A crise ideológica chegou ao papado

Não se pode ignorar a fala de Francisco, que indiretamente negou os fundamentos não só do Cristianismo, do que certamente ele não tinha ciência, porque tais fundamentos são hoje obscuros para a maioria absoluta da população mundial, pelos atuais entendimentos teológicos majoritários, como também viola preceitos estabelecidos pela própria Igreja Católica Apostólica Romana.

O papa do fim do mundo talvez seja mesmo o papa do fim do mundo.

Francisco está amando um ídolo, uma imagem, a criatura, e negando o criador, em sua fala pretensamente amorosa. “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5, 29), pelo que não se pode violar as normas da razão, da natureza, e da inteligência, para obedecer a sentimentos de falsa piedade humana.

No vídeo “Papa Francisco e a união civil homossexual” (https://www.youtube.com/watch?v=7DK6Apebw3k), a questão controversa é bem enfrentada, mostrando como a fala de Francisco não só ocorreu, porque não contestado tal fato pelos canais oficiais do Vaticano até o momento, como contraria a doutrina oficial da Igreja. Expõe, ainda, a ideia de que o homossexual pode pertencer a uma família, que não deve expulsá-lo da convivência tão somente por causa de sua opção sexual, desde que mantenha comportamento adequado, o que é parte do tratamento cristão e humano às pessoas, mas que isso não implica em reconhecer a identidade entre a família formada por homem e mulher e o agregado de homossexuais.

Ao defender uma lei de convivência civil, ou união civil, entre homossexuais, Francisco contraria texto oficial da doutrina oficial da Igreja:

“A Igreja ensina que o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimónio, significaria, não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade actual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do património comum da humanidade. A Igreja não pode abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade”. (http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homosexual-unions_po.html)

Tom Wright também se manifesta sobre o tema (https://www.youtube.com/watch?v=xKxvOMOmHeI&t=29s), dizendo que a ideia de casamento, por milhares de anos, e em várias culturas, sempre significou a união entre macho e fêmea, entre homem e mulher, e que a ideia de mudar o significado da palavra casamento (que valeria para a união civil) para incluir pares homossexuais faz parte de uma agenda que implica alterar o significado de outros conceitos sociais fundamentais. Essa agenda é a doutrina materialista, atribuída ao falso profeta, que pretende se passar por mensageiro da verdade, quando o que prega é o embuste e a mentira, com o embuste de ser argumento científico.

Outro vídeo que recomendo é o de Yago Martins, no seu canal Dois Dedos de Teologia (https://www.youtube.com/watch?v=Kb7Ru6vge_4&t=620s), abordando a questão homossexual nas escrituras, com o respeito que a questão merece ser enfrentada, sem demonizar os gays, comparando seus pecados a outros praticados por pessoas heterossexuais.

O que se pode dizer é que Francisco está sob a influência do canto da sereia, tendo perdido contato com a realidade teológica que deveria defender, porque sua aceitação da reiterada conduta anômala, ou mesmo de sua normalização, significa não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade atual, mas também ofusca valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade, abdicando de defender tais valores, alcançados para o bem dos homens e de toda a sociedade.

Uma coisa é o respeito devido às pessoas homossexuais, outra, muito distinta, é aprovar os comportamentos praticados segundo essa orientação inferior, conferindo-lhes dignidade jurídica de normalidade, amparo legal ou proteção social. Uma analogia pode ser feita com a psicopatia, o que vale para outras deficiências mentais ou fisiológicas, porque o psicopata não tem direitos como psicopata, ele tem direitos por ser pessoa humana, não se podendo falar em direitos associados àquela qualidade negativa, na medida em os direitos são vinculados às pessoas, por sua dignidade ao menos potencial, ou, quando muito, às qualidades positivas decorrentes de determinada função social relevante, vinculados à sua utilidade em uma sociedade meritocrática, fundada em determinados valores, de origem espiritual, em que determinados bens são juridicamente protegidos.

Uma questão básica da evolução da vida, que culmina na humanidade, é a diferenciação sexual, porque os seres vivos nas camadas mais inferiores da escala evolutiva não têm essa distinção, de modo que negar a diferença entre as qualidades e funções biológicas é rejeitar a realidade das coisas e adotar procedimento anticientífico. O pensamento igualitário não pode ser levado ao extremo da irracionalidade, porque a ideologia não tem o poder de alterar a realidade das coisas, porque ainda que a mentira consiga atuar por algum tempo, a força da Natureza e da Verdade, no fim das contas, sempre irá se impor.

Tomando-se o exemplo da corrente elétrica, os polos positivo e negativo são distintos, sendo que o funcionamento das máquinas é baseado nessa oposição, que não pode ser ignorada, sob pena de mal funcionamento ou acidentes. Contudo, na vida humana pretende-se negar a distinção entre XX e XY, o que, deve-se repetir, é contrário à metodologia científica. Caso um gráfico seja montado alterando-se indistintamente os eixos X e Y, não se poderá saber qual informação está sendo passada, de modo que a devida especificação das características, qualidades e funções é crucial para a correta atividade científica, pelo que equiparar situações tão distintas quanto as uniões heterossexuais e as homossexuais é adotar comportamento indigno de acolhimento como discurso científico, tratando-se, na verdade, de ideologia da pior espécie, a qual, infelizmente, tem sido acolhida por Francisco.

Portanto, Francisco peca tanto contra a Teologia quanto contra a Ciência, contra a coerência racional, o pensamento estabelecido em racionalidade fundada na realidade das coisas e no pensamento inteligente, que remete a Jesus Cristo e aos profetas, aos verdadeiros homens da Ciência, em que pese a ideologia materialista que tomou conta da divulgação científica nas últimas décadas, alterando até mesmo as orientações da Organização Mundial de Saúde, que passou a entender que X e Y são a mesma coisa.

E caso se considere a legislação na sua devida dignidade, como aquilo que deve representar a própria ordem natural, direcionando corretamente o sentido da evolução humana segundo melhores ideias, também há que se rejeitar a proposta de união civil homossexual.

Isso não significa não conferir direito às pessoas, como a participação patrimonial em sociedades de fato, ou a convivência respeitosa em ambientes públicos, mas dentro de determinados limites bem estritos, com a discrição necessária para não causar escândalo aos pequeninos, porque igualar ou mesmo aproximar a família que funda e sempre fundou a sociedade a agregados decorrentes de vontades viciadas é ofuscar os valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade, e abdicar de defender tais valores, alcançados para o bem dos homens e de toda a sociedade.

A regulamentação dos comportamentos tem também uma função pedagógica, mostrar a experiência adquirida quanto a determinadas ações, para evitar males delas decorrentes, de modo que o exemplo de comportamento é de grande relevância, pela função educadora, para o bem e para o mal.

Caso alguém escandalize um destes pequeninos que creem em mim, melhor será que lhe pendurem ao pescoço uma pesada mó e seja precipitado nas profundezas do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! É necessário que haja escândalos, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem! Se a tua mão ou o teu pé te escandalizam, corta-os e atira-os para longe de ti. Melhor é que entres mutilado ou manco para a Vida do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres atirado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o e atira-o para longe de ti. Melhor é que entres com um olho só para a Vida do que, tendo dois olhos, seres atirado na geena de fogo” (Mt 18, 6-9).

Antes dessa passagem o Mestre tinha acabado de falar: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3).

O Evangelho tem a função de anunciar o Reino dos Céus, em suas dimensões tanto espiritual como política, de modo que o correto comportamento social é fundamental para seu desenvolvimento, e é exatamente contra esse modelo de ação que Francisco se coloca ao apoiar a malsinada união civil.

As crianças são puras, e também muitos crentes, de modo que é realmente um escândalo a fala de Francisco, pela importância de sua posição social, o que leva para o centro do papado o erro e a doutrina enganosa de homens que têm corrompido a sociedade e seu ideário de vida santa, revertendo a doutrina cristã em direção à carne, e à carne viciada, impedindo que as pessoas se tornem como as crianças, criando obstáculos para a entrada no Reino dos Céus.

Esquece Francisco o caminho em direção à santidade que dever orientar a caminhada humana, segundo a doutrina que deveria expressar.

Os filhos deste século casam-se e dão-se em casamento; mas os que forem julgados dignos de ter parte no outro século e na ressurreição dos mortos, nem eles se casam, nem elas se dão em casamento; pois nem mesmo podem morrer: são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição” (Lc 20, 34-36).

O apóstolo Paulo chega a falar que a castidade é melhor e mais santa do que a vida conjugal, mas não impõe o celibato, destacando a direção do melhor comportamento humano.

Quisera que todos os homens fossem como sou; mas cada um recebe de Deus o seu dom particular; um, deste modo; outro, daquele modo. Contudo, digo às pessoas solteiras e às viúvas que é bom ficarem como eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se, pois é melhor casar-se do que ficar abrasado” (1 Cor 7, 7-9).

Os tempos são realmente sombrios, porque quem deveria ser luz está divulgando a doutrina das trevas:

Assim, se a luz que existe em você é escuridão, como será grande a escuridão” (Mt 6, 23).

A grande família

Os conceitos de família e história são interligados, pois cada pessoa tem origem em uma determinada família, com uma história particular, o que vale mesmo para os órfãos, cuja peculiaridade é exatamente a criação fora do ambiente familiar tradicional, fato que marca sua história pessoal.

Cada um de nós participa não só de uma família pessoal, que vai sendo alargada quanto mais se volta no tempo, até que chegamos à conclusão de que integramos a grande família humana.

Em alguns casos, contudo, as famílias sanguíneas, de certa forma, interagem com a história da própria humanidade, por estarem envolvidas em processos coletivos de grande amplitude, o que vale também para grupos sociais, formados pela congregação de diversos laços familiares e comunitários. Podemos vincular nossa história pessoal, ainda, ao desenvolvimento nacional, ou ao de uma determinada ideia.

Da perspectiva mais geral, em termos de história secular, descendemos dos primeiros grupos humanos que provavelmente se desenvolveram no continente africano, e que depois se espalharam pelo globo.

Do ponto de vista religioso, a narrativa bíblica nos coloca todos como descendentes de Adão, e depois de Noé e, então, de Abraão, notadamente do ponto de vista cultural, dada a importância que referida figura tem para o judaísmo, para o islamismo e para o cristianismo. Esse é um modo de vinculação do indivíduo com uma comunidade mais ampla, que hoje é planetária.

Vale dizer que a ideia de fraternidade humana é dependente do ideário cristão, segundo o qual somos todos filhos de Deus, pelo que formamos a família humana.

Falando em família humana, neste fim de semana passei a gostar ainda mais daquela que considero a melhor música de todos os tempos, a Nona Sinfonia de Beethoven, pois descobri o significado da letra cantada pelo coro, da Ode à Alegria, poema de Friedrich Schiller, que trata exatamente desse assunto.

Atribuo meu pertencimento à humanidade à vida e obra de meu irmão mais velho, que é também o mais novo, Jesus, pois representa tanto a experiência de todas as gerações passadas, como a inocência da mais pura criança, em quem o velho e o novo se unem para a continuidade da tradição familiar. Ele reafirma os velhos valores, que permitem a existência e o desenvolvimento da comunidade:

Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que Iahweh, teu Deus, te dá. Não matarás. Não cometerás adultério. Não roubarás. Não apresentarás um falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a sua mulher, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo” (Ex 20, 12-17).

Se tais mandamentos foram os que permitiram o desenvolvimento da família de Israel, seu resumo em dois, por Jesus, sem deslembrar aqueles, foi a base para o desenvolvimento da civilização ocidental:

Amarás o Senhor teu Deus em todo o teu coração em toda a tua alma e em todo o teu entendimento. Este é o grande, o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos está suspensa toda a Lei e os Profetas” (Mt 22, 37-40).

Foi dentro desse ideário que minha família sanguínea foi criada, de forte tradição católica, e com alguma participação em eventos da história nacional. Depois de assistir a um vídeo sobre a história de Juiz de Fora, fui procurar na internet o nome de meu bisavô, Theodorico de Assis, para ver sua associação com a primeira usina hidrelétrica da América Latina, quando encontrei um texto que enfrentava a questão: https://revistas.ufpi.br/index.php/rbhm/article/download/3802/2200. Interessante notar no texto como havia uma preocupação social com os operários, fato que se comprova porque a eles foi dada a oportunidade de comprar os imóveis em que residiam, que pertenciam à Fazenda Floresta.

É certo que o pertencimento a tal família formou meu ideário de mundo, com importância na afirmação psíquica individual, especialmente pelo sentimento de pertencimento espiritual familiar. O mais importante, contudo, associado a esse sentimento familiar, porque significativo da concretização daqueles mandamentos arquetípicos da humanidade, encarnados em Jesus Cristo, foram os momentos de experiência humana mais profunda, ligados aos valores cristãos.

Foi e é por meio de uma formação familiar e cristã, com todos os defeitos e qualidades inerentes a toda família, que continuo a me desenvolver como indivíduo, sentindo-me honrado de pertencer tanto ao grupo sanguíneo que integro, do lado paterno como materno, como à própria humanidade, na sua melhor versão, naquela que preza pela alegria dos filhos de Deus, que sabem participar da grande família humana.

Abracem-se milhões!

Enviem este beijo para todo o mundo!

Irmãos, além do céu estrelado

Mora um Pai Amado.

Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?

Mundo, você percebe seu Criador?

Procure-o mais acima do Céu estrelado!

Sobre as estrelas onde Ele mora!

O conflito entre absolutos

Para introdução do assunto, vale comentar a ocorrência de recentes decisões envolvendo a soltura e a prisão de um cidadão considerado um dos chefes do PCC em São Paulo, liberado porque a ordem determinando a prisão preventiva não foi renovada em noventa dias, contrariando interpretação literal do art. 316, parágrafo único, do Código de Processo Penal, com posterior decisão, algumas horas depois, em sentido contrário, entendendo que a soltura causaria risco à ordem pública, mandando prender novamente o indivíduo. Os dois entendimentos representam visões opostas da realidade, ambos sustentando-se na legalidade, sendo evidente que não podem estar corretos ao mesmo tempo.

São, de fato, tempos estranhos, de conflito entre absolutos, entre as ideias e a realidade, ou entre ideias e/ou realidades. São concepções de mundo distintas, conceitos divergentes de ordem, sobre o Direito, o Estado, a vida humana em geral.

A cisão ideológica da atualidade é manifesta, e como os lados se amparam em fundamentos distintos, em absolutos opostos, da forma como o conflito se apresenta, não há solução amigável. Nesse tipo de situação, vislumbra-se uma única solução, a guerra, o embate aberto, intelectual e/ou corporal, em que um dos lados é sagrado vencedor e o outro perdedor. Quando há dois absolutos em conflito, o escopo natural, ou o resultado prognosticado, é a dominação de um sobre o outro, com ou sem concessões ao lado vencido.

Não é possível haver dois absolutos, apenas um, por definição, a noção de dois absolutos é contraditória, porque não podem ser conciliados.

Esse é um tema, como todos, em última análise, precipuamente teológico, ou há um Deus todo poderoso, absoluto, ou não há, sendo impossível um meio termo. Parte considerável da sociedade sofre influência dessa ideia, dando valor ao seu conceito de absoluto, enquanto outro lado, não compreendendo bem como conciliar a humanidade com aquela ideia absoluta, acaba cedendo a algum relativismo, o qual assume a posição de outro absoluto.

Temos, assim, nos tempos atuais, o conflito entre os absolutos de Deus e do homem, tornado o próprio fim último da existência, enquanto corporalidade. Na realidade, de outro lado, e para ser mais preciso, o conflito se dá entre as ideias humanas, porque o absoluto em si, Deus, está além dessa controvérsia, por sua própria natureza.

Por trás disso há uma concepção filosófica de humanidade, que pode ser remetida a uma interpretação do pensamento de Kant, ao dizer que apenas o homem é um fim em si mesmo, ideia cujo fundamento está no princípio de que “a natureza racional existe como fim em si” (Immanuel Kant. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. Tradução de Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 59).

Kant está falando da natureza racional como algo absoluto:

“Mas supondo que haja alguma coisa cuja existência em si mesma tenha um valor absoluto e que, como fim em si mesma, possa ser o fundamento de determinadas leis, nessa coisa, e somente nela, é que estará o fundamento de um possível imperativo categórico, quer dizer, de uma lei prática.

Agora eu afirmo: o homem – e, de uma maneira geral, todo o ser racional – existe com fim em si mesmo, e não apenas como meio para o uso arbitrário desta ou daquela vontade” (Idem, p. 58).

O problema da leitura dada a Kant está no fato de extrair uma interpretação que absolutiza o indivíduo, quando o que é absoluto é sua natureza racional, ligada à espécie humana, a qual, por sua vez, decorre da própria racionalidade em si, do próprio Logos, de Deus, pelo que, em Kant, em última análise, porque toda sua filosofia tem por escopo reservar um espaço intelectual para a existência de Deus, somente Deus é absoluto.

Assim, a se extrair uma interpretação coerente com a visão de mundo do próprio Kant, só há dignidade humana associada à ideia de Deus, o único absoluto, origem de tudo o que é um fim em si mesmo, a dignidade humana decorre do fato da participação no Espírito de Deus.

Contudo, temos hoje o homem como um absoluto independente de Deus, sem Espírito, o homem como fim em si mesmo em seus egoísmos, seus abortos, suas abominações, suas irracionalidades contrárias à natureza racional, como meio para o uso arbitrário desta ou daquela vontade.

Em certo sentido essa teoria que absolutiza o homem tem origem no Éden, na ideia de emancipar o homem de uma racionalidade que lhe seja superior, fazendo do homem o próprio deus, o que também tem sido aplicado a algumas de suas ideias.

O que vemos, portanto, numa dimensão espiritual, é a mesma batalhada original do gênero humano, é a humanidade lutando contra si e contra Deus, enfrentando a natureza racional, na tentativa de superá-la, é o homem fazendo-se absoluto, em detrimento de qualquer outro.

Mas não há dois absolutos, pelo que um dos dois deve sucumbir diante do outro, o que seja verdadeiro.

Do ponto de vista kantiano, segundo o qual a natureza racional existe como fim em si, o próprio homem é um instrumento, um meio, para o desenvolvimento da natureza racional, de modo que ao se submeter a Deus, como único e verdadeiro absoluto, a humanidade passa a participar de Sua natureza racional, e do autêntico absoluto.

Na perspectiva Cristã, nem o próprio Jesus Cristo se via como um fim em si mesmo, como algo absoluto em si, uma vez que ele não estava preocupado em satisfazer sua vontade pessoal: “não seja feito como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26, 39). E não estamos falando aqui de qualquer coisa, mas no cumprimento da profecia de Isaías, segundo a qual o Messias sofreria as maiores indignidades, como “homem do sofrimento e experimentado na dor; como indivíduo de quem a gente esconde o rosto, ele era desprezado e nem tomamos conhecimento dele” (Is 53, 3).

Jesus, outrossim, não considerou-se um fim e si mesmo, fez-se indigno para que pudéssemos ter a dignidade de sermos chamados filhos de Deus, ele foi um meio, um instrumento, para um bem maior. O Cristo é submisso a Deus, o único Deus, é muçulmano, obediente à Lei.

Na doutrina de Paulo, há uma grande controvérsia sobre a Lei, o que, de certo modo, continua até os dias de hoje, na forma de constitucionalismo, valendo ressaltar suas palavras, no sentido de que a letra mata e o espírito vivifica.

Nós também acreditamos em Jesus Cristo, a fim de nos tornarmos justos pela fé em Cristo e não pela observância da Lei, pois com a observância da Lei ninguém se tornará justo” (Gl 2, 16).

A Lei, portanto, também não é absoluta em sua literalidade, apenas seu Espírito o é. A Lei não é um fim em si mesmo, pois como afirma Carlos Maximiliano, deve o Direito ser interpretado inteligentemente, de não de modo que a ordem legal envolva um absurdo, pelo que a Lei serve a uma inteligência.

Sabemos que a Lei é espiritual” (Rm 7, 14), e, assim, enquanto o Espírito não for resgatado em Sua inteligência como absoluto, inclusive em suas manifestações carnais, às vezes aparentemente contrárias à lei, os conflitos permanecerão, porque, sem o sacrifício individual, de cada um e todos, pela observância da Lei ninguém se tornará justo, sem o Espírito não há como diferenciar a inteligência do absurdo.

A presença do ausente

“Vislumbra entretanto no médium do espírito o ausente como presente plenamente: pois o espírito não separará o ente do ater-se ao ente, nem o ente expandido, nem o ente aglomerado, na totalidade completamente segundo um cosmos ordenado” (Parmênides. Anaximandro, Parmênides, Heráclito. Os pensadores originários. Introdução de Emmanuel Carneiro Leão. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017, p. 57).

Ter o ausente como presente é uma aparente contradição do pensamento, mas tal perplexidade somente surge quando se separa o presente de todo o resto da existência, na medida em que o pensar da unidade cósmica enquanto una exige a presença do todo em cada parte, de modo que traz para o presente todos os ausentes.

Cada parte é a parte de um todo, pelo que a parte sem as outras, aquelas ausentes, é só um algo destituído de sentido, e somente com a plena presença do ausente a parte pode ser corretamente situada como expressão de um todo e, então, adequadamente como parte.

Além disso, é no espírito que o ausente se faz plenamente presente, porque não se pode falar de um todo apenas do ponto de vista material, haja vista que a matéria não transcende a si mesma, sendo necessário o espírito para tal empreitada, porque enquanto a matéria, por definição, é limitada espacialmente, o espírito não possui limites espaciais ou temporais, e é exatamente por estar em todos os lugares e todos os tempos que permite a compreensão da unidade para além de todas as partes.

Uma das passagens mais importantes das Escrituras, que repito em várias ocasiões, e considero pouco entendida, é aquela que afirma haver um só Corpo e um só Espírito.

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Tal passagem é bem parmenidiana, sustentando a unidade tanto do Espírito como do Corpo. Mas penso haver uma diferença entre essas unidades, porque a do Espírito é uma unidade, em certo sentido, imóvel, porque o Espírito não muda, pode se tornar mais acurado, nítido e detalhado em suas peculiaridades, mas permanece o mesmo, enquanto o Corpo é objeto de mudança, pode ser outro, pela alteração de suas partes componentes, sendo o mesmo em razão do Espírito. Na ressurreição receberemos novos corpos, mas seremos os mesmos, a mesma identidade espiritual, sendo diferentes.

Mesmo agora, nosso corpo é o mesmo, mas com outras células, outra matéria, que se renova pela alimentação e excreção, enquanto nosso espírito é o mesmo com mais experiências, memórias, mantendo a unidade do corpo, porque a morte implica o fim do processo de renovação corporal.

Sobre essa ideia de mudança e permanência, vale trazer à citação uma passagem muito famosa de Heráclito, que é repetida como a expressão de seu entendimento de mundo: “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio” (Heráclito, Op. cit., p. 95).

Mas há outra citação do mesmo autor que talvez explique melhor sua multicitada fala, devendo-se ressaltar que não temos muitos textos dos chamados pré-socráticos, o que nos resta são basicamente fragmentos encontrados nas citações de autores posteriores, o que dificulta o exato entendimento daqueles pensadores primitivos, e daí a outra citação traz luz sobre a primeira:

“No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos.”

“Auscultando não a mim, mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um” (Idem, p. 83).

Outrossim, para além de dizer que tudo muda, que não entramos duas vezes no mesmo rio, é mais correto sustentar que para Heráclito “tudo é um”, e assim pode haver um mesmo rio, cujas águas são outras, e uma mesma pessoa, que já não é exatamente aquela anterior.

Ao perceber essa unidade para além das aparências, ele afirma que “A harmonia invisível é mais forte do que a visível” (Idem, p. 85).

Desse modo, novamente, o ausente, que é invisível, se faz presente, permitindo compreender uma presença mais forte que aquela meramente visível, a qual somente é percebida plenamente pelo espírito, pela força do pensamento, da razão, porque “Pensar reúne tudo” (Idem, p. 101).

Daí a indispensabilidade da atividade intelectual, que é espiritual, é juntar o que está separado, unir o que está distante.

Na Ciência, não conheço outro autor recente que tenha procurado melhor essa unidade do que David Bohm, o qual, em sua ideia de ordem implicada, traz de volta o conceito de uma harmonia invisível que é mais forte do que a visível.

Como constou no artigo “A Ordem Implicada” (https://holonomia.com/2017/05/22/a-ordem-implicada/):

“David Bohm defende que existe uma interligação em todo o universo, pois o movimento da luz em cada região se expande interferindo em cada região do espaço, e se ‘expande por todo o Universo e sobre todo o passado, com implicações para todo o futuro’, gerando uma noção da nova visão da realidade, em que ‘a ordem total está contida, de algum modo implícito, em cada região do espaço e do tempo’ (G. nosso). Implícito, no caso, decorre do verbo ‘implicar’, significando ‘dobrar para dentro’, de modo que ‘cada região contém a estrutura total ‘envolvida’ dentro dela’ (G. nosso. Idem, p. 157). Explicando esse fenômeno, o autor cita uma onda de rádio que contém uma informação implicada, a qual é explicada por um receptor, desdobrando a informação, por exemplo, em som e música.”

Volto a David Bohm porque a leitura atual é sua troca de correspondências com Charles Biederman, que me rememorou a ideia da presença do ausente mencionada por Parmênides. Ao falar da realidade infinita, ele afirma que:

“In reality, everything is basically infinite and only secondary, finite.

(…)

The above idea of the infinite shows already the breakdown of the notion that the world can be divided into separately existing parts. For already, even in this very simple view, an essential aspect of what each part is is that it reflects the other parts” (Bohm-Bierdman correspondece. David Bohm and Charles Bierdman. Volume One: Creativity and Science. Edited by Paavo Pylkkänen. London and New York: Routledge, 2014, p. 10)

“Na realidade, tudo é basicamente infinito, e, apenas de modo secundário, finito. (…)

A ideia acima sobre o infinito já mostra o colapso da noção de que o mundo pode ser dividido em partes existentes separadamente. Pois já mesmo nessa visão muito simples, um aspecto essencial do que cada parte é é que ela reflete as outras partes.”

O fato de cada parte refletir as outras partes é outra forma renovada de afirmar o que já dizia Parmênides, porque assim o ausente se torna presente naquela parte, que, em si, é relacionada com tudo mais que existe.

No Cristianismo, o Espírito está em todos, porque a questão da unidade é fundamental, e não podemos nos esquecer da presença em todos, especialmente nos pequeninos, que precisam de nossa ajuda.

Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos forasteiro e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te ver?’ Ao que lhes responderá o rei: ‘Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’” (Mt 25, 37-40).

Jesus Cristo nos mostrou a presença do ausente, porque Aquele que pensaram dele estar ausente, na verdade, ali se fazia presente, de modo que Sua presença é inevitável, mesmo que imaginemos o contrário. E citando novamente Heráclito:

Auscultando não a mim, mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um.