Sobre a autoridade secular

O título deste artigo é inspirado no texto respectivo de Lutero “Sobre a autoridade secular: até que ponto se estende a Obediência a ela?”, que está reunido em um livro que também contém o escrito de Calvino “Sobre o governo civil”.

Ainda que o tema dos textos, em decorrência da palavra “sobre”, usada na tradução para o português, seja “a respeito da” autoridade civil ou secular, curiosamente, nossa língua permite um outro significado para o nome do artigo, filosoficamente mais profundo, ao indicar algo ou alguém que esteja “acima da” autoridade secular, que “domine a” autoridade secular.

Inicialmente, e para esclarecimento histórico, o leitor é remetido ao artigo “Autoridade” (https://holonomia.com/2018/10/16/autoridade/), que distingue os conceitos de autoridade, enquanto saber socialmente reconhecido baseado na experiência, e império, ligado à ideia de soberania e de poder máximo da comunidade, ambos derivados de palavras latinas associadas ao direito romano.

No glossário do texto referido no primeiro parágrafo é informado que Lutero não faz essa “distinção entre ‘autoridade’ e ‘poder’” (que é a mesma distinção indicada no artigo citado “Autoridade”), e que quando “Lutero fala de Oberkeit, pensa em termos de indivíduos – e, na maioria das vezes, de um príncipe (Fürst) ou de um senhor (Herr) – dotados de poder” (Sobre a autoridade secular / de Martinho Lutero. Sobre o governo civil / de João Calvino. Trad. Hélio de Marco Leite de Barros e Carlos Eduardo Silveira Matos. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. XLIX).

Tirante o poder público bestial que tem seu fundamento na força física, todo governo se ampara em algum princípio racional, a partir do qual é justificado o próprio governo. No tempo do absolutismo, e nas monarquias antigas em geral, por exemplo, havia a narrativa segundo a qual era divina a origem do poder do rei, pelo que se permite dizer que Deus se colocava sobre a autoridade secular. Atualmente, segundo a fórmula democrática, pela qual todo poder emana do povo, este, o povo, portanto, se situa sobre o governo civil. Em ambos os casos, destarte, há um princípio racional pairando acima do governo humano.

Deve ser ressaltada, por oportuna, a crítica ao conceito assente de democracia, levantado no texto “A democracia contemporânea como falácia informal” (https://holonomia.com/2016/10/02/a-democracia-contemporanea-como-falacia-informal/), concluindo que “a verdadeira democracia é não apenas formal, mas também material, é uma teocracia, em que prevalece o governo de Deus, do Logos, quando os governantes, escolhidos pelo mérito social (o que deve ser feito pelo voto popular, segundo a Constituição) e não por marketing ou abuso de poder, são verdadeiramente ministros (servos) da coletividade, agindo para construir uma sociedade livre, justa e solidária, como manda a nossa Lei Maior, para realizar o Reino de Deus”.

Por isso, em um só lance linguístico, é possível entender que a autoridade secular não se basta a si mesma enquanto poder público, sendo dependente de uma autoridade superior ou de um princípio racional que lhe dê sustentação pública, e que logicamente está sobre ela (autoridade secular).

Aqui já vale ressaltar o profundo conhecimento político demonstrado por Jesus Cristo diante de Pilatos, reconhecendo que toda autoridade humana decorre de outra que lhe é superior: “Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto; por isso, quem a ti me entregou tem maior pecado” (Jo 19, 11).

Tanto Lutero como Calvino fundamentam seus escritos nas passagens bíblicas atribuídas aos apóstolos Paulo e Pedro, exigindo que os Cristãos sejam obedientes aos poderes humanos: “Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13, 1); e “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como enviados seus para a punição dos malfeitores e para o louvor dos que fazem o bem, pois esta é a vontade de Deus que, fazendo o bem, tapeis a boca à ignorância dos insensatos” (1Pe 2, 13-15).

Lutero afirma que sua tarefa inicial é encontrar fundamento para “a lei secular e a Espada, de modo que remova qualquer possível dúvida quanto a ambas estarem no mundo como resultado da vontade e da providência divinas” (Obra citada, p. 8), dizendo que “a Espada e a lei seculares devem ser empregadas de acordo com a vontade de Deus: para punir os malfeitores e proteger os justos” (Idem, p. 10).

Vale salientar que Lutero segue a teoria de Agostinho das duas cidades, proposta que não tem amparo bíblico e que mais se aproxima de uma ideia gnóstica maniqueísta, porque aquele declara que “Deus instituiu os dois governos, o (governo) espiritual, que molda os verdadeiros cristãos e as pessoas justas por meio do Espírito Santo sob Cristo, e o governo secular (weltlich), que reprime os maus e os não-cristãos e os obriga a conservarem-se exteriormente em paz e a permanecerem quietos, gostem ou não disso” (Idem, p. 15).

Calvino adota a mesma linha, não aceitando que a era messiânica ocorra neste mundo, como ainda é esperado pelos judeus:

Mas qualquer um que saiba como distinguir entre a alma e o corpo, entre esta vida transitória atual e a vida eterna que está por vir, não terá dificuldade em compreender que o reino espiritual de Cristo e o governo civil são coisas muitíssimo distantes uma da outra. É uma insensatez judaica esperar o reino de Cristo entre as coisas que constituem este mundo e encarcerá-lo entre elas” (Idem, p. 73).

Entretanto, ao contrário do que sustentam os corifeus protestantes, no que seguem, como visto, Agostinho de Hipona, cuja filosofia sustenta a teologia católica romana, as ideias de que “Deus instituiu dois governos” e que “o reino espiritual de Cristo e o governo civil são coisas muitíssimo distantes uma da outra” são deturpações da Teologia monoteísta, e uma fuga conceitual do que seja o próprio Cristianismo, ainda que, certamente, o Reino de Cristo não esteja encarcerado nas coisas que constituem este mundo, o que não quer dizer que não se realize também nas coisas deste mundo.

Jesus é o filho do rei Davi, e O Cristo, O Messias ou O Ungido (termos sinônimos derivados das línguas grega, hebraica e latina) de Deus, porque a Davi, um ungido, ou um cristo, ou um messias do Altíssimo, foi prometida uma descendência que herdaria seu reino (de Davi), fazendo-o Reino de Deus e estendendo-o sobre toda a Terra, devendo ser destacado que Davi reconhecia que Saul, enquanto rei de Israel, era também ungido, messias ou cristo do Senhor. O próprio Calvino cita passagens nesse sentido, dizendo que “pelo próprio ato de elevar alguém à exaltada categoria de rei, o Senhor nos revela que é sua vontade que aquela pessoa governe” (Idem, p. 123), citando passagens do antigo testamento. “Que Iahweh me livre de proceder assim com o meu senhor, de levantar a mão contra ele, porque é o ungido de Iahweh” (2Sm 24, 7). “Quem levantaria a sua mão contra o ungido de Iahweh e ficaria impune?” (2Sm 26, 9).

A grande questão que separa os cristos, ungidos ou messias de Deus entre si está na consciência ou não de o serem, o fato de saberem ou não a Autoridade Real que está sobre eles, a diferença consiste no fato de que apenas alguns sujeitos da História, enquanto líderes em posição de poder, têm consciência de que agem em nome de Deus, porque muitos são inconscientes dessa realidade, a maioria absoluta.

Vale aqui, parcialmente, o que declarou Lutero:

o mundo e as multidões são não-cristãos e permanecerão assim, quer sejam compostos de cristãos batizados e nominais, quer não o sejam. Os cristãos, como se costuma dizer, são poucos e encontrados a largos intervalos, e o mundo não admitirá um governo cristão presidindo um território ou uma grande multidão, e muito menos a totalidade do mundo” (Idem, pp. 16-17 – negrito meu).

Quanto à primeira parte da citação (negritada), Lutero está mais correto, porque é difícil encontrar cristãos, de fato, “existem poucos cristãos sobre a face da terra” (Idem, p. 31). Já no segundo ponto, ele nega a essência do Evangelho, que é exatamente o governo mundial dos cristãos, dos autênticos muçulmanos, ou servos do Clemente, o Misericordioso, conforme a interpretação unitária do Livro, em consonância com o ensinamento dos Mensageiros de Deus.

Ó adeptos do Livro, não vos excedais em vossa religião, e não digais de Deus senão a verdade. O Messias, Jesus, o filho de Maria, nada mais era do que o Mensageiro de Deus e Sua palavra e um sopro de Seu espírito que Ele fez descer sobre Maria. Acreditai, pois, em Deus e em Seus Mensageiros e não digais: ‘Trindade’. Abstende-vos disso. É melhor para vós. Deus é um Deus único. Glorificado seja! Teria um filho? Como! A Ele pertence tudo o que está nos céus e tudo o que está na terra. Basta-vos Deus por defensor. O Messias nunca se envergonhará de ser um servo de Deus” (Sura 4, 171-172).

No Judaísmo, do mesmo modo, Deus é o proprietário da Terra, exercendo autoridade sobre as nações, havendo a presunção da autoridade de Deus em relação aos governantes, incluídos os líderes inimigos que puniram o povo de Israel em decorrência da sua desobediência, porque Deus ditou a Lei da nação, a Torá, para ser obedecida pelo povo, não havendo outra Lei ou Governo fora de Deus, decorrendo da Providência o próprio fato de se estar no poder humano, pelo que este deve ser exercido não em nome dos homens mas em nome de Deus, já implicando esse fato no reconhecimento da autoridade, enquanto ungida, messias ou crista por Deus, como afirmado por Calvino, Paulo, Pedro e o próprio Jesus. Existe uma enorme responsabilidade pessoal, de outro lado, para os detentores do poder, como o disseram o tio Ben, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, e Jesus Cristo:

Aquele servo que conheceu a vontade de seu senhor, mas não se preparou e não agiu conforme sua vontade, será açoitado muitas vezes. Todavia, aquele que não a conheceu e tiver feito coisas dignas de chicotadas, será açoitado poucas vezes. Àquele a quem muito se deu, muito será pedido, e a quem muito se houver confiado, mais será reclamado” (Lc 12, 47-48).

O princípio Cristão é o princípio da responsabilidade eterna pelos próprios atos, e daí a necessidade de busca da perfeição e da santidade já aqui, porque “todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão ‘Cretino!’ estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar ‘Louco’ terá de responder na geena de fogo” (Mt 5, 22).

Tudo o que fazemos aqui repercute na eternidade, nada se perde, havendo influências quânticas, por ora imperceptíveis, entre campos infinitos, porque a matéria corporal limitada e a energia infinita são uma só coisa em um nível superior de consciência e conhecimento, existindo uma ligação direta entre nossos comportamentos neste mundo e o Reino de Deus, aqui e na eternidade, que está dentro de nós, pelo que também o governo civil é diretamente conectado ao mundo espiritual, podendo estar, portanto, provisoriamente submetido aos principados e potestades que servem ao Diabo, ao egoísmo, à mentira, à enganação, mas se sujeitam na eternidade a Cristo, à Verdade, ao Logos de Deus, e ao próprio Deus, o que também ocorrerá no plano material, em breve.

Assim, Deus ou o Logos é sobre a autoridade secular, ainda que seja permitido que, por um tempo, esta se submeta aos principados e potestades bestiais, e o bom governante, o bom pastor, o governo cristão, e humano, é aquele que reconhece a Autoridade sobre ele, entendendo que Cristo é acima de tudo e que Deus é acima de todos, cabendo ao povo cristão, destarte, escolher os governantes segundo esse princípio, para que não uma vontade humana parcial esteja, e sim para que Deus seja, sempre, sobre a autoridade secular.

Religião e civilização

Religião, cultura e civilização são termos conexos, que se referem a aspectos essenciais da vida social, ainda que o primeiro seja visto por muitos com restrição, associando-o a uma forma antiga de pensamento irracional.

Historicamente, a religião está na origem da nossa civilização, tanto na formação do direito romano, como pode ser constatado no clássico livro “A Cidade Antiga”, do historiador Numa-Denys Fustel de Coulanges, obra que pode ser baixada gratuitamente pela internet, quanto pela influência do pensamento judaico-cristão, tendo sido o pensamento religioso fundamental para a revolução científica da modernidade, como destacado no artigo “Revolução e evolução” (https://holonomia.com/2017/08/03/revolucao-e-evolucao/), revolução que permanece em curso, porque o significado das coisas, após a física do século XX, ainda não foi compreendido, urgindo sejam reformuladas as hipóteses filosóficas a partir dos conhecimentos adquiridos desde o quantum de ação.

Outrossim, o entendimento da realidade passa pela compreensão da física quântica e da relatividade, e penso que nesse aspecto David Bohm, um dos maiores cientistas-filósofos dos últimos tempos, é uma referência que deve ser destacada, apesar de ter sido ignorado pela comunidade científica tradicional. Um documentário está sendo produzido para homenagear Bohm (http://thebohmdocumentary.org/), podendo ser visto na amostra disponibilizada no citado sítio eletrônico que Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica, diante da proposta científica de Bohm, e do fato de não poder desmenti-la, decidiu por um boicote às ideias de David Bohm, dizendo que este deveria ser ignorado. No trecho liberado, Lee Nichol afirma que talvez sejam necessários quinhentos anos para que a humanidade possa apreciar o trabalho de Bohm.

Considero as ideias de Bohm fundamentais para a compreensão do mundo, e mesmo do Cristianismo, cujas escrituras são citadas por ele em algumas oportunidades, permitindo a unificação de conceitos religiosos e científicos, para formação de uma verdadeira e integral civilização humana, e isso talvez seja um dos motivos de sua rejeição pela comunidade científica, mesmo sendo ele considerado por Einstein seu filho espiritual, como afirmado no documentário.

Existe um canal no YouTube, “David Bohm Society”, com vários áudios de palestras e diálogos com Bohm, que valem ser ouvidos, para os que têm boa compreensão auditiva da língua inglesa. No áudio “David Bohm: On Meaning, Culture, Conditioning, and Insight” (https://www.youtube.com/watch?v=v_IU_z7PQh4 – o áudio foi editado cortando as perguntas e deixando apenas as falas de Bohm, o que dificulta o entendimento), o tema da cultura é enfrentado, identificando-o com a ideia de significado das coisas. Ele afirma que cultura é significado compartilhado, com sentidos pressupostos, condicionados, sustentando que esse condicionamento pode prejudicar a correta percepção da realidade.

É possível dizer que a religião, da mesma forma, está ligada a significados compartilhados e pressupostos, o que é também a base da civilização, enquanto vida em comunidade fundada em uma organização simbólica de mundo, com valores hierarquicamente pressupostos, os quais os membros do grupo humano esperam sejam respeitados, sob pena de violação da civilidade, e de incursão em barbaridade.

Civilização decorre do termo latino “civis”, ligado a cidade e cidadão. No tempo romano, os locais ocupados e controlados por Roma eram considerados uma extensão daquela cidade, porque onde havia controle territorial por Roma era considerado integrante dessa “cidade”, e daí a existência de uma civilização romana. A civilização é a significação cósmica, como ordem geral do mundo, que uma comunidade pública compartilha, que pode ser ampliada nos planos espacial e humano, dominando um amplo espectro da vida humana social.

A ideia de civilização está relacionada à de significados mais amplos, de uma cultura total, plena, que abrange todos os aspectos da vida, ao contrário de culturas parciais, restritas a algum ou alguns aspectos da vida. Uma cultura considerada correta, no sentido de uma forma correta de trabalhar simbólica e praticamente os fenômenos da vida, e da natureza, pode ampliar sua âmbito de influência para alcançar um caráter civilizatório, quando os valores e significados de mundo daquela cultura são amplamente compartilhados em várias comunidades humanas ligadas por vínculos linguísticos, econômicos, religiosos, jurídicos etc.

Uma civilização é, portanto, uma cultura, como um complexo de conhecimentos e atitudes perante o mundo, que passa a ser aceita como correta, verdadeira, cujo movimento, enquanto atividade exercida ao longo do tempo, desenvolve a humanidade de todos, enquanto aquilo que contraria os valores civilizacionais é considerado bárbaro, associado à barbárie, à selvageria, à crueldade.

Quando duas culturas amplas, ou duas civilizações, se encontram, pode haver conflito, decorrente das diferentes formas de significar e valorar os fenômenos da vida. A guerra cultural é, assim, uma guerra espiritual, sobre a interpretação do mundo, o sentido da humanidade, sobre o significado total das coisas, ou a ausência de significado.

A civilização humana, ou Humanidade, surge, portanto, de várias guerras culturais, e será considerada, ao final, como autêntica civilização aquela que melhor expressar, em termos teóricos e práticos, os melhores conceitos e resultados sobre a melhoria efetiva da vida humana em sociedade. Em geral são necessários muitos anos, talvez séculos, para que o julgamento de uma civilização, ou de alguns aspectos de suas práticas sociais, possa ser feito adequadamente, quanto aos efeitos benéficos ou prejudiciais para manutenção da vida humana no planeta.

A civilização humana é o resultado das interferências recíprocas entre as culturas antigas, da Pérsia, Babilônia e Egito, por exemplo, sucedidas pelos domínios de Grécia e Roma, depois por uma ideia de Cristianismo, e na fase atual é fortemente associada ao materialismo cientificista, ainda que no plano religioso permaneça uma concepção de Cristianismo, que é parcial, decorrente das cisões agostinianas e cartesianas, insuficiente para o desenvolvimento da humanidade. Ainda que nominalmente a religião predominante da população ocidental seja alguma forma de Cristianismo; na prática, de fato, domina uma religião fundada no materialismo mecanicista.

Nesse sentido, é indispensável que o mundo Cristão reflita sobre a proposta civilizacional de Agostinho de Hipona, e sobre o significado mais profundo da Religião do Messias, pois quanto mais avançam os conhecimentos científicos, e quanto maior o tempo que nos separa do tempo de Agostinho, mais clara fica a insuficiência filosófica e teológica de se estabelecer uma dupla cidadania sobre as pessoas, uma cidade das almas e outra dos corpos, porque o Cristianismo é uma religião política e espiritual, e não apenas uma questão de salvação individual das almas.

De Salomão. Ó Deus, concede ao rei teu julgamento e a tua justiça ao filho do rei; que ele governe teu povo com justiça, e teus pobres conforme o direito. Montanhas e colinas, trazei a paz ao povo. Com justiça ele julgue os pobres do povo, salve os filhos do indigente e esmague seus opressores” (Sl 72, 1-4).

E sobre o jejum, uma atividade tipicamente religiosa, espiritual, assim Iahweh falou, por meio do profeta:

Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne? Se fizeres isto, a tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente, a tua justiça irá à tua frente e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda. Então clamarás e Iahweh responderá, clamarás por socorro e ele dirá: ‘Eis-me aqui!’ Isto, se afastares do meio de ti o jugo, o gesto ameaçador e a linguagem iníqua; se tu te privares para o faminto, e se tu saciares o oprimido, a tua luz brilhará nas trevas, a escuridão será para ti como a claridade do meio-dia” (Is 58, 6-10).

Por mais que a caridade religiosa tenha sido socialmente útil, pela criação de universidades, hospitais, pela alimentação dos pobres, em virtude da ação de igrejas Cristãs e seus membros, o Cristianismo somente será pleno quando for, em sua correta prática, pautada pela Mensagem, pelo Evangelho, pela repetição do exemplo de Jesus, a religião do Governo, na medida em que o Cristianismo é a Religião, ou Ciência, da Política autêntica, a Filosofia dos Reis, porque Jesus Cristo, o Messias, é “a testemunha, o fiel, o primogênito dos mortos e o regente dos reis da terra” (Ap 1, 5).

O livro do Apocalipse narra, destarte, o percurso histórico do Evangelho até que sua essência política seja compreendida, e finalmente aplicada, quando o egoísmo não será mais praticado politicamente, entre as nações, como consta no capítulo 20, porque a razão, ou o espírito, que separa a humanidade, Satanás, ou Diabo, será acorrentado por mil anos, tempo em que os Governantes mirarão e replicarão o exemplo de Cristo, época que será de preparação coletiva para a verdadeira civilização, a cidade cósmica, em que o próprio Espírito de Deus estará entre nós, na derradeira capital da Humanidade, a nova Jerusalém:

Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21, 3-4).

Agora

Agora, palavra simples que me ajudou a entender o Cristianismo, a religião mais seguida no planeta Terra, em suas várias vertentes, associada a uma forma de civilização, a judaico-cristã que perpassa o entendimento sobre o chamado mundo ocidental, relativa, especialmente, aos povos europeus e americanos.

A boa doutrina hermenêutica do Direito ensina que a lei não contém palavras inúteis, entendimento que pode ser estendido para a interpretação de textos em geral.

Presume-se que a lei não contenha palavras supérfluas; devem tôdas ser entendidas como escritas adrede para influir no sentido da frase respectiva” (Carlos Maximiliano. Hermenêutica e Aplicação do Direito. Sexta edição. Livraria Freitas Bastos S/A: Rio de Janeiro e São Paulo, 1957, p. 144).

Além de uma análise filológica, do sentido de suas palavras, o texto bíblico deve também ser interpretado segundo a cosmovisão dos autores de seus escritos e das personagens das histórias, e, nesse ponto, o Evangelho se refere a uma época em que havia poder na mensagem falada, e uma palavra, por seu significado ontológico, podia acarretar uma condenação à morte.

E o Sumo Sacerdote lhe disse: ‘Eu te conjuro pelo Deus Vivo que nos declares se tu és o Cristo, o Filho de Deus’. Jesus respondeu: ‘Tu o disseste. Aliás, eu vos digo que, de ora em diante, vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu’. O Sumo Sacerdote então rasgou suas vestes, dizendo: ‘Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Vede: vós ouvistes neste instante a blasfêmia. Que pensais?’ Eles responderam: ‘É réu de morte’” (Mt 26, 63-66).

Jesus foi condenado à morte porque disse ser o Cristo, o Messias, o Filho de Deus, que também o qualificava como o filho de Davi e o Rei dos Judeus.

Assim, o fato de constar “agora” em uma frase dita por Jesus indica que tal termo tinha uma função gramatical e semântica em seu discurso, influindo no sentido da frase respectiva, sendo importante dizer que em Jesus “não há pecado” (1Jo 3, 5), pois ele é a Verdade (Jo 14, 6), e a verdade não mente, nem nas pequenas coisas.

Eis os significados de “agora”: “(Do lat. hac hora, ‘nesta hora’.) Adv. 1. Neste instante, neste momento, nesta hora (…) 2. Presentemente, atualmente (…) 3. Nesse ou naquele instante, nesse ou naquele momento, nessa ou naquela hora; então (…) 4. Nesse ou naquele tempo; então” (Aurélio Buarque de Olanda Ferreira. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 4. ed. Curitiba: Ed. Positivo, 2009, p. 70).

O texto em que o termo “agora” define o sentido do Cristianismo é o seguinte:

Então Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e lhe disse: Tu és o rei dos judeus? Jesus lhe respondeu: ‘Falas assim por ti mesmo ou outros te disseram isso de mim?’ Respondeu Pilatos: Sou, por acaso, judeu? Teu povo e os chefes dos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste?’ Jesus respondeu: ‘Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, meus súditos teriam combatido para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas meu reino não é daqui’. Pilatos lhe disse: ‘Então, tu és rei?’ Respondeu Jesus: ‘Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz’” (Jo 18, 33-37).

Esse é o texto emblemático segundo o qual Jesus afirmou “meu reino não é deste mundo”, e fundada nessa manifestação formou-se uma interpretação teológica entendendo que o Reino de Deus é transcendente, está no além, porque não era, não é, e nunca será, deste mundo. Com base nessa interpretação, e amparando-se no que consta no Apocalipse (20,6 – os sacerdotes de Deus e de Cristo reinarão durante mil anos), a escatologia católica afirma que estamos no reino dos sacerdotes de Cristo, representados pelo líder da Igreja Católica, apenas aguardando o fim do mundo, quando haverá o julgamento final.

Existe uma versão protestante segundo a qual o reino de mil anos será no outro mundo, após o arrebatamento dos escolhidos, que serão elevados aos céus para esse reinado. De um modo geral, predomina a ideia de que “o Reino não é deste mundo”.

Agora entra o ponto fundamental, o “agora” que não está no texto acima transcrito (Jo 18, 33-37), extraído da Bíblia de Jerusalém, uma das mais reconhecidas e indicadas, pela boa tradução das Escrituras, palavra cuja ausência em nada altera a Teologia católica e boa parte das Teologias protestantes, sendo assim dispensável.

Verificando outras versões do mesmo texto, entretanto, é possível identificar uma pequena modificação na passagem, com o termo “agora”, capaz de alterar profundamente a Teologia Cristã, pela importância simbólica da expressão “meu reino não é deste mundo”.

Na obra de Frederico Lourenço, é a seguinte a tradução do versículo 36, do capítulo 18, do Evangelho de João (Novo Testamento: os quatro Evangelhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p 400): “Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Agora: o meu reino não é daqui’” (Negrito meu).

Uma questão importante, levantada por Frederico Lourenço na apresentação de sua tradução, vale ser destacada, quanto à sua pontuação:

À semelhança de Platão e Aristóteles, os evangelistas escreveram numa época em que, na escrita do grego, não havia letras minúsculas, nem pontuação, nem separação de palavras. Para termos um pouco a noção de como era o aspecto gráfico dos seus textos, basta-nos visualizar assim o início do Evangelho de João:

NOPRINCÍPIOERAOVERBOEOVERBOESTAVACOMDEUSEDEUSERAOVERBO” (Idem, p. 41).

Feito esse esclarecimento, vale dizer que na versão inglesa da Bíblia King James também há o “agora” (now).

Jesus answered, My kingdom is not of this world: if my kingdom were of this world, then would my servants fight, that I should not be delivered to the Jews: but now is my kingdom not from hence”.

O mesmo termo está na versão Almeida:

Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui”.

Haroldo Dutra Dias, na tradução para o português “O novo testamento, incluindo os quatro evangelhos e o livro Ato dos Apóstolos”, com notas linguísticas e de tradução histórico-cultural”, da Federação Espírita Brasileira, 2013, p. 458, faz constar: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servidores teriam combatido para que (eu) não fosse entregue aos judeus. Agora, porém, o meu reino não é daqui”.

Como se pode ver, o sentido teológico da fala de Jesus é um, sem o “agora”, ou outro, com o “agora”, porque sem essa palavra é possível dizer, pelo contexto, que, categoricamente, Jesus afirmou que o seu Reino não é deste mundo, nunca, em tempo algum.

De outro lado, com o “agora”, a interpretação da fala de Jesus claramente exprime que seu reino não era daquele instante, daquele momento, daquele tempo, daquela hora, ou daquele período histórico. E se o Reino nunca fosse deste mundo, o “agora” deveria estar mesmo oculto, mas a presença desse advérbio de tempo na frase indica, gramática e logicamente, que em algum outro momento o Reino será deste mundo.

O agora, contextualizado, faz com que outras passagens bíblicas tenham mais sentido:

Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: ‘A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está dentro de vós’” (Lc 17, 20-21).

O próprio Jesus ressuscitado respondeu aos seus discípulos se seria “agora” a restauração do reino de Israel:

Estando, pois, reunidos, eles assim o interrogaram: ‘Senhor, é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel?’ E ele respondeu-lhes: ‘Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade. Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra’” (At 1, 6-8).

O Reino está dentro de nós, portanto; apenas sua expressão política ainda não se manifestou. O Reino, estando dentro de nós, ou em nós, outrossim, é não apenas transcendente, como também imanente; está aqui, imanentemente, nos planos individual e coletivo, e neste ponto ainda se manifestará politicamente na ordem internacional, na medida em que entre as nações a transcendência predomina, inclusive teoricamente, sobre a imanência. O Reino é como um grão de mostarda em desenvolvimento, cuja árvore em alguns aspectos já cresceu e deu bons frutos; outros ramos, contudo, ainda não desabrocharam.

É importante frisar que Jesus e seus discípulos eram judeus, e os judeus não separavam temas morais, religiosos ou políticos, dada a unidade de sentido que pautava a comunidade judaica. A questão política, do Reino, era uma das manifestações de Deus entre os homens, e não faria sentido para um judeu remeter o Reino exclusivamente para outro mundo, para o além.

“‘Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede, e eu te darei as nações como herança, os confins da terra como propriedade. Tu as quebrarás com um cetro de ferro, como um vaso de oleiro as despedaçará’. E agora, reis, sede prudentes; deixai-vos corrigir, juízes da terra. Servi a Iahweh com temor, beijai seus pés com tremor, para que não se irrite e pereçais no caminho, pois sua ira se acende depressa. Felizes aqueles que nele se abrigam!” (Sl 2, 7-12).

Pois a Iahweh pertence a realeza: ele governa as nações. Sim, só diante dele todos os poderosos da terra se prostrarão, perante ele se curvarão todos os que descem ao pó; e por quem não vive mais, sua descendência o servirá e anunciará o Senhor à geração que virá, contando a sua justiça ao povo que vai nascer: ele a realizou!” (Sl 22, 29-32).

Pois Iahweh Altíssimo é terrível, é o grande rei sobre a terra inteira. Ele põe as nações sob o nosso poder, põe-nos os povos debaixo dos pés” (Sl 47, 3-4).

Por essas, e outras, passagens entende-se que o Reino de Deus, referente à era messiânica, é um evento, um acontecimento, que se realiza entre as nações, curvando os poderosos da Terra ao Altíssimo, alterando a política mundial.

Vale dizer que Jesus somente não é reconhecido pelos judeus como o Messias porque ele não destronou Roma e não passou o governo das nações, que naquele tempo pertencia a Roma, para o povo judeu, o que era o resultado esperado da vinda do Messias.

Hoje é mais fácil entender a narrativa messiânica, pois era preciso estabelecer um novo padrão de comportamento, de serviço e sacrifício, de amor ao próximo, a semente do Reino, que já está dentro de nós, para que essa semente florescesse, inclusive em termos teóricos, como temos hoje. Não havia conhecimento suficiente das coisas, no tempo romano, para que o Evangelho fosse compreendido e plenamente aplicado. Agora, porém, já vivemos em outro mundo, em comparação ao tempo romano, e da atividade do Messias já surtem efeitos políticos e proféticos, tendo sido restabelecida a soberania de Israel, como exposto em passagens dos artigos “Direitos naturais e direitos humanos” (https://holonomia.com/2018/08/19/direitos-naturais-e-direitos-humanos/) e “Estado, Cristo e culto” (https://holonomia.com/2018/07/30/estado-cristo-e-culto/).

Finalmente, vale dizer que foi com base na ideia de que “o reino não é deste mundo” que se estabeleceu a doutrina de Agostinho de Hipona, que prevalece na Teologia Cristã, considerado um dos doutores da Igreja, narrando a existência de duas cidades, a dos homens e a de Deus, dois mundos, o mesmo podendo ser dito da teoria de Descartes, das duas substâncias, que provavelmente tem relação com a ideia de dois mundos, dos corpos e dos espíritos, por decorrer o cartesianismo da Teologia sustentada por Agostinho. Portanto, tendo em vista a preeminência da Teologia sobre as questões filosóficas secundárias, pode-se dizer que a falta do “agora”, ou da correta interpretação teológica sobre o Reino, foi determinante para a separação filosófica entre Estado e Igreja, por Agostinho, e entre res cogitans e res extensa, ou corpo e alma/espírito, por Descartes; isso quando Cristo é Rei e Sacerdote, Estado e Igreja, qualidade que nos transmitiu (Ap 1, 6; 5, 10; 20, 6).

Assim, se há apenas um mundo, do qual Iahweh Altíssimo é Rei, sobre este mundo Ele Reinará, por meio de seus servidores ou ministros, cumprindo Suas profecias, dentre elas a de Jeremias, quando o Reino, que está dentro de nós, será conhecido por todos, pública, jurídica e politicamente:

Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Eu porei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhecei a Iahweh!’ Porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores, — oráculo de Iahweh — porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31, 33-34).

A era da burrice

O título do presente artigo é o mesmo da matéria de capa da Revista Superinteressante do mês de outubro de 2018, edição 394, tema ao qual cheguei a partir do artigo “A era da cizânia e a aparente proliferação da burrice” do sítio jurídico Conjur (https://www.conjur.com.br/2018-out-13/romulo-moreira-cizania-proliferacao-burrice). O artigo do sítio Conjur parte do pressuposto de que o artigo da Superinteressante “talvez explique, ao menos em parte, a ascensão de um fascista na política brasileira”.

Contudo, os mesmos dados podem se interpretados em sentido contrário àquele indicado pelo articulista do Conjur.

Inicialmente, a ideia de que há “a ascensão de um fascista na política brasileira” é equivocada. No ponto, a própria Superinteressante nos ajuda a explicar essa manipulação ideológica das palavras, deturpando o conceito de fascismo, pelo artigo “Você sabe o que é fascismo? Entenda o termo” (https://super.abril.com.br/historia/voce-sabe-o-que-e-fascismo-entenda-o-termo/), porque tal termo era “usado para designar as políticas adotadas por Mussolini e seus seguidores”, ligado a “um sistema político nacionalista, imperialista, antiliberal e antidemocrático”, ressaltando o “fato de o fascismo não possuir um arcabouço teórico forte, e ter sido determinado, na prática, pelas atitudes de Mussolini”, e concluindo que “a própria definição de fascismo é relativa. E as pessoas vão continuar usando essa palavra cada uma à sua maneira”.

Portanto, ainda que as pessoas estejam ficando mais burras, isso não significa que houve ascensão de um fascista na política brasileira, porque o pleito foi vencido democraticamente pelo representante de um ideal de liberalismo econômico sem qualquer veio imperialista, com pretensão explícita de redução do Estado.

Voltando à era da burrice, segundo a Superinteressante, edição 394, testes de inteligência (QI) feitos na Dinamarca, na Holanda, na Inglaterra e na França indicaram que houve queda do quociente de inteligência geral a partir do final do século XX, conforme estudo feito pelo antropólogo inglês Edward Dutton, sustentando que existe um declínio reiterado nos resultados do teste de QI nos últimos tempos, com possibilidade de, em uma geração, o QI médio regredir para 80 pontos, nível compatível com pessoas com inteligência baixa. Anteriormente, o estudo feito por James Flynn havia constatado relevante aumento de QI durante o século XX, fenômeno que ficou conhecido como Efeito Flynn.

O artigo da Superinteressante indica as possíveis causas para o Efeito Flynn Negativo, referente à redução dos níveis de inteligência medidos, iniciando por uma possível involução natural, porque as pessoas mais inteligentes teriam menos filhos, o que levaria à diminuição da média das pessoas inteligentes ao longo do tempo. Outra hipótese seria a redução natural da capacidade cognitiva, que já teria atingido o seu patamar máximo no passado. Levanta, ainda, a possibilidade de a evolução tecnológica dos últimos vinte anos ter mudado nossas condições de vida influindo negativamente na inteligência das pessoas, pois passamos a prestar menos atenção às coisas complexas, e por estarmos imersos em um mundo de frases curtas e simplistas das redes sociais. A última explicação parece plausível, mas pode ser acrescida de argumentos.

A palavra inteligência significa a capacidade de entendimento de uma pessoa, sendo que o termo inteligência tem origem latina, “inter”, ou “entre”, e “legere”, que tem tanto o sentido de “escolher” como o de “ler”, pelo que inteligência é a capacidade entendimento, de escolha da mais acerta hipótese dentre duas ou mais, referente ao discernimento do certo ou do errado, ou, ainda, a aptidão para ler entre linhas, nas entrelinhas, captando o significado mais sutil, mais amplo, da coisa ou do fenômeno.

David Bohm tinha o costume de buscar a origem das palavras para aprimorar seu conhecimento de mundo, como na conversa com Krishnamurti em que cita o termo “inteligência” (https://www.krishnamurti.org.br/index.php/conversa-entre-j-krishnamurti-e-o-prof-david-bohm/), e sua abordagem científica explica muito melhor a causa da era da burrice que vivenciamos, que decorre da fragmentação do conhecimento humano contemporâneo.

Nos tempos primitivos, o entrelaçamento da ciência com as artes e a religião, formando uma unidade inseparável, parecia ser o principal meio pelo qual esse processo de assimilação (de toda experiência humana) acontecia” (David Bohm. Sobre a criatividade. Trad. Rita de Cássia Gomes. São Paulo: Ed. Unesp, 2011, p. 31).

Bohm destacava que a ciência também tinha uma preocupação com o entendimento psicológico do universo, enquanto a religião tinha a preocupação de abranger “toda a vida, todos os relacionamentos, como uma totalidade ininterrupta, não fragmentada, inteira e completa” (Idem, p. 32), destacando o primeiro mandamento hebraico: “ame a Deus com todo o seu coração, todo o seu espírito e toda a sua força”, para que fosse atingido o objetivo da religião, “auxiliar o homem a ser inteiro e ter harmonia em todas as fases da vida” (Ibidem).

Essa totalidade de entendimento do mundo está se perdendo a passos largos, principalmente a partir da segunda metade do século XX, pelo que se pode dizer que a era da burrice decorre da atual fragmentação do conhecimento, em que ciência, arte e religião não mais formam unidade, não têm conexão, impedindo a correta compreensão do mundo.

No período dos gregos e dos romanos a religião estava na base da sociedade, e influía em todos os aspectos da vida, inclusive na criação de direitos e deveres das pessoas em comunidade, pois havia comunidade, a comum unidade de significado da vida. Isso não mais ocorre, porque a religião romana foi substituída pelo Cristianismo das duas cidades de Agostinho de Hipona, separando o comando do Espírito do comando do Corpo social, o que não teve maiores problemas inicialmente, pelo predomínio inconteste da moral Cristã no Ocidente, com reflexos também no mundo político-jurídico.

Contudo, após os questionamentos à visão Cristã de mundo, especialmente por Darwin, Marx e Freud, que surtiram efeitos ao longo do século XX, notadamente na revolução sexual dos anos 60, com aumento progressivo das indagações sobre a visão religiosa de mundo, comportamentos até então tidos como inaceitáveis moralmente passaram a ser defendidos abertamente, até o ponto de atualmente o relativismo moral não aceitar qualquer padrão de comportamento que não seja a vontade arbitrária das pessoas, especialmente nos campos moral e sexual, por não existir um modelo que seja considerado natural e usado como critério de julgamento da verdade ética e científica do mundo.

A burrice atual tem como causa a religião materialista e individualista que predomina na vida científica e social das pessoas, em que cada um se atribui o direito de ser uma ilha, com suas próprias vontades, porque o homem é um acidente cósmico (Darwin em sua versão atual); a história não tem um sentido próprio, devemos forçá-la segundo nossa vontade (Marx); sendo o sexo um comportamento sem qualquer outra repercussão na vida das pessoas senão o prazer imediato que proporciona, e por isso a vontade de todo filho é de se relacionar sexualmente com a mãe (Freud).

Como os dados não suportam as hipóteses darwinista, marxista e freudiana, que predominam no universo acadêmico, refletindo nas políticas LGBT, abortista, de defesa irresponsável dos criminosos e dos financistas do capitalismo selvagem e global, as experiências globais de mundo das pessoas que ainda possuem uma ideia de sentido da vida as levaram a reagir, ainda que em parte inconscientemente, a esse estado de burrice materialista que domina a vida contemporânea.

Por isso, para enfrentar essa irracionalidade generalizada, o movimento das comunidades ocidentais é no sentido de buscar uma ideia de bem ligada ao conhecimento que sustentou a civilização nos últimos dois milênios, relativa a ideias religiosas, de conexão espiritual dos fenômenos, ainda que o desenvolvimento dessas ideias seja parcialmente equivocado, para superar a fragmentação materialista do conhecimento que culminou na redução da inteligência média das pessoas.

Fica claro, então, que o raciocínio deve ser considerado uma arte. E, portanto, em um sentido mais profundo, o artista, o cientista e o matemático estão preocupados com a arte e seu significado mais geral, ou seja, a conexão” (Idem, p. 97).

É a pessoa religiosa que busca a conexão entre os fenômenos, uma ligação espiritual em tudo o que ocorre, ao contrário dos materialistas, porque para estes o mundo é regido pelo acaso, pela aleatoriedade, e, por isso, não havendo significado sutil a ser descoberto ou entendido, por ausência de atividade e esforço mental nesse sentido, a inteligência involuiu em um mundo sem substrato religioso.

Esse conceito de conexão estende-se a todos os aspectos da vida, incluindo aqueles chamados de morais ou éticos e que têm a ver com o bem. (…)

A dificuldade é, naturalmente, que os homens têm conceitos confusos e fragmentários em relação ao que é bom. Tais conceitos separam os homens, tanto de si mesmos quanto dos outros, levando a conflitos. Desse modo, a origem do mal seria o fato de o homem seguir seu próprio conceito fragmentado do que é bom” (Idem, p. 99).

O tempo em que vivemos, da era da burrice, é, portanto, também o do anticristo, porque Deus, o Criador, o Pai, não está presente na vida científica e social, inclusive jurídica, e o Direito tem sido entendido como um instrumento de libertação da opressão humana, para que cada um faça o que quiser, quando, em realidade, como disse Celso, Direito é a arte do bom e do justo, porque existe um bom objetivo, e um justo objetivo, que é associado na tradição judaico-cristã-muçulmana a Deus, o Bom, o Justo, o Clemente, o Misericordioso.

Quem é o mentiroso, a não ser quem nega que Jesus seja o Cristo? Esse é o anticristo, aquele que nega o Pai e o filho. Todo aquele que nega o filho não tem o Pai; quem reconhece o filho tem também o Pai” (1Jo 2, 22-23).

Portanto, para que a inteligência volte a evoluir, é necessária a aceitação do Cristo, o Enviado do Pai para mostrar Sua Vontade, Política, Jurídica e Religiosa. Porque Cristo é a encarnação do Logos, da verdadeira Sabedoria, da própria Inteligência cósmica, é o único método, ou Caminho, para a Verdade, para que cheguemos à Sapiência, à Consciência, à Lucidez que dispersa toda escuridão e toda ignorância. Contra a burrice, só Cristo, pois “Todo aquele que permanece n’Ele não erra; todo aquele que erra não O viu nem O conheceu” (1Jo 3, 6).