O tempo existe

O físico Carlo Rovelli sustenta que o tempo não existe, sendo uma ilusão, conforme reportagem produzida pela BBC, disponibilizada sua leitura no YouTube com o título “‘O tempo não existe’: a visão de Carlo Rovelli, considerado ‘novo Stephen Hawking’” (https://www.youtube.com/watch?v=M3xT8azucew).

Do referido autor, já li a obra “A realidade não é o que parece”, na qual tenta retomar, em certo sentido, a ideia atomista de que a realidade seria feita de pequenas partículas, que formam os corpos maiores. Nesse sentido, importa salientar que Rovelli, assim, tem uma visão materialista de mundo, e tal modo de pensar determina o sentido de todas as suas ideias, para o bem e para o mal.

Compará-lo com Stephen Hawking, por sua vez, talvez não seja propriamente um elogio, dado que o falecido cientista e escritor não era exatamente o exemplo de integridade que se espera de uma pessoa da Ciência. Essa é a conclusão do Dr. Brian Keating entendendo haver desonestidade intelectual na obra de Stephen Hawking, aduzindo que este manipulava e distorcia conceitos físicos, como pode ser visto na conversa: “Stephen Meyer: Return of the GOD Hypothesis!”(https://www.youtube.com/watch?v=1ZvrwDtg7rQ).

O que muitos físicos (o que se aplica igualmente para juristas, políticos, religiosos etc) muitas vezes fazem, portanto, é se aproveitar da ignorância alheia e distorcer as informações, comunicando mentiras como se verdades fossem.

Isso vale também para a abordagem materialista de Carlo Rovelli, que, ao mesmo tempo, afirma suportar uma ideia atomista de mundo, segundo a qual as conexões entre os fenômenos são determinadas pela pura aleatoriedade, em que pese os fundamentos da proposta atomista terem sido rejeitados pela física moderna, e considerar que o mundo é feito de relações, mas apenas considerando aquelas que interessam ao seu ponto de vista, em uma parcialidade naturalmente incompleta e cientificamente inadequada, que despreza a inteligência do todo maior.

A perspectiva filosófica, como destaca o autor, é indispensável, devendo incidir sobre os fatos medidos em laboratório, que são restritos e devem ser avaliados levando em conta seu entorno, e o sentido respectivo, na maior amplitude inteligível. A análise materialista peca por não explicar minimamente como é possível, desconsiderando a existência do espírito, a ocorrência de memória, inteligência e mesmo a compreensão da (não) passagem do tempo. Daí a afirmação de que é uma ilusão, o que decorre da fragmentação do conhecimento do mundo, sem sua reunificação, o que não ocorre mesmo teoricamente.

Para chegar a uma nova teoria é, sim, preciso construir um esquema mental não dependente inteiramente de nossa concepção usual de espaço e tempo, mas ao se pensar o tempo sem vê-lo como uma variável contínua, isto é, atomisticamente, como sustenta o autor, perde-se simplesmente a ideia de tempo, da sequência dos eventos, porque somente é possível escapar de um caos absoluto e da total ininteligibilidade ao se adotar uma referência temporal que utilize um marco temporal inicial e final, uma continuidade, ainda que pontualmente descontínua, dentro da qual o espaço-tempo é considerado, por uma sequência de eventos, e mesmo que o tempo seja individual, até certo ponto, da perspectiva da relatividade, ao exigir os referenciais espaço-temporais específicos, somente é possível considerar os tempos relativos ao se postular os marcos temporais dos eventos considerados, e daqueles outros que também estão a eles relacionados, porque existentes na realidade, ao menos potencialmente, com os marcos temporais considerados, o que exige a correlação de todos os tempos possíveis, necessidade esta que deve retroagir até o princípio concebível da contagem do tempo, quando o próprio espaço-tempo foi formado, e também para o futuro da expansão cosmológica, levando em conta todos os tempos relativos aos eventos potencialmente analisados, de modo que a correlação dessas contagens demanda a consideração de algo que seja conceituado como um tempo absoluto, que serve de referência para todos os tempos individuais, surgido no primeiro espaço-tempo de plank formado, que tornou possível tanto a existência material quanto a ideia da contagem do tempo.

A nossa incapacidade de computar todos os marcos temporais possíveis e relacioná-los a partir desse ponto inicial não significa que não exista uma contagem absoluta do tempo, apenas que não podemos medi-la segundo nosso conhecimento científico atual, e material.

O que Rovelli e outros materialistas costumam fazer é considerar o recorte da realidade por eles analisado como se fosse a própria realidade, o que é falso, pois aquele recorte simplesmente é uma amostra que deixa de fora um universo de informações, com todas as relações que remetem àquele primeiro momento da existência de nosso universo, levando a um conhecimento parcial e aproximado (ou distante), que não pode ser extrapolado e usado como medida para o conhecimento de toda significação do universo, que inclui todos os aspectos da realidade que foram deixados de fora do experimento.

Portanto, o próprio pesquisador, ao ser indagado, responde “sim, claro que o tempo existe”, ao levar em conta uma questão essencial, as circunstâncias da vida humana concreta. Dizer que o tempo é uma ilusão, que não existe, outrossim, é uma metonímia mal empregada, porque usa conceitos não compreendidos da física quântica, extrapolando-os para âmbitos da realidade aos quais não se aplicam. Porque o materialista ignora a realidade espiritual, que é exatamente o que permite entender o tempo, mesmo em sua abstração científica, acaba não compreendendo o valor da existência, a graça de sermos mais do que um amontoado aleatório de partículas, de sermos um espírito que está fora do tempo e que atua na temporalidade.

O tempo é feito de muitas camadas, como salientado na entrevista, sendo que as mais elevadas são simplesmente ocultas aos materialistas, que medem as coisas apenas da perspectiva da parcialidade dos fenômenos, do aqui e do agora, desprezando a totalidade dos eventos, em sua unicidade, que diz respeito à não localidade e não transitoriedade, a uma percepção imaterial que é, simultaneamente, temporal e atemporal, ligada à ideia de espírito e do próprio conceito de humanidade, como criatura feita à imagem de Deus, o Espírito criador.

O detalhe das coisas, na acepção espiritual, diz respeito tanto ao passado como ao futuro, porque apenas da perspectiva do espírito, que transcende o espaço-tempo, não há distinção entre o passado e o futuro. A permanência das coisas não é resultado do materialismo, mas da ideia bíblica. “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje; ele o será para a eternidade!” (Hb 13, 8). É o espírito que permite essa compreensão da atemporalidade, muito mal compreendida quando analisada da perspectiva materialista, como a de Carlo Rovelli.

Diz o autor que as propriedades das coisas são relativas a outras coisas e se tornam reais nas interações, que fazem surgir as propriedades. Que as propriedades das coisas são relativas a outras coisas.

Assim, quando todas as coisas são consideradas, mesmo que o espírito esteja além do espaço-tempo, o tempo de que dispomos no corpo se transforma em algo muito concreto, muito real, nada ilusório, representando o espaço para o desenvolvimento do espírito, para valorizar as coisas, as pessoas, os bens que não se perdem com o tempo, e para relacioná-las adequadamente, na vida bem vivida.

De fato, é indispensável que a Filosofia ande de mãos dadas com a Ciência, sendo igualmente necessária a consideração das questões físicas do mundo e da vida corporal, para que a análise filosófica não fique restrita à especulação conceitual e linguística, e faça referência à realidade empírica. “Os filósofos que ignoram o que aprendemos sobre o mundo com a Ciência acabam sendo superficiais”.

Os filósofos que ignoram a História e a realidade humana, igualmente, acabam sendo superficiais, o que vale para a visão materialista do autor, refletida no comentário político, dizendo que o Ocidente está fazendo inimigos, como China, Irã e Rússia, dizendo ser necessário viver de forma respeitosa e colaborativa sem subjugar os outros, quando as nações citadas têm uma difícil relação com a oposição política, a ideia de respeito a direitos é muito distinta da ocidental, ainda que as falhas intelectuais e morais deste lado do mundo também não sejam desprezíveis.

Concordando, finalmente, com Rovelli, podemos dizer que somos, efetivamente, membros de uma única família, a família de Abraão, e a realidade é, sim, tecida de relacionamentos, e permanecemos cegos para o fato de que prosperamos na relação com outros, e não uns contra os outros.

Essa relação, finalmente, ocorre exatamente no tempo, e na história, que tem suas marcas, seu significado, sua direção, que é determinada pela visão de mundo adotada pela pessoa, pela sua filosofia de vida, que é também sua teologia, tendo como exemplos os dos heróis, dos mártires, aqueles que viveram adequadamente suas vidas, e nos deixaram seu testemunho, um legado espiritual que ainda está em construção, a despeito das tentativas dos inimigos de ocultá-lo ou destruí-lo.

Segundo a visão que sigo, o tempo existe, a história tem uma direção, que não é ilusória, individual ou coletivamente.

Individualmente, tenho a esperança apostólica, aguardando, “em Jesus, a ressurreição dos mortos” (At 4, 2), “porque se nos tornamos uma coisa só com ele por uma morte semelhante à sua, seremos uma coisa só com ele também por uma ressurreição semelhante à sua, sabendo que nosso velho homem foi crucificado com ele para que fosse destruído este corpo de pecado, e assim não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6, 5).

No plano coletivo, a esperança temporal ainda diz respeito à vinda do Reino, um tempo que já existe espiritualmente, a profecia de um futuro que acontece agora na eternidade, mas ainda ocorrerá na realidade humana material, como sequência da ação de Cristo e de seus seguidores, o que está relacionado à sua ressurreição, a ser reconhecida como um fato do mundo natural, uma realidade física, que valeu para Jesus e também valerá para nós.

Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. A seguir haverá o fim, quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo Principado, toda Autoridade, todo Poder. Pois é preciso que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés” (1Cor 15, 23-25).

O tempo, portanto, existe, assim como a história, de cada indivíduo e de toda a humanidade. Para que o seu sentido seja compreendido, finalmente, é indispensável que os inimigos de Cristo, os que negam seu Espírito, como os que rejeitam o tempo e a história, desde o Princípio, sejam colocados abaixo de seus pés, rebaixados, para que a Verdade, a Filosofia e a Ciência sejam postas em seu lugar devido, porque, no fim das contas, se não houver Tempo, se não existir Ordem também não haverá Verdade, muito menos Ciência.

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