; 44; 173; 196 ss; 225; 414-416).

<54> E esta razão só pode encontrar-se na conveniência ou nos graus de perfeição que esses mundos contêm, cada possível tendo o direito de pretender a Existência em proporção à perfeição que envolver (Teodiceia §§ 74; 130; 167; 201; 345 ss; 350; 352; 354).

<55> E essa é a causa da Existência do melhor, que Deus conhece pela Sua sabedoria, escolhe pela Sua bondade e produz pelo Seu poder (Teodiceia §§ 8; 78; 80; 84; 119; 204; 206; 208; Resumo 1ª Objeção; 8ª Objeção).

<56> Ora, esse vínculo ou essas acomodações de todas as coisas criadas a cada uma, e de cada uma a todas as outras, faz com que cada substância simples tenha relações que exprimem todas as outras e seja, por conseguinte, um perpétuo espelho vivo do universo (Teodiceia §§ 130, 360).

<57> E assim como uma mesma cidade, observada de diferentes lados, parece outra e se multiplica em perspectivas, assim também ocorre que, pela quantidade infinita de substâncias simples, parece haver outros tantos universos diferentes, os quais não são, todavia, senão perspectivas de um só, segundo os diferentes pontos de vista de cada Mônada (Teodiceia § 147).

<58> E esse o meio de se obter tanta variedade quanto possível, mas com a maior ordem, ou seja, é o meio de obter tanta perfeição quanto se possa (Teodiceia §§ 120; 124; 214; 241-243; 275)” (Gottfried Wilhelm Leibniz. A Monadologia e outros textos. Org. e trad. Fernando Luiz Barreto Gallas e Souza. São Paulo: Hedra, 2009, pp. 35-36).

Leibniz consegue, num mesmo e curto texto, compatibilizar ideias de supersimetria e de múltiplos universos dentro de uma ideia única de universo com ordem absoluta. Ele concebe Deus como a unidade primitiva que é origem de todas as Mônadas, das quais somos um tipo especial, porque Espíritos, “imagens da própria Divindade ou do próprio Autor da Natureza” (Idem, p. 41), Mônadas que são as substâncias simples, os verdadeiros átomos da natureza.

Tal proposta tem uma proximidade impressionante com a ideia de ordem implicada de David Bohm, ao sustentar uma interligação em tudo que existe, dizendo que o movimento da luz em cada região se expande interferindo em cada região do espaço, e se “expande por todo o Universo e sobre todo o passado, com implicações para todo o futuro”, gerando uma noção da nova visão da realidade, em que “a ordem total está contida, de algum modo implícito, em cada região do espaço e do tempo”; e implícito, no caso, decorre do verbo “implicar”, significando “dobrar para dentro”, de modo que “cada região contém a estrutura total ‘envolvida’ dentro dela” (David Bohm. Totalidade e a ordem implicada. Trad. Teodoro Lorente. São Paulo: Madras, 2008, p. 157). A concepção é a mesma antes citada: esse vínculo ou essas acomodações de todas as coisas criadas a cada uma, e de cada uma a todas as outras, faz com que cada substância simples tenha relações que exprimem todas as outras e seja, por conseguinte, um perpétuo espelho vivo do universo.

É importante destacar que Leibniz tem uma ideia de Justiça Divina, sendo que o nome de sua obra Teodiceia reúne os conceitos de Théos (Deus) e Díke (Justiça), e não esquece as noções de compensação e recompensa inerentes à cosmovisão monoteísta, muitas vezes esquecida na atual mentalidade cristã, dizendo ele que “os pecados devem carregar consigo sua penitência, em relação à ordem da natureza e em virtude da estrutura mecânica das coisas; da mesma maneira que as belas ações atraem suas recompensas por vias mecânicas, com relação aos corpos, ainda quando isso não possa nem deva acontecer sempre imediatamente” (Obra citada, p. 42), afirmando que não haverá obra boa sem recompensa ou má sem castigo, o que se pode aceitar como correto ainda que a analogia mecânica de mundo não seja a mais adequada. Ressalve-se, ainda, a possibilidade de exercício da misericórdia divina, quando ocorre autêntico arrependimento, correspondente a uma mudança ontológica da Mônada, alterando suas qualidades e ações perante o universo.

O problema do mal existente no mundo, é importante destacar, não pode ser analisado dentro uma perspectiva monoteísta senão com o indispensável pressuposto segundo o qual a morte não encerra a existência humana, de modo que haverá uma prestação de contas, a compensação ou recompensa, sob pena de ruína completa da ideia de um mundo bom criado por um Deus Bom, Justo e Misericordioso.

Nessa linha, é impressionante como Leibniz tem, segundo penso, a correta compreensão da Criação, no sentido de que Deus criou o melhor mundo possível, porque não se poderia esperar outra coisa Dele, e de que Ele não é arbitrário ou injusto, mas segue um Princípio de Razão, o Logos, e é Bom, pelo que, ousadamente, Leibniz afirma que Deus é obrigado a acomodar todas as criaturas em ordem e determinado a escolher o melhor universo, que Deus conhece pela Sua sabedoria e escolhe pela Sua bondade.

Deus é o Ser mais Ético que se pode conceber, e, como tal, como Ético, é de sua Natureza agir segundo o Bem, pelo qual se pode dizer é obrigado e determinado a certas ações. Sim, é possível conhecer alguns aspectos do caráter de Deus, e com base nisso deduzir alguns de seus comportamentos lógicos, pois mesmo que nossa lógica seja limitada em relação à de Deus, a Dele não pode ser inferior à nossa, mas sempre melhor, de modo que somente podemos esperar o melhor do Criador. Se assim não agimos, é porque Dele nos afastamos e esquecemos Seus mandamentos.

Muitas vezes antropomorfizamos Deus indevidamente, mas é próprio Jesus Cristo que nos permite compreender Deus a partir de nossas qualidades, mas em um nível ainda mais elevado. Quando concebemos corretamente Deus como Bom, e atuamos para tornar manifesto o mundo mais perfeito que ele criou, obviamente com o coração puro e obedientes a seus mandamentos, Ele nos dá as boas coisas que precisamos. Sejamos bons filhos, para que possamos ver o Pai, que está nos céus.

Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto; pois todo o que pede recebe; o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá. Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? Ou lhe dará uma cobra, se este lhe pedir peixe? Ora, se vós que sois maus sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedem!” (Mt 7, 7-11).

A natureza dinâmica da Vida

Mesmo que se manifeste no corpo, a Vida não pode ser analisada em termos estritamente corporais, quanto aos indivíduos que possuem algumas qualidades vitais, pois são essas qualidades que se vinculam ao corpo físico e lhe dão a característica de vivo. É por demais sutil a distinção entre um indivíduo dormindo, em coma e morto, e essa diferença é relativa a um movimento que se reduz do primeiro ao último. Daí poder-se falar na natureza dinâmica da Vida, relativa a um movimento.

Mas que movimento? O movimento de um tempo, de modo que Vida está associada a tempo, de que existem vários tipos: o instante, que rapidamente passa, o momento, a fase, a época, a era, a eternidade. São muitas formas de conceitar cortes temporais, do mais fugaz ao mais permanente. O conceito de Vida, portanto, deve ser associado ao de temporalidade. E não só isso.

Também a causalidade é essencial para a caracterização da Vida, tida sua natureza como essencial ou acidental. Daí se chega à Filosofia Primeira, Metafísica ou Teologia, porque se pode entender, de um lado, que há uma teleologia cósmica, uma causalidade, que levou ao desenvolvimento dos seres vivos; ou, de outro, que nós somos o mero resultado acidental, fortuito ou casual das forças cegas da natureza. Isso nos define como seres humanos, essa será nossa derradeira natureza: a criatura que recebe o Espírito do Criador, ao qual nos uniremos; ou um momento aleatório em meio a um nada existencial, a que retornaremos, individual e coletivamente, no próximo instante ou em alguns milhares, milhões ou bilhões de anos, no Big Crunch, Big Rip, Big Freeze ou Big Slurp. Vale dizer que em todas estas hipóteses A Criação é completamente ignorada, e Jesus Cristo não tem o menor significado.

Dito isso, não seria possível conciliar uma teoria científica séria com algum entendimento Monoteísta de cosmos? Evidentemente que sim, mas todas as propostas que tentam ser levantadas nesse sentido são solenemente ignoradas ou prontamente repelidas pelo establishment, pelo materialismo e neodarwinismo que rejeitam tudo que diga respeito ao mundo divino, ao Espírito, porque anticifientífico.

Contudo, o Cristianismo não é uma teoria da ignorância, mas da Sabedoria, porque Deus quer “todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 4). Verdade que é tanto teológica como filosófica e científica.

Para superar essa barreira intelectual, é preciso, indispensável, entender a afirmação de Jesus Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” também em termos modernos, porque sua fala tinha conotação científica para a época, e Paulo, o maior teorizador do Cristianismo, era um grande conhecedor não só da Teologia judaica como da Filosofia grega, que sustentava a racionalidade daquela época.

Os conceitos Vida e Deus, assim, são indissociáveis, sendo mister enfrentar sua essência, seu centro inteligível. Nesse ponto, é mais importante saber onde está o centro de uma esfera ou círculo do que sua superfície ou circunferência, porque apenas o centro permite definir o raio ou o diâmetro, dando-lhe inteligibilidade. Da famosa série Dark, que termina em nova formulação do paradoxo do avô, e que fere o princípio da não contradição, porque o acidente é e não é ao mesmo tempo, de modo que sua solução somente pode ser interpretada como intervenção divina, literalmente a ação de anjos, vale citar a frase: “O que sabemos é uma gota. O que não sabemos é um oceano”. Não é possível, em todo caso, conhecer o oceano sem aquela gota, indispensável para a concepção do todo maior que integra, cujo tamanho ou dimensão talvez seja impossível compreender.

Numa escolha impossível, portanto, entre o centro e a margem, em que esta é definida por aquele, pelo que mesmo a busca da última pressupõe alguma ideia do primeiro, é preciso fixar uma referência, o ponto de apoio, a raiz, o princípio que servirá de fundamento para o desenvolvimento de uma ideia.

Assim, aquele que se diz cristão, mas para quem Jesus não é, de alguma forma, o centro de sua concepção de Vida, daquilo que se entende por Vida e que fundamenta os movimentos de sua vida, talvez não seja verdadeiramente cristão. Se toda sua concepção de Vida estiver limitada à narrativa com conceitos como Big Bang, Big Crunch, Big Rip, Big Freeze ou Big Slurp, que dizem respeito a oceanos de ignorância, sem a inserção de um significado ontológico sobre a crucificação e ressurreição de Jesus Cristo, sua visão não será propriamente cristã, mas algo como um materialismo ou ateísmo, mitigado, ou não.

O centro do Cristianismo decorre desse fato, um evento histórico, que aconteceu no mundo material: “A este Jesus Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas”. “Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos, e disto nós somos testemunhas”. (At 2, 32; 3, 15).

Indispensável, pois, que tal questão esteja no centro da definição do que seja Vida, o que também se aplica a nós.

E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11).

Sem a ressurreição, o Cristianismo é uma mentira. Sem esse fato material, que exige alguma explicação, o cristão é uma falsa testemunha:

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam” (1 Cor 15, 12-15).

Para o Cristão, pois, o movimento da Vida não cessa com a morte do corpo individual, corpo o qual não é de modo algum desprezível, uma vez que templo do Espírito do próprio Deus, existindo, por isso, um nível de movimento que não cessa quando o corpo pára, e que ressurgirá novamente em cada indivíduo, mesmo que essa dinâmica ainda seja para nós um oceano de ignorância. Mas, para além desse desconhecimento, é um pressuposto factual e cognitivo do Cristianismo que a plenitude da Vida se manifestou naquela gota do oceano chamada Jesus Cristo, significando nele tudo aquilo que desconhecemos, mas que em sua ressurreição passou a ter um sentido, mesmo que obscuro, para nós.

Num momento trágico da humanidade, em que a morte é um dos temas centrais, um fato histórico, marcado pelo simbólico e real número de cem mil mortos somente no Brasil, é importante entender a dinâmica por trás desses eventos, com algumas causas recentes e outras que remontam à antiguidade, associadas a ideias, a espíritos, que movem as pessoas e as nações, dentre elas aquelas referentes aos conceitos sobre a origem de todas as coisas e ao nosso papel cósmico, como indivíduos e como espécie, como nações e humanidade, como liderados e como líderes. Enfim, se cada um e todos somos meros acidentes cósmicos ou algo muito, muito mais valioso. Disso decorre como devemos nos portar diante da Vida, em sociedade, perante nossas obrigações sociais, que são morais, jurídicas e religiosas, e sobre como tratamos nossos corpos mortais.

A reflexão não pode se limitar a apontar dedos e indicar culpados, a oportunidade deve servir para uma mudança de entendimento e de comportamento mais profundos, também sobre a responsabilidade dos Cristãos e a função do Estado, sobre que ideias queremos nos governando, sobre qual conceito de Vida devemos adotar. Mesmo que a morte não seja o fim, é indispensável que saibamos nos portar como vivos, valorizando nossos corpos e nossas almas, e sobre o Espírito que nos anima.

Que a Vida tem natureza dinâmica, portanto, não se pode ter dúvida, na medida em que resulta de uma infinidade de interações, incompreensíveis em suas características mais profundas, porque o conhecimento da gota não permite entender o oceano, apenas para ele aponta, e é por um ato fundamental de fé, cientificamente não demonstrado, em uma direção ou outra, que escolhemos, ou livremente arbitramos, Sua origem, como cega fatalidade ou por ação de uma Inteligência antecedente.

Na narrativa Cristã, Jesus é o que mais próximo temos de nós quanto a esse movimento cósmico mais amplo, pois estão além da experiência humana imediata tanto o início de tudo quanto o começo da Vida, tendo ele nos mostrado a correta dinâmica de seu desenvolvimento, por suas ações e interações comunitárias, que levaram aqueles que com ele conviveram a continuar seu movimento de entrega corporal, o que vale ainda hoje, permitindo-se morrer enquanto davam e dão o testemunho da sua ressurreição, situação que somente é adequadamente compreendida tendo essa ressurreição como um fato da Vida, um movimento real e material ocorrido no tempo e no espaço, e que ainda produz efeitos, tanto naqueles que continuam a segui-lo como nos que recebem os bons resultados de suas boas ações.

Na dinâmica da Vida, portanto, nossas ações não têm efeitos apenas de curto espaço e alcance temporal, possuem também consequências de amplo espectro, cabendo a nós, como Cristãos, e como cidadãos, tentar valorizar o que melhor expressa a direção a seguir, o que, contudo, mostra-se por demais ofuscado nas ações das lideranças várias de nossa civilização, o que vale, deve-se dizer, tanto para os têm em seu discurso a defesa da Vida como para os que ignoram o que isso significa.

A Criação

Este artigo continua um tema já tratado em “O ser e o estar: o problema ontológico do nada” (https://holonomia.com/2019/05/01/o-ser-e-o-estar-o-problema-ontologico-do-nada/), cuja pretensão, deve-se reconhecer, bastante controversa, é restaurar a Teologia Cristã a suas origens, na mensagem do próprio Jesus e seus apóstolos, transmitidas por estes mesmos, ou seus seguidores mais próximos, incluídos seus significados filosóficos, escatológicos e históricos. Retomando o argumento:

Pela Teologia, o mundo foi criado pelo Deus único, e apesar de alguns entenderem que essa criação ocorreu a partir do nada, pela criação ex nihilo, existe uma contradição lógica nessa ideia, conforme expressão ex nihilo nihil fit, significando que nada surge do nada. Em nossa experiência ordinária as coisas não surgem do nada. Há na física o princípio da conservação da energia, além do brocardo segundo o qual na natureza nada se cria, tudo se transforma. Mesmo no texto sagrado não é dito que Deus criou tudo a partir do nada, pois a Bíblia informa que ‘no princípio criou Deus céus e terra’, sem que seja informado que a criação tenha sido feita do nada.

Uma boa interpretação teológica pode ser feita da carta aos Hebreus, para entender que o mundo visível surge de um mundo invisível, e não do nada: ‘Por isso é que o mundo visível não tem sua origem em coisas manifestas’ (Hb 11, 3). É possível que haja coisas que somente se tornam visíveis, manifestas ou sensíveis depois de determinados procedimentos ou da aquisição de qualidades especiais necessárias para a percepção dessa realidade mais sutil, até então invisível, mas já existente. (…)

Na Teologia, o argumento óbvio para refutar a ideia de uma criação a partir do nada está no fato pressuposto de que Deus estava presente antes da criação do mundo, porque dentre os atributos divinos está a onipresença, e uma vez que ‘oni’ é um prefixo latino que significa ‘todo’, pelo que onipresente é o que está em todos os lugares e tempos, em todas as partes, ubíquo, o conceito de nada é incompatível com o de Deus, sendo apenas uma palavra com significado meramente lógico, instrumental, com existência mental e não sensível, de modo que não se pode dizer logicamente que a criação ocorreu a partir do nada, e por isso a mente de Deus, e não o nada, é a substância da criação do mundo. Assim, há que se concordar com Aristóteles no sentido de pressupor uma causa primeira, que não é o nada, muito antes, pelo contrário, tudo, Deus, como origem cósmica.”

Se não vemos ou sentimos a presença de alguma coisa ou alguém isso não significa que tal coisa ou pessoa não exista, mas que simplesmente podem estar fora de nosso alcance experimental e/ou simbólico.

Muitas vezes é necessário conhecer uma simbologia para que se possa compreender e, às vezes, até mesmo perceber uma realidade. Segundo a famosa frase de Ludwig Wittgenstein: “As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo”.

A linguagem está inserida em uma cultura, que possui uma semântica própria, um entendimento de mundo representado em palavras, que devem ser tidas como símbolos que apontam para uma realidade, aquele mundo da vida que a linguagem pretende traduzir sonora e graficamente, mas com sentido existencial. Portanto, somente é possível entender o significado da criação em um mundo que considere um Deus específico como Criador, especificidade dada por seus atributos e qualidades, como onipresença, onisciência e onipresença, além de sabedoria e bondade.

Assim, Deus criou um espaço em Si mesmo para a criação se desenvolver, uma espécie de “nada”, ainda a ser preenchido, mas já prenhe da Sua presença. Usando a linguagem aristotélica, na criação, todo ato já existe como potência, sendo possível compreender esse ato ainda em potência na simbologia da própria criação, vivendo seu Espírito, porque conhecer, na linguagem bíblica, é ter intimidade, é viver uma unidade corporal e espiritual, não se trata de algo meramente intelectual.

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Pode ser usada a ilustração de uma esfera, como o espaço da criação, a potência do Corpo criado, tendo sido colocado em seu centro virtual a semente de tudo que ainda viria a existir como ato, sendo cabível uma analogia dessa semente com a singularidade inicial do Big Bang, de modo que cabe à criação se desenvolver até atingir a circunferência da esfera, como ato final da criação, limite entre Criador e criatura.

O destino de toda criação é, pois, reencontrar o Criador, quando o tempo e o espaço criacionais chegarem ao seu termo final, quando o Corpo concluir seu crescimento. Nesse momento, segundo as Escrituras, a criação será refeita, renovada, talvez com o estabelecimento de uma nova esfera, mais ampla, mas com um limite mais fluido entre essa nova criação e o Criador.

Vi então um céu novo e uma nova terra — pois o primeiro céu e a primeira terra se foram, e o mar já não existe. Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade santa, uma Jerusalém nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para seu marido. Nisto ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: ‘Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!’ O que está sentado no trono declarou então: ‘Eis que eu faço novas todas as coisas’. E continuou: ‘Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras.” (Ap 21, 1-5)

Tal profecia já constava de Isaías: “Com efeito, vou criar novos céus e nova terra; as coisas de outrora não serão lembradas, nem tornarão a vir ao coração” (Is 65, 17; 66, 22).

Nós somos membros desse Corpo, e podemos nos desenvolver individualmente segundo Suas Leis, integrados às corretas forma e matéria corporais, ao Corpo e ao Espírito, ou tentando uma autonomia, com normas próprias, como um câncer, que passa a agir desvinculado do organismo em que se situa, uma doença. Assim, em nossa morte, ou no momento em que o Corpo atingir sua maturidade, nos depararemos com os limites da criação, com o Criador, quando poderemos estar de frente para Ele, porque já caminhando em Sua direção, pelo que não haverá surpresa nesse encontro, de lado e até mesmo de costas para o Criador, caso em que o susto não poderá ser evitado. Nesse momento haverá o julgamento, a prestação de contas, quando a própria criação testemunhará sobre aqueles que contribuíram para seu desenvolvimento e os que se voltaram contra ele, e contra Ele.

Pois a criação, submissa a ti, seu Criador, inflama-se para castigar os injustos e abranda-se para beneficiar os que confiam em ti” (Sb 16, 24).

Pois a criação inteira, obedecendo às tuas ordens, em sua natureza tomava novas formas para guardar incólumes os teus filhos” (Sb 19, 6).

Quando, no princípio, o Senhor criou as suas obras, assim que foram feitas, atribuiu um lugar a cada uma. Ordenou para sempre a sua atividade e suas tarefas pelas suas gerações” (Eclo 16, 26-27).

Por suas palavras o Senhor fez suas obras e a criação obedece à sua vontade” (Eclo 42, 15).

Existe, dessarte, uma Lei da Natureza, uma Lei da Vida, o Logos, que podemos seguir, para vivermos em saúde, de forma íntegra, santa. E o melhor exemplo, insuperável, que nunca poderá ser ultrapassado, é o de Jesus, que viveu plenamente esse Logos, obedecendo à Sua vontade, de modo que mostrou em si, em sua vida, o sentido do crescimento do Corpo criado, em favor do qual renunciou ao seu corpo individual, na cruz.

Tal foi a correção de seu caminhar que encontrou Deus frente a frente, sem falhas, naquele momento da maturidade do Corpo criado, e assim voltou ao Corpo no momento em que o deixou, no terceiro dia de sua morte, ressuscitado, em novo corpo individual, servindo de Luz para os que ficaram, como testemunho da Verdade, mostrando que o Caminho por ele seguido é o único que leva à Vida da criação, ainda que ele, pessoalmente, tenha morrido.

Essa morte não era necessária para Jesus, mas indispensável para corrigir a direção do crescimento do Corpo, tendo sido ele a cura do câncer que crescia e se desenvolvia na criação, desde o pecado, a desobediência, desde que o a liberdade foi usada contra o Corpo e o Espírito, contra a Lei, contra o Logos, o que Jesus veio reparar: “Desse modo, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20,28).

Outrossim, a simbologia cósmica somente pode ser adequadamente compreendida reconhecendo que “não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4, 12), e esse nome é Jesus, o Cristo, o Rei, o maior líder da humanidade, porque sacrificou-se para redirecionar a criatura para seu Criador. Sua morte foi a semente da nova criação, que começa aqui.

Por isso Deus o sobreexaltou grandemente e o agraciou com o Nome que é sobre todo o nome, para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho dos seres celestes, dos terrestres e dos que vivem sob a terra, e, para glória de Deus, o Pai, toda língua confesse: Jesus é o Senhor” (Fl 2, 9-11).

A criação, portanto, tem um destino, um ponto final de crescimento, quando passará, e será renovada, momento que alguns profetas já testemunharam em Espírito, porque viviam segundo a ordem dada por Deus, e ainda que ninguém saiba exatamente quando será, a magnificência do Altíssimo nos fez revelar alguns sinais, para nos encorajar, dando-nos esperança para a realidade vindoura. “Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão. Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai” (Mt 24, 35-36).

Esse testemunho é para fortalecer nossa esperança, dar-nos força para continuar durante as provações, quando a doença da criatura tenta sufocar a boa semente.

Penso, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se em nós. Pois a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação foi submetida à vaidade — não por seu querer, mas por vontade daquele que a submeteu — na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente. E não somente ela. Mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo” (Rm 8, 18-23).

Existe uma realidade transcendente que, ao mesmo, tempo, já está presente na imanência criada, ainda que não a vejamos, porque o Espírito já nos revelou, ainda que parcialmente, a plenitude que, enfim, será alcançada pela criação e, então, sua renovação, quando a criatura poderá desfrutar da convivência do Criador.

The End of Quantum Reality

The End of Quantum Reality” é um documentário produzido por “The Philos-Sophia Initiative” (https://philos-sophia.org/), instituição que tem o objetivo de contribuir para a transformação de nossa civilização através da recuperação do aspecto “vertical” da realidade cósmica, com base nas descobertas filosóficas e científicas de Wolfgang Smith.

O documentário objeto deste artigo foi lançado no início de 2020, e adiei o cadastro em novo sítio de disponibilização de vídeos pela internet até recentemente, quando conheci a página Lumine TV (https://lancamento.lumine.tv/cadastro/), através de e-mail recebido do próprio sítio Philos-Sophia. Com surpresa, descobri que também está disponibilizado no sítio o documentário “The Rise of Jordan Peterson”. O melhor é que a plataforma disponibiliza 14 (quatorze) dias de acesso gratuito ao seu conteúdo, pelo que esse terceiro motivo torna imperativo o convite para conhecer o vídeo sobre o trabalho e o pensamento de Wolfgang Smith, e também de Jordan Peterson e a vida de santos, como o Padre Pio, todos com legenda em português.

Assisti ao filme na noite de ontem, cujo assunto é um dos mais complexos, talvez o mais elaborado tema da Ciência e da Filosofia dos últimos cem anos, e que retoma uma discussão de séculos, que, na verdade, surge com a própria Filosofia.

Por que poucas pessoas sabem disso? Wolfgang Smith dá uma resposta quando justifica o abandono de sua bolsa de estudos em Filosofia três semanas após o início do curso.

Se no início de sua carreira acadêmica ele pensava que a Física era o caminho para a compreensão do mundo, depois descobriu que a Filosofia havia se tornado para ele uma busca sagrada, porque significava “amor à sabedoria”, relativo à sabedoria profunda, mística, espiritual, que está além de acrobacias mentais, e por haver amor, não apenas uma questão profissional.

Tal como David Bohm, Smith entendeu que a ciência como a entendemos hoje é insuficiente para explicar o mundo, sendo necessário um retorno à sua origem, à Filosofia. Assim, depois de se formar em Física aos 18 (dezoito) anos, Smith foi cursar Filosofia na Universidade de Cornell, mas lá ficou apenas três semanas, abandonando o curso. Em suas palavras:

Depois de três semanas, eu não aguentava mais, não aguentava o ambiente. E fui ao diretor de departamento de Filosofia e disse: ‘Estou desistindo de minha bolsa de estudos. Vou embora’. Porque para mim filosofia era Philo Sophia. E aquelas pessoas: a) não estavam interessadas em Sophia; também não havia nenhum Philos, nenhum amor em seus corações. Era algo profissional, era frio, era seco (…) e senti não apenas que eu não estava interessado naquilo, eu senti que era uma profanação de algo que é fundamentalmente sagrado. Me senti como se estivesse sacudindo a poeira dos meus pés.”

Em suas falas, Jordan Peterson também afirma que a Universidade de hoje subverte a sua função, que 80% (oitenta por cento) dos trabalhos universitários das humanidades, das chamadas ciências humanas, não são citados uma única vez, e nem mesmo os amigos olham esses trabalhos, o que significa um fracasso institucional. Peterson diz que as universidades falham, prolongando o período de adolescência, não ensinando a falar em público, a ler criticamente ou a escrever. Destaca que a busca pelo conhecimento não se encerra aos vinte e poucos anos, e que a Universidade não vem servido ao público maior para o qual foi instituída.

Portanto, é possível dizer, com Smith, que a Sabedoria tem sido profanada, mas o sacudir a poeira dos pés não é desistir, é continuar, haja vista que o Evangelho, e é disso que se trata, é por isso que Universidade foi criada no seio da comunidade Cristã, o Evangelho continua a ser pregado, e continua a se espalhar, a Boa Nova é cada vez mais presente, e da inconsciência representada pelas eleições de Trump e Bolsonaro chegaremos à consciência da necessidade de um Governo submetido à Vontade de Deus, ao Logos, e não à mentira politicamente correta que domina a academia materialista e ateia e a grande mídia.

Para isso, o trabalho de Smith é indispensável, mas insuficiente, porque se é necessário reformular a Filosofia dos últimos quinhentos anos, é também urgente compreender a Teologia de Cristo, corrigindo dezoito séculos de desvio pagão fruto de influência platônica. Nesse ponto, a base aristotélica da Filosofia de Smith está no caminho certo, e deve ser utilizada também na Teologia, para a melhor compreensão da ideia de Encarnação, que o próprio Smith menciona, mas que o dogma acaba por impedir ser melhor entendida.

A recuperação da dimensão Vertical exige que se entenda o verdadeiro significado de “Deus acima de todos”, de uma Verdade ontológica, e Teológica, que o Cristianismo esqueceu, incluindo o fato de que o Messias é também um líder político e faz a vontade do Pai, o Único Deus, e maior que todos. Nas palavras de Cristo: “o Filho, por si mesmo, nada pode fazer mas só aquilo que vê o Pai fazer” (Jo 5, 19); “Meu Pai, que me deu tudo, é maior que todos e ninguém pode arrebatar da mão do Pai” (Jo 10, 29); “o Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28).

A verticalidade também se aplica a Jesus, o enviado de Deus, como obviamente a nós, os enviados do enviado, para proclamar o Reino.

Em qualquer cidade em que entrardes e fordes recebidos, comei o que vos servirem; curai os enfermos que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’. Mas em qualquer cidade em que entrardes e não fordes recebidos, saí para as praças e dizei: ‘Até a poeira da vossa cidade que se grudou aos nossos pés, nós a sacudimos para deixá-la para vós. Sabei, no entanto, que o Reino de Deus está próximo’. Digo-vos que, naquele Dia, haverá menos rigor para Sodoma do que para aquela cidade. Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Pois se em Tiro e Sidônia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há muito teriam se convertido, vestindo-se de cilício e sentando-se sobre cinzas. Assim, no Julgamento, haverá menos rigor para Tiro e Sidônia do que para vós. E tu, Cafarnaum, te elevarás até ao céu? Antes, até ao inferno descerás! Quem vos ouve a mim ouve, quem vos despreza a mim despreza, e quem me despreza, despreza aquele que me enviou’” (Lc 10, 8-16).

Em verdade, em verdade, vos digo: o servo não é maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que quem o enviou. Se compreenderdes isso e o praticardes, felizes sereis. Não falo de todos vós; eu conheço os que escolhi. Mas é preciso que se cumpra a Escritura: Aquele que come o meu pão levantou contra mim o seu calcanhar! Digo-vos isso agora antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais que Eu Sou. Em verdade, em verdade, vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim recebe e quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (Jo 13, 16-20).

A ubiquidade da realidade quântica transforma o pensamento materialista em loucura, dando novo espaço às questões espirituais na mais fundamental das ciências, e por isso haverá menos rigor para Sodoma do que para a Universidade, de modo que as ideias de Wolfgang Smith devem ser seriamente consideradas, trazendo o conhecimento de volta ao mundo real, ao reino das qualidades, porque “o grande projeto para reduzir o mundo ao que pode ser medido e operado por instrumentos e procedimentos da ciência física está chegando ao fim”, abrindo o conhecimento da humanidade novamente para um cosmos integral, em que o Caminho a ser seguido… é para cima, pela dimensão vertical da cruz, ligando terra e céu.