Alma e física

No artigo anterior foram expostas três hipóteses básicas quanto à natureza da alma: a materialista, pela qual a alma é fruto de criação da mente humana ociosa, um epifenômeno da atividade cerebral; a dualista, que entende a alma como distinta do corpo, imaterial e imortal, separando-se do corpo após a morte; e a monoteísta, que concebe a alma como uma integralidade que inclui a realidade física da pessoa, o corpo e os sentimentos.

No presente texto são desenvolvidos argumentos sobre os aspectos materiais e físicos da alma, adequados à visão Cristã, segundo a qual “Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

Ainda que haja dúvidas sobre a autoria da Carta aos Efésios, seu conteúdo é compatível com o Evangelho de Jesus Cristo, fazendo parte do cânon amplamente aceito do Novo Testamento, pelo que pode ser assumido como correto o conceito teológico acima, indicando que há um só Corpo e um só Espírito, ideia corroborada pela física moderna, conforme a qual todos os corpos estão interconectados por campos infinitos que interferem em entre si, havendo, pois, um só Corpo, que Einstein chamaria de contínuo espaço-tempo. A existência de um só Espírito, de sua vez, por ora, é uma inferência lógica, uma pressuposição científica, na medida em que a compreensão do mundo, e de todos os seus diversos fenômenos, e a comunicação humana, por exemplo, indicam haver uma Inteligência unitária pela qual os fenômenos espirituais são produzidos e podem ser captados em sua interconexão mais profunda, uma espécie de tradutor lógico universal que aponta para uma unidade sutil que tudo inclui, o Logos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos.

Aristóteles estabeleceu a necessidade de uma causa primeira, o motor imóvel que tudo move, para que seja possível a compreensão filosófica do mundo e seu movimento. A alma, porque ligada ao Espírito, integra a causa primeira, manifestando-a no tempo, é nossa presença na causa primeira, conectando-nos ao começo de tudo.

A alma, portanto, liga-se ao Espírito: “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus? … e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos?” (1 Cor 6, 19).

A criação das almas antecede o tempo, no aspecto da alma que está unido ao Espírito, e ocorre no tempo, quando se forma em um corpo físico na existência humana, dentro na História do Universo.

Desta feita, Deus nos cedeu parte de Seu Espírito indivisível, para que vivamos, e esse momento, de criação das almas, é atemporal, e talvez signifique o próprio princípio do tempo, o salto quântico inicial pelo qual o universo e o tempo foram formados, quando todas as almas interagiram no Espírito, com livre-arbítrio, determinando suas naturezas, e seus destinos, na existência. Por isso, já existimos desde antes do mundo.

Nele (em Cristo) Ele (Deus) nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1, 4).

Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo” (Mt 25, 34).

Pode-se dizer que, em uma análise regressiva do tempo, há um salto quântico para a unidade de tudo, a singularidade, quando não havia espaço ou tempo e todas as almas e todos os corpos estavam unidos entre si em um único ponto, no Espírito. Na contagem retroativa do tempo, a matéria se torna sutil dando saltos quânticos até chegar à unidade infinita, imaterial, atemporal e aespacial, segundo nossos conceitos científicos de matéria, tempo e espaço.

A criação é, portanto, o momento em que a unidade se transforma em diversidade, o uno se torna múltiplo, quando a causa primeira, o motor imóvel, sem se mover, sem perder sua Unidade, dá início ao movimento. A alma está no movimento, e antes do movimento, simultaneamente. Antes do tempo, a alma escolhe seu movimento essencial, sua natureza, e por isso é permitido afirmar, como medida de justiça, que os eleitos escolhem ser escolhidos, sendo a Justiça e a Perfeição alguns dos atributos de Deus

A Unidade primordial é imemorial, porque anterior ao tempo, no qual são formadas as memórias, mas é acessível à alma de uma forma em que as noções de tempo, espaço e individualidade são ofuscadas, de modo que essa unidade é, como regra, inconsciente. Essa unidade é associada à dissolução do eu nas religiões orientais. De outro lado, há a Unidade memorial, que é o julgamento final das religiões monoteístas, quando todos os movimentos são lembrados desde o início do tempo, no Espírito, cuja comunhão ou unidade será trazida à consciência das almas, sendo mantidas suas individualidades, segundo a qualidade de seus movimentos e conforme os respectivos conhecimentos potenciais e razoáveis daquela Unidade.

Se é possível à humanidade compreender a união física entre duas partículas quanticamente entrelaçadas, o que faz dos movimentos dessas partículas espacialmente separadas um único movimento físico que determina a posição de ambas, independentemente da distância entre elas, a mesma lógica vale para a situação das almas em relação ao Espírito, quando da medição final de seus movimentos.

Outrossim, a alma se posiciona simultaneamente no Ser e no estar, possuindo natureza permanente, que é, sempre foi e sempre será; mas encontra-se, enquanto encarnada, no devir; pelo que as relações com as outras almas ocorrem tanto na eternidade quanto no tempo.

A alma pode dizer “eu sou” porque estava presente na fundação do mundo, fundação na qual, pela unidade inerente ao Ser, decorrente do princípio da unidade do Ser (que é até mesmo conceitual), também se estabeleceu o futuro, o Reino de Deus, que significa a unidade consciente da humanidade.

A função da alma é, portanto, restabelecer conscientemente a unidade primordial, o Logos, que é sempre Uno, no tempo, mantendo a unidade no devir, conforme o Logos, unidade que no plano atemporal é determinada, pré-determinada pela escolha feita pela alma antes do tempo, pois possuidora do livre-arbítrio, ainda que no plano do devir essa unidade e essa escolha não estejam na consciência superficial e sejam de difícil elaboração e descoberta racional. A busca dessa unidade consciente é trabalho da Filosofia, da Ciência e da Religião, que representam momentos históricos do Espírito em busca da Verdade, até que a Unidade seja alcançada conjuntamente por tais abordagens cognitivas, e também na Política, o que representa o Reino de Deus.

Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 20-23).

Por isso, quando criadas as almas no Ser, seu devir já foi todo ele determinado, pelo movimento da alma dentro da unidade que se mantém, diante da relação necessária de completude na unidade do Ser.

A unidade inconsciente só se torna totalmente consciente quando a alma volta ao Ser depois de experimentar o seu pleno devir, na encarnação, que é o movimento completo do vivo na Vida, sendo possível atingir parte dessa consciência maior ainda em vida, antecipando, com fé e conhecimento, a vivência da Unidade do Ser.

A Unidade do Ser pressupõe um Sujeito fixo, que é o motor imóvel, o Espírito, Deus, ou Logos, que estava no Princípio. O conhecimento, igualmente, exige algo permanente, porque sem uma referência estável o conhecimento seria impossível, na medida em que nossas opiniões e sensações mudariam o tempo todo, não permitindo a fundamentação científica.

A Verdade pressupõe e exige um Sujeito eterno que compare os movimentos, relacionando-os entre si, como o faz a Tradição. O Sujeito eterno é Deus, que nos julga fora do tempo, mas dentro do tempo esse julgamento é feito com base no modelo de movimento eterno, dado por Jesus Cristo, e por isso ele é o juiz da humanidade, pois uniu sua subjetividade à de Deus, tornando-se o primeiro Sujeito Humano em plenitude.

Desta feita, a Verdade é uniplurissubjetiva, relativa à subjetividade que permanece em vários sujeitos, mesmo diante da constante mudança material e temporal, independentemente do ponto de vista, que é múltiplo, daí a uniplurissubjetividade, que resgata a Unidade imemorial e antecipa a Unidade memorial, vivendo conforme O Espírito.

A alma busca a Verdade no sentido de se alinhar ao motor imóvel primordial, Deus, da qual é oriunda, unindo-se a Ele em seus movimentos locais, de modo que estes se tornem os movimentos da unidade imóvel, do Espírito.

Daí porque o Espírito Santo é a alma do corpo coletivo. A alma grande, ou grande alma, mahatma, é a que usa o livre-arbítrio para escolher o princípio de movimento individual não a partir do corpo pessoal e dos prazeres corporais, e sim conforme o Espírito Santo, porque age em benefício do Corpo coletivo.

O propósito da alma, pois, é crescer em conhecimento e grandeza espiritual para agir no mundo físico e social, resgatando a Unidade imemorial e permitindo que a Unidade memorial se manifeste no Corpo físico da Humanidade, para que esta viva como um só Corpo e um só Espírito, deixando para os filhos da Humanidade, já aqui e agora, e também como herança, o Reino preparado para os justos desde a fundação do mundo.

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