Agora

Agora, palavra simples que me ajudou a entender o Cristianismo, a religião mais seguida no planeta Terra, em suas várias vertentes, associada a uma forma de civilização, a judaico-cristã que perpassa o entendimento sobre o chamado mundo ocidental, relativa, especialmente, aos povos europeus e americanos.

A boa doutrina hermenêutica do Direito ensina que a lei não contém palavras inúteis, entendimento que pode ser estendido para a interpretação de textos em geral.

Presume-se que a lei não contenha palavras supérfluas; devem tôdas ser entendidas como escritas adrede para influir no sentido da frase respectiva” (Carlos Maximiliano. Hermenêutica e Aplicação do Direito. Sexta edição. Livraria Freitas Bastos S/A: Rio de Janeiro e São Paulo, 1957, p. 144).

Além de uma análise filológica, do sentido de suas palavras, o texto bíblico deve também ser interpretado segundo a cosmovisão dos autores de seus escritos e das personagens das histórias, e, nesse ponto, o Evangelho se refere a uma época em que havia poder na mensagem falada, e uma palavra, por seu significado ontológico, podia acarretar uma condenação à morte.

E o Sumo Sacerdote lhe disse: ‘Eu te conjuro pelo Deus Vivo que nos declares se tu és o Cristo, o Filho de Deus’. Jesus respondeu: ‘Tu o disseste. Aliás, eu vos digo que, de ora em diante, vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu’. O Sumo Sacerdote então rasgou suas vestes, dizendo: ‘Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Vede: vós ouvistes neste instante a blasfêmia. Que pensais?’ Eles responderam: ‘É réu de morte’” (Mt 26, 63-66).

Jesus foi condenado à morte porque disse ser o Cristo, o Messias, o Filho de Deus, que também o qualificava como o filho de Davi e o Rei dos Judeus.

Assim, o fato de constar “agora” em uma frase dita por Jesus indica que tal termo tinha uma função gramatical e semântica em seu discurso, influindo no sentido da frase respectiva, sendo importante dizer que em Jesus “não há pecado” (1Jo 3, 5), pois ele é a Verdade (Jo 14, 6), e a verdade não mente, nem nas pequenas coisas.

Eis os significados de “agora”: “(Do lat. hac hora, ‘nesta hora’.) Adv. 1. Neste instante, neste momento, nesta hora (…) 2. Presentemente, atualmente (…) 3. Nesse ou naquele instante, nesse ou naquele momento, nessa ou naquela hora; então (…) 4. Nesse ou naquele tempo; então” (Aurélio Buarque de Olanda Ferreira. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 4. ed. Curitiba: Ed. Positivo, 2009, p. 70).

O texto em que o termo “agora” define o sentido do Cristianismo é o seguinte:

Então Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e lhe disse: Tu és o rei dos judeus? Jesus lhe respondeu: ‘Falas assim por ti mesmo ou outros te disseram isso de mim?’ Respondeu Pilatos: Sou, por acaso, judeu? Teu povo e os chefes dos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste?’ Jesus respondeu: ‘Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, meus súditos teriam combatido para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas meu reino não é daqui’. Pilatos lhe disse: ‘Então, tu és rei?’ Respondeu Jesus: ‘Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz’” (Jo 18, 33-37).

Esse é o texto emblemático segundo o qual Jesus afirmou “meu reino não é deste mundo”, e fundada nessa manifestação formou-se uma interpretação teológica entendendo que o Reino de Deus é transcendente, está no além, porque não era, não é, e nunca será, deste mundo. Com base nessa interpretação, e amparando-se no que consta no Apocalipse (20,6 – os sacerdotes de Deus e de Cristo reinarão durante mil anos), a escatologia católica afirma que estamos no reino dos sacerdotes de Cristo, representados pelo líder da Igreja Católica, apenas aguardando o fim do mundo, quando haverá o julgamento final.

Existe uma versão protestante segundo a qual o reino de mil anos será no outro mundo, após o arrebatamento dos escolhidos, que serão elevados aos céus para esse reinado. De um modo geral, predomina a ideia de que “o Reino não é deste mundo”.

Agora entra o ponto fundamental, o “agora” que não está no texto acima transcrito (Jo 18, 33-37), extraído da Bíblia de Jerusalém, uma das mais reconhecidas e indicadas, pela boa tradução das Escrituras, palavra cuja ausência em nada altera a Teologia católica e boa parte das Teologias protestantes, sendo assim dispensável.

Verificando outras versões do mesmo texto, entretanto, é possível identificar uma pequena modificação na passagem, com o termo “agora”, capaz de alterar profundamente a Teologia Cristã, pela importância simbólica da expressão “meu reino não é deste mundo”.

Na obra de Frederico Lourenço, é a seguinte a tradução do versículo 36, do capítulo 18, do Evangelho de João (Novo Testamento: os quatro Evangelhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p 400): “Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Agora: o meu reino não é daqui’” (Negrito meu).

Uma questão importante, levantada por Frederico Lourenço na apresentação de sua tradução, vale ser destacada, quanto à sua pontuação:

À semelhança de Platão e Aristóteles, os evangelistas escreveram numa época em que, na escrita do grego, não havia letras minúsculas, nem pontuação, nem separação de palavras. Para termos um pouco a noção de como era o aspecto gráfico dos seus textos, basta-nos visualizar assim o início do Evangelho de João:

NOPRINCÍPIOERAOVERBOEOVERBOESTAVACOMDEUSEDEUSERAOVERBO” (Idem, p. 41).

Feito esse esclarecimento, vale dizer que na versão inglesa da Bíblia King James também há o “agora” (now).

Jesus answered, My kingdom is not of this world: if my kingdom were of this world, then would my servants fight, that I should not be delivered to the Jews: but now is my kingdom not from hence”.

O mesmo termo está na versão Almeida:

Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui”.

Haroldo Dutra Dias, na tradução para o português “O novo testamento, incluindo os quatro evangelhos e o livro Ato dos Apóstolos”, com notas linguísticas e de tradução histórico-cultural”, da Federação Espírita Brasileira, 2013, p. 458, faz constar: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servidores teriam combatido para que (eu) não fosse entregue aos judeus. Agora, porém, o meu reino não é daqui”.

Como se pode ver, o sentido teológico da fala de Jesus é um, sem o “agora”, ou outro, com o “agora”, porque sem essa palavra é possível dizer, pelo contexto, que, categoricamente, Jesus afirmou que o seu Reino não é deste mundo, nunca, em tempo algum.

De outro lado, com o “agora”, a interpretação da fala de Jesus claramente exprime que seu reino não era daquele instante, daquele momento, daquele tempo, daquela hora, ou daquele período histórico. E se o Reino nunca fosse deste mundo, o “agora” deveria estar mesmo oculto, mas a presença desse advérbio de tempo na frase indica, gramática e logicamente, que em algum outro momento o Reino será deste mundo.

O agora, contextualizado, faz com que outras passagens bíblicas tenham mais sentido:

Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: ‘A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está dentro de vós’” (Lc 17, 20-21).

O próprio Jesus ressuscitado respondeu aos seus discípulos se seria “agora” a restauração do reino de Israel:

Estando, pois, reunidos, eles assim o interrogaram: ‘Senhor, é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel?’ E ele respondeu-lhes: ‘Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade. Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra’” (At 1, 6-8).

O Reino está dentro de nós, portanto; apenas sua expressão política ainda não se manifestou. O Reino, estando dentro de nós, ou em nós, outrossim, é não apenas transcendente, como também imanente; está aqui, imanentemente, nos planos individual e coletivo, e neste ponto ainda se manifestará politicamente na ordem internacional, na medida em que entre as nações a transcendência predomina, inclusive teoricamente, sobre a imanência. O Reino é como um grão de mostarda em desenvolvimento, cuja árvore em alguns aspectos já cresceu e deu bons frutos; outros ramos, contudo, ainda não desabrocharam.

É importante frisar que Jesus e seus discípulos eram judeus, e os judeus não separavam temas morais, religiosos ou políticos, dada a unidade de sentido que pautava a comunidade judaica. A questão política, do Reino, era uma das manifestações de Deus entre os homens, e não faria sentido para um judeu remeter o Reino exclusivamente para outro mundo, para o além.

“‘Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede, e eu te darei as nações como herança, os confins da terra como propriedade. Tu as quebrarás com um cetro de ferro, como um vaso de oleiro as despedaçará’. E agora, reis, sede prudentes; deixai-vos corrigir, juízes da terra. Servi a Iahweh com temor, beijai seus pés com tremor, para que não se irrite e pereçais no caminho, pois sua ira se acende depressa. Felizes aqueles que nele se abrigam!” (Sl 2, 7-12).

Pois a Iahweh pertence a realeza: ele governa as nações. Sim, só diante dele todos os poderosos da terra se prostrarão, perante ele se curvarão todos os que descem ao pó; e por quem não vive mais, sua descendência o servirá e anunciará o Senhor à geração que virá, contando a sua justiça ao povo que vai nascer: ele a realizou!” (Sl 22, 29-32).

Pois Iahweh Altíssimo é terrível, é o grande rei sobre a terra inteira. Ele põe as nações sob o nosso poder, põe-nos os povos debaixo dos pés” (Sl 47, 3-4).

Por essas, e outras, passagens entende-se que o Reino de Deus, referente à era messiânica, é um evento, um acontecimento, que se realiza entre as nações, curvando os poderosos da Terra ao Altíssimo, alterando a política mundial.

Vale dizer que Jesus somente não é reconhecido pelos judeus como o Messias porque ele não destronou Roma e não passou o governo das nações, que naquele tempo pertencia a Roma, para o povo judeu, o que era o resultado esperado da vinda do Messias.

Hoje é mais fácil entender a narrativa messiânica, pois era preciso estabelecer um novo padrão de comportamento, de serviço e sacrifício, de amor ao próximo, a semente do Reino, que já está dentro de nós, para que essa semente florescesse, inclusive em termos teóricos, como temos hoje. Não havia conhecimento suficiente das coisas, no tempo romano, para que o Evangelho fosse compreendido e plenamente aplicado. Agora, porém, já vivemos em outro mundo, em comparação ao tempo romano, e da atividade do Messias já surtem efeitos políticos e proféticos, tendo sido restabelecida a soberania de Israel, como exposto em passagens dos artigos “Direitos naturais e direitos humanos” (https://holonomia.com/2018/08/19/direitos-naturais-e-direitos-humanos/) e “Estado, Cristo e culto” (https://holonomia.com/2018/07/30/estado-cristo-e-culto/).

Finalmente, vale dizer que foi com base na ideia de que “o reino não é deste mundo” que se estabeleceu a doutrina de Agostinho de Hipona, que prevalece na Teologia Cristã, considerado um dos doutores da Igreja, narrando a existência de duas cidades, a dos homens e a de Deus, dois mundos, o mesmo podendo ser dito da teoria de Descartes, das duas substâncias, que provavelmente tem relação com a ideia de dois mundos, dos corpos e dos espíritos, por decorrer o cartesianismo da Teologia sustentada por Agostinho. Portanto, tendo em vista a preeminência da Teologia sobre as questões filosóficas secundárias, pode-se dizer que a falta do “agora”, ou da correta interpretação teológica sobre o Reino, foi determinante para a separação filosófica entre Estado e Igreja, por Agostinho, e entre res cogitans e res extensa, ou corpo e alma/espírito, por Descartes; isso quando Cristo é Rei e Sacerdote, Estado e Igreja, qualidade que nos transmitiu (Ap 1, 6; 5, 10; 20, 6).

Assim, se há apenas um mundo, do qual Iahweh Altíssimo é Rei, sobre este mundo Ele Reinará, por meio de seus servidores ou ministros, cumprindo Suas profecias, dentre elas a de Jeremias, quando o Reino, que está dentro de nós, será conhecido por todos, pública, jurídica e politicamente:

Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Eu porei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhecei a Iahweh!’ Porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores, — oráculo de Iahweh — porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31, 33-34).

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