A humanidade nas crises da adolescência e da meia idade

Já estava finalizando um artigo sobre o problema da indução, cuja ideia surgiu pelo início da leitura de “A lógica da pesquisa científica”, de Karl Popper, quando, ao passar por um trecho de “A secular age” (Uma era secular), de Charles Taylor, outra proposta de texto surgiu, pelo que o tema da filosofia da ciência ficará para outra oportunidade.

Volto, então, de certa forma, a um assunto já abordado no artigo “Ciência x tecnologia” (https://holonomia.com/2017/11/28/ciencia-x-tecnologia/), em que foi proposta a reformulação da divisão tradicional da História, feita em cinco Idades: Pré-história, Antiga, Média, Moderna e Contemporânea; dando-lhe nova significação:

a Idade Antiga deve ter como marco final o tempo do nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, eventos que, conforme exposto no artigo ‘Macroevolução e microevolução’, definem o surgimento da nova humanidade, do homem novo, ligado a Deus, ao Logos, à Plena Unidade Cósmica.

Como continuamos a viver os efeitos da Vida de Jesus, na medida em (que) sua mensagem não foi colocada em prática pela humanidade, no mundo social, no plano político mundial, pode-se considerar que estamos na Idade Média, porque ainda vivemos um período intermediário na história da civilização, entre a proclamação da Boa Nova por Jesus Cristo e sua realização coletiva na era messiânica, entre a revelação do conceito de humanidade e sua efetivação na vida humana.

A Idade Média, assim como as demais, pode ser dividida em períodos internos, em sub-idades, notadamente em dois mais relevantes, a primeira Idade Média, em que prevaleceu uma concepção espiritual de mundo, com predomínio do controle religioso das comunidades, e a segunda Idade Média, iniciada no tempo que é chamado de Revolução Científica, quando o controle material da vida passou a preponderar”.

Fazendo comparação com a vida de um indivíduo, a humanidade passou pela crise da adolescência ao começar um rompimento com a visão espiritual de mundo, sob o domínio de uma religiosidade parcialmente Cristã e parcialmente pagã, iniciando o caminho para a vida adulta, na busca da independência, como um adolescente, desvinculando-se dos valores recebidos pelas autoridades constituídas, pelos pais ou ancestrais, chegando, então, após a exploração do mundo sem as amarras ou limites adquiridos na infância, ao momento atual, da crise da meia idade, quando se abre à frente o futuro, com as opções a serem seguidas: continuar com a destruição dos valores originais; ou restaurá-los, reintegrando-os, sob uma nova e aprimorada perspectiva, aos conhecimentos adquiridos no curso da vida.

Os últimos cem anos também concentram essa passagem histórica, desde a quebra dos valores tradicionais pela rebeldia dos anos 60, agora posta em xeque, pela ascensão de um movimento conservador. Vale dizer que muitos dos que passaram pelo mergulho das ideias surgidas nos anos 60, pelo batismo materialista, especialmente para os seus líderes, com vivência radical nessa proposta de vida, não chegaram aos tempos atuais, por terem morrido de overdose ou AIDS, por exemplo. De igual modo não se sustentava a absoluta hierarquia meramente formal que existia na sociedade, em que os relacionamentos familiares pecavam pela falta de intimidade entre pais e filhos, o que também se aplicava ao âmbito social, sem uma plena meritocracia, sendo necessário encontrar um meio-termo entre a hierarquia e a igualdade, porque uma sociedade apenas formal não possui vida plena e aquela na qual não há a devida ordenação é insustentável.

Como bem exposto por Charles Taylor, cujo livro se propõe a responder como o Ocidente transitou de um momento, em 1500, quando era inadmissível não crer em Deus, para o tempo atual, do ano 2000, em que o ateísmo é uma opção social e intelectualmente aceita. Interessante é o caminho de uma simbologia mental tratada pelo autor, pelo qual passou parte da humanidade, com foco em suas elites, de um pensamento teísta para o ateísta, mediado pelo deísmo como mentalidade de passagem, intermediária, entre uma cosmovisão e outra. Os pensamentos se deslocaram, nesse sentido, de uma elite, inicialmente, de onde se originaram, para uma massa cada vez maior da população.

Isso vale especialmente para a geração dos últimos cem anos, que começou com a mesma crença dos pais, na religiosidade Cristã, passando por um momento intermediário de tolerância cada vez maior com o pensamento diferente, até os dias atuais em que temas como aborto e as questões dos GLS (LGBT) são a última modernidade social, a ideia de uma minoria que busca se impor, e vem ganhando força, com o objetivo cada vez menos oculto de destruir completamente os valores tradicionais da família e seu sentido de vida mais profundo, até o ponto de condenar e tentar criminalizar o pensamento tradicional e conservador.

As opções a serem seguidas, neste momento de crise da meia idade da humanidade, são, portanto, a restauração de uma mentalidade Cristã, com seu aprimoramento, o que inclui o tema da ordem pública, e seu conceito mais sutil, bem como os crimes que a violam, e a questão social; ou persistir em tentar romper definitivamente com essa visão tachada de irracional e obscurantista, às vezes talibã, em direção à radicalidade materialista e ateia.

A mudança, em um sentido ou outro, começa sempre, ainda que sob alguma influência social, no plano individual, cujo comportamento passa a ser replicado, por sua capacidade de convencimento, até assumir contornos de norma social. Nesse ponto, é importante destacar que o indivíduo tem a sua equação pessoal, de natureza psíquico-espiritual-científica, como medida pela qual pauta sua vida em todos os aspectos, de cada comportamento mais simples até os temas de maior relevância existencial. A equação pessoal é formada a partir dos conhecimentos e experiências da pessoa, por influência de ideias já existentes, e em formulação, e de alguns líderes, que são exemplos de comportamento e coerência, em um ou mais aspectos da vida, até o desenvolvimento da equação própria, como uma ideia geral de vida e do mundo, ainda que não plenamente formulada em termos teóricos ou sistemáticos.

O mundo ocidental recente foi marcado por várias equações pessoais, podendo serem citados como destaques as de Jung e Freud, especialmente pelos seus entendimentos acerca da religião, diante da relevância fundamental do fenômeno psicológico, o primeiro entendendo o fenômeno religioso como parte natural e necessária da atividade psíquica humana, enquanto o segundo a entedia como uma neurose universal e uma ilusão.

A crise da meia idade, segundo Jung, provoca na pessoa a necessidade de enfrentar o tema da religião e da morte, sobre o sentido da vida, ou sua ausência, para o desenvolvimento do processo de individuação, de maturação e evolução definitiva da personalidade, incluindo os componentes espirituais da realidade, e por isso entendo acertada a postura perante o mundo, sua medida individual conectando o mundo à sua pessoa, com as ideias respectivas, porque consentânea com a coerência da realidade histórica e científica conhecida.

Enquanto humanidade, certamente sairemos dessa crise.

Penso que a opção materialista, na linha de Freud e seus correligionários ateus, se fosse adotada, levaria à realização de uma distopia, já vivida parcialmente pelos mortos-vivos e zumbis que povoam o cenário cultural, em parte das classes artística, política e intelectual, e mesmo da população em geral.

Como Cristão, contudo, com tudo incluído, não tenho dúvida sobre qual será a ideia da realidade futura, porque, de fato, não há opção, considerando que somente existe uma racionalidade, verdade, uma ordem, uma natureza, um Logos. Segundo a frase atribuída a Francis Bacon: “Só se pode vencer a natureza obedecendo-lhe”.

Assim, apenas pela obediência, e seguindo os bons exemplos, é possível superar, com sucesso, as crises da adolescência e da meia idade, para encontrar o lugar adequado na ordem do mundo.

É importante salientar que os melhores exemplos de Cristãos não são os homens casados pela segunda ou terceira vez, com mulheres mais jovens, principalmente quando as (ex-)esposas ainda estão vivas, ou os que gostam de armas e não têm moderação no falar.

E citado o exemplo Cristão, melhor não há do que o de Jesus mesmo, o Cristo Senhor, que é o próprio caminho para transcender a crise do mundo, ao encarnar na vida a ordem universal, o Logos, que é o método científico. Fiquemos, pois, com seu consolo, nesse tempo de tribulação, que se prolonga desde que sua mensagem começou a mudar o mundo, cujos poderes insistem em continuar em atividade, até o tempo presente:

Mas eu não estou só, porque o Pai está comigo. Eu vos disse tais coisas para terdes paz em mim. No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16, 32-33).

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