Tudo em todos

A Filosofia grega começou quando os chamados pré-socráticos tentaram entender, sem o uso da mitologia, como todas as coisas no universo são feitas e funcionam. Daí as ideias iniciais de que tudo seria água, ar, fogo e/ou terra, ou uma mistura desses elementos. Com Platão e Aristóteles foram desenvolvidos os conceitos de ideia ou forma e de matéria. Uma boa explicação dessas ideias foi dada por Raphael de Paola, na palestra “Filosofia antiga e Física moderna” (https://www.youtube.com/watch?v=5ig5S1qZTeY), uma das inspirações deste texto.

Tales de Mileto (fim do VII – primeira metade do séc. VI a.C.) é o criador, do ponto de vista conceitual (mesmo que não ainda do ponto de vista lexical), do problema concernente ao ‘princípio’ (arché), ou seja, a origem de todas as coisas. O ‘princípio’ é, propriamente, aquilo de que derivam e em que se resolvem todas as coisas, e aquilo que permanece imutável mesmo nas várias formas que pouco a pouco assume. Tales identificou o princípio com a água, pois constatou que o elemento líquido está presente em todo lugar em que há vida, e onde não existe água não existe vida” (Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia: Filosofia pagã antiga. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003, p. 17).

Em decorrência da adoção de um primeiro elemento ou princípio, a ele são associados os fenômenos, explicando-se o mundo em movimento no qual vivemos. A escolha do primeiro princípio tem um caráter religioso, segundo a etimologia da palavra, porque nele são ligadas racionalmente todas as coisas. Com essa eleição, tudo se liga, e tem-se daí o princípio racional da religião, que inclui uma atividade de manutenção dessa unidade principiológica.

Pode-se dizer que o atual materialismo decorre do princípio atomista, seguindo as ideias iniciais de Leucipo e Demócrito, os quais afirmaram que a realidade é formada de infinitos corpos invisíveis, por sua pequenez e pequeno volume, corpos esses indivisíveis, os “átomos”, palavra de origem grega que significa “o não divisível”.

Os atomistas passaram para a história como aqueles que puseram o mundo ‘ao sabor do acaso’. Mas isso não quer dizer que eles não atribuem causas ao nascer do mundo (causas que, de fato, são as já explicadas), e sim que não estabeleceram uma causa inteligente, uma causa final. A ordem (o cosmo) é efeito de encontro mecânico entre os átomos, não projetado e não produzido por uma inteligência. A própria inteligência segue-se ao e não precede o composto atômico” (Obra citada, p. 46).

Em sentido contrário, Platão sustentou a existência de um princípio supremo Uno, ao qual ele associou a ideia de Bem, afirmando uma realidade suprassensível, além das aparências sensíveis das coisas. Para Platão, a verdadeira realidade está no mundo das ideias ou essências das coisas. “Deste modo, o mundo sensível aparece como cópia do mundo inteligível. O mundo inteligível é eterno, enquanto o sensível existe no tempo, que é imagem móvel do eterno” (Idem, p. 137).

Segundo o próprio texto de Platão: “Fica sabendo que o que transmite a verdade aos objetos cognoscíveis e dá ao sujeito que conhece esse poder, é a ideia de bem” (Platão. A República. São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 206). Da ideia de bem tudo é criado. “Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública” (Idem, p. 213).

São, outrossim, duas ontologias, ou lógicas do Ser, distintas, uma segundo a qual é do movimento caótico dos átomos que, sem uma causa interna, surge a inteligência, posteriormente; e outra pela qual há uma ideia (de Bem) ou inteligência superior, e antecedente, como origem do mundo, tanto sensível e visível como invisível e inteligível.

Pode-se ver, portanto, a afinidade entre essas ideias platônicas e aquelas da tradição judaico-cristã, pela qual o mundo foi criado pela Sabedoria de Deus.

Tudo sei, oculto ou manifesto, pois a Sabedoria, artífice do mundo, mo ensinou! Nela há um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, imaculado, lúcido, invulnerável, amigo do bem, agudo, incoercível, benfazejo, amigo dos homens, firme, seguro, sereno, tudo podendo, tudo abrangendo, que penetra todos os espíritos inteligentes, puros, os mais sutis. A Sabedoria é mais móvel que qualquer movimento e, por sua pureza, tudo atravessa e penetra. Ela é um eflúvio do poder de Deus, uma emanação puríssima da glória do Onipotente, pelo que nada de impuro nela se introduz. Pois ela é um reflexo da luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus e uma imagem de sua bondade. Sendo uma só, tudo pode; sem nada mudar, tudo renova e, entrando nas almas boas de cada geração, prepara os amigos de Deus e os profetas; pois Deus ama só quem habita com a Sabedoria” (Sb 7, 21-28).

A Sabedoria é o Verbo ou Logos de Deus, por meio do que tudo foi feito. “No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. Este no princípio estava como Deus. Todas as coisas existiram por ação dele e sem ele existiu nem uma só coisa que existiu. Nele estava a vida, e vida era a luz dos homens” (Jo 1, 1-4).

Contudo, ao estabelecer o dogma, a doutrina Cristã acabou por manter, ainda que como efeito não esperado, a Sabedoria de Deus, o Logos, em outro plano, a despeito de sua encarnação, pois o Cristianismo é exatamente a religião da encarnação do verbo, porque “o verbo fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). “Note-se que, no v. 14 de João, a expressão ‘entre nós’ é literalmente ‘em nós’ (en hêmîn)” (Bíblia, volume I: Novo Testamento: os quatro Evangelhos. Tradução do grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 324).

Do que foi até aqui exposto, é possível dizer que existem duas formas de religião, uma segundo um princípio externo, que liga as coisas exteriormente, através das conexões materiais dos fenômenos. A forma atual dessa religião é expressa no postulado segundo o qual o princípio da incerteza de Heisenberg tem significação ontológica, afirmando que há uma indeterminação natural no mundo, com sua aplicação na biologia, sustentando a evolução das espécies de forma fortuita, sem uma direção preconcebível no caminho evolutivo. Essa é uma religião que se pauta pelo mundo das aparências, o mundo dos fenômenos, das coisas externas e manifestas.

De outro lado, existe uma religião fundada na ideia, em que existe uma unidade interna entre os eventos, uma ordem implicada, ou espiritual, que liga as coisas por suas essências, porque sustenta que o mundo se assenta em um princípio inteligente, como ordem anterior ao mundo material, e nele imanente.

Seguindo o Cristianismo, essa ordem, essa Ideia, Sabedoria ou Espírito, que já havia sido parcialmente manifestada nos profetas, e mesmo nos gregos, encarnou na humanidade plenamente em Jesus Cristo, que viveu integralmente segundo a unidade cósmica, na História, afirmando a aproximação dessa Ideia do mundo da vida e que haveria a distribuição desse Espírito na humanidade. Ainda que tal fato tenha se iniciado em Pentecostes, esse evento não encerrou o processo de encarnação do Logos, o que é o objetivo da religião Cristã.

Assim, a religião Cristã pressupõe a anterioridade do Logos, da Ideia, da Inteligência, como também sua manifestação no mundo sensível, no mundo da vida, de modo a dar também valor ao plano material, em que o Espírito deve ser realizado, porque tudo é ideia, boa ou má, encarnada, tudo é relação entre essências que se mostram nos fenômenos, de modo que aquilo que está no tempo também está fora do tempo.

Ser Cristão significa encarnar o Logos, o Ser, tornando-se o Ser, manifestar a Ideia de Bem entre os homens, na vida familiar, social e política, até que, seguindo o Caminho de Cristo, tudo esteja definitivamente religado, tanto em matéria como em forma.

Mas, quando ele disser: ‘Tudo está submetido’, evidentemente excluir-se-á aquele que tudo lhe submeteu. E, quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15, 27-28).

Essa é a religião Cristã, aquela em que todos têm vida em abundância, espiritual e materialmente, pois o que temos de conhecimento e de material planetário é suficiente para isso, o que resta é viver segundo o princípio correto, científica e politicamente, com um governo de Cristo, para todos, segundo o Espírito, o que falta é que encarnemos individual e coletivamente a Ideia de Bem, para que a inteligência, ou o Logos, seja tudo em todos.

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