Em Comunhão com Deus

“Em Comunhão com Deus” é um livro de Huberto Rohden, brasileiro que viveu entre 1893 e 1981, estudioso da espiritualidade, cuja obra infelizmente é muito pouco divulgada no Brasil.

No prólogo à edição brasileira de “Bíblia e psique: simbolismo da Individuação no Antigo Testamento” (Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Edições Paulinas, 1990, pp. 11-17), livro de Edward F. Edinger, este que foi um dos principais discípulos de Carl Jung, Huberto Rohden é colocado ao lado de Teilhard de Chardin e Carl Jung como um dos grandes pensadores na busca da “redescoberta de nossa fundamental unidade e irrepetível originalidade”, o que representa o reconhecimento da grandeza de sua obra.

Huberto Rohden foi ordenado padre católico em 1920, deixando a ordem eclesiástica em 1945, depois de ter seus livros condenados por Carta Circular dos Bispos de São Paulo (https://pebesen.wordpress.com/padres-da-igreja-catolica-em-santa-catarina/padre-huberto-rohden-um-longo-caminho/). Depois de Giordano Bruno e Galileu Galilei, todo aquele que teve sua obra condenada pela Igreja deveria ter alguma atenção dos interessados na verdade científica.

Pela editora Martins Claret, Rohden foi responsável pela tradução do “Tao Te Ching”, do “Bhagavad Gita” e do “Evangelho de Tomé” e pelas respectivas notas e comentários, sendo autor profundamente comprometido com a busca espiritual, tendo estudado na Áustria, na Holanda, na Itália, formando-se em Ciências, Filosofia e Teologia, sem contar as inúmeras viagens de estudo pelo mundo, incluindo Estados Unidos, Palestina, Egito, Índia e Nepal.

Em homenagem ao trabalho de Rohden, assim, o presente artigo consistirá em algumas citações do livro “Em comunhão com Deus”, de Huberto Rohden, da Editora Martins Claret, São Paulo, edição de 2008, com alguns comentários meus pertinentes às passagens colacionadas.

A espontânea e permanente comunhão do homem com Deus é o termo final da nossa jornada evolutiva, a mais alta perfeição do ser humano considerado em sua plenitude. Representa a mais profunda felicidade da nossa vida, uma beatitude firme, silenciosa, anônima, de que não fazem ideia os que não a experimentaram pessoalmente. Os únicos homens realmente felizes, através de todos os séculos e milênios, foram os que tinham realizado esse supremo destino de sua vida” (p. 17).

Ainda que Rohden tenha deixado o apostolado católico, a influência Cristã permaneceu em sua vida, tendo ele mantido a posição de destaque de Jesus, o Cristo, em seus escritos, sendo a passagem acima uma clara indicação da força do Cristianismo original em sua obra, indicando a necessidade da busca da comunhão ou unidade com Deus, a exemplo de Jesus, o Cristo.

Depois de dizer que nossa evolução histórica passa pelo mundo dos “sentidos”, mediado pelo reino da “inteligência” em direção ao universo do “espírito”, e sustentar que este último é o mundo da autêntica realidade, na medida em que é o espírito que causa a matéria, afirma que:

a causa – e, neste caso, a Causa Primária, Eterna, Absoluta, que as religiões chamam Deus – é infinitamente mais real do que qualquer um de seus efeitos, ou mesmo a soma total dos efeitos por ela produzidos.

Objetivamente’ considerado, isto é, em si mesmo, é o mundo do espírito incomparavelmente mais real do que o da matéria – embora ‘subjetivamente’, isto é, segundo o nosso modo de conhecer, parece o mundo material muito mais real do que o mundo do espírito. A verdadeira evolução do homem consiste em tornar o mundo do espírito subjetivamente tão real como ele é real objetivamente” (p. 18).

Desta passagem podem ser constatadas influências de Aristóteles e seu primeiro motor e a substância eterna e independente das coisas sensíveis, por um lado, e de Hegel, de outro lado, ao sustentar que apenas o que é racional é real, de modo que apesar da simplicidade e aparente ingenuidade do texto, nele está presente uma profundidade metafísica e filosófica que escapa ao leitor menos atento.

Rodhen destaca que o principiante da jornada rumo à realidade espiritual, o semi-espiritualizado, pode chegar a ter antipatia por tudo o que é material, tendo ímpetos de maldizer o mundo material alegando que este foi criado por um satanás ou anti-Deus e pensando que não deve se ocupar com as coisas materiais. Contudo, no desenvolvimento da caminhada espiritual, deve adquirir uma visão mais adequada e completa da realidade.

A sua filosofia estreita e unilateral culmina numa visão vasta, panorâmica, onilateral, redimindo-o de todas as ignorâncias e erros. Chega a descobrir aos poucos que, como não existe um mundo sem Deus, assim também não existe um Deus sem o mundo – mas que o Deus do mundo está no mundo de Deus, e que cada átomo e astro deste mundo é uma revelação do Deus do mundo. Faz então a jubilosa descoberta de que cada coisa material, quando devidamente compreendida, pode servir de canal e veículo para conduzir o homem a Deus, do artefato ao Artífice, da obra ao Obreiro, do raio luminoso ao Foco da luz, das pequeninas ondas do rio ao Oceano imenso, donde essas águas vieram e para onde voltarão” (p. 19).

Rohden deve ser considerado um integrante da Teologia panenteísta, segundo a qual Deus está no mundo, é imanente ao mundo, mas não se confunde com o mundo, porque também o transcende. Sobre esse tema, o interessante vídeo “Christianity and Panentheism” (https://www.youtube.com/watch?v=_xki03G_TO4) sustenta a compatibilidade de um panenteísmo fraco com o Cristianismo.

Esse assunto é de importância fundamental, segundo penso, porque o Cristianismo ocidental assumiu um pensamento dualista, de dois mundos ou duas realidades, em razão de uma determinada leitura das Escrituras, que se afasta da ideia bíblica original e permite a vida esquizofrênica que temos, porque valores opostos e contraditórios são sustentados no mundo da vida, sem que as pessoas percebam a incongruência e insustentabilidade filosófica e racional dessa situação, notadamente no plano político. Isso é a principal causa do atual conflito entre esquerda e direita, em países de influência predominantemente Cristã, porque alguns dão ênfase à liberdade individual e outros à igualdade material, sem que cheguem a um denominador comum, seja por vaidade, ignorância ou egoísmo.

Daí a importância da caminhada espiritual, porque o homem plenamente espiritual:

esse homem aboliu definitivamente o egoísmo, em todas as suas formas, e por isso já não tem necessidade de olhar, vacilante e incerto, para trás e para todos os lados, com receio de que o bem que tenciona fazer à humanidade possa, talvez, redundar em detrimento de seus interesses pessoais. O egoísta não pode lançar-se corajosamente, de corpo e alma, ao oceano imenso do reino de Deus, às ondas bravias de uma causa comum, porque tem de calcular meticulosamente e especular sagazmente, a ver se este ou aquele serviço que vai prestar a seus semelhantes não venha a ser um desserviço para seus interesses individuais ou à política estreita de sua família ou grupo social. O homem espiritual, porém, está livre desses percalços paralisantes, uma vez que renunciou definitivamente a todo e qualquer interesse individual e se consagrou integralmente à grande causa da humanidade.

Do homem que algo espera do mundo nada pode o mundo esperar – mas do homem que nada espera do mundo tudo pode o mundo esperar” (p. 20).

Observando o universo político nacional e internacional, quão difícil é encontrar pessoas que realmente se lançam em favor de uma causa comum da humanidade, sem se preocupar com os interesses particulares e exclusivos de determinados grupos, interesses esses muitas vezes incompatíveis com a salubridade e com o equilíbrio social.

Daí o destaque para a atividade messiânica de Jesus, o Cristo, que exerceu exatamente essa função, dando o exemplo, sendo o Caminho para a melhor e mais perfeita realização da causa comum humana. Por isso o Reino de Deus é dependente dos Cristãos, daqueles que seguem o exemplo de Cristo, o pleno homem espiritual, porque “é só do homem realmente espiritual que o mundo pode esperar melhores dias” (p. 21), e qualquer um que pense com um pouco de honestidade intelectual não hesitará em concordar plenamente com isso.

O Reino de Deus, contudo, não é algo que seja de fácil conquista, não basta a recitação formal da Lei, é preciso esforço para seu cumprimento integral na atividade diária, para alcançar a gloriosa liberdade dos filhos de Deus: “A Lei e os Profetas até João! Daí em diante, é anunciada a Boa Nova do Reino de Deus, e todos se esforçam para entrar nele, com violência” (Lc 16, 16).

Como disse Huberto Rohden:

Essa gloriosa liberdade, porém, não é um presente de berço que o homem receba gratuitamente, mas é uma esplêndida conquista, o triunfo máximo de uma vida consagrada à verdade redentora.

Conhecereis a verdade – e a verdade vos libertará’ (Jesus, o Cristo).

Ora, sendo Deus a verdade eterna e a suprema liberdade, é só pela íntima união com ele que o homem consegue essa verdade libertadora, que é a quintessência da vida espiritual e dinâmica” (p. 21).

E isso é só o Prefácio, que se inicia com a primeira citação acima, de página 17, e se encerra com as últimas palavras transcritas.

Homem: um ente simbólico

Aristóteles define o homem como um animal político, zoon politikon.

Contudo, antes de ser político, o homem é um ente simbólico, é um ser espiritual, pois vive no mundo qualificado por ideias e sentidos.

A humanidade, destarte, está inserida em um ambiente de significados, que podem ser carnais e/ou espirituais, sendo o materialismo a filosofia que descarta a existência de significação espiritual ou transcendente, e para a qual os únicos sentidos válidos são os 05 (cinco) sensoriais.

O idealismo, por sua vez, entende que o espírito ou ideia dá significado às coisas, até mesmo aos sentidos ou sensações carnais, condicionando a ação na carne, segundo uma racionalidade pela qual os fenômenos do mundo são organizados simbolicamente, racionalidade que não é exclusivamente carnal, transcendendo os cinco sentidos.

A diferença entre o materialismo e o idealismo está no fato de que o primeiro coloca no centro da experiência simbólica, que condiciona o entendimento do mundo, as sensações carnais: tato, olfato, paladar, visão e audição; enquanto para o idealismo existe uma unidade inteligente espiritual além desses sentidos, da qual se origina a experiência simbólica, moldando o significado dos fenômenos existenciais. O materialismo tem um simbolismo de baixo para cima, da parte para o todo, que, quando existe, é acidental e aleatório; já o idealismo estabelece seus sentidos de cima para baixo, possuindo um todo significativo, o simbolismo de uma totalidade necessária, da qual são derivados os sentidos das partes.

A política, nesse sentido, já é o desenvolvimento de símbolos sociais, porque também as sociedades animais têm organização política, ainda que instintiva e rudimentar, podendo serem citados como exemplos as abelhas, as formigas, os leões e mesmo os primatas.

O que diferencia o homem dos animais é a possibilidade de escolha simbólica/espiritual sobre como serão organizados os símbolos com base nos quais a sociedade terá seu funcionamento, enquanto a sociedade animal tem um funcionamento principalmente biológico, enquanto instintivamente condicionado.

Por isso, a biologia animal determina o líder do grupo valendo-se de sinais, como símbolos físicos, seja por meio da condição genética, pela força ou por exibição de determinado comportamento, para determinar o vencedor dentro da sociedade animal, até que em novo ciclo um membro mais jovem ocupe o lugar de liderança. O poder social, seja entre os animais ou entre os humanos, é exercido a partir de sinais ou símbolos que dão significados e valores a determinados membros do grupo e seus comportamentos, colocando-os em posição e função diferenciada na comunidade, de comando ou de obediência.

Desta feita, a organização social é simbólica mesmo entre os animais, pelo que, antes de ser político, o homem é um ente simbólico.

Os sinais se manifestam, são guiados, inicialmente, pelos sentidos corporais, como o som, através dos quais os membros do grupo se comunicam; o olfato e o paladar dos alimentos, que podem ser benéficos ou nocivos; a imagem das coisas, no que se inclui a quantidade de luz, que define o dia ou a noite; o contato corporal em relações afetivas, inclusive para reprodução. Todos são sinais, ou informações, processados pelos organismos, dando sentido aos comportamentos, em uma direção específica ou outra, de uma lógica mais simples até uma mais complexa.

Entender a lógica desses sinais é fundamental para a compreensão da vida, pesquisa desenvolvida pela ciência, com destaque para a psicologia. No curso da vida, assim, foram sendo desenvolvidas formas de organizações mentais dos sinais, passadas de geração em geração, o que Jung denominou arquétipos do inconsciente coletivo, que são espécies de instintos transindividuais, possivelmente adquiridos no curso da evolução, que se unem aos sinais corporais para regular o comportamento dos indivíduos. Ressalte-se que o conhecimento contemporâneo sobre o funcionamento do inconsciente coletivo, e da sua simbologia mais profunda, é ainda incipiente, porque predomina na psicologia a proposta materialista e individualista de Freud.

Os homens têm, ainda, a capacidade de produzir sinais, os quais tornaram gradativamente mais complexa a simbologia humana, abrangendo relações sutis que vão além da capacidade animal de compreensão, criando uma teia intrincada de relações de sentidos que dificultam o entendimento dos fenômenos até mesmo pelos indivíduos humanos, o que vale também para o ambiente político, que está inserido em um contexto mais amplo de símbolos. Cristo representa, nesse sentido, um símbolo de totalidade, como destacado na obra de Jung “Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo”.

Na teoria política, segundo o marxismo, explicando o funcionamento da vida humana, os valores econômicos estão na base dos símbolos sociais, sendo as relações de produção a infraestrutura sobre a qual são construídas as relações sociais, da superestrutura, onde está situada a política. No materialismo, assim, a simbologia econômica é fundamental e determinante para o significado geral do mundo.

Ainda que a produção de bens seja de grande relevância, os símbolos econômicos que permitem as trocas e estabelecem os preços das mercadorias são dependentes da ligação psíquica ou espiritual dos indivíduos frente aos significados mais essenciais da vida, escolhidos ou eleitos pelos membros do grupo social, que podem dar prioridade aos bens materiais ou aos espirituais.

Desta feita, contrariamente ao marxismo, o Cristianismo é a filosofia ou religião segundo a qual o valor máximo é o Espírito, o Logos, a Inteligência:

Não busqueis o que comer ou beber; e não vos inquieteis! Pois são os gentios deste mundo que estão à procura de tudo isso: vosso Pai sabe que tendes necessidade disso. Pelo contrário, buscai o seu Reino, e essas coisas vos serão acrescentadas. Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino!” (Lc 12, 29-32).

Assim, na simbologia Cristã os bens materiais são necessários para o desenvolvimento humano, mas a preferência é pela conquista do Reino, uma realidade que está além da mera satisfação corporal e do consumo imediato.

No Cristianismo, a unidade simbólica do mundo, ligada à construção arquetípica da psique humana, está presente na mente coletiva, uma mente que transcende as individuais, não está presente nos genes ou no cérebro, e age no espírito dos indivíduos por meio da espécie que integram. Existe, outrossim, uma alma coletiva à qual os indivíduos pertencem e têm acesso, não estando dentro de seus corpos individuais, mas à qual se conectam espiritual e simbolicamente, por uma rede de significados que permanece no ambiente social a despeito da morte dos membros do grupo, o que filosoficamente é conhecido como Tradição.

A Religião, desta feita, é uma forma de manutenção do significado da Tradição, que no mundo ocidental é presentada pelo Monoteísmo, especialmente pelo Livro transmitido por milênios, de geração em geração, para preservação daquela unidade simbólica do mundo que, de outro lado, é igualmente buscada pela Filosofia e pela Ciência.

A Escritura significa um processo histórico de desenvolvimento e realização da Ideia, da Lei Perfeita, do Logos, na humanidade, sempre com um significado político subjacente, do Reino prometido inicialmente a Abraão, renovando-se a promessa com Moisés, depois com Davi, indicando a paz entre as nações submetidas ao Deus Altíssimo.

Destarte, o Cristianismo é culminação dessa Ideia, porque o Messias, ou Cristo, está associado ao nome de Davi, como Rei de Israel, mesmo que sua concretização histórica ainda esteja em curso, pelo desenvolvimento teórico, filosófico e científico da simbologia da totalidade existencial realizada por Jesus no Monoteísmo.

O Livro é, ao mesmo tempo, a Palavra de Deus, a História sagrada, que tem seu ápice em Jesus, o qual inaugura uma nova e definitiva simbologia religiosa, e científica, tão complexa e sutil que passados cerca de dois mil anos ainda não teve seu sentido compreendido plenamente, notadamente quanto ao significado do Reino, a despeito de a maior parte da filosofia ocidental ter sido desenvolvida tendo como pano de fundo e fundamento a cosmovisão Cristã e seus princípios racionais.

O Reino é a mensagem principal, é o centro do Evangelho, Boa Nova da aproximação e realização da obra de Deus na humanidade, em sua plenitude, a partir de Jesus Cristo, em quem o cumprimento das promessas, da Ideia, se consuma e tem início, obra na qual a comunidade política tem valores verdadeiramente humanos e racionais, lógicos, o Logos, no qual o significado de humanidade, o símbolo da perfeição existencial, alcança um outro nível categorial, em salto qualitativo sem igual, ao transformar os governantes em servos dos governados, o que ainda não se conseguiu colocar em prática nas políticas nacionais e internacional.

Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10, 41-45).

Importante salientar o contexto simbólico dessa passagem, relativo ao Reino de Deus, ao governo do Messias, o maior governante ou líder político que o mundo jamais viu ou verá, e sobre quem estaria com ele no comando, à sua direita e à sua esquerda, o que demonstra o quão avançada e revolucionária, além de racional, é a proposta Cristã, de encarnação do Logos.

Deus era a Palavra, o Verbo, a unidade perfeita em ação, que estava no princípio. Depois unidade em Ideia, em Palavra, que se apresentou à humanidade, na mente, nas palavras e na vida dos profetas, nas Escrituras, que se realizaram em Jesus, dando este plenitude à Lei, à Palavra, em sua vida. Assim, a Palavra, o Verbo, a Escritura se cumpriu completamente em Jesus, fez-se carne e habitou na humanidade, individualmente, como modelo a ser seguido pela coletividade.

A simbologia Cristã é do cumprimento da Lei, da realização da Justiça, porque Jesus, o Messias, é justo integralmente, como Rei e Sacerdote, o que possui significado político e religioso. Cumprir a Lei significa encarnar o Logos, a Palavra, a Unidade simbólica e real, de modo que encarnar o Verbo é agir com Justiça, como Deus é Justo e Completo.

Unidade e matemática

Ainda sobre a dúvida quanto à origem da matemática e seu fundamento, tal problema, como sustentando anteriormente, é decorrente da perda da percepção da unidade existencial primordial, da qual é originado o conhecimento intelectual, inclusive o matemático, a partir de procedimentos de divisão psíquica, sensorial e racional, como momentos de abstração da unicidade do Ser.

Já o conhecimento sensorial decorre da divisão neurológica entre partes do corpo, como mão, boca e pé, por exemplo, entre o corpo e o ambiente e do próprio mundo sensível em si, por meio dos entes exteriores, sendo exemplo as faixas do espectro luminoso, divisão que é representada pela significação própria das partes separadamente e dos todos a que pertencem, por imagens mentais e símbolos, devendo ser reconhecido que o conhecimento intelectual é produzido a partir de símbolos, que se transformaram em palavras, e em linguagens analíticas, do que é exemplo a matemática, esta uma forma de linguagem objetiva, isto é, cujos símbolos têm um significado unívoco dentro do sistema a que pertencem, ao contrário das palavras usadas no mundo da vida, que podem receber sentidos divergentes, como o metafórico e o alegórico.

Os números e expressões matemáticas são, assim, sinais utilizados para representar uma unidade que os transcende, da qual foram extraídos por abstração mental. Ainda que esses símbolos em seu conjunto apenas apontem para uma realidade existencial, com a qual não se confundem, isso não significa que não tenhamos acesso cognitivo à unidade do mundo, ao númeno, contrariamente ao que sustenta o positivismo baseado na proposta filosófica de Kant.

Nesse ponto, depois do último artigo, aceitei uma sugestão do algorítimo do YouTube, assistindo a uma exposição de Ray Monk sobre a Filosofia da Matemática (Intro to the Philosophy of Mathematics – https://www.youtube.com/watch?v=bqGXdh6zb2k). No vídeo são abordados, em resumo essencial, dois mil e quinhentos anos da história da matemática, dos gregos antigos até Bertrand Russell e Wittgenstein, passando por Kant, transitando entre matemática e filosofia, a partir do conceito pressuposto de logos, de uma lógica.

O que fica claro nessas abordagens é o silêncio eloquente quanto à ideia semítica do Logos, a partir do Evangelho atribuído a João, segundo o qual o Logos estava no princípio e se encarnou em Jesus Cristo, isso cerca de quatrocentos anos após o auge grego, sintetizando o Evangelho conceitos do mundo greco-romano com a filosofia monoteísta, na medida em que a mundividência da palestina estava impregnada da cosmovisão grega, após a helenização proporcionada por Alexandre Magno. Desta feita, a ideia grega de logos estava pressuposta na elaboração do Evangelho, tendo recebido um novo significado, na Teologia monoteísta.

Em que pese a precedência da Teologia sobre os demais ramos do conhecimento, tal síntese joanina logo foi mal interpretada, na construção de uma ideia politeísta com pretensão monoteísta, a trindade, a que se somou o dualismo platônico presente em Agostinho, Descartes e Kant, todos com uma visão de mundo subjacente declarada e essencialmente Cristã, a qual, de outro lado, é monoteísta e monista. Desta feita, em razão da falha teológica inerente à trindade e ao dualismo que dominou a filosofia ocidental após Agostinho de Hipona, com uma teologia pseudomonoteísta, porque, de fato, dualista, o mundo ainda não experimentou a plenitude da vida Cristã, ligada à unidade cósmica, à sua experimentação pela humanidade e ao conhecimento respectivo, no autêntico monismo e Monoteísmo de Cristo, que elevou à perfeição o de Moisés.

A unidade filosófica e científica, outrossim, foi rompida, para muitos nunca alcançada, e segundo Kant é impossível recuperá-la ou atingi-la, tendo sido o conhecimento humano transformado em ciência de meros limites do saber, em probabilidades matemáticas, como se não houvesse uma unidade infinita e real por trás desses limites ilusórios, criados por nossas mentes.

Mesmo que nosso conhecimento sensorial da realidade última seja sempre incompleto, a existência dessa realidade não deve ser esquecida na produção científica. É importante destacar que a filosofia de Kant tinha como escopo deixar no conhecimento científico um espaço intelectual reservado para Deus, o mundo numinoso, mas o desenvolvimento do positivismo levou à exclusão de Deus do âmbito científico, tornando o saber humano fragmentário e sem fundamento.

Nesse sentido, o formalismo da parte, o reducionismo, positivista e materialista, mostrou-se insuficiente para a compreensão dos fenômenos do mundo, urgindo seja substituído pelo formalismo do todo, da unidade, presente direta e indiretamente em todas as coisas.

É conhecimento bíblico antigo que Deus pode ser conhecido através da criação, das coisas criadas.

Os céus contam a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos” (Sl 19, 2).

Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lho revelou. Sua realidade invisível — seu eterno poder e sua divindade — tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não têm desculpa” (Rm 1, 19-20).

O acesso ao númeno, contudo, não é apenas formal, mas utiliza integradamente todas as formas de elaboração cognitiva que possuímos, relativas às quatro funções psicológicas fundamentais descritas por Jung, pensamento, sentimento, sensação e intuição.

Outrossim, nós temos algum conhecimento da coisa em si, do mundo numinoso, ainda que em parte, por nossa limitação psíquica e espiritual que tem reflexos nas funções cognitivas e sensoriais, pelo que o conhecimento completo, face a face, por ora, é relegado para outro momento existencial, dependente de uma evolução da espécie ao nível de Cristo. De todo modo, é fato que nós integramos a unidade cósmica, participamos da natureza divina.

Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’” (At 17, 28)

A filosofia dualista, portanto, como a de Kant, contraria a essência filosófica do monoteísmo e sua unidade existencial e impede que Sujeito e objeto se unam, não permite que Deus, a partir de sua criatura, possa dizer “Eu e o Pai somos um”, quando ocorre uma unidade ontológica entre corpo e Espírito, entre o sujeito e o objeto do conhecimento, a coisa em si, ainda que limitada quanto a determinados aspectos desta.

A unidade a priori do mundo é rompida com a divisão, efeito que também ocorre na matemática, e por isso todo sistema matemático é necessariamente incompleto, como demonstrado por Gödel. O teorema da incompletude de Gödel significa que todo corte matemático separa parte da realidade, deixando de lado a unidade infinita existencial a que pertencemos, que é una e incalculável. O corte, porque parcial, exige outra divisão para sua complementação e fundamentação, que demanda outra, sucessiva e infinitamente, em direção à unidade do Ser, pressuposta e intuída. A parte, por definição, não pode apreender o Todo do qual foi abstraída, e deve a ele remeter.

Como não se pode alcançar precisão matemática com números infinitos, a limitação se faz necessária, para permitir uma análise dos fenômenos, por meio da construção de categorias fundamentais que possibilitam o conhecimento, mas essas categorias devem ser entendidas como instrumentais que apontam para um objeto de estudo, que é a realidade una, da qual emergem simbolicamente, por meio de abstração mental, a matemática e a física, incluindo o reino o quântico e o espaço-tempo. Saliente-se que a unidade do espaço-tempo, em termos históricos, foi recentemente descoberta, representando a junção de categorias que antes se pensava serem fundamentais e distintas. O entrelaçamento quântico, de outro lado, indica uma unidade física ainda mais profunda que a do espaço-tempo, porque independente do espaço e do tempo.

Portanto, a realidade não tem natureza probabilística, como determinada interpretação da física sugere, sendo a incerteza mero efeito da limitação de nossa linguagem, existindo uma unidade real e infinita que transcende as frações e percentuais possíveis encontrados pela física matemática, que é apenas um instrumento de aproximação simbólica daquela realidade mais ampla, a qual não pode ser esquecida ou desprezada pela atividade científica.

Com a concepção da natureza instrumental e a posteriori das categorias científicas, o que também engloba a matemática, é possível retornar simbolicamente ao ponto do corte, que é o momento inicial de divisão da realidade e de estabelecimento das categorias com as quais serão compreendidos aspectos da unidade numênica, ponto que remete à unidade da realidade e determina metodologicamente a veracidade dos juízos sintéticos, tanto em sua relação lógica interna quanto em seu contato com a coisa em si.

O conhecimento científico, como desenvolvimento de uma concepção filosófica de mundo, portanto, e conforme conceito proposto por Olavo de Carvalho, está atrelado à “busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa” (http://www.olavodecarvalho.org/textos/quee.htm), o que significa formular juízos sintéticos a priori em que a linguagem, não somente a matemática, seja instrumento de realização da unidade existencial na realidade da vida, em termos psíquicos, sensoriais e intelectuais, na prática individual e social, efetivando a unicidade do Ser na Humanidade, segundo o Caminho, ou Método, Cristo, “a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21), o que, todavia, mesmo os filósofos ditos Cristãos muito dificilmente conseguem realizar.

Filosofia e matemática

Em dois dos últimos livros por mim lidos, sobre Filosofia, o encerramento tratou da relação entre Filosofia e matemática, uma vez que Carlos Augusto Casanova encerra a obra “Física e Realidade: reflexões metafísicas sobre a ciência natural” com dois apêndices: “Sobre a realidade das matemáticas” e “Notas matemáticas acerca de Hilbert e seus estudos sobre as geometrias não-euclidianas e não arquimédicas”. Vittorio Hösle, por sua vez, em “Interpretar Platão”, igualmente, aborda a matemática nos dois últimos capítulos: “Sobre a filosofia platônica dos números e seu significado matemático e filosófico” e “Fundamentação platônica da euclidicidade da geometria”.

Hösle parte do princípio adotado por Casanova, dizendo este que a matemática não pode ser considerada a primeira das ciências, como exposto no artigo “Hierarquia das Ciências” (https://holonomia.com/2019/02/06/hierarquia-das-ciencias/):

Casanova, todavia, acertadamente, rejeita a ideia segundo a qual a matemática seria a primeira das ciências, aludindo à Metafísica de Aristóteles para aduzir que a matemática supõe axiomas primeiros, que não são por ela estudados, declarando que a física é subordinada à matemática que, por sua vez, é subordinada à metafísica, porque é esta última que tem como objeto o princípio de não-contradição, pressuposto tanto pela física como pela matemática, das quais não é alvo de estudo.

Ora, uma disciplina que supõe o axioma fundamental, que não o considera, não pode ser tida como a primeira de todas. Mas é óbvio que a disciplina que em sua etapa ‘demonstrativa’ (não somente ‘inventiva’) considera o princípio de não-contradição é a metafísica. Somente ela, portanto, possui o título para reclamar a primazia entre as ciências’ (Idem, p. 53 – negrito meu).”

Vittorio Hösle destaca Platão como o primeiro a reconhecer que a matemática não pode ser fundamentada a partir de si mesma “na medida em que o critério de consistência formal permite a formação de sistemas opostos”, do que decorre “a deficiência, por princípio, de qualquer forma de filosofia que tome por modelo o método matemático”, exigindo-se um método mais consistente que a matemática para que se possa chegar à verdade possível, o que depende de um fundamento iniludível que é, segundo Platão, “o pensamento do pensamento, que se fundamenta reflexivamente, em última instância, pois se fundamenta a si mesmo, no pensamento dos princípios e da mais altas Ideias” (Vittorio Hösle. Interpretar Platão. Trad. Antonio Celiomar Pinto de Lima. São Paulo, SP: Edições Loyola, 2008, p. 163).

Hösle esclarece a divergência filosófica entre Platão e Aristóteles no estabelecimento de uma ordem para as ciências, porque o primeiro entendia que a hierarquia tinha a metafísica no topo das ciências, seguida pela matemática e depois pela física; enquanto o segundo ordenava o conhecimento partindo da metafísica, sucedida pela física, estando a matemática em terceiro lugar na importância científica. Salienta, por fim, que “com essa subordinação da matemática à física está dada, obviamente, uma opção pela geometria; afinal, são corpos e grandezas, não números, que, enquanto movidos, são objeto da física” (Idem, p. 173).

É possível entender que os dois grandes nomes da filosofia grega tinham abordagens distintas da natureza, pois Platão desenvolveu a doutrina das ideias, tentando explicar o Ser em sua concepção permanente, que transcende as aparências corporais, enquanto o foco de Aristóteles estava no movimento de transformação do Ser, tendo estudado as causas que levam o Ser de um estado a outro.

Vale salientar que o platonismo é uma filosofia dualista, dizendo Hösle que Platão chegou a essa dualidade, na matemática, depois que “um Uno totalmente transcendente se revelou impossível” (Idem, p. 175), ressaltando que a hierarquia platônica do Ser, de modo simplificado, “se constitui de princípios, Ideias, entidades matemáticas e mundo natural” (Idem, p. 179).

Aristóteles, contudo, não aceitou a existência independente de substâncias matemáticas, dizendo que, “em geral, resultam conclusões que são contrárias tanto à verdade quanto às opiniões habitualmente aceitas se postularmos assim os objetos das matemáticas como coisas que existem separadamente” (Aristóteles. Metafísica. Trad. Edson Bini. 2 ed. São Paulo: EDIPRO, 2012, p. 324). E conclui no sentido de que “(1) os objetos das matemáticas não são mais substanciais do que os objetos corpóreos, que (2) não são anteriores, do ponto de vista do ser, às coisas sensíveis, mas apenas do ponto de vista da fórmula, e que (3) não podem, de modo algum, ter existência independente” (Idem, p. 325).

É notável, pois, a divergência metafísica, quiçá teológica, entre Platão e Aristóteles, decorrendo daí uma concepção diferente quanto à natureza e à função da matemática. Entendo que essas posições antagônicas têm origem na forma pela qual dois dividem ou cortam a realidade, a partir de um primeiro princípio.

Platão via o mundo filosoficamente de forma dual, o mundo das ideias e o mundo da natureza, e dessa visão decorria o seu entendimento sobre todas as coisas. Em sentido oposto ao defendido por Platão, podemos compreender a realidade como uma unidade integral, que não pode ser conhecida racionalmente sem uma análise ou divisão de sua manifestação, o que dissolve provisoriamente aquela unidade original.

Pode-se, portanto, concordar com Aristóteles no sentido de que a matemática não tem existência independente, resultando de uma ação humana sobre a realidade, a ação de separar ou dividir o mundo em fenômenos, sendo que talvez exista, de fato, aquele Uno totalmente transcendente que fora descartado por Platão.

Assim, ao invés de adotar uma metafísica dualista, como a de Platão, podemos pressupor uma metafísica monista, entendendo o universo como uma totalidade da qual separamos coisas e fenômenos para fins de conhecimento do movimento cósmico, que tem origem no primeiro motor, que tudo move sem se mover. Como destacado por Aristóteles, “há uma substância que é eterna, imóvel e independente das coisas sensíveis, tendo sido também mostrado que essa substância não pode apresentar qualquer magnitude, mas que é sem partes e indivisível, pois produz movimento num tempo infinito, e nada finito possui uma potência infinita” (Metafísica, obra citada, p. 309).

Parte-se, portanto, de uma realidade única e infinita, ideia resgatada por David Bohm, dizendo que o objeto da Física é uma totalidade indivisível, o holomovimento do qual são abstraídos determinados aspectos para fins de estudos, e “qualquer parte, elemento ou aspecto que possamos abstrair no pensamento, isso continua a envolver o todo e está, portanto, intrinsecamente relacionado com a totalidade da qual foi abstraído. Consequentemente, a totalidade permeia tudo o que está sendo discutido desde o início” (David Bohm. Totalidade e a ordem implicada. Tradução Teodoro Lorente. São Paulo: Madras, 2008, p. 179).

Tal conclusão vale também para a matemática que é, assim, o resultado da atividade criativa humana de dividir a realidade, pelo que a operação matemática fundamental pode ser considerada a divisão, qualitativa ou quantitativa, distinguindo entre o “eu” e o “outro” e o “eu” e as “coisas”, entre coisas e fenômenos semelhantes e distintos, e entre unidades espirituais e corpóreas, abstraídas da totalidade do Ser.

Vittorio Hösle afirma que as mais importantes posições da filosofia da matemática do século XX são o intuicionismo, o logicismo e o formalismo. O formalismo busca uma completa autonomia para a matemática, entendendo que a consistência é suficiente como um critério de verdade da ciência matemática. O logicismo, por sua vez, fundamenta a matemática na lógica, com a qual se confunde. Dentro da linha intuicionista, Hösle destaca Brouwer, que rejeita a “ontologização de entidades matemáticas”, para quem estas “são produzidas através de um ato psíquico de consciência com o qual tendencialmente são até mesmo identificadas”, vendo Brouwer a matemática como um fenômeno histórico a serviço da vida (Obra citada, pp. 208-209).

Ocorre, destarte, na produção do conhecimento intelectual, uma separação psíquica e/ou uma separação material nos fenômenos do mundo, como abstrações da realidade única, sendo que a matemática é, pois, resultado da divisão dessa unicidade fundamental do mundo. A unidade é a realidade básica, e todo conhecimento, matemático ou não, decorre da operação mental primordial que é a divisão, a divisão criativa que parte o mundo espiritual e material em unidades iguais, ou não, que, por sua vez, podem ser também divididas, em proporções variadas.

O corte da realidade pode ser feito com ou sem perda de substância. Há perda de substância quando o resultado da divisão é propriamente uma divisão, em que as partes são dependentes do todo para que pertençam a uma unidade, como ocorre na divisão material e corporal das coisas, desdobrando seus acidentes. Também é possível a manutenção da unidade primordial após a operação, que significará, de fato, uma multiplicação, quando não há perda de substância durante a divisão, o que se dá, por exemplo, quando Deus divide conosco seu Espírito, fazendo de nós integrantes do primeiro motor, em nossa essência imóvel, talvez sendo esse o fundamento da geração dos números, a partir da dualidade, em Platão, ou da multiplicação bíblica dos pães, ou da criação de espaço por meio da energia escura.

Além disso, a partição pode ser em retas ou curvas, pode ser euclidiana ou não, no que se inclui a quebra fractal, havendo inúmeros sistemas matemáticos decorrentes de princípios ou cortes distintos pelos quais parte da realidade una pode ser abstraída ou destacada do todo o qual integra e de cuja existência é dependente, porque a totalidade permeia tudo o que está sendo discutido desde o início. Nesse ponto, como já salientado, todo sistema matemático é condicionado pela Metafísica, que determina como se dá aquele corte, sendo que o sistema matemático em si será sempre circular, incapaz de fundamentar-se a si mesmo, como ressaltado.

A unidade primária é inconsciente e imemorial, como visto no artigo anterior, já surgindo a consciência como um estado de separação inicial, o que permitiu a formação das ciências arcaicas, que se desenvolveram em conhecimentos mais recentes, incluindo os dos filósofos gregos, que já pressupunham, por sua vez, uma divisão mental realizada pelos pioneiros da atividade científica a partir da criação dos mitos, e disso decorre a dificuldade em se entender que a unidade é o estado básico da realidade e que nosso conhecimento já se desenvolveu a partir de uma divisão que está implícita na forma pela qual estudamos os fenômenos.

Essa ideia da unidade básica do mundo é compatível com a cosmovisão da religião monoteísta, segundo a qual apenas Deus é real, em sua unidade completa, eterna, total, sem magnitude, sem partes e indivisível. A divisão dessa realidade pela humanidade, o rompimento com Deus, sem o retorno àquela unidade essencial, é conhecida na literatura Cristã como pecado original, que foi superado por Jesus.

Qualquer corte da realidade una, portanto, é arbitrário e provisório, é uma abstração que deve ser reconhecida como tal, e não pode permanecer, sendo função da Filosofia e da Religião, assim, o que também vale para a Matemática, a manutenção ou recuperação da Unidade do Ser em sua totalidade, rompida por uma divisão, que, por sua vez, decorre de uma escolha Teológica ou Metafísica, para que, então, prevaleça a racionalidade daquele Ser Uno, de modo que a humanidade em sua unidade pensante possa compreender, na existência, intelectual e sensível, superando todas as divisões e abstrações artificiais criadas pela mente humana, o significado autêntico da expressão “eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30).

Alma e física

No artigo anterior foram expostas três hipóteses básicas quanto à natureza da alma: a materialista, pela qual a alma é fruto de criação da mente humana ociosa, um epifenômeno da atividade cerebral; a dualista, que entende a alma como distinta do corpo, imaterial e imortal, separando-se do corpo após a morte; e a monoteísta, que concebe a alma como uma integralidade que inclui a realidade física da pessoa, o corpo e os sentimentos.

No presente texto são desenvolvidos argumentos sobre os aspectos materiais e físicos da alma, adequados à visão Cristã, segundo a qual “Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Ainda que haja dúvidas sobre a autoria da Carta aos Efésios, seu conteúdo é compatível com o Evangelho de Jesus Cristo, fazendo parte do cânon amplamente aceito do Novo Testamento, pelo que pode ser assumido como correto o conceito teológico acima, indicando que há um só Corpo e um só Espírito, ideia corroborada pela física moderna, conforme a qual todos os corpos estão interconectados por campos infinitos que interferem em entre si, havendo, pois, um só Corpo, que Einstein chamaria de contínuo espaço-tempo. A existência de um só Espírito, de sua vez, por ora, é uma inferência lógica, uma pressuposição científica, na medida em que a compreensão do mundo, e de todos os seus diversos fenômenos, e a comunicação humana, por exemplo, indicam haver uma Inteligência unitária pela qual os fenômenos espirituais são produzidos e podem ser captados em sua interconexão mais profunda, uma espécie de tradutor lógico universal que aponta para uma unidade sutil que tudo inclui, o Logos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos.

Aristóteles estabeleceu a necessidade de uma causa primeira, o motor imóvel que tudo move, para que seja possível a compreensão filosófica do mundo e seu movimento. A alma, porque ligada ao Espírito, integra a causa primeira, manifestando-a no tempo, é nossa presença na causa primeira, conectando-nos ao começo de tudo.

A alma, portanto, liga-se ao Espírito: “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus? … e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos?” (1 Cor 6, 19).

A criação das almas antecede o tempo, no aspecto da alma que está unido ao Espírito, e ocorre no tempo, quando se forma em um corpo físico na existência humana, dentro na História do Universo.

Desta feita, Deus nos cedeu parte de Seu Espírito indivisível, para que vivamos, e esse momento, de criação das almas, é atemporal, e talvez signifique o próprio princípio do tempo, o salto quântico inicial pelo qual o universo e o tempo foram formados, quando todas as almas interagiram no Espírito, com livre-arbítrio, determinando suas naturezas, e seus destinos, na existência. Por isso, já existimos desde antes do mundo.

Nele (em Cristo) Ele (Deus) nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1, 4).

Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo” (Mt 25, 34).

Pode-se dizer que, em uma análise regressiva do tempo, há um salto quântico para a unidade de tudo, a singularidade, quando não havia espaço ou tempo e todas as almas e todos os corpos estavam unidos entre si em um único ponto, no Espírito. Na contagem retroativa do tempo, a matéria se torna sutil dando saltos quânticos até chegar à unidade infinita, imaterial, atemporal e aespacial, segundo nossos conceitos científicos de matéria, tempo e espaço.

A criação é, portanto, o momento em que a unidade se transforma em diversidade, o uno se torna múltiplo, quando a causa primeira, o motor imóvel, sem se mover, sem perder sua Unidade, dá início ao movimento. A alma está no movimento, e antes do movimento, simultaneamente. Antes do tempo, a alma escolhe seu movimento essencial, sua natureza, e por isso é permitido afirmar, como medida de justiça, que os eleitos escolhem ser escolhidos, sendo a Justiça e a Perfeição alguns dos atributos de Deus

A Unidade primordial é imemorial, porque anterior ao tempo, no qual são formadas as memórias, mas é acessível à alma de uma forma em que as noções de tempo, espaço e individualidade são ofuscadas, de modo que essa unidade é, como regra, inconsciente. Essa unidade é associada à dissolução do eu nas religiões orientais. De outro lado, há a Unidade memorial, que é o julgamento final das religiões monoteístas, quando todos os movimentos são lembrados desde o início do tempo, no Espírito, cuja comunhão ou unidade será trazida à consciência das almas, sendo mantidas suas individualidades, segundo a qualidade de seus movimentos e conforme os respectivos conhecimentos potenciais e razoáveis daquela Unidade.

Se é possível à humanidade compreender a união física entre duas partículas quanticamente entrelaçadas, o que faz dos movimentos dessas partículas espacialmente separadas um único movimento físico que determina a posição de ambas, independentemente da distância entre elas, a mesma lógica vale para a situação das almas em relação ao Espírito, quando da medição final de seus movimentos.

Outrossim, a alma se posiciona simultaneamente no Ser e no estar, possuindo natureza permanente, que é, sempre foi e sempre será; mas encontra-se, enquanto encarnada, no devir; pelo que as relações com as outras almas ocorrem tanto na eternidade quanto no tempo.

A alma pode dizer “eu sou” porque estava presente na fundação do mundo, fundação na qual, pela unidade inerente ao Ser, decorrente do princípio da unidade do Ser (que é até mesmo conceitual), também se estabeleceu o futuro, o Reino de Deus, que significa a unidade consciente da humanidade.

A função da alma é, portanto, restabelecer conscientemente a unidade primordial, o Logos, que é sempre Uno, no tempo, mantendo a unidade no devir, conforme o Logos, unidade que no plano atemporal é determinada, pré-determinada pela escolha feita pela alma antes do tempo, pois possuidora do livre-arbítrio, ainda que no plano do devir essa unidade e essa escolha não estejam na consciência superficial e sejam de difícil elaboração e descoberta racional. A busca dessa unidade consciente é trabalho da Filosofia, da Ciência e da Religião, que representam momentos históricos do Espírito em busca da Verdade, até que a Unidade seja alcançada conjuntamente por tais abordagens cognitivas, e também na Política, o que representa o Reino de Deus.

Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 20-23).

Por isso, quando criadas as almas no Ser, seu devir já foi todo ele determinado, pelo movimento da alma dentro da unidade que se mantém, diante da relação necessária de completude na unidade do Ser.

A unidade inconsciente só se torna totalmente consciente quando a alma volta ao Ser depois de experimentar o seu pleno devir, na encarnação, que é o movimento completo do vivo na Vida, sendo possível atingir parte dessa consciência maior ainda em vida, antecipando, com fé e conhecimento, a vivência da Unidade do Ser.

A Unidade do Ser pressupõe um Sujeito fixo, que é o motor imóvel, o Espírito, Deus, ou Logos, que estava no Princípio. O conhecimento, igualmente, exige algo permanente, porque sem uma referência estável o conhecimento seria impossível, na medida em que nossas opiniões e sensações mudariam o tempo todo, não permitindo a fundamentação científica.

A Verdade pressupõe e exige um Sujeito eterno que compare os movimentos, relacionando-os entre si, como o faz a Tradição. O Sujeito eterno é Deus, que nos julga fora do tempo, mas dentro do tempo esse julgamento é feito com base no modelo de movimento eterno, dado por Jesus Cristo, e por isso ele é o juiz da humanidade, pois uniu sua subjetividade à de Deus, tornando-se o primeiro Sujeito Humano em plenitude.

Desta feita, a Verdade é uniplurissubjetiva, relativa à subjetividade que permanece em vários sujeitos, mesmo diante da constante mudança material e temporal, independentemente do ponto de vista, que é múltiplo, daí a uniplurissubjetividade, que resgata a Unidade imemorial e antecipa a Unidade memorial, vivendo conforme O Espírito.

A alma busca a Verdade no sentido de se alinhar ao motor imóvel primordial, Deus, da qual é oriunda, unindo-se a Ele em seus movimentos locais, de modo que estes se tornem os movimentos da unidade imóvel, do Espírito.

Daí porque o Espírito Santo é a alma do corpo coletivo. A alma grande, ou grande alma, mahatma, é a que usa o livre-arbítrio para escolher o princípio de movimento individual não a partir do corpo pessoal e dos prazeres corporais, e sim conforme o Espírito Santo, porque age em benefício do Corpo coletivo.

O propósito da alma, pois, é crescer em conhecimento e grandeza espiritual para agir no mundo físico e social, resgatando a Unidade imemorial e permitindo que a Unidade memorial se manifeste no Corpo físico da Humanidade, para que esta viva como um só Corpo e um só Espírito, deixando para os filhos da Humanidade, já aqui e agora, e também como herança, o Reino preparado para os justos desde a fundação do mundo.

Alma

Alguns conceitos são essenciais para a compreensão do mundo, porque ligados às ideias fundamentais ou categorias pelas quais captamos intelectualmente a realidade.

Sistemas filosóficos distintos possuem conceitos ou categorias simbólicas diferentes, de modo que a utilização de determinados termos em um discurso depende da inserção de seu significado dentro do contexto, não podendo palavras de um sistema de pensamento serem usadas indistintamente em outro.

A palavra alma está incluída nessa hipótese, pois sua significação depende de uma determinada posição filosófica ou teológica. Assim, no novo dicionário Aurélio da língua portuguesa, em sua 4.ª edição, por exemplo, o vocábulo alma possui 26 (vinte e seis) significações “1. Princípio de vida. 2. Filos. Entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida (do nível orgânico às manifestações mais diferenciadas da sensibilidade) e ao pensamento, e que se define em oposição ao corpo (embora não necessariamente a matéria) e, às vezes, a espírito, estando associadas à consideração da ideia de alma as questões da imortalidade, da personalidade, da individualidade, da consciência, etc., com todas as implicações morais, religiosas e metafísicas que elas suscitam (…). 3. Princípio espiritual do homem concebido como separável do corpo e imortal (…). 12. Pessoa, indivíduo”.

Teologicamente, portanto, alma pode ter vários sentidos, dentre os quais merecem ser destacados três: um segundo o qual a alma é uma entidade imaterial e imortal que se une ao corpo em vida, do corpo se separando após a morte, segundo uma concepção dualista do mundo; outra entendendo que a alma é uma questão psicológica, decorrente dos estados neurais da pessoa, sendo uma ilusão ou criação da mente que se extingue com a morte, conforme a vertente filosófica e teológica materialista; e outra decorrente da tradição hebraica, segundo a qual alma é a própria pessoa.

Para entender essa última concepção, em contraposição com a primeira, vale assistir ao vídeo “Estudo da palavra: Nephesh – ‘Alma’” produzido por “The Bible Project”, com legenda em português (https://www.youtube.com/watch?v=g_igCcWAMAM). Ficam recomendados, a propósito, todos os vídeos de “The Bible Project”, uma vez que já assisti a vários, ainda que nem todos tenham legenda em português, salientando-se que o projeto explica a Bíblia segundo uma perspectiva Cristã, com certa neutralidade teológica, dentro das possibilidades de uma atividade qualquer que possa ser neutra, sustentando que a Bíblia é uma história única que leva a Jesus.

Segundo o vídeo, a palavra nephesh constante do Antigo Testamento foi traduzida, de forma infeliz, como alma, porque o termo alma é carregado de bagagem da filosofia grega, uma vez que no sistema de pensamento helênico a alma seria uma essência não física e imortal da pessoa, que está presa ao corpo, do qual é liberada após a morte, como na ideia do “fantasma dentro da máquina”.

“–– Não é outra coisa (a morte) senão a separação da alma do corpo, não é? Estar morto é bem isto: de um lado, separado da alma, o corpo isola-se em si mesmo; do outro, a alma, por sua vez, separada do corpo, é isolada em si mesma? Ou a morte será outra coisa?

–– Não, é isso mesmo, disse ele.” (Platão. Fédon. Trad. Miguel Ruas. São Paulo: Editora Martins Claret, 2005, p. 27).

Tem-se, pois, na filosofia platônica uma concepção dualista do mundo, com duas realidades, dos corpos e das ideias, sendo fato histórico que Agostinho de Hipona viveu em um tempo sob forte influência filosófica do neoplatonismo, tendo, então, desenvolvido sua proposta teológica com as categorias das duas cidades, também podendo-se inferir que o dualismo cartesiano, e suas duas substâncias, possui ligação com filosofia platônica.

Platão entendia que a alma, “apresentando-se em um corpo, faz com que ele seja vivo” (Idem, p. 90), sendo imortal e indestrutível, indo ao Hades após a morte do corpo.

A separação entre alma e corpo sustenta, por sua vez, o desenvolvimento da ideia da reencarnação, metempsicose ou transmigração das almas, que é divergente do ensinamento bíblico pelo qual “é um fato que os homens devem morrer uma só vez, depois do que vem um julgamento” (Hb 9, 27).

Outrossim, tal concepção grega não tem correspondência com a ideia hebraica de nephesh, palavra que, para a Bíblia, pode significar “garganta” ou a pessoa inteira. Na Bíblia, a pessoa não tem uma alma, ela é uma alma, nephesh, um ser vivo e físico que respira, em um corpo.

O conceito de alma, destarte, é um para os gregos e outro conforme o entendimento bíblico do mundo. Resumindo, para os materialistas alma é um conceito fruto do excesso de conexões neurais, da imaginação de um cérebro ocioso, mera criação da imaginação humana; dentro de uma filosofia dualista, alma é o princípio que dá vida ao corpo, do qual se separa após a morte deste; enquanto para o hebreu a alma é a própria pessoa em sua integridade, incluindo seus sentimentos e sua realidade física, havendo uma unidade entre corpo e alma.

Portanto, o conceito de ressurreição é diferente daqueloutro de reencarnação, no sentido de retorno físico da pessoa integral em um corpo físico renovado, havendo, nesse aspecto, um significativo hiato ontológico entre a Teologia bíblica e a grega, sem prejuízo de uma proximidade prática entre tais visões de mundo, “na realidade, agora que a alma se revelou imortal, não há nenhuma saída para seus males, nenhuma outra salvação, senão a de se tornar a melhor possível e a mais sábia” (Platão. Obra citada, p. 93).

Ainda que Platão sustente tal ideia para que a alma chegue ao Hades em boas condições, sem se prejudicar, referido entendimento tem pertinência com o entendimento bíblico segundo o qual devemos buscar a santidade, tornando-nos a melhor e mais sábia alma possível, conforme o modelo de Deus: “Sede santos, porque eu, Iahweh vosso Deus, sou santo” (Lv 19, 2)

Nesse sentido, o mandamento de Moisés, ensinamento repetido por Jesus, deve ser corretamente interpretado dentro do contexto bíblico e suas categorias fundamentais da realidade:

Ouve, ó Israel, Iahweh nosso Deus é o único Iahweh! Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (Dt 6, 4-5).

Amar a Deus com toda a alma, ou nephesh, significa dedicar toda a existência física ao Criador, incluindo todos os pensamentos, palavras e ações, todos os movimentos internos e externos da pessoa devem ser santos, puros, adotados para realizar o Bem, e oferecer todo o ser, com todas as suas capacidades e limitações, para amar, e servir, a Deus e ao próximo como a si mesmo.

Na tradição bíblica, assim, existe uma unidade inseparável entre corpo e alma, entre o mundo e Deus, sendo ilusória a ideia de distinção entre a realidade física e a espiritual, dada a ligação direta entre o que fazemos no corpo e o julgamento na eternidade, pelo que o corpo integra a eternidade e a alma é una com o corpo.

Por isso, devemos ampliar nossa alma, para manter a unidade com o mundo, tornando-nos mahatamas, grandes almas, almas coletivas, que têm comportamento solidário, sendo “luzes no mundo, mensageiros da Palavra de vida”, porque as grandes almas cuidam dos outros com amor.

Portanto, pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que há no Amor, pela comunhão no Espírito, por toda ternura e compaixão, levai à plenitude a minha alegria, pondo-vos acordes no mesmo sentimento, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um só do que é seu, mas também do que é dos outros” (Fl 2, 1-4).

Elias e a verdade científica

Elias é uma personagem bíblica que surgiu no tempo do rei Acab, em um período de idolatria, quando o rei “passou a servir Baal e a adorá-lo”, “irritando Iahweh, Deus de Israel, mais que todos os reis de Israel que o precederam” (1Rs 16, 31 e 33).

Nessa época, pois, o poder político de Israel estava submetido a uma falsa teologia e a ideias desviantes da verdade, propagadas por falsos profetas. Fazendo uma adequação teórica ao tempo atual, os profetas do tempo de Elias, o que vale também para este profeta, correspondiam aos cientistas e acadêmicos (e religiosos) da era atual, aqueles que sustentam uma narrativa de mundo com pretensão de verdade. A diferença entre o profeta (cientista ou religioso) de Iahweh e o falso profeta (cientista ou religioso) está no fato de que aquele é expressão da Verdade, enquanto este é pregador da mentira e do engodo. As previsões do autêntico profeta, ou cientista, ou religioso, se realizam e se cumprem no mundo da vida.

A figura de Elias possui elevado destaque no antigo testamento, sendo que profetizou uma seca de três anos e ressuscitou o filho de uma viúva (1Rs 17, 1 e 22), antecipando sinais que seriam realizados pelo próprio Jesus Cristo, que controlou a tempestade e também ressuscitou pessoas, como narrado nos Evangelhos.

Um dos eventos mais marcantes da vida de Elias é o embate com os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, no monte Carmelo, quando os desafiou a invocar o nome de deus, enquanto ele invocaria Iahweh, e o deus que respondesse enviando fogo, “é ele o Deus” (1Rs 18, 24). Aceito o desafio, os profetas de Baal passaram metade do dia pedindo a seu deus, mas o fogo de sua oferenda não foi aceso. Então, Elias “empilhou a lenha, esquartejou o novilho e colocou-o sobre a lenha. Depois disse: ‘Enchei quatro talhas de água e entornai-a sobre o holocausto e sobre a lenha’; assim o fizeram. E ele disse: ‘Fazei-o de novo’, e eles o fizeram. E acrescentou: ‘Fazei-o pela terceira vez’, e eles o fizeram. A água se espalhou em torno do altar e inclusive o rego ficou cheio d’água. Na hora em que se apresenta a oferenda, Elias, o profeta, aproximou-se e disse: ‘Iahweh, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saiba-se hoje que tu és Deus em Israel, que sou teu servo e que foi por ordem tua que fiz todas estas coisas. Responde-me, Iahweh, responde-me, para que este povo reconheça que és tu, Iahweh, o Deus, e que convertes os corações deles!’ Então caiu o fogo de Iahweh e consumiu o holocausto e a lenha, secando a água que estava no rego. Todo o povo o presenciou; prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: ‘É Iahweh que é Deus! É Iahweh que é Deus!’ Elias lhes disse: ‘Prendei os profetas de Baal; que nenhum deles escape!’ e eles os prenderam. Elias fê-los descer para perto da torrente do Quison e lá os degolou” (1Rs 18, 33-40).

Elias mostrou, assim, que estava do lado da verdade científica, da Verdade, derrotando os falsos profetas, porque a palavra de Elias era adequada às coisas, sendo dotada de adaequatio intellectus et rei, de identificação entre o intelecto e a coisa, a ideia e a existência, o pensamento e a realidade.

Atualmente, a verdade científica é encontrada, mesmo que parcialmente, por meio das previsões das teorias científicas, notadamente quando são confirmadas, ocasiões em que o intelecto se apresenta no mundo dos fatos, ainda que restritamente, dado que a plena adequação só ocorre nas manifestações do próprio Deus, na verdadeira Ciência, o Cristianismo, de que os profetas (e religiosos) de hoje estão muito distantes.

A teoria da relatividade, nesse sentido, é uma expressão parcial e muito limitada da adequação entre ideia e realidade, como ocorreu com a recente comprovação da existência de ondas gravitacionais pela proposta científica de Einstein. Parcial porque nem Einstein, nem qualquer outro cientista posterior, conseguiu compatibilizar a relatividade com a física quântica.

O problema de Einstein foi sua fixação com o materialismo, que pode ser considerado uma nova forma de teologia, pelo que Einstein, nesse sentido, é um profeta do materialismo, tendo ele procurado eliminar os “conceitos provenientes da esfera psicológica, como dor, meta, finalidade etc.” do pensamento científico, pois este deve tratar apenas de “conceitos ‘de natureza espacial’, buscando expressar por meio deles todas as relações que possuem caráter de lei”, reduzindo os fatos “de tal maneira que o psíquico como tal seja eliminado do encadeamento causal do ser, de modo que ele, por conseguinte, não se manifeste em parte alguma como um elo independente nas ligações causais. Esta atitude, que em princípio considera possível abranger todas as relações empregando exclusivamente conceitos de ‘natureza espacial’, é certamente o que entendemos hoje por ‘materialismo’ (depois que a ‘matéria’ perdeu seu papel de conceito fundamental)” (Albert Einstein. A Teoria da Relatividade Especial e Geral. Trad. Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999, pp. 116-117).

A busca final de Einstein era pela descrição da “realidade física de maneira exaustiva (incluindo o espaço a quatro dimensões) por meio de um campo”, em uma “teoria de campo relativístico”, objetivo não compartilhado pelos físicos de seu tempo, acreditando estes que “o estado de um sistema não pode ser caracterizado direta mas apenas indiretamente”, através de estatísticas, porque predomina a “convicção de que a natureza dupla (estrutura corpuscular e estrutura ondulatória), solidamente provada pela experiência, só pode ser alcançada através desse enfraquecimento do conceito de realidade” (Idem, p. 130).

Pode-se ver que Einstein procurava uma ciência dissociada do aspecto humano, porque a exclusão da dor (e consequentemente do prazer), da meta, da finalidade, enfim, do sentido das coisas e do âmbito psíquico do pensamento científico é produzir uma ciência sem humanidade. A Ciência produzida dessa forma é estéril, é morta, porque sem Metafísica, sendo mister, para a busca da verdade científica, a superação do materialismo e do positivismo, que rejeitam a ideia de uma realidade espiritual e significado e negam os valores humanos que fazem a vida ter sentido.

Nos anos 30, o reducionismo ocupava uma parte importante do programa neopositivista que aspirava alcançar a unidade da ciência pela redução de seus diversos ramos à linguagem fisicista. As entidades ou níveis mais altos não seriam ‘outra coisa que’ a soma das entidades ou teorias de níveis mais baixos. Este projeto tropeçou de imediato em dificuldades insuperáveis, mas os intentos reducionistas não cessaram” (Carlos A. Casanova. Física e Realidade: reflexões metafísicas sobre a ciência natural. Trad. Raphael D. M. De Paola. Campinas, SP: VIDE Editoral, 2013, p. 210).

Casanova defende, com absoluta razão, que é preciso pressupor inteligibilidade na natureza para que seja possível a atividade científica, atitude esta que é previa à própria empreitada científica, a qual “se encontra num universo de sentido que a transcende. (…) Quando, em nome da ciência natural, se pretende negar este universo de sentido, já não se está fazendo ciência, mas metafísica, ainda que mascarada e falsa” (Idem, p. 245).

A verdade científica, assim, está longe de ser alcançada pelos profetas do materialismo, por maior que tenha sido o seu sucesso parcial provisório, como ocorreu com os profetas de Baal até o embate com Elias. A vida de Elias é inacreditável para um materialista, especialmente porque aquele simplesmente não morreu, pois quando estava com Eliseu, “aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, eis que um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu no turbilhão” (2Rs 2, 11).

A opção pelo Cristianismo na busca da verdade científica é, portanto, insólita, contrariando tudo o que se tem entendido como ciência, e como religião, mas não afronta os dados científicos em si, em uma interpretação não reducionista da Natureza. Essa visão científica mais ampla da realidade, de todo modo, como uma expressão própria da Ciência, depende de uma comprovação pública da teoria em algum momento, como ocorreu com a relatividade, e com Elias, diante dos profetas de Baal.

Elias, destarte, está relacionado à manifestação da verdade científica, como profetizado: “Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o Dia de Iahweh, grande e terrível. Ele fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais, para que eu não venha ferir a terra com anátema” (Ml 3, 23-24).

O espírito, padrão, ideia, arquétipo ou forma de verdade de Elias se manifestou antes de Jesus Cristo, na vida de João Batista, antecipando a revolução teológica que viria a se desenvolver tanto no Cristianismo como no Islamismo, religião esta diretamente dependente da Verdade contida na Torá e no Evangelho, até que o início da consumação dessa Verdade se dê também no plano político internacional.

Os discípulos perguntaram-lhe: ‘Por que razão os escribas dizem que é preciso que Elias venha primeiro?’ Respondeu-lhes Jesus: ‘Certamente Elias terá de vir para restaurar tudo. Eu vos digo, porém, que Elias já veio, mas não o reconheceram. Ao contrário, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem irá sofrer da parte deles’. Então os discípulos entenderam que se referia a João Batista” (Mt 17, 10-13).

João Batista pregava: “Mudai de mentalidade, pois ficou próximo o reino dos céus” (Mt 3, 1). Anunciava uma realidade que ainda não é bem compreendida, porque exige uma interpretação do mundo que transcende a aparência fugaz do plano corporal, uma nova mentalidade, visão de mundo ou Metafísica que inclua uma temporalidade ligada à escala da evolução da vida humana na Terra, mensagem que deve submeter o poder político internacional a partir de Israel e seu Messias, Jesus.

Para isso, é fundamental a correta interpretação da relatividade e da física quântica, da Ciência, que corrobora a Verdade Cristã, uma vez que passou a exigir que o mundo seja entendido não como um espaço cheio de coisas atomicamente isoladas ou como objetos exteriores, mas como relações, infinitas, como funções, como valores, vinculados ao observador, ao sujeito que é templo de um Espírito infinito, de um Logos que perpassa todas as coias. A posição relativa é fundamental para a compreensão da relatividade, exigindo a orgânica quântica, contudo, a definição prévia de um valor, de uma utilidade da observação, no sentido de verificar o fenômeno a ser observado, ou em razão de sua natureza como onda ou como partícula, dando propriamente sentido às coisas no plano espaço-temporal.

O que o materialismo de Einstein não percebeu, como também escapou ao positivismo, é que o mundo material é feito não de coisas extensas, mas de Espírito encarnado, como O Logos, A Razão, Deus, entre os homens e a natureza. Sem Espírito, sem alma, sem o sentido do movimento, a matéria é morta, é indiferente, é insossa, e isso não provoca atividade no organismo vivo.

Também fundamental é a correta interpretação do Cristianismo, como Judaísmo renovado, e do Islamismo, e por isso busca-se restaurar o espírito de Elias, anunciando o Reino de Deus, indicando o caminho de restauração da Verdade Científica, mesmo que essa Mensagem não seja bem compreendida, confusão que cessará quando o Espírito de Cristo se manifestar, de forma semelhante ao fogo descendo no monte Carmelo, para que os falsos profetas, materialistas e positivistas, sejam desmascarados, servindo como escabelo para a proclamação do Evangelho, submetendo o poder político e a atividade científica e acadêmica à Verdade da Ciência, que é Cristo.

Hierarquia das Ciências

A questão sobre a existência de uma hierarquia das ciências é abordada no livro “Física e Realidade – Reflexões metafísicas sobre a ciência natural”, de Carlos Augusto Casanova, professor da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Chile, em que o autor perquire a existência de uma ciência primeira, valendo-se dos ensinamentos de Aristóteles e sua Metafísica.

Concordo com o autor quando ele sustenta, baseando-se em Aristóteles, que a Metafísica é condicionante para o exercício da atividade científica, funcionando como um pressuposto que torna possível o próprio desenvolvimento das ciências particulares. De outro lado, mesmo que a leitura do texto ainda esteja em andamento, é possível antever que a Metafísica com a qual trabalha o autor diverge em seu conteúdo teológico daquela que venho desenvolvendo, pelo que é possível falar em uma Teologia antecedente que leva ao desenvolvimento de uma Metafísica que, por sua vez, é pressuposta na pesquisa científica.

Casanova inicia seu primeiro capítulo afirmando que para Aristóteles e Platão “epistéme é uma atividade teórica, contemplativa, em que uma afirmação é sustentada por fundar-se em princípios ou causas” (Carlos A. Casanova. Física e Realidade: reflexões metafísicas sobre a ciência natural. Trad. Raphael D. M. De Paola. Campinas, SP: VIDE Editoral, 2013, p. 17). O que significa um conhecimento decorrente de premissas que estejam relacionadas com a causa real daquilo que está na conclusão de um juízo, saber esse que pode estar ordenado em uma disciplina. “Mas nunca devemos perder de vista que, diferentemente de Karl Popper, Thomas Kuhn ou Alasdair MacIntyre, Platão e Aristóteles não entendiam ‘ciência’ num sentido primordialmente sistemático”, porque mesmo enquadrando seus conhecimentos numa visão unitária do mundo, em tarefa aberta ao real e, pois, assistemática, “a abertura às últimas causas – ao ser não unívoco, e ao divino, do qual não podemos alcançar nem intelecções nem demonstrações propriamente ditas – excluía qualquer espelhismo de sistema fechado” (Idem, p. 18).

Reconheço que não tenho conhecimento suficiente das obras de Platão e Aristóteles para contrariar a afirmação anterior, mas, pelo que sei, concluo que também para eles a Ciência era primordialmente sistemática, a despeito de tal sistema, de fato, não ser fechado, não ter limites demasiadamente rígidos.

Entendo, de outro lado, que Casanova, como a maioria absoluta dos cristãos que trabalham seriamente com conceitos filosóficos, não percebe que a visão unitária do mundo dos gregos, sistemática ou não, começou a ser perdida quando uma determinada posição teológica do Cristianismo se firmou na junção do pensamento greco-romano com o judaico-cristão, inicialmente pelo trinitarismo de Niceia; depois ganhando contornos teológicos e filosóficos com Agostinho, na sua proposta de duas cidades, em sua interpretação amilenarista do Apocalipse, com reflexos sobre o sentido e a posição da humanidade na História e na mentalidade geral de uma comunidade científica em que a Teologia era a Primeira Ciência; culminando no dualismo cartesiano, fruto indireto do trinitarismo e da proposta das duas cidades, que é uma forma de gnosticismo platônico contrária à visão de mundo monoteísta.

Nesse sentido, com a trindade, Jesus foi transferido para uma realidade celestial e transcendental, a despeito de sua dupla natureza (sobre o que remeto o leitor ao artigo “A dupla natureza de Jesus Cristo” – https://holonomia.com/2017/08/16/a-dupla-natureza-de-jesus-cristo/), rompendo com a unidade da humanidade e, de certa forma, desencarnando o Verbo. Com as duas cidades e os dois mundos, a vida humana passou a ser regida teoricamente por dois governos, comprometendo a estabilidade política e social, do que os embates político-religiosos que se sucederam são consequência direta. O dualismo cartesiano abriu caminho ao materialismo que, em sua posição final neodarwinista, excluiu a alma e o espírito da realidade.

De fato, por este seu intento de fundar uma ‘matemática universal’, Descartes lutou denodadamente para eliminar da natureza toda forma, qualidade ou fim, convertendo-a em pura res extensa. Por isso, podemos considerá-lo o pai do mecanicismo ou do racionalismo” (Carlos A. Casanova. Obra citada, p. 33).

Casanova, todavia, acertadamente, rejeita a ideia segundo a qual a matemática seria a primeira das ciências, aludindo à Metafísica de Aristóteles para aduzir que a matemática supõe axiomas primeiros, que não são por ela estudados, declarando que a física é subordinada à matemática que, por sua vez, é subordinada à metafísica, porque é esta última que tem como objeto o princípio de não-contradição, pressuposto tanto pela física como pela matemática, das quais não é alvo de estudo.

Ora, uma disciplina que supõe o axioma fundamental, que não o considera, não pode ser tida como a primeira de todas. Mas é óbvio que a disciplina que em sua etapa ‘demonstrativa’ (não somente ‘inventiva’) considera o princípio de não-contradição é a metafísica. Somente ela, portanto, possui o título para reclamar a primazia entre as ciências” (Idem, p. 53 – negrito meu).

Assim, como afirmado acima, uma Teologia mais ampla é pressuposto da Filosofia Primeira, ou Metafísica, enquanto Teologia articulada, que condiciona as ciências particulares. A Teologia, pois, está no topo da hierarquia das ciências, seja enquanto Metafísica sistemática, ou como Primeira Verdade, vinculada ao primeiro postulado, adotado como valor fundante de uma posição perante o mundo da vida e sua relação com a realidade, ou como religião existencial. A Teologia Monoteísta, destarte, prevendo uma ordem de mundo, é indispensável para o desenvolvimento científico.

Casanova sustenta que os cientistas pressupõem que haja uma inteligibilidade no mundo, como conhecimento pré-científico:

Assegurado este âmbito pré e supra-científico com nossa chamada ao pressuposto da inteligibilidade do mundo expressada no princípio da não-contradição, podemos acrescentar que ao menos uma parte dos conhecimentos que precedem às convenções científicas básicas pertencem a esta mesma região metafísica da alma humana. Existe todo um mundo de experiências que constitui o todo contextual, sem o que não poderíamos construir os discursos científicos particulares e analíticos. Parece-me que a máxima aristotélica antes transcrita trata de orientar-nos nesta direção: ‘Toda doutrina e toda disciplina procedem de um conhecimento prévio’” (Idem, p. 84).

Vale citar que parte desse âmbito pré e supra-científico que pressupõe a inteligibilidade do mundo decorre, no ocidente, da tradição judaico-cristã, segundo a qual há uma Sabedoria, uma Razão, o Logos, subjacente a tudo o que existe, acessível à mente humana, em maior ou menor nível. Essa visão é um valor que orientou a vida ocidental por séculos, permitiu o desenvolvimento das ciências naturais e, no plano jurídico, está na origem histórica e racional dos direitos humanos e da dignidade humana, fato constatado por qualquer pessoa com mínima honestidade intelectual.

Nesse sentido, de que a ciência decorre de uma posição teológica perante o mundo, uma Teologia Cristã trinitarista dominou, e domina, o pensamento ocidental por séculos, perdendo parte de seu poder descritivo sobre a natureza com o pensamento cartesiano e com a revolução científica que foi proporcionada por aquela Teologia, quando uma ideia mecanicista passou a preponderar nas ciências naturais, regendo o estudo da res extensa, das coisas do mundo sensível, de um lado, até que também no plano social, associado à res cogitans, de outro lado, ascenderam os pensamentos sociológicos positivista e marxista, do que são exemplos o Círculo de Viena e a Escola de Frankfurt, assumindo posições equivalentes à que tinha a Teologia durante a chamada idade média.

Diante do esgaçamento dessas propostas, dessas teologias cambetas, é válido o resgate da Metafísica aristotélica, pretendido por Casanova. Entretanto, considero essencial que essa restauração inclua a ressurreição da Teologia Cristã primitiva, antes da imposição dogmática que afastou o pensamento cristão do mundo judaico, para restabelecer como ponto primordial a unidade Monoteísta, em que o Espírito, Deus, está no mundo e em nós, e se manifesta na História humana, que culminará no Reino, ou Era Messiânica, até que venha a evolução material do cosmos.

Por isso, o Cristianismo e a ideia do Reino de Deus devem ser reconcebidos, com o abandono do platonismo que levou ao dogma da trindade e à projeção do Reino para o além, para o mundo das ideias platônicas.

Nada mais distante do realismo de Aristóteles que pensar que a mente seja um espelho do mundo. A crítica mais dura do Estagirita à teoria das ideias de seu mestre residia em que as ‘Ideias’ eram uma projeção de nossas noções mentais sobre o mundo” (Carlos A. Casanova. Obra citada, pp. 128-129).

Daí a leitura Cristã sem a trindade, na refundação da união dos logos grego, conforme a Metafísica aristotélica, com o Logos semítico, porque nós vivemos em ideias, vivemos no Espírito, somos Espírito, ou Ideia, encarnamos o Logos, encerrando no tempo o que está fora do tempo, dando forma à matéria, segundo a Forma Primordial do mundo. O pleno desenvolvimento científico depende da Metafísica, e a perfeição desta é condicionada pela Teologia, pela Ciência Primeira, pela ontologia básica da realidade divina da qual participamos.

Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’. Ora, se nós somos de raça divina, não podemos pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, a uma escultura da arte e engenho humanos” (At 17, 27-29).

Por elas nos foram dadas as preciosas e grandíssimas promessas, a fim de que assim vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de vos libertardes da corrupção que prevalece no mundo como resultado da concupiscência” (2Pe 1, 4).

Juiz Cristo

Existe, na teoria do Direito, uma proposta de descrever os modelos de juiz usando ideias da mitologia, podendo serem citados os modelos Júpiter, Hércules e Hermes, cada qual representando um tipo de comportamento do magistrado e o modo como atua ao proferir suas decisões. Também pode ser mencionado o juiz MacGyver, em crítica à forma de atuação dos juízes brasileiros (https://www.conjur.com.br/2013-nov-02/diario-classe-complexo-macgyver-modelos-juiz-episodio).

Entendo que tais sugestões somente existem porque não foi corretamente compreendido o que realmente significam o Direito e o Cristianismo, dentro de uma visão integral da Vida, que não separa aspectos políticos, religiosos e científicos, os quais se inserem em uma só realidade cultural, física e histórica, em uma só substância de mundo, e uma Humanidade.

O presente texto desenvolve algumas propostas do artigo “O Juiz Sacerdote” (https://holonomia.com/2017/05/30/o-juiz-sacerdote/), em que constou:

Nas assim chamadas ciências jurídicas, a Lei ainda possui relação com a ideia do sagrado, e a Constituição representa concretamente essa Lei, como espaço especial das relações humanas. Considerando que o art. 102 da Constituição Federal, por exemplo, dispõe que compete ao Supremo Tribunal Federal guardar a Constituição, o que é missão profissional do Poder Judiciário, e obrigação cidadã de toda a população, podemos dizer que vivemos em uma nação de reis sacerdotes, em que todos têm a obrigação de servir e guardar a Constituição, sendo os magistrados sacerdotes especiais, pois são os guardiões profissionais da Constituição. Portanto, como o juiz tem a função especial de servir e guardar a Constituição, ele é o novo sacerdote.”

Toda sociedade vive dentro de um quadro simbólico, que significa, dá sentido às coisas, aos fenômenos e aos eventos da história, tendo o ocidente sido formado dentro de uma simbologia judaico-cristã, que sucedeu a do mundo grego, o qual já havia transcendido, pela Filosofia, as narrativas mitológicas, por mais que estas sejam uma forma arcaica de Ciência e tenham sido úteis para a formação da cultura helênica, a qual, por sua vez, exerceu grande ascendência sobre a vida romana.

Existe, assim, um hiato, talvez intransponível, entre os símbolos da mitologia greco-romana e os conceitos jurídicos posteriores ao desenvolvimento da Filosofia, o que não ocorre com as ideias do Cristianismo, que ainda estão presentes na vida ocidental, com elevada força simbólica unificadora capaz de canalizar grande volume de energia na comunidade.

Nesse sentido, vale dizer que o fundamento de nossa civilização, a dignidade humana, vincula-se teórica, científica e historicamente, de maneira indissolúvel, ao judaísmo, à pessoa de Jesus Cristo e às ideias a ele ligadas. Daí porque é muito apropriado falar em juiz Cristo, para posicionar a figura do magistrado dentro da cosmovisão da qual se originaram os direitos humanos, narrativa que não pode ignorar a pureza moral, incluindo o aspecto sexual, de Jesus, de João Batista, que o antecedeu, e de Paulo, o maior responsável pela propagação das ideias de Jesus Cristo, e sua relação com a integridade conceitual da dignidade humana e dos direitos humanos.

É importantíssimo, ainda, inserir a pessoa do magistrado, e não somente sua função, em um quadro simbólico, porque o mundo é feito de pessoas e por pessoas, e não de coisas, ou por coisas. A autoridade pública é exercida por pessoas, e quanto melhor a pessoa mais corretamente exerce essa autoridade, como exposto no artigo “Sobre a autoridade secular” (https://holonomia.com/2018/11/28/sobre-a-autoridade-secular/).

No caso do juiz, do magistrado, a pessoa do julgador pode favorecer ou comprometer a autoridade da decisão, e não é por outro motivo que a Lei Complementar n.º 35, de 1979, que dispõe sobre a Lei Orgânica da Magistratura Nacional, no inciso VIII do seu art. 35, estabelece como dever do magistrado manter conduta irrepreensível na vida pública e particular.

A identificação com a postura do cristão é imediata, porque, no Cristianismo, Deus, o Juiz Supremo, que é Santo e Perfeito, delegou o julgamento do mundo a Cristo, expressão humana da perfeição de Deus, e aos cristãos, ou alter cristos, os que se portam como Cristo, buscando a santidade e a perfeição, porque “os santos julgarão o mundo” (1Cor 6, 2), e ser santo é manter conduta irrepreensível permanentemente, dentro de nossa imperfeição, tendo como modelo de vida aquele que deu corpo ao Logos, encarnando-O em Vida, cumprindo a Lei plenamente.

Antes, como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos também vós santos em todo o vosso comportamento, porque está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. E se chamais Pai aquele que com imparcialidade julga a cada um de acordo com as suas obras, portai-vos com temor durante o tempo do vosso exílio” (1Pd 1, 15-17).

Deus é Legislador, Rei e Juiz da Criação, e da Humanidade, é o Logos, a Sabedoria Suprema, da qual derivam a dignidade humana e os direitos humanos, conceitos estes dependentes daquele conjunto de ideias, o Logos que serve de parâmetro para a definição eterna do que é o Direito e a Justiça. A lei é elaborada pela Razão, o governo é exercido segundo a Razão e o julgamento é proferido pela Razão, e quanto melhor a Razão, tanto melhores a lei, o governo e o julgamento.

Nesse sentido, porque Jesus Cristo deu corpo, encarnou a Razão Perfeita, o Logos, irá “julgar os vivos e os mortos, pela sua Aparição e por seu Reino” (2 Tm 4, 1). “E ordenou-nos que proclamássemos ao Povo e déssemos testemunho de que ele é o juiz dos vivos e dos mortos, como tal constituído por Deus” (At 10, 42).

Sua Aparição e seu Reino são vinculados ao reconhecimento público de sua Autoridade, com a plena submissão a ela e com a superação da hipocrisia que separa a teoria Cristã da prática dos que se chamam cristãos, especialmente na vida pública e no ambiente político e jurídico, na medida em que o Reino é o governo segundo o Logos, Logos que também é a Lei que fundamenta o julgamento, a atuação do juiz.

O juiz Cristo é o que possui autoridade na comunidade, sendo capaz de, com sua força moral, não condenar um culpado, como ocorreu com a mulher adúltera, no episódio emblemático que foi apresentado na novela Jesus, transmitida pela emissora Record, nessa semana, ao salientar que aquele que condena deve estar sem pecado, não pode ser hipócrita: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” (Jo 8, 7). Contudo, a condição para que a condenação não seja executada é o arrependimento, o reconhecimento do erro, teórico e prático, com a sincera disposição de não mais falhar, o que é um julgamento feito pelo juiz sobre uma dificílima questão de fato, relativa à alma, sobre o coração humano, sobre a boa-fé ou a má-fé: “Nem eu te condeno. Vai. A partir de agora não voltes nunca mais a errar” (Jo 8, 11).

A atividade do juiz é tanto técnica como simbólica, e se refere aos valores mais elevados da comunidade, à Política, cuja teoria variou muito ao longo dos últimos séculos. Com a restauração dos estados nacionais, após o período chamado Idade Média, a função de juiz era exercida pelo monarca, que era considerado um delegado de Deus entre os homens, o que pode ser considerado um período de predomínio do que hoje chamamos de poder executivo. Em seguida, com a proposta de se alcançar uma razão objetiva para regular o comportamento social, essa razão se associou à ideia de um poder legislativo, sobrevindo um tempo de codificação, em que o Direito era o que estava nas leis e nos códigos, sendo o juiz a boca da lei, uma vez que ênfase estava na função legislativa. Contudo, toda lei exige interpretação e aplicação aos casos, inclusive dos valores fundantes do Estado, conforme o constitucionalismo, de modo que a atividade julgadora passou a ganhar cada vez mais destaque. O pêndulo jurídico passou da subjetividade do monarca para a objetividade da lei, e diante da necessidade de sua concretização a ênfase do Direto volta a destacar a subjetividade, desta vez do julgador, em confronto com a pretensa objetividade da Lei.

A dificuldade está, portanto, em encontrar uma objetividade para além da subjetividade do julgador, para que as decisões sejam proferidas segundo a norma pública e racionalmente estabelecida, e não segundo uma vontade meramente individual ou pessoal do magistrado, para que haja máxima previsibilidade nos julgamentos, ou segurança jurídica, sem prejuízo para a realização da justiça no caso.

Quanto à objetividade, a física moderna, tanto pela relatividade como pela orgânica quântica, demonstra que a posição do sujeito é fundamental para a determinação de sua relação com os fenômenos observados, e com a objetividade. Segundo a relatividade, não existe um ponto de Arquimedes material que sirva de referencial absoluto para as observações, devendo ser destacado que a relatividade trata apenas de fenômenos materiais, aqueles em que está envolvida uma troca local de partículas. Assim, o significado dos eventos depende da posição relativa dos observadores, dos referenciais adotados, dos sujeitos. Igualmente pela física quântica, a observação e o modelo de medição escolhidos são determinantes para o resultado do experimento.

A posição do sujeito, pois, importa física e psiquicamente, porque coloca a subjetividade dentro de um contexto, e essa posição é determinada tanto materialmente, dentro do espaço-tempo, como simbolicamente, em uma narrativa de mundo, um arcabouço teórico, que dá sentido aos eventos dentro do espaço-tempo, inclusive determinando a seta do tempo, a direção da História, e se o resultado da medição será em termos particulares ou ondulatórios, como partícula local com posição ou velocidade determinada ou como onda espalhada em um campo não local.

Outrossim, a objetividade só é possível se o sujeito estiver na posição correta, que inclua tanto uma posição material local quanto uma relação não local, ou transcendente. Para o juiz, a objetividade inclui, portanto, sua manifestação local, pelas teorias e razões expostas no processo, e sua relação não local, o arcabouço teórico que encarna e os símbolos que o movem, consciente e, principalmente, inconscientemente, como o demonstra a psicologia moderna, notadamente a psicologia profunda.

Quando o arcabouço teórico é mais definido, e nele está inserido conscientemente o magistrado, a previsibilidade do julgamento é maior, do que é exemplo claro a Suprema Corte dos Estados Unidos e a divisão filosófica entre conservadores e liberais. Mesmo assim, ambas as linhas filosóficas pecam por incompletude e incoerência, porque ainda trabalham, como exposto no artigo anterior, sob domínio do inconsciente, e porque a simbologia ocidental está fragmentada desde a modernidade, pela separação cartesiana e os seus efeitos prejudiciais à integridade do conhecimento científico no período subsequente, incluída a atual teoria do Direito.

Daí porque é necessária a restauração da cosmovisão Cristã, com sua adequada simbologia, para posicionar os sujeitos corretamente dentro de uma objetividade teórica integral, com unidade psíquica entre consciente e inconsciente, através do uso apropriado dos símbolos na sociedade.

O Estado, ou Igreja, a Ekklesia de Cristo, é um sistema de ideias corretas, adotado por um grupo de pessoas, um pensamento encarnado em pessoas que agem convenientemente, com fundamento na dignidade humana, que encarnam o Logos, sendo expressão viva da Sabedoria. O Cristianismo é também um sistema meritocrático de liderança, baseado em ideias, fundado no Logos, em que têm mais mérito e, portanto, mais autoridade aqueles que melhor encarnam consciente e permanentemente o respectivo sistema de ideias, manifestam o sistema jurídico em comportamento e linguagem.

O juiz Cristo é o que conhece biblicamente, porque O vive, o Logos, conhece o Princípio que dá unidade ao sistema e sustenta a totalidade e a integridade do Direito, mantendo conduta irrepreensível na vida pública e particular, sendo santo porque santo é o Pai, santa é a Lei, santo é o Logos, e por isso seu julgamento é imparcial, porque sua subjetividade é uniplurissubjetiva, ele é, objetivamente, a própria Humanidade, uma Ideia realizada em uma pessoa que compartilha essa Ideia em sua vida privada e profissional, mantendo a unidade social no plano moral, o que implica ser ético, e jurídico, o que significa ser justo.

Essa é a correta teoria, essa a simbologia que será, enfim, alçada à condição de verdade científica, o que é condição para a Paz, para a realização do Reino, quando “o poder de julgar” será entregue ao juiz Cristo (Ap 20, 4), depois que Jesus Cristo for devidamente reconhecido e elevado, em nossa simbologia prática, Religiosa, Política e Jurídica, ao lugar que lhe cabe, à direita de Deus.

Em verdade vos digo que, quando as coisas forem renovadas, e o Filho do Homem se assentar no seu trono de glória, também vós, que me seguistes, vos sentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19, 28).

Domínio do inconsciente

No artigo anterior, “Direito e ordem mental”, foi destacado que os indivíduos dos dias atuais ainda são dominados pelo inconsciente, apesar das conquistas tecnológicas alcançadas, sendo ressaltado que o desenvolvimento da personalidade se dá em direção à consciência, como ocorre no mito do herói, que se liberta da inconsciência.

A inconsciência está tanto nas pessoas como nos grupos, repercutindo no mundo das ideias e dos conceitos, comprometendo a racionalidade do ambiente intelectual humano, inserindo equívocos nas teorias científicas, não percebidos num primeiro momento, o que afeta sobremaneira o ambiente social, e jurídico. Por isso não vivemos em uma sociedade de paz, mas no mundo do consumo irracional, da concorrência, muitas vezes desleal, em que o crime é uma constante.

Para que seja possível a superação desse ambiente de permanente tensão, inclusive no plano internacional, é necessário despender muita energia física e psíquica da forma e na direção corretas, de modo a permitir que alcancemos um estado de maior consciência, de conhecimento da realidade mais profunda, como afirma Erich Neumann: “o estado inconsciente é o estado básico e natural; o estado consciente, o produto de um esforço que consome libido” (Erich Neumann. História da Origem da Consciência. 5 ed. Trad. Margit Martincic. São Paulo: Cultrix, 2014, p. 205).

Uma vez que nossa libido é desperdiçada, consciente e inconscientemente, na realização de desejos egoístas e em razão de instintos que não dominamos, e que, de fato, nos dominam, o estado de consciência mais elevada não é atingido.

Como ressaltado no último artigo, o esforço para se chegar ao conhecimento mais profundo da realidade, à inteligência, inclui a superação da ordem de mundo materialista de Freud, em que o conceito de libido, ou energia psíquica, foi indevidamente limitado a uma conotação sexual. No Código Penal Brasileiro, por exemplo, nos arts. 130, 148, 213, 215, 217-A, dentre outros, o termo “ato libidinoso” recebe o sentido exclusivamente sexual, o que é derivado das teorias de Freud sobre o mundo, com uma visão incompleta sobre o ser humano, sexualmente limitada, visão essa que é, portanto, inconsciente.

Assim, as palavras citadas por Erich Neumann acima, indicando que o estado de consciência depende de “um esforço que consome libido”, podem ser deturpadas em decorrência da leitura falha que Freud fez da humanidade, entendendo os fenômenos de uma perspectiva limitada, e indevida. Por mais que tenha tentado desvendar o inconsciente, a teoria freudiana é inconsciente da realidade humana mais profunda.

Como junguiano, Erich Neumann entende libido como energia psíquica. Segundo Jung, “é melhor compreender o processo psíquico simplesmente como um processo de vida. Desta forma estendemos o conceito restrito de uma energia psíquica para o conceito mais amplo de uma energia de vida, a qual engloba a chamada energia psíquica como componente específico”; afirmando que sugeriu “designar por libido a hipótese da energia de vida, levando em conta a sua utilização psicológica (…) para diferenciá-la de um conceito universal de energia” (Carl Gustav Jung. A energia psíquica. Trad. Maria Luiza Appy. 14 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p. 27).

Jung destaca a importância dos símbolos religiosos para a formação psíquica humana, porque tais símbolos foram produzidos pelo inconsciente para permitir a utilização da energia psíquica no desenvolvimento da consciência. De certa forma, em contraste com o entendimento de Jung, o pensamento de Freud pode ser considerado uma teoria infantil, uma teoria imatura, que não apreende a totalidade humana:

Na experiência direta, o espírito primitivo só nos é dado sob a forma da psique infantil, ainda possível de ser lembrada. As particularidades da mesma são consideradas por Freud, com certa razão, como sexualidade infantil; pois é desta disposição embrionária que mais tarde surgirá o ser sexuado maduro. Freud, porém, faz derivar da disposição embrionária infantil uma série de particularidades mentais, de forma a parecer que a mente também provém de um estágio sexual preliminar, e portanto não passa de um subproduto da sexualidade. Mas para Freud passa desapercebido que a disposição embrionária infantil polivalente não é apenas um estágio preliminar perverso singular de uma sexualidade normal e madura, mas que justamente ela parece ser perversa porque não é apenas um estágio preliminar da sexualidade madura, mas também o é da singularidade mental do indivíduo. Da disposição embrionária infantil surgirá posteriormente o ser humano inteiro, razão pela qual a disposição embrionária não é pura sexualidade, da mesma maneira que a psique do ser humano adulto não o é” (Idem, pp. 64-65).

A teoria de Freud é entendida, assim, como limitada, parcialmente correta, mas incapaz de ser universalizada, hipótese em que “só poderá ser uma explicação fictícia”, quando aplicada, por exemplo, à interpretação da obra de arte ou a uma experiência religiosa.

Jung destaca que “a formação da religião ou do símbolo tem para o espírito primitivo um interesse tão grande quanto a satisfação do instinto”, de modo que “o caminho da continuidade do desenvolvimento é assim dado logicamente” (Idem, p. 72). O desenvolvimento da consciência ocorre, portanto, por meio de símbolos religiosos, que “possibilitaram ao ser humano construir uma posição contraposta à natureza instintiva primitiva, uma atitude cultural diante da mera instintividade. Foi esta desde sempre a função de todas as religiões” (Idem, p. 73).

Esse processo de conscientização é iniciado por um indivíduo, um ser singular com consciência de sua singularidade, dando início ao progresso cultural, que é uma ampliação da consciência.

No mundo ocidental, esse ser singular, que moldou nossa cultura, inquestionavelmente, é Jesus Cristo, que tomou conhecimento de sua unidade com Deus, cumprindo as profecias ou ideias religiosas necessárias para o progresso da humanidade. Vale dizer que o Cristianismo ainda não aconteceu na sociedade humana, apenas tivemos vislumbres dessa realidade, ofuscada pelos dogmas que impediram o conhecimento da Verdade Cristã em sua plenitude religiosa, política e científica.

Nesse sentido, segundo a simbologia da religião Cristã primitiva, antes do pleno desenvolvimento da cultura iniciada por Jesus Cristo, antes que a civilização por ele inaugurada aflore na era messiânica, era necessário que o símbolo oposto se desenvolvesse, pela manifestação do anticristo e pela ação do falso profeta.

O profeta significa aquele que serve de meio para a revelação de Deus, a Verdade, sendo que na simbologia atual a verdade está associada à Ciência, que reclama para si a autoridade plena sobre o conhecimento racional. Cristo significa “Ungido” pelo Espírito, que age por ação do Espírito, o que é o oposto do que faz a ciência reducionista dos dias atuais. Desta feita, o falso profeta que permite a manifestação do anticristo é a ciência materialista que prevalece no mundo contemporâneo, fazendo com que a humanidade permaneça sob o domínio do inconsciente, porque impede a consciência sobre a totalidade da experiência da realidade e o conhecimento sobre o ser humano inteiro.

Pois hão de surgir falsos Cristos e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios de modo a enganar, se possível, até mesmo os eleitos” (Mt 24, 24).

Hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, os quais apresentarão sinais e prodígios para enganar, se possível, os eleitos” (Mc 13, 22).

Vivemos sob o domínio de falsos Messias e falsos profetas, falsos cientistas, como Freud, que realizam prodígios e sinais enganosos, do que é exemplo a tecnologia que encanta as pessoas desviando-as da Vida, mas que não encontraram a Verdade e desviaram a humanidade do seus verdadeiros conhecimento e desenvolvimento.

A Verdade está, sim, na Ciência, desde que vinculada a Cristo, ao Logos encarnado, porque Cristianismo é Ciência, e a Vida segundo a Razão, a Lógica, sendo Jesus Cristo o maior cientista de todos os tempos, o Homem pleno.

Erich Neumann, ao tratar do desenvolvimento da personalidade, fala da fase adolescente, passível de ser aplicada à coletividade de nosso tempo, aduzindo que a “perversão sexual não passa de expressão mórbida da dominância dessa fase arquetípica”, vinculada à “bissexualidade original da Grande Mãe urobórica” (Obra citada, p. 223). E continua:

Do mesmo nível desses adolescentes narcisistas e passivos são os homens identificados com a Grande Mãe, que realizam essa identificação, quer como castrados, que sacrificam o falo, ou, como ‘travestis’, usando roupas femininas.

Na psicologia, esses níveis intermediários desempenham importante papel nas neuroses, nas quais surgem, de preferência, como estado de fusão do ego masculino com a Anima e, na mulher, com o Animus, o que representa uma fixação que impede a completa diferenciação da personalidade.

Também nas neuroses, como nas perversões e na homossexualidade – todas pertencentes ao mesmo nível –, o desenvolvimento do ego e da consciência é incompleto e o domínio do inconsciente continua, isto é, em nenhum desses casos foi atingido o estágio da luta heroica” (Idem, p. 223).

Em seguida Neumann arremata dizendo que tal situação psicológica do indivíduo deve “ser considerada um desenvolvimento defeituoso”.

Vivemos, assim, coletivamente, sob o domínio do inconsciente, porque as pessoas com desenvolvimento defeituoso e incompleto são oficialmente consideradas normais, o que significa que a norma perdeu o sentido, a consciência coletiva se desviou do caminho de seu desenvolvimento, fixando-se em símbolos de perversão, de uma fase imatura da vida, do que a questão sexual é apenas um aspecto. Se Jung estiver correto, esse fato levará o inconsciente coletivo a compensar essa situação, sem o controle da consciência, com os riscos decorrentes, potencialmente catastróficos. Daí a importância de manter a consciência alerta, vigilante.

Olhai, vigiai, pois não sabeis quando será o momento. Será como um homem que partiu de viagem; deixou sua casa, deu autoridade a seus servos, distribuiu a cada um sua responsabilidade e ao porteiro ordenou que vigiasse. Vigia, portanto, porque não sabeis quando o Senhor da casa voltará: à tarde, à meia-noite, ao canto do galo, ou de manhã, para que, vindo de repente não vos encontre dormindo” (Mr 13, 33-36).