Filosofia e História

Talvez não seja possível entender a História sem considerar a Filosofia, isto é, a forma como as pessoas pensavam a racionalidade do mundo em determinado período, e como isso teve influência no desenrolar dos acontecimentos.

Um dos momentos fundamentais da História, e do presente, é chamado de Helenismo, associado à difusão da cultura grega em razão das conquistas realizadas por Alexandre Magno, o qual foi orientado por Aristóteles, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Este fato, por si só, já é suficiente para a conexão antes relatada, o que exigiria uma atenção maior entre as ideias de Aristóteles, estritamente, e o sucesso político e militar de Alexandre.

O período seguinte foi dominado por Roma, com sua noção jurídica, e também filosófica, já impregnada da cultura grega, que depois acabou se fundindo com o Cristianismo, este servindo de base para o pensamento filosófico dos últimos vinte séculos, movendo a própria História em torno de si.

Nesse sentido, terminei a leitura de “História do Cristianismo”, de Bruce L. Shelley, no texto revisado por R. L. Hatchett, obra que serve para confirmar a ideia que tento desenvolver, de natureza teológica e científica, em torno do ideário Cristão.

“Apreciar nossas histórias pode, mais uma vez, levar-nos a valorizar o fato de que pertencemo ao povo de Deus acima de tudo.

Isso é um círculo. Ler a história da Igreja do jeito certo ajuda-nos a ler a Bíblia do jeito certo; ler a Bíblia do jeito certo ajuda-nos a ler a história da Igreja do jeito certo. Nossa leitura pode ter um novo apreço se discernimos o significado teológico da Igreja como povo de Deus reunido dentre as nações” (Bruce L. Shelley. História do cristianismo: uma obra completa e atual sobre a trajetória da igreja cristã deste as origens até o século XXI. Tradução Giuliana Niedhardt. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018, p. 530).

Contudo, o próprio texto indica um grande problema: “um dos aspectos mais notáveis do cristianismo hoje é quão poucos dentre os cristãos professos já estudaram a história de sua religião com seriedade. (…) Em nossos dias, porém, quando a comunicação em massa traz o mundo para perto de nós, é difícil justificar a ignorância dos cristãos” (Idem, p. 531).

Além disso, considero ser necessário complicar ainda mais a questão, para pensar não apenas a história do Cristianismo, mas a história filosófica e teológica do pensamento cristão associada aos eventos históricos, como o neoplatonismo e sua influência sobre Agostinho, com efeitos sobre a relação Império e Igreja, e o aristotelismo sobre Tomás de Aquino, resultando na atividade universitária dos séculos seguintes.

Mais ainda, é preciso comparar especificamente o significado teológico do Cristianismo como motivador das referidas divergências filosóficas, isto é, como um teísmo dualista de Agostinho diverge do teísmo tomista, e até que ponto o conceito trinitário tem origem antes na cultura grega do que na Bíblia e no Monoteísmo e como suas significações específicas contribuíram para a compreensão do mundo, ou a dificultaram. Também ligar o conceito de Logos com o tempo subsequente marcado por uma valorização da razão, que levou o mundo ao deísmo da modernidade, marcando os grandes filósofos do Ocidente, até que as noções sobre o mundo divino tivessem sido completamente absorvidas em conceitos filosóficos, e depois rejeitadas quase por completo pela maior parte da academia.

Ainda que Descartes, Newton, Kant e Hegel, dentre outros, tenham inequívocos pressupostos teóricos cristãos como condicionantes de suas formas específicas de pensar, sem os quais seus sistemas filosóficos perderiam sua sustentação racional, na medida em que os conceitos filosóficos foram sendo desacoplados daquelas bases teóricas, foi possível manipular argumentos dos respectivos pensadores, muitas vezes subvertendo completamente suas respectivas estruturas racionais, até para negar, também indiretamente, concepções que tais teóricos tinham como necessárias em seus modos de entender o mundo.

Mesmo que eu nunca tenha lido Marx, por exemplo, para além de pequenas partes do Manifesto Comunista, julgo que seja completamente inadequado associar as ideias de Hegel ao pensamento marxista, colocando-os como teóricos aproximados ou semelhantes, porque Hegel tinha uma narrativa história baseada no cristianismo e nos valores da religião, o que foi apropriado sem critério e subvertido pelo ideário materialista do teórico do comunismo.

Aliás, acerca a ligação entre Filosofia e História, é provável que estejamos num hiato entre o sistema de Hegel, que representa a racionalização do ideário Cristão, portanto, o que de melhor já foi produzido pela mente humana, sem prejuízo para a Revelação, e sua atualização (da proposta hegeliana), em uma sistematização superior do Cristianismo como Filosofia.

A substância do pensamento filosófico, segundo tenho compreendido, avançou até Hegel, e desde então houve alguns avanços pontuais e acidentais no estudo da Filosofia, que somente poderá continuar seu desenvolvimento e aprimoramento racional a partir da correção tanto dos pontos nos quais Hegel se equivocou como, e principalmente, no aprimoramento de nosso conhecimento do que seja o Cristianismo, que é a base existencial e racional sobre a qual o trabalho de Hegel foi elaborado.

Outrossim, como Cristão, penso que o Cristianismo, na sua correta e adequada acepção, é o melhor insuperável da racionalidade e da experiência humanas, o que inclui tanto uma sabedoria, uma Filosofia/Teologia, que lhe é intrínseca, como uma consequente realidade vivencial.

Cristianismo é o modo de viver e pensar que tem como centro a experiência do Espírito a partir de uma pessoa, Jesus de Nazaré, o judeu cuja vida, obra, incluída sua ressurreição por Deus, e ideias mudaram de forma inigualável o curso da História.

“Todavia, os cristãos podem ter esperança, pois a fé sempre supera as circunstâncias terrenas. Sua confiança está em uma pessoa, e nenhuma outra pessoa na história influenciou mais indivíduos em tantas condições ao longo do tempo do que Jesus Cristo. Os tons e nuances de sua imagem parecem mudar conforme as necessidades dos homens: o Messias judeu do remanescente cristão, a Sabedoria dos apologistas gregos, o Rei cósmico da Igreja Imperial, o Logos celestial dos concílios ortodoxos, o Governante mundial das cortes papais, o Modelo monástico da pobreza apostólica e o Salvador pessoal dos avivalistas evangélicos.

Ele é verdadeiramente um homem de todos os tempos. Em uma época em que muitos o consideram irrelevante ou uma relíquia de um passado rapidamente descartado, a história da Igreja fornece um testemunho silencioso de que Jesus Cristo não sairá de cena. Seu título pode mudar, mas sua verdade resiste a todas as gerações” (Obra citada, pp. 534-535).

Outrossim, compreender teológica e filosoficamente o messianismo judeu, e como Jesus consumou, em si, o conceito de Messias, de forma surpreendente para o que era, e ainda é, o judaísmo dominante, e sua relação com as ideias políticas dos últimos vinte séculos, é o ponto de partida para o correto entendimento da História e também da Filosofia.

Indispensável, finalmente, nesse sentido, discernimos o significado teológico da Igreja não apenas como povo de Deus reunido dentre as nações, mas como comunidade que tem na dignidade humana o centro da atividade social, privada e pública, política e jurídica, o que transforma a Ekklesia na atual assembleia política, o Estado, cujo modo de tratar seus cidadãos é baseado no melhor que a racionalidade humana, e divina, foi e será capaz de produzir, Jesus Cristo, ápice da realização da Sabedoria na História, fundador e fundamento da Ekklesia, e do próprio Estado.

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