Aeterni Patris

A Encíclica Aeterni Patris, do Papa Leão XIII, foi citada no último artigo, tendo Alasdair Macintyre contraposto sua racionalidade e sua moralidade às da “Enciclopédia Britânica”, em sua Nona Edição, e ao pensamento de Nietzsche em “Genealogia da Moral”.

Agora vale enfatizar e enaltecer a exortação proferida por Leão XIII na referida obra, porque sua linha de pensamento continua atual, adequada à mentalidade cristã de nosso tempo, sua proposta deve ser seguida para a restauração de alguma unidade dentro do Cristianismo.

Alasdair Macintyre entende que a autêntica Tradição remete ao ideal de São Tomás de Aquino, defendido por Leão XIII, o que está corretíssimo, ao conceber uma integração necessária entre Fé e Razão, nunca uma oposição. Nessa vertente, o trabalho de São Tomás de Aquino representa o permanente esforço de unificação da Razão em torno da mesma Fé, sendo inestimável sua contribuição porque conciliou o pensamento cristão fundado na filosofia de Agostinho, de um lado, que, por sua vez, remetia a Platão, com as ideias aristotélicas, de outro lado, o que era considerado inviável pelos pensadores de seu tempo, que viam uma insuperável incomensurabilidade entre os respectivos esquemas de pensar o mundo.

Minha proposta segue esse ideal tomista, na tentativa de unificar um fundamentalismo cristão, de um lado, com as mais modernas descobertas científicas e filosóficas, de outro.

A tradução da Encíclica pode ser encontrada no seguinte sítio http://filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/Aeterni_Patris.pdf, de que foram extraídas as transcrições que seguem.

A Igreja, pelo texto, “sempre teve em vista e foi seu principal desejo, ensinar a religião e lutar perpetuamente contra os erros”, o que também é aplicado ao conhecimento científico, que depura seus erros ao longo do tempo, devendo ser destacado que o atual momento é de grande importância histórica, porque a física moderna mostrou que a realidade material é tão, ou mais, aparente, e enganosa, que o geocentrismo, o que reduz a escala de erro do pensamento científico cristão do início da modernidade.

“Porém, como, segundo o aviso do Apóstolo, ‘pela filosofia e vã falácia’ são muitas vezes enganadas as mentes dos fiéis cristãos e é corrompida a sinceridade da fé nos homens, os supremos pastores da Igreja sempre julgaram ser também próprio de sua missão, promover, com todas as forças, as ciências que merecem tal nome e a um só tempo zelar, com singular vigilância, para que as ciências humanas fossem ensinadas por toda parte, segundo a regra da fé católica, e, em especial, a filosofia, da qual, sem dúvida, depende em grande parte o reto ensinamento das demais ciências.”

Não pode haver margem para questionamento, assim, quanto ao incentivo à busca científica e filosófica, sendo exigida apenas a coerência de uma fé universal e cristã, isto é, que não seja meramente particular, pontual, e que se submeta a uma ideia de racionalidade, de Logos, que orienta o Cristianismo.

“Se alguém fixar a consideração na agrura de nossos dias, e abraçar com o pensamento a condição das coisas que, pública e privadamente se executam, descobrirá que, sem dúvida, a causa fecunda dos males, tanto daqueles que hoje nos oprimem, como dos que tememos, consiste em que os perversos princípios sobre as coisas divinas e humanas, emanados a tempo das escolas dos filósofos, foram-se introduzindo em todas as ordens da sociedade e recebidos pelo comum sufrágio de muitos. Pois, sendo natural ao homem que no obrar tenha a razão por guia, se em algo falta a inteligência, facilmente cai também no mesmo a vontade; e assim acontece que a perversidade das opiniões, cujo assento está na inteligência, influencie nas ações humanas e as perverta. Pelo contrário, se está são o entendimento do homem, e se apoia em princípios sólidos e verdadeiros, produzirá muitos benefícios de utilidade pública e privada.”

Destaca, assim, a importância da filosofia, dos primeiros princípios, os quais escolhidos equivocadamente comprometem todo o sistema de pensamento, o que vale para a ciência de hoje, na medida em que o primeiro princípio platônico era a ideia de Bem, o aristotélico o Primeiro Motor e o cristão o Logos, indicando que a ordem do mundo é resultado dessa realidade anterior, ao contrário dos materialistas que sustentam o acaso e a fatalidade como a força que rege o universo. Outrossim, na cosmologia, considerando que a ordem de nosso universo é de uma magnitude inimaginável, desde o princípio, a cosmologia materialista foi obrigada a criar outras dimensões e universos para tentar se manter no debate científico, e na biologia ainda insiste na evolução cega e aleatória, mesmo sendo tendo sido esta proposta refutada matematicamente. Daí porque a filosofia não pode ser incoerente.

“Ademais, sendo próprio e singular dos teólogos escolásticos o haver unido, com o mais estreito laço, a ciência humana e divina entre si, a teologia na qual sobressaíram não teria obtido tantas honras e louvores da parte dos homens, se houvessem empregado uma filosofia manca e imperfeita ou superficial”.

Assim, os adversários hostis ao Cristianismo continuam em ação, sustentando “a pluralidade de deuses (hoje, universos), que a matéria do mundo careceu de princípio e de causa, e que o curso das coisas conservava-se mediante uma força cega e uma necessidade fatal e não dirigida pelo conselho da Divina Providência”.

Tais pensadores são dotados de uma fé na desordem, porque não há como comprovar seus argumentos, e ainda assim usam sua razão na tentativa de demonstrar a veracidade de sua visão. Entre uma fé na desordem e outra na ordem, eu fico com a segunda, e também tenho todo o direito, como os cosmólogos e biólogos, de usar a razão para comprovar minha fé, ainda que seja para afastar a acusação de irracionalidade, e para tanto não violo, como eles, a navalha de Ockham ou a probabilidade matemática. Portanto, a boa razão é aliada da melhor fé.

“Não é em vão que Deus imprimiu na mente humana a luz da razão. E o acréscimo da luz da fé, mui longe de apagar ou diminuir a força da inteligência, aperfeiçoa-a, e, aumentando as suas forças, torna-a hábil para maiores empresas”.

A filosofia, destarte, deve ser feita de modo integrado, unindo as partes e os conhecimentos respectivos a um todo maior, em uma só racionalidade e coerência, o que parece ter sido o trabalho de São Tomás de Aquino, que espero ler um dia.

“Não há parte da filosofia que, de forma aguda e sólida, não haja tratado: tratou das leis do raciocínio, de Deus e das substâncias incorpóreas, do homem e de outras coisas sensíveis, dos atos humanos e de seus princípios, de tal modo que nada falta nele: nem a abundância das questões, nem a oportuna disposição das partes, nem a firmeza dos princípios ou a robustez dos argumentos, nem a claridade e propriedade da linguagem, nem certa facilidade de explicar coisas obscuras.”

Somente têm verdadeiramente essa capacidade aqueles que se colocam como filhos de Deus, do Aeterni Patris, ao Qual devemos sempre suplicar Sua graça, por Sua divina bondade, por Cristo Jesus, por meio de quem obtivemos essa divina filiação.

“Também nisto sigamos o exemplo do Doutor Angélico que nunca se pôs a ler e escrever sem antes haver-se feito propício a Deus com seus rogos e que confessou, candidamente, que tudo o que sabia não havia adquirido tanto com seu estudo e trabalho, senão que o havia recebido divinamente.

Por isso mesmo, roguemos todos juntamente a Deus, com humilde e concorde súplica, para que derrame sobre todos os filhos da Igreja o espírito de ciência e de entendimento, e abra-lhes os sentidos para entender a sabedoria”. AMÉM!

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