Um Deus contra vários ídolos

Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh! Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu as atarás também à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre os teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas” (Dt 6, 4-9).

Este é o Shemá, que contém o credo básico do Monoteísmo, e serve de fundamento para o credo cristão: “Creio em um só Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”.

Também no Alcorão: “Seja qual for o assunto de vossas divergências, a palavra final pertence a Deus. Ele é meu Senhor. N’Ele deposito minha confiança e para Ele volto contrito” (Sura 42: 10).

Há um só Deus, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, a Quem pertence a palavra final sobre todos os assuntos, e para O qual todos voltaremos.

Contudo, em Seu lugar, muitos ídolos foram e são colocados, ídolos que dizem respeito ao (des)conhecimento de Deus, de sua Unicidade, ídolos que são a fonte das divergências relativas aos assuntos humanos e divinos, porque são ídolos científicos e religiosos.

Francis Bacon, na sua busca pelo conhecimento correto, desenvolveu a ideia de quatro ídolos, que significam falsas noções ou conceitos que impedem a mente de alcançar a ciência correta: os ídolos da tribo, que são tendências inerentes à natureza humana, de confundir as coisas como elas são com a forma como elas aparecem para nós; os ídolos da caverna, decorrentes das formações individuais e suas particularidades; os ídolos do foro ou do mercado, relativos ao uso indevido das palavras, que impedem a compreensão; e os ídolos do teatro, correspondentes aos vícios filosóficos e científicos, pelos quais, ao invés de procurarmos a verdade das coisas, acabamos colocando nossas “verdades”, ou vícios, nas coisas.

A teoria de Bacon usa a expressão “ídolos” e remete diretamente à questão teológica de Israel, porque a adoração ao Deus único e a obediência aos seus mandamentos sempre foram ofuscadas por ídolos que se opunham entre os homens e Deus, e Seu conhecimento, de modo que havia o desvio da autêntica prática religiosa, que é científica e filosófica, é teológica.

Por ser considerado um dos pais da ciência moderna, dizendo que esta deveria ser buscada a partir da observação, fazendo com que a ciência passasse a experimental, pode-se dizer que a idolatria, que era um conceito teológico, transformou-se em um tema científico, pelo que é possível afirmar que, ainda hoje, e especialmente hoje, a teoria dos ídolos tem aplicação, e que a ciência atual está dominada pelos ídolos que um de seus fundadores rejeitava.

Os ídolos da tribo significam conceituar o ser humano em termos estritamente biológicos, como apenas uma espécie de primata que mais se desenvolveu, dando destaque às nossas semelhanças com os animais e ignorando como epifenômenos cerebrais as experiências mais fundamentais e que nos definem como humanos.

Como ídolo da caverna pode ser citado o individualismo, que entende a humanidade associada ao prazer particular e exclusivamente subjetivo, como algo isolado de sua comunidade e de sua formação psíquica ancestral e coletiva, como se fosse possível criar novas identidades artificiais, como uma nova natureza, sem que isso implicasse em profundos danos psíquicos à convivência social.

Os ídolos do mercado ou do foro estão hoje de ponta a cabeça, porque, ao invés de se estabelecer a linguagem para a correta descrição da realidade, as palavras passaram a significar qualquer coisa, em que deve ser exaltado o multiculturalismo no qual os significados dos fenômenos são meramente convencionais, pois não há Verdade.

Finalmente, pode-se dizer que a ciência moderna incorporou a própria ideia do que sejam os ídolos do teatro, pelo cientificismo materialista, que rejeita como não científico tudo que não pode ser pesado, medido e contato, e sequer é capaz de explicar razoavelmente a natureza da própria realidade material, diante das várias dúvidas geradas pela física quântica, da qual o ídolo mor é o multiverso, o qual foi literalmente alçado ao deus criador de nosso universo, deus esse cuja existência não podemos provar, do qual não podemos experimentar e que está simplesmente posto como supostamente real para além de nosso universo físico, tendo sido projetado da mente de alguns cientistas para o plano cosmológico, para ser adorado.

É preciso voltar, pois, às bases do conhecimento científico, entendido como algo relacional, porque conhecer é relacionar coisas, entre móveis e imóveis, variantes e invariantes, as que passam e as que ficam.

As coisas básicas permanentes iniciais somos nós mesmos, nossos corpos, que têm sua origem nos corpos de nossos pais, no material genético que recebemos, que remete à origem da vida, e do próprio cosmos, ainda que nossos corpos sejam, de outro lado, provisórios, porque morreremos e voltaremos ao pó.

Incrustada em nossos corpos está nossa cultura, fruto de desenvolvimento físico e mental, que permite que algumas ideias invariantes se projetem no tempo e no espaço, estendendo nossa existência para o passado, para o futuro e para outros espaços geográficos. Assim, para além da existência biológica local, passada geneticamente, possuímos uma existência espiritual, não local e atemporal, presente tanto nas religiões como na própria ciência, fruto de nossa capacidade mental de abstração e imaginação, que permite a representação das coisas e eventos que transcendem a capacidade sensorial imediata, e que é transmitida comunitariamente.

A cultura é resultado de representações do mundo, entendida como criação de modelos mentais de mundo, às vezes físicos, pela arte e pelo instrumental científico, modelos esses que podem ou não ser adequados à realidade sutil ou não presente que pretendem simbolizar, ou seja, a realidade que nossas habilidades sensitivas ordinárias não captam no aqui e agora. A função da representação, portanto, é trazer para o presente imediato e local algo que se pressupõe contínuo ao aqui e agora, mas que escapa à nossa capacidade individual de apreensão física e intelectual, pela distância temporal e espacial e pela quantidade de informação e dados necessários para serem relacionados e reunidos em unidade sensorial e mental.

A busca do conhecimento é no sentido da unidade dessas relações, daquilo que permanece, é sempre invariante, o universal que permite as relações e a tradução entre os eventos, dando-lhes continuidade lógica, tornando presente a continuidade existencial do movimento do mundo que transcende nossa limitação sensorial, como a proposta aristotélica de um motor imóvel como causa de todos os movimentos do mundo.

Para Bacon, essa unidade é buscada pelas experiências que nos conduzem à lei geral dos fenômenos, alcançada por meio do método indutivo. Pode-se dizer que Bacon estava voltado teologicamente para o conhecimento do Deus único, que estabeleceu as leis da natureza, porque a existência do Criador é pressuposta na ideia de leis da natureza, aprimorando a proposta do motor imóvel aristotélico.

Conhecimento é diferente de mero ajuntamento, porque o primeiro é organizado, ao contrário do segundo. Uma das principais obras de Bacon é o Novum organum, que expressamente traz em seu título a ideia de organismo, organização, e não mero ajuntamento aleatório e caótico.

O conhecimento, portanto, é a ciência que transcende as coisas individuais sobrepostas, pressupondo a superação das suas finitudes, de modo que a ciência, ainda que passe por uma experimentação, está além da limitação corporal, referindo-se à transposição da mera particularidade, para alcançar uma unidade que supera nossa finitude, e que está no infinito, referindo-se ao organismo do qual somos membros.

Mesmo no atomismo, o conhecimento, que chegava à finitude, os átomos, referia-se a nós como sua infinitude, ao que está além dos átomos, no que se incluíam nossos corpos e tudo mais que existe no mundo visível, mundo infinito em relação aos átomos considerados individualmente, mundo este no qual os próprios atomistas viviam, pois não comiam átomos e não dormiam em átomos, mas nas coisas por eles formadas. Daí porque também é necessário superar nossa mera individualidade corporal, ou atômica, para obtenção de uma ciência social, da ordem do mundo humano, pois se os comportamentos puderem se basear simplesmente na vontade atômica das pessoas, reinará o caos, o mundo em que cada um é ídolo de si mesmo.

O progresso do conhecimento é, portanto, em direção à infinitude e seu limite cognoscível, Deus ou caos, o primeiro como unidade que está além de toda particularidade, e o segundo como uma limitação primordial insuperável, que deve ser ignorada para tornar a vida possível além dos infinitos ídolos.

O bezerro de ouro está diante de nós, governando o mundo, especialmente por meio dos ídolos do comércio e do teatro, o que explica parcialmente a divisão atual do mundo, decorrente da natureza teológica das questões científicas e políticas, do que um dos patronos da ciência tinha pleno conhecimento, mas que é solenemente ignorado pela maioria das pessoas, que acabam adorando ídolos, porque quando estão contando mortos ou indicadores econômicos, de fato, calculam os números dos ídolos que continuam seguindo, esquecendo-se que Iahweh nosso Deus é o único Iahweh:

Vi depois outra Besta sair da terra: tinha dois chifres como um Cordeiro, mas falava como um dragão. Toda a autoridade da primeira Besta, ela a exerce diante desta. E ela faz com que a terra e seus habitantes adorem a primeira Besta, cuja ferida mortal tinha sido curada. Ela opera grandes maravilhas: até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens. Graças às maravilhas que lhe foi concedido realizar em presença da Besta, ela seduz os habitantes da terra, incitando-os a fazerem uma imagem em honra da Besta que tinha sido ferida pela espada, mas voltou à vida. Foi-lhe dado até mesmo infundir espírito à imagem da Besta, de modo que a imagem pudesse falar e fazer com que morressem todos os que não adorassem a imagem da Besta. Faz também com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos recebam uma marca na mão direita ou na fronte, para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome. Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem: seu número é 666!” (Ap 13, 11-18).

Vidas importam – lives matter

O título do artigo não é “vidas negras importam”, relativo ao movimento black lives matter, porque falar em vidas negras é reduzir hipocritamente o âmbito da discussão, como o fazem muitos que estão nas manifestações recentes de protesto contra a imbecil e absurda morte de George Floyd, decorrente da ação criminosa de um policial, que não foi impedido por outros policiais, também contrariando seus deveres legais, todos os quais agiram com manifesto desprezo pela vida humana.

O ponto em questão é o fato de que muitos dos que estão nas ruas, normalmente os brancos, dizendo que vidas negras importam, são os mesmos que se fazem presentes em manifestações pela liberação do aborto, inclusive de mulheres negras, o que implica em inegável contradição, hipocrisia, porque o foco está em uma verdade inquestionável, as vidas negras importam, que acaba se transformando em uma mentira se a perspectiva do discurso do mesmo emissor aumenta, quando se trata dessa mesma vida em formação, que deixa de importar.

Mesmo reconhecendo que meu conhecimento da matéria é insuficiente, faço uma clara associação entre os movimentos racistas, de um lado, e o movimento judaico, de outro, ambos entendidos como a manifestação da supremacia da espécie, e, como não é possível haver duas supremacias, a opção nazista, que deve ser entendida como um movimento de esquerda, socialista e nacionalista, promoveu o holocausto, como tentativa de extinção de um movimento supremacista opositor, ideologicamente superior, e que era tratado com outros grupos como a parcela inferior da humanidade.

Não se pode esquecer, no ponto, que o nazismo se distinguia do comunismo porque este era socialista e internacionalista, sendo que o foco do primeiro era subjetivamente restrito, o povo ariano, e o do segundo subjetivamente mais amplo, a classe trabalhadora. Nos dois casos, o método de ação foi a eliminação das outras subjetividades.

Portanto, tirando alguns autênticos defensores da Vida e os negros, alguns dos quais também integram o primeiro grupo, que legitimamente defendem a preservação de suas vidas, que ficam em risco quando a cor da pele é motivo de violência, muitos que defendem a bandeira “black lives matter” são do mesmo espectro ideológico do comunismo e do nazismo, a ideologia de uma igualdade material, de classe ou nacional, responsável por dezenas de milhões de mortes humanas, e permanecem completamente omissos quanto às violações de vidas humanas na Coreia do Norte, na Venezuela e na China, por exemplo, e não levantam minimamente a voz em manifestação contra a morte do médico chinês que tentou alertar sobre o vírus e que se tivesse sido ouvido provavelmente poder-se-iam salvar dezenas de milhares de vias.

A questão fica extremamente complexa, nessa linha, quando colocado o presidente dos EUA no jogo argumentativo, pois ele é atacado com a pecha de racismo por seu linguajar às vezes ignorante e, quiçá, racista, quando, ao mesmo tempo, argumenta a favor da vida, contra o aborto, defende a liberdade civil em Hong Kong e coloca o Irã, cujos líderes políticos têm a declarada intenção de “varrer Israel da face da Terra”, como um dos perigos para a comunidade internacional, para a humanidade.

A ideia de supremacia ariana está associada à de supremacia judaica, uma forma de racismo, uma ideia limitada de humanidade. Muitos não conseguem enxergar essa realidade da visão judaica, cujo desenvolvimento levou ao conceito moderno de humanidade e dignidade humana, e era expressa até mesmo nas palavras de Jesus:

Entrou numa casa e não queria que ninguém soubesse, mas não conseguiu permanecer oculto. Pois logo em seguida, uma mulher cuja filha tinha um espírito impuro ouviu falar dele, veio e atirou-se a seus pés. A mulher era grega, siro-fenícia de nascimento, e lhe rogava que expulsasse o demônio de sua filha. Ele dizia: ‘Deixa que primeiro os filhos se saciem porque não é bom tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos’. Ela, porém, lhe respondeu: ‘É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas das crianças!’ E Ele disse-lhe: ‘Pelo que disseste, vai: o demônio saiu da tua filha’. Ela voltou para casa e encontrou a criança atirada sobre a cama. E o demônio tinha ido embora” (Mc 7, 24-30).

Tal é a mesma passagem de Mt 15, 21-28, na qual consta em nota da Bíblia de Jerusalém:

Jesus deve ocupar-se com a salvação dos judeus, ‘filhos’ de Deus e das promessas, antes de cuidar dos gentios, que aos olhos dos judeus eram apenas ‘cães’. O caráter tradicional dessa imagem e a forma diminutiva atenuam, nos lábios de Jesus, o que esse epíteto tinha de desdenhoso” (BÍBLIA DE JERUSALÉM. 1. ed. 9.ª reimpressão. São Paulo: Paulus, 2013, p. 1732).

Portanto, considerando que esta passagem é estranha aos ouvidos atuais, porque contradiz a imagem do Jesus “politicamente correto” que nos foi passada, certamente é classificada por Bart Ehrman como algo que o Jesus histórico verdadeiramente disse.

O cristianismo não é “politicamente correto”, é ontologicamente correto, cientificamente correto, filosoficamente correto e antecede a mensagem da política correta, o correto exercício do poder público fundado no império de uma Lei justa e conforme a vontade de Deus, ou conforme a Natureza, e nossa origem divina. Essa Lei era a Torá, interpretada pelos profetas, cujo cumprimento era a missão de Cristo, porque o Rei cumpre a Lei. Há uma hierarquia na ideia de humanidade, a qual progrediu a partir da visão judaica de mundo, que representava a melhor concepção de humanidade da antiguidade.

O cristianismo é a manifestação da subjetividade divina expressa por sujeitos humanos, porque com a morte de Jesus, o Messias Judeu, o povo judeu como nação perdeu provisoriamente sua posição privilegiada perante Deus, para voltar a este posto não mais com exclusividade nacional, mas como um dos povos filhos de Abraão, os povos dos filhos de Deus, os que têm a visão integral da humanidade e representam o ápice da espécie. Vale dizer que essa é a mensagem de Paulo, um antigo nacionalista judeu, que se transformou em israelita espiritual, defensor da nova humanidade, como evolução da humanidade judaica, que deixa de ser nacional e passa a internacional.

Não quero que ignoreis, irmãos, este mistério, para que não vos tenhais na conta de sábios: o endurecimento atingiu uma parte de Israel até que chegue a plenitude dos gentios, e assim todo Israel será salvo, conforme está escrito: De Sião virá o libertador e afastará as impiedades de Jacó, e esta será minha aliança com eles, quando eu tirar seus pecados. Quanto ao Evangelho, eles são inimigos por vossa causa; mas quanto à Eleição, eles são amados, por causa de seus pais. Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento. Com efeito, como vós outrora fostes desobedientes a Deus e agora obtivestes misericórdia, graças à desobediência deles, assim também eles agora são desobedientes graças à misericórdia exercida para convosco, a fim de que eles também obtenham misericórdia no tempo presente. Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia” (Rm 11, 25-32).

Interessante notar que, cientificamente, a subjetividade antecede a objetividade, porque todas as nossas experiências são, para nós, subjetivas e objetivas, enquanto para outros podem ser apenas subjetivas. Contudo, algumas pessoas especiais têm maior acesso à realidade, por dons que possuem, como sensibilidade ou inteligência aprimoradas, algumas vezes absurdamente desenvolvidas, no que devem ser incluídos os profetas da antiguidade e os grandes cientistas. Esses sujeitos tinham o foco correto em determinados temas e conseguiam antever o que ainda seria visto pelas outras pessoas posteriormente, e o que lhe era atribuído como niilismo muitas vezes era a manifestação direta de uma realidade muito mais ampla, objetivamente.

O maior desses sujeitos é Jesus Cristo, que, mesmo vindo no contexto da supremacia judaica, dada a superioridade inquestionável de sua religiosidade e de seu entendimento de Deus, tem como missão levar esse conhecimento superior para o governo das nações, no plano internacional, em que a vida do estrangeiro importa, em que o inimigo deve ser amado, ou seja, em que há direitos humanos. Nesse governo as vidas importam, porque reconhece que a Vida importa de Deus, é exportada de Deus, não é algo que vem da carne, mas do Espírito, e cada vida humana, desde o ventre materno, é um dom e uma graça de Deus, um Templo de Seu Espírito, e por isso de valor inestimável. Por isso:

Assim também, não é da vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca” (Mt 18, 14).

Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 39).

Jesus não falou de aborto nem de vidas negras, simplesmente porque era impensável para um judeu, que tinha uma ideia superior da Vida, cogitar um aborto e porque a cor da pele nunca importou no tempo de Cristo, que vivia no oriente médio, esteve no Egito, na África, em que a cor da pele negra era comum, irrelevante, sendo que o que importava era a fé da pessoa, seu modo de vida, e muitos judeus eram negros, sem que isso significasse qualquer redução do seu status religioso.

Portanto, se uns defendem vidas negras apenas por interesses políticos, e outros a elas não dão o valor devido, ambos baseados em ideologias políticas parciais, estão todos errados, Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia, porque Vidas importam, Lives matter.

Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos! Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe fez o dom para receber em troca? Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! Amém” (Rm 11, 33-36).

Um futuro inevitável

Um futuro é inevitável. Isso é um fato lógico, considerada a premissa do tempo, que vivemos no tempo, no qual os eventos se sucedem e o presente antecede o futuro, ambos com o passado atrás de si.

Qual o futuro inevitável é a grande questão, devendo ser destacado que a posição filosófica da pessoa determina o entendimento sobre o modus operandi da ação temporal: se existe ou não ordem; e qual seria sua causalidade.

Tenho concluído que o principal problema ou tema cognitivo está ligado à definição principiológica sobre a existência de ordem no mundo e quanto à sua origem, se há ou não cosmos, isto é, se vivemos em um mundo ordenado, disciplinado, organizado, que é o significado etimológico do termo kosmós; ou caótico, palavra derivada do grego khaos, que significava vazio, abismo, do verbo khaíno, com o sentido de abrir-se ou separar.

O caos era tido na mitologia grega como a divindade primitiva, portanto tema afeto às questões teológicas, as quais, com a filosofia grega, passaram a se confundir com as ideias racionais, porque a finalidade filosófica era exatamente explicar de forma inteligível e natural, com uma simbologia mais concreta, a origem do mundo, em substituição às narrativas mitológicas e religiosas primitivas, que eram a forma de conhecimento do mundo e, ressalte-se, permitiram a unidade social e a sobrevivência e o desenvolvimento da humanidade por dezenas de milhares de anos.

Entre os gregos havia um certo consenso no sentido de que havia uma ordem atual de mundo, porque sem essa pressuposição a própria ideia de conhecimento se tornaria impossível.

Para os materialistas a “ordem (o cosmo) é efeito de encontro mecânico entre os átomos, não projetado e não produzido por uma inteligência. A própria inteligência segue-se ao e não precede o composto atômico” (Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia: Filosofia pagã antiga. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003, p. 46).

No extremo oposto do espectro filosófico estão a ideia platônica do Bem, como origem do mundo, e o Deus do Monoteísmo, O Criador de todas as coisas.

Existe uma diferença ontológica entre os modos de pensar dos dois últimos parágrafos, são dois universos completamente distintos, se um é verdadeiro o outro é necessariamente falso.

É importante ressaltar que a Ciência moderna e a civilização ocidental se baseiam na ideia Monoteísta, do Deus Criador, porque esse era um pressuposto necessário no desenvolvimento das ideias de Galileu, Descartes e Newton. A ciência tem por finalidade a busca dessa inteligência que está na origem da harmonia do mundo natural, sobre como funcionam as coisas.

A ordem das ideias é importante, explicando porque determinados pensamentos surgiram, especialmente quanto à chamada revolução científica e seus desdobramentos, porque Galileu viveu entre 1564 e 1642, tendo sido condenado pela inquisição, enquanto a vida de Descartes ocorreu entre 1596 e 1650, e este também sustentou ideias heliocêntricas, mas não as publicou, porque Galileu já estava tendo problemas com a Igreja. Numa época de dúvidas sobre a autoridade teológica da Igreja, com reflexo em assuntos sobre o conhecimento do mundo natural, Descartes baseou seu conhecimento subjetivo, de um lado, na dúvida, questionando tudo o mais que existe além de si mesmo; mas, de outro lado, sua ideia sobre o mundo objetivo, o mundo material, estava assentado na ideia de Deus. Havia, pois, um ceticismo parcial, pois ainda subjazia a crença na ordem divina de mundo.

Newton viveu entre 1643 e 1727, e considerava Deus como a origem da harmonia celeste. Portanto, o principal nome da revolução científica entendia que a ordem do mundo era fruto da ação de Deus, e não o resultado do encontro mecânico e aleatório de átomos, como defendiam os materialistas gregos.

Em um tempo de vida humana de duzentos mil anos, com registros de domínio de pensamento religioso pelo menos há dez mil anos, pode ser considerada uma exceção a ampla difusão do pensamento ateísta no mundo atual, principalmente nos últimos trezentos anos, com destaque para o século XX e os horrores nele ocorridos.

Com a física moderna, a questão da ordem do mundo chegou a limite do inimaginável, especialmente quanto ao mundo quântico e ao princípio da incerteza, e em relação a este existem duas posturas fundamentais, uma no sentido de que esse princípio representa uma restrição epistemológica, um limite ao nosso conhecimento da causalidade do mundo natural, enquanto outros sustentam que a indeterminação é ontológica, própria do mundo natural.

Se a incerteza é epistemológica, o futuro pode ser determinado, ainda que não tenhamos condições intelectuais ou experimentais de antecipá-lo. Se a incerteza é ontológica, é impossível predizer o conhecimento sobre o futuro, notadamente aquele mais distante.

Como cristão, alinhado ao pensamento monoteísta, para ser coerente, entendo que a única opção é pela incerteza epistemológica, interpretando esse princípio como uma limitação ao nosso conhecimento do mundo por meios materiais. Porque, sendo Deus o Criador de todas as coisas, Ele estabeleceu a ordem que há no mundo, e pode antecipar os acontecimentos futuros, e o fez, através dos profetas.

Voltemos, então, ao pensamento que proporcionou a revolução científica:

Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 19, 1).

Deus controla a ordem do mundo. “Não se vendem dois pardais por um asse? E, no entanto, nenhum deles cai em terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até mesmo os vossos cabelos foram todos contados” (Mt 10, 29-30).

Entendo, assim, que há ordem, ou sentido, também na História, e estamos diante de uma série de acontecimentos associados à vinda do Reino de Deus, precedida de vários eventos importantes, muitos dos quais vivemos de forma única em nossa geração, com destaque para a restauração do Estado de Israel, decorrente da ação messiânica de Jesus Cristo, e em torno desse povo existem algumas profecias importantes para os desdobramentos finais desse tempo.

Na semana que passou, mais uma notícia confirma tal narrativa, porque o primeiro-ministro de Israel está empenhado em recuperar o domínio sobre parte das terras ocupadas por palestinos, estabelecendo que as reuniões sobre o tema, uma prioridade de seu governo, começarão em 1.º de julho, e que não perderá a oportunidade única atual, relativa ao apoio do governo dos EUA, para exercer soberania sobre a Judeia e a Samaria (https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2020052615622851/).

Em um mundo já desequilibrado pela pandemia e seus efeitos, Israel pretende aumentar significativamente a complexidade das relações internacionais, provocando o que talvez seja a etapa final de realização das profecias bíblicas, até que, enfim, cheguemos a um futuro inevitável, impossível de ser antecipado materialmente, mas previsto espiritualmente pelos profetas do Altíssimo.

Para onde vamos

A resposta à referida indagação está coligada ao entendimento sobre nossa origem. E isso vale tanto para os indivíduos como para as sociedades, e possui profunda significação filosófica, ou teológica.

Vale dizer que, na sua origem, o Cristianismo não faz distinção entre Filosofia e Teologia, e qualquer entendimento que refute esse pressuposto está alheio à realidade permanente que é o Cristianismo. A razão desse fato é muito óbvia, Jesus, antecipando o mundo futuro, manifesta o Logos na humanidade, conceito este extraído da filosofia grega, que remete a Heráclito, de modo que a própria ideia Cristã, enquanto Teologia, está fundada sobre a Filosofia, conjugando uma narrativa de mundo judaica aos conceitos filosóficos básicos gregos sobre a racionalidade do mundo natural.

Se existe uma Sabedoria, ou o Logos, em nossa origem, como defendiam Heráclito, Platão e como está na base do Monoteísmo judaico-cristão-muçulmano, esse mesmo é nosso destino, havendo possibilidade teórica de se perquirir esse caminho. De outro lado, se a ordem do mundo é fortuita, a previsibilidade futura é enormemente restrita, e o caos pode aumentar até que a humanidade viva uma completa distopia.

Nesse sentido, pode-se considerar como dada a existência de uma profunda dissonância cognitiva na mentalidade ocidental, o que presumo tenha validade para a oriental, por menor que seja meu conhecimento sobre o outro lado do mundo, diante da predominante ausência de consonância entre o pensamento científico e o religioso, entre Filosofia da Ciência e da Religião, pelo simples fato de Ciência e Teologia serem consideradas disciplinas absolutamente distintas, quando são uma só e mesma forma de conhecimento. A impossibilidade de compreensão dessa situação é fruto de falhas inseridas nas raízes dos respectivos marcos teóricos divergentes.

Outrossim, a dissonância cognitiva será superada apenas caso haja uma conciliação fundante entre Ciência e Teologia, ou na hipótese de predomínio absoluto de uma visão sobre a outra. A falta de entendimento, por sua vez, perpetuará a esquizofrenia mental da humanidade e a falta de entendimento do mundo natural e humano.

Dentro da visão monoteísta, a ordem de mundo futura é antecipada a algumas pessoas, chamadas profetas, fenômeno que recebe o nome de revelação, e mostra previamente, de forma mais ou menos obscura, o caminho a ser seguido por uma pessoa, uma nação ou toda humanidade, especialmente em relação ao destino comum dos povos, que hoje é um fato consumado.

É inequívoco que vivemos uma situação muito especial na História humana, porque, se em termos nominais o planeta continua do mesmo tamanho, a ligação planetária se estreitou de uma forma como nunca havia ocorrido, e chegamos a um momento em que as maiores distâncias podem ser superadas em horas, quanto ao deslocamento de pessoas, enquanto a troca de informação é praticamente instantânea em todo orbe.

A disseminação do vírus, assim, é um sintoma dessa nova realidade, e talvez, ou muito provavelmente, a primeira das últimas grandes pragas, ou tragédias humanitárias, que antecederão o novo governo planetário, ou a nova ordem global.

Minha convicção profunda é no sentido de que essa situação emergente se refere à realização da mensagem evangélica, comprovando a essência veraz do Cristianismo. Contudo, paradoxalmente, para tal empreitada, a mudança comportamental possivelmente será mais radical no ocidente, no chamado mundo Cristão, do que no oriente, incluídos o mundo islâmico, a China e a Rússia.

A chamada Era Messiânica, ou Reino de Deus, é baseada numa obediência irrestrita aos mandamentos divinos, o que significa a submissão individual ao Logos, e nesse ponto o mundo ocidental, no tocante ao seu individualismo quase anárquico, de viés materialista, sentirá mais fortemente os efeitos da necessidade de contenção dos instintos egoístas, do consumo irracional e do relativismo moral associado às ideias do politicamente correto, significando um avanço civilizatório que para muitos é considerado um retrocesso cultural. Essa é uma necessidade racional, indispensável, para permitir tanto o equilíbrio do mundo natural quanto a harmonia social.

O mundo corânico já espera, em boa parte, o “retorno de Jesus”, acompanhando o Imam Mahdi, que encherá o mundo de justiça, e ainda que seja necessário um aprimoramento na Teologia islâmica, para, dentre outras coisas, compreender a superioridade profética de Yeoushua sobre Muhammad, a ideia de uma vida religiosa dentro dos contextos sociais e políticos ainda é uma realidade muçulmana.

A Rússia já é uma nação cristã, e seus problemas políticos, como no ocidente, serão resolvidos quando compreendida a questão teológica, provavelmente após o conflito envolvendo Irã e Israel, como limite da desordem política planetária, que levará ao “transbordamento da ‘ira’ de Deus”.

A China, finalmente, não poderá ficar isolada do mundo, tanto por uma questão de sua sobrevivência, para alimentação de sua população, quanto por sua já existente proximidade com a Rússia e com nações islâmicas, e será afetada pelo citado conflito e seus desdobramentos. Nesse sentido, já ocorre um processo de integração com o mundo ocidental, de superação crescente do ideário comunista, valendo dizer que a repressão à “democracia individualista”, como salientado acima, também será uma necessidade ocidental, e as origens confucionistas e taoístas podem facilmente ser resgatadas com um viés cristão, associado à aceitação da dignidade humana pelas autoridades chinesas.

Entretanto, o processo de libertação é doloroso, pois o coração dos faraós continuará endurecido, e a intensidade das pragas deve aumentar, tal como narrado nas Escrituras, para eventos passados e futuros. Ainda há dor no porvir, mas, para onde vamos, o que nos espera é a Glória de Deus.

Será derramado outra vez sobre nós um Espírito que vem do alto. Então o deserto se transformará em jardim, e o jardim será tido como floresta. O direito habitará no deserto e a justiça morará no jardim. O fruto da justiça será a paz, e a obra da justiça consistirá na tranquilidade e na segurança para sempre. O meu povo habitará em moradas de paz, em mansões seguras e em lugares tranquilos. Embora a floresta venha abaixo, embora a cidade seja humilhada, sereis felizes, semeando junto de águas abundantes, deixando andar livres os bois e os jumentos” (Is 32, 15-20).

O espírito do Senhor Iahweh está sobre mim, porque Iahweh me ungiu; enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos, a proclamar um ano aceitável a Iahweh e um dia de vingança do nosso Deus, a fim de consolar todos os enlutados, os aflitos de Sião, a fim de dar-lhes um diadema em lugar de cinza e óleo de alegria em lugar de luto, uma veste festiva em lugar de um espírito abatido. Chamar-lhes-ão terebintos de justiça, plantação de Iahweh para a sua glória” (Is 61, 1-3).

A mentalidade viral

O vírus é um ser que tem causado enormes estragos à vida humana ao longo da história. A despeito disso, e do magnífico desenvolvimento científico dos últimos séculos, é controversa e muito debatida sua classificação como ser vivo. Sem entrar em detalhes sobre uma posição sobre essa divergência, salta aos olhos a questão técnica do tema para além dessa definição, na medida em que há um grande debate científico e político sobre as medidas corretas a serem adotadas para combater a pandemia, do uso de medicamentos específicos à forma e intensidade do isolamento necessário para preservação da vida humana, bem como os efeitos de médio e longo prazo das ações públicas adotadas.

Tem-se falado que a pandemia destacou a importância da ciência nas discussões políticas, mas tal argumento é completamente omisso quanto à divergência científica essencial sobre uma definição básica se o vírus é ou não vivo. Ainda que essa posição conceitual não tenha maiores reflexos na situação pandêmica, num primeiro momento, é fato incontroverso que demonstra uma insuficiência cognitiva moderna fundamental ao (não) conceituar uma questão fulcral, que é a própria classificação de algo como vivo ou não.

A conclusão única a que se pode chegar é essa: a Ciência conhece parcialmente o funcionamento de alguns seres vivos, mas ignora o que seja a Vida, falta de conhecimento essa que se estende à questão da origem da vida no planeta, fato ainda obscuro e dependente de uma explicação científica.

Se é possível aceitar parcialmente uma evolução da vida, ainda permanecem como absolutamente abertas as questões essenciais sobre a origem da vida e, pode-se falar, das espécies. Neste último ponto, a carência de uma enormidade de seres vivos intermediários, as supostas tentativas evolutivas que não teriam dado certo no processo cego e aleatório de especiação, é um buraco negro da teoria evolutiva, estando as perguntas formuladas por Darwin ainda pendentes de respostas científicas adequadas e coerentes com os dados experimentais.

O problema, segundo penso, está na mentalidade que embasa o conhecimento científico predominante, vinculado a um materialismo que rejeita qualquer argumento ou conceito associado à ideia de um Deus criador ou a uma realidade espiritual.

A solução está em estabelecer a mentalidade correta da Vida, que entendo ser baseada em dois axiomas ou valores inescapáveis: Deus no céu e Jesus Cristo na terra. Tal mentalidade é oposta à mentalidade viral. Significa a Vida que se manifestou em Jesus, trazendo à humanidade o Logos, o Espírito do criador, renovando o próprio conceito e sentido da evolução da espécie, sendo que a literatura bíblica, na Carta aos Efésios, já falava em “homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4, 24), ou seja, com qualidades espirituais associadas à vida social.

É possível dizer que o vírus tem uma mentalidade, um sentido existencial, ainda que não seja propriamente uma consciência. A mentalidade do vírus é essencialmente egoísta, é o perfeito gene egoísta de Richard Dawkins, porque sua única finalidade é a reprodução infinita de uma individualidade genética, para o que deve utilizar as células vivas que invade e destrói. É algo entre o puramente material e o vivo, e que usa a vida para se reproduzir, em detrimento de tudo mais.

Uma parte de nós possui essa mentalidade viral, de reprodução, que pode repercutir em outros aspectos da vida, no sentido de conduzir o indivíduo à satisfação de ideias e vontades individuais, corporais e espirituais, e nesse aspecto somos muito mais complexos que os vírus, para o que também podemos usar a vida a nossa volta, em detrimento da própria Vida.

A humanidade tem se portado coletivamente como um vírus, quase como regra, porque adotamos uma mentalidade destrutiva, da cultura inútil, que hoje é chamada de arte, ao consumo irresponsável de bens que deixa um rasto de morte semelhante ao provocado pela infestação viral, tudo conduzido por políticas, de um lado, pela esquerda, materialistas, individualistas e igualitárias, que ignoram algumas diferenças biológicas essenciais indispensáveis para a formação da vida, e, de outro, pela direita, materialistas, individualistas e igualitárias, que ignoram algumas diferenças sociais estruturais que impedem o florescimento de parcela significativa humanidade.

Interessante que assim como o vírus, que é para nós invisível, também as questões espirituais são invisíveis, e muitas vezes somente são percebidas quando efeitos nocivos são produzidos no plano corporal, o que, no caso das ideias, vale para o corpo social, incluídas pessoas que compõem a sociedade, dos milhões de mortes causadas pelas ideias marxistas, e vidas ignoradas pela mentalidade revolucionária, aos milhões de mortes causadas pelas guerras capitalistas, e vidas ignoradas pela mentalidade meramente econômica.

Daí porque é necessário resgatar a mentalidade de Cristo, que se identificou como a Vida, e não é de admirar que a ciência desconheça tanto o conceito biológico da Vida quanto sua acepção espiritual, que também é material, elaborada por Jesus de Nazaré, que significa tanto justiça social quanto liberdade individual, em ambos os casos segundo uma razão comum, o Logos, o Espírito na carne que se volta para o Espírito.

Assistindo ontem ao programa da CNN “Mundo Pós-Pandemia”, com o neurocirurgião Fernando Gomes, em determinado momento ele afirmou que conversou com um pastor e indagou a este se estávamos vivendo o Apocalipse, tendo recebido uma resposta negativa do religioso, momento em que as entrevistadoras ficaram aliviadas com essa informação.

Se minha proposta constante do artigo “O Apocalipse e a Verdade” (https://holonomia.com/2020/03/28/o-apocalipse-e-a-verdade/) estiver correta, e tenho uma convicção teórica e pessoal profunda no sentido de que efetivamente está, a resposta dada pelo pastor e o alívio das jornalistas somente expressam a ignorância do mundo atual quanto ao que seja a mentalidade Cristã e ao significado dos eventos do mundo desde (antes d)a vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré.

O Apocalipse se refere a um longo período de tempo em quem vem ocorrendo eventos que manifestam a essência da Vida humana, a qual está no polo oposto existencial ao do vírus, entre a vida material e a divindade.

E o evento mais importante da História é exatamente a ressurreição de Jesus, que se posiciona em posição contrária à do vírus, porque da morte do Messias se seguiu a nova forma da vida, o corpo glorificado, indicando o Caminho para chegar a essa situação evolutiva de Vida coletiva, ou seja, o autossacrifício pelo Logos, que produz o Logos, ao contrário do vírus, em sua autorreplicação que gera a morte de seu entorno.

Quando vejo a batalha política voltada à reprodução de mandatos, de ideias materialistas, à esquerda e à direita, enquanto no mundo jurídico o conceito de Logos continua sendo ignorado, quando se pretende afirmar uma laicidade ateia do Estado em detrimento de símbolos cristãos, negando e rejeitando o evento mais importante da humanidade, em termos filosóficos, políticos, jurídicos e científicos, a vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, e o seu significado, quando vejo a mentalidade viral em uma de suas manifestações mais dantescas, estupefato, lamento profundamente, enquanto espero o desdobrar dos acontecimentos, e me lembro das palavras do Messias em seu momento glorificador: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

Salmos

A Amazon, recentemente, liberou vários livros eletrônicos para serem baixados gratuitamente, pelo que, aproveitando essa oportunidade, selecionei vários textos para leitura futura, dentre eles “Salmos”, do teólogo N. T. Wright, autor esse já referido no artigo “Teologia Cristã em Paulo” (https://holonomia.com/2019/07/04/teologia-crista-em-paulo/).

Obviamente, a pessoa mais importante da história do Cristianismo é Jesus de Nazaré, o próprio Cristo, e penso que é praticamente uma unanimidade que a segunda maior referência é Paulo, ao qual é atribuída quase metade dos livros do novo Testamento, sendo sete deles aceitos pacificamente pelos estudiosos como autênticos escritos do referido apóstolo.

É importante ressaltar que Wright participa de um movimento que faz nova leitura teológica, uma nova perspectiva, sobre o significado da mensagem de Paulo, o que se aplica ao próprio Cristianismo. No livro “Salmos”, assim, essa visão serve de meio para a interpretação dos cânticos respectivos, e seu significado existencial dentro da revelação monoteísta.

O livro bíblico Salmos foi composto em sua maior parte na época do exílio babilônico, por volta do século VI a.C., como poemas, os quais eram cantados até a época de Jesus: “Depois de terem cantado o hino (salmos), saíram para o monte das Oliveiras” (Mt 26, 30; Mc 14, 26).

Os salmos eram conhecidos dos judeus da época de Jesus, o que inclui o Messias e seus seguidores, da mesma forma como sabemos de cor canções populares, mas no caso daqueles o conteúdo dos hinos era expressão artística de um sentimento religioso, sendo que “cantavam e oravam Salmos, dia após dia e mês após mês, levando o livro a modelar seu caráter, aguçar sua visão de mundo, enquadrar sua leitura do restante da Escritura e, acima de tudo, alimentar e fornecer recursos à vida ativa que levavam, fomentando esperanças que preservavam a confiança em seu Deus, o criador do universo, mesmo quando tudo parecia sombrio e estéril” (N. T. Wright. Salmos: contextos históricos, literário e espirituais para resgatar o significado do hinário do antigo Israel. Tradução de Elissamai Bauleo. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020, versão eletrônica).

O autor faz uma importantíssima distinção entre a mentalidade moderna e aquela do tempo de Jesus, para além da situação científica, no sentido de que “os primeiros cristãos, judeus do primeiro século cuja fé era que o Deus de Israel cumprira suas promessas antigas em Jesus de Nazaré, correspondiam ao que eu e outros chamamos de ‘monoteístas criacionais’. Isto é: eles criam que o único Deus criador, tendo feito o mundo, permanecia ativo e dinâmico em relação à sua criação” (Idem).

Portanto, trata-se da típica visão teísta, mais do que o simples deísmo do Deus criador, porque no teísmo há relacionamento contemporâneo do Criador com a criatura, sendo ainda válidas as promessas feitas aos antepassados, “de habitar com ele (seu povo) e estabelecer seu governo soberano, na terra como no céu” (Idem).

Wright destaca que a visão dos judeus é antiga como também o é a filosofia de Epicuro, que propunha um universo não criado por deuses, entendendo que estes, se existiam, não se importavam com as questões humanas.

Em termos populares, a mensagem era a seguinte: balance os ombros e usufrua a vida da melhor forma que você puder. Soa familiar? Essa é a filosofia cujo ideal nosso mundo moderno adotou, em grande medida, como norma.

O problema com o qual nos deparamos ao ler, orar e cantar partes da Bíblia não é que ela é ‘velha’, em contraste com nossa ‘nova’ (e, portanto, de alguma forma superior) filosofia atual. O problema é que, das muitas visões de mundo antigas, a Bíblia tem absolutamente uma só, enquanto boa parte do mundo ocidental moderno tem uma visão diferente. Nossa visão de mundo prevalecente não é mais ‘moderna’ do que a visão de mundo dos primeiros cristãos. O que acontece é que muitos cientistas proeminentes dos séculos XVIII e XIX, atraídos ao epicurismo por diversas razões (sociais, culturais e políticas), interpretaram suas observações científicas legítimas e adequadas (em relação, por exemplo, à origem e ao desenvolvimento de diferentes espécies de plantas e animais) nos moldes epicureus. Por isso, presume-se que a ‘ciência’ realmente apoia esse ponto de vista desassociado da ‘divindade’, restando um mundo que se desenvolve sozinho. Mas essa interpretação é profundamente enganosa. O epicurismo, então, é uma visão de mundo antiga, resgatada, porém, no Ocidente moderno como algo novo” (Idem).

Wright ressalta a visão de mundo contida nos Salmos, convidando os cantores a “viver na junção de tempo, espaço e matéria”, algo bem moderno em termos científicos, porque adequado à física do século XX, fundindo passado e futuro no presente, o espaço humano com o divino, terra e céu, e a ordem criada atual com aquela dotada ainda mais do esplendor de Deus, os novos céu e terra.

O livro de Salmos, conforme sugiro, compõe-se de cânticos e poemas que nos ajudam não apenas a entender essa visão de mundo antiga e relevante, mas a realmente captá-la e celebrá-la – perspectiva segundo a qual, em contraste com a maior parte dos pressupostos modernos, o tempo de Deus e o nosso se intercalam e intersectam; o espaço de Deus e o nosso se interpõem e interligam; e, de maneira ainda mais surpreendente, o próprio mundo material da criação divina é infundido, tomado e inundado com a vida, o amor e a glória de Deus” (Idem).

O autor indica a leitura dos Salmos como forma de entendimento do contexto histórico narrado na Escrituras, segundo a leitura Cristã, entendendo que por meio de Jesus houve a interseção do tempo, do espaço e da matéria de Deus com os nossos, significando o Deus criador assumindo o reinado e o governo na terra como no céu.

A ressurreição é, nesse sentido, a fusão de futuro e presente, a antecipação da nova criação, em que terra e céu coabitam, em que os corpos terão outra consistência física, algo radiativa.

Essa percepção não é alcançada pelo leitor “moderno”, moldado por uma visão epicurista e materialista de mundo que não tem suporte nem mesmo nas leituras mais avançadas da ciência atual, porque descartada a existência dos átomos materiais que fundamentavam aquela outra filosofia antiga (epicurista), a qual ainda contamina indevidamente a mente das pessoas.

A questão não é tanto que o mundo não crê em Deus: a maioria das pessoas simplesmente não consegue imaginar o que seria viver no mundo de Deus, em seu tempo, espaço e matéria” (Idem).

Isso significa viver conforme seus mandamentos, pelo exemplo de Jesus, com as dificuldades que ainda decorrem de se tentar viver pelo Espírito num mundo regido pelo hedonismo epicurista, com amplo suporte político e jurídico.

Mesmo que seja inimaginável ver Deus retomando o controle dos governos humanos, a história mostra, especialmente pelo próprio movimento Cristão, que o Altíssimo é pródigo em proporcionar viradas retumbantes no curso dos acontecimentos. Talvez, e penso que sim, estejamos imersos em uma dessas situações históricas.

Venha o teu Reino, seja feita a tua Vontade na terra, como no céu.

Por que as nações se amotinam, e os povos meditam em vão? Os reis da terra se insurgem, e, unidos, os príncipes conspiram contra Iahweh e contra o seu Messias: ‘Rebentemos seus grilhões, sacudamos de nós suas algemas!’ O que habita nos céus ri, o Senhor se diverte à custa deles. E depois lhes fala com ira, confundindo-os com seu furor: ‘Fui eu que consagrei o meu rei sobre Sião, minha montanha sagrada!’ Vou proclamar o decreto de Iahweh: Ele me disse: ‘Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede, e eu te darei as nações como herança, os confins da terra como propriedade. Tu as quebrarás com um cetro de ferro, como um vaso de oleiro as despedaçarás’. E agora, reis, sede prudentes; deixai-vos corrigir, juízes da terra. Servi a Iahweh com temor, beijai seus pés com tremor, para que não se irrite e pereçais no caminho, pois sua ira se acende depressa. Felizes aqueles que nele se abrigam!” (Salmo 2)

Realismo moral

Retomo um tema fundamental do artigo “Heteronomia, autonomia e holonomia – A logocracia” (https://holonomia.com/2020/04/11/heteronomia-autonomia-e-holonomia/), quanto à necessidade de se fixar um limite à autonomia individual na formação das regras morais, sob pena de se cair inevitavelmente em um relativismo moral, o qual entendo socialmente nefasto.

Encerrando a leitura de “O juízo moral na criança”, de Piaget, vale destacar o percurso através do qual cheguei ao referido texto, o que significo como uma observação atenta de sinal deixado pela Providência, haja vista que A tenho como pressuposta em minha visão de mundo, pelA Qual não há acaso ou sorte, mas uma interconexão profunda e material em tudo o que existe, pois “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1, 31), e Ele “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4), na medida em que “nada podemos contra a verdade, mas só temos poder em favor da verdade” (2 Cor 13, 8). Outrossim, defendo que existe Verdade, o que afasta a possibilidade de um relativismo moral, Verdade que deve ser buscada teológica, filosófica e cientificamente.

O livro “O juízo moral na criança”, de Piaget, é uma das indicações bibliográficas de Jordan Peterson (https://www.jordanbpeterson.com/great-books/), cujo tema é afeto à área jurídica, e por isso o interesse pela obra. A Peterson cheguei pela Providência, quando, por volta de junho de 2018, assistia a um vídeo sobre o CERN, em um site evangélico com temas do Apocalipse, do qual não me recordo no momento, e no vídeo foi inserida uma fala de Peterson, a quem desconhecia, em palestra na Oxford Union, a qual assisti posteriormente em sua versão completa (https://www.youtube.com/watch?v=UZMIbo_DxJk).

Como descrito no Apocalipse, obra que revela a Verdade na História:

Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu. Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada — foi expulso para a terra, e seus Anjos foram expulsos com ele.” (Ap 12, 7-9).

Se tudo o que Deus criou é muito bom, não apenas bom, mas muito bom, e não vemos essa bondade tão facilmente a nossa volta, tendo havido uma guerra no céu, onde já foi vencida, resta a guerra ser vencida na Terra por meio do, ou após o, governo humano dos reis e sacerdotes de Cristo, as autoridades sábias e justas, para que vejamos a bondade da criação em sua plenitude. A Verdade já venceu no céu, mas na Terra a mentira ainda reina e tem grande poder, na guerra em que batalhamos, e o fato de Peterson, uma espécie de marechal atual nesse conflito, não ser muito conhecido no Brasil decorre da ocultação da Verdade praticada por grande parte pela mídia e da academia, também em razão de não aceitarem a própria existência da Verdade.

Vale dizer que o livro de Piaget é realmente muito bom, e no final ele faz uma comparação de sua investigação da moralidade infantil com a formação da moral na sociedade, por meio de referências à obra “A Responsabilidade”, do sociólogo francês Fauconnet, além de considerar o entendimento sociológico de Durkheim.

Em Fauconnet é explicada a evolução da responsabilidade social, de inicialmente objetiva e comunicável, para subjetiva e individual. Assim profetizou Fauconnet:

A responsabilidade estritamente pessoal é como o último valor positivo de uma responsabilidade que tende a tornar-se nula. Deste ponto de vista, a evolução da responsabilidade aparece como uma regressão. O que tomamos por responsabilidade perfeita é a responsabilidade enfraquecida e a ponto de desaparecer” (Apud Jean Piaget. O juízo moral na criança. Tradução Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994, p. 248).

A expressão “profetizou” se explica no garantismo penal extremo, hoje defendido por muitos, o que acaba, de fato, por tornar nula a responsabilidade individual penal.

Fauconnet explica que a responsabilidade passou a depender da consciência do responsável, como uma questão espiritual, pelo fato de a sociedade ter se tornado imanente ao indivíduo, pois a vida social se torna interior enquanto se individualiza, no movimento de espiritualização da responsabilidade. E complementa:

Da mesma forma que a individualização da responsabilidade, sua espiritualização no decorrer da histórica aparece, então, como um imenso empobrecimento, uma perpétua abolição. A responsabilidade subjetiva, bem longe de ser, como o admitimos geralmente, a responsabilidade por excelência, é uma forma atrofiada de responsabilidade” (Idem).

Piaget informa que Fauconnet segue Durkheim na sua metodologia, definindo sua (Fauconnet) noção de responsabilidade a partir do que entendeu como seu elemento estrutural, que é a noção de crime, o fato invariante no conceito de responsabilidade, enquanto Piaget adota uma análise preferencial da evolução da noção de responsabilidade.

Para Piaget, a moralidade evolui de uma moral de coação, dever puro, heteronomia e responsabilidade objetiva, em que existe sanção expiatória, para uma moral de cooperação, solidariedade, autonomia e responsabilidade subjetiva, na qual a sanção torna impossível a autonomia da consciência.

Depois de ressalvar o ponto de vista jurídico, em que talvez seja a sanção necessária para defesa da sociedade, destacando, contudo, a moderna ideia de reeducação e readaptação social, Piaget conclui:

Portanto, entre a responsabilidade interior, que vai a par com a autonomia da consciência e que resulta das relações de cooperação, e a forma de responsabilidade ligada à ideia de sanção expiatória e, por consequência, à coação e à heteronomia, não há simples filiação: um novo tipo de atitude moral sucedeu a uma atitude prescrita, e a continuidade de fato não deve ocultar a diferença de natureza.

Em conclusão, e aí é que queríamos chegar, porque este resultado nos será indispensável na sequência, a coação social e a cooperação não chegam a resultados morais comparáveis. A coação social – entendemos assim toda relação social na qual intervém um elemento de autoridade e que não resulta, como a cooperação, de pura troca entre indivíduos iguais – tem como efeitos sobre o indivíduo resultados análogos ao da coação adulta em relação ao espírito da criança. Porque, na realidade, os dois fenômenos constituem apenas um só, e o adulto, dominado pelo respeito unilateral dos ‘Velhos’ e da tradição, conduz-se à maneira de uma criança. Podemos mesmo afirmar que o realismo das concepções primitivas do crime e da sanção é, em alguns aspectos, uma reação infantil. Para o primitivo, o universo moral e o universo físico são um só: a regra é, simultaneamente, lei do universo e princípio de conduta. É por isso que o crime ameaça o equilíbrio do próprio universo e deve ser misticamente anulado por uma expiação adequada. Mas esta ideia de uma lei ao mesmo tempo física e moral está no centro da representação do mundo da criança, a qual, sob o efeito da coação adulta, só pode conceber as leis do mundo físico sob as formas de uma certa obediência das coisas à regra” (Jean Piaget. O juízo moral na criança. Tradução Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994, pp. 253-254).

É possível inferir do início do presente texto, porque sustento uma interconexão profunda e material em tudo o que existe, que entendo haver moralidade física, na própria criação, resultante do fato de que “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1, 31).

Portanto, minha visão é, sim, semelhante ao realismo das concepções primitiva e infantil, porque concebo que o universo moral e o universo físico são um só, pelo que a regra é, simultaneamente, lei do universo e princípio de conduta, bem como a ideia de uma lei ao mesmo tempo física e moral. É importante lembrar, nesse sentido, as palavras do próprio Messias: “aquele que não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele” (Lc 18, 17).

Se minha visão é fruto, em grande parte, o que deve ser expressamente reconhecido, de uma concepção teológica de mundo, ao mesmo tempo reflete um profundo exercício de teologia natural, a partir da física quântica, na leitura de David Bohm do universo como uma totalidade indivisível, com seu holomovimento e sua holonomia, esta, portanto, uma como lei do universo e princípio de conduta, uma lei ao mesmo tempo física e moral.

Possível, assim, compatibilizar o realismo moral com a responsabilidade subjetiva. Já a própria Bíblia, em que a ideia de realismo moral está presente, há cerca de dois mil e quinhentos anos, sustenta a evolução em direção à responsabilidade subjetiva.

Nesses dias já não se dirá: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram. Mas cada um morrerá por sua própria falta. Todo homem que tenha comido uvas verdes terá seus dentes embotados” (Jr 31, 29-30).

Claramente, a passagem fala de responsabilidade pessoal, que está associada à Nova Aliança:

Eis que dias virão — oráculo de Iahweh — em que selarei com a casa de Israel (e com a casa de Judá) uma aliança nova. Não como a aliança que selei com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los sair da terra do Egito — minha aliança que eles mesmos romperam, embora eu fosse o seu Senhor, oráculo de Iahweh! Porque esta é a aliança que selarei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Eu porei minha lei no seu seio e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhecei a Iahweh!’ Porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores, — oráculo de Iahweh — porque vou perdoar sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31, 31-34).

Fundamental, portanto, a retomada da discussão teológica, relativa à ideia do Pecado Original, que Piaget, dentro de uma determinada leitura religiosa, associa à de responsabilidade objetiva e coletiva, em que a “humanidade inteira é votada à condenação eterna pelos pecados de seus primeiros antepassados” (Idem, p. 252), questão ligada à antiga aliança, renovada e transcendida por Jesus de Nazaré, o Messias, que aceitou a responsabilidade objetiva para que a Lei se cumprisse, tornando subjetiva a responsabilidade, o que se deu pelo cumprimento pleno da Lei e dos Profetas, sendo o Rei Justo e Santo, que deu a vida pelos seus, e ressuscitou, sendo a ressurreição imediata um dos efeitos físicos de sua ação moral perfeita, irrepreensível. O antigo testamento relata outras situações em que a ação moral repercutiu na vida física da pessoa, notadamente em relação a Enoque e Elias, que andaram com Deus e não experimentaram a morte corporal, sendo, de alguma forma, transcendidos para a realidade celestial.

Os erros morais, as faltas morais das pessoas, outrossim, têm consequências cumulativas e postergadas no tempo, como regra, mas determinadas ações morais, boas e más, praticadas por pessoas em posições governamentais e simbólicas especiais, com função social relevante, possuem efeitos imediatos, e de grandes proporções, para a vida e para a morte.

O limite à autonomia individual, portanto, é o Logos, não se permitindo o exercício da autonomia enquanto ação irracional, mesmo quando decorrente de cooperação e solidariedade meramente grupais, as quais podem se voltar contra a própria humanidade, contra a Natureza, do que a história está repleta de exemplos.

O limite individual é a coletividade, a razão pública, é o conhecimento de Iahweh, o Logos, de cuja imitação depende a realização da boa realidade moral na Terra, o que acontece a “quem é como Deus”, como Miguel, que ganhou a batalha no céu, e Jesus, o Messias, que também é como Deus e venceu a batalha na Terra, derrotando o pecado e a morte, tornando imanente em si a sociedade divina, pondo Sua Lei em seu seio e seu coração.

Portanto, o Pecado Original é o erro do líder que engana a coletividade, não se tratando de evento passado e primitivo, mas de algo que continuará a se renovar até que, em substituição aos seguidores do desobediente Adão, o obediente Jesus Cristo seja adotado como modelo de Rei e Sacerdote, Governante e Acadêmico/Cientista, e nesse sentido é possível falar em responsabilidade objetiva ou coletiva, porque a ação do governante repercute em todo o meio social. De fato, a ação de todo membro do grupo, inclusive fisicamente, causa efeitos nos demais membros da sociedade, mas o comportamento do líder, por sua posição e função pública, tem o condão de macular grandemente a vida social, quando movido por uma razão limitada, particular, em detrimento da razão total, ou holonomia, contra o Logos. O exemplo de Cristo, de outro lado, tem função e efeito salvíficos, não apenas por ele, como por seus autênticos e fiéis seguidores, que cumprem seus mandamentos, encarnando, o tanto quanto podem, o Logos em suas vidas, vivendo o realismo moral da Verdade, teológica, filosófica e científica.

O problema democrático

Como  escrevi sobre o tema, no artigo “A democracia contemporânea como falácia informal” (https://holonomia.com/2016/10/02/a-democracia-contemporanea-como-falacia-informal/):

Já dizia Platão em sua República que a democracia, como regra, descamba para a tirania/demagogia, e que a melhor forma de governo é a sofocracia, o governo dos sábios/justos, dos filósofos (o sábio é justo, como uma de suas qualidades ontológicas).”

Hoje assisti ao vídeo referente ao mesmo assunto: “POR QUE Sócrates odiava a democracia?” (https://www.youtube.com/watch?v=sGCcA1P7Dq4).

Em síntese, narra que a maior invenção da Grécia antiga, a Filosofia, tinha profundas desconfianças da Democracia, citando o exemplo de Sócrates e seu pessimismo quanto ao processo democrático, porque o critério de igualdade não é adequado para definir a melhor pessoa para o governo público, e pelo fato de a liberdade levar à insolência e à anarquia.

Um dos livros do momento é “Como as democracias morrem”, o qual ainda não li, mas que expressa a preocupação com as instituições democráticas, criticando a onda populista e de extrema-direita que se levanta na Europa.

Não se pode esquecer, contudo, que a Revolução Francesa teve a ideia democrática de conduzir o povo ao poder, tendo culminado no período do terror e, então, no império napoleônico. A alegação de defesa da população russa também conduziu ao comunismo e à matança generalizada inerente a tal regime. Isso tudo sem falar na ascensão do socialismo trabalhista na Alemanha das décadas de 20 e 30 do século passado, um movimento democrático, que chegou e se manteve no poder dentro de instituições democráticas.

No vídeo citado, é destacada a passagem do Livro VI da República de Platão, em que Sócrates compara a sociedade com um navio, explicando que o comandante do navio não pode ser qualquer um, mas alguém com conhecimento suficiente para comandar um barco. O mesmo vale para o governo do país, de modo que o voto deve ser ensinado, é uma habilidade, não pode ser exercido sem educação verdadeira, sob pena de incidir na mesma irresponsabilidade de colocar como piloto de um barco, durante uma tempestade, alguém sem conhecimento náutico.

Sócrates aduzia que quando existem problemas de saúde quem deve ser chamado é o médico, e para conduzir o navio é o piloto, sendo o médico inútil para a navegação e o piloto para a medicina. Igualmente, para o governo é apto aquele que é sábio e conhece a justiça e o bem. O conhecer, no caso, é bíblico, significando a intimidade carnal, a prática da justiça e da bondade.

Contudo, diante da permissão democrática, muitos líderes fingem os interesses do povo para manipular as massas, transformando a democracia em demagogia, pelo que afirmam Sócrates e Platão, com razão, que o mundo da autoridade deve estar subordinado às exigências racionais.

As exigências de Sócrates e Platão, outrossim, são atendidas apenas parcialmente, quando se impõe idade mínima para o exercício do direito de voto, facultado aos analfabetos, do lato ativo da capacidade eleitoral, e ao se estabelecer os casos de inelegibilidade para proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato, considerando vida pregressa do candidato, e a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso da atividade pública, como previsto pelo art. 14, §9.º, da Constituição Federal, regulamentado pela chamada Lei da Ficha Limpa.

O que vemos, contudo, é a eleição baseada na retórica vazia, no discurso em grande parte desvinculado de ações, sem que seja possível obrigar juridicamente o eleito a manter sua palavra, fato que torna comum o chamado estelionato eleitoral.

A manipulação eleitoral, de um lado, e a ignorância da população, de outro, permitem que estelionatos eleitorais se perpetuem, quando a atividade política é voltada à manutenção do próprio corpo governante, manipulando o discurso público, que é orientado em sentido diverso ao da ação política real.

Esse problema é ainda mais grave e evidente em países com a cultura pouco desenvolvida, em que a educação social e formal é muito frágil, que é o caso do Brasil, no qual a formação superior é nivelada por baixo, pois os cursos de graduação são, de fato, cada vez mais, salvo honrosas exceções, superensinos médios, colegiões.

A história política brasileira é uma sucessão de escândalos, com mensalões, sanguessugas, anões do orçamento, petrolões, malas de dinheiro, rachadinhas etc.

As suspeitas escancaradas se mostram a todos, publicamente, e os envolvidos continuam sendo votados, porque nem sempre a Lei da Ficha Limpa consegue ser aplicada, sendo naturalmente lento o processo de apuração criminal, ainda mais arrastado pela multiplicação de recursos e incidentes processuais que quase permitem a eternização dos processos. As pessoas menos instruídas, ou por interesses não republicanos, assim, elegem pessoas com práticas ignorantes, injustas e más.

Há, contudo, esperança, pois, ainda que muito lentamente, o sistema vem sendo depurado, do que a Lei da Ficha Limpa é um exemplo, e a tendência é que o tempo mostre que opções políticas e ideológicas equivocadas são desastrosas a médio e longo prazo, o que vale para o plano econômico.

Falando sobre a última recessão nacional, um comentarista econômico, cujo nome agora me escapa, afirmava que o Brasil sob o último governo que sofreu impeachment era um ônibus sem freio descendo a ribanceira rumo ao precipício, e a ação governamental foi… pisar no acelerador… Por essa, e por outras, a liderança política foi saída antes que o desastre aumentasse e se transformasse em uma catástrofe ainda maior.

Assim, os problemas de agora também passarão, mesmo que seja possível, e provável, que as coisas ainda piorem muito antes de as nuvens da escuridão e da ignorância se dissiparem, mas talvez seja, enfim, o grande momento de redirecionamento da humanidade, quando a ideia platônico-socrática se realizar como profecia judaico-cristã cumprida, na vinda do Reino de Deus, no tempo em que os justos, os sábios, os reis e sacerdotes de Cristo, finalmente, reinarão, quando este for reconhecido como “Cabeça de todo Principado e de toda Autoridade” (Cl 2, 10), “pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13, 1).

Portanto, democracia ou não, a despeito de as coisas continuarem a piorar, com as catástrofes e medo generalizado de um mundo despedaçado, nem que seja por instinto de sobrevivência, a força do Espírito prevalecerá: “Quando começarem a acontecer essas coisas, erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação” (Lc 21, 28).

A ideologia da OMS

Na semana que passou, estava lendo o artigo “Qual o valor jurídico das recomendações da Organização Mundial da Saúde?” (https://www.conjur.com.br/2020-abr-14/opiniao-qual-valor-juridico-recomendacoes-oms), em que é destacada a Constituição da Organização Mundial de Saúde – OMS, quando constatei, mais uma vez, o engodo ideológico que domina mundo científico e acadêmico, com inevitável repercussão nas esferas política e jurídica.

A referida Constituição passou a integrar o ordenamento jurídico nacional por meio do Decreto n.º 26.042, de 1948, constando de seu preâmbulo (https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1940-1949/decreto-26042-17-dezembro-1948-455751-publicacaooriginal-1-pe.html):

A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e nao apenas a ausência de doença ou enfermidade ( * ).

O gôzo do melhor estado de saúde que lhe seja possível atingir, constitui um dos direitos fundamentais de todo ser humano, sejam quais forem sua raça, sua religião, suas opiniões políticas, sua condição econômica ou social. (…)

A extensão a todos os povos dos benefícios decorrentes do conhecimento das ciências médicas, psicológicas e ciências afins é essencial para lograr-se o mais alto grau de saúde.

Uma opinião pública esclarecida e uma cooperação ativa por parte do público, são de uma importância capital para o melhoramento da saúde dos povos.

Os Govêrnos são responsáveis pela saúde de seus povos; êles só poderão desincumbir-se dêsse encargo tamanho as medidas sanitárias e sociais apropriadas.

( * ) A palavra “ENFERMIDADE” é empregada, aqui, na acepção que a medicina lhe empresta para traduzir, na expressão, de Littréee, ” aquêles casos em que o indivíduo, com ou sem desordem apreciável da disposição material do corpo, não possui esta ou aquela função ou a possui de maneira imperfeita ou irregular”.”

Já o artigo 1.º da Constituição da OMS tem o seguinte teor:

O Objetivo da ‘Organização Mundial de Saúde’ (aqui doravante denominada Organização), é conduzir todos os povos ao nível de saúde mais elevado possível.”

Daí, a indagação óbvia é sobre o significado de estado de completo bem-estar físico, mental e social; melhor estado de saúde que seja possível atingir; e conhecimento das ciências médicas, psicológicas e ciências afins.

Essas definições dependem não de conceitos científicos em sentido estrito, mas de cosmovisões, entendimentos filosóficos sobre a origem humana, seu sentido histórico, enfim, sobre a natureza humana, o que, repita-se, a ciência atual não é capaz de responder, sendo tais pontos dependentes de uma opção teológica, filosófica, existencial, decorrente do que se pode chamar livre-arbítrio, ou seja, a escolha arbitrária sobre qual a origem do mundo, da vida, do ser humano.

Vale dizer, a ciência não sabe explicar a origem do universo, não decifrou a origem da vida e do ser humano, não compreende o que seja a consciência, sendo que a própria teoria da evolução é uma hipótese com vários buracos interpretativos, pelo que dizer que houve, desde o início da vida (fenômeno não compreendido cientificamente), evolução das espécies de forma cega, ou seja, aleatória e sem direção, e por tentativa e erro, é uma hipótese baseada em um claro ato de FÉ materialista.

No artigo “Homo humanorum” (https://holonomia.com/2018/10/31/homo-humanorum/), faço referência ao texto “Os Matemáticos da Evolução”, de Josiney A. Souza, concluindo que:

As linhas gerais do citado artigo, segundo as teses dos matemáticos, são no sentido de que a evolução não é plenamente explicada pela teoria de Darwin, não podendo ser entendida como um processo cego ou aleatório, e sem inteligência, pois não houve tempo cósmico bastante para tanto, não sendo o (neo)darwinismo suficiente para a compreensão da complexidade da vida”.

Portanto, no plano das ciências biológicas, a complexidade da vida não é explicada em termos estritamente materialistas, o que repercute diretamente nos conceitos de estado de completo bem-estar físico, mental e social e de melhor estado de saúde que seja possível atingir.

No plano psicológico também há a vertente materialista, que passou a ser adotada pela OMS, como se nota no caso dos transgêneros. Extrai-se da página das Nações Unidas no Brasil:

Segundo a especialista, a alteração aconteceu porque a agência de saúde da ONU teve um ‘melhor entendimento de que isto não é realmente um problema de saúde mental’. A decisão reflete avanços críticos na ciência e na medicina.

Para Lale, a reclassificação vai reduzir o estigma, ao mesmo tempo em que garantirá o acesso a intervenções de saúde necessárias.

A incongruência de gênero pode ser descrita como um sentimento de angústia vivenciado quando a identidade de uma pessoa entra em conflito com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento.” (https://nacoesunidas.org/oms-retira-a-transexualidade-da-lista-de-doencas-mentais/)

De minha perspectiva, fazer com que a pessoa com “incongruência de gênero” se submeta a uma mutilação corporal grotesca, ou estimular essa ideia, não é promover o completo bem-estar físico, mental e social ou o melhor estado de saúde que seja possível atingir, não corresponde à busca do nível de saúde mais elevado possível. Para Freud, talvez o melhor estado de saúde mental possível seja o filho poder fazer sexo com a mãe e a filha com o pai, e possivelmente hoje seria do pai com o filho e da mãe com a filha, o sexo sem amarras morais, do que discordo veementemente.

Penso que a ética Cristã, que ainda fundava a cosmovisão da época da Constituição da OMS, continua sendo o que melhor representa o melhor estado de saúde e o nível de saúde mais elevado possível.

Repito, aqui, o que constou no artigo “Domínio do inconsciente” (https://holonomia.com/2019/01/15/dominio-do-inconsciente/), citando o trabalho do psicólogo Erich Neumann, no livro “História da Origem da Consciência”:

“‘Também nas neuroses, como nas perversões e na homossexualidade – todas pertencentes ao mesmo nível –, o desenvolvimento do ego e da consciência é incompleto e o domínio do inconsciente continua, isto é, em nenhum desses casos foi atingido o estágio da luta heroica’ (Idem, p. 223).

Em seguida Neumann arremata dizendo que tal situação psicológica do indivíduo deve ‘ser considerada um desenvolvimento defeituoso’”.

A mudança que ocorreu desde que Neumann escreveu seu texto reflete muito mais uma alteração ideológica, contrariando aquela que levou à Constituição da OMS e em favor do materialismo e da visão freudiana de mundo, do que propriamente científica, ainda que o argumento seja falsamente tratado como estritamente científico”, uma vez que não existe ciência neutra.

A atuação ideológica da OMS permanece durante a atual Pandemia, não tanto pela orientação de isolamento, que, por ora, é medida de precaução para preservação de vidas, que deve ser adotada com maior ou menor rigor dependendo das condições de cada localidade, dos níveis de propagação da doença e de adesão da comunidade a medidas de prevenção do contágio.

Mas a leniência com a China, que errou muito no início da Pandemia, a demora em reconhecer a situação de emergência internacional, que foi pautada não por critérios técnicos imediatos, mas depois de se combinar com os chineses a forma pela qual seria feita a declaração, e agora a ausência de manifestação crítica sobre a “recontagem” que elevou o número de mortos na China em 50% (cinquenta por cento) demonstram claramente que a OMS não tem uma posição estritamente neutra e científica, e sim manifesta ações de cunho evidentemente ideológico, de natureza materialista e, portanto, contrária à Constituição da OMS.

Quantas mortes poderiam ter sido evitadas por uma postura mais incisiva da OMS desde as primeiras notícias da doença na China? Provavelmente muitas, talvez milhares.

Penso, assim, que a OMS não vem respeitando sua Constituição, porque suas ações não proporcionam o melhor estado de saúde que é possível atingir e não conduzem todos os povos ao nível de saúde mais elevado possível.

Jesus de Nazaré continua representando o estado de completo bem-estar físico, mental e social, o melhor estado de saúde que é possível atingir, pois de seu corpo, suas palavras e ações ainda é irradiada saúde física, mental e social, direta e indiretamente, o que é o caso dos hospitais e universidades, criados por seus seguidores, em cumprimento de seus mandamentos.

O que se espera é que, ao final dessa avalanche pela qual passamos e continuaremos a viver, seja rejeitada a má ideologia que tem desorientado as decisões da OMS, restabelecendo-se os seus princípios fundadores, com a observância da visão de mundo, da teologia, da postura existencial que subjaz à sua Constituição.

Heteronomia, autonomia e holonomia – A logocracia

O nome do sítio, holonomia, como noticiado na página das informações (Sobre), está associado à proposta do físico e filósofo David Bohm, à ideia de uma totalidade física indivisível, ligada ao âmbito da formação teórica do referido autor, Ph.D. em Física pela Universidade da Califórnia, de modo que holonomia é lei do holomovimento, a lei do todo, também uma lei de razão, de lógica, do Logos.

O conceito físico, contudo, pode ser ampliado para o aspecto teológico, e também filosófico e político, pensamento que o próprio David Bohm chegou a desenvolver em seus livros, pela aplicação à vida em geral, e à moralidade, cujas normas podem ser heteronômicas ou autonômicas, isto é, quando a regra de conduta é estabelecida de fora, pelo outro, ou ditada pela própria pessoa.

Segundo Kant, a “autonomia é, pois, o fundamento da dignidade da natureza humana e de toda a natureza racional” (Immanuel Kant. Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos. Tradução Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 66), significando, para o autor, a escolha que pode ser adotada como lei universal, dizendo que a heteronomia da vontade é a fonte dos princípios ilegítimos de moralidade.

Já na Crítica da Razão Prática, Kant coloca a existência de Deus como postulado da razão pura prática, sustentando que a doutrina do cristianismo apresenta um conceito do “sumo bem (do reino de Deus), que é o único que satisfaz à mais rigorosa exigência da razão prática. A lei moral é santa (inflexível) e exige a santidade dos costumes, (…) por conseguinte, em relação à santidade exigida pela lei cristã, nada mais resta à criatura que um progresso ao infinito, mas justamente por isso justifica a esperança de sua continuidade, que vai ao infinito” (Immanuel Kant. Crítica da Razão Prática. Tradução Rodolfo Schaefer. São Paulo: Martin Claret, 2004, 137/138).

A autonomia em Kant, portanto, não é a mera vontade da pessoa, mas a vontade conforme a lei universal, associada a uma visão Cristã de mundo, da qual decorre sua ideia de dignidade humana. Desse modo, é possível entender a autonomia de Kant, porque fundada na racionalidade e na universalidade, conceitualmente, como correspondente à holonomia, quando a lei moral individual não é ligada a qualquer moralidade, com qualquer fundamento para as regras comportamentais, mas está vinculada à moralidade infinita, santa, à ideia de ética, entendida como ciência da moralidade, da razão moral universal, que supera os conceitos de todas as moralidades particulares.

Lendo “O juízo moral na criança”, de Piaget, ainda que a leitura não tenha sido encerrada, é possível compreender uma evolução da compreensão da regra moral que é encontrada no desenvolvimento da criança, mas que também é aplicável historicamente à própria moralidade humana.

Nas crianças, a primeira consciência das regras está associada à ideia de sagrado, à sua imutabilidade, que participa da autoridade paterna.

No tocante às regras morais, a criança intencionalmente se submete, mais ou menos por completo, às regras prescritas. Mas estas, permanecendo, de qualquer forma, exteriores à consciência do indivíduo, não transformam verdadeiramente seu comportamento” (Jean Piaget. O juízo moral na criança. Tradução Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994, p. 58).

A fonte das normas, sendo externa, implica a submissão do indivíduo a elas, o que corresponde à heteronomia moral. Contudo, a partir dos dez anos, em média, a consciência da criança a respeito das regras se transforma:

À heteronomia sucede a autonomia: a regra do jogo se apresenta à criança não mais como uma lei exterior, sagrada, enquanto imposta pelos adultos, mas como o resultado de uma livre decisão, e como digna de respeito na medida em que é mutuamente consentida”, afirmando, ainda, que “a democracia sucede à teocracia e à gerontocracia: não há mais delitos de opinião, apenas de procedimento” (Idem, p. 60).

Piaget relata que primeiro ocorre um respeito unilateral à autoridade paterna, do que decorre a regra coercitiva de comportamento, associada à heteronomia, mas, com o amadurecimento, ocorre mutação do estado de consciência, quando as representações coletivas passam a dar lugar à discussão das regras, prevalecendo um respeito recíproco vinculado à noção de cooperação. De todo modo, seja quanto à coação pura, o respeito puramente unilateral, ou em relação ao respeito mútuo, a cooperação, nunca há o domínio absoluto de um ou outro, existindo uma descontinuidade ou gradação entre eles.

Da cooperação decorre a regra racional. “A harmonia é encontrada pela união do racional e da natureza, enquanto a coação moral e o respeito unilateral opõem uma sobrenatureza à natureza e uma mística à experiência lógica”; afirmando, enfim, que ainda que seus estudos decorram de análise de jogo de bolinhas, para crianças, tal conclusão vale para a “história das religiões e das formas de governo” (Idem, p. 86).

Deve-se salientar, entretanto, assim como Kant, que Piaget também tinha uma visão de mundo Cristã, pelo que é cabível uma leitura complementar de seu trabalho, segundo o Cristianismo.

Portanto, o governo humano passou da noção heteronômica para a autonômica, da teocracia para a democracia. É de ser desconsiderada, no caso, a democracia grega, que era muito incipiente, porque dela excluída a maioria absoluta da população, sendo a sociedade mantida pelo trabalho escravo ou servil. De todo modo, da união das ideias gregas e Cristãs surgiram os fundamentos da democracia moderna, baseada em fraternidade, liberdade e igualdade, consumando-se no constitucionalismo moderno.

Mas se a teocracia era unilateral e vertical, a democracia, com seu consensualismo e horizontalidade, deteriorou-se em um relativismo moral, em que a dignidade humana se distanciou na noção de santidade e de progresso ao infinito, como apontado por Kant, e passou a aceitar comportamentos puramente materiais, egoístas e limitados como dotados de “dignidade”, o que vale para questões sexuais e para os excessos alimentares e de consumo, contrariando a proposta de busca da santidade.

Outrossim, é mister o resgate da dimensão vertical da vida, da meritocracia moral, do conceito de sumo bem, de santidade, que são a fonte da noção de dignidade humana, decorrente da ideia de filiação divina, pelo fato de a humanidade possuir natureza divina, ser da raça de Deus, para avançarmos para a logocracia, o governo do Logos. Há que se recuperar a ideia de que a autoridade paterna é acompanhada de amor paterno, bem como a noção da experiência acumulada ao longo do tempo, e da sabedoria dela decorrente, que pode ser vista pela consciência imatura como heteronomia, quando é, na realidade, expressão de uma razão superior, de um Logos ainda não experimentado pela criança, com características de imutabilidade e eternidade, a inteligência presente desde o princípio, cuja simplicidade tem uma aparência de complexidade e irracionalidade quando não compreendida em seu movimento de se manter una, de se manter imóvel.

A cosmologia narra uma ideia de evolução, o mesmo se aplicando à biologia, pelo que também em termos morais podem-se compreender noções superiores e inferiores de moralidade. Se a própria evolução biológica está associada à diferenciação sexual e funcional dos órgãos no ser vivo, anular ou ignorar a distinção sexual, por exemplo, é uma regressão comportamental, como o é não conferir maior merecimento às pessoas que exercem posições governamentais e simbólicas especiais, pela função social quando bem exercida, pelo que existem, sim, atividades mais e menos nobres, sem desconsiderar a importância social de todo trabalho humano bem feito. Nesses tempos de pandemia, por exemplo, pode-se distinguir com mais clareza aquilo de que mais precisamos e dependemos e as coisas que podemos dispensar, às vezes definitivamente, para viver bem, em simplicidade essencial.

Por isso, é indispensável, para a melhoria da vida humana, reconsiderar o entendimento sobre o significado da democracia moderna, restaurando sua linha evolutiva e sua base filosófica, notadamente quanto ao seu fundamento, a dignidade humana, associada a um entendimento espiritual, da busca infinita da santidade, de modo que a evolução moral conduza ao governo humano pautado pela ideia holonômica, cósmica, para que a humanidade, finalmente, seja conduzida pelo Logos, na logocracia, reconhecendo, então, o mérito moral máximo de Jesus Cristo:

Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro; como uma ovelha que permanece muda na presença dos seus tosquiadores ele não abriu a boca. Após detenção e julgamento, foi preso. Dentre os seus contemporâneos, quem se preocupou com o fato de ter ele sido cortado da terra dos vivos, de ter sido ferido pela transgressão do seu povo?” (Is 53, 7-8).

A hermenêutica teológica demonstra, de outro lado, que sua atuação foi em favor não apenas do seu povo, que o rejeitou, mas de toda humanidade.

Se entre seus contemporâneos o Messias não foi reconhecido, ainda é tempo de aceitá-lo como símbolo de bondade e justiça, seguindo seus mandamentos na busca do sumo bem, da única ética, em sua holonomia, que inclui pensamentos, palavras e ações, com reflexos no próprio mundo natural, porque a ação ética produz a harmonia decorrente da união do racional e da natureza, na teocracia cooperativa de respeito mútuo, ou logocracia:

Procurai a Iahweh enquanto pode ser achado, invocai-o enquanto está perto. Abandone o ímpio o seu caminho, e o homem mau os seus pensamentos, e volte para Iahweh, pois terá compaixão dele, e para o nosso Deus, porque é rico em perdão. Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos, oráculo de Iahweh. Quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos. Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, dando semente ao semeador e pão ao que come, tal ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não torna a mim sem fruto; antes, ela cumpre a minha vontade e assegura o êxito da missão para a qual a enviei. Haveis de sair com alegria e em paz sereis reconduzidos. Na vossa presença, montes e outeiros romperão em canto, e todas as árvores do campo baterão palmas. Em lugar do espinheiro crescerá o zimbro, em lugar da urtiga crescerá o mirto; isto trará renome a Iahweh e um sinal eterno, que nunca será extirpado” (Is 55, 6-12).