Salmos

A Amazon, recentemente, liberou vários livros eletrônicos para serem baixados gratuitamente, pelo que, aproveitando essa oportunidade, selecionei vários textos para leitura futura, dentre eles “Salmos”, do teólogo N. T. Wright, autor esse já referido no artigo “Teologia Cristã em Paulo” (https://holonomia.com/2019/07/04/teologia-crista-em-paulo/).

Obviamente, a pessoa mais importante da história do Cristianismo é Jesus de Nazaré, o próprio Cristo, e penso que é praticamente uma unanimidade que a segunda maior referência é Paulo, ao qual é atribuída quase metade dos livros do novo Testamento, sendo sete deles aceitos pacificamente pelos estudiosos como autênticos escritos do referido apóstolo.

É importante ressaltar que Wright participa de um movimento que faz nova leitura teológica, uma nova perspectiva, sobre o significado da mensagem de Paulo, o que se aplica ao próprio Cristianismo. No livro “Salmos”, assim, essa visão serve de meio para a interpretação dos cânticos respectivos, e seu significado existencial dentro da revelação monoteísta.

O livro bíblico Salmos foi composto em sua maior parte na época do exílio babilônico, por volta do século VI a.C., como poemas, os quais eram cantados até a época de Jesus: “Depois de terem cantado o hino (salmos), saíram para o monte das Oliveiras” (Mt 26, 30; Mc 14, 26).

Os salmos eram conhecidos dos judeus da época de Jesus, o que inclui o Messias e seus seguidores, da mesma forma como sabemos de cor canções populares, mas no caso daqueles o conteúdo dos hinos era expressão artística de um sentimento religioso, sendo que “cantavam e oravam Salmos, dia após dia e mês após mês, levando o livro a modelar seu caráter, aguçar sua visão de mundo, enquadrar sua leitura do restante da Escritura e, acima de tudo, alimentar e fornecer recursos à vida ativa que levavam, fomentando esperanças que preservavam a confiança em seu Deus, o criador do universo, mesmo quando tudo parecia sombrio e estéril” (N. T. Wright. Salmos: contextos históricos, literário e espirituais para resgatar o significado do hinário do antigo Israel. Tradução de Elissamai Bauleo. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020, versão eletrônica).

O autor faz uma importantíssima distinção entre a mentalidade moderna e aquela do tempo de Jesus, para além da situação científica, no sentido de que “os primeiros cristãos, judeus do primeiro século cuja fé era que o Deus de Israel cumprira suas promessas antigas em Jesus de Nazaré, correspondiam ao que eu e outros chamamos de ‘monoteístas criacionais’. Isto é: eles criam que o único Deus criador, tendo feito o mundo, permanecia ativo e dinâmico em relação à sua criação” (Idem).

Portanto, trata-se da típica visão teísta, mais do que o simples deísmo do Deus criador, porque no teísmo há relacionamento contemporâneo do Criador com a criatura, sendo ainda válidas as promessas feitas aos antepassados, “de habitar com ele (seu povo) e estabelecer seu governo soberano, na terra como no céu” (Idem).

Wright destaca que a visão dos judeus é antiga como também o é a filosofia de Epicuro, que propunha um universo não criado por deuses, entendendo que estes, se existiam, não se importavam com as questões humanas.

Em termos populares, a mensagem era a seguinte: balance os ombros e usufrua a vida da melhor forma que você puder. Soa familiar? Essa é a filosofia cujo ideal nosso mundo moderno adotou, em grande medida, como norma.

O problema com o qual nos deparamos ao ler, orar e cantar partes da Bíblia não é que ela é ‘velha’, em contraste com nossa ‘nova’ (e, portanto, de alguma forma superior) filosofia atual. O problema é que, das muitas visões de mundo antigas, a Bíblia tem absolutamente uma só, enquanto boa parte do mundo ocidental moderno tem uma visão diferente. Nossa visão de mundo prevalecente não é mais ‘moderna’ do que a visão de mundo dos primeiros cristãos. O que acontece é que muitos cientistas proeminentes dos séculos XVIII e XIX, atraídos ao epicurismo por diversas razões (sociais, culturais e políticas), interpretaram suas observações científicas legítimas e adequadas (em relação, por exemplo, à origem e ao desenvolvimento de diferentes espécies de plantas e animais) nos moldes epicureus. Por isso, presume-se que a ‘ciência’ realmente apoia esse ponto de vista desassociado da ‘divindade’, restando um mundo que se desenvolve sozinho. Mas essa interpretação é profundamente enganosa. O epicurismo, então, é uma visão de mundo antiga, resgatada, porém, no Ocidente moderno como algo novo” (Idem).

Wright ressalta a visão de mundo contida nos Salmos, convidando os cantores a “viver na junção de tempo, espaço e matéria”, algo bem moderno em termos científicos, porque adequado à física do século XX, fundindo passado e futuro no presente, o espaço humano com o divino, terra e céu, e a ordem criada atual com aquela dotada ainda mais do esplendor de Deus, os novos céu e terra.

O livro de Salmos, conforme sugiro, compõe-se de cânticos e poemas que nos ajudam não apenas a entender essa visão de mundo antiga e relevante, mas a realmente captá-la e celebrá-la – perspectiva segundo a qual, em contraste com a maior parte dos pressupostos modernos, o tempo de Deus e o nosso se intercalam e intersectam; o espaço de Deus e o nosso se interpõem e interligam; e, de maneira ainda mais surpreendente, o próprio mundo material da criação divina é infundido, tomado e inundado com a vida, o amor e a glória de Deus” (Idem).

O autor indica a leitura dos Salmos como forma de entendimento do contexto histórico narrado na Escrituras, segundo a leitura Cristã, entendendo que por meio de Jesus houve a interseção do tempo, do espaço e da matéria de Deus com os nossos, significando o Deus criador assumindo o reinado e o governo na terra como no céu.

A ressurreição é, nesse sentido, a fusão de futuro e presente, a antecipação da nova criação, em que terra e céu coabitam, em que os corpos terão outra consistência física, algo radiativa.

Essa percepção não é alcançada pelo leitor “moderno”, moldado por uma visão epicurista e materialista de mundo que não tem suporte nem mesmo nas leituras mais avançadas da ciência atual, porque descartada a existência dos átomos materiais que fundamentavam aquela outra filosofia antiga (epicurista), a qual ainda contamina indevidamente a mente das pessoas.

A questão não é tanto que o mundo não crê em Deus: a maioria das pessoas simplesmente não consegue imaginar o que seria viver no mundo de Deus, em seu tempo, espaço e matéria” (Idem).

Isso significa viver conforme seus mandamentos, pelo exemplo de Jesus, com as dificuldades que ainda decorrem de se tentar viver pelo Espírito num mundo regido pelo hedonismo epicurista, com amplo suporte político e jurídico.

Mesmo que seja inimaginável ver Deus retomando o controle dos governos humanos, a história mostra, especialmente pelo próprio movimento Cristão, que o Altíssimo é pródigo em proporcionar viradas retumbantes no curso dos acontecimentos. Talvez, e penso que sim, estejamos imersos em uma dessas situações históricas.

Venha o teu Reino, seja feita a tua Vontade na terra, como no céu.

Por que as nações se amotinam, e os povos meditam em vão? Os reis da terra se insurgem, e, unidos, os príncipes conspiram contra Iahweh e contra o seu Messias: ‘Rebentemos seus grilhões, sacudamos de nós suas algemas!’ O que habita nos céus ri, o Senhor se diverte à custa deles. E depois lhes fala com ira, confundindo-os com seu furor: ‘Fui eu que consagrei o meu rei sobre Sião, minha montanha sagrada!’ Vou proclamar o decreto de Iahweh: Ele me disse: ‘Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede, e eu te darei as nações como herança, os confins da terra como propriedade. Tu as quebrarás com um cetro de ferro, como um vaso de oleiro as despedaçarás’. E agora, reis, sede prudentes; deixai-vos corrigir, juízes da terra. Servi a Iahweh com temor, beijai seus pés com tremor, para que não se irrite e pereçais no caminho, pois sua ira se acende depressa. Felizes aqueles que nele se abrigam!” (Salmo 2)

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