A presença do ausente

“Vislumbra entretanto no médium do espírito o ausente como presente plenamente: pois o espírito não separará o ente do ater-se ao ente, nem o ente expandido, nem o ente aglomerado, na totalidade completamente segundo um cosmos ordenado” (Parmênides. Anaximandro, Parmênides, Heráclito. Os pensadores originários. Introdução de Emmanuel Carneiro Leão. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017, p. 57).

Ter o ausente como presente é uma aparente contradição do pensamento, mas tal perplexidade somente surge quando se separa o presente de todo o resto da existência, na medida em que o pensar da unidade cósmica enquanto una exige a presença do todo em cada parte, de modo que traz para o presente todos os ausentes.

Cada parte é a parte de um todo, pelo que a parte sem as outras, aquelas ausentes, é só um algo destituído de sentido, e somente com a plena presença do ausente a parte pode ser corretamente situada como expressão de um todo e, então, adequadamente como parte.

Além disso, é no espírito que o ausente se faz plenamente presente, porque não se pode falar de um todo apenas do ponto de vista material, haja vista que a matéria não transcende a si mesma, sendo necessário o espírito para tal empreitada, porque enquanto a matéria, por definição, é limitada espacialmente, o espírito não possui limites espaciais ou temporais, e é exatamente por estar em todos os lugares e todos os tempos que permite a compreensão da unidade para além de todas as partes.

Uma das passagens mais importantes das Escrituras, que repito em várias ocasiões, e considero pouco entendida, é aquela que afirma haver um só Corpo e um só Espírito.

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Tal passagem é bem parmenidiana, sustentando a unidade tanto do Espírito como do Corpo. Mas penso haver uma diferença entre essas unidades, porque a do Espírito é uma unidade, em certo sentido, imóvel, porque o Espírito não muda, pode se tornar mais acurado, nítido e detalhado em suas peculiaridades, mas permanece o mesmo, enquanto o Corpo é objeto de mudança, pode ser outro, pela alteração de suas partes componentes, sendo o mesmo em razão do Espírito. Na ressurreição receberemos novos corpos, mas seremos os mesmos, a mesma identidade espiritual, sendo diferentes.

Mesmo agora, nosso corpo é o mesmo, mas com outras células, outra matéria, que se renova pela alimentação e excreção, enquanto nosso espírito é o mesmo com mais experiências, memórias, mantendo a unidade do corpo, porque a morte implica o fim do processo de renovação corporal.

Sobre essa ideia de mudança e permanência, vale trazer à citação uma passagem muito famosa de Heráclito, que é repetida como a expressão de seu entendimento de mundo: “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio” (Heráclito, Op. cit., p. 95).

Mas há outra citação do mesmo autor que talvez explique melhor sua multicitada fala, devendo-se ressaltar que não temos muitos textos dos chamados pré-socráticos, o que nos resta são basicamente fragmentos encontrados nas citações de autores posteriores, o que dificulta o exato entendimento daqueles pensadores primitivos, e daí a outra citação traz luz sobre a primeira:

“No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos.”

“Auscultando não a mim, mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um” (Idem, p. 83).

Outrossim, para além de dizer que tudo muda, que não entramos duas vezes no mesmo rio, é mais correto sustentar que para Heráclito “tudo é um”, e assim pode haver um mesmo rio, cujas águas são outras, e uma mesma pessoa, que já não é exatamente aquela anterior.

Ao perceber essa unidade para além das aparências, ele afirma que “A harmonia invisível é mais forte do que a visível” (Idem, p. 85).

Desse modo, novamente, o ausente, que é invisível, se faz presente, permitindo compreender uma presença mais forte que aquela meramente visível, a qual somente é percebida plenamente pelo espírito, pela força do pensamento, da razão, porque “Pensar reúne tudo” (Idem, p. 101).

Daí a indispensabilidade da atividade intelectual, que é espiritual, é juntar o que está separado, unir o que está distante.

Na Ciência, não conheço outro autor recente que tenha procurado melhor essa unidade do que David Bohm, o qual, em sua ideia de ordem implicada, traz de volta o conceito de uma harmonia invisível que é mais forte do que a visível.

Como constou no artigo “A Ordem Implicada” (https://holonomia.com/2017/05/22/a-ordem-implicada/):

“David Bohm defende que existe uma interligação em todo o universo, pois o movimento da luz em cada região se expande interferindo em cada região do espaço, e se ‘expande por todo o Universo e sobre todo o passado, com implicações para todo o futuro’, gerando uma noção da nova visão da realidade, em que ‘a ordem total está contida, de algum modo implícito, em cada região do espaço e do tempo’ (G. nosso). Implícito, no caso, decorre do verbo ‘implicar’, significando ‘dobrar para dentro’, de modo que ‘cada região contém a estrutura total ‘envolvida’ dentro dela’ (G. nosso. Idem, p. 157). Explicando esse fenômeno, o autor cita uma onda de rádio que contém uma informação implicada, a qual é explicada por um receptor, desdobrando a informação, por exemplo, em som e música.”

Volto a David Bohm porque a leitura atual é sua troca de correspondências com Charles Biederman, que me rememorou a ideia da presença do ausente mencionada por Parmênides. Ao falar da realidade infinita, ele afirma que:

“In reality, everything is basically infinite and only secondary, finite.

(…)

The above idea of the infinite shows already the breakdown of the notion that the world can be divided into separately existing parts. For already, even in this very simple view, an essential aspect of what each part is is that it reflects the other parts” (Bohm-Bierdman correspondece. David Bohm and Charles Bierdman. Volume One: Creativity and Science. Edited by Paavo Pylkkänen. London and New York: Routledge, 2014, p. 10)

“Na realidade, tudo é basicamente infinito, e, apenas de modo secundário, finito. (…)

A ideia acima sobre o infinito já mostra o colapso da noção de que o mundo pode ser dividido em partes existentes separadamente. Pois já mesmo nessa visão muito simples, um aspecto essencial do que cada parte é é que ela reflete as outras partes.”

O fato de cada parte refletir as outras partes é outra forma renovada de afirmar o que já dizia Parmênides, porque assim o ausente se torna presente naquela parte, que, em si, é relacionada com tudo mais que existe.

No Cristianismo, o Espírito está em todos, porque a questão da unidade é fundamental, e não podemos nos esquecer da presença em todos, especialmente nos pequeninos, que precisam de nossa ajuda.

Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos forasteiro e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te ver?’ Ao que lhes responderá o rei: ‘Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’” (Mt 25, 37-40).

Jesus Cristo nos mostrou a presença do ausente, porque Aquele que pensaram dele estar ausente, na verdade, ali se fazia presente, de modo que Sua presença é inevitável, mesmo que imaginemos o contrário. E citando novamente Heráclito:

Auscultando não a mim, mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um.

Um comentário sobre “A presença do ausente

  1. Seu vasto conhecimento intelectual aliado à profunda fé na vida do espirito me encanta e orgulha Parabéns estudioso modelo 👏Que você consiga penetrar em muitas mentes que tanto nescessitam deste norte em suas vidas vazias 🙏

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