Um Deus contra vários ídolos

Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh! Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu as atarás também à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre os teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas” (Dt 6, 4-9).

Este é o Shemá, que contém o credo básico do Monoteísmo, e serve de fundamento para o credo cristão: “Creio em um só Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”.

Também no Alcorão: “Seja qual for o assunto de vossas divergências, a palavra final pertence a Deus. Ele é meu Senhor. N’Ele deposito minha confiança e para Ele volto contrito” (Sura 42: 10).

Há um só Deus, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, a Quem pertence a palavra final sobre todos os assuntos, e para O qual todos voltaremos.

Contudo, em Seu lugar, muitos ídolos foram e são colocados, ídolos que dizem respeito ao (des)conhecimento de Deus, de sua Unicidade, ídolos que são a fonte das divergências relativas aos assuntos humanos e divinos, porque são ídolos científicos e religiosos.

Francis Bacon, na sua busca pelo conhecimento correto, desenvolveu a ideia de quatro ídolos, que significam falsas noções ou conceitos que impedem a mente de alcançar a ciência correta: os ídolos da tribo, que são tendências inerentes à natureza humana, de confundir as coisas como elas são com a forma como elas aparecem para nós; os ídolos da caverna, decorrentes das formações individuais e suas particularidades; os ídolos do foro ou do mercado, relativos ao uso indevido das palavras, que impedem a compreensão; e os ídolos do teatro, correspondentes aos vícios filosóficos e científicos, pelos quais, ao invés de procurarmos a verdade das coisas, acabamos colocando nossas “verdades”, ou vícios, nas coisas.

A teoria de Bacon usa a expressão “ídolos” e remete diretamente à questão teológica de Israel, porque a adoração ao Deus único e a obediência aos seus mandamentos sempre foram ofuscadas por ídolos que se opunham entre os homens e Deus, e Seu conhecimento, de modo que havia o desvio da autêntica prática religiosa, que é científica e filosófica, é teológica.

Por ser considerado um dos pais da ciência moderna, dizendo que esta deveria ser buscada a partir da observação, fazendo com que a ciência passasse a experimental, pode-se dizer que a idolatria, que era um conceito teológico, transformou-se em um tema científico, pelo que é possível afirmar que, ainda hoje, e especialmente hoje, a teoria dos ídolos tem aplicação, e que a ciência atual está dominada pelos ídolos que um de seus fundadores rejeitava.

Os ídolos da tribo significam conceituar o ser humano em termos estritamente biológicos, como apenas uma espécie de primata que mais se desenvolveu, dando destaque às nossas semelhanças com os animais e ignorando como epifenômenos cerebrais as experiências mais fundamentais e que nos definem como humanos.

Como ídolo da caverna pode ser citado o individualismo, que entende a humanidade associada ao prazer particular e exclusivamente subjetivo, como algo isolado de sua comunidade e de sua formação psíquica ancestral e coletiva, como se fosse possível criar novas identidades artificiais, como uma nova natureza, sem que isso implicasse em profundos danos psíquicos à convivência social.

Os ídolos do mercado ou do foro estão hoje de ponta a cabeça, porque, ao invés de se estabelecer a linguagem para a correta descrição da realidade, as palavras passaram a significar qualquer coisa, em que deve ser exaltado o multiculturalismo no qual os significados dos fenômenos são meramente convencionais, pois não há Verdade.

Finalmente, pode-se dizer que a ciência moderna incorporou a própria ideia do que sejam os ídolos do teatro, pelo cientificismo materialista, que rejeita como não científico tudo que não pode ser pesado, medido e contato, e sequer é capaz de explicar razoavelmente a natureza da própria realidade material, diante das várias dúvidas geradas pela física quântica, da qual o ídolo mor é o multiverso, o qual foi literalmente alçado ao deus criador de nosso universo, deus esse cuja existência não podemos provar, do qual não podemos experimentar e que está simplesmente posto como supostamente real para além de nosso universo físico, tendo sido projetado da mente de alguns cientistas para o plano cosmológico, para ser adorado.

É preciso voltar, pois, às bases do conhecimento científico, entendido como algo relacional, porque conhecer é relacionar coisas, entre móveis e imóveis, variantes e invariantes, as que passam e as que ficam.

As coisas básicas permanentes iniciais somos nós mesmos, nossos corpos, que têm sua origem nos corpos de nossos pais, no material genético que recebemos, que remete à origem da vida, e do próprio cosmos, ainda que nossos corpos sejam, de outro lado, provisórios, porque morreremos e voltaremos ao pó.

Incrustada em nossos corpos está nossa cultura, fruto de desenvolvimento físico e mental, que permite que algumas ideias invariantes se projetem no tempo e no espaço, estendendo nossa existência para o passado, para o futuro e para outros espaços geográficos. Assim, para além da existência biológica local, passada geneticamente, possuímos uma existência espiritual, não local e atemporal, presente tanto nas religiões como na própria ciência, fruto de nossa capacidade mental de abstração e imaginação, que permite a representação das coisas e eventos que transcendem a capacidade sensorial imediata, e que é transmitida comunitariamente.

A cultura é resultado de representações do mundo, entendida como criação de modelos mentais de mundo, às vezes físicos, pela arte e pelo instrumental científico, modelos esses que podem ou não ser adequados à realidade sutil ou não presente que pretendem simbolizar, ou seja, a realidade que nossas habilidades sensitivas ordinárias não captam no aqui e agora. A função da representação, portanto, é trazer para o presente imediato e local algo que se pressupõe contínuo ao aqui e agora, mas que escapa à nossa capacidade individual de apreensão física e intelectual, pela distância temporal e espacial e pela quantidade de informação e dados necessários para serem relacionados e reunidos em unidade sensorial e mental.

A busca do conhecimento é no sentido da unidade dessas relações, daquilo que permanece, é sempre invariante, o universal que permite as relações e a tradução entre os eventos, dando-lhes continuidade lógica, tornando presente a continuidade existencial do movimento do mundo que transcende nossa limitação sensorial, como a proposta aristotélica de um motor imóvel como causa de todos os movimentos do mundo.

Para Bacon, essa unidade é buscada pelas experiências que nos conduzem à lei geral dos fenômenos, alcançada por meio do método indutivo. Pode-se dizer que Bacon estava voltado teologicamente para o conhecimento do Deus único, que estabeleceu as leis da natureza, porque a existência do Criador é pressuposta na ideia de leis da natureza, aprimorando a proposta do motor imóvel aristotélico.

Conhecimento é diferente de mero ajuntamento, porque o primeiro é organizado, ao contrário do segundo. Uma das principais obras de Bacon é o Novum organum, que expressamente traz em seu título a ideia de organismo, organização, e não mero ajuntamento aleatório e caótico.

O conhecimento, portanto, é a ciência que transcende as coisas individuais sobrepostas, pressupondo a superação das suas finitudes, de modo que a ciência, ainda que passe por uma experimentação, está além da limitação corporal, referindo-se à transposição da mera particularidade, para alcançar uma unidade que supera nossa finitude, e que está no infinito, referindo-se ao organismo do qual somos membros.

Mesmo no atomismo, o conhecimento, que chegava à finitude, os átomos, referia-se a nós como sua infinitude, ao que está além dos átomos, no que se incluíam nossos corpos e tudo mais que existe no mundo visível, mundo infinito em relação aos átomos considerados individualmente, mundo este no qual os próprios atomistas viviam, pois não comiam átomos e não dormiam em átomos, mas nas coisas por eles formadas. Daí porque também é necessário superar nossa mera individualidade corporal, ou atômica, para obtenção de uma ciência social, da ordem do mundo humano, pois se os comportamentos puderem se basear simplesmente na vontade atômica das pessoas, reinará o caos, o mundo em que cada um é ídolo de si mesmo.

O progresso do conhecimento é, portanto, em direção à infinitude e seu limite cognoscível, Deus ou caos, o primeiro como unidade que está além de toda particularidade, e o segundo como uma limitação primordial insuperável, que deve ser ignorada para tornar a vida possível além dos infinitos ídolos.

O bezerro de ouro está diante de nós, governando o mundo, especialmente por meio dos ídolos do comércio e do teatro, o que explica parcialmente a divisão atual do mundo, decorrente da natureza teológica das questões científicas e políticas, do que um dos patronos da ciência tinha pleno conhecimento, mas que é solenemente ignorado pela maioria das pessoas, que acabam adorando ídolos, porque quando estão contando mortos ou indicadores econômicos, de fato, calculam os números dos ídolos que continuam seguindo, esquecendo-se que Iahweh nosso Deus é o único Iahweh:

Vi depois outra Besta sair da terra: tinha dois chifres como um Cordeiro, mas falava como um dragão. Toda a autoridade da primeira Besta, ela a exerce diante desta. E ela faz com que a terra e seus habitantes adorem a primeira Besta, cuja ferida mortal tinha sido curada. Ela opera grandes maravilhas: até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens. Graças às maravilhas que lhe foi concedido realizar em presença da Besta, ela seduz os habitantes da terra, incitando-os a fazerem uma imagem em honra da Besta que tinha sido ferida pela espada, mas voltou à vida. Foi-lhe dado até mesmo infundir espírito à imagem da Besta, de modo que a imagem pudesse falar e fazer com que morressem todos os que não adorassem a imagem da Besta. Faz também com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos recebam uma marca na mão direita ou na fronte, para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome. Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem: seu número é 666!” (Ap 13, 11-18).

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