A corrente da vida

A existência ou ausência de sentido no mundo é uma questão fundamental, pois define se somos apenas um amontoado de partículas que se transformaram em moléculas, de complexidade crescente, gerando os pensamentos, dentro dos quais aqueles que criaram a aparência de uma realidade espiritual, transcendente a nós, ou se esses fenômenos espirituais indicam, de fato, que pertencemos a mundo efetivo maior do que nossos corpos individuais.

Se a evolução, segundo a hipótese de Darwin, pode explicar alguns eventos do fluxo da vida, não explica inicialmente a origem da vida, valendo dizer que não foi comprovada a chamada macroevolução, havendo obscuridades no conhecimento científico quanto à direção da história. O sentido da existência humana ainda está em aberto no sistema científico.

Quaisquer que sejam as respostas a essas perguntas, um fato não pode ser negado, que estamos aqui, representando o ápice da vida corporal, considerando que o cérebro humano é o órgão mais complexo até então descoberto pela Ciência em todo o universo conhecido. Além disso, carregamos em nós um histórico físico, biológico, psíquico e cultural que remete às origens do cosmos. Destarte, nós somos a humanidade, a vida em curso.

Até mesmo Nietzsche, um grande crítico do pensamento filosófico tradicional, entendia haver necessidade de compreender essa unidade presente em nós, em que pese a incompreensão do referido autor quanto à realidade mais profunda, em relação à ordem de mundo que ele mesmo buscava.

O egoísmo vale tanto quanto vale fisiologicamente aquele que o tem: pode valer muito, e pode carecer de valor e ser desprezível. Cada indivíduo pode ser examinado para ver se representa a linha ascendente ou a linha descendente da vida. Decidindo a respeito disso, temos também um cânon para o valor de seu egoísmo. Se ele representa a linha em ascensão, seu valor é efetivamente extraordinário — e, em função da totalidade da vida, que com ele dá um passo adiante, deve mesmo ser extremo o cuidado pela conservação, pela criação do seu optimum de condições. O ‘indivíduo’, tal como o povo e a filosofia até hoje o entenderam, é um erro, afinal: não é nada por si, não é um átomo, um ‘elo da corrente’, nada simplesmente herdado de antigamente — ele é toda a linha ‘ser humano’ até ele mesmo… Se representa o desenvolvimento para baixo, o declínio, a crônica degeneração e adoecimento (— as doenças já são, em termos gerais, consequências do declínio, não suas causas), ele tem pouco valor, e a mais simples equidade pede que ele subtraia o mínimo possível daqueles que vingaram. Ele é apenas seu parasita…” (Friedrich Wilhelm Nietzsche. O crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com um martelo. Trad. Paulo César de Souza. Companhia das Letras. Versão eletrônica. Capítulo IX, parágrafo 33).

Ironicamente, a passagem acima explica em parte o entendimento de Jesus Cristo sobre ele mesmo, como ápice da vida humana, como filho da humanidade, ou filho do homem, expressão que ele usava para se referir a si mesmo.

De todo modo, mesmo Nietzsche entende haver uma linha ascendente e uma linha descendente, fazendo um juízo sobre o desenvolvimento da vida, o que é fundamental para definir um contexto para a existência humana e para dirigir nossos comportamentos cotidianos.

É possível entender razoavelmente que a linha ascendente tem seu ápice na vida humana, de modo que o filho da humanidade, o conceito cristão de humano, é “toda a linha ‘ser humano’ até ele mesmo”, o resultado da evolução até aquele momento, antecipando em si a continuidade da própria humanidade, como aquele que gera o ser humano melhorado do futuro, para continuidade da ascensão da vida.

Ainda que seja um fato que Nietzsche seja um crítico do Cristianismo, ele tinha um grande apreço pelas ideias sociais do Antigo Testamento, e na medida em que houve um indevido rompimento ideológico na interpretação do Evangelho com as ideias judaicas, pode-se dizer que isso explica e justifica, em parte, a crítica de Nietzsche ao pensamento da cristandade, nos pontos em que interpretam equivocadamente as Escrituras, e, principalmente, o significado de Jesus, o ser humano, ou filho da humanidade, com ideias meramente transcendentes.

Se a vida tem realmente um sentido, a direção é de unificação da humanidade, para que cada ser humano seja tratado como filho da humanidade, e criado como tal, desde a concepção até a morte, e após o corpo voltar à terra, de modo que a totalidade da vida seja experimentada em cada um de nós, tanto pela plenitude corporal como espiritual, com a memória dos que nos antecederam, e construíram esse momento, e sendo memória dos que nos sucederão, pelos bons resultados de nossas ações.

A corrente da vida não pode parar em nossos corpos, em meras sobrevivências, deve prosseguir, e realmente continua, para um plano maior, que inclui e supera esse plano menor em estamos, e aqueles com a sensibilidade necessária conseguem captar essa realidade, e por isso realizam e participam efetivamente da corrente da vida.

Se alguém tem sede, venha a mim e beba, aquele que crê em mim, conforme a palavra da Escritura: ‘De seu seio jorrarão rios de água viva’” (Jo 7, 37-38).

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