Transcendência imanente

A transcendência é a qualidade de alguma coisa ou alguém que está além de uma referência. Tudo que transcende, transcende algo, pelo que esse algo é imanente àquilo que o transcende, até mesmo para permitir a identificação e qualificação da própria transcendência, a qual é relativa àquilo por ela transcendido. Assim, o conceito de transcendência está ligado ao de imanência, e ambos se situam no âmbito filosófico ou metafísico, e teológico, como a questão da transcendência e/ou imanência de Deus em relação ao mundo.

Nesse sentido, podemos entender a metafísica como o estudo da transcendência imanente das coisas e fenômenos, da sua conexão funcional e lógica com o Todo, que é imanente e transcendente às partes que O compõem, e com o Logos.

Toda imanência, pois, é transcendente, como já indicava Platão e seu mundo das ideias, mas não se pode considerar a realidade apenas como transcendente, mas como transcendência imanente. Nessa linha, no âmbito da linguagem, o enunciado procura a transcendência da quaestio mais imanente à coisa, mostrando o ser da coisa em símbolo, que transcende a coisa, a ela se ligando.

No âmbito Cristão, Santo Agostinho, com suas duas cidades, separou a imanência da transcendência, afastou o Criador da criatura no âmbito político, o que implicou na negação da realização imanente do Reino de Deus, contrariando a essência política e histórica do Evangelho. Hoje vivemos o efeito dessa separação, a Besta, como cidade dos homens em que está vetada ideologicamente a correta hermenêutica da realidade estatal como entidade religiosa, adotando ignorantemente a concepção laica, leiga ou acientífica e amoral do Estado.

Toda metafísica se liga a uma causa primeira, a um pressuposto racional. Sabendo ou não, as pessoas sempre estão adorando um deus, uma causa primeira. O deus moderno é a independência, a separação, a redução, o reducionismo, a autonomia das pessoas, num materialismo caótico.

O ponto de partida, o primeiro princípio, a causa primeira, pode ser “eu” ou “o outro”, que leva a um início ativo ou passivo da compreensão de mundo. O materialismo do “eu” tenta dominar o mundo a partir da separação ativa da pessoa em relação aos demais, tornando o mundo imanente ao “eu”. Deus, como princípio “outro”, por sua vez, permite que o primeiro princípio também seja “eu”, desde que no Logos, caso em que “eu” e “o outro” somos um, como ensina Jesus Cristo. O Criador permite a criação da/pela criatura pelo Logos.

Pela metafísica Cristã, a pessoa se aceita como criada por Deus, sendo grata por isso, daí o primeiro mandamento: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”. Assim, o Cristão renuncia à sua autonomia, reconhecendo a autoridade do Deus transcendente e imanente, conhecendo-o, entendendo-o. A partir daí, respeitado Logos, poderá agir sobre o mundo, que é imanente a Deus, desde que obedecido o segundo mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. A onipresença de Deus O torna imanente ao mundo e a nós, como templos de Seu Espírito, que tudo transcende, pois Deus está em tudo, mas por nada é limitado.

O pressuposto racional normalmente é oculto no âmbito científico, como ocorre com o reducionismo e a separabilidade (pressuposta e falsa) dos fenômenos. Para o aprofundamento dos estudos científicos, os pressupostos são simplesmente aceitos, e o problema da ciência atual é seu pressuposto equivocado da separabilidade das coisas, que leva à fragmentação do conhecimento e à perda de sentido cósmico. Como entende David Bohm, a visão fragmentada do mundo leva a uma tendência à divisão e exclusão, inclusive social, o que fica evidente pela análise do noticiário.

A ciência, e todo conhecimento, é transcendente, pois conhecedor e conhecido estão um além do outro e ainda assim formam uma unidade. Portanto, a visão reducionista de mundo se torna anticientífica, porque perde o contexto da realidade, perde a unidade dos fenômenos, afasta-se do Logos e do verdadeiro conhecimento.

Essa é a ideia da pregação evangélica: “para que sejam confortados os seus corações, unidos no amor, e para que eles cheguem à riqueza da plenitude do entendimento e à compreensão do mistério de Deus, no qual se acham escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento!” (Cl 2, 2-3). Cristo, como Espírito Santo que habita no homem, é a Unidade, é Espiritual, é transcendente, ainda que imanente, unindo os fenômenos, aparentemente isolados, em um mesmo Logos. É preciso deixar a partícula, o egoísmo, e aceitar a onda e sua “incerteza”, reconhecer o controle do mundo por Deus, pelo Logos, pela Providência, pois sem esta nem mesmo haveria universo.

Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas especulações da ‘filosofia’, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo” (Cl 2, 8). Isso fica bem claro pelo materialismo do mundo, e pelo reducionismo da atual concepção científica, que não entende matéria, e não compreende o mundo, iludindo até os próprios cientistas. A ciência contemporânea se baseia em filosofia vã e enganosa.

Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade e nele fostes levados à plenitude. Ele é a Cabeça de todo Principado e de toda Autoridade” (Cl 2, 9-10). Em Jesus Cristo, o Espírito de Deus, da Plenitude, manifestou-se aos homens, em suas ações corporais, mostrando a autoridade divina, em sua transcendência imanente, que está além da pessoa de Jesus Cristo, mas que se tornou presente em sua vida e, especialmente, em sua ressurreição, sendo esta uma prova definitiva da realidade transcendente do Espírito.

Nele fostes circuncidados, por uma circuncisão não feita por mão de homem, mas pelo desvestimento da vossa natureza carnal: essa é a circuncisão de Cristo” (Cl 2, 11). Para se alcançar a plenitude da vida é preciso o despojamento corporal, ou seja, viver no corpo não apenas para o corpo, mas segundo o Espírito, o Logos, que é coletivo e solidário.

Este artigo teve sua inspiração em um texto que abordou negativamente a metafísica clássica, negando a ideia ontoteológica, sobre uma discussão acerca da natureza de Deus (http://www.conjur.com.br/2017-set-09/diario-classe-mesmo-lei-seja-clara-sempre-cabeum-enunciado-bingo). E por mais que eu reconheça a boa-fé dos autores do texto, percebo que a boa-fé não é suficiente, existindo aquele ditado: “de boas intenções o inferno está cheio”. A boa intenção, a boa-fé, de outro lado, pode até permitir a salvação individual, o que penso ocorrerá com os citados articulistas. Mas o que salva a coletividade é a boa fé, a boa ciência, a boa religião, que leva à Verdade objetiva, ao Logos, que é o Cristianismo de Jesus Cristo, o Messias judeu, com sua ação política e jurídica, na comunidade pública, e não o que se entende como cristianismo pela cristandade.

Portanto, ao contrário do que constou no citado artigo, a ontoteologia é sempre presente, ainda que a fusão ontoteológica da Grécia com o Cristianismo esteja errada, a partir dos dogmas do quarto século e da teologia agostiniana.

Espinosa também não está com a razão, pois ainda que Deus esteja na natureza, o imanente não contém o transcendente, mas está contido neste, uma vez que é o transcendente que contém o imanente. Portanto, o reducionismo científico está equivocado, como não estão corretos o transcendentalismo de Agostinho e o panteísmo imanentista de Espinosa.

Assim, o erro metafísico é geral e pressuposto, anteposto, e daí a dificuldade de percebê-lo.

Como nos ensinou Jesus Cristo, o mensageiro altera e influi na mensagem. A mensagem religiosa, filosófica, deve ser não apenas transmitida, como também vivida, seguindo o exemplo do Mestre, o Caminho, que mostra a Verdade e revela a Vida, por sua vida.

E o Cristianismo, como religião jurídica, nesse sentido, exige a prática da Lei, demanda a obediência ao Logos.

O direito como forma, como norma amoral, exclui seu conteúdo e perde seu contexto, e Direito é conteúdo. A forma é um instrumento para tornar inteligível o conteúdo da Justiça. Direito é Justiça e Razão, é Logos, racionalidade coletiva, imanente e transcendente, é prática de vida, e modelo de vida, conforme os bons exemplos cristãos, que servem de precedentes, para o melhor que humanidade já viu e pode ver, inclusive em matéria de ideias políticas e jurídicas.

Juridicamente, o precedente é transcendente, como a jurisprudência que transcende o caso, servindo de precedente para outros julgamentos.

Julgar é medir, e medir é usar uma régua, um parâmetro, uma razão, transcendente ao que é julgado. A medida de Jesus é transcendente e imanente no comportamento do Cristão, como Espírito que observa e altera a realidade.

O observador é transcendente, mas a observação é imanente. Como concluiu a física moderna, observar é interagir.

Assim, a ação e o julgamento transformam a norma transcendente em norma imanente, por meio do julgador, quando este, observando a causa, no ato do julgamento, que se inicia no primeiro contato com a demanda, e continua durante toda a atividade do observador com a quaestio iuris, conduzindo a imanência do processo pela transcendência do Logos, que antecede a análise da causa, pelo mundo da vida jurídico, incluindo a Constituição e as leis, torna-se presente no seu julgamento, pela sentença, e que permanece vinculando a questão durante a vida dos envolvidos.

Jesus Cristo, como medida da humanidade, e, portanto, como nosso julgador, presente em nós como Logos que, do mesmo modo, nos transcende, e nos antecede, acompanha nosso desenvolvimento pessoal enquanto humanos e seres racionais, e permanece além de nossas vidas, como Logos, em sua transcendência imanente.

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