O nascimento do tempo

O tempo é um elemento ou uma categoria fundamental para o conhecimento. É a própria Vida, se corretamente compreendido.

No pensamento de Kant o tempo é o elemento comum que permite a conexão entre as categorias a priori do conhecimento e as relações sensíveis do mundo exterior, porque organizamos nossos processos mentais sequencialmente, tanto no tempo como condição categorial de apreensão fenomênica quanto na arrumação cognitiva dos sentidos percebidos em nossa interação com o mundo.

A questão do tempo já foi abordada no artigo “A velocidade do tempo” (https://holonomia.com/2017/05/01/a-velocidade-do-tempo/comment-page-1/), em que se sustentou que a relatividade é uma teoria incompleta, “pois se fosse a palavra final em termos físicos Einstein não teria passado as últimas décadas de sua vida tentando compatibilizá-la com a física quântica, no que não logrou êxito”.

Certamente a relatividade é insuficiente porque é a teoria limite do assim chamado materialismo, refere-se ao mundo dos sentidos locais ao mundo do toque e da causalidade material, nela não estando incluído o Espírito, ou Inteligência, que é pressuposto e condição de existência da própria teoria.

Ilya Prigogine também não se satisfez com o tempo ilusão da física, tendo apresentado uma nova proposta de análise da natureza a partir dos fenômenos irreversíveis:

Aristóteles diz que o tempo é o estudo do movimento, mas – acrescenta – na perspectiva do antes e do depois. Mas a partir de que é dada esta perspectiva do antes e do depois? Aristóteles não dá uma resposta: afirma que talvez seja a alma que efectua a operação do contar.

Einstein retoma a mesma pergunta: onde está o tempo? Talvez da física? E responde que não. Numa conversa com Carnap diz textualmente: “O tempo não está na física”.

Se escolho o ponto de vista da física, o tempo, enquanto irreversibilidade, é ilusão e portanto não pode ser objecto de ciência. Sob este ponto, curiosamente, Einstein vai ao encontro quer de Bergson quer de Heidegger: Bergson defende que o tempo não pode ser objecto de ciência, porque é demasiado complexo para a ciência.

Então, porque penso, inversamente, que estamos a entrar num período de reorganização conceptual da física? Porque hoje vemos fenómenos irreversíveis na natureza e compreendemos o papel construtivo destes fenômenos irreversíveis. Vemos formarem-se estruturas, vemos como algumas regiões do espaço estão organizadas pela irreversibilidade” (Ilya Prigogine. O nascimento do tempo. Tradução Marcelina Amaral. Lisboa: Edições 70, 2018, p. 18).

Já Agostinho, antecipando Einstein, entendia que o tempo surgiu com o espaço na criação, concebendo um mundo criado com o tempo, sendo o próprio tempo uma criatura de Deus, ao contrário da visão grega aristotélica, que entendia que o universo fosse eterno.

De todo modo, é válida a concepção de Aristóteles segundo a qual o tempo é o número do movimento segundo o antes e o depois, de modo que o tempo é sempre relativo a algum movimento, alguma coisa, ou fenômeno, determinado transcendentalmente a essa coisa, além de seus limites, que, portanto, são definidos a partir de fora desse movimento, coisa ou fenômeno.

O tempo de vida de uma pessoa é determinado entre o momento de seu nascimento, que marca a temporalidade anterior, e de sua morte, que encerra aquele movimento corporal da pessoa.

Se o indivíduo humano fosse apenas matéria, sua preocupação estaria limitada ao seu tempo de vida corporal, e aí assistiria razão a Heidegger ao sustentar que o homem é um ente voltado para a morte. Essa é uma possibilidade especulativa, mas não a única.

Para os que entendem que somos mais do que nossos corpos perecíveis, há outro tempo existencial, outra espécie de movimento à qual estamos vinculados por pertencermos também, e principalmente, ao Espírito.

Nessa perspectiva, podemos entender que possuímos o tempo da própria criação, ainda que não nos apercebamos disso, porque esquecemos a Verdade. Vale dizer que a palavra “verdade” tem origem no termo grego “alethéia”.

A palavra grega que designa verdade é alethéia, que é um termo privativo, negativo. Ele é uma palavra composta: a significando ‘sem’, e lethe, referindo-se às águas do esquecimento que há no mundo ínfero. Letes é um rio de cujas águas a alma do falecido bebe enquanto deixa a existência terrena e adentra o Hades. Enquanto a alma bebe das águas do Letes, ela esquece a vida anterior.

Isso também transpira no outro extremo do ciclo do nascimento e da morte, do modo como o demonstrou Platão no ‘Mito de Er’ no final da Repúbica. As almas que estão prestes a nascer são requisitadas para beber das águas do Letes a fim de esquecer sua antiga existência celeste, quando entram neste mundo e numa nova encarnação. Essa é uma doutrina órfica que foi adotada por Platão” (Edward F. Edinger. A Psique na Antiguidade: livro um: Filosofia Grega Antiga: de Tales a Plotino. Org. Deborah A. Wesley. Tradução Alípio Correia de Franca Neto e Sandra Maria Franca. São Paulo: Cultrix, 2000, p. 57).

Não precisamos adotar a perspectiva reencarnacionista para compreendermos que possuímos uma existência que transcende nosso corpo físico, porque somos o próprio cosmos manifestando uma consciência, o que permite utilizar a noção grega de verdade, alethéia, como ausência de esquecimento, sem que seja necessário postular que a alma reencarne.

David Bohm desenvolve a ideia de consciência em termos de ordem implicada (A Ordem Implicada – https://holonomia.com/2017/05/22/a-ordem-implicada/), devendo aquela ser compreendida com a realidade como um todo, em uma proposta filosófica que supera o dualismo cartesiano, o qual afirmava haver no mundo a substância pensante distinta da substância extensa, postulando Bohm:

uma nova noção de totalidade indivisível, na qual a consciência deixaria de ser fundamentalmente separada da matéria.

Vamos agora considerar qual a justificativa que existe para a noção de que a matéria e a consciência apresentam a ordem implicada em comum. Primeiro, notamos que a matéria, no geral, é, à primeira vista, o objeto da nossa consciência. Entretanto, como já vimos neste capítulo, várias energias, tais como a luz, o som, etc., estão continuamente envolvendo informações que a princípio se relacionam com todo o Universo da matéria em cada região do espaço. Por meio dese processo, tais informações acabam entrando nos nossos órgãos do sentido, passando pelo sistema nervoso e chegando até nosso cérebro. De modo mais profundo, toda a matéria inclusa em nossos corpos, desde o início, envolve o Universo de algum modo. Será essa estrutura envolvida, de informação e matéria (no cérebro e no sistema nervoso), aquela que primeiramente penetra a consciência?” (David Bohm. Totalidade e a ordem implicada. Tradução Teodoro Lorente. São Paulo: Madras, 2008, p. 203).

A pergunta que encerra a citação tem natureza especulativa, pois não possuímos capacidade tecnológica, por ora, de respondê-la, mas a proposta é sustentada segundo as mais avançadas conclusões da Física do século XX.

De todo modo, a questão da verdade como totalidade esquecida pode ser compreendida, pois à medida que investigamos o mundo material, formando nossa individualidade e nos relacionando com as coisas do mundo externo, à qual ficamos apegados, não conseguimos nos recordar da unidade existencial a que pertencemos, o que é corroborado pela psicologia infantil, ao sustentar que a formação do complexo do ego, pelo qual o indivíduo se relaciona psicologicamente com o mundo, é iniciada nos primeiros meses de vida da criança, porque nos primeiros momentos de vida vivemos uma espécie de unidade inconsciente com o mundo, tal como sugerido por Bohm.

Da perspectiva teológica, de outro lado, caso consideremos pertencer ao Espírito, que está fora do tempo, devemos rever a posição Cristã que somente compreende nossa continuidade existencial para o futuro, para depois da morte, quando a lógica teológica permite nos posicionar existencialmente já na mente de Deus, em seu Espírito, ainda que como potência, antes da criação do mundo. Deve ser ressaltado, entretanto, que na perspectiva aristotélica o infinito não existe em potência, apenas em ato, e que, no tempo, o ato pode ser anterior à potência, pelo que é cabível afirmar nossa existência em ato antes da formação do mundo.

Deus é sempre ato, e é Espírito, e como fomos criados recebendo parte do Espírito de Deus, essa parte é ato desde a formação do tempo, do mundo, pelo que temos um nascimento anterior ao de nossos corpos. Tendo consciência dessa realidade, Jesus pôde dizer, “antes de Abraão ter existido, eu sou” (Jo 8, 58).

Em outra passagem, Jesus nos coloca no princípio, com ele: “Também vós testemunhareis, porque desde o princípio estais comigo” (Jo 15, 27). Vale citar a nota de Frederico Lourenço ao citado versículo:

15, 27 ‘desde o princípio estais comigo’: para João, princípio (arkhê) designa habitualmente o início primordial da Criação. O presente ‘estais’ (esté) corresponde ao verbo ‘ser’ em grego, pelo que uma tradução mesmo literal daria ‘desde o princípio sois comigo’” (Novo Testamento: os quatro Evangelhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 391).

Portanto, da perspectiva Cristã, nosso tempo nasce com criação, e depois, em outro nível, quando encarnamos, quando tomamos forma em um corpo material; e continuamos a existir após a morte, espiritualmente em ato, e materialmente em potência, até que essa uma nova existência material se transforme em um novo corpo, em uma nova criação. “Com efeito, vou criar novos céus e nova terra” (Is 65, 17). “Vi, então, um novo céu e uma nova terra” (Ap 21, 1).

Volto então, ao título do artigo, inspirado no livro com os textos de Ilya Prigogine, relacionando com essa nova criação. Nossa ciência não tem meios de prevê-la, sendo matéria especulativa, mas dentro da visão de Prigogine vivemos em um universo dinâmico, um sistema de não-equilíbrio, regido pela termodinâmica, com fenômenos irreversíveis, sendo possível uma nova criação temporal:

Aqui, ao contrário, um novo nascimento se torna possível, se as condições que permitiram a primeira instabilidade (Big Bang) puderem reproduzir-se. Qual é a densidade de matéria compatível com esta instabilidade? É um cálculo que os meus colaboradores e eu estamos a tentar efectuar: trata-se, provavelmente, de um tempo muito longo, 100 mil milhões de anos. Também podemos imaginar a história do universo como a de uma reacção química explosiva cujos produtos de eliminação impeçam a sua continuação, até ao momento em que forem eliminados e, por isso, uma nova explosão se torna possível.

Reparem que a instabilidade, as flutuações e a irreversibilidade desempenham um papel a todos os níveis da natureza, química, ecológica, climatológica, biológica com a formação de biomoléculas, e finalmente cosmológica” (Ilya Prigogine. O nascimento do tempo. Tradução Marcelina Amaral. Lisboa: Edições 70, 2018, pp. 54-55).

Aplicadas essas ideias ao contexto escatológico Cristão, vale lembrar que o Apocalipse descreve o tempo de mudanças por que passamos, inicialmente em termos de crise social, ecológica e política, até seja estabelecida a era messiânica; vivemos o tempo de tribulação, de instabilidade, que antecede um novo nível de equilíbrio, superior, quando haverá a reorganização conceptual da física, defendida por Prigogine, que inclui uma nova noção de temporalidade, inclusive humana, questões de tamanha complexidade que não podem ser antecipados na posição material humana, somente são conhecidas pelo próprio Deus, o Pai, o criador do tempo.

Naqueles dias, porém, depois daquela tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas estarão caindo do céu, e os poderes que estão nos céus serão abalados. E verão o Filho do Homem vindo entre nuvens com grande poder e glória. Então Ele enviará os anjos e reunirá seus eleitos, dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu.

Aprendei, pois, a parábola da figueira. Quando o seu ramo se torna tenro e as folhas começam a brotar, sabeis que o verão está próximo. Da mesma forma, também vós, quando virdes essas coisas acontecendo, sabeis que Ele está próximo, às portas. Em verdade vos digo que esta geração não passará até que tudo isso aconteça. Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém não passarão. Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, somente o Pai” (Mc 13, 24-37).

Arqueologia e história bíblica

O conhecimento científico é fundamental para a correta interpretação da realidade, o que inclui a efetiva história narrada nos textos bíblicos, os quais mesclam memórias passadas de geração em geração, unindo narrativas fragmentadas sob uma perspectiva cosmológica, ou seja, dentro de uma cosmovisão de mundo, além de visões e inspirações de pessoas especiais.

Nesse sentido, uma leitura meramente literal do Gênesis, por exemplo, não é adequada ou correta, como ocorre em certos setores cristãos que ainda entendem que a idade da Terra é de poucos mil anos, havendo até mesmo um museu nos EUA, o Museu da Criação, com dinossauros mecânicos no Jardim do Éden, com humanos.

Assim, necessária uma compreensão inteligente e espiritual dos textos sagrados, para seu correto entendimento, como expus no artigo “Pecado Original” (https://holonomia.com/2017/11/09/pecado-original/), interpretando a Queda em termos políticos e sociais:

Nesse ponto, há que se considerar que o Gênesis traz uma descrição um tanto resumida e simbólica de um passado da humanidade, podendo ser considerada alguma forma de evolução da vida até que surgissem os primeiros grupos humanos. E essa hipótese encontra respaldo até mesmo pelo que é dito no Gênesis, pois a oferta de Caim e Abel já significava uma cerimônia religiosa, não explicada no texto da Escritura, possivelmente dentro de uma comunidade, quando ocorreu a preferência de Iahweh pela oferenda de Abel. E logo após o fratricídio, quando havia sido noticiada somente a existência de Adão, Eva, Caim e Abel no texto sagrado, constou que ‘Caim se uniu à sua mulher, que concebeu e deu à luz Henoc’ (Gn 4, 17).

Portanto, a melhor interpretação dos textos sagrados, conjugada com os conhecimentos científicos modernos, pois a existência da mulher de Caim faz presumir a de outras pessoas no planeta no tempo de Adão, leva à aceitação de um grupo humano primitivo, podendo ser entendido que Adão era o líder dessa coletividade, um líder político e religioso, um rei sacerdote que violou seu compromisso com a comunidade, contrariando os interesses da coletividade para um benefício individual, de sua família, quando o egoísmo superou o dever.”

Será muito difícil resgatar os fatos históricos dos períodos mais antigos narrados na Bíblia, principalmente no tempo anterior ao Dilúvio, evento este narrado nas mais diversas culturas do planeta, como no Irã, pela narrativa de Gilgamesh, o mesmo na Grécia, dizendo que Poseidon inundou a Terra.

Para o período mais, recente, contudo, a Arqueologia tem se mostrado frutífera, apontando para a existência real de personagens bíblicos como o rei Davi, mesmo que não haja comprovação material de um reinado portentoso narrado nas Escrituras.

Em 1993, por exemplo, foi encontrado um artefato com a inscrição “casa de Davi”, em Tel Dan, no norte de Israel:

A parte mais importante da inscrição é a descrição de Hazel, vangloriando-se de seus inimigos:

(Eu matei Jo)rão filho de (Acab), rei de Israel, e (eu) matei (Ocoz)ias filho de (Jeroão, re)i da casa de Davi. E eu transformei (suas cidades em ruínas e converti) suas terras em (desolação).

Esta é a uma evidência cabal da fama da dinastia davídica menos de cem anos depois do reinado de Salomão, filho de Davi. O fato de que Judá (ou talvez sua capital, Jerusalém) é referida apenas como uma menção à casa regente é evidência clara de que a reputação de Davi não foi uma invenção literária de um período muito posterior” (Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman. A Bíblia desenterrada: a nova visão arqueológica do antigo Israel e das origens nos seus textos sagrados. Tradução Nélio Schneider. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018, p. 137).

Dando credibilidade ao texto citado, vale dizer que os autores do livro têm como prioridade histórica o conhecimento arqueológico, em detrimento, em caso de conflito, da literalidade das narrativas bíblicas. A tese do livro é no sentido de que a formação definitiva do texto bíblico se consolidou no tempo do rei Josias, no século VII a.C, dentro de uma leitura deuteronomista da história, e com destaque para a linhagem de Judá.

Desse modo, alguns eventos narrados na Bíblia ocorridos há três mil anos estão devidamente comprovados pela ciência secular, e ainda assim algumas pessoas continuam questionando a existência histórica de Jesus Cristo, em relação ao qual as únicas dúvidas científicas ateias que podem ainda ser suscitas são quanto ao exato teor de suas palavras e a respeito de sua efetiva ressurreição. Sobre o último ponto, também não há controvérsia sobre o fato de que várias pessoas narraram ter visto Jesus vivo após sua crucificação, e continuaram sustentando essa narrativa mesmo com a perseguição do maior império da história do Planeta, pelo que: ou os seguidores de Jesus eram loucos; ou estavam convictos até a morte de que diziam a verdade.

Que Jesus existiu e que era um judeu com uma mentalidade próxima daquela dos essênios, mas com particularidades teológicas próprias, disso qualquer pessoa com a mínima honestidade intelectual não pode ter dúvidas.

A respeito do conteúdo da Bíblia, Carl Jung e, atualmente, Jordan Peterson, defendem a existência de verdade científica nas Escrituras, do ponto de vista da Psicologia.

Hegel, por sua vez, reconhece a verdade filosófica por trás das narrativas bíblicas, ainda que faça uma interpretação própria do seu significado.

Jürgen Habermas também credita adequadamente os valores judaico-cristãos para a formação histórica da moderna noção de direitos humanos, fato este que deve ser tido como cientificamente verdadeiro.

Desta feita, negar a posição de destaque da Bíblia para o melhor da vida humana atual é negar a própria racionalidade, é defender o indefensável.

Em nenhum outro lugar do mundo antigo foi inventada uma saga compartilhada tão poderosa: as epopeias e os mitos gregos falavam somente por meio de metáforas e exemplos; as epopeias religiosas mesopotâmicas e persas ofereceram segredos cósmicos, mas nenhuma história terrena nem um guia prático para a vida. A Bíblia Hebraica ofereceu ambos, suprindo um quadro narrativo em que cada judeu podia identificar tanto a história da família quanto a história nacional. Em suma, a saga de Israel, que se cristalizou pela primeira vez na época de Josias, tornou-se o primeiro pacto nacional e social do mundo plenamente articulado que englobou homens, mulheres e crianças, os ricos, os pobres e os desamparados de toda uma comunidade” (Bíblia desenterrada, p. 318).

Com a mensagem de Cristo, rejeitada pelos judeus nacionalistas, a histórica bíblica se fundiu à do resto do mundo, transformando-se na narrativa comum da humanidade, o que está implícito no texto, porque este não chega a falar de Jesus de Nazaré:

O poder da saga bíblica provém de ela ser uma narrativa atraente e coerente, expressão dos temas atemporais da libertação de um povo, da continuada resistência à opressão e da busca por igualdade social. Ela expressa de modo eloquente o sentido profundamente arraigado das origens, das experiências e do destino comum que toda comunidade humana necessita para sobreviver” (Idem, p. 320).

A humanidade passa por momentos cruciais para sua existência e seu futuro, do que são exemplos as mudanças climáticas, a iminente crise econômica internacional e os riscos de novos conflitos bélicos de grandes proporções, pelo que é inevitável e urgente que a cosmovisão bíblica seja devidamente conhecida e reconhecida, por sua importância essencial para o destino humano, de modo que, então, o pacto social com proeminência espiritual, que é o Cristianismo, seja o fundamento da prática social, e mesmo científica.

Cristianismo: a filosofia da ordem

A filosofia estuda o ser, aquilo que sempre é, formulando as categorias pelas quais esse ser pode ser apreendido intelectualmente. Na era grega, o alvorecer da civilização ocidental, o materialismo entendia que o que sempre é seria o átomo, indivisível, imutável e indestrutível; tendo Platão sido o grande defensor de uma realidade das ideias perenes, aquilo que sempre é. Foi Aristóteles, um discípulo de Platão, por sua vez, quem começou a desenvolver as ciências naturais e empíricas como a conhecemos, como consequência de suas ideias filosóficas.

A ciência, de seu lado, tem por objeto o estar, um determinado aspecto do ser, ao qual está sempre vinculado, a partir das categorias desenvolvidas pela filosofia, até que essas categorias sejam falseadas, ou seja, até que sejam apontadas contradições entre as categorias, ou entre estas e a realidade, o que exige sua reformulação, isto é, uma nova elaboração dos conceitos fundamentais, pelo conceito dos conceitos, atribuição da filosofia.

Toda ciência, dessa forma, é uma filosofia aplicada, porque a concreção de conceitos filosóficos, ou categorias, sua experimentação na natureza, realizando um corte espaço-temporal do ser para sua apreensão racional, que é um estado específico, um estar, do ser. O corte espaço-temporal ocorre pela abstração de diversas qualidades do mundo, que não são analisadas na experimentação, porque esta é reducionista, tem foco restrito, pela impossibilidade material de se fazer uma abordagem, inclusive matemática, integral e simultânea da realidade natural.

A experimentação científica se refere a um ponto específico da natureza, tirado do todo do qual é abstraído, dando a essa parte uma concretude própria, com aparência de realidade, mas que, na verdade, como tal, não passa de uma ficção, porque a realidade concreta e verdadeira é a totalidade, com todas as suas qualidades e características interligadas, que, no mundo real, autêntico, não podem ser afastadas, porque não existem sistemas isolados, criados pelo homem ou no mundo natural, sendo a abstração, a limitação experimental, um mero artifício provisório, e, nesse sentido, artificial, com perda das características naturais, com a função pedagógica de explicar um aspecto aproximado de um fenômeno complexo e indivisível, incindível, sob pena de perda de sua substância, sob pena de transformar a realidade viva em natureza morta.

O corte experimental, ou medição, fato demonstrado pelo princípio da incerteza de Heisenberg, dessarte, acarreta uma perda de conhecimento material do mundo, relativa ao que é deixado de lado na opção metodológica do cientista, e essa perda não pode ser compensada por conhecimento material, ainda por aplicação do princípio da incerteza, sendo a Filosofia, Metafísica ou Teologia a única cola racional com possibilidade de restaurar a unidade do conhecimento, permitindo conectar novamente, de forma inteligível, a parte ao todo do qual foi extraída. A ciência, por isso, é dependente da Filosofia e seus conceitos fundamentais.

Assim, Kant estava parcialmente correto ao dizer que nosso conhecimento científico é dependente das categorias e fenomênico, porque incapaz de alcançar a plenitude da coisa em si, mas aquele conhecimento, de outro lado, se refere, efetivamente, a um aspecto da coisa, da realidade em si, do mundo numênico, ainda que limitado, parcial, e que somente pode ser interpretado e compreendido corretamente dentro do contexto da totalidade que integra, dada pela Filosofia, contexto a partir do qual referido conhecimento deve ser considerado, para que seja aprimorado.

A separação entre o mundo numênico e fenomênico, outrossim, pode ser total ou nenhuma. Total quando o objeto de conhecimento é tomado em si e por si, isolado do todo a que pertence, como a própria realidade última. Inexistente, por sua vez, quando compreendido o fenômeno em seu contexto numênico, quando presentes a aceitação da limitação cognitiva da realidade pela sua apreensão fenomênica e, ao mesmo tempo, a abertura dessa mesma cognição à totalidade existencial, pela relação simbólica (inteligível) e psicológica (sensorial e anímica) entre a parte e o todo, de modo que haja a devida significação da transcendência que está presente na parte, para que esta sempre aponte intelectual e materialmente para o todo que integra.

Por isso, o Cristianismo é a melhor forma de apreensão intelectual da realidade, é a melhor filosofia possível, porque tem como princípio fundador do mundo o Logos, que está presente no mundo, com o qual interagimos, por meio do próprio Logos em nós.

O Cristianismo pressupõe uma lógica universal, desenvolvendo suas categorias e suas relações, e, então, redescobre que essa lógica, suas categorias e suas relações estão presentes na natureza. O homem busca o Logos no mundo, relacionando-o ao Logos em si, por categorias que são projetadas no mundo, e reformuladas, dialeticamente, mantendo uma unidade do Logos. Nesse sentido, a ordem da natureza, investigada pela ciência, transcende os próprios aspectos materiais da natureza, porque integralmente existente e presente no princípio da formação do mundo, como Logos eterno, quando o que nós conhecemos por natureza existia apenas como potência, como gérmen, sendo permitido, pela adoção das corretas categorias filosóficas, que são também teológicas, a contemplação dessa realidade transcendente, e dessa ordem imanente, o que, em certo aspecto, é a finalidade da ciência natural, a qual, na vertente materialista atual, todavia, remete não para a ideia platônica, ou para Deus, ou o Logos, mas para o multiverso, uma realidade com a qual, por definição, não temos possibilidade de contato.

Kant, por razões teológicas, desenvolveu categorias incompletas, e por isso não são adequadas à realidade física atual, na medida em que os conceitos da relatividade e da orgânica quântica representam uma nova reformulação dos conceitos kantianos fundamentais, para trazer para o mundo, na linha adotada por Hegel, homem e natureza, o Espírito Absoluto, ou Logos.

Mesmo o materialismo, com seu multiverso, também é dependente de razões teológicas.

Já afirmei anteriormente neste capítulo que é o cúmulo da irracionalidade postular um número infinito de universos que nunca fossem causalmente conectados uns com os outros apenas para evitar a hipótese do teísmo. Dado que a simplicidade determina a probabilidade prévia e uma teoria é mais simples quanto menos entidades ela postular, é muito mais simples postular um Deus que um número infinito de universos, cada um diferindo do outro de acordo com fórmulas regulares, não causado por qualquer outra coisa” (Richard Swinburne. A existência de Deus. Trad. Agnaldo Cuoco Portugal. Brasília, DF: Academia Monergista, 2019, p. 216).

O materialismo moderno, portanto, é uma filosofia da desordem, e viola claramente a Navalha de Occam, princípio filosófico segundo o qual a explicação mais simples de um fenômeno, que exige o menor número possível de hipóteses, deve ser a preferencial, para que não sejam criadas premissas desnecessárias.

Desse modo, o teísmo, em sua vertente mais difundida, que é o Cristianismo, por uma análise hegeliana aprimorada, é a filosofia da ordem mais adequada, bem como o fundamento da ciência, e, portanto, salvo para os que preferem ficar criando mundos apenas para tentar fugir da responsabilidade do inevitável encontro com Deus, deve ser a origem das categorias científicas e, principalmente, da prática tanto científica, propriamente dita, como social, incluídas, pois, nessa vertente lógica e racional, as chamadas ciências humanas ou do espírito.

Se aceitares, meu filho, minhas palavras e conservares os meus preceitos, dando ouvidos à sabedoria, e inclinando o teu coração ao entendimento; se invocares a inteligência e chamares o entendimento; se o procurares como o dinheiro e o buscares como um tesouro; então entenderás o temor de Iahweh e encontrarás o conhecimento de Deus. Pois é Iahweh quem dá a sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o entendimento” (Pr 2, 1-6).

Encruzilhada cultural

Mais uma batalha da guerra cultural ocorreu na última semana, em que um vídeo do Secretário de Cultura, Roberto Alvim, com referência a uma determinada fala de um nazista destacado, levou à sua demissão do cargo.

As referências a uma manifestação específica de Goebbels são inequívocas, mas daí a concluir, por si só, que houve a intenção de restaurar o pior do nacional-socialismo, o que é de todo reprovável, já é uma precipitação. Nesse ponto, muitos dos que defendem ferrenhamente a presunção de inocência até o trânsito em julgado foram os primeiros a condenar, de plano, a conduta do cidadão, sem ouvi-lo e sem a menor investigação sobre suas possíveis intenções.

Os que condenaram sumariamente Roberto Alvim, sem processo e sem defesa, se usassem a mesma argumentação, deveriam exigir a cassação do registro de determinados partidos políticos expressamente vinculados à ideia comunista, que causou dezenas de vezes mais mortes do que o nazismo, valendo destacar que ambos os movimentos, comunismo e nacional-socialismo (nazismo), foram e são desastrosos, como são muito próximos em termos ideológicos, fato provado, pelos critérios usados para reconhecer a culpa de Roberto Alvim, pelo documentário “A verdadeira história soviética” (https://www.youtube.com/watch?v=pMx8SHzhk1U&has_verified=1), com a descrição: “A verdadeira origem da loucura nazista, mostrada neste documentário. Isso é uma amostra do que o futuro reserva para os simpatizantes de doutrinas vermelhas”. Toda pessoa que ridiculariza a ideia segundo a qual o nazismo foi “de esquerda” deveria assistir a esse vídeo; são oitenta e cinco minutos com capacidade de mudar a compreensão de uma pessoa sobre as ideias dos últimos dois séculos que devastaram, em escala industrial, a humanidade no século XX.

Deve ser ressaltado que as ideias humanas estão ortodoxamente equivocadas desde o dogma, desde o século IV, quando o conceito de encarnação do Logos foi indevidamente limitado, por uma má interpretação da mensagem de Cristo, o Evangelho do Messias Judeu. O resultado dessa teologia enviesada está na doutrina política dos séculos seguintes, rejeitando a realização da era messiânica, do Reino de Deus, na história, o que permitiu, em última análise, o desenvolvimento das propostas comunista e nazista.

Na filosofia recente, as consequências de tal equívoco podem ser encontradas nos grandes filósofos, do iluminismo e do período posterior. Hoje ouvi uma exposição muito interessante, com o título “Ernst Cassirer – Kant, Hegel, & Heidegger” (https://www.youtube.com/watch?v=_64aTGDVH0E), em que é destacada a volta ao pensamento kantiano e seu idealismo transcendental como uma alternativa ao mecanicismo materialista e à metafísica hegeliana.

Na guerra cultural, que é também filosófica, portanto, há uma vertente materialista, de um lado, e uma relacionada ao cristianismo, de outro lado, na medida em que tanto a filosofia de Kant como a de Hegel são estruturadas a partir de uma concepção teológica do mundo, associada às ideias cristãs.

Para superar a encruzilhada cultural que vivemos, outrossim, é indispensável a compreensão do centro da cruz, o judeu crucificado por se comportar como um rei e um sacerdote, por ser o ungido pelo Deus de Israel, e por isso O Messias, e seus significados teológicos, filosóficos e científicos.

Na interpretação teológica do cristianismo, considerando as filosofias de Kant e Hegel, entendo a proposta do último mais adequada, no sentido de ser possível algum conhecimento da coisa em si, da realidade numinosa que o kantismo entende incognoscível, e pela ideia de realização do Espírito na história humana. Vejo a filosofia de Kant como a do peixe sobre sua realidade, ignorando sua imersão no oceano, pois todo conhecimento parte de alguma relação cognitiva do sujeito com a coisa em si, mínima que seja, sem a qual o entendimento da coisa é impossível.

Nesse sentido, todo conhecimento humano a priori é a posteriori, é resultado do contato espiritual com a coisa em si, pelo que não há que se falar em juízo sintéticos a priori fora de uma relação entre o temporal e o eterno, na medida em que nosso conhecimento é formado dentro da temporalidade, enquanto as categorias se referem ao início mais remoto da temporalidade, valendo para uma espécie de eternidade temporal, como reflexo da atemporalidade permanente. Assim, o juízo sintético, referente à eternidade temporal, somente é possível quando relacionado a uma atemporalidade permanente, que confere unidade sintética àquele juízo, pois sem a concepção de alguma permanência, que dá base à unidade cognitiva, não há como ser concebida a própria ideia de síntese, que liga o princípio ao fim, o alfa ao ômega.

Voltando, para concluir, ao vídeo de Roberto Alvim, sua defesa não é destituída de fundamento (https://www.youtube.com/watch?v=AEeFlIr0d7I), sendo possível interromper uma conexão simbólica parcial para não adotar todo um ideário relacionado àquela ideia, por mais que seja complexa, mas não impossível, essa desvinculação. Caso contrário, dever-se-ia rejeitar, por completo, tudo o que Heidegger escreveu, diante de sua associação com Hitler, conforme trecho de uma carta enviada a seu irmão Fritz Heidegger:

Caro Fritz, parece que a Alemanha despertou, compreendeu seu destino. Gostaria que lesses o livro de Hitler, fraco nos capítulos iniciais autobiográficos. Já ninguém mais pode negar que este homem possui, e sempre possuiu, um seguro instinto político, quando todos nós ainda estávamos obnubilados. O movimento nacional-socialista crescerá no futuro, com novas forças adicionais. Já não se trata da mesquinha política de partido – trata-se antes a salvação ou do ocaso da Europa e da cultura ocidental” (http://www.ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/561279-o-nazismo-segundo-heidegger-hitler-desperta-nosso-povo).

Portanto, é deveras complexa a situação da encruzilhada cultural em que nos encontramos, e é somente por meio de uma profunda e constante vigilância racional dos símbolos que nos rodeiam, através da atenção da consciência aos espíritos que nos influenciam, que poderemos vencer a barreira de ignorância, incoerência e irracionalidade que insiste em se colocar entre nós e a Verdade que pretendemos alcançar, porque, de fato, “a cultura é a base da pátria, e quando a cultura adoece, o povo adoece junto”, sendo necessário desenvolver, sim, uma cultura relacionada a “nossos mitos fundantes: a pátria, a família, a coragem do povo e sua profunda ligação com Deus”, o Deus de Israel, pai do judeu Jesus.

Somos filhos da terra, somos filhos de Deus, por causa do Messias, do judeu rejeitado pelos judeus:

Veio para o que era seu e os seus não o receberam. Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que creem em seu nome, ele, que não foi gerado nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1, 11-13).

Um dos passos fundamentais para superamos a encruzilhada em que estamos, finalmente, é o reconhecimento, pelos judeus, que há uma causalidade filosófica, histórica e material entre a vida de Jesus, seu Messias, sua salvação pelo mundo ocidental, que impediu que a “solução final” fosse concluída, e seu retorno profético à Terra Santa.

Isso é Teologia, é Filosofia, é Ciência e, por que não, Cultura.

A terceira guerra mundial é necessária?

O absurdo do questionamento sobre a necessidade de uma guerra mundial deve levar o leitor a indagar qual o destino do atual movimento planetário das pessoas e das nações. Considerando a situação existente na política internacional, pode-se afirmar que a terceira guerra mundial é circunstancialmente necessária, em virtude de estruturas de ideias equivocadas que prevalecem no pensamento global e que levam nossa civilização a esse conflito.

Os paradigmas mentais, filosóficos e políticos dominantes conduzem à guerra, como ocorreu em 1914 e persiste no panorama mundial atual, não porque a guerra seja um componente necessário desses paradigmas, mas pelo fato de que, como todo paradigma, eles tendem à expansão máxima, e por isso entrarão em necessário conflito uns com os outros, que não será solucionado por meio do diálogo e da razão, com prevalência da maior racionalidade, como desejado pela inteligência média, para o que seria necessária a renúncia de alguns de seus elementos essenciais, muitas vezes irracionais, associados a interesses de grupos de poder, sacrifício esse que historicamente não ocorreu de forma voluntária e pacífica em situações desse jaez, porque a força bruta da guerra sempre foi adotada como opção remanescente em confrontos entre nações, em detrimento da construção consensual de uma solução para a controvérsia.

Enquanto a guerra for uma possibilidade estratégica considerada minimamente legítima, mais cedo ou mais tarde, em razão de uma crise ou outra, ela será transformada em realidade. Daí porque é necessária uma mudança de mentalidade, e também das instituições internacionais, porque, assim como a Liga das Nações, a ONU fracassou em sua missão de produzir paz, e não há perspectiva real de mudança do Conselho de Segurança sem uma guerra mundial, dada a flagrante improbabilidade de os países com poder de veto, voluntariamente, abrirem mão de parcela de seu poder pela aceitação de novos membros na elite daqueles que integram referido Conselho.

Como já exposto no artigo “A guerra em curso” (https://holonomia.com/2019/10/26/a-guerra-em-curso/), existe um componente de irracionalidade no comportamento humano que somente pode ser extirpado com grande esforço, que muitas pessoas e nações não estão dispostas a fazer, pelos custos pessoais e financeiros exigidos para tanto.

Evoluindo as ideias do texto citado no parágrafo anterior, tendo em vista os recentes acontecimentos internacionais envolvendo EUA e Irã, pode-se dizer que a guerra em curso avançou no aspecto bélico, e a tendência é a situação se agravar. Nesse sentido, o sítio “Últimos Acontecimentos” (https://www.ultimosacontecimentos.com.br/) atualizou seu Alerta de Guerra Global para o Alerta Laranja após a morte do líder militar iraniano pelos EUA.

Ainda que os analistas e profissionais da imprensa indiquem que não há elementos para se prever uma guerra mundial, deve ser lembrado que os pressupostos intelectuais e psicológicos desses comentaristas não incluem a questão espiritual em disputa, limitando-se aos aspectos materiais da questão. Para a mentalidade secular e materialista, não há sentido na História, e os fenômenos ocorrem por acaso, em termos ontológicos, não havendo uma ordem subjacente de mundo a influir na situação internacional, pelo que o conflito também é contingente.

Contudo, tanto para os EUA, na pessoa de seu atual presidente, e de grande parte de sua população, como para o Irã, há o aspecto imaterial, religioso, espiritual como um componente necessário da questão. O terrorismo e a guerra contra o terror estão ligados à batalha do Bem contra o Mal, o que extrapola em muito a mera ideia secular de legalidade, tanto é que a ação terrorista não conhece limites legais, o que também vem sendo a prática da guerra ao terror, que não respeita fronteiras internacionais ou soberanias, e cujo limite é o interesse sensível de uma potência nuclear que possa se sentir atingida por alguma ação antiterror.

Do ponto de vista do Monoteísmo, em suas várias interpretações, existe um sentido espiritual na História, revelado à humanidade pelos profetas do Único Deus, mas o sectarismo religioso leva a projetos existenciais conflitantes, por exemplo, de uma parte do pensamento islâmico defendendo a eliminação de Israel da face da terra e de uma parte do mundo judaico-cristão sustentando a construção do terceiro templo no local conhecido como Esplanada das Mesquitas, tendo sido assinado o livro de adesão à referida construção tanto por Trump quanto por Bolsonaro.

Considerando a leitura profética da História, tal visão de mundo está associada a uma interpretação determinista da realidade, pela qual os profetas têm acesso intelectual a eventos que ocorrerão no futuro, ainda que o correto entendimento sobre o significado desses acontecimentos possa estar oculto até mesmo para os próprios profetas que os anteciparam.

E se o mundo é determinista, se há uma ordem subjacente absoluta, se há verdade na profecia bíblica, haverá uma terceira guerra, ou pelo menos o seu início, envolvendo Irã e Israel, segundo uma determinada leitura das Escrituras, compatível com a realidade atual, o que ocorrerá no norte de Israel, nas proximidades do que era o Monte Megido, local que também poderá ser interpretado, de outro lado, figurativamente.

Os eventos recentes, em conexão histórica com o que já foi profetizado e realizado nos últimos dois mil anos, apontam para essa realidade e, consequentemente, para a verdade ontológica das profecias bíblicas, em sua correta interpretação. Sobre este ponto, entretanto, sobre a correção do entendimento dos textos sagrados, vale a advertência escritural:

Temos, também, por mais firme a palavra dos profetas, à qual fazeis bem em recorrer como a uma luz que brilha em lugar escuro, até que raie o dia e surja a estrela d’alva em nossos corações. Antes de mais nada, sabei isto: que nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas homens, impelidos pelo Espírito Santo, falaram da parte de Deus” (2Pe 1, 19-21).

Portanto, a correta interpretação das profecias bíblicas é uma questão delicada, porque não decorre de vontade humana, mas da influência do próprio Logos, a Inteligência Divina, que escapa aos principais paradigmas mentais atuais da humanidade, tanto os do mundo judaico-cristão como do pensamento islâmico.

De minha parte, entendo que existe uma Ordem Absoluta na realidade e que existe um Espírito que é santo, isto é, existe uma ação santa conforme essa Ordem Absoluta, sendo nosso dever, como seres inteligentes, elevar constantemente nossas ações a essa Ordem segundo o Seu Espírito, pelo exemplo dado por Jesus Cristo, o ser humano que encarnou esse Espírito de modo perfeito na Humanidade, com mansidão, humildade e submissão ao Logos.

Como essa hipótese não é aceita pela prática internacional, e quando aceita não é adequadamente realizada, tanto pelas pessoas como pelas nações, até que todo joelho se dobre no céu e na terra, isto é, na teoria científica e na prática social, aos mandamentos de Cristo, que são os mandamentos de Deus, que é a Razão, Logos ou Lei da Natureza, continuaremos caminhando a passos largos para a guerra mundial, e para a destruição e o sofrimento humanos que lhe são inerentes.

A Palavra de Deus e a guerra de narrativas

Começo pela guerra de narrativas, destacando, de plano, que concordo com Luiz Felipe Pondé ao falar sobre o filme “A Primeira Tentação De Cristo”, do grupo Porta dos Fundos, aduzindo que “o objetivo do grupo é, de fato, escrachar com o Cristianismo, e movido por uma questão ideológica, é evidente, que é uma tendência da esquerda desde os anos 60, que é achar que você deve atacar alvos culturais, alvos de hábitos de comportamentos. É uma tendência da esquerda, já que ela perdeu em tudo: perdeu na política, porque produziu ditaduras; perdeu na economia, porque produziu países quebrados; então restou a ela fazer essa briguinha cultural, essa guerra cultural. Essa discussão ao redor do filme ‘A Primeira Tentação De Cristo’ é um caso de guerra cultural”. Ao final ele indaga “a pergunta que não quer calar é se o grupo teria coragem de fazer uma versão em que o Maomé é gay. Por quê? Porque os muçulmanos normalmente costumam responder de forma mais contundente, e a moçadinha do Leblon que fez o filme provavelmente ia fazer xixi nas calças” (https://www.youtube.com/watch?v=6Zeab_YOHDE).

A narrativa é essencial para a vida humana, porque, na criação, somos os principais seres comunicacionais, e o episódio citado destaca a importância da simbologia abstrata em nossa sociedade, remetendo a significados que escapam ao plano meramente sensível e superficialmente imanante da realidade, isto é, apontam para uma realidade em si, imanente e transcendente, para o mundo das ideias, origem da cultura.

A cultura é o resultado da ação humana baseada em ideias, é o produto de pensamentos que moldam a forma como interagimos com o mundo a nossa volta, de modo que quanto mais culta a pessoa maior o seu âmbito racional de interação intelectual com eventos cada vez mais distantes de seu ambiente mais próximo, que tem início em seu corpo, passando pelas relações imediatas com os indivíduos, os animais e as coisas ao seu redor, e, então, pelos grupos familiares, locais, regionais e nacionais, até o ponto mais amplo possível de significação existencial, que são as cosmovisões. A racionalidade da interação, por sua vez, varia de acordo com o princípio a partir do qual a própria interação ocorre, que pode ter ênfase no aspecto material ou corporal da relação, ou pode destacar ligação mais ampla, de tipo ideal ou espiritual, entre os fenômenos da natureza.

Deve-se dizer, destarte, que a visão cultural é dependente de uma cosmovisão, sendo a ela indissoluvelmente atrelada, pelo que a chamada guerra cultural também pode ser definida como embate entre distintas cosmovisões, ou entendimentos culturais, da realidade, sobre o significado do mundo, da história e das próprias ações humanas, das aparentemente mais irrelevantes, como um simples ajeitar os cabelos, até aquelas com maior repercussão para a vida alheia, como um homicídio.

Assim, a grande diferença entre as principais narrativas culturais, ou cosmovisões, está existência ou não de sentido na história: se há um curso imanente aos acontecimentos, associado a uma ordem de mundo que definiu tudo o que já aconteceu e que ainda se realizará no plano histórico: ou se o mundo é regido pela simples aleatoriedade, especialmente no que diz respeito à história humana, na qual as narrativas são associadas a valores, pelos quais os eventos históricos são julgados positiva ou negativamente.

A principal cosmovisão ocidental está atrelada à vida de Jesus, O Cristo, que consuma o ideário monoteísta do povo judeu, pelo que o filme mencionado, de fato, questiona as bases sobre as quais o Ocidente foi moldado, negando-as. Enquanto o Cristianismo se baseia em uma cosmovisão dita espiritual da realidade, os produtores do folhetim audiovisual se alinham ao ideário materialista, negando qualquer verdade ao Cristianismo, sendo que os adeptos mais fervorosos da vertente contrária às ideias de Cristo chamam-nas de alucinação coletiva ou manipulação das massas.

De minha parte, entendo que o Cristianismo é A Narrativa da Verdade, e, enquanto verdade, Absoluta, válida para todos os tempos e lugares, para toda a História humana e cósmica, porque significa a própria humanidade, de sua formação ao seu destino, o que vale tanto para as almas humanas quanto para os conflitos sociopolíticos internacionais.

Portanto, assumo a Bíblia como A Palavra de Deus, mas não na versão tradicional desse entendimento, porque vejo na Bíblia o resultado da interação direta entre o Criador e a criatura, por meio de pessoas e fatos históricos reais, sendo os livros sagrados o testemunho humano fiel e de boa-fé dessa interação. Nesse sentido, da mesma forma como ocorre em um processo judicial, em que são ouvidas testemunhas sobre os fatos em julgamento, a Bíblia é como uma reunião desses testemunhos, narra as palavras de pessoas comprometidas com a verdade e que presenciaram determinados eventos fundamentais para o desenvolvimento da história humana, ou que deles tiveram ciência através de outras pessoas também comprometidas com a verdade.

Tal situação também ocorreu com outras pessoas, como Buda ou outros avatares que se relacionaram com o mundo numinoso. Tais interações, contudo, referem-se a eventos paralelos à história mundial, diferentemente do Cristianismo, que diz respeito ao sentido da história social e política da humanidade, porque Jesus é o Rei dos Reis, expressando a forma mais sublime de exercício de poder político, e também sacerdotal. Não é à toa que apenas no ocidente existem direitos humanos, que são o resultado jurídico da ação dos profetas, começando com Abraão.

Nesse sentido, algumas pessoas especiais, chamadas profetas, tiveram experiências numinosas, fizeram contato mental ou corporal com outro nível de realidade, e relataram tais acontecimentos, com suas próprias palavras, as quais vieram a se tornar A Palavra de Deus, devendo ser ressaltado que os profetas nem sempre conseguiam entender, explicar ou narrar aquilo pelo que tinham passado, até por ausência de termos linguísticos adequados que pudessem definir o ocorrido, sendo tais eventos posteriormente compilados em textos pelas próprias pessoas que os viveram ou, posteriormente, por algum seguidor que creu no testemunho recebido e, então, o replicou.

Essa é a história do Cristianismo, do Monoteísmo, que contém, em si, uma narrativa sobre a história da humanidade, que está associada, outrossim, à respectiva cosmovisão de mundo, bem como a entendimentos sobre a verdade científica, sobre moralidade e sobre questões políticas e sociais, com pretensão de unidade racional.

Contudo, falta aos cristãos a compreensão do quanto falham com o Cristianismo quando rompem com a unidade racional de sua cosmovisão, em temas sensíveis, como o aborto e o tema do vídeo, que foram banalizados por força da “questão ideológica” aludida por Pondé, conseguindo os materialistas, por sua influência cultural, que muitas pessoas que se chamam cristãs ficassem anestesiadas com os seus constantes ataques, tornando-se mornos, sem a contundência dos muçulmanos, ainda que não seja necessária violência física para expressar tal firmeza de posição, por exemplo, não assistindo ao filme, para que não seja contabilizada audiência, e, mesmo assim, avaliando-o negativamente.

Tal posição manca, frouxa, é repudiada pelo Princípio da criação de Deus:

Ao Anjo da Igreja em Laodicéia, escreve: Assim fala o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da criação de Deus. Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca. Pois dizes: sou rico, enriqueci-me e de nada mais preciso. Não sabes, porém, que és tu o infeliz: miserável, pobre, cego e nu! Aconselho-te a comprar de mim ouro purificado no fogo para que enriqueças, vestes brancas para que te cubras e não apareça a vergonha da tua nudez, e um colírio para que unjas teus olhos e possas enxergar. Quanto a mim, repreendo e educo todos aqueles que amo. Recobra, pois, o fervor e converte-te! Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo. Ao vencedor concederei sentar-se comigo no meu trono, assim como eu também venci e estou sentado com meu Pai em seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 3, 14-22).

Que o período de Natal e o Ano Novo, portanto, sirvam para que os cristãos recobrem o fervor e se convertam, para que voltem a enxergar e vençam o mundo, para que vençam a mentira do materialismo, possam sentar-se no trono de Deus e, enfim, reinar com Cristo perante as nações, porque o Natal aponta para a tortura e crucificação do inocente, sua ressurreição e o mundo futuro, quase atual, de justiça nas relações humanas e políticas internacionais, e, finalmente, escatológico, quando “nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais”! (Ap 21, 4).

A lógica da pesquisa científica

O título do artigo repete o nome do livro de Karl Popper, um destacado filósofo da ciência do século XX, famoso por sua hipótese segundo a qual uma teoria científica não pode ser provada verdadeira, pode apenas ser falseada, quando demonstrados fatos básicos que sejam aceitos pela comunidade científica e que contradigam aquela teoria, comprovando sua inconsistência lógica. Impressiona o rigor matemático de Popper, desenvolvendo teorias de probabilidades, além de enfrentar a questão do acaso, dos eventos aleatórios ou casualoides, com uma abordagem simbólica.

Ainda assim, encerrada a leitura, o sentimento decorrente desse estudo foi de um certo espanto, um misto de frustração e esperança, pois aguardava mais de uma obra tão renomada. Ao mesmo tempo, entretanto, nela já estão presentes os elementos para compreender em que ponto falham todos os filósofos e cientistas contemporâneos: na Metafísica, Filosofia Primeira ou Teologia.

Corroboraram tal sentimento as leituras subsequentes, “As leis do caos”, de Ilya Prigogine, em cuja contracapa é anotada a seguinte mensagem de Sir Karl R. Popper: “A obra de Prigogine pode ser encarada como um exemplo de instigante redução fisicalista… pode, desse modo, abrir caminho para que se entenda porque a criatividade da vida não contradiz as leis da física”; e “Conhecimento e crença cristã”, de Alvim Plantinga, vencedor do Templeton Prize de 2017 e reconhecida autoridade na área da Filosofia da Religião.

A filosofia de Popper pode ser encontrada na seguinte passagem:

Contudo, só reconhecerei um sistema como empírico ou científico se ele for passível de comprovação pela experiência. Essas considerações sugerem que deve ser tomado como critério de demarcação, não a verificabilidade, mas a falseabilidade de um sistema. Em outras palavras, não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser dado como válido, de uma vez por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo através de recurso a provas empíricas, em sentido negativo: deve ser possível refutar, pela experiência, um sistema científico empírico” (Karl Raimund Popper. A lógica da pesquisa científica. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 2013, p. 38). Popper explica que seu critério é de demarcação, e não de significado, dizendo seguir Kant, para quem os enunciados científicos “devem ser intersubjetivamente testáveis, a qualquer momento, e que precisam, por isso, tomar a forma de leis universais ou teorias” (Idem, p. 42, nota 5).

Todavia, essa proposta meramente formalista traz um problema, uma vez que rejeita como metafísica “qualquer controvérsia em torno da questão de saber se ocorrem eventos, em princípio únicos e insuscetíveis de repetição”, porque “não pode ser decidida pela ciência” (Idem, p. 43). Nessa linha, o estudo da cosmologia, a formação do nosso universo, que é um evento único e insuscetível de repetição, o que também vale para o estudo da origem da vida, e mesmo dos acontecimentos históricos, não seria classificado como ciência.

De outro lado, ao final do texto, Popper reconhece a necessária conexão entre ciência e metafísica, afirmando que “ideias que anteriormente flutuavam em regiões metafísicas mais elevadas podem, algumas vezes, ser alcançadas pelo crescimento da ciência e, assim, entrar em contato com esta e precipitar-se. (…) Todos esses conceitos e ideias metafísicos, mesmo em suas formas primitivas, talvez tenham auxiliado o homem a introduzir ordem no quadro que ele traça do mundo e, em alguns casos, terão levado a previsões bem sucedidas” (Idem, pp. 242-243).

A esperança decorrente da leitura resultou da abertura do “talvez” do parágrafo anterior, que pode, segundo entendo, numa evolução do entendimento atual sobre o que é o conhecimento científico, levar à substituição dessa mera possibilidade, o “talvez”, por um retumbante “inquestionavelmente”, com sua correlação à Metafísica da Verdade, ao Monoteísmo de Cristo.

Digo isso porque sustento não haver Ciência sem Metafísica, Filosofia Primeira ou Teologia, na medida em que qualquer investigação científica está colocada dentro de um quadro significativo do mundo, com indicações simbólicas transcendentes, isto é, com conexões que estão além do aqui e agora, mesmo porque todo aqui e agora, num instante, deixa de sê-lo, passando a memória do passado, como, igualmente, antes de ocorrer, era uma possibilidade existencial, até que o futuro se transforma em presente, então, em passado.

Uma vez mencionada a questão da sucessão temporal, o livro “As leis do caos”, de Prigogine, aborda justamente a questão da seta do tempo, da irreversibilidade do tempo, contrariando o entendimento clássico da Física, no que se inclui a relatividade. A obra começa assim:

Um título como As leis do caos pode parecer paradoxal. Existem leis do caos? O caos não é, por definição, ‘imprevisível’? Veremos que não é assim, mas a noção de caos nos obriga, em vez disso, a reconsiderar a de ‘lei da natureza’. Na perspectiva clássica, uma lei da natureza estava associada a uma descrição determinista e reversível do tempo, em que o futuro e o passado desempenham o mesmo papel. A introdução do caos obriga-nos a generalizar a noção de lei da natureza e nela introduzir os conceitos de probabilidade e de irreversibilidade. Trata-se, nesse caso, de uma mudança radical, pois se quisermos mesmos seguir essa abordagem, o caos nos obriga a reconsiderar a nossa descrição fundamental da natureza” (Ilya Prigogine. As leis do caos. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 2002, p. 11).

Vale dizer que Prigogine também abandona as ideias materialistas clássicas, segundo as quais existe uma ordem apenas provisória no mundo, decorrente do movimento caótico dos átomos, e reformula o conceito de caos, não mais como algo ‘imprevisível’, e sim como probabilístico, conceito no qual a ideia de ordem é pressuposta. Caos, como ele próprio reconhece, é um termo associado à ausência de leis, à imprevisibilidade, pelo que sua proposta incluiu uma mudança radical na metafísica materialista, pela qual, na realidade, é rejeitado seu princípio fundamental: a ausência de uma ordem subjacente ao mundo. Ele sustenta uma ideia de caos a partir de representações estatísticas ‘irredutíveis’:

É justamente esta propriedade que tomaremos como a própria definição de caos, tirando vantagem da sua possibilidade de estender-se aos sistemas quânticos. São ‘caóticos’ os sistemas quânticos cuja evolução não possa exprimir-se em termos de funções de onda que obedeçam à equação de Schrödinger, mas exijam uma nova formulação em termos de probabilidade” (Idem, p. 55).

Os sistemas dinâmicos estudados por Prigogine possuem sensibilidade às condições iniciais, em que existem “causas pequenas a mais não poder, mas em condições de ter consequências essenciais sobre o comportamento do sistema” (Idem, p. 37). O exemplo clássico dessa ideia é o da borboleta que bate asas na Amazônia desencadeando um tufão do outro lado do mundo.

Portanto, o que estamos falando é de ordem complexa, e não de caos propriamente dito. Por definição, não há leis do caos, ou mesmo probabilidades, pois esta ideia está ligada conceitualmente a alguma espécie de ordem. Daí a falha metafísica anunciada no início do texto: ontologicamente, probabilidade e caos são coisas distintas.

A pressuposição da existência de ordem inerente ao mundo é associada ao ideário monoteísta, e à crença cristã, o que proporcionou o desenvolvimento da Ciência. Contudo, há os que pensam em sentido contrário:

Entretanto, você pode pensar que os seres humanos são produtos de forças evolucionárias cegas, que Deus não existe e somos parte do universo sem Deus. Assim, estará inclinado a aceitar o tipo de perspectiva com a qual a crença em Deus é uma ilusão de algum tipo, que remonta ao pensamento ilusório, a algum outro mecanismo cognitivo que não visa à verdade (Freud), ou a um tipo de doença ou disfunção do indivíduo ou da sociedade (Marx).” (Alvim Plantinga. Conhecimento e crença cristã. Tradução Sérgio Ricardo Neves Miranda. Brasília, DF: Academia Monergista, 2016, p. 95).

Segundo Jesus, a ordem do mundo é absoluta: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena. Não se vendem dois pardais por um asse? E, no entanto, nenhum deles cai em terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até mesmo os vossos cabelos foram todos contados. Não tenhais medo, pois valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10, 28-31).

Essa ordem absoluta, com a qual interage o homem, é o que busca a ciência, e daí a necessidade de uma radical revisão metafísica, para a devida compreensão do fenômeno único e insuscetível de repetição que mudou a história da humanidade, e mesmo assim é científico, ainda que também metafísico.

Se tomarmos como objeto de comparação a sociedade humana e confrontarmos a sociedade da era neolítica com a atual, não é tanto o fato de que os homens tomados individualmente sejam diferentes, mais ou menos inteligentes: são antes as relações entre os indivíduos que sofreram uma mudança radical. Sem dúvida, também nossa sociedade envelhece, mas mais rapidamente que a sociedade neolítica, porque os meios de comunicação se ampliaram e, portanto, a dinâmica das correlações sociais sofreu uma enorme aceleração” (Ilya Prigogine. As leis do caos. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 2002, p. 70).

As relações humanas sofreram uma mudança radical porque o conceito metafísico fundamental de que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus precipitou-se, realizou-se em Jesus, num movimento ideológico que se espalhou pelo planeta, e que está prestes a atingir sua forma plena, quando dominará a lógica da pesquisa científica. Mas para isso, é necessário não que seja falseado, mas provado verdadeiro, com significado verdadeiro, quando uma improbabilidade absurda ocorrer, conectando a história humana e o movimento “caótico” da natureza, dando sentido e realizando o que era chamado de profecia, ou mesmo alucinação, mas que, então, passará a ser tratado como conhecimento científico.

Direito, Política e Ortodoxia

Três anos depois, com um novo julgamento sobre a questão, é válido voltar ao teor do artigo “Prisão, Páscoa e Tradição” (https://holonomia.com/2016/08/20/prisao-pascoa-e-tradicao/), do qual transcrevo a seguinte passagem, estritamente relativa ao tema do momento:

Destaco, desde já, que não li os acórdãos em questão, mas as notícias sobre eles, e minha conclusão superficial é no sentido de que não se trata de afastar o princípio de presunção de inocência ou de não culpabilidade, mas de dar efetividade à Constituição Federal que exige a realização de Justiça pelo Poder Judiciário. Ainda que a presunção de inocência ou de não culpabilidade tenha validade até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, a Lei Maior também permite a prisão preventiva, quando presentes os requisitos legais. Uma coisa é a dita presunção, outra é a possibilidade de prisão por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente. E a presunção em questão é iuris tantum, ou seja, não é absoluta e admite prova em sentido contrário. Fosse presunção iuris et de iure sequer seria possível a prisão em flagrante ou qualquer outra forma de prisão antes do trânsito em julgado da sentença penal condenatória, pois violaria o tão aclamado princípio da presunção de inocência ou de não culpabilidade.

No caso da condenação criminal em segundo grau, ainda que para o sistema teórico a pessoa seja presumidamente inocente ou não culpável até o final do processo, o mesmo sistema dispõe sobre a competência constitucional para a declaração da ocorrência de um crime e imposição da pena, o que é feito pelo Judiciário em primeira e segunda instâncias, como regra. Assim, em caso de condenação em segundo grau, a autoridade judiciária competente não mais considera o réu inocente, mas culpado, pelo julgamento do fato em questão, seguindo o devido processo legal. Caso encerrado o processo, efetivamente será culpado o réu para todos os efeitos, e para que isso ocorra basta que não haja recurso, o que levará à inversão da presunção de inocência para a presunção de culpa. Desse modo, a presunção inicial de inocência, com as condenações no curso da ação penal, ou a confirmação de uma condenação pelos órgãos judiciários nos julgamentos ocorridos no processo, vai gradativamente se transformando em presunção de culpa, até que não haja mais possibilidade de recurso.

E ainda que ocorra o trânsito em julgado será possível a revisão criminal, ou seja, o sistema admite a possibilidade de erro, pelo que nem mesmo a presunção de culpa decorrente da sentença penal condenatória transitada em julgado é absoluta.

O mesmo sistema legal que prevê a presunção de inocência também dispõe que, teoricamente, os julgadores de segundo grau são mais experientes que os de primeiro grau, e que com eles é encerrada a análise dos fatos em julgamento, remetendo para os recursos extremos apenas questões jurídicas. Deve-se destacar novamente que é pressuposto constitucional que os juízes aplicarão corretamente a lei, especialmente os de segundo grau, e não o contrário. Daí porque o erro é tido, dentro do sistema de presunções, como excepcional.

Portanto, a prisão após a condenação por um tribunal significa uma prisão preventiva de ofício, permitida pelo art. 311 do CPP, qualificada pelo juízo de mérito da culpa pela autoridade competente, ainda que esse juízo seja passível de recurso, por natureza extraordinário.

Destarte, a prisão em decorrência da condenação em segundo grau de jurisdição é uma prisão preventiva, em que, pela gravidade do fato em apuração, e pelo juízo de mérito da culpa, ainda que revisível – apenas extraordinariamente, a garantia da ordem pública e a segurança da aplicação da lei penal são inerentes ao juízo condenatório qualificado, dispensando-se a fundamentação mais pormenorizada, uma vez que os motivos respectivos, as razões da custódia cautelar, são os mesmos que levaram à conclusão pela ocorrência do crime e imposição da pena, tendo o fumus commissi delicti se transformado em fogo condenatório, enquanto o periculum libertatis também decorre da gravidade do fato criminal reconhecido pelo tribunal, com pena de prisão. Somente nesse sentido, uma vez que não se trata de condenação transitada em julgado, é cabível falar em execução provisória de pena, como já ocorre quando o réu responde preso ao processo e interpõe o recurso ordinário – apelação. E vale dizer que a pena privativa de liberdade, no sistema penal pátrio, apenas é imposta em casos realmente mais graves, como regra em penas superiores a quatro anos, no caso de reincidência criminal ou crime praticado com violência à pessoa.

Outrossim, a ordem pública, após a condenação provisória em segundo grau, por crime de grave repercussão social, considerando a pena em concreto aplicada ao réu, pode ficar em risco caso o acusado continue solto, como regra, permitindo uma prisão preventiva qualificada. A noção de ordem pública é um tanto subjetiva, mas diante da condenação a uma pena de prisão, por tribunal, a prisão preventiva não pode ser considerada absurda. Desproporcional é a regra exigir o trânsito em julgado para que seja entendida como constitucional a prisão após uma condenação qualificada, em segundo grau, por pelo menos dois magistrados dentre o mais experientes do país.

Nesse ponto, a prisão preventiva em questão não afasta a aplicação ou a constitucionalidade do art. 283 do CPP, pois o acórdão, ainda que recorrível pelas vias extremas dos apelos especial e extraordinário, é uma decisão proferida pela autoridade competente, sendo obrigatoriamente escrito e fundamentado, proferido no curso do processo.”

Importante salientar, como constou no citado artigo, que qualquer prisão antes do trânsito em julgado é preventiva, exatamente porque não é, ainda, definitiva, na medida em que esta somente existe, tecnicamente, depois de encerradas todas as possibilidades de recurso, quando, então, é expedida a guia de execução de pena. E também por isso, dado o caráter preventivo da cautela processual, é permitido ao réu ajuizar habeas corpus para buscar suspender a referida ordem de prisão preventiva.

Portanto, a discussão técnica é no sentido de se estabelecer uma nova cultura jurídica para que a regra seja a decretação da prisão preventiva quando houver condenação ou confirmação da condenação pelo tribunal, pelo juízo da segunda instância, para o que é desnecessária mudança constitucional ou legal. O fundamento de tal prisão é resguardar a ordem pública, em sentido amplo, inclusive simbolicamente, para dar efetividade à natureza pedagógica do Direito Penal, porque o artigo 3.º do Código de Processo Penal prevê que a lei processual penal admitirá interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais de direito.

O artigo 5.º da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro, por sua vez, dita que na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.

Exigir que o réu somente possa ser preso após exauridas todas as possibilidades de recurso, num momento de desordem social como o que vivemos, certamente não é atender aos fins sociais e ao bem comum, mas aos interesses privados de alguns réus, com ligações por demais estreitas com…

Estivesse o Brasil em um patamar civilizatório mais evoluído, com comportamento social compatível com o rigor absoluto da presunção de inocência e com demais valores constitucionais, talvez se poderia entender como adequado o entendimento que se sagrou provisoriamente vencedor. Enquanto estivermos entre os países mais violentos do mundo, com as maiores taxas de homicídio, e dentre aqueles com maior corrupção, tal situação, por si só, é suficiente para justificar a prisão preventiva de todo e qualquer réu condenado em segunda instância, independentemente das outras circunstâncias processuais e das condições pessoais do condenado (provisoriamente), de modo que as exceções pudessem ser resguardas por habeas corpus, desde que efetivamente excepcionais, no que não está incluída a hipótese de beneficiar compadres, padrinhos políticos ou seus associados.

O ponto jurídico em questão é também de natureza política, sobre os limites do exercício do poder público, sobre os valores que a coletividade tem como objeto de proteção jurídica especial, e que por isso estão na Constituição. Por maior que seja o valor dos indivíduos, a sociedade como um todo possui um valor maior, essa é a base para a própria existência do Direito.

Finalmente, como o Supremo Tribunal Federal tem a competência de interpretar e guardar a Lei Maior, seu entendimento estabelece o que é a doutrina correta, ou ortodoxia, jurídica e política, pátria, na medida em que a Constituição é tanto a Lei Maior como a Carta Política de uma nação.

Existe uma ideia absurda, que chega a ser ridícula, de tentar separar Direito e Política, o que é fruto do mundo moderno cartesiano e iluminista que fragmenta a realidade e os conhecimentos em unidades pretensamente estanques. Isso como se os legisladores, que elaboram as leis, não fossem também, e sempre, políticos, como se as leis tivessem qualidade política apenas durante as discussões no Congresso Nacional, que é o ambiente político, e a partir do momento de sua promulgação passassem a ser exclusivamente jurídicas, sem relação com os valores e ideias que fundaram sua elaboração; como se não houvesse uma continuidade entre Política e Direito. Essa ortodoxia é tacanha, não é verdadeiramente ortodoxa; mas uma heresia.

O mesmo entendimento vale para a presunção se inocência, pois para os que defendem a impossibilidade de prisão após segunda instância, porque somente seria permitida depois do trânsito em julgado, a realidade é irreal, é como um conto de fadas, como Cinderela, pois até às 23:59 horas do último dia para entrar com o último recurso a pessoa seria absolutamente inocente, e um minuto depois, como num passe de mágica, viraria uma abóbora, ou melhor, um culpado, de um minuto para o outro a pessoa se transformaria de Irmã Dulce no Maníaco do Parque.

Prejudicada fica, novamente, a realização do princípio da igualdade, porque os menos favorecidos, patrocinados normalmente por defensores dativos ou pela Defensoria Pública, não terão, ao contrário dos réus com grande capacidade financeira, em seu favor a utilização de recursos e mais recursos procrastinatórios, procedimento adotado impunemente por aqueles com condições de suportar o pagamento dos custos desse reprovável expediente processual.

A questão política também ficou clara no dia seguinte à decisão do STF, quando foram soltos réus do colarinho branco, com elevado poder aquisitivo, demonstrando exatamente os beneficiários desse entendimento social e racionalmente heterodoxo, mas que por algum tempo ainda será a ortodoxia na prática social e jurídica brasileira, a má e velha tradição pátria de beneficiar os ricos e poderosos, os donos do poder.

O príncipe deste mundo, por algum tempo, continua a exercer seu domínio.

A corrente da vida

A existência ou ausência de sentido no mundo é uma questão fundamental, pois define se somos apenas um amontoado de partículas que se transformaram em moléculas, de complexidade crescente, gerando os pensamentos, dentro dos quais aqueles que criaram a aparência de uma realidade espiritual, transcendente a nós, ou se esses fenômenos espirituais indicam, de fato, que pertencemos a mundo efetivo maior do que nossos corpos individuais.

Se a evolução, segundo a hipótese de Darwin, pode explicar alguns eventos do fluxo da vida, não explica inicialmente a origem da vida, valendo dizer que não foi comprovada a chamada macroevolução, havendo obscuridades no conhecimento científico quanto à direção da história. O sentido da existência humana ainda está em aberto no sistema científico.

Quaisquer que sejam as respostas a essas perguntas, um fato não pode ser negado, que estamos aqui, representando o ápice da vida corporal, considerando que o cérebro humano é o órgão mais complexo até então descoberto pela Ciência em todo o universo conhecido. Além disso, carregamos em nós um histórico físico, biológico, psíquico e cultural que remete às origens do cosmos. Destarte, nós somos a humanidade, a vida em curso.

Até mesmo Nietzsche, um grande crítico do pensamento filosófico tradicional, entendia haver necessidade de compreender essa unidade presente em nós, em que pese a incompreensão do referido autor quanto à realidade mais profunda, em relação à ordem de mundo que ele mesmo buscava.

O egoísmo vale tanto quanto vale fisiologicamente aquele que o tem: pode valer muito, e pode carecer de valor e ser desprezível. Cada indivíduo pode ser examinado para ver se representa a linha ascendente ou a linha descendente da vida. Decidindo a respeito disso, temos também um cânon para o valor de seu egoísmo. Se ele representa a linha em ascensão, seu valor é efetivamente extraordinário — e, em função da totalidade da vida, que com ele dá um passo adiante, deve mesmo ser extremo o cuidado pela conservação, pela criação do seu optimum de condições. O ‘indivíduo’, tal como o povo e a filosofia até hoje o entenderam, é um erro, afinal: não é nada por si, não é um átomo, um ‘elo da corrente’, nada simplesmente herdado de antigamente — ele é toda a linha ‘ser humano’ até ele mesmo… Se representa o desenvolvimento para baixo, o declínio, a crônica degeneração e adoecimento (— as doenças já são, em termos gerais, consequências do declínio, não suas causas), ele tem pouco valor, e a mais simples equidade pede que ele subtraia o mínimo possível daqueles que vingaram. Ele é apenas seu parasita…” (Friedrich Wilhelm Nietzsche. O crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com um martelo. Trad. Paulo César de Souza. Companhia das Letras. Versão eletrônica. Capítulo IX, parágrafo 33).

Ironicamente, a passagem acima explica em parte o entendimento de Jesus Cristo sobre ele mesmo, como ápice da vida humana, como filho da humanidade, ou filho do homem, expressão que ele usava para se referir a si mesmo.

De todo modo, mesmo Nietzsche entende haver uma linha ascendente e uma linha descendente, fazendo um juízo sobre o desenvolvimento da vida, o que é fundamental para definir um contexto para a existência humana e para dirigir nossos comportamentos cotidianos.

É possível entender razoavelmente que a linha ascendente tem seu ápice na vida humana, de modo que o filho da humanidade, o conceito cristão de humano, é “toda a linha ‘ser humano’ até ele mesmo”, o resultado da evolução até aquele momento, antecipando em si a continuidade da própria humanidade, como aquele que gera o ser humano melhorado do futuro, para continuidade da ascensão da vida.

Ainda que seja um fato que Nietzsche seja um crítico do Cristianismo, ele tinha um grande apreço pelas ideias sociais do Antigo Testamento, e na medida em que houve um indevido rompimento ideológico na interpretação do Evangelho com as ideias judaicas, pode-se dizer que isso explica e justifica, em parte, a crítica de Nietzsche ao pensamento da cristandade, nos pontos em que interpretam equivocadamente as Escrituras, e, principalmente, o significado de Jesus, o ser humano, ou filho da humanidade, com ideias meramente transcendentes.

Se a vida tem realmente um sentido, a direção é de unificação da humanidade, para que cada ser humano seja tratado como filho da humanidade, e criado como tal, desde a concepção até a morte, e após o corpo voltar à terra, de modo que a totalidade da vida seja experimentada em cada um de nós, tanto pela plenitude corporal como espiritual, com a memória dos que nos antecederam, e construíram esse momento, e sendo memória dos que nos sucederão, pelos bons resultados de nossas ações.

A corrente da vida não pode parar em nossos corpos, em meras sobrevivências, deve prosseguir, e realmente continua, para um plano maior, que inclui e supera esse plano menor em estamos, e aqueles com a sensibilidade necessária conseguem captar essa realidade, e por isso realizam e participam efetivamente da corrente da vida.

Se alguém tem sede, venha a mim e beba, aquele que crê em mim, conforme a palavra da Escritura: ‘De seu seio jorrarão rios de água viva’” (Jo 7, 37-38).

A guerra em curso

Há uma guerra mundial em curso, que apenas ainda não voltou ao seu ápice bélico. Esta é uma situação iminente, latente, porque a guerra evidente, já existente, é espiritual, é ideológica, é a luta entre a universalidade e a irracionalidade, que remete ao tempo de Cristo, o qual representa o lado da universalidade, de certa forma reclamado pelos atuais grupos em conflito, os quais, contudo, militam no campo da irracionalidade.

Roma já clamava para si a qualidade de império universal, mas na realidade era um governo de cunho nacionalista, ou mesmo familiar, com larga extensão planetária. A república romana se mostrou uma luta entre monarquia e aristocracia.

Ao se deparar com o verdadeiro conceito de universalidade, associado às ideias de Cristo, e não conseguindo absorver seu Espírito, Roma caiu, pois incapaz de conciliar o Evangelho, ligado à realidade espiritual, à universalidade dos direitos humanos e à fraternidade humana, com o domínio imperial.

Desde então a ideia de unir um império universal às ideias de Cristo fez surgir uma sucessão de novos impérios, desde a própria igreja romana, passando pelos impérios carolíngio, espanhol, português, britânico e americano, do ponto de vista ocidental, em que predomina a cosmovisão judaico-cristã.

A ascensão e queda desses impérios é o reflexo visível da guerra espiritual invisível existente desde a antiguidade, vencida pela universalidade de Cristo, no plano espiritual, e que ainda está em curso na sociedade moderna, uma vez que não superadas as causas que levaram à primeira guerra mundial, que foi a causa da segunda, e somente será solucionada após a terceira.

Nesse sentido, temos hoje o império americano, em decadência, porque sua universalidade é apenas parcial, pois sua economia é insustentável, não é universalizável em termos planetários o nível de consumo dos cidadãos norte-americanos, cultura essa que atingiu vários outros países, como o próprio Brasil. No corrente ano, em 29 de julho, nós ultrapassamos, planetariamente, o limite de consumo anual sustentável dos recursos naturais (http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-07/humanidade-ja-usou-recursos-naturais-do-planeta-para-2019).

A solução é uma só, reduzir o consumo, pagar mais caro por produtos poluentes, que sejam ecologicamente, e em termos de saúde, menos sustentáveis.

Contudo, ninguém quer pagar essa conta, seja em termos de parafiscalidade ou extrafiscalidade, podendo ser citados como exemplos os cigarros contrabandeados do Paraguai, a greve dos caminhoneiros e os protestos recentes no Equador e no Chile.

No caso do Equador, a gota d’água foi o fim do subsídio para gasolina e diesel, gerando a reação de vários grupos sociais, especialmente dos indígenas. Esse caso é exemplar para mostrar a contradição dos tempos atuais, porque a cultura indígena é, inquestionavelmente, atrasada em termos tecnológicos, portanto incompatível com o motor a combustão e com a tecnologia digital, e ainda assim os indígenas insistem em usar caminhonetes a diesel e smartphones. É contraditório escolher o melhor de cosmovisões distintas, sem o devido esforço racional, mental e corporal que permita essa conciliação, com as renúncias inerentes à manutenção da unidade lógica e racional, ao Logos. Os indígenas, destarte, podem ter caminhonetes e iPhones, mas, para tanto, é indispensável incorporar a mentalidade de Cristo, com os fundamentos de sua cosmovisão e moralidade.

Portanto, ninguém quer pagar a conta para a existência da sociedade universal, ou melhor, quase ninguém, porque Jesus e seus verdadeiros seguidores fizeram exatamente isso, o que demanda apontar os erros e contradições de seu próprio grupo, sua própria nação, sua própria religião, sofrendo as consequências desse comportamento ousado que é, ao mesmo tempo, desafiador e conservador.

Nesse sentido, o império americano é decadente e não aceita perder o poder, não concorda em renunciar à parcela de exploração natural e exagero de consumo que faz de seu padrão de vida insustentável, e anticristão, o que inclui a concentração absurda de riquezas entre famílias dentro do planeta, entre grupos dentro de nações e em poucos países, tudo fruto de uma simbologia equivocada, que valoriza aspectos materiais e fugazes da vida em franco detrimento da realidade significativa da vida, que inclui o desenvolvimento espiritual humano. Não há problema em ser rico, mas multibilionário sem produzir benefício social, e até mesmo em detrimento do resto da sociedade.

Por isso, a guerra atual é psicológica e econômica. Como os donos do dinheiro, do dólar, que fundamenta a economia, não aceitam perder dinheiro, a população é manipulada e os governantes não a respeitam e não falam a verdade, porque não sabem ou não querem, e como a China não tem pressa e continuará crescendo em poder e população, com as respectivas necessidades materiais, a guerra é inevitável, mesmo porque o povo também não aceita “perder direitos” e não concorda em pagar mais caro pelos produtos que consome e para ter qualidade e sustentabilidade de vida, do que são exemplos as questões ligadas aos combustíveis fósseis e à previdência pública.

Assim, a guerra bélica ocorrerá não porque EUA, China e Rússia entrarão em conflito armado direto, mas porque a ela serão arrastados, e para continuar e solucionar o problema teórico não resolvido pela primeira guerra, incluídas as questões financeiras mundiais e as alianças econômicas e militares das nações.

A primeira guerra começou por um detalhe, em um conflito já conflagrado previamente em termos políticos e ideológicos, e seria, do lado que se sagrou vencedor, a guerra para acabar com todas as guerras. Atualmente, a mentalidade universal ainda não está presente nas nações imperiais, e a Europa, como um todo, a antiga potência, que já decaiu, tem papel secundário na guerra em curso, porque seus interesses econômicos e ideológicos estão no meio do conflito.

Não se pode esquecer, ainda, a “guerra santa” islâmica, que também representa o Islã de universalidade parcial, que pretende se impor como razão soberana, o que ganha importância no cenário planetário a partir das divergências entre Irã, Israel e Arábia Saudita.

O predomínio de uma ideia não universal é provisório, porque a exploração é possível apenas por um período de tempo, até que a paciência, os recursos ou ambos se esgotem, dando início ao confronto físico.

A China consegue manter sua enorme população sob controle, com pouca liberdade, enquanto há prosperidade econômica, que está sendo reduzida. O ciclo de crescimento dos EUA também está perto do fim, sendo prevista para breve uma recessão de proporções ainda desconhecidas.

Como efeito direto dos problemas econômicos surgem as questões sociais ligadas às mudanças climáticas, pois se, de um lado, é possível e provável que humanidade tenha contribuído para tanto, de outro lado, é inegável que as adequadas políticas públicas, com os custos econômicos respectivos, para todos, ricos e pobres, poderiam, se não neutralizar, minorar em muito os danos humanos decorrentes das catástrofes naturais.

Contudo, ainda prevalece uma situação de exploração da maioria por uma minoria, o que inclui a minoria LGBT, que pretende impor sua visão anormal de mundo a todos, contrária à natural geração da vida, provocando uma degeneração da vida social com seu entendimento materialista ou equivocado da realidade, que não é universal, mas particular e também insustentável. Essas minorias não possuem os arquétipos psíquicos e/ou biológicos para criar filhos adequadamente, pois sua estrutura psíquica e/ou biológica é deficiente, significando uma anomalia, uma possível exceção, que não pode ser considerada regra ou norma universal, sendo um pensamento parcial e, portanto, irracional.

Os fundamentos da vida contemporânea, outrossim, mostram-se insustentáveis, sendo necessário reformar nossa casa comum, estruturalmente, em termos ideológicos, comportamentais e institucionais. Um prédio que está com seus fundamentos abalados, comprometidos, deve ser restaurado, sob pena de ruína da construção, com as perdas que lhe são inerentes. Para que seja possível fazer uma obra em casa habitada, há necessidade de grande acomodação de seus ocupantes, com os desconfortos que permitem a ação dos operários.

Todavia, uma vez que ninguém quer pagar a conta de uma vida sadia, de uma sociedade universal, tudo indica que será necessário que, mais uma vez, a civilização seja arruinada, para que, então, somente depois de grande destruição e de encerradas todas as guerras, as ideias verdadeiramente universais, católicas, prevaleçam, de modo que todos sejam submissos ao Logos, sejam islâmicos, respeitando os direitos humanos, com a humanidade governada por Cristo, por seus apóstolos, encarnando o Logos, em termos ideológicos, comportamentais e institucionais, no Reino de Deus.