Humanidade: um ser transcendente

O homem é um ser conscientemente transcendente, porque sua presença transcende seu corpo, está além do aqui e do agora, sendo capaz de projetar e viver o futuro ou reviver o passado. O homem não apenas reage ao momento, ele antecipa e cria o futuro, ele transcende seu estado, buscando seu Ser.

A transcendência é inerente à Vida, porque o ser vivo está em constante interação com o meio, a luz solar, os minerais, o ar etc., que em determinado momento (quântico) passam a integrar o organismo vivo, transformando-se em vida.

Mas ao contrário dos animais, a humanidade tem a compreensão do tempo, do passado e, especialmente, do futuro, do tempo de sua vida e de um tempo além desse tempo, conseguindo trabalhar com valores não imediatos e com bens inteligíveis. Os animais satisfazem seus instintos corporais, relativos a valores imediatos, e na hierarquia dos valores, tem mais mérito aquele que consegue pensar além do momento, consegue realizações de longo prazo, ou eternas, como ocorreu com Jesus Cristo, que viveu o tempo sem tempo, encarnou a eternidade, projetando-a e realizando-a em si, tornando-se transcendente a si mesmo, incorporando a própria humanidade, presente, passada e futura.

Essa consciência temporal, e de eternidade, permite que a morte física seja superada, e tal é um fato, porque, mesmo para aqueles que negam a ressurreição, a presença de Jesus em nossa cultura e nossa civilização é incontestável, ele transcendeu seu corpo e seu tempo de vida. Não só ele, porque outros grandes seres humanos transcenderam seu tempo, e vivemos a soma das realizações dessas pessoas, cujas vidas geraram efeitos para além de seus corpos, seus tempos e seus espaços de convivência.

Isso ocorre porque nossos atos transcendem a nós mesmos, e podemos transferir aos outros partes de nossas vidas, tanto material como intelectualmente, tanto trabalhando fisicamente para melhorar as condições de vida do outro como para elevação de sua alma, quando movidos por razão ou espírito santo; seja para piorar as condições ambientais, se motivados por razões egoísticas ou espíritos diabólicos.

O maior exemplo disso vem dos mártires, ou testemunhas de Deus, O Espírito (Santo), especialmente Jesus Cristo, que deu sua vida e seu corpo para unir a humanidade, pela obediência à Lei e às autoridades constituídas, cumprindo plenamente os mandamentos, realizando sua função messiânica, de líder político que se submete à Lei, que é obediente ao Logos, origem da Lei Justa, da Justiça.

Jesus Cristo encarnou o arquétipo de Rei, de Juiz e de Sacerdote Perfeito, Santo, da Humanidade enquanto tal, dando o exemplo a ser seguido, para permitir que entendêssemos, na prática, o que é a Justiça, o que é o Ser Justo e Perfeito.

O bem é o fim de toda ciência ou arte; o maior bem é o fim da política, que supera todos os outros. O bem político é a justiça, da qual é inseparável o interesse comum, e muitos concordam em considerar a justiça, como dissemos em nossa Ética, como uma espécie de igualdade. Se há, dizem os filósofos, algo de justo entre os homens é a igualdade de tratamento entre pessoas iguais” (Aristóteles. A Política. Versão eletrônica. Calibre 0.7.50: p. 176).

Parte da Mensagem foi compreendida, da igualdade dos homens como filhos de Deus, mas um ponto fundamental, relativo ao Reino de Deus, ao Reino da Justiça, ao Reino do Logos, foi deturpado, porque remetido apenas para uma eterna transcendência, ocultando a necessidade de sua realização Política na humanidade, porque isso exige plena obediência à Lei, pelos líderes políticos, exige que o exemplo, o modelo, o método, o Caminho, seja seguido pelos governantes, com a libertação do egoísmo, a libertação das ideias e vontades limitadas do próprio corpo ou do próprio grupo, sendo necessária a libertação da prisão ao corpo individual ou grupal, que restringe o homem à sua imanência, confina a humanidade ao corpo das pessoas e às suas nações particulares.

Por isso, a prisão ao corpo e aos prazeres sensoriais é uma limitação da humanidade, é um retorno à animalidade, ao aqui e ao agora, e nesse sentido a civilização está ligada à contenção dos impulsos corporais, a civilização é dependente do pensamento orientado pelo interesse da coletividade, sem, evidentemente, desprezar os indivíduos, sem os quais não há comunidade. O homem deixou de ser coletor e caçador, de reagir à fome para sua satisfação imanente, e se transformou em trabalhador, em construtor do mundo transcendente, cultivando e interagindo intencional e conscientemente com a natureza, ao invés de apenas reagir a ela.

Essa interação é tanto melhor quanto melhor a razão ou espírito que move o homem, incluindo os motivos da ação e o conhecimento do mundo. Dessa forma, a civilização depende do comportamento pautado por um espírito santo, por uma razão coletiva, que transcende o mero interesse egoísta do indivíduo, porque a comunidade depende da limitação daqueles comportamentos que podem e prejudicam os demais membros do grupo social, que podem romper com a unidade social, com a comunidade.

O Direito, portanto, como uma das expressões humanas, também tem natureza transcendente, porque uma norma remete a outra norma superior que remete à norma hipotética, com sua respectiva cosmovisão de mundo, seus pressupostos filosóficos.

Não é por outro motivo que Hart coloca a regra de reconhecimento como fundamental para a compreensão do Direito, porque a regra de reconhecimento é a internalização, pelo comportamento, daquela norma transcendental que dá significado ao sistema jurídico, que dá unidade simbólica e filosófica ao ordenamento normativo e sua ideia de Justiça, o maior bem concebível socialmente.

Ao mesmo tempo em que o homem está contido no mundo, ele transcende o mundo, ligando-se a uma ideia de mundo que não está limitada ao plano sensorial, porque os indivíduos podem tanto agir segundo suas vontades pessoais e locais, sendo meros animais, como por meio de uma vontade coletiva, espiritual e transcendente, sendo Humanidade, sendo espécie, um ser coletivo e transcendente.

A transcendência se liga à não localidade da Consciência e do Espírito, que permite uma união com Ele, porque “quem se cola ao Senhor é com ele um só Espírito” (1Cor 6, 17), sendo também possível a prisão da consciência ao corpo, uma vez que “quem se cola à prostituta é com ela um só corpo” (1Cor 6, 16).

A não localidade é colocar-se no lugar do outro, é amar ao próximo como a si mesmo, é estar presente no outro, por uma lei não local. É possível ao homem, portanto, seguir uma lei local e corporal, ou não local e espiritual.

A Lei da Humanidade não é bem compreendida pela maior parte dos atuais líderes políticos, como já ocorria no tempo de Jesus Cristo, porque amar aos inimigos ainda é considerado um absurdo. Ainda assim:

nós proclamamos Cristo crucificado: um escândalo para judeus, um absurdo para gentios; mas para os que são chamados, judeus e gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Porque a absurdeza de Deus é mais sábia que a raça humana; e mais forte que a raça humana é a fraqueza de Deus” (1Cor 1, 22-25).

Sabedoria, porém, é o que falamos entre os perfeitos; sabedoria que não é deste mundo, nem dos chefes deste mundo que serão abolidos. Mas falamos a sabedoria de Deus oculta em mistério, que Deus predestinou antes dos séculos para nossa glória, a qual nenhum dos chefes deste mundo conheceu” (1Cor 2, 6-8).

Felizmente essa transcendência já pode ser entendida, porque a Mensagem se espalhou, e funda os sistemas jurídicos, baseados na dignidade humana, no fato de os homens serem filhos de Deus, imagem e semelhança do Logos transcendente.

O que e nos resta, pois, é continuar seguindo a Lei, o Logos, esperando e realizando o Reino até que Ele cumpra sua Promessa, manifestando ao mundo Seu Poder, para que os chefes deste mundo sejam abolidos, tornando imanente o Reino da Justiça transcendente.

Um comentário sobre “Humanidade: um ser transcendente

  1. Em síntese apertada. Tenho acompanhado muitos autores da área jurídica afirmarem:
    -” A moral não pode, não serve para corrigir o Direito”. Eu diria que pode sim, desde que todo jurista se apropriasse do espírito da moral cristã, ao meu sentir, o ordenamento jurídico poderia ser totalmente reordenado, reescrito tendo como manto filosófico os princípios cristãos.
    Digo cristã, sem prejuízo às demais. Visto que eu entendo que o que mais se coaduna com nossa cultura é a Hebraico-cristã, posto que foi a que se disseminou culturalmente no ocidente. Nada contra o Budismo e outras visões.

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