Universo holográfico e Terra plana

O presente artigo simboliza um dos principais aspectos da busca geral do filósofo na compreensão unificada e inteligível do mundo, partindo do conhecimento mais arcaico e chegando às modernas descobertas científicas e da razão humana, ou vice-versa. Representa uma tentativa de compatibilizar os saberes mais antigos e tradicionais com os mais recentes e inovadores, mantendo a necessária e indispensável coerência filosófica.

Infelizmente, a coerência filosófica dos tempos atuais é parcial e restrita à Matemática, em razão de sua linguagem ser unívoca, ainda assim, apenas quanto às suas conclusões formais. Nesta senda, o entendimento sobre o que significam os números matemáticos aplicados à Física e aos dados observados, por exemplo, notadamente no universo quântico, já não recebe a mesma unanimidade, porque exige a regressão científica ao ponto anterior à Matemática e à própria Física, demanda um retorno à Metafísica, à Filosofia primeira, âmbito em que as divergências cognitivas e epistemológicas são várias.

Quanto à abordagem filosófica da realidade na modernidade, pode-se dizer que mesmo hoje persiste um impasse de mais de duzentos anos, não solucionado, porque parte do mundo científico aceita a epistemologia da crítica kantiana, segundo a qual não temos acesso intelectual à realidade em si, em detrimento da proposta hegeliana, no sentido de que a realidade é a racionalidade do Espírito manifestado historicamente na Natureza.

Tal debate filosófico retornou à tona no congresso de 1927 em Solvay, quando o dogma da incerteza foi convencionado, estabelecendo as bases para o que viria a ser a interpretação de Copenhague da Física quântica, sua visão ortodoxa, de matriz kantiana, em oposição à hipótese de Louis de Broglie, que restou vencida naquela conferência, a qual foi depois recuperada por David Bohm, e que sustentava a existência de uma onda piloto e de variáveis ocultas regendo o comportamento material, ou seja, no sentido de que existe uma energia inteligente oculta controlando a matéria. Em termos simples, segundo a incerteza, o universo é probabilístico e não temos acesso cognitivo à realidade última, conforme entendimento kantiano; para Bohm, de outro lado, a incerteza não é o fim da empreitada científica, sendo possível o entendimento causal que se manifesta no mundo subquântico, no qual está a realidade da unidade cósmica.

Bohm sustenta que o cosmos, o universo inteiro, é um holograma:

Aqui temos o embrião de uma nova noção. Essa ordem não deve ser entendida somente em termos de uma combinação de objetos (por exemplo, arranjo em fileiras) ou como uma combinação regular de eventos (por exemplo, arranjo em série). Ao contrário, a ordem total está contida, de algum modo implícito, em cada região do espaço e do tempo.

Desse modo, a palavra ‘implícita’ está baseada no verbo ‘implicar’. Isso significa ‘dobrar para dentro’ (assim como a multiplicação significa ‘dobrar várias vezes’). Portanto, somos levados a explorar a noção de que, de algum modo, cada região contém a estrutura total ‘envolvida’ dentro dela” (David Bohm. Totalidade e a ordem implicada. Tradução Teodoro Lorente. São Paulo: Madras, 2008, p. 157).

Essa é uma proposta filosófica radical para Física, que exige a rejeição completa do materialismo e do reducionismo científico ainda prevalecentes, não só na Física como também na Biologia e mesmo no Direito. Como Bohm afirma, “chegamos a uma nova descrição geral na Física, na qual ‘tudo implica tudo’ em uma ordem de totalidade indivisível” (Idem, p. 163 – negrito meu).

A ideia deste artigo surgiu quando assisti ao vídeo “The Holographic Universe Explained” (https://www.youtube.com/watch?v=klpDHn8viX8), de um canal do YouTube que sigo para atualização sobre as descobertas da Física. A propósito, sobre a questão holográfica, para muito além da Física, recomendo o livro “O Universo Holográfico”, de Michael Talbot, obra esgotada que pode ser encontrada em sebos ou baixada pela internet, que aborda filosoficamente o assunto.

No vídeo, cujo link consta acima, são enfrentadas questões complexas da Física, tratando de buracos negros, radiação de Hawking, CFT – Conformal Field Theory (Teoria de campo conformal) e espaço hiperbólico ou AdS – Anti-de Sitter (Espaço Anti-de Sitter). O autor explica a dualidade AdS/CFT de uma teoria das cordas, que é extremamente útil para cálculos, e como as informações das condições de mais altas dimensões, como de um buraco negro, podem persistir em condições com menos dimensões de sua superfície (do buraco negro); ou seja, a possibilidade de compactar informações de um espaço de três dimensões em uma representação espacial de duas dimensões. O apresentador afirma que: “AdS/CFT is a hint that we may live in a holographic universe”, o que significa que “AdS/CFT é uma indicação de que nós podemos viver em um universo holográfico”; e “a series of mathematical clues indicate that our universe may be holographic – or, at least, have a dual representation in a lower dimension”, ou “uma série de pistas matemáticas indicam que nosso universo pode ser holográfico – ou, ao menos, ter uma representação dupla em uma dimensão menor”. Ao final, conclui: “Maybe, but perhaps, our familiar 3 + 1 universe has an alternative, perhaps a more true representation out there: an abstract mathematical surface, infinitely far from our location and from our intuition, projecting inwards our familiar holographic sapecetime”. Isto é: “Talvez, possivelmente, nosso universo familiar 3 + 1 tenha uma alternativa, talvez uma representação mais verdadeira por aí: uma superfície matemática abstrata, infinitamente distante de nossa localização e de nossa intuição, projetando para dentro nosso espaço-tempo holográfico familiar”.

Ao compreender o princípio holográfico pode-se entender que é possível a representação de três dimensões espaciais em um espaço de duas dimensões, como salientado, e daí veio a imagem da Terra plana, que significa uma terra de duas dimensões, ao invés de sua representação esférica de três dimensões. O princípio holográfico em sua radicalidade significa que cada ponto do universo, em sua unidimensionalidade, é capaz de representar a totalidade cósmica com a qual está interligado, ainda que não tenhamos tecnologia para decifrar essas informações.

Tal questão coloca em relevo a dificuldade da representação real do mundo e as contradições dos resultados da ciência moderna. Vale repetir transcrição já contida em artigo anterior quanto à questão do geocentrismo e do heliocentrismo, que possui uma ligação com a ideia de Terra plana e com o cientificismo moderno.

Mas enquanto a Astronomia contemporânea é implacavelmente oposta à hipótese geocêntrica, a Física pura não o é. De acordo com a relatividade geral, é até mesmo permissível tomar a Terra como um corpo em repouso: como Fred Hoyle aduziu, a teoria resultante ‘é tão boa quanto qualquer outra, mas não melhor’. A relatividade implica que a hipótese da Terra estática não é incompatível com as leis da Física e não pode existir prova experimental que a contrarie. É claro que a Física como tal não pode afirmar essa hipótese, mas também não pode negar sua validade. (…) Assim, no que diz respeito à Física, o modelo geocêntrico permanece viável” (Wolsgang Smith. A sabedoria da antiga cosmologia. Trad. Adriel Teixeira, Bruno Geraindine e Cristiano Gomes. Campinas, SP: Vide editorial, 2017, pp. 247-248).

Assim, também quanto à imagem planetária, segundo o princípio holográfico é possível desenvolver uma representação do planeta em duas dimensões, de modo que tenhamos a figura de uma Terra plana.

Obviamente, só é possível admitir que a Terra é plana nos limites de uma representação holográfica bidimensional da realidade como um todo, não fazendo sentido deixar os demais corpos celestes tridimensionais e apenas a Terra bidimensional, pela salientada necessidade de se manter a coerência filosófica. O curioso disso tudo, destarte, é a mera possibilidade de sustentar racionalmente e com apoio científico a ideia de Terra plana sem que isso implique em um completo absurdo diante da realidade do mundo.

Pessoalmente, finalmente, em minha busca pela compreensão unificada e inteligível do mundo, com o devido respeito para as opiniões em contrário, entendo que eu sou o centro do universo físico, que para mim é o único que existe, principalmente porque, pelo princípio holográfico, o espaço e o tempo não possuem um centro, uma vez que todos os pontos do tempo e do espaço estão simultaneamente em seu centro, de modo que em qualquer lugar e em qualquer tempo eu estou sempre no centro do universo, e esse ponto é o centro de qualquer universo do qual eu faça parte, seja ele unidimensional, bidimensional, tridimensional, quadridimensional ou com qualquer outro número de dimensões.

Essa percepção só existe, contudo, na medida em que recebi um Espírito, o Espírito de Deus, que me dá o entendimento sobre mim e sobre o mundo, Espírito que está em tudo, e na Humanidade, por Cristo, em quem a plenitude do mundo se manifestou, permitindo o correto desenvolvimento científico, segundo a correta Filosofia ou Visão do mundo, a visão da unidade lógica e inteligente do mundo, o Logos que está no Princípio de tudo e tudo perpassa, do que o princípio holográfico é mais uma prova. É importante dizer que o Espírito faz de todo aquele que o aceita o centro do universo físico, dando objetividade a esse entendimento, na sua uniplurissubjetividade, que afasta o solipsismo individualista.

A História da Humanidade, por isso, tem uma narrativa que remete à totalidade da própria História, em perspectiva holográfica, na qual o princípio da Unidade Cósmica tem uma especial e única manifestação no tempo e no espaço tridimensional, sem a qual o sentido da plenitude universal não pode ser devidamente compreendido, porque é o elemento da representação e da realidade que conecta a dimensão temporal à dimensão atemporal e o espaço tridimensional ao espaço sem dimensões. Essa é a verdade de Jesus Cristo, que é muito superior à discussão sobre o heliocentrismo ou geocentrismo e sobre a Terra esférica ou Terra plana, porque é a verdade da própria Verdade.

Tudo ele pôs debaixo dos seus pés, e o pôs, acima de tudo, como Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo: a plenitude daquele que plenifica tudo em tudo” (Ef 1, 22-23).

Ele é antes de tudo e tudo nele subsiste. Ele é a Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo. Ele é o Princípio, o Primogênito dos mortos, (tendo em tudo a primazia), pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a Plenitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus, realizando a paz pelo sangue da sua cruz” (Col 1, 17-19).

A Igreja referida no texto não é um espaço físico ou uma instituição humana, como salientado no último artigo, mas a própria Humanidade, e a Humanidade é a própria totalidade cósmica em sua dimensão mais elevada, em cada um e todos nós, e daí a verdade religiosa fundamental, no sentido de que existe uma realidade holográfica na Humanidade pela qual todos somos toda a Humanidade, realidade que a ciência humana começa a descobrir, mas que já estava no conhecimento religioso, em sua verdade profunda que deve ser reconhecida, porque todo o bem e todo mal que fazemos ao outro o fazemos à totalidade cósmica.

Essa verdade já estava contida na Torá e foi repetida no Alcorão.

Por isso, prescrevemos aos filhos de Israel que quem matar um homem, a não ser pela lei de talião ou porque corrompia a terra, é como se tivesse matado todos os homens; e quem salvar a vida de um homem, é como se tivesse salvo a vida de todos os homens” (Alcorão 5, 32).

Contudo, em Jesus essa realidade se tornou absoluta e mais radical e perfeita, para que a Humanidade alcançasse um novo patamar, ainda em processamento no plano coletivo, de um mundo plenamente integrado, além de tribos ou crenças particulares, antecipando a realidade última, alcançada individualmente por Jesus Cristo, em que todos somos um.

‘Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes (…).

Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25, 40 e 45).

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