Homem: um ente simbólico

Aristóteles define o homem como um animal político, zoon politikon.

Contudo, antes de ser político, o homem é um ente simbólico, é um ser espiritual, pois vive no mundo qualificado por ideias e sentidos.

A humanidade, destarte, está inserida em um ambiente de significados, que podem ser carnais e/ou espirituais, sendo o materialismo a filosofia que descarta a existência de significação espiritual ou transcendente, e para a qual os únicos sentidos válidos são os 05 (cinco) sensoriais.

O idealismo, por sua vez, entende que o espírito ou ideia dá significado às coisas, até mesmo aos sentidos ou sensações carnais, condicionando a ação na carne, segundo uma racionalidade pela qual os fenômenos do mundo são organizados simbolicamente, racionalidade que não é exclusivamente carnal, transcendendo os cinco sentidos.

A diferença entre o materialismo e o idealismo está no fato de que o primeiro coloca no centro da experiência simbólica, que condiciona o entendimento do mundo, as sensações carnais: tato, olfato, paladar, visão e audição; enquanto para o idealismo existe uma unidade inteligente espiritual além desses sentidos, da qual se origina a experiência simbólica, moldando o significado dos fenômenos existenciais. O materialismo tem um simbolismo de baixo para cima, da parte para o todo, que, quando existe, é acidental e aleatório; já o idealismo estabelece seus sentidos de cima para baixo, possuindo um todo significativo, o simbolismo de uma totalidade necessária, da qual são derivados os sentidos das partes.

A política, nesse sentido, já é o desenvolvimento de símbolos sociais, porque também as sociedades animais têm organização política, ainda que instintiva e rudimentar, podendo serem citados como exemplos as abelhas, as formigas, os leões e mesmo os primatas.

O que diferencia o homem dos animais é a possibilidade de escolha simbólica/espiritual sobre como serão organizados os símbolos com base nos quais a sociedade terá seu funcionamento, enquanto a sociedade animal tem um funcionamento principalmente biológico, enquanto instintivamente condicionado.

Por isso, a biologia animal determina o líder do grupo valendo-se de sinais, como símbolos físicos, seja por meio da condição genética, pela força ou por exibição de determinado comportamento, para determinar o vencedor dentro da sociedade animal, até que em novo ciclo um membro mais jovem ocupe o lugar de liderança. O poder social, seja entre os animais ou entre os humanos, é exercido a partir de sinais ou símbolos que dão significados e valores a determinados membros do grupo e seus comportamentos, colocando-os em posição e função diferenciada na comunidade, de comando ou de obediência.

Desta feita, a organização social é simbólica mesmo entre os animais, pelo que, antes de ser político, o homem é um ente simbólico.

Os sinais se manifestam, são guiados, inicialmente, pelos sentidos corporais, como o som, através dos quais os membros do grupo se comunicam; o olfato e o paladar dos alimentos, que podem ser benéficos ou nocivos; a imagem das coisas, no que se inclui a quantidade de luz, que define o dia ou a noite; o contato corporal em relações afetivas, inclusive para reprodução. Todos são sinais, ou informações, processados pelos organismos, dando sentido aos comportamentos, em uma direção específica ou outra, de uma lógica mais simples até uma mais complexa.

Entender a lógica desses sinais é fundamental para a compreensão da vida, pesquisa desenvolvida pela ciência, com destaque para a psicologia. No curso da vida, assim, foram sendo desenvolvidas formas de organizações mentais dos sinais, passadas de geração em geração, o que Jung denominou arquétipos do inconsciente coletivo, que são espécies de instintos transindividuais, possivelmente adquiridos no curso da evolução, que se unem aos sinais corporais para regular o comportamento dos indivíduos. Ressalte-se que o conhecimento contemporâneo sobre o funcionamento do inconsciente coletivo, e da sua simbologia mais profunda, é ainda incipiente, porque predomina na psicologia a proposta materialista e individualista de Freud.

Os homens têm, ainda, a capacidade de produzir sinais, os quais tornaram gradativamente mais complexa a simbologia humana, abrangendo relações sutis que vão além da capacidade animal de compreensão, criando uma teia intrincada de relações de sentidos que dificultam o entendimento dos fenômenos até mesmo pelos indivíduos humanos, o que vale também para o ambiente político, que está inserido em um contexto mais amplo de símbolos. Cristo representa, nesse sentido, um símbolo de totalidade, como destacado na obra de Jung “Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo”.

Na teoria política, segundo o marxismo, explicando o funcionamento da vida humana, os valores econômicos estão na base dos símbolos sociais, sendo as relações de produção a infraestrutura sobre a qual são construídas as relações sociais, da superestrutura, onde está situada a política. No materialismo, assim, a simbologia econômica é fundamental e determinante para o significado geral do mundo.

Ainda que a produção de bens seja de grande relevância, os símbolos econômicos que permitem as trocas e estabelecem os preços das mercadorias são dependentes da ligação psíquica ou espiritual dos indivíduos frente aos significados mais essenciais da vida, escolhidos ou eleitos pelos membros do grupo social, que podem dar prioridade aos bens materiais ou aos espirituais.

Desta feita, contrariamente ao marxismo, o Cristianismo é a filosofia ou religião segundo a qual o valor máximo é o Espírito, o Logos, a Inteligência:

Não busqueis o que comer ou beber; e não vos inquieteis! Pois são os gentios deste mundo que estão à procura de tudo isso: vosso Pai sabe que tendes necessidade disso. Pelo contrário, buscai o seu Reino, e essas coisas vos serão acrescentadas. Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino!” (Lc 12, 29-32).

Assim, na simbologia Cristã os bens materiais são necessários para o desenvolvimento humano, mas a preferência é pela conquista do Reino, uma realidade que está além da mera satisfação corporal e do consumo imediato.

No Cristianismo, a unidade simbólica do mundo, ligada à construção arquetípica da psique humana, está presente na mente coletiva, uma mente que transcende as individuais, não está presente nos genes ou no cérebro, e age no espírito dos indivíduos por meio da espécie que integram. Existe, outrossim, uma alma coletiva à qual os indivíduos pertencem e têm acesso, não estando dentro de seus corpos individuais, mas à qual se conectam espiritual e simbolicamente, por uma rede de significados que permanece no ambiente social a despeito da morte dos membros do grupo, o que filosoficamente é conhecido como Tradição.

A Religião, desta feita, é uma forma de manutenção do significado da Tradição, que no mundo ocidental é presentada pelo Monoteísmo, especialmente pelo Livro transmitido por milênios, de geração em geração, para preservação daquela unidade simbólica do mundo que, de outro lado, é igualmente buscada pela Filosofia e pela Ciência.

A Escritura significa um processo histórico de desenvolvimento e realização da Ideia, da Lei Perfeita, do Logos, na humanidade, sempre com um significado político subjacente, do Reino prometido inicialmente a Abraão, renovando-se a promessa com Moisés, depois com Davi, indicando a paz entre as nações submetidas ao Deus Altíssimo.

Destarte, o Cristianismo é culminação dessa Ideia, porque o Messias, ou Cristo, está associado ao nome de Davi, como Rei de Israel, mesmo que sua concretização histórica ainda esteja em curso, pelo desenvolvimento teórico, filosófico e científico da simbologia da totalidade existencial realizada por Jesus no Monoteísmo.

O Livro é, ao mesmo tempo, a Palavra de Deus, a História sagrada, que tem seu ápice em Jesus, o qual inaugura uma nova e definitiva simbologia religiosa, e científica, tão complexa e sutil que passados cerca de dois mil anos ainda não teve seu sentido compreendido plenamente, notadamente quanto ao significado do Reino, a despeito de a maior parte da filosofia ocidental ter sido desenvolvida tendo como pano de fundo e fundamento a cosmovisão Cristã e seus princípios racionais.

O Reino é a mensagem principal, é o centro do Evangelho, Boa Nova da aproximação e realização da obra de Deus na humanidade, em sua plenitude, a partir de Jesus Cristo, em quem o cumprimento das promessas, da Ideia, se consuma e tem início, obra na qual a comunidade política tem valores verdadeiramente humanos e racionais, lógicos, o Logos, no qual o significado de humanidade, o símbolo da perfeição existencial, alcança um outro nível categorial, em salto qualitativo sem igual, ao transformar os governantes em servos dos governados, o que ainda não se conseguiu colocar em prática nas políticas nacionais e internacional.

Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10, 41-45).

Importante salientar o contexto simbólico dessa passagem, relativo ao Reino de Deus, ao governo do Messias, o maior governante ou líder político que o mundo jamais viu ou verá, e sobre quem estaria com ele no comando, à sua direita e à sua esquerda, o que demonstra o quão avançada e revolucionária, além de racional, é a proposta Cristã, de encarnação do Logos.

Deus era a Palavra, o Verbo, a unidade perfeita em ação, que estava no princípio. Depois unidade em Ideia, em Palavra, que se apresentou à humanidade, na mente, nas palavras e na vida dos profetas, nas Escrituras, que se realizaram em Jesus, dando este plenitude à Lei, à Palavra, em sua vida. Assim, a Palavra, o Verbo, a Escritura se cumpriu completamente em Jesus, fez-se carne e habitou na humanidade, individualmente, como modelo a ser seguido pela coletividade.

A simbologia Cristã é do cumprimento da Lei, da realização da Justiça, porque Jesus, o Messias, é justo integralmente, como Rei e Sacerdote, o que possui significado político e religioso. Cumprir a Lei significa encarnar o Logos, a Palavra, a Unidade simbólica e real, de modo que encarnar o Verbo é agir com Justiça, como Deus é Justo e Completo.

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