A Consciência Cristã

Segundo o Dicionário Aurélio em sua 4.ª edição, consciência é “atributo altamente desenvolvido na espécie humana e que se define por uma oposição básica: é o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo (e, posteriormente, em relação aos chamados estados interiores, subjetivos) aquela distância em que se cria a possibilidade de níveis mais altos de integração”; “conhecimento desse atributo”; “faculdade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados”; “conhecimento imediato da sua própria atividade psíquica ou física”; “conhecimento, noção, ideia”; “cuidado com que se executa um trabalho, se cumpre um dever, senso de responsabilidade”; “honradez, retidão, probidade”; “consciência coletiva: conjunto de representações, de sentimentos ou de tendências não explicáveis pela psicologia do indivíduo, mas pelo fato do agrupamento dos indivíduos em sociedade”; “consciência de si: autoconsciência”; “consciência moral: a faculdade de distinguir o bem do mal, de que resulta o sentimento do dever ou da interdição de se praticarem determinados atos, e a aprovação ou o remorso por havê-los praticado”.

A ideia de consciência está ligada a uma separação, o pensamento separando-se do pensado e do pensante, e a superação dessa separação, por uma integração, numa unidade complexa e abstrata, mas real. A unidade é transcendente, o que se diz de Deus, mas se conecta a todas as coisas em suas conexões essenciais, e assim também imanente.

Para a filosofia materialista, a consciência é um produto da complexidade do cérebro, que surgiu com a espécie humana, em decorrência de pura sorte, pelo movimento aleatório do universo que em determinado momento, depois do desenvolvimento da vida (não se sabe como) e sua evolução, o homem adquiriu consciência.

De outro lado, para o espiritualismo, ou para o idealismo, a consciência é preexistente ao homem, sendo inerente ao Cosmos, é atributo de Deus, da Razão, que foi alcançada pela humanidade como dádiva do Altíssimo, ao conceder ao homem seu Espírito e Liberdade. No princípio era o Verbo, o Logos, a Consciência.

“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou” (Gn 1, 27); “Então Iahweh Deus modelou o homem com argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7).

Deus é Espírito, e colocou no homem um espírito capaz de alcançar o Espírito de Deus, fazendo-o à Sua imagem, como um reflexo.

Consciência é conhecimento, manifestação do Espírito, mas um conhecimento especial, que reflete uma ordem, uma razão; e o homem, pela liberdade concedida por Deus, pode optar por fazer de sua consciência o reflexo de uma natureza materialista caótica e aleatória ou de uma natureza com um princípio espiritual, ordenado e organizado.

Segundo o conhecimento bíblico, a criatura, pelo homem, seguiu a influência de Satã, o Diabo, que significa o que desune, o que separa, rompendo sua ligação com Deus, episódio conhecido como Queda. Desde então, a história da humanidade é a da busca pela reconexão com Deus, com o Cosmos, que foi alcançada individualmente com Jesus Cristo, que tinha consciência de sua Unidade com o Pai, o Criador, pelo que Jesus Cristo é a encarnação da própria Consciência, a manifestação do Logos.

A consciência decorre de ciência conjunta, é um saber compartilhado, pelo qual o pensamento humano se conecta idealmente a uma ordem (ou desordem, para os materialistas) que lhe é alheia, ligando eventos materiais e espirituais em uma cadeia relacional, causal, vinculando-se ao conceito de movimento: físico, psíquico e intelectual. Todavia, o homem, por seu espírito, entende que ele integra essa ordem “alheia”, compreendendo que sua consciência, enquanto Consciência, é a própria Ordem cósmica se percebendo.

Nesse ponto, a melhor proposta científica sobre a realidade e seu movimento é a desenvolvida por David Bohm, descrevendo o cosmos como um holomovimento contínuo, pelo qual a verdadeira realidade é indivisível, inseparável, indefinível e incomensurável.

O movimento do todo é ordenado, mas a ordem mais ampla e profunda é implícita, está dobrada para dentro, é implicada, e nós percebemos por nossos sentidos apenas a ordem dobrada para fora, que é superficial, explicada, manifesta.

A ciência, assim, a partir da noção interna de ordem, presente no espírito humano, procura nas manifestações exteriores os sinais que apontam para a citada ordem implicada, que pode ser entendida como imanente e transcendente, além do espaço-tempo. Wolfgang Smith afirma que mesmo “o mais simples ato de percepção é consumado pelo intelecto, transcendendo assim os limites do espaço e do tempo” (In O Enigma Quântico: Desvendando a Chave Oculta. Tradução de Raphael de Paola. Campinas: Vide Editoral, 2011, p. 195); ou seja, é o intelecto, imaterial e atemporal, que percebe a ordem.

No holomovimento, o que vale é a lei do todo, a holonomia, pelo que qualquer autonomia é relativa, sendo absoluta apenas a holonomia. Portanto, como a consciência se refere ao reflexo, a uma cópia, do movimento alheio ordenado, o objeto da consciência consiste em fazer de si mesma uma continuação do holomovimento, da ordem do todo, tendo ciência do que move o todo e o que move as partes que compõem esse todo, tanto a natureza física e os animais como a humanidade, individual e coletivamente.

O objetivo da consciência é fazer do comportamento humano uma cópia do movimento cósmico, restabelecendo o homem como imagem de Deus, inclusive na vida social.

Nosso cérebro está preparado para essa atitude, pois os neurônios espelhos agem para repetir o movimento, neurônios que funcionam até mesmo inconscientemente, e essa repetição deve ser levada à consciência pelo exercício mental até atingir a abstração, repetindo a ordem racional por trás dos fenômenos, o Logos, com utilização dos neurônios do córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pelo planejamento das ações e pensamentos complexos. Do movimento repetitivo inconsciente devemos passar à ação consciente segundo a ordem universal, o Cosmos.

A natureza espiritual do homem o leva à especulação, na busca pelo espelhamento da ordem cósmica, e o comportamento conforme essa ordem é o caminho, e a finalidade, do desenvolvimento da consciência.

Consciência é percepção inteligente do holomovimento, o conhecimento das causas dos movimentos individuais e suas conexões com o movimento coletivo, incluindo a Causa Primeira, o Princípio de Todas as Coisas, Deus.

A consciência é percebida pelo cérebro, mas não está no cérebro, como pretendem fazer crer os materialistas. As ondas eletromagnéticas estão por toda parte, sendo o cérebro apenas o instrumento corporal da percepção, pelo qual podemos alcançar a mente coletiva, o Logos.

As ideias têm formas eletromagnéticas que interferem no funcionamento do cérebro. Grandes ideias se conectam a grandes movimentos, como as religiosas, científicas, ligadas à Justiça Social; e pequenas ideias são limitadas a pequenos movimentos, como a ideia egoísta que se restringe aos movimentos e interesses da própria pessoa. A interferência entre as frequências das ideias é facilitada pela proximidade de seus formatos de onda.

Ideias interagem com os campos a ela pertinentes, mais amplos e abstratos ou estritos e concretos. A física quântica e a relatividade nos dizem que tudo pode ser convertido em energia, pelo que as ideias e as palavras também são energia, ligadas ao movimento. Os resultados do trabalho do pesquisador japonês Masaru Emoto são uma prova desse fato, demonstrando que cristais de água têm sua forma alterada por palavras boas ou más coladas nos potes que continham o líquido, antes de ser congelado. Segue link sobre o citado estudo: https://www.youtube.com/watch?v=epoTVejvpEI.

Consciência é o movimento percebendo a si próprio, o Todo se percebendo na parte e a parte se percebendo no Todo. Para aqueles que entendem que o Todo é Deus, o Espírito infinito, a consciência é essa percepção. Já para o materialismo, o todo é o caos material, e sua consciência se torna igualmente caótica e aleatória, além de limitada.

Para se ter consciência é preciso conhecimento histórico da mudança ocorrida no holomovimento, incluindo como a consciência chegou até aquele ponto, física e intelectualmente, e a direção a seguir, analisando as respectivas causas, motivações e movimentos necessários à realização do movimento.

A revisão da história, a crítica da investigação científica pode ser necessária para correção da consciência individual e coletiva, como ocorre na terapia. A partir do conhecimento adquirido e refletido, a história pode e deve ser reescrita.

Somente existe consciência na liberdade, somente a liberdade espiritual pode levar à consciência. Deus não criou o homem como um autômato. E por isso a liberdade pode levar a consciência ao materialismo, que, por considerar não haver nada além do corpo, inevitavelmente é individualista e egoísta, com os efeitos nocivos que vemos por todos os lados, em todos os noticiários; ou pode levar ao Reino de Deus, pelo uso verdadeiro da liberdade, em que a consciência age conforme a ordem coletiva, que transcende o indivíduo, possuindo natureza racional, Espiritual.

Ter consciência é mover-se voluntariamente como objeto do Sujeito universal, da Razão, fazendo com que a consciência se desenvolva para fora do ego até atingir a Razão Universal, manifestando o Cristo, o Espírito Santo, a Razão Santa, na vida individual e social. Consciência é livre submissão ao Logos, a Razão Absoluta. Mas para se submeter ao Logos é preciso buscá-lo, conhecê-lo, o que pode ser feito tanto pelas pessoas simples como pelas eruditas. Segundo o Evangelho, os pobres de espírito têm preferência natural nesse conhecimento, pela humildade, sendo deles o Reino de Deus, porque aceitam a ordem divina.

David Bohm, na entrevista com Renée Weber, constante do livro “O Paradigma Holográfico e outros paradoxos”, da editora Cultrix (obra esgotada mas que pode ser encontrada em sebos como a Estante Virtual), afirma que:

“a consciência está, basicamente, na ordem implicada, assim como toda matéria o está; portanto, não é que a consciência seja uma coisa e a matéria seja outra, mas sim que a consciência é um processo material e que ela própria se encontra na ordem implicada, como toda matéria, e que a consciência se manifesta em alguma ordem explicada, como também o faz a matéria em geral.

WEBER: A diferenciação entre aquilo a que chamamos matéria e a consciência seria, penso que você o disse ontem, o estado de densidade ou sutileza.

BOHM: O estado de sutileza, sim, a consciência é possivelmente uma forma mais sutil de matéria e movimento, um aspecto mais sutil do holomovimento.

WEBER: Sim. E a matéria é muito densa ou pesada ou congelada.

BOHM: Seja o que for, mas menos sutil.

WEBER: Quando você diz consciência refere-se a pensamentos, emoções, desejos, vontade, enfim a toda a vida mental ou psíquica?

BOHM: Sim, a tudo isso.

WEBER: E você está dizendo que a fonte daquilo que percebemos tanto no assim chamado mundo externo como em nós mesmos, em nossos assim chamados processos internos, reside nesse não-manifesto.

BOHM: Sim, e o próprio não-manifesto reside em algo que está imensamente além dele”.

Em seguida Bohm afirma que “a ideia do holomovimento é parte do holomovimento. E a idéia do holomovimento também contém a idéia de que a própria idéia é parte do holomovimento”, que nosso objetivo é agarrar essa ideia e fazê-la desenvolver, fazendo do movimento um todo uno, ou seja, sermos manifestação e consciência do holomovimento.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na internet (http://escoladedialogo.com.br/escoladedialogo/index.php/biblioteca/o-universo-que-dobra-e-desdobra/), e para uma visão mais elaborada do princípio holográfico a leitura do citado livro pode ser muito útil, especialmente os textos de Ken Wilber.

Digo isso porque o princípio científico da Bíblia é holográfico, ou holonômico, e o objetivo da encarnação do Verbo, do Logos, é justamente nos resgatar, nos religar a Deus, à Ordem (Cósmica), nos unir conscientemente ao holomovimento, ao Todo, para sermos integrados a esse Todo, ou seja, parte com consciência do Todo e em que esse Todo se manifesta.

“E, quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todos” (1Co 15, 28).

E esse é um dos pedidos da oração de Jesus Cristo na última ceia.

“Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 20-23).

O primeiro mandamento é “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito” (Mt 22, 37), o que significa ter consciência máxima (de Deus) e segui-la, porque cumprir esse mandamento é cumprir toda a Lei.

Consciência é ser Um com Cristo e com Deus, viver pelo/no Logos, pela/na Razão Santa, Saudável, pelo/no Espírito Santo.

Crime de hermenêutica, Donald Trump e Cristo crucificado

A hermenêutica é a arte da interpretação: do mundo, das leis, dos eventos. Tudo está sujeito à hermenêutica, pois o homem é um ser simbólico, dá significado às coisas, e esse significado decorre de uma determinada hermenêutica, que pode ser correta ou não.

Portanto, como arte da interpretação, a hermenêutica desenvolve uma explicação, um discurso racional, inteligível, que pode ser entendido, dando sentido ao que é interpretado.

Diante do que são aceitos como dados, como informações, é construída uma história que pode ser compreendida. Mas os próprios dados dependem de uma metafísica, classificando-os como tais, pelo que também os dados são construídos.

Desvelar um evento, tirar o véu, tornar claro o que estava oculto, manifestar um sentido, contar uma história, todos são processos hermenêuticos. Apocalipse significa revelação, pressupõe uma hermenêutica teológica.

Para se interpretar é preciso um mapa ou modelo de mundo, uma metafísica. Toda manifestação hermenêutica contém em si um modelo metafísico, expresso ou oculto, um padrão de funcionamento das coisas, um paradigma da realidade, com suas ligações filosóficas e teológicas.

A história da hermenêutica nos ensina que junto com a hermenêutica filológica existiram também uma hermenêutica teológica e uma hermenêutica jurídica, e que somente as três juntas perfazem o conceito pleno de hermenêutica. Uma das consequências do desenvolvimento da consciência histórica nos séculos XVIII e XIX foi a desvinculação da hermenêutica filológica e da historiografia de seu vínculo com as outras disciplinas hermenêuticas, estabelecendo-se autonomamente como teoria metodológica da investigação das ciências do espírito” (Hans-Georg Gadamer. Verdade e Método. 10. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 407).

Diante dessa afirmação, que é uma conclusão do estudo histórico, mas também uma premissa para o argumento seguinte (um dado construído), Gadamer, dizendo que a interpretação é um fenômeno unitário, cognitivo, normativo e reprodutivo, declara a seguinte tarefa da filosofia: de “voltar a determinar a hermenêutica das ciências do espírito a partir da hermenêutica jurídica e da hermenêutica teológica” (Idem, p. 410).

Podemos dizer que Gadamer cumpriu relativamente bem sua tarefa no que se refere à hermenêutica jurídica, mas, no fim das contas, seu sucesso é parcial e termina na sua visão sobre a hermenêutica teológica, na medida em que nesse ponto ele aceita a tradição, que pecou no entendimento pleno da teologia, que é justamente o aspecto principal dessa questão. Isso porque a tradição cristã seguida por ele está, na verdade, na era pré-cristã.

Diz Gadamer que o homem “precisa discernir os limites do humano, alcançar o discernimento de que as barreiras que nos separam do divino não podem ser superadas” (Idem, p. 466), concluindo em seguida, ao contrário do que diz Hegel quando afirma que a experiência se consuma numa “forma suprema de saber”, que a “verdadeira experiência é aquela na qual o homem se torna consciente de sua finitude” (Idem, p. 467).

Aqui ele volta ao tema de Heidegger sobre a morte como limite histórico do ser. Na verdade, tanto um como outro fazem filosofia do estar, e não do ser.

Nesse sentido, esse tema da morte como limite é frontalmente contrário ao cristianismo autêntico, pois Jesus foi condenado e crucificado exatamente por defender uma hermenêutica teológica diversa perante o sinédrio, dizendo que Ele é filho de Deus, superando Sua separação com o Divino, tomando consciência de Sua União com o Infinito, com Deus. Em Seu estar Jesus estava unido ao Ser.

Destarte, pode-se dizer que Heidegger e Gadamer defendem uma ideia anticristã, não sei se dolosamente ou por limitação linguística, porque “ser-aí” e “estar-aí” não são necessariamente a mesma coisa. A pessoa corporal que morre não é a humanidade imortal que permanece.

Aliás, o problema deles é essencialmente teológico, na medida em que seguem uma teologia partida, ligada à res cogitans, separada da res extensa, quando a teologia verdadeira não separa o pensamento da realidade extensa e física.

O Cristo é aquele que se une em espírito com Deus, o Messias, o Ungido com o Espírito Santo, quando o Estar e o Ser são Uno, com o Logos, o corpo vivendo segundo uma ideia, uma razão,  um Espírito eterno e santo. A metafísica, a teologia, de Cristo inclui o infinito, em que o corpo se comporta como espírito, além de um estar transitório, em movimento infinito.

A tradição seguida por eles (Heidegger e Gadamer) é a do joio, em que o homem é a apenas carne, e não a do trigo, em que a carne é um momento do espírito, do que eles provavelmente não tinham consciência, pois o cristianismo é a ciência da eternidade, e não da mortalidade.

Jesus foi condenado por crime de hermenêutica, por heresia, por blasfêmia, porque, assim como Gadamer, os judeus não aceitaram a união do humano com o divino, sendo suas teologias, suas interpretações de mundo, incluindo os conceitos de humanidade e de governo, muito divergentes.

Esse tema é atual, na medida em que se atribui ao Projeto de Lei que tramita no Congresso Nacional (PLS 280/2016) a criação de crime de hermenêutica, pois criminaliza decisão judicial que depende de interpretação da lei e dos fatos, em contexto histórico no qual se discute a prática de crimes por governantes. Na versão original do projeto, praticaria crime quem “deixa de conceder ao preso liberdade provisória, com ou sem fiança, quando assim admitir a lei e estiverem inequivocamente presentes seus requisitos”, e no substitutivo o ilícito é imputado a quem “deixa de conceder ao preso liberdade provisória, com ou sem o pagamento de fiança, quando assim admitir a lei e estiverem satisfeitos as condições necessárias à liberdade”.

A pessoa competente para conceder liberdade provisória é o magistrado, pelo que o crime se dirige à atividade jurisdicional, e sua ocorrência dependerá da interpretação da presença ou não dos requisitos para a concessão da liberdade, o que é muito perigoso para a independência funcional, para a atividade jurisdicional livre de pressões políticas indevidas. A liberdade provisória não pode ser concedida quando o autor do fato, suspeito do crime, puder, solto, comprometer a ordem pública, e o conceito de ordem pública é amplo e fluido. O termo ordem tem um significado metafísico, e sua utilização poderia levar à tentativa de punir juízes por suas decisões judiciais, com grande risco para o trabalho judicial, principalmente quando o réu tiver ligações pessoais com o poder, como ocorre nas questões ligadas à operação “Lava-jato”, que levou a manifestações dúbias de altos escalões da República movidas por interesses pessoais.

Saliente-se que o problema do indeferimento da liberdade provisória pode ser resolvido pela utilização do habeas corpus, fato comum nos tribunais, alguns com pedidos acolhidos e outros rejeitados, porque a questão da necessidade e cabimento da prisão pode ser objeto de divergência. A existência de interpretações diversas decorre da multiplicidade de percepções sensoriais, e também de visões de mundo, de teologias e interesses diferentes.

A falta de consenso sobre esses aspectos fundamentais da realidade pode levar a conflitos, com segregação social, por motivos político-ideológicos.

O Brasil passa por uma situação assim, o que também ocorre no resto do mundo, em que a divisão ideológica mostra-se cada vez mais aguda.

Aqui tivemos a última eleição presidencial, os protestos que a seguiram, o impedimento da presidente, as propostas de mudanças legais, fazendo com que a sociedade se dividisse, por falta de acordo, decorrente das diferentes visões de mundo, em que egoísmos ideológicos se combatem.

Nos EUA o presidente eleito Donald Trump representa a ideia de uma guinada ao conservadorismo, pois seus eleitores possuem uma visão de mundo contrária àquela adotada por Obama e que seria em boa parte seguida pela candidata vencida, notadamente no campo da moralidade, em virtude da teologia subjacente, dizendo Trump na sua campanha que seria pró-vida, contra o aborto e o “casamento gay”.

Talvez Trump seja mais um anticristo, ou o último grande líder assim chamado, usando o discurso religioso (deturpado) em seu favor, aliado ao apelo econômico em tempo de crise, como ocorreu durante o nazismo; mas em alguns pontos sua fala, a visão de mundo que o elegeu, leva à reflexão, especialmente sobre os problemas teológicos da modernidade, sobre a hermenêutica da realidade.

Uma das duas seguintes expressões de vida está muito errada, pois ou a Bíblia está correta ao dizer: “Não te deitarás com um homem como se deita com uma mulher. É uma abominação” (Lv 18, 22); e “Não vos iludais! Nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos herdarão o Reino de Deus” (1Cor 6, 9-10); ou a opção materialista mundana possui a razão de afirmar a possibilidade de aborto ou a existência de “casamento gay” e “orgulho gay”.

Do ponto de vista religioso, espiritual, não se pode falar em “casamento gay” ou aborto; e talvez até de uma forma científica, materialista, a hipótese homossexual e a defesa do aborto sejam logicamente equivocadas. Richard Dwakins em seu trabalho “O gene egoísta” afirma que o organismo é uma máquina de reprodução do gene, para perpetuação deste, pelo que o comportamento homossexual e o aborto contrariariam até mesmo essa tese, sendo uma expressão de comportamento decorrente de ideia egoísta, mais prejudicial até mesmo que o gene egoísta, significando uma espécie de suicídio existencial, pelo que seriam uma anomalia esses atos contra a vida.

Casamento gay” e aborto não podem ser levados à categoria de regra universal, sendo um imperativo categórico sua rejeição, pois se tais comportamentos fossem considerados normais, inclusive no passado, as pessoas que defendem tais pontos de vista talvez não existissem, porque seus antecessores genéticos poderiam ser abortados ou não procriado em razão de união homossexual.

Portanto, como forma de manifestar compromisso com a Vida, hão que ser repudiados como ideias o aborto e a hipótese homossexual, como deve se contestada a expressão “orgulho gay”, que representa um dos mais elevados graus de ignorância, de alienação da realidade, de loucura, de insanidade.

Mas disso não se pode passar a outra forma de ignorância, que é a agressão física ou verbal a essas pessoas, que devem ser educadas e corrigidas filosoficamente. O cristianismo verdadeiro é misericordioso, não permitindo violência.

Ressalvo, desde já, que não considero uma agressão verbal a presente exposição, que se dirige ao comportamento e à ideia, e não à pessoa que padece desses citados males. A condenação do homicídio deve implicar na recuperação do homicida, o mesmo valendo no caso do homossexualismo, devendo seus praticantes adotar uma vida santa, saudável. Portanto, a condenação do comportamento tem a função de alerta, decorrendo da obrigação moral do filósofo de indicar a verdade, o melhor modo de viver, segundo a ética, para evitar que as pessoas cometam suicídio, que pode ser considerado o comportamento abortivo ou homossexual.

“Ora, o servo do Senhor não deve brigar; deve ser manso para com todos, competente no ensino, paciente na tribulação. É com suavidade que deve educar os opositores, na expectativa de que Deus lhes dará não só a conversão para o conhecimento da verdade, mas também o retorno à sensatez, libertando-os do laço do diabo, que os tinha cativos de sua vontade” (1Tm 2, 24-26).

Aqui é possível destacar o problema que aparece junto com esse conservadorismo renascente, que traz consigo a visão protestante do mau capitalismo, egoísta e acumulador de riquezas, ligado à teologia do mercado e à igreja da prosperidade. A proposta tributária de Trump é reduzir impostos dos muito ricos, pois eles geram empregos, quando o Estado precisa de dinheiro dos ricos para amparar os necessitados.

Jesus Cristo morreu pela humanidade, incluindo as gerações futuras. E nossa geração só pensa em consumir o planeta, gastando irresponsavelmente os combustíveis fósseis que a natureza levou milhões de anos para produzir, sem falar no lixo nuclear já acumulado que levará dezenas ou centenas de milhares de anos para deixar de ser um risco à vida.

E o comportamento egoísta não para aí, na medida em que as pessoas deixaram de ter vida familiar, deixaram de ter filhos, causando um prejuízo até mesmo para a previdência social. A mesma geração que vem destruindo o planeta, conta com aposentadoria, sem que sua ideologia permita que seja economicamente sustentável esse padrão de renda através das gerações. A própria noção de aposentadoria precoce é prova de um erro dessa geração, antecipando o fim da vida produtiva de trabalhadores em plena capacidade física e intelectual, porque o trabalho ficou sendo um fardo sem sentido. Hoje, milhões de pessoas que se aposentaram muito cedo, superando em muito a expectativa de vida do momento do estabelecimento do plano previdenciário, vivem às custas do trabalho de outros milhões que não sabem (os que se informam) se poderão um dia se aposentar.

O egoísmo econômico é um dos argumentos nazistas,  e seguidores do nazismo agridem as pessoas, ao invés de convencê-las, enquanto o cristianismo oferece a misericórdia, o perdão, a pregação da verdade pela Palavra.

O nazismo, o egoísmo coletivo, e o novo conservadorismo possuem uma pauta econômica de defesa nacional, contra os estrangeiros, com uma visão segregacionista e limitada do mundo.

Outrossim, tanto o materialismo ateu como a visão religiosa liberal acompanhada do protestantismo capitalista são manifestações de metafísicas parciais da realidade.

Jesus tinha uma visão completa da vida, além do momento, e por isso entregou-se para ser crucificado, mostrando que a morte corporal não é um limite, usando seu corpo para um fim maior.

A teologia de Jesus é incrivelmente moderna, pela qual a mente, o pensamento, traz em si uma realidade. Segundo a neurociência, o cérebro não distingue se vemos alguma coisa ou se apenas pensamos nessa coisa, sendo a mesma região neural ativada em um ou outro caso, indicando a realidade física do pensamento.

Nesse sentido Jesus, que conhecia plenamente a realidade espiritual do mundo, já dizia que o pensamento tinha uma força de realidade, e sua visão física e científica era moral e religiosa.

Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5, 27-28).

E ele disse: ‘Todo aquele que repudiar a sua mulher e desposar outra, comete adultério contra a primeira; e se essa repudiar o seu marido e desposar outro, comete adultério’” (Mc 10, 11-12).

Depois de dizer sobre a dificuldade de um rico entrar no Reino dos Céus, em conversa com os apóstolos, “Jesus, fitando-os, disse: ‘Aos homens é impossível, mas não a Deus, pois para Deus tudo é possível’” (Mc 10, 27).

Portanto, para Deus tudo é possível, até mesmo a salvação daqueles que cometem abominações, desde que se arrependam, reconheçam que estavam em erro, na mentira, e se proponham sinceramente a uma nova vida, segundo a metafísica da verdade, da unidade psicofísica dos seres, do Ser. O reconhecimento do erro é essencial para a salvação, e isso é muito difícil para o orgulhoso, aquele que pratica o principal pecado, o egoísmo desmesurado. É necessária a mudança da visão individual e egoísta para a coletiva e espiritual, sem prejuízo para o indivíduo que quer viver com saúde.

Jesus disse-lhes: ‘Não é por isso que errais, desconhecendo tanto as Escrituras como o poder de Deus? Pois quando ressuscitarem dos mortos, nem eles se casam, nem elas se dão em casamento, mas são como os anjos nos céus. Quanto aos mortos que hão de ressurgir, não lestes no livro de Moisés, no trecho sobre a sarça, como Deus lhe disse: Eu Sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó? Ora Ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos. Errais muito!” (Mc, 12, 24-27).

Outrossim, a questão principal da hermenêutica, da interpretação e do entendimento do mundo, é teológica, o problema da ignorância quanto à religião verdadeira.

O judaísmo rejeitou seu Messias, ignorando suas próprias escrituras, como o capítulo 53 do profeta Isaías, descrevendo-o como o servo sofredor.

O cristianismo se perdeu, criando uma trindade e uma Igreja separada do Estado, em que aqueles que se dizem cristãos praticam abominações na vida social e profissional, ou convivem de forma omissa com essas situações.

O islamismo não reconhece a sua própria natureza, como confirmação da Torá e do Evangelho.

Se estiveres em dúvida sobre o que te revelamos, consulta os que têm o Livro desde antes de ti. Teu Senhor te revelou a verdade. Não seja um dos que duvidam” (Sura 10, 94).

Portanto, como o Alcorão confirma a Torá e o Evangelho, sendo o Livro de Deus um só, o critério de interpretação do Alcorão, segundo o próprio livro sagrado do Islã, é conforme o Livro já revelado anteriormente, a Torá e o Evangelho, na medida em que o Único Deus está ligado a uma Única Religião. O problema religioso é, assim, um problema hermenêutico.

O próprio Jesus já havia afirmado expressamente que não veio para revogar a Lei e os Profetas, mas para lhes dar pleno cumprimento.

O filósofo é um homem de seu tempo. O problema é que existe um tempo relativo, e deve ser objeto de delimitação. Assim, considero o tempo presente uma extensão do tempo de Cristo, na medida em que ele pregava a proximidade do Reino de Deus, o que ainda não ocorreu, pelo que é possível considerar que continuamos no Seu tempo.

As profecias de Daniel, tanto do capítulo 2, descrevendo a estátua, como a do capítulo 7, das feras, indicam uma continuidade histórica desde o tempo do império babilônico até o último império mundial, o que provavelmente é o atual. Também o Dragão e a Besta descritos no Apocalipse indicam uma continuidade no exercício do poder político mundial desde a época de João, pelos sete reis, como descrito no capítulo 17, versículos 9 a 14.

Portanto, ainda estamos no tempo religioso e político de Jesus, pelo que a Sua verdade moral continua válida, assim como seu exemplo de Vida.

A cruz não foi o fim, mas o começo da Vida Eterna. A morte é apenas a passagem, a páscoa, para o reino do Espírito, que pode ser ascendente, para a Vida, ou descendente, para o caos da matéria sem forma e sem vida. Sem essa interpretação, sem a verdadeira hermenêutica, até mesmo os eleitos podem ser enganados…

Ética religiosa: o fundamento do Direito e da verdade moral

A ética é o ramo da filosofia ou ciência que estuda o fundamento da ação correta, a razão que seguimos para agir de um modo bom, e, assim, justo. Ética é o estudo da moralidade, que define o que são comportamentos corretos.

Pelo realismo moral entende-se que existem fatos morais, havendo uma moral absoluta, enquanto para o ceticismo moral não há fatos morais, sustentando que a questão moral é relativa, dependendo, por exemplo, de aspectos culturais.

A ética religiosa está ligada ao realismo moral, pela qual os comportamentos corretos decorrem da vontade de Deus, que nos é dada através dos profetas, contendo a Bíblia e o Alcorão vários comandos decorrentes dessa revelação profética.

Todavia, nem todos aceitam que uma conduta seja correta tão somente porque ele é ditado em algum livro sagrado, exigindo uma fundamentação racional para aceitar o que se entende por comportamento correto.

Platão já levantou essa questão sobre a ordem divina, que passou a ser conhecida como o Dilema de Eutífron, apresentando a seguinte dúvida: “As ações corretas são corretas porque são ordenadas por Deus; ou as ações corretas são comandadas por Deus porque são corretas?”.

Respondendo positivamente à primeira questão, o significado da afirmativa é que Deus apenas determina coisas boas; mas daí surgem as indagações sobre a ordem para que Abraão sacrificasse seu filho Isaac, ou aquela para matar os moradores da terra prometida, também a guerra santa defendida por muçulmanos, eventos hoje questionáveis, mas que são constantes da Bíblia e no Alcorão como mandamentos divinos.

A resposta positiva à segunda questão indicaria que existe outra fonte de moralidade além de Deus, pelo que poderíamos seguir diretamente essa fonte, o padrão de correção adotado por Deus para a determinar essas coisas corretas, pelo que seria dispensável que Deus desse essas ordens.

Para resolver esse dilema é necessário recorrer ao que se entende pela palavra ética. Numa primeira acepção, ética significa “caráter”, “costume” ou “modo de ser”; mas em outro sentido pode ser entendida como “residência”, “morada”, “local onde se habita”.

O estudo da ética indica a situação, o local, o contexto, a reiteração do comportamento, pressupõe ação voluntária, ação consciente em determinado sentido, levando a um bom resultado onde se habita, conforme o costume. Ética implica a análise da ação e seu resultado, resulta de um estudo de causalidade.

Ética pressupõe consciência, conhecimento, ciência. E como o conhecimento científico evoluiu, é possível entender que também ocorreu o mesmo com o conhecimento ético, quanto à consciência humana em relação ao seu comportamento, em um contexto histórico.

E sobre a natureza da história e seu desenvolvimento, existem duas correntes opostas, uma de origem religiosa, no sentido de que Deus criou todas as coisas com uma finalidade, permitir à sua criatura o gozo da bem-aventurança eterna; e outra materialista, dizendo que não há finalidade na história, e nossa existência é fruto de eventos aleatórios, acasos e coincidências.

Como, a partir das evidências científicas, tanto da própria história como da física, eu sei que existe ordem, e não caos, pois vejo e entendo racionalmente um mundo ordenado e perfeito além da barbárie humana, esta decorrente da Queda, Queda que tem repercussão no próprio conhecimento científico, a segunda hipótese fica descartada, restando aquela que pressupõe e conclui haver sentido na história, que há um fim a ser alcançado, existe o sentido da Vida, o é que provado pela simples existência humana.

Quanto à história religiosa monoteísta, não se pode perder de vista o contexto filosófico judaico-cristão, que pressupõe a Queda da humanidade, que levou junto a criação, o dilúvio usado como parte do procedimento de limpeza humana, o repovoamento do planeta e o retorno à religião verdadeira, a partir de Abraão, que vivia em um mundo politeísta, no qual o sacrifício de filhos aos deuses era um comportamento normal segundo alguns costumes. Outrossim, pelo conhecimento da época, a ordem para matar o próprio filho não era absurda no contexto religioso de transição em que se vivia, e a questão mais importante consistiu em que o sacrifício foi impedido por ordem divina antes de sua consumação.

Além disso, e tendo em vista o nível da civilidade da antiguidade, o extermínio de uma população também estava dentro dos parâmetros do modo de ser da época, pois a noção de humanidade como espécie, incluindo todas as pessoas de todas as nações somente foi desenvolvida com o cristianismo.

Não se pode esquecer que até hoje existem pessoas que defendem a pena de morte e o uso da guerra como forma de solução de conflitos, mesmo havendo humanos dignos do outro lado do campo de batalha. E não apenas isso, a Europa chamada “cristã” tem permitido a morte de centenas de milhares de imigrantes, que fogem da guerra causada pelo imperialismo ocidental, isso tudo ocorrido depois das famigeradas cruzadas. Esses fatos indicam que a fase de transição religiosa iniciada por Abraão e culminada por Jesus Cristo ainda não se completou.

Portanto, as coisas corretas são determinadas por Deus por serem corretas segundo a capacidade de entendimento humano, atual ou potencial, presente ou futura.

Um ponto fundamental, que não pode ser menosprezado, consiste no pressuposto relevantíssimo da religião monoteísta (judaica, cristã e islâmica) de que a existência não se encerra com a morte corporal e que haverá um julgamento após a morte, com novas oportunidades para as pessoas, sendo a realidade muito mais ampla do que aquela mostrada por nossos sentidos, como comprovam a orgânica quântica e a relatividade. E é exatamente esse fundamento, de que a Vida é maior do que o corpo, usado equivocadamente, o que encoraja as ações suicidas, como as de homens-bomba.

O ponto chave nessa questão se liga ao fato de que a ética está relacionada à consciência e ao conhecimento. Quanto maior a ciência, mais sutil, mais complexo o entendimento ético, as circunstâncias que eram entendidas como menores detalhes passam a ter importância, como o direito à vida do feto que não nasceu, o respeito à honra alheia, inclusive das pessoas ausentes.

O conhecimento individual está ligado ao sujeito, ao ego, que é o centro da consciência, a unidade pessoal mínima. Tudo é exterior ao ego, que se relaciona com o mundo ligando as coisas e pessoas a essa unidade pessoal, pela conexão ou desconexão simbólica. A partir da unidade do eu, o sujeito passa a separar as coisas como minhas e não minhas, até que desenvolve o conceito de outro, e coisas do outro. E essa é a base do comportamento ético, definir o que é meu, onde habito, e o que é do outro, de modo a respeitar a habitação do outro, física e espiritual, simbólica.

Portanto a ética define o comportamento correto em relação a mim e ao outro, pressupondo uma diferenciação entre mim e o outro.

Quanto mais diferente o outro, menos igual a mim, menos as razões que se aplicam à minha habitação valerão para a do outro.

Contudo, a grande questão religiosa e científica da modernidade consiste no fato de que eu e o outro integramos o mesmo Ser, física e psiquicamente, a humanidade.

Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo. Ele cita que, ao lado da consciência e do inconsciente individual como níveis psíquicos, existe o inconsciente coletivo, “que, como herança imemorial de possibilidades de representação, não é individual, mas comum a todos os homens e mesmo a todos os animais, e constitui a verdadeira base do psiquismo individual” (In A natureza da psique. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 89). Ou seja, o coletivo é a base do individual, eu nasço do outro psiquicamente, nasço de Deus, que é o Outro Absoluto, do qual faço parte.

Esse inconsciente coletivo possui um centro, chamado si-mesmo, que representa a totalidade da psíquica, a unidade quântica, o meu conceito, minha ideia do Uno, e que, porque é coletivo, também significa a imagem do outro para mim. A partir do si-mesmo, a partir de Cristo, eu e o outro somos observados a partir do mesmo centro, do mesmo parâmetro, do mesmo paradigma, somos Um em espírito e razão.

Essa categoria do conhecimento atingiu seu ápice com Jesus Cristo, pois foi Ele quem a definiu a partir dos conceitos existentes sobre o Messias, e consumou sua realização, sendo o Messias ao mesmo tempo político e religioso, carnal e espiritual. Contudo, sua missão política não foi ainda compreendida, significando que o líder religioso, o líder político, vive aquilo em que acredita e se sacrifica até a morte por sua causa. O político é um religioso, trabalha pela unidade social, e deve ser íntegro e servo de todos, e isso vale para o serviço público em geral. Se houver guerra, os líderes políticos, inclusive os presidentes e primeiros-ministros, devem estar na frente da batalha, não sendo ético mandar comodamente os filhos dos cidadãos para a morte na guerra, que apenas beneficia aos financiadores do governo.

Jung diz que Jesus Cristo é um símbolo do si-mesmo, chamado também de Logos ou Palavra, enquanto razão total realizada, e potencial para todos, mantendo a unidade da existência, pois é a unidade material que une toda a razão humana em si, espiritual e física.

E essa unidade também é física, como informa a ciência moderna, pela qual o observador e o observado se fundem numa unidade inteligente.

“Portanto, não há mais como se manter a divisão entre o observador e o observado (o que é algo implícito na visão atomista, que considera cada um deles como sendo agregado separado de átomos). Ao contrário, ambos, o observador e o observado, são aspectos imersos e interpenetrados de uma realidade completa, que é indivisível e incomensurável” (David Bohm. Totalidade e a ordem implicada. Tradução Teodoro Lorente. São Paulo: Madras, 2008, p. 25).

O que Bohm faz é nada mais do que generalizar logicamente as conclusões filosóficas da física moderna, “temos de considerar o Universo como uma totalidade indivisível e inseparável. A divisão em partículas, ou em partículas e campos, não passa de uma aproximação e uma abstração grosseira. Portanto, chegamos a uma ordem que é radicalmente diferente daquela de Galileu e de Newton – ordem da totalidade indivisível” (Idem, p. 135). Essa totalidade indivisível inclui o observador, o ser pensante, pois este e o observado, fisicamente, “são aspectos imersos e interpenetrados de uma realidade completa, que é indivisível e incomensurável” (Idem, p. 25).

A resistência do materialismo científico em aceitar essa visão ocorre porque ela aponta para uma religiosidade imanente à natureza das coisas, o que o preconceito científico moderno e o mito da ciência material se recusam a admitir, pois a significação da Vida, a unidade e conexão dos eventos não é material, mas imaterial, é espiritual.

“A proposta para uma nova forma geral de visão surge porque toda a matéria vem dessa natureza. Isto é, há um fluxo universal que não pode ser definido explicitamente, mas que pode ser conhecido apenas implicitamente, como indicado pelas formas e contornos explicitamente, alguns estáveis e outros instáveis, que podem ser abstrações do fluxo universal. Nesse fluxo, a mente e a matéria não são substâncias separadas. Ao contrário, elas são aspectos diferentes de um movimento único e completo” (BOHM, 2008, p. 27).

A ciência autêntica, portanto, deve estar aberta, em seus conceitos, a essa unidade, à infinitude, ao Eterno, do qual fazemos parte, ainda que procure trabalhar, o tanto quanto possível, dentro da maior determinação. Mas a certeza e a infalibilidade transcendem a matéria, como nos diz o princípio da incerteza, somente sendo alcançadas em Deus, que é o conjunto, o Espírito da Totalidade, a Lei que rege o mundo como fluxo universal.

Jesus Cristo, como forma definível, nos mostrou esse fluxo universal e infinito, o Deus invisível e inominável.

Esse fluxo universal possui uma ordem implicada, dobrada para dentro, além dos fenômenos manifestos, da ordem explicada, que é dobrada para fora. Existe um conteúdo de ordem por trás das aparências, o que é básico para a ciência, e no que se refere ao comportamento humano esse conteúdo é o objeto do estudo da ética, do Direito. Alguns indivíduos iluminados, mais conscientes, alcançam essa ordem superior, mais sutil, por algum modo, e então comunicam aos seus contemporâneos suas descobertas.

Assim, a moral de um indivíduo é compartilhada por outro, e outro, tornando-se moral social, até que esta moral passa a ser imposta aos demais membros da comunidade, seja em benefício de apenas alguns ou de todos os humanos.

“Os fatos originários da ética nascem da ‘voz’ que fala em indivíduos agraciados. O seu carisma consiste justamente em escutarem a voz. Quer se trate da voz de um deus ou de um animal, quer de um sonho ou de uma alucinação: a realidade da voz é vinculante para o indivíduo fundante. Provém ‘de Deus’ ou do símbolo que responde por Deus, é assumida por uma elite, que se reúne ao redor do fundador e, em seguida, é imposta ao grupo como norma coletiva” (Erich Neumam. Psicologia profunda e nova ética. Tradução João Rezende Costa. São Paulo: Edições Paulinas, 1991, p. 44).

Jesus e muitos cristãos, como homens bons e santos, que não causaram mal a ninguém, foram mortos injustamente, porque a consciência normalmente expõe injustiças que passavam anteriormente despercebidas, gerando conflitos quanto ao mau uso do poder político.

“Todo novo ‘surto de revelação’, ou seja, todo novo revelar-se da voz num indivíduo está contra a consciência (Gewissen) como representante da ética coletiva. Por isso é inevitável que a revelação ética no indivíduo criativo preceda o coletivo e represente um novo nível ético que está acima, e não raro muito acima do nível ético normal do coletivo. Essa antinomia é indissolúvel. Pelo ato fundante do indivíduo precedente dá-se ao coletivo uma lei, pela qual este é levado avante dentro da história em sua evolução, mas o coletivo ainda não está maduro de fato para essa lei” (Idem, p. 48).

A inserção da moralidade universal no Direito o abre ao método complexo, segundo o pensamento de Edgar Morin, o qual, é mister salientar, é ateu, procurando um fundamento objetivo para a ética, como o faz especialmente em sua obra “O Método 6. Ética”:

“Mas o excesso de complexidade destrói os limites, flexibiliza o laço social e, no extremo, a própria complexidade dilui-se na desordem. Nessas condições, a única proteção de alta complexidade está na solidariedade vivida, interiorizada em cada um dos membros da sociedade. Uma sociedade de alta complexidade deveria garantir sua coesão não somente por meio de ‘leis justas’, mas também pela responsabilidade/solidariedade, inteligência, iniciativa, consciência dos seus cidadãos. Quanto mais a sociedade se complexificar, mas ela necessitará de autoética” (Edgar Morin. O método 6: ética. Tradução Juremir Machado da Silva. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2011, p. 149).

Segundo Morin, a cultura psíquica interior leva à autoética, que antes de tudo é “uma ética de si para si que desemboca naturalmente numa ética para o outro” (Idem, p. 93).

A lei moral, assim, está no sujeito, em cada um e em todos: “O Reino de Deus está no meio de vós”. Portanto, a ética, como ciência da moral, e o Direito estão intimamente relacionados, na medida em que regulam o comportamento humano e a sua justificação valorativa e racional para os casos concretos, segundo a realidade inteligível. Na verdade, Direito é Ética e Ética é Direito. Direito é o máximo ético, é a religião autêntica, que deve ser colocada em prática. “Pois o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder” (1Cor 4, 20). Ética é o poder de se controlar, usando o espírito, a ideia, para a satisfação do espírito, da ideia coletiva, e não da carne, da ideia individual, egoísta, decorrente dos instintos animais.

“Ora, eu vos digo, conduzi-vos pelo Espírito e não satisfareis os desejos da carne. Pois a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne. Eles se opõem reciprocamente, de sorte que não fazeis o que quereis. Mas se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais debaixo da lei. Ora, as obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos previno, como já vos preveni: os que tais coisas praticam não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio. Contra estas coisas não existe lei. Pois os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos. Se vivemos pelo Espírito, pelo Espírito pautemos também a nossa conduta. Não sejamos cobiçosos de vanglória, provocando-nos uns aos outros e invejando-nos uns aos outros” (Gl 5, 16-26).

Ética é pautar o comportamento pelo Espírito, pela razão inclusiva, que inclui o outro no mesmo ponto de vista superior em que estou inserido.

Ética exige conhecimento, estudo. Ainda que não seja estudo formal, mas estudo espiritual para vivência coletiva. A desinstrução, a deformação pessoal e a cegueira deliberada são antiéticas, como ocorre quando se perde tempo com as deturpações divulgadas na internet e redes sociais, quando ao invés de nos informarmos e curtirmos a verdade, nos desinformamos e curtindo apenas o que é passageiro, e muitas vezes hediondo. A alienação deliberada, seja por uso constante de drogas, incluindo álcool e medicamentos para ansiedade, por não usar a própria razão, pela atividade frívola e consumista, é ação contrária à ética, contrária ao Ser, viola o Espírito.

Deus quer que “todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4). E para se conhecer a Verdade que salva é preciso procurá-la, investir tempo nessa busca. A maioria das pessoas não passa nem dez minutos por dia buscando a verdade, e alguns que se dizem religiosos se contentam com uma hora de missa, culto ou reunião em algum local chamado templo, uma vez por semana.

Como nossa vida depende disso, a vida humana depende disso, a busca da Verdade, para nossa Salvação, é um imperativo ético, um imperativo categórico, um imperativo religioso, um imperativo científico. A verdadeira vida é a religiosa, que ocupa o tempo integral da pessoa, pautando seu comportamento desde o acordar, nos relacionamentos familiares e profissionais, até o adormecer, com ética integral, vivendo em Cristo, a religião humana e divina.

“Todo olhar sobre a ética deve perceber que o ato moral é um ato individual de religação; religação com um outro, religação com uma comunidade, religação com uma sociedade e, no limite, religação com a espécie humana” (MORIN, 2011, pp. 21/22).

Portanto, até mesmo um ateu, com boa-fé e estudo dedicado, consegue entender a realidade religiosa do mundo, pois religião é religação, ainda que não entenda os fundamentos últimos dessa realidade, por não possuir em seus conceitos as categorias mais fundamentais da religião, o conceito de Deus como Espírito e a realidade de Cristo, que é a máxima categoria científica, a maior categoria religiosa, a última categoria psíquica, cabeça, centro, espírito e razão da espécie humana, como homem que incorpora Esse Espírito, formando a Unidade do Ser, especialmente por sua ação, pública e privada.

Mas nesse ponto Morin não está sozinho ao não entender esse fundamento, essa categoria, na medida em que até mesmo religiosos da mais alta estirpe também não alcançam esse entendimento, notadamente quando apegados a dogmas humanos equivocados, implantados na tradição religiosa, mas isso já é tema para outro artigo.

Ciência: linguagem, física e metafísica

A primeira categoria científica é a linguagem, a construção simbólica do mundo, pois sem linguagem não somos propriamente humanos. A linguagem é a forma do pensamento, que tem um conteúdo, o que é pensado e expresso em palavras, permitindo comunicação.

Já nos diz a Bíblia que no princípio era o Logos, sendo um de seus significados Razão, Inteligência, Palavra, Discurso ou seja, a descrição ou projeto inteligente da realidade.

Pela linguagem são feitas associações entre pensamentos e os fenômenos do mundo, uma conexão entre a realidade mental e a realidade física, que estão interligadas, uma não existindo, para nós, sem a outra, sendo o mundo um só, do qual fazemos parte.

Nossa linguagem surge com a experiência da linguagem, com a ligação de um significante a um significado, que depende de uma conexão sensorial e mental entre o símbolo, primeiro sonoro e depois visual, e sua relação com algo, aprendizado que se inicia desde os primeiros momentos da infância.

A partir da linguagem que herdamos pela tradição oral e escrita, construímos um mundo simbólico próprio que vai sendo comparado com a realidade sensorial à nossa volta, em relação aos sentidos e à coerência entre eles, permitindo a análise da pragmática, decorrente do compartilhamento das experiências simbólicas.

Para facilitar a comunicação simbólica, a humanidade criou também a linguagem matemática, de natureza abstrata, que possibilita uma certa objetivação, ou seja, independe de qualidades subjetivas das pessoas, pela convenção bem delimitada dos números e medidas.

E a partir dessas convenções matemáticas, o compartilhamento das informações sobre o mundo foi facilitado, permitindo o desenvolvimento das ciências.

A ciência é uma forma especial de conhecimento, na medida em que é um conhecimento que busca a coerência, a razão, e por isso é dada tanta ênfase aos números e suas ligações e proporções.

Mesmo a mitologia primitiva tinha uma conotação científica, pois buscava explicar o mundo e os fenômenos da vida, usando a linguagem disponível na antiguidade. Questão interessante é a significação original da palavra mito, que tinha o sentido de um discurso, de uma narrativa sobre as coisas, como ciência, ainda que atualmente mito tenha a conotação de história fantasiosa.

Assim, mito é história fantasiosa para nós modernos, pois para os antigos era a ciência da época.

Isso vale para a própria Bíblia, sendo a descrição do Gênesis a forma de narrar a criação do mundo segundo os conceitos válidos para o momento histórico, conceitos que eram tidos como científicos, considerando que na antiguidade as palavras indicavam realidade; quando proferido um nome o próprio ser invocado era tido como presente, e disso vinha o escrúpulo dos judeus quanto ao nome de Deus, Iahweh, que não era pronunciado, mas substituído por Deus ou Senhor.

Com o desenvolvimento da humanidade, mais coisas passaram a ser descritas, mais fenômenos foram estudados, principalmente a partir dos filósofos gregos, que eram tidos como os cientistas da época. Aliás, até pouco tempo, séculos atrás, não havia diferença entre ser filósofo ou cientista, o que ocorreu principalmente a partir do século XIX, com o aprofundamento do conhecimento relativo a certos aspectos da natureza, como a reprodução dos seres, tratada na biologia, o movimento, que levou à física, as qualidades eletromagnéticas, estudadas pela química.

Daí a ciência experimental, definindo os limites dos símbolos pela relação entre eventos percebidos pelos sentidos.

Dessa forma, novos conhecimentos foram surgindo, novos conceitos sendo desenvolvidos. Antes o átomo era a menor partícula, e indivisível, do mundo, agora temos elétrons, prótons, nêutrons, quarks, bósons, neutrinos etc, o que era uma coisa tornou-se várias, ainda que a mesma coisa, o átomo, continue a ser usado nas descrições do mundo, mas com a sua devida contextualização, pois o átomo não é mais cientificamente considerado indivisível. Na realidade, o átomo sequer existe como entidade distinta pois não há um átomo concreto separado de outros, a ciência não consegue separa um átomo de qualquer elemento. Não ocorre na natureza um átomo de hidrogênio isolado do resto mundo, ele está sempre ligado a outro elemento, igual ou diferente.

Isso (os novos conhecimentos) significava a especialização, quando os cientistas passaram a conhecer cada vez mais detalhes de fenômenos específicos, deixando, como regra, de tentar manter a unidade do conhecimento como um todo, como ciência plena, como filosofia.

A fragmentação do conhecimento e a especialização científica acarretaram um distanciamento da ciência de sua verdadeira natureza, como saber racional, coerente e integral, como explicação do Ser, do sentido da Vida.

A dualidade do pensamento cartesiano impede a unificação científica, pois enquanto os cientistas da experiência medida em números se limitaram à descrição matemática dos fenômenos, que deixaram de ter para eles significação ontológica, os cientistas do espírito, das ideias, passaram a ignorar a ligação sensorial entre os pensamentos e o mundo dos sentidos, especialmente quanto aos conceitos fundamentais dos fenômenos físicos e sua significação filosófica, criando um relativismo dos valores, um relativismo moral.

A metafísica, tida como filosofia primeira, chamada por Aristóteles também de Teologia, reúne novamente a linguagem em um todo, incluindo a linguagem recebida, sua verificação experimental, até mesmo quanto aos eventos religiosos, e a formação de uma nova totalidade, testada e aprovada.

Filosofia se liga à especulação, ao pensamento abstrato, como um reflexo dos fenômenos tidos como concretos, sem a prisão sensorial, que pode enganar, assim como um falso argumento. Especular tem a mesma raiz de espelhar, de indicar um reflexo, pelo que filosofia coloca as palavras como reflexo das coisas, fazendo uma imagem linguística total dos eventos do mundo e do Ser, como uma correspondência entre eles, que devem ser ambos coerentes internamente e entre si.

E pela falta de uma especulação total, de um espelhamento, de uma imaginação dos fenômenos totais da realidade, pela ausência de uma autêntica Teologia, deixando de filosofar, de pensar sobre os atuais conceitos físicos, a chamada ciência do espírito acabou se perdendo em meras articulações linguísticas, levando Stephen Hawking a chegar a dizer que “a filosofia está morta. Ela não acompanhou os desenvolvimentos modernos da ciência, em particular da física” (Stephen Hawking e Leonard Mlodinow, in O grande projeto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 7).

O motivo de Hawking dizer isso decorre do fato de que a filosofia primeira é metafísica, e para se estudar metafísica é necessário o entendimento da física. Conhecer o todo é conhecer as partes de que são feitas esse todo, as ligações das partes entre si e com o todo. Mas o mais importante é saber que existe um todo, pois ele é pressuposto para os que entendem haver ordem, cosmos, e não caos.

E para isso o conhecimento da física moderna é fundamental, tanto da relatividade quanto da orgânica quântica, que nos dizem basicamente que não existem partes, apenas um todo que é abstraído para o entendimento de fenômenos específicos, que não podem absolutamente ser destacados do todo, apenas relativamente.

A relatividade demonstra a existência de um suposto contínuo espaço-tempo material, a unidade do espaço e do tempo e a intercambialidade entre matéria e energia, pela fórmula E=mc². Toda matéria é energia e toda energia é matéria, existentes em um campo que tende ao infinito, a chamada Singularidade Cosmológica.

Do mesmo modo, a orgânica quântica não permite falar em separação absoluta de coisas, mas de relações, e até mesmo para medição dos eventos ocorre uma união indissolúvel entre o observador e o observado, pelo que o observador, pela observação, altera a própria coisa observada, como efeito da medição.

O grande enigma da física consiste no fato até então provado pelos números de que não há separação entre nós e o infinito, apenas uma linha imaginária ou real, o horizonte de eventos, a partir do qual o infinito se manifesta, pois o Big Bang é uma singularidade presente aqui, ou seja, nós estamos no Big Bang, estamos no infinito.

Portanto, não se pode falar em diversidade entre natureza e espírito, na medida em que o espírito, a ideia, está presente na natureza, não de forma isolada, mas em sua integridade, integrada pelo homem e seu espírito, como ente especial do Ser, que pelo Logos consegue se ver como próprio Ser. No homem o finito é reunido com o infinito, no homem res extensa e res cogitans se tornam uma só coisa, uma só realidade.

Assim, a metafísica, a filosofia, ao especular sobre as coisas de mundo em termos linguísticos deve observar essas conclusões das ciências físicas, que são, em última análise, a confirmação científica da religião cristã autêntica, que é histórica, prevendo um julgamento no final dos tempos, quando os efeitos de nossas ações serão julgados; o que fizemos, o que causamos, será objeto de consequência para nós, pois somos uma unidade espiritual, em nossa identidade física, pelo DNA, e psíquica, pela individualidade, e perene, na medida em nossa ciência, que compartilha um pouco do Logos, não considera impossível a reunificação física e psíquica, haja vista a clonagem e a inteligência artificial, ainda que apenas o próprio Deus, o Logos, a Inteligência Cósmica, possa restaurar nossa unidade de forma perfeita.

A história é uma ciência normalmente ligada ao espírito, mas também usada pela física, notadamente pela cosmologia, que remete à criação, ao Big Bang, à Singularidade Cosmológica, que não é um evento passado, mas o próprio espaço-tempo em expansão, hoje.

As leis da física, ainda não totalmente explicadas, aplicam-se aos corpos e aos pensamentos, às ideias, em unidade, como o Logos, a razão, a unidade do discurso religioso unindo a criação cósmica e a criação humana, além do desenvolvimento da própria humanidade, sua história.

Jesus Cristo é a expressão humana de Deus, do Logos, da humanidade como ser coletivo, e assim é o próprio Deus entre os homens, o centro da humanidade, é a Vida em sua plenitude, na medida em que seu discurso e seu comportamento correspondem à manifestação da Unidade do Ser, em pensamento e ação, o cumprimento da Lei Cósmica e da Lei Humana, tanto mosaica como romana. “Eu e o Pai somos um”. “Quem me vê, vê o Pai”, indicando que a realidade física e espiritual são uma só e mesma realidade.

Em Jesus Cristo, a humanidade adquire unidade espiritual, racional, além das diferenças sociais, raciais, nacionais etc, ainda que o materialismo científico tente obscurecer essa verdade. Jesus Cristo é o marco, a origem do que hoje se diz serem os direitos humanos. Sem Jesus Cristo não existiriam direitos humanos, o que demanda que a interpretação do que sejam direitos humanos se faça conforme a hermenêutica cristã, e não segundo uma visão materialista ateia.

Desse modo, Direito também se liga a causalidade, pois o Ser é o que Deve Ser, ainda que o tempo do Direito tenha um tempo distinto quanto à causalidade, um tempo kayrológico, relativo ao tempo kayros, o tempo oportuno, o tempo orgânico, diversamente do tempo cronológico, o tempo do relógio máquina.

A causalidade jurídica é uma causalidade diferida, e não imediata, mas é causalidade, como nos indica o conceito de karma, em que pese a interpretação equivocada sobre a chamada reencarnação, pois não existe a volta da alma à carne, mas uma reverberação psíquica arquetípica com compartilhamento de memória, a que se atribui erroneamente o nome de reencarnação, quando uma pessoa, no eterno agora (o tempo não existe além da psique humana), sente algo semelhante ao que é vivido por outra pessoa agora, pela similitude vibracional, como numa sintonização, em situação emocional típica, no futuro ou no passado, compartilhando essa memória.

A percepção do ser e da causalidade do ser dependem da consciência, qualidade raríssima no mundo inconsciente em que vivemos, mas algumas pessoas possuem esse dom, como os profetas, alguns médiuns e intelectuais. A consciência é o sentimento do organismo maior, além do meu corpo e dos meus sentidos individuais, incluindo a família, o grupo, a sociedade, o planeta, o cosmos.

Jesus Cristo em sua Vida é a Unidade da Criatura e do Criador, em um só Cosmos, físico e espiritual, porque tinha tanta consciência dessa Unidade, do organismo Criatura, o Todo do Universo criado, o Filho, que era capaz de manipular o campo de Higgs e o vácuo quântico, alterando a forma e o modo de manifestação da energia Una, que possui múltiplas formas de detecção de seu movimento.

E nós também fazemos parte dessa Unidade, somos Filho, faltando-nos consciência disso e ação conforme essa unidade, individual e coletivamente, o que é indispensável para que também sejamos Um com Cristo e assim com o Pai, com Deus, em unidade de ação e pensamento. Também em discurso, em Palavra, pelo Logos, com o uso da linguagem, pois nossa metafísica está partida e dividida, nossa ciência está dividida e nossa religião está fragmentada.

Hoje está sendo discutida a reforma da educação, do ensino médio, e enquanto não for resolvida essa questão da coerência linguagem, da autêntica ciência, com o desenvolvimento das ideias até o nível da totalidade, da filosofia, da metafísica, da religião verdadeira, que é a mais pura ciência, não se poderá falar em melhoria da educação.

E pela proposta inicial, de redução da importância da disciplina filosofia, pode-se perceber que o governo está longe da causa dos problemas do país, e assim, obviamente, estará também longe das soluções e dos objetivos de melhorar a vida da população…

Graças a Deus – Obrigado, Senhor!

A gratidão é um sentimento fundamental, de natureza religiosa, pois com ele sentimos o presente da vida. Presente como momento eterno, presente como dádiva.

Hoje agradeço a Deus pelo presente e pelos presentes que recebi ao longo da vida, pela própria participação na Vida.

Deus é a Vida, e por sua Graça participo da Vida.

Sou vivo e estou vivo.

Como Espírito sou vivo, integro a eternidade de Deus, pois o Espírito é eterno. Como corpo estou vivo, morrerei, esperando a ressurreição da carne, restabelecendo a unidade física com meu espírito, mesmo porque a física não explica o que seja o físico, a matéria, pelo que não vejo a menor dificuldade em acreditar na ressurreição da carne.

São Paulo nos diz que a cruz de Cristo e a ressurreição da carne são a loucura do cristão, e isso é verdade, uma Verdade que nenhuma outra religião possui.

É uma pena que a cristandade não reconheça essa Verdade.

A Verdade é que, em Cristo, somos imortais. Essa é nossa crença, que o mundinho do dia a dia tenta nos fazer ignorar.

A maior artimanha do Maligno, decorrente da Queda, do Pecado, da separação de Deus, é nos fazer esquecer nossa eternidade, para nos preocuparmos com períodos ridículos e humanos de tempo, minutos, dias, anos ou mesmo décadas.

Não que essa vida não seja importante, muito pelo contrário, pois é aqui, em minutos, horas, dias, meses, anos ou décadas, que fazemos nossa experiência espiritual individualmente, aqui que semeamos nossa eternidade definitiva. Mas aqui é a fase mais curta, ainda que a mais importante, de nossa vida. Mais curta em tempo cronológico, e mais importante porque aqui definimos nosso Ser, nossa humanidade, quem somos, além de quem estamos, no tempo kayrológico, o tempo do sentido da Vida. O caminho da eternidade passa pela vida humana, é uma continuidade desta vida, em outro nível, mais amplo, que está aqui, no eterno presente, mas não percebemos com facilidade.

O fato de uma criança viver apenas momentos, ainda que sem o batismo, não significa que ela não participe da vida eterna. O amor dos pais, que tem sido cada vez mais raro, é suficiente para colocar o infante na eternidade. E se não houver amor dos pais, o amor de Deus o fará.

Alguns conseguem o privilégio, como eu, de receber Amor dos pais, em suas várias formas, tanto como carinho, quanto como educação e disciplina. O amor paterno e materno nos dá a primeira imagem de Deus, que é Amor. Esse amor é eterno, e não há distância que possa afastá-lo, enquanto Amor, por mais que os pais falhem, pois nos dão não apenas bons, mas também maus exemplos, porque, como nós, não são perfeitos, e algumas vezes nós damos maus exemplos para outros. Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra; e ninguém é capaz de atirar a primeira pedra.

E minha gratidão por Deus não para aí, pois também vivi o Amor fraterno, com três irmãos fantásticos, coisa também rara, digo raríssima, nos dias de hoje, aquele amor que nos une de forma perene, que está além do espaço-tempo.

Mas existe uma união ainda mais especial, descrita na Bíblia, que permite o milagre da vida, a união de dois corpos em um só, de famílias, no casamento, cujo fruto é a prova dessa multiplicação de vida, em que a criança assume múltiplas habilidades, sendo uma mistura dos pais, em carne e espírito. Também nisso sou agraciado, sou Grato a Deus, pela mulher maravilhosa que se uniu a mim em um novo ser uno e múltiplo, e pelo fruto também maravilhoso dessa união, um Amor duplo.

Ainda assim, dois grandes exemplos da vida Cristã, ou os maiores responsáveis pela divulgação da verdadeira religião, o próprio Jesus Cristo e são Paulo, eram solteiros. Eles conseguiram a união perfeita, com o Criador e a humanidade, em pureza de espírito, no serviço sacerdotal, no Amor. Todo cristão tem um pouco de Jesus Cristo e um pouco de são Paulo em si, como filhos que herdam qualidades de seus pais, tal foi o Amor distribuído por eles ao longo de suas vidas.

Seus exemplos nos servem de estímulo, para prosseguirmos, apesar das tribulações.

Jesus Cristo, são Paulo, e outros mártires, passaram por torturas físicas e psicológicas, mas isso não os impediu de continuar. Eles perseveraram.

Ficai sempre alegres, orai sem cessar. Por tudo dai graças, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito, em Cristo Jesus. Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias. Discerni tudo e ficai com o que é bom. Guardai-vos de toda espécie de mal” (1Ts 5, 16-22).

Nós vivemos em plena era do anticristo, e essa orientação é mais válida do que nunca.

Orar sem cessar!

Dar graças a Deus por tudo! Tudo de bom e também por tudo que pensamos ser ruim, devemos dar graças pelas tribulações, ainda que seja quase impossível fazer isso durante a tribulação. Desde a história de José do Egito a Bíblia nos ensina que Deus transforma o mal humano em bem.

A morte de Jesus foi terrível, mas por ela alcançamos a salvação.

Não desprezar as profecias! Para começar, é preciso conhecer as profecias, pois seu desconhecimento é o primeiro desprezo.

Quando conseguimos discernir o divino e o demoníaco, em nós primeiro, e depois nos outros, inclusive naqueles que nos dão amor, conseguimos nos guardar do mal.

Essa mensagem é para nós, dos tempos atuais, pois no contexto imediatamente anterior são Paulo fala da vinda do Senhor como ladrão noturno (1Ts 5, 2).

O tempo moderno é de solidão, decorrente da futilidade da vida das redes sociais, sem conteúdo, sem vivência, de relacionamentos vazios, sem a verdadeira Religião, sem Espírito.

Passa-se muito mais tempo lendo as deformações e notícias que muitas vezes são falsas ou serão desatualizadas em minutos ou dias do que as verdades eternas do conhecimento espiritual.

E não basta o conhecimento teórico, urgindo a prática diuturna dos mandamentos, no Amor a Deus e ao próximo.

Primeiro pela boa educação, com boa leitura, e então pela boa ação constante, nos menores detalhes da vida: paciência com os outros, especialmente idosos e crianças, que estão no tempo correto da vida, mais perto da eternidade, ao contrário dos adultos; respeito e atenção ao próximo; desapego material.

A caridade com o próximo, com um parente, às vezes pode ser difícil, pois quanto mais próximo maior a chance de uma agressão. Quanto mais tempo de convivência, mais oportunidades para agredir e ser agredido. Daí a necessidade do exercício constante do perdão, “setenta vezes sete”.

Outro dia falei isso em um júri: “Diz-se que ‘quem bate esquece, e quem apanha nunca esquece’, mas quem pretende ser justo deve esquecer quando apanha e lembrar de quando bate”; para não voltar a bater, almejando a santidade.

Deus é Espírito e Deus é Amor, e também perdão, devendo ser seguido o exemplo de Jesus Cristo, que disse, LOGO DEPOIS DE SER TORTURADO, ESTANDO PENDURADO NA CRUZ: “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem”.

E porque Deus nos perdoou, pelos pecados que cometemos ao longo da vida, mais uma vez vale a demonstração da gratidão. Obrigado, Senhor!

Ele só quer isso, que sejamos gratos e que não pequemos mais, que sejamos santos. “Vai, e de agora em diante não peques mais”.

A santidade exige esforço diário, tudo o que mundo do consumo e das facilidades materiais de hoje não quer.

Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal” (Mt 6, 33-34).

Se alguém não está buscando em primeiro lugar o Reino de Deus, o exercício do Amor Ágape, não é de se admirar a falta de paz dessa pessoa. E mesmo que busque, ainda assim passará por tribulações.

O Amor é a Ponte de Einstein-Rosen, que curva o espaço-tempo de tal forma que leva a qualquer ponto da existência, em energia infinita, em unidade espiritual, em qualquer ponto do tempo ou do espaço. O Amor é o entrelaçamento quântico, que une as partículas e as mantém unidas independentemente do espaço e do tempo que as separam.

Jesus Cristo é o Pontífice, nos une a Deus, à Eternidade, é o Amor de Deus em forma humana. Em Cristo também podemos ser pontífices, pela ação do Espírito Santo, movidos por seu Amor. Não há exclusividade de pontificado, que é alcançável pela humanidade, por meio de Cristo.

O Amor nos leva à eternidade agora, ao Reino de Deus, que é espiritual mas está presente na vida, pela doação, fazendo com que o outro cresça comigo. O Reino de Deus é o Espírito que move a carne para o Bem, pelo que também está na carne, enquanto tabernáculo, tenda, do Espírito Santo.

Somos corpo finito, e também espírito infinito, e o Amor nos permite a conexão ao campo físico infinito, unindo de alguma forma nossa mente à de Deus, agindo aqui, mas além daqui, desfrutando a vida que seja compatível com a eternidade, e exercendo o serviço divino, o sacrifício, que consiste em ajudar que os demais filhos de Deus também possam alcançar a Unidade.

Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 20-23).

Obrigado, Senhor, por me permitir proclamar o Evangelho, e assim cumprir o mandamento do Mestre.

Dirigi-vos, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel. Dirigindo-vos a elas, proclamai que o Reino dos Céus está próximo”;

O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia: o que vos é dito aos ouvidos, proclamai-o sobre os telhados. Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena” (Mt 10, 6-8; 27-28).

E disse-lhes: ‘Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura’” (Mt 16, 15).

Nossa função como cristãos é dar o testemunho da Verdade e proclamar o Evangelho, a todo momento, seguindo o exemplo de Jesus, até nossa morte física ou Sua volta, independentemente de qual evento ocorrer primeiro, notadamente porque o segundo anula o sentimento da primeira, para aqueles que estiverem em união com Cristo na morte, e na Vida.

Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra” (At 1, 8).

Nossa obrigação como cristãos é sermos cristãos onde estivermos, sempre, pelo exemplo e pela pregação da palavra, até os confins da terra.

Obrigado, Senhor! E que minha oração seja atendida, em nome de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, para que as pessoas que lerem este texto destinem menos tempo às maldades e frivolidades, inclusive e especialmente das redes sociais, e mais tempo à Vida e à proclamação do Reino de Deus, do Evangelho, até mesmo pelas redes sociais!

Deus seja Louvado! O Eterno, O que Era, O que É, O que Será!

Obrigado, Senhor!

A democracia contemporânea como falácia informal

Democracia significa governo do povo, e diante da impossibilidade do exercício direto dos poderes políticos formais pela totalidade da população, que ocorreria na democracia direta, criou-se o chamado sistema representativo, em que são eleitos pelo povo aqueles responsáveis por tomar as decisões em nome dos eleitores.

A falácia é um erro de julgamento, um erro argumentativo, um conjunto de argumentos incoerentes e, assim, falsos. Uma falácia pode ser de dois tipos, formal ou informal. No primeiro caso, a forma já indica seu erro. Se eu digo que todos os políticos são corruptos e que Pilatos é administrador público, concluindo, tão somente com base nas premissas citadas, que Pilatos é corrupto, ocorre a falácia formal, pois não é possível inferir pela análise lógica das primeiras assertivas que a última é verdadeira. De outro lado, se eu falo que todos os políticos são corruptos, e que Itamar é político, concluindo, tão somente com base nas premissas citadas, que Itamar é corrupto, existe congruência formal entre os termos, há lógica argumentativa; mas o problema de fato é que, felizmente, nem todos os políticos são corruptos, então ocorre o fenômeno da falácia informal. Na falácia informal, não é a forma, mas o conteúdo de um dos termos não corresponde à verdade.

Podemos dizer que a frase ‘Pilatos é corrupto’, no contexto acima, contém uma inverdade formal, enquanto ‘Itamar é corrupto’ traduz uma inverdade material, uma falácia informal.

Portanto, a democracia é o governo do povo, para o povo, sendo formalmente válida a lógica da questão. A forma democrática é assim delimitada, mas o conteúdo depende da análise semântica e pragmática do uso democrático, que não corresponde ao que foi antes exposto como conceito de democracia.

Democracia pressupõe a vontade geral de Rousseau, a razão coletiva, o Logos, que exige sacrifício de todos; mas, quando muito, vemos apenas a vontade da maioria, ou uma minoria dizendo-se em nome da maioria, nem todos querendo se sacrificar, mas exigindo o sacrifício dos demais. Diz o autor que “nada é mais perigoso do que a influência dos interesses privados nos negócios públicos” (ROSSEAU, p. 113), o que o Brasil e o mundo tem visto com uma infeliz frequência nos noticiários. E conclui que “se houvesse um povo de deuses, ele se governaria democraticamente. Não convém a homens um governo tão perfeito” (Idem, p. 115). Parece que Rousseau não entendeu o cristianismo, o que lamentavelmente é a regra no mundo filosófico, com honrosas exceções. “Eu declarei: vós sois deuses, todos vós sois filhos do Altíssimo” (Sl 82, 6). O cristianismo prega o Reino de Deus, quando os mansos herdarão a terra, os que têm fome e sede de justiça serão saciados e os que promovem a paz serão chamados filhos de Deus (Mt 5, 4-9), e em que há “tronos, e aos que nele se sentarem foi dado o poder de julgar” (Ap 20, 4), salientando a necessária humildade do servo da Lei, na medida em que o exemplo de Jesus deve ser seguido.

Já dizia Platão em sua República que a democracia, como regra, descamba para a tirania/demagogia, e que a melhor forma de governo é a sofocracia, o governo dos sábios/justos, dos filósofos (o sábio é justo, como uma de suas qualidades ontológicas).

Nos tempos atuais, para compensar os riscos de desvio democrático material, o controle de constitucionalidade serve para corrigir os desmandos majoritários, contrários ao Logos, com sua expressão material na Constituição Federal, que tem a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos. Fraterno vem de irmão, o que histórica e faticamente é consequência do cristianismo, pois somos irmãos, filhos de Deus, em Cristo. Essa é a autêntica Tradição ocidental, que tenta ser relegada ao esquecimento pelo materialismo marxista e freudiano.

Formalmente, democracia é o governo em que autoridade reside no povo, mas materialmente, democracia autêntica é Reino de Deus, o governo Justo, em benefício do povo, e não apenas nominalmente em seu nome.

O significado de democracia, e de tudo o mais que for conceituado, depende do ponto de vista do emissor da fala, ou seja, a vista a partir do ponto do emissor. A vista pode ser da forma, ou do conteúdo, e isso faz toda a diferença, principalmente porque o mundo contemporâneo é essencialmente sem essência, ou seja, não é, apenas parece ser.

E aí entra em cena o cerne de todos os problemas da ciência, o fundamento ontológico do conhecimento, o seu fundamento metafísico por excelência, que é essencialmente um problema religioso, a definição do Ser. Religião é o que conecta a parte ao todo, é religar todas as coisas, dando unidade ao Ser.

Para a ciência moderna, a vida não tem sentido, apenas forma, que é preenchida de significado conforme os interesses da ocasião, em que tudo é relativo, dependendo dos interesses materiais em questão. Mas a democracia é religiosa, une as pessoas em vista de um fim comum, que no caso do cristianismo autêntico exige o Logos, o discurso coerente e verdadeiro sobre os fenômenos, sobre a realidade, com consenso argumentativo, convencimento racional.

O exercício do poder público depende, segundo Hart, daquilo que ele chama de regra de reconhecimento, que muito raramente é formulada em termos expressos na legislação, e que permite identificar uma regra como jurídica e como obrigatória.

No nosso caso podemos dizer que a regra de reconhecimento é a Constituição Federal.

Afirmações de validade jurídica pronunciadas acerca de regras concretas no dia-a-dia da vida de um sistema jurídico, quer o sejam por juízes, por juristas ou por cidadãos comuns, arrastam consigo na verdade certos pressupostos. São afirmações internas de direito expressando o ponto de vista daqueles que aceitam a regra de reconhecimento do sistema e, como tais, não exprimem muito do que podia ser expresso em afirmações de facto externas acerca do sistema” (HART, p. 119). Assim são feitas análises sobre a validade e aceitação da regra dentro do sistema, sendo a regra de reconhecimento uma prática complexa, mas concordante, “dos tribunais, dos funcionários e dos particulares, ao identificarem o direito por referência a certos critérios. A sua existência é uma questão de fato” (Idem, p. 121). Esses pressupostos são de origem metafísica, consistindo em fatos tidos como ponto de partida, como visão de mundo.

E todo fato é hermenêutico, dependente de interpretação de conteúdo, ou seja, semântica, e finalidade, pragmática. O entendimento do fato depende do contexto, o que nem sempre é fácil, a significação da Constituição.

O fato é sua apreensão integral, sua interpretação plena, conforme suas causas e seus efeitos, o fenômeno observado dentro de um paradigma, dentro do chamado espaço-tempo inteligível.

No jogo da vida não basta a integralidade linguística, a formalidade correta, é necessária a integralidade fenomênica, incluindo seus aspectos mais completos unindo semântica e pragmática.

Como já afirmei:

O jogo da vida é de verdade e consequência, porque vivemos simbolicamente em um mundo causal, em que uma coisa gera outra, e a ciência é a busca pela causa dos fenômenos. Se causa for corretamente entendida, verdadeira, o efeito, a consequência, será necessário. A regra do jogo da vida é a causalidade” (Jesus e o jogo da Vida Eterna: verdade e consequência – artigo do sítio http://www.holonomia.com).

Portanto, o fundamento do Direito se liga ao fundamento da filosofia, ao problema da verdade, que desde Jesus Cristo não vem sendo muito bem compreendido, nem pela Igreja, nem pela Filosofia, ou pela Ciência.

Pilatos lhe disse: ‘Então, tu és rei?’ Respondeu Jesus: ‘Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz’” (Jo 18, 37).

A verdade é a realidade inteligente e total do Ser.

A realidade é a res, a coisa, em sua compreensão intelectual, a unidade racional indissolúvel entre sujeito e objeto, quando a racionalidade da coisa se une à do sujeito, formando uma só racionalidade. “Ser é ser percebido”, como diria Berkeley, ou melhor, diria eu, “Ser é ser percebido pelo Logos”. A física quântica tem uma linha filosófica em sentido próximo, indicando que a realidade somente existe quando observada; o que, entretanto, seguindo a interpretação ontológica de David Bohm, entendo não ser muito precisa, pois a realidade existe em si, no Logos que a abrange, ainda que não a percebamos, pois precisamos de Logos para sua percepção.

Nesse ponto, e aí reside o embate filosófico fulcral da modernidade, dado o entendimento kantiano em sentido contrário, o sujeito conhece a coisa em si, que é sua relação com o Logos. A coisa é sua racionalidade, sua matéria é equivalente à sua energia logosófica, sua inteligência, fazendo-se uma analogia com a relatividade einsteniana (E=mc²). Para Hegel, o que é racional é real, ainda que nossa racionalidade coletiva ainda esteja em evolução, em aprimoramento.

Como dito, o problema contemporâneo é metafísico, é religioso, pois a pseudociência predominante é “kantiana”, dualista, enquanto a realidade é “hegeliana”, monista.

A coisa é a ideia que se faz dela, compartilhada coletivamente, em sentimento e razão. A coisa é objetiva para o sujeito inteligente, que usa o logos, não para um sujeito específico, mas para o sujeito inteligente, que é coletivo, na medida em que o Logos é coletivo, por natureza, por essência. O verdadeiro é verdadeiro para todos que tenham capacidade de entendimento, sendo muito, muito poucos os que conseguem ser Sujeito (intersubjetivo), filho do homem, a própria humanidade, como Jesus Cristo.

Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17, 20-23).

O compartilhamento da ideia é feito pela tradição, que nos dá os pressupostos sobre o sentido das coisas. Assim, o Logos nos antecede, e Dele recebemos a racionalidade e compreensão do mundo, humanamente, somos filhos do homem.

E aqui surge um problema filosófico de primeira grandeza: a tradição é esquizofrênica. O logos que vem sendo passado pela tradição é irracional, pois incompleto. O mundo tradicional ainda vive sob o paradigma cartesiano, dualista, que divide o mundo em duas realidades, uma pensante e outra física, sensível.

Como a tradição está equivocada, aqueles que a seguem estão equivocados por arrastamento, ainda que possam estar pontualmente certos, pelos motivos errados, como Dworkin, que rejeita o realismo moral, mesmo sendo o pensamento físico, inclusive o moral, que emite onda/partícula pelo campo eletromagnético, curvando o espaço-tempo, ainda que não tenhamos consciência material disso, por insuficiência provisória de meios de medição, pelo que Dworkin adota o que chama de ceticismo moral interno, que exige responsabilidade e integridade na interpretação moral.

Dworkin afirma que inicialmente defendia um “quadro ortodoxo de dois sistemas. Admitia que o direito e a moral eram sistemas diferentes de normas e que a questão fundamental residia na maneira como interagiam (…) depressa percebi que o quadro de dois sistemas do problema tinha falhas” (p. 411).

Em seguida mostra sua nova posição, concluída quarenta anos depois:

Rejeitamos o velho quadro que descreve o direito e a moral como dois sistemas separados e depois procura ou nega, infrutiferamente, interligações entre eles. Substituímo-lo por um quadro de um sistema; tratamos agora o direito como parte da moral política” (DWORKIN, p. 414).

Talvez se tivesse mais tempo de vida Dworkin chegasse à conclusão de que a política é parte da religião, que é a unidade sistemática do conhecimento humano científico, em que a integridade abrange a totalidade do Ser (coisa extensa e coisa pensante), incluindo todos os aspectos da vida prática, apesar das deturpações sofridas pelos conceitos de religião e de Deus, por objetivos políticos e econômicos escusos, ao longo dos séculos, e pela prática nefasta decorrente desses conceitos falhos.

O pensamento materialista e dividido da realidade tomou conta da mentalidade ocidental e passou a agir automaticamente como um sistema reflexo, com salientado por David Bohm.

O pensamento é fragmentado e existe uma falha nesse sistema, que inclui o corpo, as emoções, o modo como passamos informações.

O que me refiro como ‘pensamento’ é a coisa toda – o pensamento, o ‘que foi sentido’, o corpo, a sociedade como um todo partilhando pensamentos – tudo não passa de um único processo. É essencial para mim que isso não seja separado, porque tudo não passa de um único processo: o pensamento de alguém se torna meus pensamentos e vice-versa” (BOHM, p. 29).

Não se trata uma falha local, mas sistemática, em todo o sistema do pensamento, que divide o mundo em nações, em coisas separadas, o que não corresponde à realidade. Assim, esse sistema passa a agir como um instinto, inserido na cultura, em que é difícil de ser percebido, sendo necessária força mental para notar o erro da fragmentação, para se atingir a consciência da unidade e agir conforme essa realidade, rompendo com o sistema falho, na medida em que existe uma “percepção ou inteligência mais profunda, capaz de ver essa incoerência” (Idem, p. 32).

Segundo Bohm, há uma incoerência no pensamento em relação à unidade do sistema, que passou a agir na mente humana em algum momento da história (eu digo desde a Queda, conforme artigo citado acima), o que afeta a realidade corporal, o mundo físico, sendo necessária uma visão conjunta da realidade, religiosa em sua autêntica etimologia.

Para uma visão conjunta, necessitamos do diálogo. Individualmente, uma pessoa pode ter uma visão; mas precisamos dela juntos, porque agora a civilização atingiu uma etapa na qual não consegue proceder de outra maneira. No geral, necessitamos disso de qualquer maneira; no entanto, precisamos disso agora mais do que nunca” (Idem, p. 199).

Bohm afirma que o pensamento assume a função do eu, como se pensasse pelo próprio eu, “tentando se apoderar das coisas e organizá-las” (Ibid., p. 199). É como se o pensamento formasse uma ordem do mundo para homem, ordem partida, desencontrada da ordem da vida.

Já nos diz a teologia cristã, em que Deus é o Logos, a razão real e discursiva, em significado inteligente:

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. (…) Por isso abandonai a mentira e falai a verdade cada um ao seu próximo, porque somos membros uns dos outros” (Ef 4, 4-6; 25). Essa é mesma conclusão que a melhor interpretação da orgânica quântica acarreta.

Não basta a palavra indicar algo, esse algo deve corresponder à realidade sentida coletivamente, como um todo, física, psíquica e espiritualmente.

Feita a digressão, resta concluir que a verdadeira democracia é não apenas formal, mas também material, é uma teocracia, em que prevalece o governo de Deus, do Logos, quando os governantes, escolhidos pelo mérito social (o que deve ser feito pelo voto popular, segundo a Constituição) e não por marketing ou abuso de poder, são verdadeiramente ministros (servos) da coletividade, agindo para construir uma sociedade livre, justa e solidária, como manda a nossa Lei Maior, para realizar o Reino de Deus, que está próximo, pois a Lei já vale nacional e internacionalmente, só resta ser executada…

REFERÊNCIAS

BOHM, David (2007). O Pensamento como um sistema. Tradução Teodoro Lorente. São Paulo: Madras.

DWORKIN, Ronald (2012). Justiça para ouriços. Tradução de Pedro Elói Duarte. Coimbra: Almedina.

HART, H. L. A. (1994). O Conceito de Direito. Tradução de A. Ribeiro Mendes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

ROUSSEAU, Jean-Jaques (2013). Do contrato social: princípios do direito político. Tradução Vicente Sabino Júnior. São Paulo: Editora Pillares.

Under Pressure (Sob Pressão) – Tribulação

Under Pressure

“Pressão, me pressionando
Pressionando você
Ninguém pede isso
Sob pressão
Isso incendeia um edifício inteiro
Divide uma família em duas
Coloca pessoas nas ruas
Um ba ba be
Um ba ba be
De day da
Ee day da
Está tudo bem
É o terror de saber
O que realmente é esse mundo
Observando alguns bons amigos
Gritando: “Deixe-me sair!”
Rezo para que o amanhã me deixe mais animado.
Pressão sobre as pessoas, pessoas nas ruas
Day day de mm hm
Da da da ba ba
Ok
Dando pontapés por aí, chuto meu cérebro pelo chão
Estes são os dias em que nunca chove, mas transborda
Ee do ba be
Ee da ba ba ba
Um bo bo
Be lap
Pessoas nas ruas
Ee da de da de
Pessoas nas ruas
Ee da de da de da de da
É o terror de saber
O que realmente é esse mundo
Observando alguns bons amigos
Gritando:”Deixe-me sair!”
Rezo para que o amanhã me deixe mais animado
Animado
Animado
Pressão sobre as pessoas, pessoas nas ruas
Afastei-me disto tudo como um homem cego
Sentei num muro mas isso não funciona
Continuo fornecendo amor
Mas ele está tão rasgado e despedaçado
Por quê, por quê, por quê?
Amor, amor, amor, amor, amor
A insanidade ri, sob pressão estamos cedendo
Não podemos dar a nós mesmos mais uma chance
Por que não podemos dar ao amor mais uma chance?
Por que não podemos dar amor?
Dar amor, dar amor, dar amor
Dar amor, dar amor, dar amor
Dar amor, dar amor
Porque o amor é uma palavra tão fora de moda
E o amor te desafia a se importar com
As pessoas na beira da noite
E o amor desafia você a mudar nosso modo de
Nos preocupar com nós mesmos
Esta é nossa última dança
Esta é nossa última dança
Isto somos nós mesmos
Sob pressão
Sob pressão
Pressão”
(Tradução https://www.letras.mus.br/queen/64294/traducao.html)

A arte clássica é aquela na qual o artista consegue colocar em sua obra algo implícito na ordem cósmica, universal, que pode ser reconhecido pelo público, pelo Espírito. Nisso consiste a genialidade do artista, converter em uma obra finita uma ideia infinita, que transcende seu tempo e seu espaço.

Hoje estamos longe da arte clássica, sendo divulgada uma cultura grotesca e caótica, mas alguns artistas conseguem um vislumbre da ordem.

No aspecto social, a ordem se manifesta em normas, e Direito é a arte do bom e do justo, segundo Celso, “Ius est ars boni et aequi”, significando encontrar a solução justa, segundo a ordem cósmica, passando pelas leis humanas, para o caso analisado. Não é por acaso que muitos dos institutos jurídicos de hoje têm origem na religião primitiva, sendo que o direito romano também tinha conotação religiosa.

A arte tem uma significação religiosa, espiritual, para encantar a alma, conectando-a ao cosmos.

O mundo materialista ignora o espírito, apenas foca o corpo, nos coloca sob pressão, para consumir, permitindo assim conquistar destaque social nesse mundo decadente. A competição moderna é pela exibição de bens, como a cultura pop mostra. Vivemos em uma sociedade destrutiva de consumo, em que, para o mundo, as pessoas valem pelo que possuem, e não pelo que são. Um clipe dessa música de David Bowie mostra uma sociedade insana de homens como máquinas, e é o que vemos muitas vezes.

Mas há resistência.

Com muita satisfação, na semana que passou recebi duas notícias que nos dão alento nos dias de hoje, a primeira de um catador de lixo que encontrou mil e quatrocentos dólares e conseguiu que o dinheiro voltasse a seu proprietário. A honestidade superou a necessidade. E o melhor foi que a notícia não parou por aí, pois depois li que Gabriel, o Pensador, um artista, juntou dinheiro com amigos e deu dez mil reais ao honesto catador de reciclados, e que este ainda consegui um emprego. A virtude do cidadão já é uma boa notícia, pois é fato tão alienígena no mundo materialista, que vira notícia, quando deveria ser a regra, e outra boa nova é o retorno da boa ação, como em uma antecipação da Justiça do Reino de Deus.

Outro fato relevante ocorreu durante uma audiência, para apuração de ato infracional equiparado a furto, um delito praticado por um menor. O adolescente chegou em casa com um dinheiro, a mãe do rapaz perguntou de onde tinha vindo aquilo, e diante da informação que era roubado (furtado), a mãe chamou a polícia e o filho foi apreendido em flagrante pelo furto. A mãe recebeu meus parabéns em audiência, sendo ela outra artista, da educação.

Nem todos se submetem à pressão do mundo, Graças a Deus!

E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12, 2).

A carta aos romanos é muito interessante porque nela são abordadas questões relativas à lei, para o povo de Roma, o centro do mundo político e cultural da época, sendo que naquela cidade havia o melhor da tecnologia de seu tempo.

O profeta também é um artista, da literatura religiosa, indicando em suas palavras eventos da Ordem (Cósmica).

Como nos diz a profecia de Daniel, e mesmo do Apocalipse, a Roma de hoje é o império do capital selvagem e sem controle (não que eu seja marxista ou comunista), a Besta, pelo que a mensagem bíblica ainda é atual, sendo a “arte” capitalista divulgada pelo império do dinheiro.

E ele continuou: ‘O quarto animal será um quarto reino sobre a terra, diferente de todos os reinos. Ele devorará a terra inteira, calcá-la-á aos pés e a esmagará. Quanto aos dez chifres: são dez reis que surgirão desse reino, e outro se levantará depois deles; este será diferente dos primeiros e abaterá três reis; proferirá insultos contra o Altíssimo e porá à prova os santos do Altíssimo; ele tentará mudar os tempos e a Lei, e os santos serão entregues em suas mãos por um tempo, dois tempos e metade de um tempo. Mas o tribunal dará audiência e o domínio lhe será arrebatado, destruído e reduzido a nada até o fim. E o reino e o império e as grandezas dos reinos sob todos os céus serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo. Seu império é um império eterno, e todos os impérios o servirão e lhe prestarão obediência’” (Dn 7, 23-27).

Hoje a Terra inteira está sob o domínio do imperialismo econômico, que vale para o ocidente e oriente, EUA, Rússia, China e países muçulmanos, e é o amor ao dinheiro a origem das guerras. A política é restrita à economia, e nos momentos de crise o egoísmo leva à ação armada. Toda guerra é econômica. Unido à Besta está o falso profeta, a ciência materialista, dando suporte ao Estado capitalista que beneficia uma minoria, declarando a morte de Deus, dizendo-se deusa.

A Besta que viste existia, mas não existe mais; está para subir do Abismo, mas caminha para a perdição. Os habitantes da terra, cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo, ficarão admirados ao ver a Besta, pois ela existia, não existe mais, mas reaparecerá. Aqui é necessário a inteligência que tem discernimento: as sete cabeças são sete montes sobre os quais a mulher está sentada. São também sete reis, dos quais cinco já caíram, um existe e o outro ainda não veio, mas quando vier deverá permanecer por pouco tempo. A Besta que existia e não existe mais é ela própria o oitavo e também um dos sete, mas caminha para a perdição. Os dez chifres que viste são dez reis que ainda não receberam um reino. Estes, porém, receberão autoridade como reis por uma hora apenas, juntamente com a Besta. Tais reis têm um só desígnio: entregar seu poder e autoridade à Besta” (Ap 17, 8-13).

Talvez já estejamos na chamada grande tribulação, a grande pressão.

Diz-se que toda geração se caracteriza como aquela que presenciará o fim dos tempos. Contudo, temos em nosso favor sinais que nenhuma outra geração teve, permitindo a identificação de nossos tempos com os derradeiros últimos dias.

O primeiro grande sinal é a simples existência do Estado de Israel, reconstituído em unidade de nação, que estava dividida desde o fim do reinado de Salomão, por volta do ano novecentos antes de Cristo. Em nenhuma geração anterior havia Estado de Israel. Quando o reino de Israel se dividiu, após Salomão, os profetas passaram a prever a sua reunificação, nos últimos dias, como um dos eventos ligados à era messiânica. Hoje, desde 1948, temos o Estado de Israel, fruto da ação messiânica de Jesus ao instaurar a universalidade dos direitos humanos.

Outro sinal é a Besta fazer cair fogo do céu. “Ela opera grandes maravilhas: até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens” (Ap 13, 13). Vejo esse fogo do céu como as bombas atômicas, lançadas pelos estados imperialistas. Não se tem notícia de fogo descendo do céu à vista dos homens em gerações anteriores, e a bomba atômica figura essa imagem perfeitamente.

E um dos sinais que mais me assustou foi a seca do rio Eufrates.

O sexto derramou sua taça sobre o grande rio Eufrates… E a água do rio secou, abrindo caminho aos reis do Oriente” (Ap 16, 12).

É possível ver na internet as imagens impressionantes da seca do rio Eufrates, fenômeno que desconheço ter acontecido anteriormente.

Assim, o Dia do Senhor está próximo. Já estava perto no tempo de Jesus, e hoje também, a cada dia mais iminente.

Quando começarem a acontecer essas coisas, erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação” (Lc 21, 29).

Vamos levantar a cabeça continuar dando amor às pessoas, pois Deus é Amor, não amor carnal, mas amor espiritual, que leva uma mãe a levar o filho à polícia para mostrar que roubar é errado, prendendo o corpo para libertar o espírito.

Um pai deve usar a verdadeira lei da palmada, incluída na arte da educação, no verdadeiro amor.

Quem poupa a vara odeia seu filho, aquele que o ama aplica a disciplina” (Pr 13, 24).

Podemos viver a Vida verdadeira, apesar da pressão do mundo, servindo a quem vence, o vencedor. Este mundo está provisoriamente vencendo, mas o Vencedor está a caminho, o Espírito de Deus, o Eterno Vencedor. Agora  vejo em parte, mas então veremos face a face.

Como diria Renato Russo, que também citou são Paulo, ambos artistas, na carta aos Coríntios, a Verdade está no amor, Deus é Amor:

“É só o amor, é só o amor;
Que conhece o que é verdade;
O amor é bom, não quer o mal;
Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse a língua dos homens
e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade;
Tão contrario a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem todos dormem, todos dormem;
Agora vejo em parte, mas então veremos face a face.
É só o amor, é só o amor;
Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse a língua dos homens
e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”

Arrebatamento e Parusia: o início formal do Reino de Deus

Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: ‘A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós’” (Lc 17, 20-21).

O Evangelho significa a boa notícia, a boa nova, e essa boa nova é a vinda do Reino de Deus, a consumação das promessas messiânicas, um período de paz, justiça e prosperidade na Terra, quando os homens adorarão em espírito e verdade o único Deus verdadeiro.

A simples presença de Jesus, Ungido pelo Espírito Santo, já representa a presença do Reino de Deus, “está no meio de vós”, quando o Espírito Santo habita no homem. Essa é a Encarnação, Deus vivendo entre os homens, e depois da assunção, ou elevação, de Jesus aos Céus, o Espírito foi derramado em pentecostes, permitindo uma conversão em massa ao cristianismo (At 2).

Naquele dia ocorreu um arrebatamento, assim como na conversão de São Paulo.

Arrebatamento, no dicionário Aurélio, significa “1. Ato ou efeito de arrebatar(-se). 2. Precipitação, excitação. 3. Fúria súbita; exaltação, irritação, ira. 4. Estado de quem se acha arrebatado (3); êxtase, enlevo, transporte, arroubo, arrebato”.

Portanto, arrebatamento tem vários significados, podendo indicar a mudança física de um lugar para outro ou a mudança psíquica, de estado de espírito.

Existe uma interpretação evangélica, exposta no livro “Deixados para trás”, e que também está no filme “Apocalipse” com Nicolas Cage, no sentido de que no arrebatamento as pessoas crentes e piedosas serão levadas em corpo para os céus, deixando na terra os demais.

Contudo, não vejo essa como a melhor visão do que relatam os textos bíblicos, que permitem ver o arrebatamento que antecede o pleno desenvolvimento do Reino de Deus na Terra, a Parusia, como Presença de Deus entre os homens, como um fenômeno psíquico espiritual, ainda que possa haver pontualmente algum arrebatamento físico mesmo, como nos casos de Elias e Enoque.

Conheço um homem em Cristo que, há quatorze anos, foi arrebatado ao terceiro céu — se em seu corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe! E sei que esse homem — se no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe! — foi arrebatado até o paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir” (2Co, 12, 2-4).

Essa passagem indica o arrebatamento e a volta da pessoa para contar que esteve no paraíso, não havendo indicação de tenha ficado por lá. O Evangelho trata da vinda do Reino de Deus, e não a nossa ida para os Céus. A política mundial se renderá à verdade científica do Monoteísmo, para adoração do único Deus.

É nesse sentido que vejo o arrebatamento descrito por são Paulo:

Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; em seguida nós, os vivos que estivermos lá, seremos arrebatados com eles nas nuvens para o encontro com o Senhor, nos ares. E assim, estaremos para sempre com o Senhor” (1Te 4, 16-17).

O arrebatamento indicará, assim, a Parusia, a presença do Cristo, do Espírito Santo, entre os homens, mas nem todos o receberão, apenas os que estiverem preparados, em harmonia com a vida santa exigida para que Espírito habite na humanidade.

“Ele aparecerá a segunda vez, com exclusão do pecado, àqueles que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9, 28).

Como nos dias de Noé, será a Vinda do Filho do Homem. Com efeito, como naqueles dias que precederam o dilúvio, estavam eles comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e não perceberam nada até que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na Vinda do Filho do Homem. E estarão dois homens no campo: um será tomado e o outro deixado. Estarão duas mulheres moendo no moinho: uma será tomada e a outra deixada. Vigiai, portanto, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse em que vigília viria o ladrão, vigiaria e não permitiria que sua casa fosse arrombada. Por isso, também vós, ficai preparados, porque o Filho do Homem virá numa hora que não pensais” (Mt 24, 37-44).

O Dia do Filho do Homem virá como um ladrão à noite, de repente, como surpresa para muitos, pelo que é preciso manter a vigilância e a oração.

A preparação para o Reino é como a imantação de uma substância, a alteração de suas qualidades físico-químicas para reagir ao campo eletromagnético. A vigília e a oração permitem reagir com o campo espiritual, e aqueles que estiverem prontos serão tomados, arrebatados pelo Espírito, sofrerão o salto quântico.

“Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos ansiosamente como Salvador o Senhor Jesus Cristo, que transfigurará nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso, pela força que lhe dá poder de submeter a si todas as coisas” (Fl 3, 20-21). Assim, o arrebatamento será como a transfiguração de Jesus no alto da montanha diante de Pedro, Tiago e João (Mt 17, 1-8).

Provavelmente tal fenômeno ocorrerá após um período de comoção mundial, para cumprimento da profecia de Ezequiel, descrevendo um ataque a Israel, depois da reunificação do reino, está já ocorrida em 1948 pelo Estabelecimento do Estado de Israel, unificação descrita no capítulo 37 de Ezequiel, há mais de dois mil e quinhentos anos, e já cumprida.

Sucederá naquele dia, em que Gog vier contra a terra de Israel, — oráculo do Senhor Iahweh — que a minha cólera transbordará. Na minha ira no meu ciúme, no ardor da minha indignação eu o digo. Com efeito, naquele dia haverá um grande tumulto na terra de Israel. Diante de mim tremerão os peixes do mar, as aves do céu, os animais do campo, todo réptil que rasteja sobre a terra e todo o homem que vive sobre a face da terra. Os montes serão arrasados, as rochas íngremes, bem como todos os muros ruirão por terra. Chamarei contra ele toda espada, oráculo do Senhor Iahweh; será a espada de todos contra todos. Castigá-lo-ei com a peste e o sangue; farei chover uma chuva torrencial, saraiva, fogo e enxofre sobre ele e as suas tropas e os muitos povos que vierem com ele. Eu me engrandecerei, me santificarei e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações e elas saberão que eu sou Iahweh” (Ex 38: 18-23).

Farei com que o meu nome santo seja conhecido no seio do meu povo Israel e não consentirei na profanação do meu santo nome. Então saberão as nações que eu sou Iahweh, santo em Israel. Certamente isto há de sobrevir, pois que está decidido, oráculo do Senhor Iahweh: Este é o dia de que falei” (Ez 39: 7-8).

Naquele dia, Iahweh protegerá o habitante de Jerusalém; naquele dia, mesmo o que tropeça entre eles será como Davi, a casa de Davi será como Deus, como o Anjo de Iahweh diante deles. E acontecerá, naquele dia, que eu procurarei destruir todas as nações que avançam contra Jerusalém. Derramarei sobre a casa de Davi e sobre todo habitante de Jerusalém um espírito de graça e de súplica, e eles olharão para mim. Quanto àquele que eles transpassaram, eles o lamentarão como se fosse a lamentação de um filho único; eles o chorarão como se chora sobre o primogênito. Naquele dia, será grande a lamentação em Jerusalém, como a lamentação de Adad-Remon, na planície de Meguidon” (Zc 12: 9-11).

Após esse dia, será estabelecida a paz entre as nações, quando o povo judeu se converter ao cristianismo, reconhecendo que Jesus Cristo é o Messias, o filho do Deus vivo, e quando os muçulmanos compreenderem a verdade do Alcorão, como confirmação da Torá e do Evangelho, e a superioridade profética de Jesus sobre Maomé, como consta no próprio livro árabe.

Antecedendo o Dia do Senhor haverá muita comoção e dificuldade na terra, talvez com o colapso definitivo do sistema financeiro mundial, suspenso provisoriamente pelos pontuais ajustes após a crise econômica de 2008. “O quinto derramou sua taça sobre o trono da Besta.. E o seu reino ficou em trevas: os homens mordiam a língua de dor, e blasfemaram contra o Deus do céu por causa de suas dores e úlceras. Mas não se converteram de sua conduta…” (Ap 16, 10-12). Mas quem assistiu ao filme “A Grande Aposta” (disponível no Netflix), especialmente as informações finais, perceberá que o problema econômico que gerou a crise de 2008 não foi solucionado.

Os muçulmanos também se converterão, pois o ataque a Jerusalém provavelmente será feito por nações que incluirão povos islâmicos, para que todas as nações entendam que existe um Único e mesmo Deus, chamado de Pai, mas também de Iahweh e Alá.

O Reino de Deus terá um governo humano, pois toda autoridade vem de Deus.

Cada um se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus” (Rm 13, 1-2).

Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como enviados seus para a punição dos malfeitores e para o louvor dos que fazem o bem, pois esta é a vontade de Deus que, fazendo o bem, tapeis a boca à ignorância dos insensatos” (1Pd 2, 13-15).

Nesse ponto os judeus e muçulmanos possuem melhor interpretação teológica sobre a ação de Deus entre os homens, no sentido de que a era messiânica, no Reino de Deus, contará um governo humano justo, em que os santos se sentarão em tronos para julgar as nações (Ap 20, 4).

Os eventos atuais nos indicam que o Dia está muito próximo, e até mesmo o governo de Israel se prepara para a guerra total – https://br.noticias.yahoo.com/israel-prev%C3%AA-ataques-1-500-foguetes-di%C3%A1rios-caso-164806906.html.

O Reino de Deus está próximo.

Maranatha. A graça do Senhor Jesus esteja convosco.

Nem tudo é permitido

Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Esta frase de Dostoiévski eu conheço apenas de citações, pois ainda não li a obra do citado autor, mas seu conteúdo é muito forte e verdadeiro. Ela também é citada no filme “Deus não está morto”, disponível na Netflix, que trata do embate entre um aluno cristão evangélico contra um professor de filosofia ateu, com uma bela mensagem.

Mas o fato é que Deus existe, há Razão, existe Cosmos, e assim nem tudo é permitido.

Este artigo é inspirado em postagem do sítio www.projetoomega.com, que tem uma visão da Bíblia próxima da minha, e tem contribuído para minha reflexão sobre o Evangelho, especialmente sobre os eventos políticos que estão se desenvolvendo no oriente médio, sobre a situação de Jerusalém, Israel e Síria, com suas conotações sobre a ordem jurídica internacional. O título foi o seguinte: “Após se casar com primogênito, mãe luta pela legalidade de seu ‘casamento’ com a outra filha”, e narra a história de uma mãe, que não criou os filhos, e se casou com um filho, o qual requereu depois a anulação do “casamento”, pelo que a mãe “casou” com a filha. Segue o link do Independent, em que foi baseada a informação http://www.independent.co.uk/news/world/americas/mother-who-married-son-faces-incest-charges-for-marrying-daughter-oklahoma-spann-us-a7231501.html.

Se Deus não existe, qual o limite?

O próximo fato bizarro poderá ser alguém alegando que deseja se “casar” com seu animal de estimação ou uma planta, ou até mesmo um robô, fundamentando-se na “dignidade” humana, pois se existe “amor” com o animal, a pessoa teria “o direito de ser feliz”.

Casamento é uma situação ontológica, a união de um homem e uma mulher, a figura de uma instituição humana destinada à estabilidade social e criação ordenada dos filhos de forma saudável, dando continuidade à humanidade.

O limite das coisas é o limite da razão, e se a coisa não é mais o que a delimita, então é outra coisa.

A grande artimanha do maligno, o Mentiroso, que inspira a falsa ciência, o falso profeta bíblico, é conseguir chamar coisas distintas com o mesmo nome, e assim fazer passar o ilícito por lícito.

O casamento é uma situação de integridade social, assim como a família. Nos últimos cinquenta anos, mais ou menos, a família ocidental se desestruturou. É certo que era necessário um pouco mais de liberdade e proximidade no trato familiar entre pais e filhos, mais amor e menos forma, mas mesmo assim família não deixa de ser hierarquia, como há hierarquia na sociedade. É o ministro do Supremo Tribunal Federal que reforma a decisão de um juiz de primeiro grau, e não o contrário, como regra. E aí é que está o ponto, toda regra tem exceção, mas o que vale é a regra, devendo a exceção se mostrar evidente, pela razão, como parte da regra, em sua condição excepcional, o que não afasta a existência da norma, do normal. O pai é humano e às vezes erra, mas não deixa de ser pai e não deixa de dever ser respeitado. Nós também erramos em nossa concepção humana de Deus, o que não faz Deus errado, mas nossa concepção sobre Ele. Se errarmos uma conta, a matemática não estará errada por isso. Quando não entendemos o Logos, Ele não deixa de Ser Logos.

O que entra em questão aqui é o conceito de “dignidade humana”, no sentido de definir se dignidade é um conceito individual ou coletivo. O mundo jurídico ocidental, baseado no individualismo que reina na sociedade, entende o homem como ser apenas individual. Mas o homem individual simplesmente não existe, não há Mogli na natureza, e se houver não será humano, não de fato, apenas com potencial de se tornar humano, pois humanidade é um conceito coletivo, e não individual.

Existe um normal, existe uma regra, existe ordem, existe Deus. Nem tudo é permitido.

O enigma da esfinge é definir o que é humanidade. O mesmo é o teor do aforismo grego “Conhece-te a ti mesmo”.

A humanidade é carne ou espírito?

Penso que o humano não é um “supermacaco”, mas Espírito vivente, a carne que se move por um Espírito, uma Razão, um Logos, que é universal. O animal é individual e o Espírito é coletivo, a razão é coletiva. O Logos é intersubjetivo, por natureza, por essência, esse é o Ser.

A queda de Adão nos transformou em “supermacacos”, com homens individuais e tribos isoladas, sem a plena humanidade, a coletividade de todos os humanos, e o resgate de Jesus Cristo nos alçou novamente à qualidade de filhos de Deus, de seres espirituais, com condição de acessar o Logos, a Inteligência do Todo, ao conceito de espécie humana.

A razão do supermacaco é a razão individual e egoísta, vale para sua satisfação pessoal, enquanto a razão humana é coletiva, é por natureza coerente e vale para todos.

É importante salientar que, tirando Jesus Cristo, todos nós estamos em transição, pelo que às vezes nos portamos como supermacacos, ora como filhos de Deus.

Agora, porém, independentemente da Lei, se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela Lei e pelos Profetas, justiça de Deus que opera pela fé em Jesus Cristo, em favor de todos os que creem — pois não há diferença, sendo que todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus — e são justificados gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus: Deus o expôs como instrumento de propiciação, por seu próprio sangue, mediante a fé” (Rm 3, 21-25).

Sabemos que a Lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto. Ora, se faço o que não quero, eu reconheço que a Lei é boa. Na realidade, não sou mais eu que pratico a ação, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7, 14-17).

Todos pecamos e estamos privados da glória de Deus, mas vez por outra nos comportamos como anjos do Céu, mensageiros da razão, profetas de Deus, alguns mais outros menos. Muita vezes é o pecado, o instinto animal e egoísta que age em nós; e se não soubermos que ele existe, nunca o controlaremos.

Daí a necessidade de sermos santos, integrais, expressão da razão coletiva: “Antes, como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos também vós santos em todo o vosso comportamento, porque está escrito: Sede santos, porque eu sou santo” (1Pd 1, 15-16). O apóstolo repetiu uma parte da Torá:

Iahweh falou a Moisés e disse: Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel. Tu lhes dirás: Sede santos, porque eu, Iahweh vosso Deus, sou santo. Cada um de vós respeitará sua mãe e seu pai. Guardai os meus sábados. Eu sou Iahweh vosso Deus” (Lv 19, 1-3).

Quando o pai desrespeita Deus, viola o Bom senso, viola a Razão, o filho não aprende esse mesmo Bom Senso, essa Razão, não conhece Deus, e então o filho não respeita o pai, o professor, ou qualquer outra autoridade, torna-se “marginal”. Essa é a experiência e a conclusão de qualquer magistrado da infância e da juventude.

Ser santo é ser saudável, integral, que não compromete a vitalidade, a organização, o desenvolvimento natural.

O problema do mundo moderno é que a doença se infiltrou de tal forma na sociedade, que é difícil reconhecer a sanidade, a santidade. Os profetas normalmente são tachados de loucos, pela divergência absurda entre sua Razão e aquela professada pela comunidade.

Nossa comunidade é o sapo na panela aquecida gradualmente. Segundo li em vários locais distintos (eu não faria isso com um animal), se colocarmos um sapo em uma panela com água fervendo, ele sente a mudança de temperatura e pula, salvando-se; mas se o colocarmos na água fria e esta for sendo aquecida até ferver, o sapo se acostuma com a temperatura e acaba não conseguindo depois sair da panela, e morre cozido.

Nossa sociedade está cozinhando a si mesma. Ainda há tempo para saltar para a Razão, mas em algum momento, ninguém sabe bem ao certo quando, só o Pai, será tarde demais…

Jesus e o jogo da Vida Eterna: verdade e consequência.

A vida, depois do nascimento humano, pode ser considerada um jogo de três fases, sendo a primeira a da plantação (preparação da semente e colocação na terra, a lavoura), a segunda a da colheita e a última a da destinação definitiva da produção.

Primeiro traçamos um objetivo, e então começamos a agir em vista desse fim, esperando atingi-lo. O alvo pode ser alcançado, ou não, dependendo de vários fatores, alguns pessoais, outros imponderáveis, tidos como variáveis ocultas além da incerteza, ou vontade de Deus. O resultado pode ser o previsto, como podem ocorrer surpresas negativas ou positivas.

O alvo pode ser chamado de meta, palavra de origem grega que significa “atrás”, “depois”. E o que está atrás, depois, é o que não se vê, pelo que é necessário acreditar que esse algo existe, ter fé. A ciência tem fé que por trás dos fenômenos existam leis.

Richard Feynman diz que a ciência deve afirmar verdades sobre questões não conhecidas, como na fé, o que coloca a ciência no mesmo patamar da religião.

Se as únicas leis são aquelas que decorrem de observações realizadas, não podemos fazer previsões. Mas a ciência só avança se fizer previsões, arriscando-se. (…) Temos de supor que as leis continuam valendo fora do domínio da observação. Não há problema nisso, exceto o fato de tornar a ciência um pouco incerta. Se você pensa que a ciência é feita só de certezas, está enganado” (In Sobre as leis da física. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2012, pp. 82-83).

Portanto, o jogo da vida é pautado por fé e obras, ou seja, ações atuais com base na fé de que haverá um futuro, se mantidas as regras do jogo. Assim, ao contrário do que o leigo acredita, a ciência é baseada na fé, na crença em uma ordem, uma lei de regência do cosmos.

Saliente-se que o agora, quando feita a previsão ou estabelecido o objetivo, é movimento e o futuro também, pois não existe na natureza o estático absoluto, o zero Kelvin, ou zero absoluto. Como diz Bohm, vivemos no holomovimento, em que toda abstração ou medição é arbitrária.

Conforme a visão adotada por Louis de Broglie, pela teoria de dualidade onda-corpúsculo da matéria, todas as coisas são campo e partícula, ou onda e partícula, não só os elétrons, mas também as pessoas, tudo curva o espaço-tempo além de seus limites aparentes.

Assim, não somos só corpo, e encerrada a vida particular, nosso campo irá se propagar, provavelmente em espiral para dentro ou para fora, em singularidade interna, como o buraco negro, ou externa, como o próprio cosmos.

No momento da morte, se a pessoa estiver preocupada consigo, o fim é encerramento da onda da pessoa em um mini buraco negro, isolada do resto.

As pessoas podem passar a vida a olhar para o espelho, vendo o demônio em si-mesmas sem perceber, ou para o céu estrelado, contemplando Deus, e quando a vida terminar, o destino é fatal, a inércia da alma está decidida. Por isso é bom e necessário sabermos da verdade.

Eis o que é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus, que se deu em resgate por todos. Este é o testemunho dado nos tempos estabelecidos e para o qual eu fui designado pregador e apóstolo — digo a verdade, não minto — doutor das nações na fé e na verdade” (1Tm 2, 3-7).

No jogo da vida, a terceira fase, decorrente de uma vida santa, é a vida eterna, com a graça de Deus, pois nem tudo acaba com a morte, e neste mundo deixamos inicialmente nossa memória.

Alguns não entendem a segunda e a terceira fases do jogo da vida, que podem ultrapassar o seu horizonte de eventos, o seu horizonte interpretativo material, ou tempo individual de vida.

A primeira fase é a da semente, que nem sempre brota aos olhos de quem plantou, às vezes são necessárias gerações para germinação, como está ocorrendo com os efeitos messiânicos da atividade de Jesus. Ou seja, nem sempre vemos todos os resultados de nossas ações, pois ainda vale a desordem do mundo, mas na era messiânica, de equilíbrio humanitário, a Justiça será visível e rápida, quem plantar vai colher.

Iahweh jurou pela sua destra e pelo seu braço vigoroso: ‘Não tornarei a dar o teu trigo como alimento aos teus inimigos, nem os estrangeiros tornarão a beber do teu vinho, aquele com que tu te afadigaste. Antes, aqueles que ceifaram o trigo o comerão, louvando Iahweh, aqueles que fizeram a vindima beberão o vinho nos meus átrios sagrados’” (Is 62, 8-9).

Já não haverá ali criancinhas que vivam apenas alguns dias, nem velho que não complete a sua idade; com efeito, o menino morrerá com cem anos; o pecador só será amaldiçoado aos cem anos. Os homens construirão casas e as habitarão, plantarão videiras e comerão os seus frutos. Já não construirão para que outro habite a sua casa, não plantarão para que outro coma o fruto, pois a duração da vida do meu povo será como os dias de uma árvore, os meus eleitos consumirão eles mesmos o fruto do trabalho das suas mãos. Não se fatigarão inutilmente, nem gerarão filhos para a desgraça; porque constituirão a raça dos benditos de Iahweh, juntamente, com os seus descendentes. Acontecerá então que antes de me invocarem, eu já lhes terei respondido; enquanto ainda estiverem falando, eu já os terei atendido. O lobo e o cordeiro pastarão juntos e o leão comerá feno como o boi. Quanto à serpente, o pó será o seu alimento. Não se fará mal nem violência em todo o meu monte santo, diz Iahweh” (Is 65, 20-25).

Desse modo, o problema da maioria das pessoas é o desconhecimento das regras do jogo da vida, pois apenas algumas são visíveis e palpáveis, como nos diz a ciência moderna, pela relatividade e orgânica quântica, sendo necessária muita abstração e inteligência para a compreensão do todo, do quadro maior, do contexto mais amplo, ou é necessária fé para isso. É preciso, para entender essas regras, desapego corporal, como nos diz o budismo, ou fé em Deus, como Realidade Espiritual, que inclui a vida material, nos termos do monoteísmo.

Uma das regras do jogo é o livre-arbítrio, que é respeitado por Deus, de modo que Ele não quer máquinas ou autômatos inconscientes, mas servos voluntários da Lei da Liberdade, que a todos beneficia, a alguns com algum proveito material momentâneo e a outros com a vida eterna, segundo a opção pessoal de cada um, o que é destacado também no Alcorão. A liberdade permite uma escolha de uma razão material ou espiritual, de um centro de gravidade para a vida, a lei da parte ou a Lei do Todo.

Daí porque o problema do mal é um problema decorrente da liberdade humana, a liberdade de aderir a uma razão material, que apenas entende o bem e o mal temporários, relativos aos sofrimentos ou prazeres deste mundo provisório (como destaca o bóson de Higgs nosso mundo está em transição); ou optar por uma metafísica da eternidade, em que os efeitos de nossos atos transcendem a mundidade e alcançam a singularidade cosmológica, além do espaço-tempo, para o bem coletivo. A paz de Espírito é um sentimento incomunicável e incomensurável, somente pode ser alcançada individualmente, mas seguindo o Caminho, a Verdade e a Vida, Jesus Cristo.

Deixo-vos a paz, minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide vosso coração” (Jo 14, 27).

A Paz de Cristo é espiritual, e não material, é alegria, e não prazer.

A liberdade pode levar ao cosmos, a harmonia celeste, o horizonte espiritual; ou ao egoísmo completo, o buraco negro, além do horizonte de eventos, além da possibilidade de uma fusão de horizontes interpretativos, uma razão particular ininteligível.

A origem do mal, historicamente, assim como a da humanidade, em termos concretos, tipificada na pessoa de Adão, está, por ora, além de nossa arqueologia histórica, mas não além de nossa capacidade intelectiva, pelo Logos; ainda que o horizonte material de eventos seja limitado, o horizonte espiritual não tem barreiras.

O mal é, como o bem, uma categoria humana de valor, e nós somos os autores de juízos de valor morais e também, embora somente em grau limitado, daqueles fatos que são submetidos ao julgamento moral” (Carl Gustav Jung. In AION – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 44). Desse modo, não podemos julgar Deus pelos fatos deste mundo, que entendemos como maus, segundo nossa percepção material e limitada. O mal que existe para nós é o mal criado pela humanidade. Os demais eventos estão além de nossa compreensão, e não podem ser taxados bons ou maus, pois transcendem nossa categoria humana.

No jogo da vida, Jesus é o jogador perfeito, pois segue perfeitamente a norma perfeita, na medida que sua ação resgata a eternidade do Logos, da Lei, agindo assim na mente humana, restaurando a eternidade do Espírito, após a queda de Adão, abrindo novamente para nós o âmbito da causalidade vertical, além da irracionalidade deste mundo.

Causalidade Vertical é o termo adotado por Wolfgang Smith (In O Enigma Quântico: Desvendando a Chave Oculta. Trad. Raphael de Paola. Campinas, SP: Vide Editoral, 2011, capítulo VI), tentando explicar o colapso do vetor de estado, ou colapso da função de onda, que intriga os físicos. Smith sustenta que essa causalidade transcende os limites do tempo, relativa à dimensão espiritual da vida humana, citando ele o exemplo da arte. “O que está em jogo na autêntica arte é verdadeiramente uma imitatio Dei: o artista humano ‘toma parte’, em algum grau, no prodígio criador da Causa Primeira: ‘Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nem uma coisa foi feita’ (Jo 1, 3)” (Op. cit p. 196).

Não há registro histórico material da queda de Adão além da tradição religiosa, o que não quer dizer que tal fenômeno não tenha ocorrido, sendo a disfunção da ideia humana material, separada da natureza, separada do cosmos, um indício, uma evidência, desse fato.

O jogo de Jesus é um jogo coletivo, dentro das normas sociais, e ele venceu esse jogo, tanto quanto à norma social humana, ditada por Roma, quando submeteu-se pacificamente à crucificação, mesmo não sendo criminoso, quanto à norma social divina, aceitando a acusação injusta formulada contra ele pelo sinédrio, o tribunal religioso e político da nação judaica, que estava preocupada com as ocupações materiais do templo, em detrimento da justiça, pois não era blasfemo, isso tudo para cumprimento das profecias messiânicas e da Lei. Suas ações ultrapassaram Sua Vida corporal, e o termo civilidade, no mundo ocidental, decorre dos ensinamentos de Jesus, ainda que não sejamos assim tão civilizados.

Praticar a justiça e o direito vale mais para Iahweh que os sacrifícios” (Pr 21, 3).

Não tenho prazer algum em vós, disse Iahweh dos Exércitos, e não me agrada a oferenda de vossas mãos” (Ml 1, 10).

O jogo da vida é de verdade e consequência, porque vivemos simbolicamente em um mundo causal, em que uma coisa gera outra, e a ciência é a busca pela causa dos fenômenos. Se causa for corretamente entendida, verdadeira, o efeito, a consequência, será necessário. A regra do jogo da vida é a causalidade.

Pilatos lhe disse: ‘Então, tu és rei?’ Respondeu Jesus: ‘Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz’” (Jo 18, 37).

Jesus veio restabelecer a verdade, corrompida pelo pecado de Adão, ao comer o fruto do conhecimento do bem e do mal.

O conhecimento do bem e do mal é o conhecimento da causalidade material, limitada pela velocidade da luz, que é o mais rápido que uma informação pode ser materialmente trocada. Segundo o entendimento da relatividade de Einstein, nada pode ser feito, nada pode ser causado, acima da velocidade da luz; além disso, para a luz não há causalidade, na medida em que a troca de informação na velocidade da luz é instantânea, na perspectiva da própria luz.

Assim, Lúcifer, que está limitado à velocidade da luz, influenciou o homem, cujo pensamento transcende a velocidade da luz, por ser imaterial (ou de uma matéria/energia que não está restrita à velocidade da luz), a antecipar o seu conhecimento do bem e do mal, ou seja, à causalidade, aos efeitos de suas ações sobre o meio em que vivia, sobre a natureza.

Desse modo, o homem ficou preso à causalidade material, sendo que apenas o pensamento, por ser mais rápido que a luz, pode perceber a causalidade, na medida em que se conecta ao Todo atemporal. Mas a mente humana ficou presa à matéria e à velocidade da luz, presa a Lúcifer, esquecendo sua natureza divina, santa, e a possibilidade de um pensamento atemporal, integral. Os filhos de Adão, após a queda, ficaram com a mente partida, separada de Deus, limitada à causalidade do espaço-tempo finito, e hoje o mundo jaz nessa perspectiva limitada, que é maligna, impedindo a plenitude da vida.

Nós sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca; o Gerado por Deus o guarda e o Maligno não o pode atingir. Nós sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno. Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a inteligência para conhecermos o Verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, no seu Filho Jesus Cristo. Este é o Deus verdadeiro e a Vida eterna. Filhinhos, guardai-vos dos ídolos…” (1Jo 5, 18-21).

Jesus Cristo transcendeu a causalidade material, atingindo a Ideia, o Espírito Absoluto, o pensamento integral, como a verdadeira realidade, ou seja, o pensamento separado é a causa do mal. Diabo significa o que desune, causa separação. A Ideia é responsável pela causalidade vertical, válida na orgânica quântica, a qual está além da relatividade einsteniana.

A causalidade do Todo traz consigo a significação do Todo, transferindo sentido além do espaço-tempo, além da matéria, além da parte, liga-se ao Logos.

Ao superar a vida instintiva, o homem, Adão, criou uma nova possibilidade de ação, um novo tempo, que não existia na natureza, guiada pela velocidade da luz e pelo instinto, até então pela inconsciência.

Com a transcendência da velocidade da luz, o homem atingiu o nível da causalidade, da conexão entre os eventos, que na vida instintiva ocorrem automática e instantaneamente. Os animais não têm a noção de tempo como nós.

Adão se antecipou, e comeu o fruto antes da hora, sem a consciência adequada, e por isso o pensamento ficou preso à matéria, transformou-se em pensamento material, ligado à causalidade material, horizontal, e atingiu uma automaticidade causal, pelo egoísmo, pelo instinto de razão própria, as causas e efeitos pessoais, locais.

Jesus retomou o controle do pensamento em favor da razão social, o restabelecimento da ordem em que o homem volta à Vida, à natureza completa, em sua evolução coletiva e integral, o ciclo global da vida, além do ciclo individual. O ciclo do alfa ao ômega, em sentido total, do início ao fim, conscientemente, pelo Logos, conforme o movimento pleno da vida, o holomovimento.

Causalidade é troca de informação, fótons ou elétrons, e para haver troca é necessária uma inteligência anterior, superior, o Logos, que permite essa troca, o câmbio, a conversão comum de coisas distintas.

O elo que traduz a informação, permitindo a troca, é o Logos, que é a Unidade do Todo, e torna possível a conversibilidade da informação, da troca.

O Logos estava no princípio, na singularidade inicial, antes que pudesse fazer sentido a relatividade de Einstein, e continua dando Unidade ao Cosmos, além do espaço-tempo, além da matéria.

O Logos é o tradutor universal, e dá significado à causalidade, além da velocidade da luz, além do espaço-tempo, na eternidade do Todo, dá o sentido do holomovimento, na inércia do Todo depois de criado, na vontade de Deus, o Criador do movimento. Já dizia o poeta: “Tudo que move é sagrado”.

Adão substituiu a causalidade do todo inconsciente pela causalidade da parte consciente, egoísta, o conhecimento do bem e do mal, tendo Jesus restaurado a causalidade do Todo, conscientemente. Jesus significa “Deus Salva”. Deus é o Todo, e mais que o Todo.

Hegel entendeu, no âmbito da filosofia, o que significou a salvação levada a efeito por Jesus, mas a comunidade, a igreja, a ekklesia, ainda não incorporou Seu Espírito:

Mas o que nela (na consciência da comunidade) entra como presente, como o lado da imediatez e do ser-aí, é o mundo, que ainda tem de aguardar sua transfiguração. Certamente em si, o mundo está reconciliado com a essência; e da essência, sabe-se bem que não conhece mais o objeto como alienado de si, mas como igual a si no seu amor. Mas, para a consciência-de-si, essa presença imediata não tem ainda figura-de-espírito. Assim está o espírito da comunidade, em sua consciência imediata, separado de sua consciência religiosa, que na verdade declara que essas consciências não estão separadas em si. Mas é um Em-si que não se realizou, ou que ainda não se tornou igualmente ser-para-si absoluto” (In Fenomenologia do espírito. Trad. Paulo Meneses. 8 ed. Petrópolis, RJ: Vozes: Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2013, p. 516).

A salvação já ocorreu na ideia, mas o mundo, a sociedade religiosa, espera a Parusia, a presença divina de Deus entre/em nós, por meio da transfiguração do mundo. Mas essa transfiguração depende do arrependimento, da mudança da vida comunitária, de modo que a presença de Deus no mundo se faça por meio de nós, usando de nossa liberdade para sermos servos do Senhor, de Deus, do Todo, submissos, muçulmanos. Deus tem que passar de fora para dentro do homem, como motor das ações humanas, para que o Espírito Santo aja em nós.

A Parusia não se confunde com o Juízo Final, pois aquela corresponde à efetivação do Reino de Deus, quando todas as coisas serão restauradas na humanidade, pela humanidade, com a presença do Espírito de Deus no coração dos homens, e somente após a restauração, quando a consciência for estabelecida no nível mundial coletivo, virá o Juízo. Deus é justo, e não fará um Julgamento de pessoas inconscientes e desinformadas, ele permitirá a adesão voluntária de todos ao Seu Reino, na Parusia, e somente depois disso fará o Seu Justo Julgamento, por meio Cristo, após o milênio, período este no qual o enganador, Satanás, será aprisionado (Ap 20, 2; 7-15). A humanidade viverá a verdadeira ciência, o monoteísmo cristão, sem enganação.

A causalidade da parte, ou casualidade horizontal, é material, local e limitada à velocidade da luz, enquanto a causalidade do Todo, ou causalidade vertical, é imaterial, não local, não tendo limitação no espaço-tempo.

A causalidade vertical é causalidade própria, a exteriorização de si-mesmo, o centro virtual do inconsciente coletivo, virtual pois está em toda parte, enquanto a causalidade horizontal é alienada de um sentido maior. O jogo da vida é o jogo da causalidade própria, em que cada um deve exteriorizar o seu centro, que seja compatível com o Logos, o sentido coletivo.

O jogo da vida é simbólico, e o nomeador, ou normatizador, conforme Platão no Crátilo, o colocador dos nomes, o que dá nome e significado aos símbolos, às coisas, aos fenômenos, quem conta a História verdadeira, é quem usa todas as palavras coerentemente, o filósofo, pelo Logos. Quem pode dar nome às coisas é aquele que põe nome em todas as coisas de forma lógica, o Cristo, o Ungido com o Espírito.

A causalidade horizontal está fora da eternidade, pressupõe uma divisão, um limite. A divisão cartesiana é um limite, e a filosofia deve jogar o jogo simbólico com todas as palavras, todos os símbolos, sempre que possível respeitando os seus primeiros significados.

O pecado original é a separação do todo, a vida apenas com causalidade horizontal e material. Após Adão, essa passou a ser a forma da causalidade humana.

Jesus restaurou a unidade intelectual de todas as coisas, o Logos, vivendo a causalidade vertical, do Todo, e foi salvo por Deus, ressuscitando primeiro, como recompensa por sua vida digna e santa. Assim, toda a vida de Jesus foi sem o pecado original; por ser judeu, viveu o que então era o monoteísmo verdadeiro, a Lei do Todo, na plenitude dos tempos, quando sua mensagem poderia ser globalizada, no período romano, sendo sua mensagem ao longo dos tempos incorporada ao direito romano, tornando-se universal, pela melhor interpretação do constitucionalismo moderno.

E essa ideia permitiu, como um dos efeitos de sua Vida, a restauração do Estado de Israel, cumprindo uma das funções do Messias, através da causalidade vertical, do sentido total da história.

Ainda que cada pessoa seja singular e cada evento um fenômeno único, incomensurável, com o Logos é possível a universalidade, a comunicação, que depende do contexto e das variáveis ocultas, a boa-fé/má-fé dos participantes, sua honestidade/desonestidade, no discurso, em relação à pragmática. O monoteísmo autêntico é honesto, e deve superar as diferenças entre judeus, muçulmanos e cristãos, para a unidade da fé e adoração do Deus Verdadeiro, o Logos, pelo Logos.

A luz indica um eterno presente para si, o mesmo podendo ser dito da vida instintiva, em que não há sujeito ou objeto, mas instinto. Com Cristo, o tempo também se altera, para a eternidade do movimento, pela fluência da lei, no Reino de Deus, o tempo individual se transforma em coletivo, o sujeito se transforma em objeto do Sujeito, da Lei, torna-se servo e, assim, senhor, em uma unidade ontológica com o Cosmos.

Cada um de nós pode escolher em qual singularidade terminará sua existência, no buraco negro do isolamento, a eternidade solitária, ou no cosmos em permanente expansão, a eternidade da vida coletiva e plena.

A Verdade de nossa existência, egoísta ou solidária, define a consequência de nossas ações, para nós mesmos, na eternidade, de vida ou de morte, a última fase do jogo da vida.