A ideologia da OMS

Na semana que passou, estava lendo o artigo “Qual o valor jurídico das recomendações da Organização Mundial da Saúde?” (https://www.conjur.com.br/2020-abr-14/opiniao-qual-valor-juridico-recomendacoes-oms), em que é destacada a Constituição da Organização Mundial de Saúde – OMS, quando constatei, mais uma vez, o engodo ideológico que domina mundo científico e acadêmico, com inevitável repercussão nas esferas política e jurídica.

A referida Constituição passou a integrar o ordenamento jurídico nacional por meio do Decreto n.º 26.042, de 1948, constando de seu preâmbulo (https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1940-1949/decreto-26042-17-dezembro-1948-455751-publicacaooriginal-1-pe.html):

A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e nao apenas a ausência de doença ou enfermidade ( * ).

O gôzo do melhor estado de saúde que lhe seja possível atingir, constitui um dos direitos fundamentais de todo ser humano, sejam quais forem sua raça, sua religião, suas opiniões políticas, sua condição econômica ou social. (…)

A extensão a todos os povos dos benefícios decorrentes do conhecimento das ciências médicas, psicológicas e ciências afins é essencial para lograr-se o mais alto grau de saúde.

Uma opinião pública esclarecida e uma cooperação ativa por parte do público, são de uma importância capital para o melhoramento da saúde dos povos.

Os Govêrnos são responsáveis pela saúde de seus povos; êles só poderão desincumbir-se dêsse encargo tamanho as medidas sanitárias e sociais apropriadas.

( * ) A palavra “ENFERMIDADE” é empregada, aqui, na acepção que a medicina lhe empresta para traduzir, na expressão, de Littréee, ” aquêles casos em que o indivíduo, com ou sem desordem apreciável da disposição material do corpo, não possui esta ou aquela função ou a possui de maneira imperfeita ou irregular”.”

Já o artigo 1.º da Constituição da OMS tem o seguinte teor:

O Objetivo da ‘Organização Mundial de Saúde’ (aqui doravante denominada Organização), é conduzir todos os povos ao nível de saúde mais elevado possível.”

Daí, a indagação óbvia é sobre o significado de estado de completo bem-estar físico, mental e social; melhor estado de saúde que seja possível atingir; e conhecimento das ciências médicas, psicológicas e ciências afins.

Essas definições dependem não de conceitos científicos em sentido estrito, mas de cosmovisões, entendimentos filosóficos sobre a origem humana, seu sentido histórico, enfim, sobre a natureza humana, o que, repita-se, a ciência atual não é capaz de responder, sendo tais pontos dependentes de uma opção teológica, filosófica, existencial, decorrente do que se pode chamar livre-arbítrio, ou seja, a escolha arbitrária sobre qual a origem do mundo, da vida, do ser humano.

Vale dizer, a ciência não sabe explicar a origem do universo, não decifrou a origem da vida e do ser humano, não compreende o que seja a consciência, sendo que a própria teoria da evolução é uma hipótese com vários buracos interpretativos, pelo que dizer que houve, desde o início da vida (fenômeno não compreendido cientificamente), evolução das espécies de forma cega, ou seja, aleatória e sem direção, e por tentativa e erro, é uma hipótese baseada em um claro ato de FÉ materialista.

No artigo “Homo humanorum” (https://holonomia.com/2018/10/31/homo-humanorum/), faço referência ao texto “Os Matemáticos da Evolução”, de Josiney A. Souza, concluindo que:

As linhas gerais do citado artigo, segundo as teses dos matemáticos, são no sentido de que a evolução não é plenamente explicada pela teoria de Darwin, não podendo ser entendida como um processo cego ou aleatório, e sem inteligência, pois não houve tempo cósmico bastante para tanto, não sendo o (neo)darwinismo suficiente para a compreensão da complexidade da vida”.

Portanto, no plano das ciências biológicas, a complexidade da vida não é explicada em termos estritamente materialistas, o que repercute diretamente nos conceitos de estado de completo bem-estar físico, mental e social e de melhor estado de saúde que seja possível atingir.

No plano psicológico também há a vertente materialista, que passou a ser adotada pela OMS, como se nota no caso dos transgêneros. Extrai-se da página das Nações Unidas no Brasil:

Segundo a especialista, a alteração aconteceu porque a agência de saúde da ONU teve um ‘melhor entendimento de que isto não é realmente um problema de saúde mental’. A decisão reflete avanços críticos na ciência e na medicina.

Para Lale, a reclassificação vai reduzir o estigma, ao mesmo tempo em que garantirá o acesso a intervenções de saúde necessárias.

A incongruência de gênero pode ser descrita como um sentimento de angústia vivenciado quando a identidade de uma pessoa entra em conflito com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento.” (https://nacoesunidas.org/oms-retira-a-transexualidade-da-lista-de-doencas-mentais/)

De minha perspectiva, fazer com que a pessoa com “incongruência de gênero” se submeta a uma mutilação corporal grotesca, ou estimular essa ideia, não é promover o completo bem-estar físico, mental e social ou o melhor estado de saúde que seja possível atingir, não corresponde à busca do nível de saúde mais elevado possível. Para Freud, talvez o melhor estado de saúde mental possível seja o filho poder fazer sexo com a mãe e a filha com o pai, e possivelmente hoje seria do pai com o filho e da mãe com a filha, o sexo sem amarras morais, do que discordo veementemente.

Penso que a ética Cristã, que ainda fundava a cosmovisão da época da Constituição da OMS, continua sendo o que melhor representa o melhor estado de saúde e o nível de saúde mais elevado possível.

Repito, aqui, o que constou no artigo “Domínio do inconsciente” (https://holonomia.com/2019/01/15/dominio-do-inconsciente/), citando o trabalho do psicólogo Erich Neumann, no livro “História da Origem da Consciência”:

“‘Também nas neuroses, como nas perversões e na homossexualidade – todas pertencentes ao mesmo nível –, o desenvolvimento do ego e da consciência é incompleto e o domínio do inconsciente continua, isto é, em nenhum desses casos foi atingido o estágio da luta heroica’ (Idem, p. 223).

Em seguida Neumann arremata dizendo que tal situação psicológica do indivíduo deve ‘ser considerada um desenvolvimento defeituoso’”.

A mudança que ocorreu desde que Neumann escreveu seu texto reflete muito mais uma alteração ideológica, contrariando aquela que levou à Constituição da OMS e em favor do materialismo e da visão freudiana de mundo, do que propriamente científica, ainda que o argumento seja falsamente tratado como estritamente científico”, uma vez que não existe ciência neutra.

A atuação ideológica da OMS permanece durante a atual Pandemia, não tanto pela orientação de isolamento, que, por ora, é medida de precaução para preservação de vidas, que deve ser adotada com maior ou menor rigor dependendo das condições de cada localidade, dos níveis de propagação da doença e de adesão da comunidade a medidas de prevenção do contágio.

Mas a leniência com a China, que errou muito no início da Pandemia, a demora em reconhecer a situação de emergência internacional, que foi pautada não por critérios técnicos imediatos, mas depois de se combinar com os chineses a forma pela qual seria feita a declaração, e agora a ausência de manifestação crítica sobre a “recontagem” que elevou o número de mortos na China em 50% (cinquenta por cento) demonstram claramente que a OMS não tem uma posição estritamente neutra e científica, e sim manifesta ações de cunho evidentemente ideológico, de natureza materialista e, portanto, contrária à Constituição da OMS.

Quantas mortes poderiam ter sido evitadas por uma postura mais incisiva da OMS desde as primeiras notícias da doença na China? Provavelmente muitas, talvez milhares.

Penso, assim, que a OMS não vem respeitando sua Constituição, porque suas ações não proporcionam o melhor estado de saúde que é possível atingir e não conduzem todos os povos ao nível de saúde mais elevado possível.

Jesus de Nazaré continua representando o estado de completo bem-estar físico, mental e social, o melhor estado de saúde que é possível atingir, pois de seu corpo, suas palavras e ações ainda é irradiada saúde física, mental e social, direta e indiretamente, o que é o caso dos hospitais e universidades, criados por seus seguidores, em cumprimento de seus mandamentos.

O que se espera é que, ao final dessa avalanche pela qual passamos e continuaremos a viver, seja rejeitada a má ideologia que tem desorientado as decisões da OMS, restabelecendo-se os seus princípios fundadores, com a observância da visão de mundo, da teologia, da postura existencial que subjaz à sua Constituição.

Heteronomia, autonomia e holonomia – A logocracia

O nome do sítio, holonomia, como noticiado na página das informações (Sobre), está associado à proposta do físico e filósofo David Bohm, à ideia de uma totalidade física indivisível, ligada ao âmbito da formação teórica do referido autor, Ph.D. em Física pela Universidade da Califórnia, de modo que holonomia é lei do holomovimento, a lei do todo, também uma lei de razão, de lógica, do Logos.

O conceito físico, contudo, pode ser ampliado para o aspecto teológico, e também filosófico e político, pensamento que o próprio David Bohm chegou a desenvolver em seus livros, pela aplicação à vida em geral, e à moralidade, cujas normas podem ser heteronômicas ou autonômicas, isto é, quando a regra de conduta é estabelecida de fora, pelo outro, ou ditada pela própria pessoa.

Segundo Kant, a “autonomia é, pois, o fundamento da dignidade da natureza humana e de toda a natureza racional” (Immanuel Kant. Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos. Tradução Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 66), significando, para o autor, a escolha que pode ser adotada como lei universal, dizendo que a heteronomia da vontade é a fonte dos princípios ilegítimos de moralidade.

Já na Crítica da Razão Prática, Kant coloca a existência de Deus como postulado da razão pura prática, sustentando que a doutrina do cristianismo apresenta um conceito do “sumo bem (do reino de Deus), que é o único que satisfaz à mais rigorosa exigência da razão prática. A lei moral é santa (inflexível) e exige a santidade dos costumes, (…) por conseguinte, em relação à santidade exigida pela lei cristã, nada mais resta à criatura que um progresso ao infinito, mas justamente por isso justifica a esperança de sua continuidade, que vai ao infinito” (Immanuel Kant. Crítica da Razão Prática. Tradução Rodolfo Schaefer. São Paulo: Martin Claret, 2004, 137/138).

A autonomia em Kant, portanto, não é a mera vontade da pessoa, mas a vontade conforme a lei universal, associada a uma visão Cristã de mundo, da qual decorre sua ideia de dignidade humana. Desse modo, é possível entender a autonomia de Kant, porque fundada na racionalidade e na universalidade, conceitualmente, como correspondente à holonomia, quando a lei moral individual não é ligada a qualquer moralidade, com qualquer fundamento para as regras comportamentais, mas está vinculada à moralidade infinita, santa, à ideia de ética, entendida como ciência da moralidade, da razão moral universal, que supera os conceitos de todas as moralidades particulares.

Lendo “O juízo moral na criança”, de Piaget, ainda que a leitura não tenha sido encerrada, é possível compreender uma evolução da compreensão da regra moral que é encontrada no desenvolvimento da criança, mas que também é aplicável historicamente à própria moralidade humana.

Nas crianças, a primeira consciência das regras está associada à ideia de sagrado, à sua imutabilidade, que participa da autoridade paterna.

No tocante às regras morais, a criança intencionalmente se submete, mais ou menos por completo, às regras prescritas. Mas estas, permanecendo, de qualquer forma, exteriores à consciência do indivíduo, não transformam verdadeiramente seu comportamento” (Jean Piaget. O juízo moral na criança. Tradução Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994, p. 58).

A fonte das normas, sendo externa, implica a submissão do indivíduo a elas, o que corresponde à heteronomia moral. Contudo, a partir dos dez anos, em média, a consciência da criança a respeito das regras se transforma:

À heteronomia sucede a autonomia: a regra do jogo se apresenta à criança não mais como uma lei exterior, sagrada, enquanto imposta pelos adultos, mas como o resultado de uma livre decisão, e como digna de respeito na medida em que é mutuamente consentida”, afirmando, ainda, que “a democracia sucede à teocracia e à gerontocracia: não há mais delitos de opinião, apenas de procedimento” (Idem, p. 60).

Piaget relata que primeiro ocorre um respeito unilateral à autoridade paterna, do que decorre a regra coercitiva de comportamento, associada à heteronomia, mas, com o amadurecimento, ocorre mutação do estado de consciência, quando as representações coletivas passam a dar lugar à discussão das regras, prevalecendo um respeito recíproco vinculado à noção de cooperação. De todo modo, seja quanto à coação pura, o respeito puramente unilateral, ou em relação ao respeito mútuo, a cooperação, nunca há o domínio absoluto de um ou outro, existindo uma descontinuidade ou gradação entre eles.

Da cooperação decorre a regra racional. “A harmonia é encontrada pela união do racional e da natureza, enquanto a coação moral e o respeito unilateral opõem uma sobrenatureza à natureza e uma mística à experiência lógica”; afirmando, enfim, que ainda que seus estudos decorram de análise de jogo de bolinhas, para crianças, tal conclusão vale para a “história das religiões e das formas de governo” (Idem, p. 86).

Deve-se salientar, entretanto, assim como Kant, que Piaget também tinha uma visão de mundo Cristã, pelo que é cabível uma leitura complementar de seu trabalho, segundo o Cristianismo.

Portanto, o governo humano passou da noção heteronômica para a autonômica, da teocracia para a democracia. É de ser desconsiderada, no caso, a democracia grega, que era muito incipiente, porque dela excluída a maioria absoluta da população, sendo a sociedade mantida pelo trabalho escravo ou servil. De todo modo, da união das ideias gregas e Cristãs surgiram os fundamentos da democracia moderna, baseada em fraternidade, liberdade e igualdade, consumando-se no constitucionalismo moderno.

Mas se a teocracia era unilateral e vertical, a democracia, com seu consensualismo e horizontalidade, deteriorou-se em um relativismo moral, em que a dignidade humana se distanciou na noção de santidade e de progresso ao infinito, como apontado por Kant, e passou a aceitar comportamentos puramente materiais, egoístas e limitados como dotados de “dignidade”, o que vale para questões sexuais e para os excessos alimentares e de consumo, contrariando a proposta de busca da santidade.

Outrossim, é mister o resgate da dimensão vertical da vida, da meritocracia moral, do conceito de sumo bem, de santidade, que são a fonte da noção de dignidade humana, decorrente da ideia de filiação divina, pelo fato de a humanidade possuir natureza divina, ser da raça de Deus, para avançarmos para a logocracia, o governo do Logos. Há que se recuperar a ideia de que a autoridade paterna é acompanhada de amor paterno, bem como a noção da experiência acumulada ao longo do tempo, e da sabedoria dela decorrente, que pode ser vista pela consciência imatura como heteronomia, quando é, na realidade, expressão de uma razão superior, de um Logos ainda não experimentado pela criança, com características de imutabilidade e eternidade, a inteligência presente desde o princípio, cuja simplicidade tem uma aparência de complexidade e irracionalidade quando não compreendida em seu movimento de se manter una, de se manter imóvel.

A cosmologia narra uma ideia de evolução, o mesmo se aplicando à biologia, pelo que também em termos morais podem-se compreender noções superiores e inferiores de moralidade. Se a própria evolução biológica está associada à diferenciação sexual e funcional dos órgãos no ser vivo, anular ou ignorar a distinção sexual, por exemplo, é uma regressão comportamental, como o é não conferir maior merecimento às pessoas que exercem posições governamentais e simbólicas especiais, pela função social quando bem exercida, pelo que existem, sim, atividades mais e menos nobres, sem desconsiderar a importância social de todo trabalho humano bem feito. Nesses tempos de pandemia, por exemplo, pode-se distinguir com mais clareza aquilo de que mais precisamos e dependemos e as coisas que podemos dispensar, às vezes definitivamente, para viver bem, em simplicidade essencial.

Por isso, é indispensável, para a melhoria da vida humana, reconsiderar o entendimento sobre o significado da democracia moderna, restaurando sua linha evolutiva e sua base filosófica, notadamente quanto ao seu fundamento, a dignidade humana, associada a um entendimento espiritual, da busca infinita da santidade, de modo que a evolução moral conduza ao governo humano pautado pela ideia holonômica, cósmica, para que a humanidade, finalmente, seja conduzida pelo Logos, na logocracia, reconhecendo, então, o mérito moral máximo de Jesus Cristo:

Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro; como uma ovelha que permanece muda na presença dos seus tosquiadores ele não abriu a boca. Após detenção e julgamento, foi preso. Dentre os seus contemporâneos, quem se preocupou com o fato de ter ele sido cortado da terra dos vivos, de ter sido ferido pela transgressão do seu povo?” (Is 53, 7-8).

A hermenêutica teológica demonstra, de outro lado, que sua atuação foi em favor não apenas do seu povo, que o rejeitou, mas de toda humanidade.

Se entre seus contemporâneos o Messias não foi reconhecido, ainda é tempo de aceitá-lo como símbolo de bondade e justiça, seguindo seus mandamentos na busca do sumo bem, da única ética, em sua holonomia, que inclui pensamentos, palavras e ações, com reflexos no próprio mundo natural, porque a ação ética produz a harmonia decorrente da união do racional e da natureza, na teocracia cooperativa de respeito mútuo, ou logocracia:

Procurai a Iahweh enquanto pode ser achado, invocai-o enquanto está perto. Abandone o ímpio o seu caminho, e o homem mau os seus pensamentos, e volte para Iahweh, pois terá compaixão dele, e para o nosso Deus, porque é rico em perdão. Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos, oráculo de Iahweh. Quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos. Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, dando semente ao semeador e pão ao que come, tal ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não torna a mim sem fruto; antes, ela cumpre a minha vontade e assegura o êxito da missão para a qual a enviei. Haveis de sair com alegria e em paz sereis reconduzidos. Na vossa presença, montes e outeiros romperão em canto, e todas as árvores do campo baterão palmas. Em lugar do espinheiro crescerá o zimbro, em lugar da urtiga crescerá o mirto; isto trará renome a Iahweh e um sinal eterno, que nunca será extirpado” (Is 55, 6-12).

O significado

Existe algum sentido nos eventos, especialmente aqueles pelos quais estamos passando?

Obviamente que sim, caso contrário não haveria evento algum, como algo que é digno de ser observado como algo, como distinto de toda a massa indiferente de informações à qual estamos sujeitos diuturnamente. Assim, existe significado nesses eventos, pois nos marcam, de uma forma ou outra, sendo o signo, o elemento básico do significado, aquilo que é ou deixa uma marca.

A dúvida diz respeito à origem do significado, se existe um significado nas coisas ou se todo sentido é por nós colocado no mundo, porque este seria destituído de qualquer interpretação especial. A resposta a essa indagação é de ordem filosófica ou teológica, e pode variar em certo grau.

O radicalismo materialista, ou ateísta, pode levar a “crer” não haver sentido no mundo, e apenas vivemos mais um movimento no caldo caótico de acontecimentos que não têm um destino certo ou previsível, na luta pela sobrevivência do mais apto.

Existe uma opção menos radical, que consegue colocar sentido na catástrofe a partir de uma perspectiva humana, de um humanismo, através da qual é possível analisar os fatos por uma significação do sofrimento, das vidas perdidas e do que se pode fazer para minorar essa perda existencial.

De minha leitura Cristã da realidade, ou seja, de uma narrativa que pretende compreender tudo o que existe pressupondo uma realidade subjacente, uma lógica que tudo perpassa, associada à ideia de divindade, do Deus Único, do Logos, em seu processo de manifestação na consciência humana, os eventos são mais uma etapa desse desenvolvimento, com capacidade de mostrar os caracteres das pessoas.

Nos momentos extremos, as pessoas podem ser portar resoluta ou desesperadamente, de forma mais ativa ou passiva, sendo o movimento e a inércia causados por uma racionalidade individual ou coletiva.

Assim, existe uma lógica própria na sobrevivência particular, e até mesmo o ato criminoso está associado a uma lógica específica, o lucro, a vingança ou a insanidade, a última correspondendo à valoração ou valorização desproporcional dos fenômenos, por uma significação exclusivamente pessoal e niilista. Um nobre Promotor de Justiça que fez dezenas de júris comigo falava que os crimes que eram julgados, o que vale também para os outros, eram motivados pelas três barras, a barra de ouro (lucro), a barra da saia (vingança) e São João da Barra (bebida – insanidade).

Essa elaboração teórica vale para as distintas visões de mundo, pois de um individualismo radical, com um domínio do egoísmo, de ações voltadas para a própria satisfação, pois a vida é curta, não há nada além deste corpo, o qual deve ser aproveitado o máximo possível. Essa é uma postura racional, de racionalidade limitada, deve-se dizer, mas racional.

Existe uma forma de inteligência superior à do indivíduo, associada à do grupo ou da espécie, com sentimento de solidariedade, ainda com uma visão estritamente material do mundo, de modo que o sentido das coisas é colocado exclusivamente pela cultura, é relativo, de modo que não existem valores absolutos, e nessa linha é possível a defesa, por exemplo, o aborto, pensando num suposto bem-estar individual da mulher que simplesmente não quer o desconforto ou o inconveniente da gravidez e do parto.

Finalmente, existe uma racionalidade que é ao mesmo tempo existencial e transcendental, entendendo haver uma ordem absoluta que se expressa no mundo visível, de modo que o sentido que colocamos no mundo é preexistente ao ato de fazê-lo, ainda que sua manifestação dependa de um ato criador. Esse argumento vale também para a matemática, que preexiste enquanto potencialidade lógica, mas que depende de um ato criador para que ocorra na mente humana e, então, na realidade científica.

Essa visão também é radical, entendendo haver causalidade cósmica, e não apenas sorte e acaso, de modo que o sentido colocado no mundo é também o sentido do mundo, é real e verdadeiro, ontologicamente. Por essa ideia, há algo além do mero corpo, há uma ordem parcialmente invisível na qual a vida permanece mesmo após o perecimento do corpo individual.

O significado do mundo é imanante e transcendente, é algo que já é mas ainda não aconteceu, que está se formando.

Por isso, os que se vão da imanência continuam na transcendência, até que essas duas realidades se unam, dando o sentido global da existência.

Entrando na semana da Páscoa, que representa a libertação da escravidão política, no aspecto humano comum, e da morte corporal, em termos científicos, porque ou a ressurreição é um nada ou representa uma realidade física e palpável, portanto, científica, é importante repensar o sentido de tudo, de nossas ações e de nossas razões, e verificarmos, honesta a sinceramente, se o significado que colocamos no mundo é individual, coletivo ou divino, e qual é o caráter de nossos comportamentos.

O Apocalipse e a Verdade

Continuando o tema do último artigo, “A Verdade ontológica”, faz-se oportuno, pelo tempo especial que vivemos, desvelar o conceito de “apocalipse”, que nada mais é do que a palavra grega para o termo “revelação”, pelo que o Apocalipse significa a revelação de uma Verdade sobre o Ser, sobre aquilo que é e ainda não se manifestou.

O Apocalipse mostra o movimento do Ser em seu devir, e é associado a uma concepção judaica de mundo, ou melhor, Monoteísta, segundo a qual O Altíssimo está no controle das atividades humanas, exercendo influência sobre e nos governos das nações, o que remete ao tempo dos antigos profetas de Israel, que tiveram visões antecipadas desse devir quanto a momentos decisivos da História humana.

Assim, estamos vivendo o Apocalipse desde séculos antes da vinda de Jesus, o Cristo, vinda essa que representa um momento crucial da História, e do sentido do Apocalipse, relativo ao (des)governo da humanidade, dos tempos primitivos até que toda nação se submeta ao Messias, ao Enviado do Altíssimo, por seu Caminho ou Método Científico, como exemplo de Conhecimento de Deus, do Logos, e exercício vivo dessa Razão ou Inteligência, como Verdade do Ser, notadamente nos planos científico e político, no governo das nações.

Entender o Apocalipse como um fim cinematográfico do mundo é um equívoco sem tamanho, ainda que haja um fim, um telos, na História, e os eventos que têm ocorrido e ainda sucederão, nos futuros próximo e longínquo, sejam efetivamente cinematográficos.

A interpretação do Apocalipse há que ser feita observando a profecia de Daniel, por orientação do próprio Messias (Mt 24, 15; Mc 13, 14), havendo inegáveis paralelos entre as passagens do livro de Daniel, e sua mentalidade israelita, e as do livro do Apocalipse que encerra a Bíblia Cristã.

No capítulo 2 do livro de Daniel é descrita a profecia da grande estátua, identificada em seus pormenores com os reinos humanos que se seguiriam ao de Nabucodonosor, até que “o Deus do céu suscitará um reino que jamais será destruído, um reino que jamais passará a outro povo” (Dn 2, 44).

Também no capítulo 7 é narrado o sonho das feras, os animais que representam “quatro reinos que surgirão na terra”, sendo o quarto animal com “dez chifres”, com surgimento de um outro chifre, “diante do qual três dos primeiros caíram, esse chifre que tinha olhos e uma boca que proferia palavras arrogantes, e cujo aspecto era mais majestoso que o dos outros chifres” (Dn 7, 20), explicado-se que os “dez chifres: são dez reis que surgirão desse reino, e outro se levantará depois deles; este será diferente dos primeiros e abaterá três reis; proferirá insultos contra o Altíssimo e porá à prova os santos do Altíssimo; ele tentará mudar os tempos e a Lei” (Dn 7, 24-25), após o que haverá um “tribunal” para tirar o poder desse rei, quando “o reino e o império e as grandezas dos reinos sob todos os céus serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo. Seu império é um império eterno, e todos os impérios o servirão e lhe prestarão obediência” (Dn 7, 27).

Igualmente o capítulo 8 de Daniel narra a luta entre dois animais, correspondentes a dois reinos, enquanto o capítulo 11 descreve os conflitos entre um rei do norte e um rei do sul, de modo que as narrativas escatológicas e apocalípticas de Daniel estão diretamente ligadas a conflitos políticos, entre reinos humanos, que ocorrerão até que se levante Miguel, quando “os sábios resplandecerão, como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justiça hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12, 3).

Esse contexto apocalíptico e político está associado originariamente à nação de Israel, valendo dizer que a própria existência do Estado de Israel, hoje, com soberania sobre a terra santa, é o principal sinal profético cumprido desde a destruição de Jerusalém e a diáspora judaica, e após mais de dois mil anos de espera, demonstrando a posição especial do nosso tempo na História.

Essa é uma situação especialíssima, aguardada desde o século VII antes de Cristo, quando floresceu a atividade profética, em que está incluída a profecia apocalíptica.

O Estado de Israel cumpre uma importantíssima profecia messiânica, a restauração da realeza de Israel pela atividade do Messias, havendo inegável conexão ideológica entre o retorno do povo judeu à terra santa e a mentalidade cristã europeia e norte-americana do tempo do pós-guerra, resgatando o povo judeu e dando-lhe sua terra. Há, portanto, uma relação de causalidade entre o trabalho humano, profético e espiritual de Jesus, o Messias judeu, e o retorno da autonomia política de Israel. Também é inegável que esse fato é decorrência direta de questões políticas, que conduziram à guerra e à sua solução.

Voltando ao último livro do cânone Cristão, o Apocalipse, este começa com sua identificação como revelação (apocalipse) de Jesus Cristo, “o primeiro a ressuscitar dos mortos, o Chefe dos reis da terra” (Ap 1, 5), o que é uma posição religiosa, política e messiânica inigualável, escrevendo cartas a sete comunidades cristãs. O significado dessas sete igrejas é incerto, mas é muito interessante a leitura de sete tipos de comunidades cristãs ao longo do tempo, e que faríamos parte da igreja da Laodiceia, a sétima, que “não é quente nem fria”, mas morna, que está para ser vomitada, que se diz rica mas é “infeliz, pobre, cega e nu” (Ap 3, 17).

Em seguida é narrada a visão do livro e do cordeiro, que fez “um reino de sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra” (Ap 5, 10). Se “reinarão sobre a terra” não tiver significação política, na terra…

O texto continua com a abertura dos sete selos, as sete trombetas e o derramamento das sete taças, com significados enigmáticos, narrando situações interconectadas do mundo humano e natural, valendo dizer que com a sétima trombeta a questão política se resolve definitivamente: “A realeza do mundo passou agora para nosso Senhor e seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11, 15).

Outra narrativa irrompe, então, descrevendo a mulher, a Igreja/Estado de Deus, que vai para o deserto, para fora da cidade/civilização, e “um grande Dragão, cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres” (Ap 12, 3), mostrando-se inegável a ligação com o tema já tratado na profecia de Daniel, em que o dragão representa o poder político e os chifres os reinos ligados a esse poder. Tal descrição vale também para a Besta do capítulo 13, com “dez chifres e sete cabeças”, a qual recebeu uma boca “para proferir palavras insolentes e blasfêmias” (Ap 13, 5) contra Deus, repetindo o que já havia sido antecipado em Daniel, recebendo “autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação” (Ap 13, 7), simbologia inegavelmente política, com um domínio completo sobre a economia, “para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome” (Ap 13, 17).

Depois de outras imagens enigmáticas, as sete taças são derramadas, sendo a sexta sobre o grande rio Eufrates, secando suas águas (Ap 16, 12), evento que está ocorrendo neste exato momento (há alguns anos), como uma simples pesquisa no Google pode comprovar.

Vale um parêntese, para reiterar a situação única que vivemos, nossa geração, que tem um planeta globalizado, a nação de Israel voltou ao centro do mundo político depois de vinte e cinco séculos, no final da segunda guerra a política humana fez descer fogo do céu sobre a terra (Ap 13, 13), bomba atômica, e o rio Eufrates está em período de seca sem comparação histórica.

Para não deixar dúvidas sobre a leitura política das imagens, “as sete cabeças são sete montes sobre os quais a mulher está sentada. São também sete reis, dos quais cinco já caíram, um existe e o outro ainda não veio, mas quando vier deverá permanecer por pouco tempo. (…) Os dez chifres que viste são dez reis que ainda não receberam um reino. Estes, porém, receberão autoridade como reis por uma hora apenas, juntamente com a Besta” (Ap 17, 9-12).

A destruição da civilização idolátrica, acabando com o domínio da Besta, causa desespero nos reis da terra, que “vão chorar e bater no peito” (Ap 18, 9), e nos comerciantes, que “também choram e ficam de luto” (Ap 18, 11), porque será encerrada tanto a dominação do homem pelo homem como a teologia do mercado, com seu consumismo irracional.

Tal evento ocorrerá quando estiver “a Besta reunida com os reis da terra e seus exércitos para guerrear contra o Cavaleiro e seu exército” (Ap 19, 19), o que não está claro como ocorrerá, sendo certo que a Besta será capturada com o falso profeta, significando a derrota da política humana irracional conduzida por uma teoria mentirosa, pela concepção científica e ideológica materialista e egocentrista que explora o homem e o leva à morte material e espiritual.

Com a derrocada da política mundana e da falsa ciência, serão estabelecidos tronos, e aos que neles se sentarem será dado poder de julgar (Ap 20, 4), que são os que dão testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, que dão testemunho da Razão, do Logos, e governarão a humanidade de forma inteligente, com a verdadeira civilização Cristã, a cidade de Deus controlando as nações, por mil anos…

Para concluir, é importante dizer que o conceito de Verdade está associado a um movimento externo e um movimento interno.

Alguém, por exemplo, que quer ir de uma cidade A para uma cidade B, e põe-se em viagem, pode pensar que efetivamente se desloca do ponto A para o B, mas se estiver na estrada para C, distante do destino B, seu movimento externo não será verdadeiro, como não o será se disser que vai para C quando se dirige para B. Assim, o movimento somente será verdadeiro se a pessoa estiver no caminho de A para B e com a intenção e expressão conscientes de fazê-lo.

Tal ilustração vale para a História, porque existe um movimento cósmico, no qual surgiu a humanidade. Se a evolução é cega, não há sentido no futuro da humanidade, que um dia simplesmente acontecerá, sem a mínima previsibilidade. De outro lado, caso exista uma realidade subjacente, um sentido ontológico do Ser, a profecia é possível, no sentido de revelar, antecipadamente, um movimento que ainda se manifestará no tempo.

A leitura Cristã é a segunda proposta, entendendo haver um significado mais profundo nos fenômenos do mundo, e uma interconexão em tudo que ocorre, havendo, ainda, um destino para todo humano, uma futura ressurreição, como efeito de uma espécie de evolução. Nossa próxima fase evolutiva será em uma realidade mais sutil, em conexão física e espiritual, conscientemente, com Deus.

Pode-se entender, desse modo, que Jesus é a Verdade, porque dá testemunho desse movimento e seu destino ou resultado, sendo a ressurreição a prova dessa realidade, significando, em certo sentido, uma volta no tempo, um retorno de Cristo ressuscitado em um momento futuro, de uma eternidade que também é presente, ao tempo da humanidade corporal de seus seguidores, em que foi crucificado, para demonstrar a seus irmãos a verdadeira Verdade, dando-nos força e esperança, e interferindo na História pelo próprio evento da ressurreição, algo próximo à simbologia do filme “Interestelar”, para suportarmos as adversidades do mundo até que passemos por essa fase existencial, plantando as sementes das realidades vindouras, temporal e eterna, quando haverá a colheita, temporal e eterna, de nossas atividades culturais.

A Verdade ontológica

No último artigo, “O nascimento do tempo”, o tema da verdade foi abordado, ressaltando-se a origem etimológica da palavra, derivada do vocábulo grego “alethéia”, que é um termo privativo ou negativo, porque ‘a’ significa ‘sem’, e ‘lethe’ refere-se às águas do rio do esquecimento que há no mundo inferior, pelo que verdade, ou “alethéia”, tem o sentido de ausência de esquecimento.

O significado de verdade está ligado, portanto, ao entendimento sobre a autêntica origem das coisas, do mundo e da própria humanidade, à unidade inteligível que une o aqui e agora a qualquer começo que seja tomado como tal, como princípio existencial, como também seu destino. A Verdade é um tema ontológico, que não pode ser compreendido apenas em termos formais.

Ao contrário da cosmovisão científica predominante, outrossim, que tem uma aversão a temas ontológicos, contentando-se majoritariamente com o formalismo matemático, destituído de significado existencial, ou com aparências, como simples fenômenos, entendo que o conceito de Verdade não pode ser enfrentado senão ontologicamente, ou ontoteologicamente.

Depois da leitura do clássico de Karl Popper, “A lógica da pesquisa científica”, no qual é destacado o trabalho de Alfred Tarski, dediquei-me à leitura de “A concepção semântica da verdade: Textos clássicos de Tarski”, com cinco artigos sobre verdade, lógica e semântica científica, através do que, ainda que não tenha lido integralmente o artigo maior, e principal, porque referente a uma mera dedução lógico-formal, e para não abandonar a leitura simplesmente pulei as partes do texto em que há matemática com palavras no lugar de números, consegui compreender, mais uma vez, a origem e natureza do problema científico em relação à questão da verdade, que é de ordem filosófica, ou metafísica.

No artigo “Filosofia e matemática” (https://holonomia.com/2019/03/06/filosofia-e-matematica/) foi destacada a preeminência da Metafísica sobre a Matemática, o que já era o entendimento tanto de Platão como de Aristóteles, sendo que a divergência entre eles sobre a ordem das ciências estava no fato de que “o primeiro entendia que a hierarquia tinha a metafísica no topo das ciências, seguida pela matemática e depois pela física; enquanto o segundo ordenava o conhecimento partindo da metafísica, sucedida pela física, estando a matemática em terceiro lugar na importância científica”.

A questão da Verdade é, portanto, de natureza Metafísica, antecedendo a lógica formal, uma vez para esta é exigida a postulação prévia, a formulação dos axiomas, ou postulados, que são simplesmente aceitos, dos quais são derivadas as deduções lógicas, o que vale, igualmente, para os cálculos matemáticos.

Tarski, segundo a orelha do livro, “considerado, ao lado de Aristóteles, Frege e Gödel, um dos quatro maiores lógicos de todos os tempos”, destaca que, para evitar a existência de antinomias e contradições em uma linguagem formalizada:

devemos indicar todas as palavras que decidimos usar sem definição, e que são chamadas ‘termos não definidos (ou primitivos)’, e apresentar as chamadas regras de definição para introduzir termos definidos ou novos. Além disso, devemos estabelecer os critérios para distinguir, na classe de expressões, aquelas que denominamos ‘sentenças’. Finalmente, devemos formular as condições sob as quais uma sentença pode ser afirmada; em particular, devemos indicar todos os axiomas (ou sentenças primitivas), isto é, as sentenças que decidimos afirmar sem prova” (Alfred Tarski. A concepção semântica da verdade. Tradução Celso Braida … (et al.). Organização Cezar Augusto Mortari e Luiz Henrique de Araújo Dutra. São Paulo: Editora UNESP, 2007, pp. 165-166).

Para refutar a acusação de que a concepção semântica da verdade envolve “elementos metafísicos”, uma heresia na ciência da primeira metade do século XX, sustenta que “metafísica” é uma noção vaga e equívoca, podendo indicar ontologia, oposição a empírico ou um método que não seja dedutivo ou empírico, e que não há vestígio metafísico em sua abordagem, “a não ser que alguns elementos metafísicos estejam envolvidos na linguagem-objeto à qual as noções semânticas se referem” (Idem, p. 191), o que poderia incluir seus axiomas ou termos primitivos, segundo parte dos críticos.

Enfim, depois de refutar a referida injúria filosófica profissional, salienta que:

em nenhuma interpretação do termo ‘metafísico’ que me é conhecida e mais ou menos inteligível, a semântica envolve qualquer elemento metafísico peculiar a si própria.

Gostaria de fazer uma observação final a respeito desse grupo de objeções. A história da ciência apresenta muitos casos de conceitos que foram considerados metafísicos (em um sentido vago do termo, mas, de qualquer maneira, depreciativo) antes que seu significado fosse tornado rigoroso. Contudo, tendo eles recebido uma definição formal rigorosa, a desconfiança acerca deles desapareceu” (Idem, pp. 192-193).

Sobre os argumentos metafísicos, o cientista intelectualmente honesto há que reconhecer, na linha do que afirmado por Tarski, que mesmo a base da ciência materialista é decorrente de ideias estritamente metafísicas, porque transcendem a capacidade empírica de demonstração, o que vale para a teoria da evolução, tanto hoje como quando formulada por Darwin, a psicologia de Freud e também as modernas concepções de teoria das cordas e multiverso, que estão enraizadas na mentalidade dos físicos, todos conceitos metafísicos, ou seja, especulações da atividade mental humana desenvolvendo raciocínios possíveis a partir de argumentos conhecidos, porque atualmente não existem condições tecnológicas para comprovar, por exemplo, a existência de outras dimensões espaciais ou outros universos.

Voltando a Tarski, em outro dos artigos, abordando a teoria axiomática baseada em linguagem formalizada, ele reconhece que:

as dúvidas com respeito à verdade dos teoremas não foram inteiramente eliminadas, mas ficaram reduzidas às possíveis dúvidas com respeito à verdade das poucas sentenças listadas como axiomas e quanto à infalibilidade das poucas e simples regras de demonstração” (Idem, p. 227).

Pode-se notar, enfim, uma dubiedade na argumentação de Tarski, porque ao mesmo tempo em que pretende se apegar a um sistema linguístico o máximo possível formalista, seguindo a tendência de sua época, contudo, por ser um grande lógico, tinha que reconhecer que não há, na natureza, sistemas isolados, pelo que todo sistema formal, em algum ponto, ainda que em seus limites, está aberto à totalidade do mundo natural e seus fenômenos ainda desconhecidos, com capacidade de influir em todas as áreas do conhecimento, e nos próprios sistemas formalizados, pelo que declara que mesmo os mais rigorosos significados científicos tiveram origem nas concepções da Metafísica.

Nesse ponto, portanto, é exatamente a Metafísica, ou Filosofia, que fundamenta as chamadas sentenças primitivas, os axiomas, que decidimos afirmar sem prova, os quais estão ligados às concepções fundamentais de mundo do cientista ou filósofo, dando sentido até mesmo à sua atividade intelectual.

Por isso, para concluir, é importante ressaltar, mais uma vez, que a existência de ordem é um axioma da atividade intelectual, um postulado, um ato de fé afirmado sem prova pelo pesquisador, sendo possível conceber metafisicamente duas possibilidades principais para a origem dessa ordem, que definem as duas cosmovisões básicas pelas quais o mundo pode ser compreendido: uma ateia e materialista que defende, continuando a linha dos atomistas primitivos, Demócrito e Leucipo, que a ordem é fruto do acaso, da pura sorte; e outra espiritualista e religiosa, que decorre tanto do pensamento de Platão e Aristóteles como da tradição judaico-cristã, sustentando a existência de uma ordem subjacente a todas as coisas, ligada à ideia de Bem ou ao Deus Monoteísta, como Sabedoria ou Logos.

Daí porque a ideia de Verdade é vinculada à mais radical ontologia, referente à origem metafísica ou filosófica da ordem do mundo, da inteligência que nos permite produzir conhecimento científico, sendo incomensuráveis, portanto, as noções de verdade segundo a filosofia materialista e as oriundas das ideias religiosas e espirituais, notadamente de origem Cristã.

Eis porque, enfim, o testemunho de Cristo Jesus é fundamental, uma vez que sua missão essencial é exatamente essa, dar testemunho da Verdade, segundo o Evangelho com maior carga teológica, e essa verdade é precisamente o reconhecimento de nossa origem e nosso destino, o não esquecimento dessa realidade espiritual da qual procedemos, do Logos que estava no princípio, que fez-se carne e habitou em nós, a partir do pastor da Galiléia, para nos mostrar o Pai.

Tu dizes que sou rei. Eu nasci para isso e para isso vim para o mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele cujo ser é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18, 37).

E também nosso testemunho é esse, que não pode ser dúbio, para não faltarmos com a Verdade, com a origem de nossa fé:

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1Cor 15, 12-20).

A verdade da ressurreição aponta para a das profecias, da vinda do Reino, de modo que a tribulação que se inicia, com a pandemia que assola o mundo, à qual seguirá a crise econômica e social, talvez deva ser interpretada como sinal dos tempos antevistos pelos profetas do Altíssimo, para a necessária e esperada mudança da realidade humana, para o tempo de Justiça e Paz tão aguardados, e de Verdade!

O nascimento do tempo

O tempo é um elemento ou uma categoria fundamental para o conhecimento. É a própria Vida, se corretamente compreendido.

No pensamento de Kant o tempo é o elemento comum que permite a conexão entre as categorias a priori do conhecimento e as relações sensíveis do mundo exterior, porque organizamos nossos processos mentais sequencialmente, tanto no tempo como condição categorial de apreensão fenomênica quanto na arrumação cognitiva dos sentidos percebidos em nossa interação com o mundo.

A questão do tempo já foi abordada no artigo “A velocidade do tempo” (https://holonomia.com/2017/05/01/a-velocidade-do-tempo/comment-page-1/), em que se sustentou que a relatividade é uma teoria incompleta, “pois se fosse a palavra final em termos físicos Einstein não teria passado as últimas décadas de sua vida tentando compatibilizá-la com a física quântica, no que não logrou êxito”.

Certamente a relatividade é insuficiente porque é a teoria limite do assim chamado materialismo, refere-se ao mundo dos sentidos locais ao mundo do toque e da causalidade material, nela não estando incluído o Espírito, ou Inteligência, que é pressuposto e condição de existência da própria teoria.

Ilya Prigogine também não se satisfez com o tempo ilusão da física, tendo apresentado uma nova proposta de análise da natureza a partir dos fenômenos irreversíveis:

Aristóteles diz que o tempo é o estudo do movimento, mas – acrescenta – na perspectiva do antes e do depois. Mas a partir de que é dada esta perspectiva do antes e do depois? Aristóteles não dá uma resposta: afirma que talvez seja a alma que efectua a operação do contar.

Einstein retoma a mesma pergunta: onde está o tempo? Talvez da física? E responde que não. Numa conversa com Carnap diz textualmente: “O tempo não está na física”.

Se escolho o ponto de vista da física, o tempo, enquanto irreversibilidade, é ilusão e portanto não pode ser objecto de ciência. Sob este ponto, curiosamente, Einstein vai ao encontro quer de Bergson quer de Heidegger: Bergson defende que o tempo não pode ser objecto de ciência, porque é demasiado complexo para a ciência.

Então, porque penso, inversamente, que estamos a entrar num período de reorganização conceptual da física? Porque hoje vemos fenómenos irreversíveis na natureza e compreendemos o papel construtivo destes fenômenos irreversíveis. Vemos formarem-se estruturas, vemos como algumas regiões do espaço estão organizadas pela irreversibilidade” (Ilya Prigogine. O nascimento do tempo. Tradução Marcelina Amaral. Lisboa: Edições 70, 2018, p. 18).

Já Agostinho, antecipando Einstein, entendia que o tempo surgiu com o espaço na criação, concebendo um mundo criado com o tempo, sendo o próprio tempo uma criatura de Deus, ao contrário da visão grega aristotélica, que entendia que o universo fosse eterno.

De todo modo, é válida a concepção de Aristóteles segundo a qual o tempo é o número do movimento segundo o antes e o depois, de modo que o tempo é sempre relativo a algum movimento, alguma coisa, ou fenômeno, determinado transcendentalmente a essa coisa, além de seus limites, que, portanto, são definidos a partir de fora desse movimento, coisa ou fenômeno.

O tempo de vida de uma pessoa é determinado entre o momento de seu nascimento, que marca a temporalidade anterior, e de sua morte, que encerra aquele movimento corporal da pessoa.

Se o indivíduo humano fosse apenas matéria, sua preocupação estaria limitada ao seu tempo de vida corporal, e aí assistiria razão a Heidegger ao sustentar que o homem é um ente voltado para a morte. Essa é uma possibilidade especulativa, mas não a única.

Para os que entendem que somos mais do que nossos corpos perecíveis, há outro tempo existencial, outra espécie de movimento à qual estamos vinculados por pertencermos também, e principalmente, ao Espírito.

Nessa perspectiva, podemos entender que possuímos o tempo da própria criação, ainda que não nos apercebamos disso, porque esquecemos a Verdade. Vale dizer que a palavra “verdade” tem origem no termo grego “alethéia”.

A palavra grega que designa verdade é alethéia, que é um termo privativo, negativo. Ele é uma palavra composta: a significando ‘sem’, e lethe, referindo-se às águas do esquecimento que há no mundo ínfero. Letes é um rio de cujas águas a alma do falecido bebe enquanto deixa a existência terrena e adentra o Hades. Enquanto a alma bebe das águas do Letes, ela esquece a vida anterior.

Isso também transpira no outro extremo do ciclo do nascimento e da morte, do modo como o demonstrou Platão no ‘Mito de Er’ no final da Repúbica. As almas que estão prestes a nascer são requisitadas para beber das águas do Letes a fim de esquecer sua antiga existência celeste, quando entram neste mundo e numa nova encarnação. Essa é uma doutrina órfica que foi adotada por Platão” (Edward F. Edinger. A Psique na Antiguidade: livro um: Filosofia Grega Antiga: de Tales a Plotino. Org. Deborah A. Wesley. Tradução Alípio Correia de Franca Neto e Sandra Maria Franca. São Paulo: Cultrix, 2000, p. 57).

Não precisamos adotar a perspectiva reencarnacionista para compreendermos que possuímos uma existência que transcende nosso corpo físico, porque somos o próprio cosmos manifestando uma consciência, o que permite utilizar a noção grega de verdade, alethéia, como ausência de esquecimento, sem que seja necessário postular que a alma reencarne.

David Bohm desenvolve a ideia de consciência em termos de ordem implicada (A Ordem Implicada – https://holonomia.com/2017/05/22/a-ordem-implicada/), devendo aquela ser compreendida com a realidade como um todo, em uma proposta filosófica que supera o dualismo cartesiano, o qual afirmava haver no mundo a substância pensante distinta da substância extensa, postulando Bohm:

uma nova noção de totalidade indivisível, na qual a consciência deixaria de ser fundamentalmente separada da matéria.

Vamos agora considerar qual a justificativa que existe para a noção de que a matéria e a consciência apresentam a ordem implicada em comum. Primeiro, notamos que a matéria, no geral, é, à primeira vista, o objeto da nossa consciência. Entretanto, como já vimos neste capítulo, várias energias, tais como a luz, o som, etc., estão continuamente envolvendo informações que a princípio se relacionam com todo o Universo da matéria em cada região do espaço. Por meio dese processo, tais informações acabam entrando nos nossos órgãos do sentido, passando pelo sistema nervoso e chegando até nosso cérebro. De modo mais profundo, toda a matéria inclusa em nossos corpos, desde o início, envolve o Universo de algum modo. Será essa estrutura envolvida, de informação e matéria (no cérebro e no sistema nervoso), aquela que primeiramente penetra a consciência?” (David Bohm. Totalidade e a ordem implicada. Tradução Teodoro Lorente. São Paulo: Madras, 2008, p. 203).

A pergunta que encerra a citação tem natureza especulativa, pois não possuímos capacidade tecnológica, por ora, de respondê-la, mas a proposta é sustentada segundo as mais avançadas conclusões da Física do século XX.

De todo modo, a questão da verdade como totalidade esquecida pode ser compreendida, pois à medida que investigamos o mundo material, formando nossa individualidade e nos relacionando com as coisas do mundo externo, à qual ficamos apegados, não conseguimos nos recordar da unidade existencial a que pertencemos, o que é corroborado pela psicologia infantil, ao sustentar que a formação do complexo do ego, pelo qual o indivíduo se relaciona psicologicamente com o mundo, é iniciada nos primeiros meses de vida da criança, porque nos primeiros momentos de vida vivemos uma espécie de unidade inconsciente com o mundo, tal como sugerido por Bohm.

Da perspectiva teológica, de outro lado, caso consideremos pertencer ao Espírito, que está fora do tempo, devemos rever a posição Cristã que somente compreende nossa continuidade existencial para o futuro, para depois da morte, quando a lógica teológica permite nos posicionar existencialmente já na mente de Deus, em seu Espírito, ainda que como potência, antes da criação do mundo. Deve ser ressaltado, entretanto, que na perspectiva aristotélica o infinito não existe em potência, apenas em ato, e que, no tempo, o ato pode ser anterior à potência, pelo que é cabível afirmar nossa existência em ato antes da formação do mundo.

Deus é sempre ato, e é Espírito, e como fomos criados recebendo parte do Espírito de Deus, essa parte é ato desde a formação do tempo, do mundo, pelo que temos um nascimento anterior ao de nossos corpos. Tendo consciência dessa realidade, Jesus pôde dizer, “antes de Abraão ter existido, eu sou” (Jo 8, 58).

Em outra passagem, Jesus nos coloca no princípio, com ele: “Também vós testemunhareis, porque desde o princípio estais comigo” (Jo 15, 27). Vale citar a nota de Frederico Lourenço ao citado versículo:

15, 27 ‘desde o princípio estais comigo’: para João, princípio (arkhê) designa habitualmente o início primordial da Criação. O presente ‘estais’ (esté) corresponde ao verbo ‘ser’ em grego, pelo que uma tradução mesmo literal daria ‘desde o princípio sois comigo’” (Novo Testamento: os quatro Evangelhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 391).

Portanto, da perspectiva Cristã, nosso tempo nasce com criação, e depois, em outro nível, quando encarnamos, quando tomamos forma em um corpo material; e continuamos a existir após a morte, espiritualmente em ato, e materialmente em potência, até que essa uma nova existência material se transforme em um novo corpo, em uma nova criação. “Com efeito, vou criar novos céus e nova terra” (Is 65, 17). “Vi, então, um novo céu e uma nova terra” (Ap 21, 1).

Volto então, ao título do artigo, inspirado no livro com os textos de Ilya Prigogine, relacionando com essa nova criação. Nossa ciência não tem meios de prevê-la, sendo matéria especulativa, mas dentro da visão de Prigogine vivemos em um universo dinâmico, um sistema de não-equilíbrio, regido pela termodinâmica, com fenômenos irreversíveis, sendo possível uma nova criação temporal:

Aqui, ao contrário, um novo nascimento se torna possível, se as condições que permitiram a primeira instabilidade (Big Bang) puderem reproduzir-se. Qual é a densidade de matéria compatível com esta instabilidade? É um cálculo que os meus colaboradores e eu estamos a tentar efectuar: trata-se, provavelmente, de um tempo muito longo, 100 mil milhões de anos. Também podemos imaginar a história do universo como a de uma reacção química explosiva cujos produtos de eliminação impeçam a sua continuação, até ao momento em que forem eliminados e, por isso, uma nova explosão se torna possível.

Reparem que a instabilidade, as flutuações e a irreversibilidade desempenham um papel a todos os níveis da natureza, química, ecológica, climatológica, biológica com a formação de biomoléculas, e finalmente cosmológica” (Ilya Prigogine. O nascimento do tempo. Tradução Marcelina Amaral. Lisboa: Edições 70, 2018, pp. 54-55).

Aplicadas essas ideias ao contexto escatológico Cristão, vale lembrar que o Apocalipse descreve o tempo de mudanças por que passamos, inicialmente em termos de crise social, ecológica e política, até seja estabelecida a era messiânica; vivemos o tempo de tribulação, de instabilidade, que antecede um novo nível de equilíbrio, superior, quando haverá a reorganização conceptual da física, defendida por Prigogine, que inclui uma nova noção de temporalidade, inclusive humana, questões de tamanha complexidade que não podem ser antecipados na posição material humana, somente são conhecidas pelo próprio Deus, o Pai, o criador do tempo.

Naqueles dias, porém, depois daquela tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas estarão caindo do céu, e os poderes que estão nos céus serão abalados. E verão o Filho do Homem vindo entre nuvens com grande poder e glória. Então Ele enviará os anjos e reunirá seus eleitos, dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu.

Aprendei, pois, a parábola da figueira. Quando o seu ramo se torna tenro e as folhas começam a brotar, sabeis que o verão está próximo. Da mesma forma, também vós, quando virdes essas coisas acontecendo, sabeis que Ele está próximo, às portas. Em verdade vos digo que esta geração não passará até que tudo isso aconteça. Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém não passarão. Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, somente o Pai” (Mc 13, 24-37).

Arqueologia e história bíblica

O conhecimento científico é fundamental para a correta interpretação da realidade, o que inclui a efetiva história narrada nos textos bíblicos, os quais mesclam memórias passadas de geração em geração, unindo narrativas fragmentadas sob uma perspectiva cosmológica, ou seja, dentro de uma cosmovisão de mundo, além de visões e inspirações de pessoas especiais.

Nesse sentido, uma leitura meramente literal do Gênesis, por exemplo, não é adequada ou correta, como ocorre em certos setores cristãos que ainda entendem que a idade da Terra é de poucos mil anos, havendo até mesmo um museu nos EUA, o Museu da Criação, com dinossauros mecânicos no Jardim do Éden, com humanos.

Assim, necessária uma compreensão inteligente e espiritual dos textos sagrados, para seu correto entendimento, como expus no artigo “Pecado Original” (https://holonomia.com/2017/11/09/pecado-original/), interpretando a Queda em termos políticos e sociais:

Nesse ponto, há que se considerar que o Gênesis traz uma descrição um tanto resumida e simbólica de um passado da humanidade, podendo ser considerada alguma forma de evolução da vida até que surgissem os primeiros grupos humanos. E essa hipótese encontra respaldo até mesmo pelo que é dito no Gênesis, pois a oferta de Caim e Abel já significava uma cerimônia religiosa, não explicada no texto da Escritura, possivelmente dentro de uma comunidade, quando ocorreu a preferência de Iahweh pela oferenda de Abel. E logo após o fratricídio, quando havia sido noticiada somente a existência de Adão, Eva, Caim e Abel no texto sagrado, constou que ‘Caim se uniu à sua mulher, que concebeu e deu à luz Henoc’ (Gn 4, 17).

Portanto, a melhor interpretação dos textos sagrados, conjugada com os conhecimentos científicos modernos, pois a existência da mulher de Caim faz presumir a de outras pessoas no planeta no tempo de Adão, leva à aceitação de um grupo humano primitivo, podendo ser entendido que Adão era o líder dessa coletividade, um líder político e religioso, um rei sacerdote que violou seu compromisso com a comunidade, contrariando os interesses da coletividade para um benefício individual, de sua família, quando o egoísmo superou o dever.”

Será muito difícil resgatar os fatos históricos dos períodos mais antigos narrados na Bíblia, principalmente no tempo anterior ao Dilúvio, evento este narrado nas mais diversas culturas do planeta, como no Irã, pela narrativa de Gilgamesh, o mesmo na Grécia, dizendo que Poseidon inundou a Terra.

Para o período mais, recente, contudo, a Arqueologia tem se mostrado frutífera, apontando para a existência real de personagens bíblicos como o rei Davi, mesmo que não haja comprovação material de um reinado portentoso narrado nas Escrituras.

Em 1993, por exemplo, foi encontrado um artefato com a inscrição “casa de Davi”, em Tel Dan, no norte de Israel:

A parte mais importante da inscrição é a descrição de Hazel, vangloriando-se de seus inimigos:

(Eu matei Jo)rão filho de (Acab), rei de Israel, e (eu) matei (Ocoz)ias filho de (Jeroão, re)i da casa de Davi. E eu transformei (suas cidades em ruínas e converti) suas terras em (desolação).

Esta é a uma evidência cabal da fama da dinastia davídica menos de cem anos depois do reinado de Salomão, filho de Davi. O fato de que Judá (ou talvez sua capital, Jerusalém) é referida apenas como uma menção à casa regente é evidência clara de que a reputação de Davi não foi uma invenção literária de um período muito posterior” (Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman. A Bíblia desenterrada: a nova visão arqueológica do antigo Israel e das origens nos seus textos sagrados. Tradução Nélio Schneider. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018, p. 137).

Dando credibilidade ao texto citado, vale dizer que os autores do livro têm como prioridade histórica o conhecimento arqueológico, em detrimento, em caso de conflito, da literalidade das narrativas bíblicas. A tese do livro é no sentido de que a formação definitiva do texto bíblico se consolidou no tempo do rei Josias, no século VII a.C, dentro de uma leitura deuteronomista da história, e com destaque para a linhagem de Judá.

Desse modo, alguns eventos narrados na Bíblia ocorridos há três mil anos estão devidamente comprovados pela ciência secular, e ainda assim algumas pessoas continuam questionando a existência histórica de Jesus Cristo, em relação ao qual as únicas dúvidas científicas ateias que podem ainda ser suscitas são quanto ao exato teor de suas palavras e a respeito de sua efetiva ressurreição. Sobre o último ponto, também não há controvérsia sobre o fato de que várias pessoas narraram ter visto Jesus vivo após sua crucificação, e continuaram sustentando essa narrativa mesmo com a perseguição do maior império da história do Planeta, pelo que: ou os seguidores de Jesus eram loucos; ou estavam convictos até a morte de que diziam a verdade.

Que Jesus existiu e que era um judeu com uma mentalidade próxima daquela dos essênios, mas com particularidades teológicas próprias, disso qualquer pessoa com a mínima honestidade intelectual não pode ter dúvidas.

A respeito do conteúdo da Bíblia, Carl Jung e, atualmente, Jordan Peterson, defendem a existência de verdade científica nas Escrituras, do ponto de vista da Psicologia.

Hegel, por sua vez, reconhece a verdade filosófica por trás das narrativas bíblicas, ainda que faça uma interpretação própria do seu significado.

Jürgen Habermas também credita adequadamente os valores judaico-cristãos para a formação histórica da moderna noção de direitos humanos, fato este que deve ser tido como cientificamente verdadeiro.

Desta feita, negar a posição de destaque da Bíblia para o melhor da vida humana atual é negar a própria racionalidade, é defender o indefensável.

Em nenhum outro lugar do mundo antigo foi inventada uma saga compartilhada tão poderosa: as epopeias e os mitos gregos falavam somente por meio de metáforas e exemplos; as epopeias religiosas mesopotâmicas e persas ofereceram segredos cósmicos, mas nenhuma história terrena nem um guia prático para a vida. A Bíblia Hebraica ofereceu ambos, suprindo um quadro narrativo em que cada judeu podia identificar tanto a história da família quanto a história nacional. Em suma, a saga de Israel, que se cristalizou pela primeira vez na época de Josias, tornou-se o primeiro pacto nacional e social do mundo plenamente articulado que englobou homens, mulheres e crianças, os ricos, os pobres e os desamparados de toda uma comunidade” (Bíblia desenterrada, p. 318).

Com a mensagem de Cristo, rejeitada pelos judeus nacionalistas, a histórica bíblica se fundiu à do resto do mundo, transformando-se na narrativa comum da humanidade, o que está implícito no texto, porque este não chega a falar de Jesus de Nazaré:

O poder da saga bíblica provém de ela ser uma narrativa atraente e coerente, expressão dos temas atemporais da libertação de um povo, da continuada resistência à opressão e da busca por igualdade social. Ela expressa de modo eloquente o sentido profundamente arraigado das origens, das experiências e do destino comum que toda comunidade humana necessita para sobreviver” (Idem, p. 320).

A humanidade passa por momentos cruciais para sua existência e seu futuro, do que são exemplos as mudanças climáticas, a iminente crise econômica internacional e os riscos de novos conflitos bélicos de grandes proporções, pelo que é inevitável e urgente que a cosmovisão bíblica seja devidamente conhecida e reconhecida, por sua importância essencial para o destino humano, de modo que, então, o pacto social com proeminência espiritual, que é o Cristianismo, seja o fundamento da prática social, e mesmo científica.

Cristianismo: a filosofia da ordem

A filosofia estuda o ser, aquilo que sempre é, formulando as categorias pelas quais esse ser pode ser apreendido intelectualmente. Na era grega, o alvorecer da civilização ocidental, o materialismo entendia que o que sempre é seria o átomo, indivisível, imutável e indestrutível; tendo Platão sido o grande defensor de uma realidade das ideias perenes, aquilo que sempre é. Foi Aristóteles, um discípulo de Platão, por sua vez, quem começou a desenvolver as ciências naturais e empíricas como a conhecemos, como consequência de suas ideias filosóficas.

A ciência, de seu lado, tem por objeto o estar, um determinado aspecto do ser, ao qual está sempre vinculado, a partir das categorias desenvolvidas pela filosofia, até que essas categorias sejam falseadas, ou seja, até que sejam apontadas contradições entre as categorias, ou entre estas e a realidade, o que exige sua reformulação, isto é, uma nova elaboração dos conceitos fundamentais, pelo conceito dos conceitos, atribuição da filosofia.

Toda ciência, dessa forma, é uma filosofia aplicada, porque a concreção de conceitos filosóficos, ou categorias, sua experimentação na natureza, realizando um corte espaço-temporal do ser para sua apreensão racional, que é um estado específico, um estar, do ser. O corte espaço-temporal ocorre pela abstração de diversas qualidades do mundo, que não são analisadas na experimentação, porque esta é reducionista, tem foco restrito, pela impossibilidade material de se fazer uma abordagem, inclusive matemática, integral e simultânea da realidade natural.

A experimentação científica se refere a um ponto específico da natureza, tirado do todo do qual é abstraído, dando a essa parte uma concretude própria, com aparência de realidade, mas que, na verdade, como tal, não passa de uma ficção, porque a realidade concreta e verdadeira é a totalidade, com todas as suas qualidades e características interligadas, que, no mundo real, autêntico, não podem ser afastadas, porque não existem sistemas isolados, criados pelo homem ou no mundo natural, sendo a abstração, a limitação experimental, um mero artifício provisório, e, nesse sentido, artificial, com perda das características naturais, com a função pedagógica de explicar um aspecto aproximado de um fenômeno complexo e indivisível, incindível, sob pena de perda de sua substância, sob pena de transformar a realidade viva em natureza morta.

O corte experimental, ou medição, fato demonstrado pelo princípio da incerteza de Heisenberg, dessarte, acarreta uma perda de conhecimento material do mundo, relativa ao que é deixado de lado na opção metodológica do cientista, e essa perda não pode ser compensada por conhecimento material, ainda por aplicação do princípio da incerteza, sendo a Filosofia, Metafísica ou Teologia a única cola racional com possibilidade de restaurar a unidade do conhecimento, permitindo conectar novamente, de forma inteligível, a parte ao todo do qual foi extraída. A ciência, por isso, é dependente da Filosofia e seus conceitos fundamentais.

Assim, Kant estava parcialmente correto ao dizer que nosso conhecimento científico é dependente das categorias e fenomênico, porque incapaz de alcançar a plenitude da coisa em si, mas aquele conhecimento, de outro lado, se refere, efetivamente, a um aspecto da coisa, da realidade em si, do mundo numênico, ainda que limitado, parcial, e que somente pode ser interpretado e compreendido corretamente dentro do contexto da totalidade que integra, dada pela Filosofia, contexto a partir do qual referido conhecimento deve ser considerado, para que seja aprimorado.

A separação entre o mundo numênico e fenomênico, outrossim, pode ser total ou nenhuma. Total quando o objeto de conhecimento é tomado em si e por si, isolado do todo a que pertence, como a própria realidade última. Inexistente, por sua vez, quando compreendido o fenômeno em seu contexto numênico, quando presentes a aceitação da limitação cognitiva da realidade pela sua apreensão fenomênica e, ao mesmo tempo, a abertura dessa mesma cognição à totalidade existencial, pela relação simbólica (inteligível) e psicológica (sensorial e anímica) entre a parte e o todo, de modo que haja a devida significação da transcendência que está presente na parte, para que esta sempre aponte intelectual e materialmente para o todo que integra.

Por isso, o Cristianismo é a melhor forma de apreensão intelectual da realidade, é a melhor filosofia possível, porque tem como princípio fundador do mundo o Logos, que está presente no mundo, com o qual interagimos, por meio do próprio Logos em nós.

O Cristianismo pressupõe uma lógica universal, desenvolvendo suas categorias e suas relações, e, então, redescobre que essa lógica, suas categorias e suas relações estão presentes na natureza. O homem busca o Logos no mundo, relacionando-o ao Logos em si, por categorias que são projetadas no mundo, e reformuladas, dialeticamente, mantendo uma unidade do Logos. Nesse sentido, a ordem da natureza, investigada pela ciência, transcende os próprios aspectos materiais da natureza, porque integralmente existente e presente no princípio da formação do mundo, como Logos eterno, quando o que nós conhecemos por natureza existia apenas como potência, como gérmen, sendo permitido, pela adoção das corretas categorias filosóficas, que são também teológicas, a contemplação dessa realidade transcendente, e dessa ordem imanente, o que, em certo aspecto, é a finalidade da ciência natural, a qual, na vertente materialista atual, todavia, remete não para a ideia platônica, ou para Deus, ou o Logos, mas para o multiverso, uma realidade com a qual, por definição, não temos possibilidade de contato.

Kant, por razões teológicas, desenvolveu categorias incompletas, e por isso não são adequadas à realidade física atual, na medida em que os conceitos da relatividade e da orgânica quântica representam uma nova reformulação dos conceitos kantianos fundamentais, para trazer para o mundo, na linha adotada por Hegel, homem e natureza, o Espírito Absoluto, ou Logos.

Mesmo o materialismo, com seu multiverso, também é dependente de razões teológicas.

Já afirmei anteriormente neste capítulo que é o cúmulo da irracionalidade postular um número infinito de universos que nunca fossem causalmente conectados uns com os outros apenas para evitar a hipótese do teísmo. Dado que a simplicidade determina a probabilidade prévia e uma teoria é mais simples quanto menos entidades ela postular, é muito mais simples postular um Deus que um número infinito de universos, cada um diferindo do outro de acordo com fórmulas regulares, não causado por qualquer outra coisa” (Richard Swinburne. A existência de Deus. Trad. Agnaldo Cuoco Portugal. Brasília, DF: Academia Monergista, 2019, p. 216).

O materialismo moderno, portanto, é uma filosofia da desordem, e viola claramente a Navalha de Occam, princípio filosófico segundo o qual a explicação mais simples de um fenômeno, que exige o menor número possível de hipóteses, deve ser a preferencial, para que não sejam criadas premissas desnecessárias.

Desse modo, o teísmo, em sua vertente mais difundida, que é o Cristianismo, por uma análise hegeliana aprimorada, é a filosofia da ordem mais adequada, bem como o fundamento da ciência, e, portanto, salvo para os que preferem ficar criando mundos apenas para tentar fugir da responsabilidade do inevitável encontro com Deus, deve ser a origem das categorias científicas e, principalmente, da prática tanto científica, propriamente dita, como social, incluídas, pois, nessa vertente lógica e racional, as chamadas ciências humanas ou do espírito.

Se aceitares, meu filho, minhas palavras e conservares os meus preceitos, dando ouvidos à sabedoria, e inclinando o teu coração ao entendimento; se invocares a inteligência e chamares o entendimento; se o procurares como o dinheiro e o buscares como um tesouro; então entenderás o temor de Iahweh e encontrarás o conhecimento de Deus. Pois é Iahweh quem dá a sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o entendimento” (Pr 2, 1-6).

Encruzilhada cultural

Mais uma batalha da guerra cultural ocorreu na última semana, em que um vídeo do Secretário de Cultura, Roberto Alvim, com referência a uma determinada fala de um nazista destacado, levou à sua demissão do cargo.

As referências a uma manifestação específica de Goebbels são inequívocas, mas daí a concluir, por si só, que houve a intenção de restaurar o pior do nacional-socialismo, o que é de todo reprovável, já é uma precipitação. Nesse ponto, muitos dos que defendem ferrenhamente a presunção de inocência até o trânsito em julgado foram os primeiros a condenar, de plano, a conduta do cidadão, sem ouvi-lo e sem a menor investigação sobre suas possíveis intenções.

Os que condenaram sumariamente Roberto Alvim, sem processo e sem defesa, se usassem a mesma argumentação, deveriam exigir a cassação do registro de determinados partidos políticos expressamente vinculados à ideia comunista, que causou dezenas de vezes mais mortes do que o nazismo, valendo destacar que ambos os movimentos, comunismo e nacional-socialismo (nazismo), foram e são desastrosos, como são muito próximos em termos ideológicos, fato provado, pelos critérios usados para reconhecer a culpa de Roberto Alvim, pelo documentário “A verdadeira história soviética” (https://www.youtube.com/watch?v=pMx8SHzhk1U&has_verified=1), com a descrição: “A verdadeira origem da loucura nazista, mostrada neste documentário. Isso é uma amostra do que o futuro reserva para os simpatizantes de doutrinas vermelhas”. Toda pessoa que ridiculariza a ideia segundo a qual o nazismo foi “de esquerda” deveria assistir a esse vídeo; são oitenta e cinco minutos com capacidade de mudar a compreensão de uma pessoa sobre as ideias dos últimos dois séculos que devastaram, em escala industrial, a humanidade no século XX.

Deve ser ressaltado que as ideias humanas estão ortodoxamente equivocadas desde o dogma, desde o século IV, quando o conceito de encarnação do Logos foi indevidamente limitado, por uma má interpretação da mensagem de Cristo, o Evangelho do Messias Judeu. O resultado dessa teologia enviesada está na doutrina política dos séculos seguintes, rejeitando a realização da era messiânica, do Reino de Deus, na história, o que permitiu, em última análise, o desenvolvimento das propostas comunista e nazista.

Na filosofia recente, as consequências de tal equívoco podem ser encontradas nos grandes filósofos, do iluminismo e do período posterior. Hoje ouvi uma exposição muito interessante, com o título “Ernst Cassirer – Kant, Hegel, & Heidegger” (https://www.youtube.com/watch?v=_64aTGDVH0E), em que é destacada a volta ao pensamento kantiano e seu idealismo transcendental como uma alternativa ao mecanicismo materialista e à metafísica hegeliana.

Na guerra cultural, que é também filosófica, portanto, há uma vertente materialista, de um lado, e uma relacionada ao cristianismo, de outro lado, na medida em que tanto a filosofia de Kant como a de Hegel são estruturadas a partir de uma concepção teológica do mundo, associada às ideias cristãs.

Para superar a encruzilhada cultural que vivemos, outrossim, é indispensável a compreensão do centro da cruz, o judeu crucificado por se comportar como um rei e um sacerdote, por ser o ungido pelo Deus de Israel, e por isso O Messias, e seus significados teológicos, filosóficos e científicos.

Na interpretação teológica do cristianismo, considerando as filosofias de Kant e Hegel, entendo a proposta do último mais adequada, no sentido de ser possível algum conhecimento da coisa em si, da realidade numinosa que o kantismo entende incognoscível, e pela ideia de realização do Espírito na história humana. Vejo a filosofia de Kant como a do peixe sobre sua realidade, ignorando sua imersão no oceano, pois todo conhecimento parte de alguma relação cognitiva do sujeito com a coisa em si, mínima que seja, sem a qual o entendimento da coisa é impossível.

Nesse sentido, todo conhecimento humano a priori é a posteriori, é resultado do contato espiritual com a coisa em si, pelo que não há que se falar em juízo sintéticos a priori fora de uma relação entre o temporal e o eterno, na medida em que nosso conhecimento é formado dentro da temporalidade, enquanto as categorias se referem ao início mais remoto da temporalidade, valendo para uma espécie de eternidade temporal, como reflexo da atemporalidade permanente. Assim, o juízo sintético, referente à eternidade temporal, somente é possível quando relacionado a uma atemporalidade permanente, que confere unidade sintética àquele juízo, pois sem a concepção de alguma permanência, que dá base à unidade cognitiva, não há como ser concebida a própria ideia de síntese, que liga o princípio ao fim, o alfa ao ômega.

Voltando, para concluir, ao vídeo de Roberto Alvim, sua defesa não é destituída de fundamento (https://www.youtube.com/watch?v=AEeFlIr0d7I), sendo possível interromper uma conexão simbólica parcial para não adotar todo um ideário relacionado àquela ideia, por mais que seja complexa, mas não impossível, essa desvinculação. Caso contrário, dever-se-ia rejeitar, por completo, tudo o que Heidegger escreveu, diante de sua associação com Hitler, conforme trecho de uma carta enviada a seu irmão Fritz Heidegger:

Caro Fritz, parece que a Alemanha despertou, compreendeu seu destino. Gostaria que lesses o livro de Hitler, fraco nos capítulos iniciais autobiográficos. Já ninguém mais pode negar que este homem possui, e sempre possuiu, um seguro instinto político, quando todos nós ainda estávamos obnubilados. O movimento nacional-socialista crescerá no futuro, com novas forças adicionais. Já não se trata da mesquinha política de partido – trata-se antes a salvação ou do ocaso da Europa e da cultura ocidental” (http://www.ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/561279-o-nazismo-segundo-heidegger-hitler-desperta-nosso-povo).

Portanto, é deveras complexa a situação da encruzilhada cultural em que nos encontramos, e é somente por meio de uma profunda e constante vigilância racional dos símbolos que nos rodeiam, através da atenção da consciência aos espíritos que nos influenciam, que poderemos vencer a barreira de ignorância, incoerência e irracionalidade que insiste em se colocar entre nós e a Verdade que pretendemos alcançar, porque, de fato, “a cultura é a base da pátria, e quando a cultura adoece, o povo adoece junto”, sendo necessário desenvolver, sim, uma cultura relacionada a “nossos mitos fundantes: a pátria, a família, a coragem do povo e sua profunda ligação com Deus”, o Deus de Israel, pai do judeu Jesus.

Somos filhos da terra, somos filhos de Deus, por causa do Messias, do judeu rejeitado pelos judeus:

Veio para o que era seu e os seus não o receberam. Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que creem em seu nome, ele, que não foi gerado nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1, 11-13).

Um dos passos fundamentais para superamos a encruzilhada em que estamos, finalmente, é o reconhecimento, pelos judeus, que há uma causalidade filosófica, histórica e material entre a vida de Jesus, seu Messias, sua salvação pelo mundo ocidental, que impediu que a “solução final” fosse concluída, e seu retorno profético à Terra Santa.

Isso é Teologia, é Filosofia, é Ciência e, por que não, Cultura.

A terceira guerra mundial é necessária?

O absurdo do questionamento sobre a necessidade de uma guerra mundial deve levar o leitor a indagar qual o destino do atual movimento planetário das pessoas e das nações. Considerando a situação existente na política internacional, pode-se afirmar que a terceira guerra mundial é circunstancialmente necessária, em virtude de estruturas de ideias equivocadas que prevalecem no pensamento global e que levam nossa civilização a esse conflito.

Os paradigmas mentais, filosóficos e políticos dominantes conduzem à guerra, como ocorreu em 1914 e persiste no panorama mundial atual, não porque a guerra seja um componente necessário desses paradigmas, mas pelo fato de que, como todo paradigma, eles tendem à expansão máxima, e por isso entrarão em necessário conflito uns com os outros, que não será solucionado por meio do diálogo e da razão, com prevalência da maior racionalidade, como desejado pela inteligência média, para o que seria necessária a renúncia de alguns de seus elementos essenciais, muitas vezes irracionais, associados a interesses de grupos de poder, sacrifício esse que historicamente não ocorreu de forma voluntária e pacífica em situações desse jaez, porque a força bruta da guerra sempre foi adotada como opção remanescente em confrontos entre nações, em detrimento da construção consensual de uma solução para a controvérsia.

Enquanto a guerra for uma possibilidade estratégica considerada minimamente legítima, mais cedo ou mais tarde, em razão de uma crise ou outra, ela será transformada em realidade. Daí porque é necessária uma mudança de mentalidade, e também das instituições internacionais, porque, assim como a Liga das Nações, a ONU fracassou em sua missão de produzir paz, e não há perspectiva real de mudança do Conselho de Segurança sem uma guerra mundial, dada a flagrante improbabilidade de os países com poder de veto, voluntariamente, abrirem mão de parcela de seu poder pela aceitação de novos membros na elite daqueles que integram referido Conselho.

Como já exposto no artigo “A guerra em curso” (https://holonomia.com/2019/10/26/a-guerra-em-curso/), existe um componente de irracionalidade no comportamento humano que somente pode ser extirpado com grande esforço, que muitas pessoas e nações não estão dispostas a fazer, pelos custos pessoais e financeiros exigidos para tanto.

Evoluindo as ideias do texto citado no parágrafo anterior, tendo em vista os recentes acontecimentos internacionais envolvendo EUA e Irã, pode-se dizer que a guerra em curso avançou no aspecto bélico, e a tendência é a situação se agravar. Nesse sentido, o sítio “Últimos Acontecimentos” (https://www.ultimosacontecimentos.com.br/) atualizou seu Alerta de Guerra Global para o Alerta Laranja após a morte do líder militar iraniano pelos EUA.

Ainda que os analistas e profissionais da imprensa indiquem que não há elementos para se prever uma guerra mundial, deve ser lembrado que os pressupostos intelectuais e psicológicos desses comentaristas não incluem a questão espiritual em disputa, limitando-se aos aspectos materiais da questão. Para a mentalidade secular e materialista, não há sentido na História, e os fenômenos ocorrem por acaso, em termos ontológicos, não havendo uma ordem subjacente de mundo a influir na situação internacional, pelo que o conflito também é contingente.

Contudo, tanto para os EUA, na pessoa de seu atual presidente, e de grande parte de sua população, como para o Irã, há o aspecto imaterial, religioso, espiritual como um componente necessário da questão. O terrorismo e a guerra contra o terror estão ligados à batalha do Bem contra o Mal, o que extrapola em muito a mera ideia secular de legalidade, tanto é que a ação terrorista não conhece limites legais, o que também vem sendo a prática da guerra ao terror, que não respeita fronteiras internacionais ou soberanias, e cujo limite é o interesse sensível de uma potência nuclear que possa se sentir atingida por alguma ação antiterror.

Do ponto de vista do Monoteísmo, em suas várias interpretações, existe um sentido espiritual na História, revelado à humanidade pelos profetas do Único Deus, mas o sectarismo religioso leva a projetos existenciais conflitantes, por exemplo, de uma parte do pensamento islâmico defendendo a eliminação de Israel da face da terra e de uma parte do mundo judaico-cristão sustentando a construção do terceiro templo no local conhecido como Esplanada das Mesquitas, tendo sido assinado o livro de adesão à referida construção tanto por Trump quanto por Bolsonaro.

Considerando a leitura profética da História, tal visão de mundo está associada a uma interpretação determinista da realidade, pela qual os profetas têm acesso intelectual a eventos que ocorrerão no futuro, ainda que o correto entendimento sobre o significado desses acontecimentos possa estar oculto até mesmo para os próprios profetas que os anteciparam.

E se o mundo é determinista, se há uma ordem subjacente absoluta, se há verdade na profecia bíblica, haverá uma terceira guerra, ou pelo menos o seu início, envolvendo Irã e Israel, segundo uma determinada leitura das Escrituras, compatível com a realidade atual, o que ocorrerá no norte de Israel, nas proximidades do que era o Monte Megido, local que também poderá ser interpretado, de outro lado, figurativamente.

Os eventos recentes, em conexão histórica com o que já foi profetizado e realizado nos últimos dois mil anos, apontam para essa realidade e, consequentemente, para a verdade ontológica das profecias bíblicas, em sua correta interpretação. Sobre este ponto, entretanto, sobre a correção do entendimento dos textos sagrados, vale a advertência escritural:

Temos, também, por mais firme a palavra dos profetas, à qual fazeis bem em recorrer como a uma luz que brilha em lugar escuro, até que raie o dia e surja a estrela d’alva em nossos corações. Antes de mais nada, sabei isto: que nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas homens, impelidos pelo Espírito Santo, falaram da parte de Deus” (2Pe 1, 19-21).

Portanto, a correta interpretação das profecias bíblicas é uma questão delicada, porque não decorre de vontade humana, mas da influência do próprio Logos, a Inteligência Divina, que escapa aos principais paradigmas mentais atuais da humanidade, tanto os do mundo judaico-cristão como do pensamento islâmico.

De minha parte, entendo que existe uma Ordem Absoluta na realidade e que existe um Espírito que é santo, isto é, existe uma ação santa conforme essa Ordem Absoluta, sendo nosso dever, como seres inteligentes, elevar constantemente nossas ações a essa Ordem segundo o Seu Espírito, pelo exemplo dado por Jesus Cristo, o ser humano que encarnou esse Espírito de modo perfeito na Humanidade, com mansidão, humildade e submissão ao Logos.

Como essa hipótese não é aceita pela prática internacional, e quando aceita não é adequadamente realizada, tanto pelas pessoas como pelas nações, até que todo joelho se dobre no céu e na terra, isto é, na teoria científica e na prática social, aos mandamentos de Cristo, que são os mandamentos de Deus, que é a Razão, Logos ou Lei da Natureza, continuaremos caminhando a passos largos para a guerra mundial, e para a destruição e o sofrimento humanos que lhe são inerentes.