Interferência mental

O experimento da fenda dupla (https://www.youtube.com/watch?v=GXAYW4a3OZY) é um marco na definição da realidade a partir da física quântica, segundo o qual o elétron interage consigo próprio ao atravessar a dupla fenda, o que demonstra sua natureza ondulatória.

A expressão relativística E=mc² também indica a conversibilidade entre matéria e energia, apontando para uma natureza fluida das coisas.

O resultado do experimento da fenda dupla apresenta a formação de bandas ou padrões de interferência, com regiões claras e escuras na tela ou placa de medição do aparato, as primeiras regiões são aquelas em que as ondas se somam (pela incidência simultânea de cristas ou vales) e as últimas decorrem da anulação de uma onda por outra (quando uma crista e um vale coincidem).

O resultado desse experimento é um enigma até para os físicos e demonstra a incompreensão da ciência humana sobre a realidade última das coisas, pois os menores componentes das coisas possuem dupla natureza, corpuscular e ondulatória, e como tudo no mundo é constituído desses mesmos componentes as próprias coisas que conhecemos, em todos os níveis, têm natureza dupla e estão sujeitas à interferência.

A aplicação da interferência aos processos mentais, enquanto fenômenos inteligíveis, e aos pensamentos é uma conclusão lógica do experimento da fenda dupla, pois ao menos parte da experiência mental se refere à atividade eletromagnética do cérebro, ainda que esta atividade cerebral não esgote a função mental em seu nível mais sutil e, talvez, imaterial.

É muito provável que o Espírito tenha uma natureza mais sutil do que a matéria conhecida, podendo ser considerado, por isso, imaterial. De todo modo, enquanto encarnado, o Espírito está sujeito à influência material que recebe pelos sentidos corporais, como consequência da própria encarnação, pelo que, dessa forma, a atividade mental, fazendo associação entre coisas, fenômenos e ideias, também pode receber interferência da natureza ondulatória do universo conhecido.

Mesmo o pensamento humano pode ser considerado um processo de interferência, em que ideias interferem, interagem, umas com as outras e consigo próprias, notadamente em casos de duplicidade de sentido.

O pensamento, assim, nada mais é que a interferência de ideias, tanto entre as decorrentes de sensações, frio, quente, amargo, suave, áspero, como com as ideias mais abstratas já originadas no próprio pensamento. O pensamento é a associação de experiências significantes e simbólicas, em que os signos e os símbolos se qualificam uns aos outros, quando ocorre interferência mental, interferência inteligível.

Pensar é, pois, produzir interferência significativa e simbólica, aumentando quantitativa e qualitativamente os signos e os símbolos usados para a descrição do mundo e para a comunicação, segundo a razão, conforme o Logos, a Palavra, a Narrativa mais completa possível de todas as coisas.

No âmbito jurídico, do mesmo modo, à descrição de um fato ou fenômeno físico, um movimento humano, já em si simbólico no âmbito da linguagem que expressa uma materialidade, é acrescida ou sobreposta uma outra descrição, mais qualificada, do mesmo fato ou fenômeno, com uma valoração jurídica, e assim o fato natural se torna fato jurídico. Nesse sentido o símbolo jurídico interfere com o símbolo natural, qualificando-o, dando-lhe nova significação.O jurídico é um símbolo que adere ao fato, por interferência, modificando-o qualitativa e simbolicamente.

Desse modo, o âmbito jurídico é sujeito à interferência mental, uma interferência sutil pela qual uma visão de mundo qualificada incide sobre outra visão de mundo menos qualificada, causando interferência de um símbolo sobre outro, com uma superposição ideológica de ideia sobre ideia, com significação inteligível. Assim, a interferência mental ou simbólica qualifica os fenômenos como inteligíveis dentro de determinada inteligibilidade do mundo, dentro de uma cosmovisão simbólica ou descrição filosófica da realidade.

O Cristianismo, nesse sentido, enquanto cosmovisão simbólica e como descrição filosófica da realidade, ligando os homens significativa, física e espiritualmente entre si e unindo a humanidade a Deus, como Logos, como Unidade da Razão Universal, com sua qualificação moral e jurídica dos fenômenos naturais e humanos, é uma das formas de interferência mental que incide sobre as ideias e eventos do mundo.

O Cristianismo, como visão religiosa do cosmos, possui uma simbologia da totalidade, uma totalidade que é invisível, que transcende a aparência visível. A inteligibilidade espiritual é inteligibilidade inteligida, é como atravessar uma ponte pela qual primeiro se passa por ela, e depois se a constrói, já estando ela construída.

As visões de mundo materialistas podem ser consideradas mais limitadas que o Cristianismo, ao não aceitarem a conexão espiritual entre os fenômenos, interpretando-os segundo suas aparências visíveis.

A civilização contemporânea sofre grande interferência mental do materialismo, em que o consumismo fútil, o prazer corporal, a irresponsabilidade social e planetária exercem ação influindo sobre o comportamento das pessoas, nos níveis individual e coletivo, estimulando as práticas egoístas, consciente e inconscientemente.

Como compreensão mais elaborada do mundo, o Cristianismo aponta para uma realidade mais ampla e mais sutil, que não é capaz de ser compreendida pela visão materialista de mundo, pois assim como a observação do elétron o caracteriza como corpúsculo, desfazendo o campo e a interferência ondulatória, a visão material do mundo prejudica a compreensão de sua natureza energética, ondulatória e espiritual. O olhar materialista é um olhar limitado, que não alcança o melhor potencial da natureza, apegando-se à observação sensível, em detrimento da compreensão mais profunda e completa dos fenômenos.

Apenas a qualificação espiritual dos fenômenos permite a inteligibilidade da sua realidade espiritual, com a interferência mental consciente sobre a descrição mais sutil e completa da realidade.

O Cristianismo revela uma interferência do Espírito de Deus, da Ideia eterna, sobre a humanidade e a vida das pessoas, a encarnação do Logos infinito no homem, significando as atitudes não apenas pela vida corporal, mas incluindo nos comportamentos uma perspectiva infinita, ligada à eternidade.

Não te envergonhes, pois, de dar testemunho de nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro; pelo contrário, participa do meu sofrimento pelo evangelho, confiando no poder de Deus, que nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não em virtude de nossas obras, mas em virtude do seu próprio desígnio e graça. Essa graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, foi manifestada agora pela Aparição de nosso Salvador, o Cristo Jesus. Ele não só destruiu a morte, mas também fez brilhar a vida e a imortalidade pelo evangelho, para o qual eu fui constituído pregador, apóstolo e doutor” (2Tm 1, 8-11).

O Cristianismo restaura a interferência da eternidade sobre a vida humana,  prejudicada pela Queda, conduzindo a vida e o comportamento das pessoas para o infinito, para esta vida e para além do tempo corporal de cada um de nós.

Para além da mera interferência mental de uma visão materialista e limitada da realidade e seus símbolos parciais das coisas, o Cristianismo permite a compreensão de uma razão absoluta da totalidade cósmica, mais qualificada, ininteligível segundo a limitação da racionalidade material, que não alcança a ontologia profunda da totalidade cósmica, ou da crucificação de Jesus Cristo e do martírio dos santos, mas que, na Verdade, é a própria inteligibilidade, enquanto Logos eterno que permite a racionalidade material e provisória, mas a supera, exercendo interferência mental sobre aqueles que elevam o pensamento até o Espírito Absoluto, em sua imaterialidade e eternidade, unindo suas mentes à mente de Deus, na interferência mental que realiza a Santíssima Unidade da criatura com o Criador, pelo Espírito Santo de Deus, o Campo Cósmico eterno, em que toda diferença e toda separação é apenas aparente, quando Deus interfere consigo próprio em sua criatura.

Monoteísmo: A Santíssima Unidade

O Cristianismo é uma religião monoteísta, que sustenta sua teologia na existência de um único Deus Supremo, segundo a linha judaica, que professa a adoração do Deus Todo-Poderoso, Iahweh.

Contudo, no curso da história houve a criação de uma teoria de que Deus seria uma trindade, o que não possui suporte bíblico, derivando das ideias platônica e pitagórica dos números e da indevida interferência política na religião.

No Timeu, Platão afirma que a forma básica de todas as coisas é o triângulo.

Em primeiro lugar, estou certo quanto a poder presumir que todos estão cientes de que o fogo, a terra, a água e o ar são corpos; além disso, a forma corpórea de tudo possui também profundidade. Que se acrescente que é absolutamente necessário que a profundidade seja limitada por uma superfície plana, e que a superfície retilínea é composta por triângulos” (In Timeu e Crítias ou A Atlântida. São Paulo: EDIPRO, 2012, p. 85).

Assim, Platão coloca os triângulos na base dos “princípios de origem do fogo e dos outros corpos” (Idem, p. 86), e certamente a influência platônica sobre o cristianismo primitivo levou à criação da ideia de trindade, tornando-se integrante do cristianismo desde então.

Jesus Cristo, um judeu, não estabeleceu uma religião trinitária, nem uma adoração a si próprio, e esse tema é um dos mais caros, senão o mais caro, do Cristianismo, ou seja, definir a natureza de Jesus Cristo.

O trinitarismo é uma ideia que mais prejudica do que ajuda o Cristianismo, na medida em que permite uma confusão mental sobre a adoração do Deus Verdadeiro, o Pai Celestial.

Essa questão remonta aos primórdios da fé cristã, ao Concílio de Niceia, do ano de 325, quando foi definido o credo cristão. O grande problema consistiu no fato de que a realização de tal Concílio foi determinada pelo imperador Constantino, que sequer era batizado, na medida em que seu batismo ocorreu no seu leito de morte, no ano de 337.

Eduardo Vera-Cruz Pinto reconhece que com Constantino a Igreja passou a aceitar “a intervenção do imperador em matérias religiosas”, levando aos dogmas fundamentais da religião cristã que são até o hoje professados (In Curso de Direito Romano. Parede: Principia, 2012, p. 310).

Naquele tempo ocorreu formalmente a separação das autoridades eclesiásticas e civis, o que, ainda que tenha sido uma necessidade da época, implicou no princípio da visão cartesiana de mundo, com reflexo na doutrina de santo Agostinho e na interpretação oficial das escrituras. Essa separação formalizou a apostasia, quando as questões religiosas passaram a ser tratadas por uma autoridade sem poder civil, na medida em que este se ligava ao império romano. Contudo, para a mentalidade judaica de Jesus, não havia separação entre poder civil, político ou religioso, sendo um ligado ao outro, pois a sociedade como um todo estava inserida nos mesmos valores jurídicos, que eram religiosos, científicos e políticos.

A partir do Concílio de Niceia passou-se a adotar a noção de trindade, um Deus em três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo.

De fato, existem passagens em que Jesus afirma ser um com o Pai, como em João: “‘Meu Pai, que me deu tudo, é maior que todos e ninguém pode arrebatar da mão do Pai. Eu e o Pai somos um’. Os judeus, outra vez, apanharam pedras para apedrejá-lo. Jesus, então, lhes disse: ‘Eu vos mostrei inúmeras boas obras, vindo do Pai. Por qual delas quereis lapidar-me?’ Os judeus lhe responderam: ‘Não te lapidamos por causa de uma boa obra, mas por blasfêmia, porque, sendo apenas homem, tu te fazes Deus’. Jesus lhes respondeu: ‘Não está escrito em vossa Lei: Eu disse: Sois deuses? Se ela chama de deuses aqueles aos quais a palavra de Deus foi dirigida — e a Escritura não pode ser anulada — àquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo dizeis: ‘Blasfemas!’, porque disse: ‘Sou Filho de Deus!’’” (Jo 10, 29-36).

Jesus expressamente afirma que o Pai é maior que todos, indicando a superioridade de Deus, e quando em seguida afirma “Eu e o Pai somos um” ele indica que é a imagem e semelhança perfeita de Deus perfeito, pelo que, do ponto de vista humano, não há como diferenciar Jesus Cristo de Deus, ainda que exista essa diferença, devendo a adoração ser dirigida ao Pai.

Mas vem a hora — e é agora — em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, pois tais são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4, 23-24).

Deus é Espírito, e, como tal, invisível, tornando-se visível na pessoa de Jesus, que assim encarnou a Divindade, unindo seu Espírito ao Espírito de Deus, ao Espírito Santo, formando, assim, a Santíssima Unidade, como O Messias Perfeito.

Messias é um título atribuído ao ungido de Deus, que foi aplicado aos reis Saul e Davi e até mesmo a um não judeu, Ciro (Is 45, 1).

Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17, 3).

Não se questiona a natureza especial de Jesus como O Ungido, O Messias, O Cristo, como O Cristo Senhor, mais isso não faz dele O Deus, mas deus, Filho de Deus. A seguinte passagem é apontada como indicativa da divindade de Cristo: “Com efeito, a graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas, e a viver neste mundo com autodomínio, justiça e piedade, aguardando a nossa bendita esperança, a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo por nós, para remir-nos de toda iniquidade, e para purificar um povo que lhe pertence, zeloso no bom procedimento” (Tt 2, 11-14).

Cristo Jesus é “a manifestação da glória de nosso grande Deus e Salvador”, ou seja, Ele manifestou a glória de Deus, mas não é O próprio Deus. “Ele é o resplendor de sua glória e a expressão de sua substância; sustenta o universo com o poder de sua palavra; e depois de ter realizado a purificação dos pecados, sentou-se nas alturas à direita da Majestade, tão superior aos anjos quanto o nome que herdou excede o deles” (Hb 1, 3-4).

O primeiro Homem, Adão, feito à imagem e semelhança de Deus, não manifestou a substância de Deus, sua Glória, pois caiu em tentação e pecou, o que não ocorreu com Jesus, que manteve sua pureza e santidade até o fim, e por isso assumiu a condição Filho Unigênito, como protótipo da humanidade, ou seja, o tipo, o modelo, primeiro e definitivo, de humanidade, como imagem e semelhança de Deus. E como Jesus Cristo preencheu todas as qualidades humanas perfeitas, a plenitude da criação, Ele retomou a imortalidade e eternidade, ressuscitando.

“Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de se ele o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8, 29). Só existe um primogênito, só um primeiro, e esse é único, unigênito.

Jesus Cristo, por isso, é o Caminho, a Verdade e a Vida, pois somente repetindo suas qualidades, que são perfeitas, pelo seu Caminho, seu método de vida integralmente submissa a Deus, podemos alcançar a Verdade e a Vida eterna, recebendo o Espírito Santo que também O ungiu.

Assim, o Espírito Santo procede apenas do Pai, mas nos O recebemos por meio do Filho, como o Caminho. Seguindo Jesus nos dirigimos a Deus e nos abrimos ao Espírito Santo.

Na Carta aos Romanos, consta que Cristo é “acima de tudo, Deus bendito pelos séculos” (Rm 9, 5), Jesus, como Cristo, é imagem de Deus, sua expressão definitiva na carne, consumando a unção do Espírito Santo.

E ao restabelecer o modelo de humanidade como reflexo e semelhança de Deus, Jesus nos permitiu, por seu Espírito, por sua Ideia, por sua Razão, compartilhar a natureza divina, pelo derramamento do Espírito Santo. Nesse sentido os apóstolos Pedro e Paulo também nos colocam como integrantes da natureza divina.

Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’. Ora, se nós somos de raça divina, não podemos pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, a uma escultura da arte e engenho humanos. Por isso, não levando em conta os tempos da ignorância, Deus agora notifica aos homens que todos e em toda parte se arrependam, porque ele fixou um dia no qual julgará o mundo com justiça por meio do homem a quem designou, dando-lhe crédito diante de todos, ao ressuscitá-lo dentre os mortos” (At 17, 28-31).

Deus é Espírito, e não carne, pelo que enquanto seres espirituais, movendo segundo o Espírito, somos da raça divina, da raça de Deus.

Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus? … e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos? Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).

O Espírito Santo procede de Deus e não é, pois, uma pessoa em uma trindade, mas o próprio Espírito de Deus que habita em nós, que nos faz participar da Vida. Dizer que o Espírito Santo é uma pessoa é fazer uma afirmação antropomórfica sem amparo nas Escrituras.

Jesus glorificou a Deus em seu corpo, sendo templo perfeito do Espírito Santo, teve e tem Vida Plena, e por isso é o homem designado para o julgar definitivamente os homens, porque dele depende o conceito de humanidade, e daí sua natureza divina especial, pois por Sua Vida Santa podemos participar da Vida Santa, a partir de seu exemplo, seu modelo de comportamento.

O batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo significa o nascimento a partir do Espírito, a partir de cima, a mudança de vida e o mergulho, o batismo, na vida nova, em que vivemos segundo a Vontade de Deus, segundo seu Espírito Santo, seguindo Jesus Cristo, e não mais segundo a concupiscência da carne. Com o batismo, que significa mergulho, o mergulho no Espírito Santo, assumimos nossa natureza divina; e aqueles que recebem efetivamente o batismo do Espírito Santo não relatam uma possessão de outra pessoa em si, mas a Presença em Deus.

Pois que o seu divino poder nos deu todas as condições necessárias para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que nos chamou pela sua própria glória e virtude. Por elas nos foram dadas as preciosas e grandíssimas promessas, a fim de que assim vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de vos libertardes da corrupção que prevalece no mundo como resultado da concupiscência” (2Pe 1, 3-4).

Outrossim, pelo caminho de Jesus, pela vida pura e espiritual, depois de nos libertarmos da corrupção, da ideia egoísta e da vida igualmente egoísta, participamos da natureza divina.

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. Mas a cada um de nós foi dada a graça pela medida do dom de Cristo, por isso é que se diz: Tendo subido às alturas, levou cativo o cativeiro, concedeu dons aos homens” (Ef 4, 4-8).

A interpretação da Bíblia que leva à ideia de trindade é, como se vê, forçada e contrária ao espírito do Monoteísmo: Há um só Deus e Pai de todos.

Pois há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus, que se deu em resgate por todos” (1Tm 2, 5-6).

Nas escrituras constam passagens chamando homens de deuses, e nesse sentido Jesus pode ser considerado deus, ou Deus, mas não O Deus, pois é Filho de Deus, um homem, Filho do Homem.

Deus é imortal. Ele é o que é, sempre, eterno, Ele é o “EU SOU”, e por isso, tendo Jesus morrido, ele não é O próprio Deus.

Ainda que Jesus Cristo seja o primeiro e o último, a ideia de primeiro e último pressupõe a noção de tempo, pelo que no Cosmos, Jesus Cristo é o primeiro e o último, a Sabedoria Divina que fundou toda a criação, também sendo criatura, ainda que criatura que criou as demais criaturas, mas não é o próprio Criador.

Ao vê-lo, caí como morto a seus pés. Ele, porém, colocou a mão direita sobre mim assegurando: ‘Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da Morte e do Hades’” (Ap 1, 17-18).

Deus não pode morrer, e por isso, como O Vivente, Deus continuou reinando enquanto Jesus Cristo esteve morto, antes de sua ressurreição. Ele esteve morto para os vivos, mas não para Deus, para Quem não há morte, por isso Jesus também é o Vivente que conheceu a morte, o que não ocorre com O próprio Deus, dada sua natureza espiritual.

Como Encarnação da Sabedoria Divina, do Logos, Jesus se manifestou como Deus, sendo o limite entre o Criador e a criatura, a Ponte que liga Deus aos homens, o Sumo Pontífice, mas a confusão que se criou pela ideia de trindade, ao invés de facilitar a adoração do Deus Altíssimo, pode afastar os crentes da Verdade.

Deus é Amor (1Jo 4, 8), Deus é Espírito, e Jesus é a imagem do Amor de Deus e do Espírito de Deus perante os homens, mostrando o limite do que podemos entender e conhecer de Deus enquanto seres encarnados, mas isso não leva à conclusão de que Jesus é O próprio Deus, não permitindo, do mesmo modo, concluir pela existência de uma trindade.

Jesus Cristo rezou pela Unidade, para que os cristãos vivam em comunhão com Cristo, em Unidade, quando o Espírito que move cada um é Santo, Uno, Integral, sem divisões, quando compartilhamos o mesmo Espírito Santo, participando da Santíssima Unidade com Jesus Cristo e Deus.

Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 20-23).

Esse ponto do Evangelho de João é fundamental, e por isso sempre o repito, assim como seu início: “No princípio era o Verbo (Logos) e o Verbo (Logos) estava com Deus e o Verbo (Logos) era Deus. No princípio, ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito”.

Jesus Cristo, o Logos encarnado, é Deus, participa da natureza divina desde o princípio, mas antes do princípio apenas existia O Deus Todo-Poderoso, que está fora do tempo e do espaço, apesar de se manifestar no espaço-tempo, pois é Onipresente. No tempo e no espaço, até seus confins, Jesus Cristo é Deus, como imagem e manifestação de Deus na criação.

Negar a trindade pode ser considerada uma heresia, mas isso não impede a desculpa, é uma atitude perdoável, na medida apenas o pecado contra o Espírito Santo não permite perdão. Portanto, reconheço a divindade do Espírito Santo, como Espírito do próprio Deus que habita em nós, em toda e qualquer alma humana que O aceite.

Por enquanto, assim, posso ser um herege, com convicção, mas se estiver errado, o que penso que não estou, que Deus e Jesus Cristo, no Dia do Julgamento, me perdoem, ou perdoem aos verdadeiros hereges quando equiparam o Criador a uma de Suas Criaturas, caso eu esteja certo.

Se alguém disser uma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado, mas se disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro” (Mt 12, 32).