As categorias na vida social

Continuo neste texto a proposta do artigo anterior, no sentido de que a encarnação é a categoria científica fundamental, significando a verificação da correspondência entre ideia e realidade, entre forma e matéria, e de que a ideia de encarnação do Logos pode levar a um novo entendimento de paradigma hilomórfico, mais adequado do que o aristotélico, porque dentro da concepção monoteísta de mundo, na compreensão de que a encarnação do Logos ocorre em nós, na humanidade, a partir do Método Cristo, como Ciência.

Tal proposta é relativamente pacífica na ciência física, em que a forma é matemática, a qual condiciona a apreensão intelectual da realidade, por meio de equações, estatísticas e gráficos, como formas segundo as quais são descritos os movimentos dos corpos.

Usemos, assim, inicialmente, os conceitos de corpo, alma e espírito. O corpo é aquilo que está no tempo e no espaço, é a única coisa que existe para os materialistas, em relação ao qual a relatividade de Einstein proporcionou um conhecimento muito aprofundado. Alma e espírito, por sua vez, são ideias mais sutis, de difícil compreensão, às vezes confusas, referindo-se a epifenômenos do mundo corporal, segundo os materialistas; ou à realidade mais profunda, conforme o conhecimento religioso tradicional.

O corpo é algo que pode ser movido, permitindo-se entender que a alma é o movimento em si, e o espírito é o sentido do movimento. Enquanto vivos, somos corpo com movimento próprio, espírito encarnado. Assim, o espírito é a causa da alma, que é o movimento de um corpo específico. Mas esses conceitos têm função meramente ilustrativa, dada a necessidade de superação das categorias cartesianas, para que seja transcendida a individualidade dessas categorias, de modo que tenhamos acesso ao conhecimento da realidade em si, que são as coisas no contexto da totalidade, da unidade, do Logos.

A ciência moderna tem comprovado o conhecimento que o Monoteísmo já possuía, e que foi expresso após sua consumação em Cristo, pelas palavras atribuídas a Paulo:

Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4, 4-6).

A existência de um só Corpo é uma interpretação direta da relatividade, que une espaço e tempo numa só realidade, porque cada parte do espaço-tempo está interligada a todo o universo físico por meio das partes adjacentes desse mesmo espaço-tempo, que não é propriamente sólido, como indicam as ondas gravitacionais e a conversibilidade entre matéria e energia.

Contudo, falta-nos entender o Espírito, o sentido do movimento cósmico, que não está localizado em alguma parte do espaço-tempo, sendo uma realidade difusa que perpassa todo universo, independentemente da distância espacial ou temporal, que de algum modo está além do espaço-tempo, falta-nos entender a realidade quântica em sua não localidade, que há um só Espírito.

Para isso, é necessário voltar à ideia de encarnação como categoria científica fundamental, de modo que cada corpo está associado a um movimento, que tem um sentido, havendo uma direção comum, um Espírito, que está na origem de todos os corpos e todos os movimentos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos.

Assim, diversamente do que pensam os materialistas, os corpos não se movem por si mesmos e nem para si mesmos, ao contrário, são movidos por espírito, podendo o movimento, a alma, estar sob influência de um espírito parcial ou local, de racionalidade incompleta, desvinculada do Espírito de unidade; ou conforme este, pelo Logos. Todo corpo individual é o desmembramento de um corpo maior, sendo o movimento inicial daquele dependente da sua específica posição espaço-temporal, no corpo maior, enquanto seu movimento final será consequência tanto de suas ações pessoais quanto dos efeitos sofridos do meio em que inserido, do corpo maior.

Para o materialista, os humanos são autômatos de alta complexidade, são corporalmente determinados e não possuem liberdade, não há livre-arbítrio, pois tudo o que existe é o corpo, com todas as ações e reações sendo determinadas quimicamente, sendo as ideias meros simbolismos materiais, de intrincadíssima compreensão, associadas a corpos maiores ou menores, o que vale, por exemplo, para um animal, uma pessoa, um grupo social, uma nação, a humanidade etc.

Assim, o pensamento é voltado a esse corpo, com sua ideia, seu espírito, que determina a ação da pessoa, é a causa de seu movimento, sua alma, provocando suas ações corporais. O materialista encarna, portanto, uma determinada ideia ou espírito de pessoa, ser humano e humanidade, com sua limitação espaço-temporal.

Para o religioso, para o Cristão, em especial, a humanidade é o templo de Deus, porque possuímos espírito, algo que está além da realidade corporal, somos templos do Espírito de Deus, porque a vida que possuímos não é algo meramente bioquímico e limitada a esse corpo mortal, mas uma dádiva de Deus, é o resultado de uma centelha divina, da presença do único Espírito em nós, é algo sagrado, ligada a uma realidade profunda à qual pertencemos, que está presente em todo e cada ser humano, saiba ele disso ou não. Desta feita, somos membros de um Corpo maior, que possui um Espírito não local, pelo que nossas ações devem ser determinadas também pelas necessidades desse Corpo e Seu Espírito.

Por isso, o Cristão encarna o Logos, move seu corpo não apenas segundo as vontades do seu próprio corpo individual, ou de um conceito limitado e material de humanidade, vontades que devem ser atendidas até certo ponto, por uma questão de sobrevivência, para o desenvolvimento e aperfeiçoamento corporal, incluída a reprodução da espécie, mas também segundo o corpo coletivo que integramos, movidos pelo Espírito, para a plenitude existencial.

Outrossim, cada corpo é a encarnação de um espírito, cada corpo é movido por uma causa, que pode ser boa ou má, melhor ou pior, que vai do extremo egoísmo, a ideia de um si mesmo individual como plenitude, ao limite da completude humana, que é Jesus, O Cristo, o Ungido pelo Logos, o que manifestou o Logos na humanidade, porque se moveu segundo a Vontade de Deus, mesmo contra sua vontade individual e corporal, até a entrega voluntária à tortura e morte, para mostrar como um governante obediente à Lei, como o Messias, o Rei, deve se comportar.

Afastando-se de novo pela segunda vez, orou: ‘Meu Pai, se não é possível que isto passe sem que eu o beba, seja feita a tua vontade!’” (Mt 26, 42).

E afastou-se deles mais ou menos a um tiro de pedra, e, dobrando os joelhos, orava: ‘Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!’” (Lc 22, 41-42).

Tal passagem está inserida em um contexto de libertação política legítima, a Páscoa, quando o faraó, após intervenção divina, liberou o povo judeu da escravidão no Egito, o que era um evento da maior importância social para os israelitas, e continua com significação política, e também filosófica e teológica, a libertação do mau governo e da morte, porque estabelecidos definitivamente o Bom governo e a Vida, a qual continua em outro nível de realidade, antecipada na ressurreição de Jesus, realidade em que este mundo visível e o outro invisível se unem.

Havia uma necessidade lógica de que Jesus, como Messias de Israel, a nação eleita, passasse por isso, e por essa razão ele é a especial encarnação do Logos, porque ele cumpriu a Lei até o fim, até a morte, para que o Direito e a Justiça se realizassem, conforme a Vontade Perfeita de Deus, Seu Espírito, ou Logos, adequando a história humana ao sentido da salvação, que inclui a vinda do Reino de Deus, a era em que a Justiça, a Bondade e a Verdade dominarão no plano político internacional, conforme o modelo de Jesus, o Método científico, como encarnação do Logos, para que o corpo comum da humanidade, e seus membros, seja tratado dignamente. Cristianismo, assim, é questão de política pública.

A Lei e, portanto, o Direito, igualmente, possuem um sentido, um Espírito, que determina o comportamento correto, juridicamente esperado, justo, em contraposição ao incorreto, ilícito ou injusto. O legal e o ilegal estão relacionados ao racional e ao irracional, ao moral e ao imoral, ao sentido do comportamento segundo uma ideia de mundo, e o que é bom, justo e adequado ao corpo social.

Direito é sentido, e o sentido é dado pelo Espírito, pelo que Direito é Espírito, e não por acaso a hermenêutica se tornou disciplina fundamental ao Direito. Direito pressupõe a liberdade de escolha do sentido do movimento, do sentido da vida, permite ao homem encarnar Deus, o Logos, ou seu opositor, o engano, mover-se a favor do ou contra o corpo individual e social, do que a história está repleta de exemplos, pelos santos que seguem Cristo e pelos diabos e anticristos, que matam, rejeitam ou ignoram os outros filhos de Deus.

Nos animais, por exemplo, há alma, há sentido do movimento, mas a liberdade de escolha é reduzidíssima, o sentido é quase absolutamente dado pelo instinto, daí porque não são sujeitos de direito, mas objeto de proteção jurídica, e não são julgados por suas ações. O homem, por sua vez, pode escolher a causa de seu movimento, isso porque tem livre-arbítrio, tem a possibilidade de se mover para satisfazer somente seus instintos, a despeito do prejuízo que tal ação poderá causar ao corpo social, dada a deturpação ocorrida no instinto humano pelo chamado pecado original, que é adquirido pela má educação, fazendo com que sejamos capazes de continuar a nos mover mesmo após satisfeitas nossa necessidade de sobrevivência, o que é função do instinto, o qual deve ser reeducado segundo a Ciência de Cristo.

Espírito é causa, é motivo e finalidade, o que também vale para o Direito, que estabelece padrões de comportamentos adequados e bons tanto para as pessoas individualmente quanto para o corpo social.

Enquanto as categorias adotadas no mundo jurídico e, consequentemente, pelas pessoas, continuarem a ser baseadas no paradigma das duas cidades de Agostinho ou do dualismo cartesiano, ou no paradigma materialista, com destaque para as doutrinas e teorias que ganharam força especialmente a partir da segunda metade do século XX, enquanto não for compreendido que há um só Corpo e um só Espírito, enquanto o Logos não for o fundamento do Direito, a vida social continuará a ser palco de catástrofes, tragédias e crimes de toda ordem, nos planos nacional e internacional, em detrimento da Humanidade, de seu Corpo e Espírito, e de seus membros, nós.

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