Política como Teologia – parte II

Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne? Se fizeres isto, a tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente, a tua justiça irá à tua frente e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda” (Is 58, 6-8).

Para expressar a realidade da Política como Teologia, o texto acima, do livro de Isaías, é bem esclarecedor, principalmente neste tempo de quaresma, em que o jejum é uma prática comum dos cristãos, especialmente os católicos, porque o profeta, falando em nome de Deus, já muito antes de Cristo, coloca na atividade do jejum temas que são políticos e jurídicos: romper os grilhões da iniquidade, pôr em liberdade os oprimidos, despedaçar todo o jugo, repartir o teu pão com o faminto; em que a questão da justiça social, tema político, é tratado como coisa religiosa, integrante da relação mais próxima da humanidade com Deus.

Retoma-se, pois, ao entendimento da Teologia ou Filosofia como teoria e modo de vida da unidade do conhecimento racional, o que inclui tanto a coerência das ideias como destas com o agir social, e da dificuldade dos teóricos modernos em pensar a partir dessa perspectiva unitária.

Encerrada a leitura de “O Conceito do Político”, de Carl Schmitt, percebe-se que, como ele mesmo havia afirmado em “Teologia Política”, em que afirma que qualquer mudança profunda nessa esfera de conhecimento passa pela superação do dogma, seu trabalho ainda está inserido numa ideia de separação, não tendo logrado êxito em conceber a expressão do político como teológico fora do dualismo mental em que inserido, ainda que seu texto aponte para tal reunificação.

Depois de afirmar que a unidade política pressupõe a possibilidade real do inimigo e que não pode haver um “Estado” mundial, assevera que a “unidade política, segundo a sua essência, não poder ser universal, no sentido de uma unidade que abarque toda a humanidade e a Terra inteira” (Carl Schmitt. O conceito do político. Tradução Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70, 2019, pp. 96-97), quando não haveria nem política nem Estado, apenas economia, moral, direito, arte, etc.. E continua:

“A humanidade, enquanto tal, não pode fazer qualquer guerra, pois ela não tem qualquer inimigo, pelo menos não neste planeta. O conceito de humanidade exclui o conceito de inimigo, pois também o inimigo não deixa de ser homem e nele não se encontra nenhuma diferenciação específica” (Idem, p. 98).

Contudo, reconhece que em nome da humanidade são feitas guerras, com uso desse conceito universal como um instrumento ideológico das expansões imperialistas, e que o confisco de tal palavra acarreta consequências, como “a terrível reivindicação de que ao inimigo é recusada a qualidade de homem” (Idem, p. 99).

Schmitt remete o conceito humanitário para doutrinas do direito natural e afirma que tal é uma construção ideal universal, que abrange todos os homens da Terra, em que o agrupamento amigo-inimigo se torna impossível. Ao concluir o capítulo sobre esse tópico, ele afirma que um “Estado mundial” não será político, pois abarcará a Terra inteira, em unidade econômica.

“Se ela (a humanidade) quisesse formar, para além disso, também ainda uma unidade cultural, mundividencial ou alguma outra ‘mais elevada’, mas simultaneamente, ainda assim, uma unidade incondicionalmente apolítica, ela seria uma corporação consumidora e produtiva que procura, entre as polaridades de ética e economia, um ponto de indiferença. Ela não conheceria nem Estado nem Reich nem Império, nem República nem Monarquia, nem Aristocracia nem Democracia, nem protecção nem obediência, mas teria perdido de todo qualquer caráter político.

Mas a questão que se coloca é a de a que homens cabeira o poder temível que está ligado a uma centralização econômica e técnica que abranja a Terra inteira. Esta questão de modo nenhum pode ser contornada ao esperar-se que tudo passe a ‘ir por si mesmo’, que as coisas ‘se administrassem a si mesmas’, e que um governo de homens sobre homens se tornasse supérfluo porque os homens seriam, então, absolutamente ‘livres’; pois pergunta-se precisamente para que é que se tornam livres. A isso pode responder-se com suposições optimistas e pessimistas que, em última análise, remontam todas a uma profissão de fé antropológica” (Idem, pp. 104-105).

Volta-se, assim, ao conceito de humano, à sua concepção ontológica, pois a profissão de fé antropológica não pode deixar de ser também uma profissão de fé teológica, sobre a natureza humana, e nesse ponto a limitação dogmática da Teologia de Schmitt o impede de compreender que as respostas às suas perguntas já foram dadas por Cristo e seus seguidores.

Não é que a Política não mais existirá, mas que voltará a não mais haver distinção entre ela e Teologia, porque de Teocracia se tratará, uma nunca antes praticada, que se aproveitará de todo aparato científico e tecnológico produzido pela humanidade, para que sejam utilizados os poderes humanos a serviço do Logos, do Deus criador de todas as coisas, de modo que os homens que exercerão esse poder serão os servos e santos do Altíssimo, os reis e sacerdotes de Cristo, por meio da técnica, do método, o Caminho, que é o próprio Cristo. Continuarão a existir Estados e nações, bem como o caráter político, mas vinculado a uma concepção simultaneamente teológica e antropológica, além de ética e econômica.

Entra aí a leitura evangélica de Thomas Wright, restaurando para o Cristianismo o entendimento judaico sobre o futuro da humanidade e sua governança, na medida em que Jesus Cristo, como o Rei dos Judeus, necessariamente se insere no cumprimento das profecias do antigo Israel, segundo as quais, um dia, “as nações seriam convocadas a jurar lealdade a alguém maior do que Davi, isto é, ao Filho de Davi” (N. T. Wright. Como Deus se tornou rei. Tradução Elissamai Bauleo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019, p. 152). Após o Iluminismo, que separou Igreja e Estado, a história genuína pode ressurgir, de modo que a atual geração tem condições de fazer a correta leitura judaica e política dos evangelhos, nos quais Jesus é declarado o Messias. “É chegado o tempo de reler os evangelhos como ‘teologia política’ – não porque não dizem respeito a Deus, à espiritualidade, ao novo nascimento, à santidade etc., mas, precisamente, porque dizem respeito a isso tudo” (Idem, p. 155).

Na base desse entendimento está, de fato, uma profissão de fé antropológica, encontrada nos textos bíblicos, que restou prejudicada em Schmitt em razão de sua Teologia, estritamente vinculada ao dogma, e pela mentalidade dos últimos séculos.

Para além de uma discussão rasteira entre evolucionismo e criacionismo, a narrativa bíblica descreve a criação do homem à imagem e semelhança de Deus, o desvio que impediu que a humanidade atingisse sua plena potencialidade, a partir do pecado ou erro de Adão, e a consumação dessa plenitude existencial em Jesus de Nazaré, o qual reconduziu a criatura para o seu correto desenvolvimento, que culminará na nova criação, nos novos céus e nova Terra.

“A própria nova criação começou, os apóstolos diziam, e será completada. Jesus está governando sobre essa nova criação, tornando-a uma realidade por meio do testemunho da igreja. ‘O governante deste mundo’ foi derrotado; os poderes deste mundo foram postos por último na procissão triunfal de Jesus como um exército derrotado, maltrapilho. E é assim que Deus está se tornando rei na terra como no céu. Essa é a verdade que os evangelhos estão ávidos por nos contar, verdade que, nos últimos duzentos anos, as culturas europeia e americana têm tentado abafar desesperadamente” (Idem, p. 178).

Para o Cristão, Jesus ressuscitou, isso é um pressuposto definidor do Cristianismo.

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram. Com efeito, visto que a morte veio por um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Pois, assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida. Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. A seguir haverá o fim, quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo Principado, toda Autoridade, todo Poder. Pois é preciso que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído será a Morte, pois ele tudo colocou debaixo dos pés dele” (1Cor 15, 12-27).

Esta passagem destaca tanto a antropologia, como a política e mesmo a física, porque deixa claro que a ressurreição foi um evento físico, corporal, real.

É curioso como hoje se fala em criogenia, conservação de corpos e memórias, para resgatar uma vida, em energia atômica, em avanços tecnológicos vários, alguns esperando até uma nova vida em novo corpo, tudo feito por mãos humanas, mas se esquece que a condição existencial do Cristianismo é o evento da maior magnitude já ocorrido, a ressurreição, sem a qual não haveria motivo para os apóstolos enfrentarem as autoridades judaicas e romanas, e a morte, depois a crucificação de Jesus. É ilógico que eles passassem por isso se não tivessem a certeza da superação da morte por Jesus, pela ressurreição, que significa o princípio material da nova criação, da qual todos participaremos.

Para além disso, há uma clara ideia antropológica ligada à pessoa de Jesus, a plena realização da imagem e semelhança de Deus na humanidade, nele Jesus, sendo evidente o teor político do Evangelho, tanto no que diz respeito à missão do Cristo, como o Rei dos Judeus, o que tem uma conotação inequivocamente política, como pela necessidade de que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés.

Então Jesus tem inimigos, de modo que a proposta de Carl Schmitt não é de todo equivocada, porque os inimigos de Jesus são exatamente aqueles principados, autoridades e potestades que exercem o governo da humanidade, uma realidade espiritual que encarna em pessoas concretas, dominando as nações, pelo que os inimigos não são propriamente as nações ou seus membros, mas aquelas realidades espirituais com suas ideias e ações que se manifestam nas nações, em seus governos de todos os níveis, opondo-se à governança de Deus na Terra, opondo-se ao verdadeiro serviço público e à realização da justiça (que é sempre social).

Fundamental, portanto, a análise teológica da questão política, e que seja levado solenemente a sério o trabalho de Tom Wright, lembrando que no “judaísmo, o Deus criador desejava que o mundo fosse ordenado e governado por aqueles que criou segundo a suam imagem” (Idem, p. 188), imagem esta que restou consolidada na pessoa de Jesus, o santo do Altíssimo por excelência.

Quanto aos quatro grandes animais, quatro reis surgirão da terra. Mas os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para todo o sempre” (Dn 7, 17-18).

“Já está claro. Como de costume em ‘literatura apocalíptica’, os elementos da visão são simbólicos e precisam ser decodificados. Os monstros representam impérios humanos, mas ‘um semelhante ao filho do homem’ representa Israel, ou pelo menos os justos em Israel. Há muito eles sofrem sob o governo dos monstros, porém serão resgatados – não apenas resgatados, mas colocados em posição de soberania sobre o mundo” (Idem, pp. 205-206).

A referência a Schmitt é novamente clara, quanto à questão da humanidade, do filho do homem, e dos monstros, que se opõem aos justos de Israel, dos inimigos que não são homens, pelo que estão presentes, indissoluvelmente, conceitos antropológicos, teológicos e políticos na narrativa bíblica.

Vi, então, tronos, e aos que neles se sentaram foi dado poder de julgar. Vi, também, as vidas daqueles que foram decapitados por causa do Testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e dos que não tinham adorado a Besta, nem sua imagem, e nem recebido a marca sobre a fronte ou na mão, eles voltaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos” (Ap 20, 4).

Portanto, respondendo às indagações de Carl Scmitt sobre “a que homens cabeira o poder temível que está ligado a uma centralização econômica e técnica que abranja a Terra inteira”, são os alter cristos, os outros Cristos, os santos do Altíssimo, que, de fato, realizam a verdadeira imagem e semelhança de Deus, são os verdadeiros humanos, no seu melhor conceito, não se submetem à Besta, e quanto à questão “para que é que se tornam livres”, a reposta é exatamente para serem servos do Altíssimo.

Pois aquele que era escravo quando chamado no Senhor, é um liberto do Senhor. Da mesma forma, aquele que era livre quando foi chamado, é um escravo de Cristo” (1Cor 7, 22), para romper os grilhões da iniquidade, soltar as ataduras do jugo, pôr em liberdade os oprimidos, despedaçar todo o jugo e repartir o pão com o faminto, manifestando, assim, a justiça e a Glória de Deus.

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