Elias e a verdade científica

Elias é uma personagem bíblica que surgiu no tempo do rei Acab, em um período de idolatria, quando o rei “passou a servir Baal e a adorá-lo”, “irritando Iahweh, Deus de Israel, mais que todos os reis de Israel que o precederam” (1Rs 16, 31 e 33).

Nessa época, pois, o poder político de Israel estava submetido a uma falsa teologia e a ideias desviantes da verdade, propagadas por falsos profetas. Fazendo uma adequação teórica ao tempo atual, os profetas do tempo de Elias, o que vale também para este profeta, correspondiam aos cientistas e acadêmicos (e religiosos) da era atual, aqueles que sustentam uma narrativa de mundo com pretensão de verdade. A diferença entre o profeta (cientista ou religioso) de Iahweh e o falso profeta (cientista ou religioso) está no fato de que aquele é expressão da Verdade, enquanto este é pregador da mentira e do engodo. As previsões do autêntico profeta, ou cientista, ou religioso, se realizam e se cumprem no mundo da vida.

A figura de Elias possui elevado destaque no antigo testamento, sendo que profetizou uma seca de três anos e ressuscitou o filho de uma viúva (1Rs 17, 1 e 22), antecipando sinais que seriam realizados pelo próprio Jesus Cristo, que controlou a tempestade e também ressuscitou pessoas, como narrado nos Evangelhos.

Um dos eventos mais marcantes da vida de Elias é o embate com os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, no monte Carmelo, quando os desafiou a invocar o nome de deus, enquanto ele invocaria Iahweh, e o deus que respondesse enviando fogo, “é ele o Deus” (1Rs 18, 24). Aceito o desafio, os profetas de Baal passaram metade do dia pedindo a seu deus, mas o fogo de sua oferenda não foi aceso. Então, Elias “empilhou a lenha, esquartejou o novilho e colocou-o sobre a lenha. Depois disse: ‘Enchei quatro talhas de água e entornai-a sobre o holocausto e sobre a lenha’; assim o fizeram. E ele disse: ‘Fazei-o de novo’, e eles o fizeram. E acrescentou: ‘Fazei-o pela terceira vez’, e eles o fizeram. A água se espalhou em torno do altar e inclusive o rego ficou cheio d’água. Na hora em que se apresenta a oferenda, Elias, o profeta, aproximou-se e disse: ‘Iahweh, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saiba-se hoje que tu és Deus em Israel, que sou teu servo e que foi por ordem tua que fiz todas estas coisas. Responde-me, Iahweh, responde-me, para que este povo reconheça que és tu, Iahweh, o Deus, e que convertes os corações deles!’ Então caiu o fogo de Iahweh e consumiu o holocausto e a lenha, secando a água que estava no rego. Todo o povo o presenciou; prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: ‘É Iahweh que é Deus! É Iahweh que é Deus!’ Elias lhes disse: ‘Prendei os profetas de Baal; que nenhum deles escape!’ e eles os prenderam. Elias fê-los descer para perto da torrente do Quison e lá os degolou” (1Rs 18, 33-40).

Elias mostrou, assim, que estava do lado da verdade científica, da Verdade, derrotando os falsos profetas, porque a palavra de Elias era adequada às coisas, sendo dotada de adaequatio intellectus et rei, de identificação entre o intelecto e a coisa, a ideia e a existência, o pensamento e a realidade.

Atualmente, a verdade científica é encontrada, mesmo que parcialmente, por meio das previsões das teorias científicas, notadamente quando são confirmadas, ocasiões em que o intelecto se apresenta no mundo dos fatos, ainda que restritamente, dado que a plena adequação só ocorre nas manifestações do próprio Deus, na verdadeira Ciência, o Cristianismo, de que os profetas (e religiosos) de hoje estão muito distantes.

A teoria da relatividade, nesse sentido, é uma expressão parcial e muito limitada da adequação entre ideia e realidade, como ocorreu com a recente comprovação da existência de ondas gravitacionais pela proposta científica de Einstein. Parcial porque nem Einstein, nem qualquer outro cientista posterior, conseguiu compatibilizar a relatividade com a física quântica.

O problema de Einstein foi sua fixação com o materialismo, que pode ser considerado uma nova forma de teologia, pelo que Einstein, nesse sentido, é um profeta do materialismo, tendo ele procurado eliminar os “conceitos provenientes da esfera psicológica, como dor, meta, finalidade etc.” do pensamento científico, pois este deve tratar apenas de “conceitos ‘de natureza espacial’, buscando expressar por meio deles todas as relações que possuem caráter de lei”, reduzindo os fatos “de tal maneira que o psíquico como tal seja eliminado do encadeamento causal do ser, de modo que ele, por conseguinte, não se manifeste em parte alguma como um elo independente nas ligações causais. Esta atitude, que em princípio considera possível abranger todas as relações empregando exclusivamente conceitos de ‘natureza espacial’, é certamente o que entendemos hoje por ‘materialismo’ (depois que a ‘matéria’ perdeu seu papel de conceito fundamental)” (Albert Einstein. A Teoria da Relatividade Especial e Geral. Trad. Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999, pp. 116-117).

A busca final de Einstein era pela descrição da “realidade física de maneira exaustiva (incluindo o espaço a quatro dimensões) por meio de um campo”, em uma “teoria de campo relativístico”, objetivo não compartilhado pelos físicos de seu tempo, acreditando estes que “o estado de um sistema não pode ser caracterizado direta mas apenas indiretamente”, através de estatísticas, porque predomina a “convicção de que a natureza dupla (estrutura corpuscular e estrutura ondulatória), solidamente provada pela experiência, só pode ser alcançada através desse enfraquecimento do conceito de realidade” (Idem, p. 130).

Pode-se ver que Einstein procurava uma ciência dissociada do aspecto humano, porque a exclusão da dor (e consequentemente do prazer), da meta, da finalidade, enfim, do sentido das coisas e do âmbito psíquico do pensamento científico é produzir uma ciência sem humanidade. A Ciência produzida dessa forma é estéril, é morta, porque sem Metafísica, sendo mister, para a busca da verdade científica, a superação do materialismo e do positivismo, que rejeitam a ideia de uma realidade espiritual e significado e negam os valores humanos que fazem a vida ter sentido.

Nos anos 30, o reducionismo ocupava uma parte importante do programa neopositivista que aspirava alcançar a unidade da ciência pela redução de seus diversos ramos à linguagem fisicista. As entidades ou níveis mais altos não seriam ‘outra coisa que’ a soma das entidades ou teorias de níveis mais baixos. Este projeto tropeçou de imediato em dificuldades insuperáveis, mas os intentos reducionistas não cessaram” (Carlos A. Casanova. Física e Realidade: reflexões metafísicas sobre a ciência natural. Trad. Raphael D. M. De Paola. Campinas, SP: VIDE Editoral, 2013, p. 210).

Casanova defende, com absoluta razão, que é preciso pressupor inteligibilidade na natureza para que seja possível a atividade científica, atitude esta que é previa à própria empreitada científica, a qual “se encontra num universo de sentido que a transcende. (…) Quando, em nome da ciência natural, se pretende negar este universo de sentido, já não se está fazendo ciência, mas metafísica, ainda que mascarada e falsa” (Idem, p. 245).

A verdade científica, assim, está longe de ser alcançada pelos profetas do materialismo, por maior que tenha sido o seu sucesso parcial provisório, como ocorreu com os profetas de Baal até o embate com Elias. A vida de Elias é inacreditável para um materialista, especialmente porque aquele simplesmente não morreu, pois quando estava com Eliseu, “aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, eis que um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu no turbilhão” (2Rs 2, 11).

A opção pelo Cristianismo na busca da verdade científica é, portanto, insólita, contrariando tudo o que se tem entendido como ciência, e como religião, mas não afronta os dados científicos em si, em uma interpretação não reducionista da Natureza. Essa visão científica mais ampla da realidade, de todo modo, como uma expressão própria da Ciência, depende de uma comprovação pública da teoria em algum momento, como ocorreu com a relatividade, e com Elias, diante dos profetas de Baal.

Elias, destarte, está relacionado à manifestação da verdade científica, como profetizado: “Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o Dia de Iahweh, grande e terrível. Ele fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais, para que eu não venha ferir a terra com anátema” (Ml 3, 23-24).

O espírito, padrão, ideia, arquétipo ou forma de verdade de Elias se manifestou antes de Jesus Cristo, na vida de João Batista, antecipando a revolução teológica que viria a se desenvolver tanto no Cristianismo como no Islamismo, religião esta diretamente dependente da Verdade contida na Torá e no Evangelho, até que o início da consumação dessa Verdade se dê também no plano político internacional.

Os discípulos perguntaram-lhe: ‘Por que razão os escribas dizem que é preciso que Elias venha primeiro?’ Respondeu-lhes Jesus: ‘Certamente Elias terá de vir para restaurar tudo. Eu vos digo, porém, que Elias já veio, mas não o reconheceram. Ao contrário, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem irá sofrer da parte deles’. Então os discípulos entenderam que se referia a João Batista” (Mt 17, 10-13).

João Batista pregava: “Mudai de mentalidade, pois ficou próximo o reino dos céus” (Mt 3, 1). Anunciava uma realidade que ainda não é bem compreendida, porque exige uma interpretação do mundo que transcende a aparência fugaz do plano corporal, uma nova mentalidade, visão de mundo ou Metafísica que inclua uma temporalidade ligada à escala da evolução da vida humana na Terra, mensagem que deve submeter o poder político internacional a partir de Israel e seu Messias, Jesus.

Para isso, é fundamental a correta interpretação da relatividade e da física quântica, da Ciência, que corrobora a Verdade Cristã, uma vez que passou a exigir que o mundo seja entendido não como um espaço cheio de coisas atomicamente isoladas ou como objetos exteriores, mas como relações, infinitas, como funções, como valores, vinculados ao observador, ao sujeito que é templo de um Espírito infinito, de um Logos que perpassa todas as coias. A posição relativa é fundamental para a compreensão da relatividade, exigindo a orgânica quântica, contudo, a definição prévia de um valor, de uma utilidade da observação, no sentido de verificar o fenômeno a ser observado, ou em razão de sua natureza como onda ou como partícula, dando propriamente sentido às coisas no plano espaço-temporal.

O que o materialismo de Einstein não percebeu, como também escapou ao positivismo, é que o mundo material é feito não de coisas extensas, mas de Espírito encarnado, como O Logos, A Razão, Deus, entre os homens e a natureza. Sem Espírito, sem alma, sem o sentido do movimento, a matéria é morta, é indiferente, é insossa, e isso não provoca atividade no organismo vivo.

Também fundamental é a correta interpretação do Cristianismo, como Judaísmo renovado, e do Islamismo, e por isso busca-se restaurar o espírito de Elias, anunciando o Reino de Deus, indicando o caminho de restauração da Verdade Científica, mesmo que essa Mensagem não seja bem compreendida, confusão que cessará quando o Espírito de Cristo se manifestar, de forma semelhante ao fogo descendo no monte Carmelo, para que os falsos profetas, materialistas e positivistas, sejam desmascarados, servindo como escabelo para a proclamação do Evangelho, submetendo o poder político e a atividade científica e acadêmica à Verdade da Ciência, que é Cristo.

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