A guerra em curso

Há uma guerra mundial em curso, que apenas ainda não voltou ao seu ápice bélico. Esta é uma situação iminente, latente, porque a guerra evidente, já existente, é espiritual, é ideológica, é a luta entre a universalidade e a irracionalidade, que remete ao tempo de Cristo, o qual representa o lado da universidade, de certa forma reclamado pelos atuais grupos em conflito, os quais, contudo, militam no campo da irracionalidade.

Roma já clamava para si a qualidade de império universal, mas na realidade era um governo de cunho nacionalista, ou mesmo familiar, com larga extensão planetária. A república romana se mostrou uma luta entre monarquia e aristocracia.

Ao se deparar com o verdadeiro conceito de universalidade, associado às ideias de Cristo, e não conseguindo absorver seu Espírito, Roma caiu, pois incapaz de conciliar o Evangelho, ligado à realidade espiritual, à universalidade dos direitos humanos e à fraternidade humana, com o domínio imperial.

Desde então a ideia de unir um império universal às ideias de Cristo fez surgir uma sucessão de novos impérios, desde a própria igreja romana, passando pelos impérios carolíngio, espanhol, português, britânico e americano, do ponto de vista ocidental, em que predomina a cosmovisão judaico-cristã.

A ascensão e queda desses impérios é o reflexo visível da guerra espiritual invisível existente desde a antiguidade, vencida pela universalidade de Cristo, no plano espiritual, e que ainda está em curso na sociedade moderna, uma vez que não superadas as causas que levaram à primeira guerra mundial, que foi a causa da segunda, e somente será solucionada após a terceira.

Nesse sentido, temos hoje o império americano, em decadência, porque sua universalidade é apenas parcial, pois sua economia é insustentável, não é universalizável em termos planetários o nível de consumo dos cidadãos norte-americanos, cultura essa que atingiu vários outros países, como o próprio Brasil. No corrente ano, em 29 de julho, nós ultrapassamos, planetariamente, o limite de consumo anual sustentável dos recursos naturais (http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-07/humanidade-ja-usou-recursos-naturais-do-planeta-para-2019).

A solução é uma só, reduzir o consumo, pagar mais caro por produtos poluentes, que sejam ecologicamente, e em termos de saúde, menos sustentáveis.

Contudo, ninguém quer pagar essa conta, seja em termos de parafiscalidade ou extrafiscalidade, podendo ser citados como exemplos os cigarros contrabandeados do Paraguai, a greve dos caminhoneiros e os protestos recentes no Equador e no Chile.

No caso do Equador, a gota d’água foi o fim do subsídio para gasolina e diesel, gerando a reação de vários grupos sociais, especialmente dos indígenas. Esse caso é exemplar para mostrar a contradição dos tempos atuais, porque a cultura indígena é, inquestionavelmente, atrasada em termos tecnológicos, portanto incompatível com o motor a combustão e com a tecnologia digital, e ainda assim os indígenas insistem em usar caminhonetes a diesel e smartphones. É contraditório escolher o melhor de cosmovisões distintas, sem o devido esforço racional, mental e corporal que permita essa conciliação, com as renúncias inerentes à manutenção da unidade lógica e racional, ao Logos. Os indígenas, destarte, podem ter caminhonetes e iPhones, mas, para tanto, é indispensável incorporar a mentalidade de Cristo, com os fundamentos de sua cosmovisão e moralidade.

Portanto, ninguém quer pagar a conta para a existência da sociedade universal, ou melhor, quase ninguém, porque Jesus e seus verdadeiros seguidores fizeram exatamente isso, o que demanda apontar os erros e contradições de seu próprio grupo, sua própria nação, sua própria religião, sofrendo as consequências desse comportamento ousado que é, ao mesmo tempo, desafiador e conservador.

Nesse sentido, o império americano é decadente e não aceita perder o poder, não concorda em renunciar à parcela de exploração natural e exagero de consumo que faz de seu padrão de vida insustentável, e anticristão, o que inclui a concentração absurda de riquezas entre famílias dentro do planeta, entre grupos dentro de nações e em poucos países, tudo fruto de uma simbologia equivocada, que valoriza aspectos materiais e fugazes da vida em franco detrimento da realidade significativa da vida, que inclui o desenvolvimento espiritual humano. Não há problema em ser rico, mas multibilionário, sem produzir benefício social, e até mesmo em detrimento do resto da sociedade.

Por isso, a guerra atual é psicológica e econômica. Como os donos do dinheiro, do dólar, que fundamenta a economia, não aceitam perder dinheiro, a população é manipulada e os governantes não a respeitam e não falam a verdade, porque não sabem ou não querem, e como a China não tem pressa e continuará crescendo em poder e população, com as respectivas necessidades materiais, a guerra é inevitável, mesmo porque o povo também não aceita “perder direitos” e não concorda em pagar mais caro pelos produtos que consome e para ter qualidade e sustentabilidade de vida, do que são exemplos as questões ligadas aos combustíveis fósseis e à previdência pública.

Assim, a guerra bélica ocorrerá não porque EUA, China e Rússia entrarão em conflito armado direto, mas porque a ela serão arrastados, e para continuar e solucionar o problema teórico não resolvido pela primeira guerra, incluídas as questões financeiras mundiais e as alianças econômicas e militares das nações.

A primeira guerra começou por um detalhe, em um conflito já conflagrado previamente em termos políticos e ideológicos, e seria, do lado que se sagrou vencedor, a guerra para acabar com todas as guerras. Atualmente, a mentalidade universal ainda não está presente nas nações imperiais, e a Europa, como um todo, a antiga potência, que já decaiu, tem papel secundário na guerra em curso, porque seus interesses econômicos e ideológicos estão no meio do conflito.

Não se pode esquecer, ainda, a “guerra santa” islâmica, que também representa o Islã de universalidade parcial, que pretende se impor como razão soberana, o que ganha importância no cenário planetário a partir das divergências entre Irã, Israel e Arábia Saudita.

O predomínio de uma ideia não universal é provisório, porque a exploração é possível apenas por um período de tempo, até que a paciência, os recursos ou ambos se esgotem, dando início ao confronto físico.

A China consegue manter sua enorme população sob controle, com pouca liberdade, enquanto há prosperidade econômica, que está sendo reduzida. O ciclo de crescimento dos EUA também está perto do fim, sendo prevista para breve uma recessão de proporções ainda desconhecidas.

Como efeito direto dos problemas econômicos surgem as questões sociais ligadas às mudanças climáticas, pois se, de um lado, é possível e provável que humanidade tenha contribuído para tanto; de outro lado, é inegável que as adequadas políticas públicas, com os custos econômicos respectivos, para todos, ricos e pobres, poderiam, se não neutralizar, minorar em muito os danos humanos decorrentes das catástrofes naturais.

Contudo, ainda prevalece uma situação de exploração da maioria por uma minoria, o que inclui a minoria LGBT, que pretende impor sua visão anormal de mundo a todos, contrária à natural geração da vida, provocando uma degeneração da vida social com seu entendimento materialista ou equivocado da realidade, que não é universal, mas particular e também insustentável. Essas minorias não possuem os arquétipos psíquicos e/ou biológicos para criar filhos adequadamente, pois sua estrutura psíquica e/ou biológica é deficiente, significando uma anomalia, uma possível exceção, que não pode ser considerada regra ou norma universal, sendo um pensamento parcial e, portanto, irracional.

Os fundamentos da vida contemporânea, outrossim, mostram-se insustentáveis, sendo necessário reformar nossa casa comum, estruturalmente, em termos ideológicos, comportamentais e institucionais. Um prédio que está com seus fundamentos abalados, comprometidos, deve ser restaurado, sob pena de ruína da construção, com as perdas que lhe são inerentes. Para que seja possível fazer uma obra em casa habitada, há necessidade de grande acomodação de seus ocupantes, com os desconfortos que permitem a ação dos operários.

Todavia, uma vez que ninguém quer pagar a conta de uma vida sadia, de uma sociedade universal, tudo indica que será necessário que, mais uma vez, a civilização seja arruinada, para que, então, somente depois de grande destruição e de encerradas todas as guerras, as ideias verdadeiramente universais, católicas, prevaleçam, de modo que todos sejam submissos ao Logos, sejam islâmicos, respeitando os direitos humanos, com a humanidade governada por Cristo, por seus apóstolos, encarnando o Logos, em termos ideológicos, comportamentais e institucionais, no Reino de Deus.

As categorias na vida social

Continuo neste texto a proposta do artigo anterior, no sentido de que a encarnação é a categoria científica fundamental, significando a verificação da correspondência entre ideia e realidade, entre forma e matéria, e de que a ideia de encarnação do Logos pode levar a um novo entendimento de paradigma hilomórfico, mais adequado do que o aristotélico, porque dentro da concepção monoteísta de mundo, na compreensão de que a encarnação do Logos ocorre em nós, na humanidade, a partir do Método Cristo, como Ciência.

Tal proposta é relativamente pacífica na ciência física, em que a forma é matemática, a qual condiciona a apreensão intelectual da realidade, por meio de equações, estatísticas e gráficos, como formas segundo as quais são descritos os movimentos dos corpos.

Usemos, assim, inicialmente, os conceitos de corpo, alma e espírito. O corpo é aquilo que está no tempo e no espaço, é a única coisa que existe para os materialistas, em relação ao qual a relatividade de Einstein proporcionou um conhecimento muito aprofundado. Alma e espírito, por sua vez, são ideias mais sutis, de difícil compreensão, às vezes confusas, referindo-se a epifenômenos do mundo corporal, segundo os materialistas; ou à realidade mais profunda, conforme o conhecimento religioso tradicional.

O corpo é algo que pode ser movido, permitindo-se entender que a alma é o movimento em si, e o espírito é o sentido do movimento. Enquanto vivos, somos corpo com movimento próprio, espírito encarnado. Assim, o espírito é a causa da alma, que é o movimento de um corpo específico. Mas esses conceitos têm função meramente ilustrativa, dada a necessidade de superação das categorias cartesianas, para que seja transcendida a individualidade dessas categorias, de modo que tenhamos acesso ao conhecimento da realidade em si, que são as coisas no contexto da totalidade, da unidade, do Logos.

A ciência moderna tem comprovado o conhecimento que o Monoteísmo já possuía, e que foi expresso após sua consumação em Cristo, pelas palavras atribuídas a Paulo:

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

A existência de um só Corpo é uma interpretação direta da relatividade, que une espaço e tempo numa só realidade, porque cada parte do espaço-tempo está interligada a todo o universo físico por meio das partes adjacentes desse mesmo espaço-tempo, que não é propriamente sólido, como indicam as ondas gravitacionais e a conversibilidade entre matéria e energia.

Contudo, falta-nos entender o Espírito, o sentido do movimento cósmico, que não está localizado em alguma parte do espaço-tempo, sendo uma realidade difusa que perpassa todo universo, independentemente da distância espacial ou temporal, que de algum modo está além do espaço-tempo, falta-nos entender a realidade quântica em sua não localidade, que há um só Espírito.

Para isso, é necessário voltar à ideia de encarnação como categoria científica fundamental, de modo que cada corpo está associado a um movimento, que tem um sentido, havendo uma direção comum, um Espírito, que está na origem de todos os corpos e todos os movimentos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos.

Assim, diversamente do que pensam os materialistas, os corpos não se movem por si mesmos e nem para si mesmos, ao contrário, são movidos por espírito, podendo o movimento, a alma, estar sob influência de um espírito parcial ou local, de racionalidade incompleta, desvinculada do Espírito de unidade; ou conforme este, pelo Logos. Todo corpo individual é o desmembramento de um corpo maior, sendo o movimento inicial daquele dependente da sua específica posição espaço-temporal, no corpo maior, enquanto seu movimento final será consequência tanto de suas ações pessoais quanto dos efeitos sofridos do meio em que inserido, do corpo maior.

Para o materialista, os humanos são autômatos de alta complexidade, são corporalmente determinados e não possuem liberdade, não há livre-arbítrio, pois tudo o que existe é o corpo, com todas as ações e reações sendo determinadas quimicamente, sendo as ideias meros simbolismos materiais, de intrincadíssima compreensão, associadas a corpos maiores ou menores, o que vale, por exemplo, para um animal, uma pessoa, um grupo social, uma nação, a humanidade etc.

Assim, o pensamento é voltado a esse corpo, com sua ideia, seu espírito, que determina a ação da pessoa, é a causa de seu movimento, sua alma, provocando suas ações corporais. O materialista encarna, portanto, uma determinada ideia ou espírito de pessoa, ser humano e humanidade, com sua limitação espaço-temporal.

Para o religioso, para o Cristão, em especial, a humanidade é o templo de Deus, porque possuímos espírito, algo que está além da realidade corporal, somos templos do Espírito de Deus, porque a vida que possuímos não é algo meramente bioquímico e limitada a esse corpo mortal, mas uma dádiva de Deus, é o resultado de uma centelha divina, da presença do único Espírito em nós, é algo sagrado, ligada a uma realidade profunda à qual pertencemos, que está presente em todo e cada ser humano, saiba ele disso ou não. Desta feita, somos membros de um Corpo maior, que possui um Espírito não local, pelo que nossas ações devem ser determinadas também pelas necessidades desse Corpo e Seu Espírito.

Por isso, o Cristão encarna o Logos, move seu corpo não apenas segundo as vontades do seu próprio corpo individual, ou de um conceito limitado e material de humanidade, vontades que devem ser atendidas até certo ponto, por uma questão de sobrevivência, para o desenvolvimento e aperfeiçoamento corporal, incluída a reprodução da espécie, mas também segundo o corpo coletivo que integramos, movidos pelo Espírito, para a plenitude existencial.

Outrossim, cada corpo é a encarnação de um espírito, cada corpo é movido por uma causa, que pode ser boa ou má, melhor ou pior, que vai do extremo egoísmo, a ideia de um si mesmo individual como plenitude, ao limite da completude humana, que é Jesus, O Cristo, o Ungido pelo Logos, o que manifestou o Logos na humanidade, porque se moveu segundo a Vontade de Deus, mesmo contra sua vontade individual e corporal, até a entrega voluntária à tortura e morte, para mostrar como um governante obediente à Lei, como o Messias, o Rei, deve se comportar.

Afastando-se de novo pela segunda vez, orou: ‘Meu Pai, se não é possível que isto passe sem que eu o beba, seja feita a tua vontade!’” (Mt 26, 42).

E afastou-se deles mais ou menos a um tiro de pedra, e, dobrando os joelhos, orava: ‘Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!’” (Lc 22, 41-42).

Tal passagem está inserida em um contexto de libertação política legítima, a Páscoa, quando o faraó, após intervenção divina, liberou o povo judeu da escravidão no Egito, o que era um evento da maior importância social para os israelitas, e continua com significação política, e também filosófica e teológica, a libertação do mau governo e da morte, porque estabelecidos definitivamente o Bom governo e a Vida, a qual continua em outro nível de realidade, antecipada na ressurreição de Jesus, realidade em que este mundo visível e o outro invisível se unem.

Havia uma necessidade lógica de que Jesus, como Messias de Israel, a nação eleita, passasse por isso, e por essa razão ele é a especial encarnação do Logos, porque ele cumpriu a Lei até o fim, até a morte, para que o Direito e a Justiça se realizassem, conforme a Vontade Perfeita de Deus, Seu Espírito, ou Logos, adequando a história humana ao sentido da salvação, que inclui a vinda do Reino de Deus, a era em que a Justiça, a Bondade e a Verdade dominarão no plano político internacional, conforme o modelo de Jesus, o Método científico, como encarnação do Logos, para que o corpo comum da humanidade, e seus membros, seja tratado dignamente. Cristianismo, assim, é questão de política pública.

A Lei e, portanto, o Direito, igualmente, possuem um sentido, um Espírito, que determina o comportamento correto, juridicamente esperado, justo, em contraposição ao incorreto, ilícito ou injusto. O legal e o ilegal estão relacionados ao racional e ao irracional, ao moral e ao imoral, ao sentido do comportamento segundo uma ideia de mundo, e o que é bom, justo e adequado ao corpo social.

Direito é sentido, e o sentido é dado pelo Espírito, pelo que Direito é Espírito, e não por acaso a hermenêutica se tornou disciplina fundamental ao Direito. Direito pressupõe a liberdade de escolha do sentido do movimento, do sentido da vida, permite ao homem encarnar Deus, o Logos, ou seu opositor, o engano, mover-se a favor do ou contra o corpo individual e social, do que a história está repleta de exemplos, pelos santos que seguem Cristo e pelos diabos e anticristos, que matam, rejeitam ou ignoram os outros filhos de Deus.

Nos animais, por exemplo, há alma, há sentido do movimento, mas a liberdade de escolha é reduzidíssima, o sentido é quase absolutamente dado pelo instinto, daí porque não são sujeitos de direito, mas objeto de proteção jurídica, e não são julgados por suas ações. O homem, por sua vez, pode escolher a causa de seu movimento, isso porque tem livre-arbítrio, tem a possibilidade de se mover para satisfazer somente seus instintos, a despeito do prejuízo que tal ação poderá causar ao corpo social, dada a deturpação ocorrida no instinto humano pelo chamado pecado original, que é adquirido pela má educação, fazendo com que sejamos capazes de continuar a nos mover mesmo após satisfeitas nossa necessidade de sobrevivência, o que é função do instinto, o qual deve ser reeducado segundo a Ciência de Cristo.

Espírito é causa, é motivo e finalidade, o que também vale para o Direito, que estabelece padrões de comportamentos adequados e bons tanto para as pessoas individualmente quanto para o corpo social.

Enquanto as categorias adotadas no mundo jurídico e, consequentemente, pelas pessoas, continuarem a ser baseadas no paradigma das duas cidades de Agostinho ou do dualismo cartesiano, ou no paradigma materialista, com destaque para as doutrinas e teorias que ganharam força especialmente a partir da segunda metade do século XX, enquanto não for compreendido que há um só Corpo e um só Espírito, enquanto o Logos não for o fundamento do Direito, a vida social continuará a ser palco de catástrofes, tragédias e crimes de toda ordem, nos planos nacional e internacional, em detrimento da Humanidade, de seu Corpo e Espírito, e de seus membros, nós.

Categorias e fenômenos

A investigação científica, o conhecimento, em geral, depende de categorias, pelas quais os fenômenos são apreendidos intelectualmente, de modo que a compreensão dos eventos é condicionada pelas categorias por meio das quais os filtramos, medimos ou experimentamos.

Por isso, em certo sentido, nós observamos as categorias, isto é, as categorias são os fenômenos com que nosso intelecto trabalha. Nesse ponto, existem as categorias sensoriais, que podem ser correlacionadas aos sentidos, visão, paladar, olfato, tato e audição, com suas subdivisões em cores, formas, gostos, cheiros, superfícies, frequências, timbres etc, que decorrem das diferenças específicas dessas respectivas qualidades. Essas mesmas categorias são, simultaneamente, inteligentes, correspondentes às formas com que trabalhamos intelectualmente, diferenciando racionalmente tanto as sensações como as relações lógicas entre elas. Vale dizer que é possível, por meio das categorias racionais, entender como as categorias sensoriais podem ser enganosas, como podemos ser ludibriados por nossos sentidos.

Com razão, portanto, Aristóteles, ao usar os conceitos de matéria (hylé) e forma (morphe), porque mesmo nas questões sensoriais a forma está essencialmente presente, condicionando a correta compreensão do mundo, pelo que o paradigma hilomórfico, em que atuam os dois princípios interligados, matéria e forma, está presente na base da cognição.

Contudo, a mentalidade ocidental ainda sofre os efeitos das categorias cartesianas, as quais, por sua vez, têm forte influência teológica, pela adoção de um dualismo platônico que foi incorporado em uma concepção do Cristianismo consolidada nos séculos IV e V, quanto ao significado da encarnação do Logos. Tal concepção entende que o Reino de Deus não é deste mundo e que houve a encarnação do Logos em Jesus, na medida em que este integra a trindade, a divindade triúna, havendo uma separação ontológica entre o mundo divino e o humano, sendo Jesus também ontologicamente diferente de nós, ele, ao contrário de nós, é uma das pessoas do Deus trino.

Na história posterior, um dos efeitos dessa posição teológica é o próprio dualismo cartesiano, de um lado, o que vale para a atual hiperfísica matemática, de outro, em que a realidade é transformada em estatísticas, probabilidades, incluindo outras dimensões e universos, que estão presentes apenas na mente dos respectivos cientistas, como ideia, como razão abstrata, sem necessária correspondência material.

Caso tal realidade seja efetivamente existente, ela se manifestará em algum momento na história científica, ou encarnará no tempo e no espaço.

A encarnação, nesse ponto, é a categoria científica fundamental, a verificação da correspondência entre ideia e realidade, entre forma e matéria.

O conceito científico de encarnação está teologicamente narrada no quarto Evangelho, que descreve o Logos, o Verbo, como a mais elevada categoria existencial, associada a Deus, que é a categoria da unidade que estava no princípio e continua presente na criação, em todas as coisas, é o uno no múltiplo, ainda que em certo sentido transcendente, pois além de todas as coisas, além dos corpos humanos, tendo esse Logos iniciado sua habitação na humanidade em Jesus, O Cristo, mas que já existia como conceito nos profetas do antigo testamento e mesmo na teoria platônica das ideias.

E o verbo fez-se carne e habitou em (entre) nós; e contemplamos a sua glória – glória enquanto [filho] unigênito do Pai, pleno de graça e de verdade” (Jo 1, 14).

Quanto à tradução do versículo transcrito, vale notar que: “no v. 14 de João, a expressão ‘entre nós’ é literalmente ‘em nós’ (em hêmîn)” (Novo Testamento: os quatro Evangelhos. Tradução e notas de Frederico Lourenço. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 324).

Portanto, sem descartar a divindade de Jesus, a ideia de encarnação do Logos pode levar a um novo entendimento de paradigma hilomórfico, dentro da concepção monoteísta de mundo, no sentido de que a encarnação do Logos ocorreu em nós, na humanidade, e não meramente entre nós, algo estranho que ocorreu no ambiente humano.

O texto bíblico está repleto de citações da presença de Deus na criação, um amplo hilomorfismo, valendo citar especialmente o Novo Testamento, pelos Atos e pelas Epístolas atribuídas aos apóstolos Paulo e Pedro:

Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’. Ora, se nós somos de raça divina, não podemos pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, a uma escultura da arte e engenho humanos” (At 17, 27-29).

Outrossim, somos seres espirituais, e podemos nos mover segundo o Espírito, para sermos conscientemente da raça divina, da raça de Deus. Pela ciência, nos movemos em campos quânticos e gravitacionais presentes em todo o cosmos, em que vivemos, nos movemos e existimos, cuja origem é transcendente, está além do espaço-tempo.

Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus? … e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos? Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate, glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).

Esta última passagem faz a clara união entre aspectos espirituais e corporais, mostrando a possibilidade de glorificar a Deus, uma ação do Espírito, no próprio corpo, para que este manifeste, como ocorreu com Jesus, a realidade divina, a unidade cósmica, presente dentro de nós.

Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, constitui-vos em um edifício espiritual, dedicai-vos a um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo” (1Pe 2, 5).

Pois que o seu divino poder nos deu todas as condições necessárias para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que nos chamou pela sua própria glória e virtude. Por elas nos foram dadas as preciosas e grandíssimas promessas, a fim de que assim vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de vos libertardes da corrupção que prevalece no mundo como resultado da concupiscência.” (Pe 1, 3-4).

O chamado para participação na natureza divina, outrossim, inclui o corpo, para o desenvolvimento da encarnação do Logos, iniciada em Jesus, entre nós, para nós e em nós, individual e coletivamente, também na sociedade, na política, para realização, encarnação, do Reino de Deus.

Portanto, não há espírito completamente destituído de corpo ou corpo totalmente sem ação espiritual, na medida em que todo corpo encarna algum princípio de movimento, algum espírito, e todo espírito, na medida em que concebido, exerce influência corporal, seja para sua efetiva realização, ou por meio de reação para impedir seu desenvolvimento, caso a respectiva ideia não seja sustentável, não seja coletivamente compartilhável.

Desta feita, é preciso superar as categorias cartesianas, transcendendo a individualidade dessas categorias, para termos acesso às coisas em si, que são as coisas no contexto da totalidade, da unidade, do Logos, ainda que parcialmente, para permitir que, no futuro, experimentemos essa totalidade face a face, como Reino de Deus, como Justiça (social), e como Ciência.

Fundamento da ciência moderna

O tema do fundamento da ciência moderna é da maior importância para a racionalidade do conhecimento, e os que não se deram conta dessa situação continuam presos à mentalidade científica do século XIX, quando as descobertas da física moderna ainda não tinham abalado completamente as bases intelectuais da civilização ocidental.

Volto, assim, a rememorar falas de grandes especialistas em suas áreas do conhecimento, apenas para reforçar a necessidade de se pensar a racionalidade, ou irracionalidade, das teorias científicas que suportam as nossas instituições, acadêmicas, políticas, jurídicas e religiosas.

Inicialmente, vale repetir o que já constou no artigo Cosmos e transcendência (https://holonomia.com/2019/07/12/cosmos-e-transcendencia/), referente à derrocada do dualismo cartesiano mente-corpo, o qual decorreu da ideia pela qual o universo extenso pode ser descrito em termos mecânicos, com leis que regulam o movimento da res extensa, ou matéria, no espaço.

Todo o resto fica relegado a res cogitans, ou substância pensante, que existe por si só como uma espécie de entidade espiritual. É digno de nota que a res cogitans surge a Descartes logo no início das suas meditações como a uniquíssima certeza imediata – o famoso cogito ergo sum –, ao passo que a existência do universo mecânico, âmbito externo à res cogitans, é alcançada só depois por meio de um argumento lógico construído sobre a ideia de Deus e Sua veracidade. É mesmo uma ironia assinalável que a premissa básica do materialismo moderno se tenha fundado sobre a teologia!” (Wolfgang Smith. Cosmos e transcendência: rompendo a barreira da crença cientificista p. 39).

Para mostrar o acerto da tese acima, alguém insuspeito pode ser citado, reconhecendo que a Ciência tem Deus como seu alicerce, inclusive confirmando uma ideia do artigo anterior, “O problema da dedução”, segundo a qual há necessidade de uma prévia indução em todo conhecimento científico, uma pressuposição inicial, ou fé, o que foi reconhecido por Nietzsche, no final de “Genealogia da moral”:

Não existe, a rigor, uma ciência ‘sem pressupostos’, o pensamento de uma tal ciência é impensável, paralógico: deve haver antes uma filosofia, uma ‘fé’, para que a ciência dela extraia uma direção, um sentido, um limite, um método, um direito à existência. (Quem entende o contrário, quem, por exemplo, se dispõe a colocar a filosofia ‘sobre base estritamente científica’, precisa antes colocar não só a filosofia, mas também a verdade de cabeça para baixo: a pior ofensa ao decoro que se poderia cometer com duas damas tão respeitáveis!) Sim, não há dúvida — e aqui deixo falar a minha Gaia ciência, cf. seu livro quinto, seção 344 — ‘o homem veraz, naquele ousado e derradeiro sentido que a fé na ciência pressupõe, afirma um outro mundo que não o da vida, da natureza e da história; e na medida em que afirma esse ‘outro mundo’, como? ele não deve assim negar o seu oposto, este mundo, nosso mundo?… É ainda uma fé metafísica, aquela sobre a qual repousa a nossa fé na ciência — e nós, homens do conhecimento de hoje, nós, ateus e antimetafísicos, também nós tiramos ainda nossa flama daquele fogo que uma fé milenar acendeu, aquela crença cristã, que era também de Platão, de que Deus é a verdade, de que a verdade é divina… Mas como, se precisamente isto se torna cada vez mais incrível, se nada mais se revela divino, exceto o erro, a cegueira, a mentira — se Deus mesmo se revela como nossa mais longa mentira?’ — Neste ponto é necessário parar e refletir longamente. A própria ciência requer doravante uma justificação (com isto não se quer dizer que exista uma tal justificação). Considere-se, quanto a isso, os mais antigos e os mais novos filósofos: em todos eles falta a consciência do quanto a vontade de verdade mesma requer primeiro uma justificação, nisto há uma lacuna em cada filosofia — por que isso? Porque o ideal ascético foi até agora senhor de toda filosofia, porque a verdade foi entronizada como Ser, como Deus, como instância suprema, porque a verdade não podia em absoluto ser um problema. Compreende-se este ‘podia’? — A partir do momento em que a fé no Deus do ideal ascético é negada, passa a existir um novo problema: o problema do valor da verdade. — A vontade de verdade requer uma crítica — com isso determinamos nossa tarefa —, o valor da verdade será experimentalmente posto em questão…” (Friedrich Nietzsche. Genealogia da moral. Terceira dissertação, capítulo 24, versão eletrônica).

O que Nietzsche não poderia prever é que a base materialista da Ciência, seja em relação ao átomo, seja em relação ao mecanicismo pós-cartesiano do século XIX, no qual a Física já não se pretendia metafísica, acabou por ruir, deixando a Física sem seus alicerces, que foram remetidos para uma esfera com algum nível de transcendência, para alguma forma de Metafísica, tornando impossível qualquer realização científica antimetafísica e ateia.

Isso nos leva, enfim, à conclusão aparentemente paradoxal de que a cosmovisão associada à mais exata das ciências está inçada de equívocos fundamentais. Segue fugindo ao entendimento convencional que a Weltanschauung pretensamente científica se baseia não em legítimas descobertas da ciência, mas em pressupostos filosóficos ocultos que se revelam em última análise autocontraditórios. Em nome da física, a civilização sucumbiu à fantasia” (Wolfgang Smith. Cosmos e transcendência: rompendo a barreira da crença cientificista, p. 57).

Como ressaltado no começo do artigo, o que Smith destaca é exatamente que “segue fugindo ao entendimento convencional que a Cosmovisão pretensamente científica se baseia não em legítimas descobertas da ciência, mas em pressupostos filosóficos ocultos que se revelam em última análise autocontraditórios”, sendo indispensável superar o pensamento cartesiano, para construção de uma nova Metafísica, que seja adequada à realidade. Daí o porquê da afirmação inicial: “os que não se deram conta dessa situação continuam presos à mentalidade científica do século XIX”, em que predominou a rejeição da Metafísica no âmbito científico.

Finalmente, pela autoridade intelectual do autor do texto, volto a transcrevê-lo:

Independentemente da decisão última, podemos mesmo afirmar agora que a resposta final (sobre a equação fundamental da matéria) estará mais próxima dos conceitos filosóficos expressos, por exemplo, no Timeu de Platão do que dos antigos materialistas. Tal fato não deve ser mal compreendido como um desejo de rejeitar de maneira muito leviana as ideias do moderno materialismo do século XIX, o qual, uma vez que pôde trabalhar com toda a ciência natural dos séculos XVII e XVIII, abarcou um conhecimento muito importante de que carecia a antiga filosofia natural. Não obstante, é inegável que as partículas elementares da física de hoje se ligam mais intimamente aos corpos platônicos do que aos átomos de Demócrito. (…) E, desde que a estrutura matemática é, em última análise, um conteúdo intelectual, poderemos afirmar, usando as palavras de Goethe no Fausto, ‘No princípio era a palavra’ – o logos. Conhecer este logos em todas as suas particularidades, e com total clareza em relação à estrutura fundamental da matéria, constitui a tarefa da física atômica de hoje e de seu aparelhamento infelizmente muitas vezes complicado” (Werner Heisenberg. In Problemas da Física Moderna, 3 ed., São Paulo: Perspectiva, 2011, pp. 26-27).

O Logos é um termo grego que foi traduzido como “palavra” por Goethe, o qual, entretanto, faz uma referência inequívoca ao quarto Evangelho, atribuído, tradicionalmente, a João: “No princípio era o logos (verbo, palavra, discurso, razão), e o logos estava com Deus, e Deus era o logos. Este no princípio estava com Deus. Todas as coisas existiram por ação dele e sem ele existiu nem uma só coisa que existiu” (Jo 1, 1-3). A rejeição da Metafísica e da Teologia são o possível motivo de Heisenberg não ter mencionado diretamente a Bíblia em seu escrito.

Em certo sentido, portanto, pelo entendimento de Heisenberg, pela parte final da passagem acima, conhecer o Logos, ou Deus, a inteligência que precede a matéria, e faz com que todas as coisas materiais existam, constitui a tarefa da física atômica de hoje, o que se aplica à Ciência, como um todo, mostrando que o argumento ateísta de Nietzsche está datado, superado, restando aos materialistas nada menos do que uma nova espécie de Metafísica, como uma nova religião na busca de seu deus, para tentar fundar o conhecimento científico.