A esfera da realidade

A esfera é considerada o objeto mais próximo da perfeição, por sua perfeita simetria, e por isso os próprios físicos, por vezes, a consideram como modelo para tentar compreender o universo. Tal questão já foi reflexamente abordada no artigo “Revolução e evolução” (https://holonomia.com/2017/08/03/revolucao-e-evolucao/), citando as palavras do físico e filósofo Marcelo Gleiser:

Copérnico não queria uma revolução. Ao contrário, queria tanto retornar aos ideais platônicos e ‘salvar os fenômenos’ que propôs um cosmos baseado em uma estética centrada no círculo como ideal de beleza e simetria” (Marcelo Gleiser. A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido. Rio de Janeiro: Record, 2014, p. 62). “Podemos visualizá-lo (O Universo) como uma redoma que nos cerca, como se vivêssemos no centro de uma gigantesca esfera de vidro” (Idem, p. 116).

Por isso, mantendo essa analogia do Universo como uma esfera, é possível considerar a esfera da realidade, que contém em si a substância única sob as perspectivas de res cogitans e res extensa, ligadas a pensamentos, na parte mais interior, e aos sentidos, na área externa ou superfície da mesma esfera da realidade.

O reducionismo científico e a especialização do conhecimento a partes da realidade, tidas como autônomas, acarretaram a perda de conexão entre o exterior, o mundo aparente ou manifesto, e o interior, o mundo do significado ou conexão simbólica, real e total dos fenômenos, quando a função da Ciência é unir exterior e interior, sensações e pensamentos, em unidade lógica, no Logos, que estava no princípio, por meio do qual tudo se fez.

Nessa analogia, a superfície da esfera da realidade se refere à manifestação exterior ou extensa dos corpos, incluídos os humanos, em seus aspectos mensuráveis, que deve se ligar ao centro, o pensamento, mantendo a unidade lógica e inteligível entre um e outro, sob pena de perda de referência com a esfera da realidade, em sua totalidade interior e exterior.

A parte externa da esfera corresponde ao mundo dos efeitos e das causas horizontais, das causas lineares ou contínuas, enquanto o interior, o pensamento, está conectado ao mundo das causas em suas dimensões horizontal e vertical, esta última em níveis hierárquicos. A superfície exterior não possui verticalidade, porque é superficial, estando ligada cientificamente à relatividade, ao plano relacional e espaço-temporal. Nesse nível não há hierarquia, e se não houver hierarquia não se desenvolvem adequadamente o conceito de sentido e a percepção do sentido, e por isso a relatividade não aceita a ideia de eventos simultâneos, também não distinguindo a seta do tempo, que pela teoria tanto pode avançar como retroceder.

O sentido se liga a um conjunto simbólico de referência, à noção de totalidade dos significados em unidade compreensiva de todas as perspectivas, que no plano dos pensamentos abrange os primeiros princípios, os arquétipos ou ideias primordiais, e os complexos psíquicos, em suas simbologias entrelaçadas. Essas hierarquias simbólicas, da perspectiva horizontal ou superficial, podem ser percebidas como meras coincidências, pela descontinuidade causal na realidade externa, sensação decorrente da limitação local da atividade material ou exterior, quando desconectados os pensamentos da unidade de sentido existente a partir do centro, que é o mesmo para todos os pontos da esfera da realidade, no qual os significados têm origem.

O materialismo relativista, portanto, é restrito ao mundo externo, não sendo suficiente para abarcar a totalidade dos fenômenos do Universo.

Por isso apenas as melhores ideias religiosas, de religação inteligível do mundo, possuem a descrição completa da realidade em seu simbolismo, incluindo os planos interior e exterior da unidade dos fenômenos. Por isso a psicologia defendida por Jung pode ser considerada integrante da Ciência.

O Cristianismo, por sua vez, como religião do Logos, da Razão Plena ou Absoluta, por isso, é a Ciência definitiva, ao unir o centro do pensamento ao exterior, pela ação externa segundo a unidade com o pensamento integral, com o centro do Universo, com Deus, nos planos individual e social. A ação externa, o comportamento no mundo, para o Cristão, é pautado pela observância do Logos ou Sabedoria, fundamento do conhecimento científico, da Razão absoluta, onipresente, e por isso seu comportamento é cósmico, simultaneamente local e universal. Cristo e os Cristãos são os que agem no mundo social encarnando o Logos.

O Cristianismo é a religião messiânica, em que todos os Cristãos se portam repetindo o exemplo de Jesus Cristo, sendo seus imitadores, na vida cotidiana, privada e pública, todos são messias. O Cristianismo é a religião em que todos os seus membros são reis sacerdotes, em que os governados são mansos e obedientes e os governantes são servos de todos, como o Bom Pastor, que deu a vida por suas ovelhas, porque Jesus Cristo, como O Messias, e líder político, o que também vale para os Cristãos, porque, como o Judaísmo e o Islamismo, o Cristianismo é a Ciência e Religião Política, ligada à ação pública pautada pela Lei, para realização do Reino, como conceitos Políticos, e por isso o messias é o primeiro a respeitar A Lei em sua integralidade, em seu sentido pleno, para a realização da Justiça, para o cuidado com os excluídos, fazendo valer a função da Lei e do Estado, da Ekklesia ou Igreja, de promoção e realização da dignidade humana, em verdadeira comunidade, em que há ação comum e compreensão comum, em que a hermenêutica da realidade é uma só e compartilhada por todos.

A esfera hermenêutica, incluída a jurídica, abrange conceitos e fatos, pensamentos e sensações, individuais e coletivos, nos âmbitos psíquico e físico, e não meramente linguístico, exigindo uma referência às ontologias física e psíquica, à física teórica, à psicologia e ao significado dos fenômenos naturais, para a completa compreensão da esfera da realidade, pela noção de pertencimento cósmico. Pode-se dizer que toda ciência parte da física e da psicologia, em suas linguagens, ou discursos, e ações, simbólicos e lógicos, conectando os eventos do mundo, até alcançar o sentido mais amplo, a partir do qual a descrição da realidade abarca a totalidade do sentido, em síntese linguística, normativa e comportamental, na prática social, incluídos os fenômenos naturais, o que começa a ser percebido pela questão ambiental, na reação do ambiente à ação humana, através do Direito, que em seu nível mais fundamental é indistinguível da Teologia. Assim, o Direito/Teologia é a síntese da Ciência, por compreender todos os fenômenos do mundo.

Por isso alguns cientistas, mais do que os chamados filósofos, foram as pessoas que, no século XX, melhor se aproximaram da correta descrição da esfera da realidade, dentre os quais considero em posição de destaque Carl Jung, em sua visão da psicologia coletiva, no nível religioso, e David Bohm, por seu estudo do Universo, a partir das ciências físicas.

Outro físico que destaco é Erwin Schrödinger, que formulou uma das expressões matemáticas da física quântica, a Equação de Schrödinger, que motivou fosse ele agraciado com o Nobel de Física em 1933.

Na obra “O que é vida? O aspecto físico da célula viva”, trabalho até pouco tempo por mim desconhecido, que por Providência estava citado em dois livros lidos recentemente, despertando meu interesse pelo texto, Schrödinger afirma que “herdamos de nossos antepassados um profundo desejo por um conhecimento unificado e abrangente”, que pode ser tido como fundamento e objeto da Filosofia, dizendo o autor que nos cem últimos anos (o texto é de 1944) o conhecimento se ramificou, dificultando a empreitada da Ciência, e apesar dos novos dados por esta disponibilizados “tornou-se quase impossível para uma só mente dominar por completo mais que uma pequena porção especializada desse conhecimento”, afirmando que a saída para esse dilema, sob pena de perda definitiva do objetivo da Ciência, está em “alguns de nós nos aventurarmos a embarcar numa síntese de fatos e de teorias, ainda que munidos de conhecimento incompleto e de segunda mão sobre alguns deles, e sob o risco de parecermos tolos” (Erwin Schrodinger. O que é vida? O aspecto físico da célula viva. Trad. Jesus de Paula Assis e Vera Yukie Kuwajima de Paula Assis. São Paulo: Editora UNESP – Cambridge University Press, 1997, prefácio, p. 15, versão eletrônica – negritos meus).

Assim, Schrödinger descreve a citada empreitada do Filósofo, desenvolver o conhecimento amplo e íntegro da realidade, e ao falar da questão da vida reconhece a limitação das leis físicas: “temos que a matéria viva, embora não escape às ‘leis da física’ tal como hoje se encontram estabelecidas, parece envolver ‘outras leis da física’ até aqui desconhecidas, as quais, no entanto, uma vez reveladas, virão a formar parte integral dessa ciência, assim como as anteriores o formam” (Idem, capítulo 6, p. 76).

Quando Schrödinger afirma que leis dinâmicas são ligadas ao princípio de “ordem a partir da ordem” nos fenômenos físicos, aduz que na física quântica esse fenômeno ocorre à temperatura do zero absoluto, o que significa total ausência de movimento, e essa ideia aponta diretamente para a proposta de Aristóteles ao afirmar a existência de um motor imóvel, associado a Deus, como causa primeira de tudo o que existe.

Depois de sustentar que a estrutura da matéria viva não pode ser reduzida às leis da física, estas baseadas no princípio da entropia, enquanto a vida se comporta de forma contrária, mantendo a ordem do organismo, e pode-se dizer até mesmo aumentando a complexidade, ele diz que o organismo multicelular é “a mais requintada obra-prima já conseguida pelas leis da mecânica quântica do Senhor” (Idem, capítulo 7, p. 90 – negrito meu).

No epílogo, de forma surpreendente, discorrendo sobre dois fatos, o determinismo e o livre-arbítrio, Schrödinger afirma que o corpo funciona como puro mecanismo, segundo as Leis da Natureza, e que, ainda assim, por experiência direta, há comando sobre os movimentos corporais, permitindo a responsabilização da pessoa, e conclui:

A única inferência possível a partir destes dois fatos, imagino, é que eu – eu no sentido mais amplo da palavra, ou seja, toda mente consciente que jamais disse ou sentiu ‘eu’ – sou a pessoa, se é que existe alguma, que controla ‘o movimento dos átomos’, de acordo com as Leis da Natureza.

No âmbito de um determinado ambiente cultural (Kulturkreis) em que certos conceitos (que já tiveram ou ainda têm um significado mais amplo entre outros povos) foram limitados ou especializados, é ousado dar a essa conclusão a palavra simples que ela requer. Na terminologia cristã, dizer Logo, eu sou o Deus Todo-Poderoso parece tanto blasfemo quanto lunático. Mas, por favor, abstraiam por ora essas conotações e considerem se a inferência acima não é o mais próximo que um biólogo pode chegar para provar, de uma só vez, a existência de Deus e da imortalidade.

Em si, a ideia não é nova. Os registros mais antigos datam, até onde sei, de 2.500 anos atrás. Desde os primitivos grandes Upanixades, no pensamento indiano, a identificação de ATHMAN = BRAHMAN (o eu pessoal iguala-se ao eu eterno, e onipresente e onisciente), longe de constituir uma blasfêmia, representava a quintessência da mais profunda intuição quanto aos acontecimentos do mundo. O maior empenho de todos os estudiosos da escola Vedanta era, após o aprendizado dos movimentos dos lábios para a pronúncia correta, realmente assimilar em suas mentes este pensamento, o mais grandioso de todos” (Idem, Epílogo, p. 92 – negritos meus).

Para quem acompanha o raciocínio dos meus artigos, a ideia Cristã, ao contrário do que sustentado por Schrödinger, está também ligada à união do eu pessoal com o eu eterno, unidade alcançada por Jesus Cristo, ao dizer “eu e o Pai somos um”, e buscada por seus seguidores.

Finalmente, Schrödinger conclui que a consciência somente é experimentada no singular, sendo a pluralidade de consciência um engano, relativo ao termo indiano MAYA, e dá o exemplo de duas pessoas olhando para uma mesma árvore:

Eu vejo minha árvore e você, a sua (notavelmente igual à minha) e o que a árvore é em si mesma nós não o sabemos. Kant é o responsável por essa extravagância. Na ordem das ideias, que considera a consciência um singulare tantum, ela é convenientemente substituída pela afirmação de que obviamente existe apenas uma árvore e toda essa trama de imagens é uma história de fantasmas” (Idem, Epílogo, p. 93 – negrito meu).

A consciência, portanto, é uma só, para todos nós, e está no centro da esfera da realidade, que é o Logos, a unidade racional do mundo, encarnada em Jesus Cristo, que abandonou-se a Deus, entregando sua vida corporal e sua pessoa para a realização da Vida na humanidade, na plenitude da realidade, porque a separação entre pessoas e corpos individuais é superficial e ilusória, chamando seus seguidores para nele crerem e terem vida eterna, que é o conhecimento do único Deus verdadeiro, o centro do Universo, e de Seu enviado, Jesus Cristo (Jo 17, 3), que alcançou esse centro, tornando-se a unidade da consciência, a Vida, e nos convocou a fazer o mesmo:

Quem ama a sua vida, perde-a; e quem odeia a sua vida neste mundo conservá-la-á na vida eterna. Se alguém for meu servo que me siga; e onde eu estou estará o meu servo. Se alguém for meu servo, o Pai honrá-lo-á” (Jo 12, 25-26).

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