A lógica da pesquisa científica

O título do artigo repete o nome do livro de Karl Popper, um destacado filósofo da ciência do século XX, famoso por sua hipótese segundo a qual uma teoria científica não pode ser provada verdadeira, pode apenas ser falseada, quando demonstrados fatos básicos que sejam aceitos pela comunidade científica e que contradigam aquela teoria, comprovando sua inconsistência lógica. Impressiona o rigor matemático de Popper, desenvolvendo teorias de probabilidades, além de enfrentar a questão do acaso, dos eventos aleatórios ou casualoides, com uma abordagem simbólica.

Ainda assim, encerrada a leitura, o sentimento decorrente desse estudo foi de um certo espanto, um misto de frustração e esperança, pois aguardava mais de uma obra tão renomada. Ao mesmo tempo, entretanto, nela já estão presentes os elementos para compreender em que ponto falham todos os filósofos e cientistas contemporâneos: na Metafísica, Filosofia Primeira ou Teologia.

Corroboraram tal sentimento as leituras subsequentes, “As leis do caos”, de Ilya Prigogine, em cuja contracapa é anotada a seguinte mensagem de Sir Karl R. Popper: “A obra de Prigogine pode ser encarada como um exemplo de instigante redução fisicalista… pode, desse modo, abrir caminho para que se entenda porque a criatividade da vida não contradiz as leis da física”; e “Conhecimento e crença cristã”, de Alvim Plantinga, vencedor do Templeton Prize de 2017 e reconhecida autoridade na área da Filosofia da Religião.

A filosofia de Popper pode ser encontrada na seguinte passagem:

Contudo, só reconhecerei um sistema como empírico ou científico se ele for passível de comprovação pela experiência. Essas considerações sugerem que deve ser tomado como critério de demarcação, não a verificabilidade, mas a falseabilidade de um sistema. Em outras palavras, não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser dado como válido, de uma vez por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo através de recurso a provas empíricas, em sentido negativo: deve ser possível refutar, pela experiência, um sistema científico empírico” (Karl Raimund Popper. A lógica da pesquisa científica. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 2013, p. 38). Popper explica que seu critério é de demarcação, e não de significado, dizendo seguir Kant, para quem os enunciados científicos “devem ser intersubjetivamente testáveis, a qualquer momento, e que precisam, por isso, tomar a forma de leis universais ou teorias” (Idem, p. 42, nota 5).

Todavia, essa proposta meramente formalista traz um problema, uma vez que rejeita como metafísica “qualquer controvérsia em torno da questão de saber se ocorrem eventos, em princípio únicos e insuscetíveis de repetição”, porque “não pode ser decidida pela ciência” (Idem, p. 43). Nessa linha, o estudo da cosmologia, a formação do nosso universo, que é um evento único e insuscetível de repetição, o que também vale para o estudo da origem da vida, e mesmo dos acontecimentos históricos, não seria classificado como ciência.

De outro lado, ao final do texto, Popper reconhece a necessária conexão entre ciência e metafísica, afirmando que “ideias que anteriormente flutuavam em regiões metafísicas mais elevadas podem, algumas vezes, ser alcançadas pelo crescimento da ciência e, assim, entrar em contato com esta e precipitar-se. (…) Todos esses conceitos e ideias metafísicos, mesmo em suas formas primitivas, talvez tenham auxiliado o homem a introduzir ordem no quadro que ele traça do mundo e, em alguns casos, terão levado a previsões bem sucedidas” (Idem, pp. 242-243).

A esperança decorrente da leitura resultou da abertura do “talvez” do parágrafo anterior, que pode, segundo entendo, numa evolução do entendimento atual sobre o que é o conhecimento científico, levar à substituição dessa mera possibilidade, o “talvez”, por um retumbante “inquestionavelmente”, com sua correlação à Metafísica da Verdade, ao Monoteísmo de Cristo.

Digo isso porque sustento não haver Ciência sem Metafísica, Filosofia Primeira ou Teologia, na medida em que qualquer investigação científica está colocada dentro de um quadro significativo do mundo, com indicações simbólicas transcendentes, isto é, com conexões que estão além do aqui e agora, mesmo porque todo aqui e agora, num instante, deixa de sê-lo, passando a memória do passado, como, igualmente, antes de ocorrer, era uma possibilidade existencial, até que o futuro se transforma em presente, então, em passado.

Uma vez mencionada a questão da sucessão temporal, o livro “As leis do caos”, de Prigogine, aborda justamente a questão da seta do tempo, da irreversibilidade do tempo, contrariando o entendimento clássico da Física, no que se inclui a relatividade. A obra começa assim:

Um título como As leis do caos pode parecer paradoxal. Existem leis do caos? O caos não é, por definição, ‘imprevisível’? Veremos que não é assim, mas a noção de caos nos obriga, em vez disso, a reconsiderar a de ‘lei da natureza’. Na perspectiva clássica, uma lei da natureza estava associada a uma descrição determinista e reversível do tempo, em que o futuro e o passado desempenham o mesmo papel. A introdução do caos obriga-nos a generalizar a noção de lei da natureza e nela introduzir os conceitos de probabilidade e de irreversibilidade. Trata-se, nesse caso, de uma mudança radical, pois se quisermos mesmos seguir essa abordagem, o caos nos obriga a reconsiderar a nossa descrição fundamental da natureza” (Ilya Prigogine. As leis do caos. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 2002, p. 11).

Vale dizer que Prigogine também abandona as ideias materialistas clássicas, segundo as quais existe uma ordem apenas provisória no mundo, decorrente do movimento caótico dos átomos, e reformula o conceito de caos, não mais como algo ‘imprevisível’, e sim como probabilístico, conceito no qual a ideia de ordem é pressuposta. Caos, como ele próprio reconhece, é um termo associado à ausência de leis, à imprevisibilidade, pelo que sua proposta incluiu uma mudança radical na metafísica materialista, pela qual, na realidade, é rejeitado seu princípio fundamental: a ausência de uma ordem subjacente ao mundo. Ele sustenta uma ideia de caos a partir de representações estatísticas ‘irredutíveis’:

É justamente esta propriedade que tomaremos como a própria definição de caos, tirando vantagem da sua possibilidade de estender-se aos sistemas quânticos. São ‘caóticos’ os sistemas quânticos cuja evolução não possa exprimir-se em termos de funções de onda que obedeçam à equação de Schrödinger, mas exijam uma nova formulação em termos de probabilidade” (Idem, p. 55).

Os sistemas dinâmicos estudados por Prigogine possuem sensibilidade às condições iniciais, em que existem “causas pequenas a mais não poder, mas em condições de ter consequências essenciais sobre o comportamento do sistema” (Idem, p. 37). O exemplo clássico dessa ideia é o da borboleta que bate asas na Amazônia desencadeando um tufão do outro lado do mundo.

Portanto, o que estamos falando é de ordem complexa, e não de caos propriamente dito. Por definição, não há leis do caos, ou mesmo probabilidades, pois esta ideia está ligada conceitualmente a alguma espécie de ordem. Daí a falha metafísica anunciada no início do texto: ontologicamente, probabilidade e caos são coisas distintas.

A pressuposição da existência de ordem inerente ao mundo é associada ao ideário monoteísta, e à crença cristã, o que proporcionou o desenvolvimento da Ciência. Contudo, há os que pensam em sentido contrário:

Entretanto, você pode pensar que os seres humanos são produtos de forças evolucionárias cegas, que Deus não existe e somos parte do universo sem Deus. Assim, estará inclinado a aceitar o tipo de perspectiva com a qual a crença em Deus é uma ilusão de algum tipo, que remonta ao pensamento ilusório, a algum outro mecanismo cognitivo que não visa à verdade (Freud), ou a um tipo de doença ou disfunção do indivíduo ou da sociedade (Marx).” (Alvim Plantinga. Conhecimento e crença cristã. Tradução Sérgio Ricardo Neves Miranda. Brasília, DF: Academia Monergista, 2016, p. 95).

Segundo Jesus, a ordem do mundo é absoluta: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena. Não se vendem dois pardais por um asse? E, no entanto, nenhum deles cai em terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até mesmo os vossos cabelos foram todos contados. Não tenhais medo, pois valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10, 28-31).

Essa ordem absoluta, com a qual interage o homem, é o que busca a ciência, e daí a necessidade de uma radical revisão metafísica, para a devida compreensão do fenômeno único e insuscetível de repetição que mudou a história da humanidade, e mesmo assim é científico, ainda que também metafísico.

Se tomarmos como objeto de comparação a sociedade humana e confrontarmos a sociedade da era neolítica com a atual, não é tanto o fato de que os homens tomados individualmente sejam diferentes, mais ou menos inteligentes: são antes as relações entre os indivíduos que sofreram uma mudança radical. Sem dúvida, também nossa sociedade envelhece, mas mais rapidamente que a sociedade neolítica, porque os meios de comunicação se ampliaram e, portanto, a dinâmica das correlações sociais sofreu uma enorme aceleração” (Ilya Prigogine. As leis do caos. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 2002, p. 70).

As relações humanas sofreram uma mudança radical porque o conceito metafísico fundamental de que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus precipitou-se, realizou-se em Jesus, num movimento ideológico que se espalhou pelo planeta, e que está prestes a atingir sua forma plena, quando dominará a lógica da pesquisa científica. Mas para isso, é necessário não que seja falseado, mas provado verdadeiro, com significado verdadeiro, quando uma improbabilidade absurda ocorrer, conectando a história humana e o movimento “caótico” da natureza, dando sentido e realizando o que era chamado de profecia, ou mesmo alucinação, mas que, então, passará a ser tratado como conhecimento científico.

Um comentário sobre “A lógica da pesquisa científica

  1. Prezado Holonomia

    Caríssimo, ao longo da História já ocorreram momentos em que os cientistas acreditaram estar diante da situação descrita por você no final deste artigo. Pouco depois, o desalento e o ceticismo ao encarar novas situações que não correspondiam àquela “descoberta” científica e metafísica trouxeram de volta a realidade cotidiana de fracassos, caos e falta de sentido. Sei que você não aprecia muito Heidegger, mas eu aprecio muito o meu Mestre Aloysio Ferraz Pereira, que estudou muito Heidegger e ensinava que somos “condenados à vida” e esse é o sentido, viver da melhor maneira possível para todos nós. Quando o Altíssimo permite, vislumbramos um pouco da perfeição. Feliz Natal e um 2020 repleto de alegres realizações para você e sua família !!

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