Objetividade forte

O tema da objetividade forte volta na minha atual leitura, que venho fazendo de duas formas, uma em livro físico e outra em eletrônico, sendo a em papel “História do Direito Comum da Humanidade: Ius Commune Humanitatis ou Lex Mundi?”, um monumento em dois tomos, com mais de mil e oitocentas páginas, de Eduardo Vera-Cruz Pinto, e a eletrônica “A paisagem moral: Como a ciência pode determinar os valores humanos”, de Sam Harris.

Vera-Cruz desenvolve um profundo estudo do Direito Comum da Humanidade a partir do Ius Romanum, reconhecendo que “os resultados não escaparão da ‘objetividade fraca’, fatal resultado da necessidade periodificadora, já que cada instituto ou época estudada só se pode apreender no conjunto em que se insere” (Eduardo Vera-Cruz Pinto. História do Direito Comum da Humanidade: Ius Commune Humanitatis ou Lex Mundi? Vol. I. Tomo I. Lisboa, Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2003, p. 37). Sobre esse texto, na medida em a leitura avançar, serão abordados, se Deus permitir, outros artigos.

Em outro prisma, Harris tenta desenvolver argumentos em favor de um realismo moral, no sentido de que existe uma objetividade forte em termos morais, e de que podemos estudar fatos subjetivos objetivamente:

o que estou dizendo é que um universo no qual todas as criaturas conscientes sofram a pior infelicidade possível é pior do que um universo no qual elas gozem de bem-estar. Isso é tudo de que precisamos para falar de ‘verdade moral’ no contexto da ciência. Uma vez que admitamos que os extremos da infelicidade absoluta e da felicidade absoluta – o que quer que esses estados representem para cada pessoa no fim das contas – são diferentes e dependentes de fatos relativos ao universo, teremos admitido que existem respostas certas e erradas para questões de cunho moral” (Sam Harris. A paisagem moral: Como a ciência pode determinar os valores humanos. São Paulo: Companhia das Letras, versão eletrônica, p. 52 – negrito meu).

Saliente-se que minha visão de mundo se identifica muito mais com aquela de Vera-Cruz, com sua fé Cristã, do que com a de Harris, este que foi conhecido como um dos quatro cavaleiros do ateísmo, ou do não apocalipse, ao lado de Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Daniel Dennett. Contudo, meu trabalho científico também tem proximidade com o de Harris, porque entendo que negar a objetividade forte é renunciar ao objetivo da ciência, ainda que o conceito de ciência deva ser revisitado para incluir, pelo exemplo de Harris, o assassinato de Kennedy como fato científico.

A objetividade forte se refere tanto a questões epistemológicas quanto ontológicas, sobre os limites de nosso conhecimento e sobre a realidade em si, sendo ainda hoje predominante a posição adotada por Kant, dizendo que nosso conhecimento se limita aos fenômenos, porque a coisa em si, o númeno, está fora da nossa capacidade intelectiva racional.

Para alcançar o maior entendimento possível da realidade, o trabalho de pesquisa da objetividade forte deve incluir, coerentemente, todos os ramos do conhecimento, Física, Química, Biologia, Sociologia, Psicologia, Direito etc, a partir de uma Teologia, esta também no sentido de Filosofia primeira, que parte dos primeiros princípios, determinando a lógica de apreensão dos fenômenos e do próprio universo. Nesse ponto, o trabalho filosófico de Kant estava imbuído de pressupostos e concepções teológicas, e penso que a falha filosófica do autor das críticas decorreu de uma interpretação equivocada sobre o sentido mais profundo do Cristianismo.

A busca da verdade científica, que vai além do relativismo, portanto, passa necessariamente pelos polos objetivo e subjetivo do conhecimento, Física e Psicologia, e daí meu especial interesse por esses ramos do saberes humanos.

Durante muito tempo concebida como um ideal a atingir, a unificação das diferentes ciências empíricas está hoje em dia no bom caminho, sob a direcção da física” (Bernard D’Espagnat. Uma incerta realidade: o mundo quântico, o conhecimento e a duração. Lisboa, Instituto Piaget, p. 31 – negrito meu).

Mas D’Espagnat, na linha de Kant, entende ser necessário aceitar o dualismo filosófico do ser e do fenômeno, como duas realidades, aquela longínqua e velada, e esta cada vez mais conhecida empiricamente pelo homem.

Existem, entretanto, aqueles que ainda sustentam o realismo físico, que está associado à ideia de determinismo, sendo exemplo dessa posição a afirmação de Einstein de que “Deus não joga dados”, mesmo que este renomado físico não tivesse conseguido desenvolver uma proposta matemática final que sustentasse sua posição. David Bohm trabalhou com Einstein e elaborou uma proposta de realismo físico, sustentando a possibilidade de existirem variáveis ocultas no nível subquântico, hipótese que não pode ser excluída pelo fato de que tais fenômenos não são atualmente detectáveis por nossa tecnologia.

A objetividade forte costuma ser entendida como o conhecimento da realidade em si, independentemente do sujeito, independente do homem, enquanto a objetividade fraca é aquela com validade intersubjetiva, em que há consenso experimental entre os observadores.

Sobre essa ideia de consenso intersubjetivo, vale aqui citar uma frase de Sam Harris, com a qual concordo plenamente:

A questão principal, entretanto, é que, em princípio, verdade não tem nada a ver com consenso: uma pessoa pode estar certa e todas as outras erradas. O consenso é um guia para descobrir o que está acontecendo no mundo, mas não passa disso. Sua presença ou ausência não limitam de forma alguma o que pode e o que não pode ser verdadeiro” (Obra citada, p. 42 – negrito meu).

Isso ocorre porque uma pessoa, subjetivamente, por razões inicialmente desconhecidas, pode ter acesso a conhecimentos sobre a realidade antes ou muito antes das demais, até que tal verdade seja, então, conhecida pelos outros seres humanos. Isso aconteceu com Einstein, por alguns anos, entre a elaboração da relatividade geral e sua comprovação através de experimentos durante um eclipse solar, quando apenas Einstein (e talvez outros poucos seres humanos) tinha ciência de que a luz fazia curva.

Pode-se dizer que toda verdade passa por uma subjetividade que, de fato, é objetiva, pois tida num primeiro momento como mera subjetividade, até que a realidade dessa percepção subjetiva seja transmitida ou comunicada de alguma forma racional ou inteligível aos demais sujeitos. Essa questão foi também abordada no artigo “Subjetividade objetiva” (https://holonomia.com/2018/06/01/subjetividade-objetiva/).

Assim, para se chegar à objetividade forte é necessário seguir a subjetividade objetiva, isto é, dos sujeitos que tiveram contato com a realidade última ou que dela se aproximaram por algum meio, o que vale tanto para líderes religiosos como para cientistas. Por isso o trabalho em desenvolvimento segue as ideias do maior sujeito da História, Jesus Cristo, que viveu a própria realidade, encarnando-a, e as dos cientistas que mais promoveram o avanço do conhecimento humano sobre a natureza, sobre a realidade, com destaque para Hegel, Jung e David Bohm.

Essa proposta é contrária ao que se entende por conhecimento religioso, como também supera a atual concepção de ciência, porque se afasta de uma linha teológica Cristã absolutamente dominante (católica e protestante), que condicionou até mesmo a forma com a Ciência foi produzida, tanto nos âmbitos social e jurídico, a partir de Agostinho de Hipona e sua interpretação Política do Evangelho, como no aspecto natural, pelas dualidades cartesiana e kantiana, separando res extensa e res cogitans, de um lado, e fenômeno e númeno, de outro. Daí o caráter revolucionário da tese, sustentando haver objetividade no sujeito, e que a realidade objetivamente forte está vinculada ao sujeito que a realiza.

Segundo os falibilistas, o cientista deverá, portanto, procurar sempre edificar as teorias mais audaciosas – as mais ‘revolucionárias’ em relação às ideias reinantes – porque são elas que têm a priori maiores hipóteses de serem refutadas: se bem que, em contrapartida, se acontecer não o serem, são elas que originam os maiores progressos” (Bernard D’Espagnat. Uma incerta realidade: o mundo quântico, o conhecimento e a duração. Lisboa, Instituto Piaget, p. 68).

A audácia da teoria, outrossim, é considerar o Cristianismo, em suas corretas epistemologia e ontologia, demonstradas em Vida por Jesus, como o próprio Caminho e a própria Verdade, como Método e como Realidade da Ciência, em sua objetividade forte, porque ligada ao sujeito que encarna o Logos e se torna a subjetividade objetiva, antecipando o conhecimento que a humanidade levou milhares de anos para alcançar. E o sujeito que encarna o Logos é não apenas Jesus, o primeiro e único a fazê-lo plenamente, o que não fez dele O Deus ou membro de uma trindade, porque todos que o seguem em Espírito e Verdade tornam-se um com ele e com Ele. Remeto o leitor, sobre essa questão, ao artigo “Monoteísmo: A Santíssima Unidade” (https://holonomia.com/2016/12/10/monoteismo-a-santissima-unidade/).

Nesse sentido, a aceitação da verdade da profecia, quando cumprida, mostrando que alguns sujeitos, mais de mil anos antes, conseguiram antever o curso da História, e na medida em que os eventos profetizados ou antevistos forem consumados e compreendidos, em sua correta interpretação apocalíptica, ou revelada, levará a que a Ciência, enfim, possa ser novamente unificada, em torno dessa objetividade forte, dessa realidade subjetiva e profética, para que, finalmente, os maiores progressos humanos possam ser alcançados, período que é já conhecido antecipada, religiosa e cientificamente como Era Messiânica, ou Milênio, quando o Reino de Deus, do Logos, da Razão ou da Ciência, será posto em prática coletivamente.

Depois disto, derramarei o meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Mesmo sobre os escravos e sobre as escravas, naqueles dias, derramarei o meu espírito” (Jl 3, 1-2).

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